João 23

Papa Francisco: dos gestos aos fatos

Dom Demétrio Valentini

Com sua posse solene, a 19 de março, o Papa Francisco inicia a caminhada do seu pontificado. Caminho que desde o primeiro momento, na sacada da basílica, ele propôs de realizar junto com o povo, de quem pediu a bênção.

O início não podia ser melhor. Sua eleição foi inesperada. E todos de imediato a acolheram com entusiasmo e alegria. Tanto que se tornou um fenômeno na mídia mundial, que continua reservando a ele manchetes nas primeiras páginas.

A figura do Papa Francisco emergiu de repente, vindo sem dúvida preencher um vazio de grandes personalidades no cenário mundial, de que padecemos hoje.

Mas ele fez por merecer esta pronta adesão de todos os que se perguntavam pelo Papa que iríamos ter. Soube transmitir suas mensagens através de gestos, que nestas circunstâncias são percebidos de maneira mais clara e eficaz.

A começar pelo nome que escolheu. Ele evoca um leque muito amplo, de valores humanos e cristãos, que fazem parte da biografia de São Francisco, e que agora servem de referência para pensarmos o que o novo Papa poderá desencadear.

Outros gestos também tocaram de cheio a sensibilidade do povo, que espera um Papa humano, que suscite e incentive um clima de compreensão e de fraternidade, capaz de romper com o crescente distanciamento da Igreja com os problemas da humanidade de hoje.

Dá para dizer que o Papa Francisco está seguindo as pegadas de João 23. Daquela vez, o Papa foi despertando uma admiração crescente, sobretudo pelos gestos de bondade que ia fazendo. E não demorou muito para transferir a simpatia, de sua pessoa para a sua proposta, de um concílio ecumênico para renovar a Igreja.

Assim, o entusiasmo pelo Papa passou para o entusiasmo com o concílio. De tal modo que o apoio do povo foi decisivo para desencadear um surpreendente processo de mudanças e de renovação cristã e eclesial.

A questão que se coloca agora é saber até que ponto este novo entusiasmo por um Papa que captou a benevolência do povo pode se tornar em novo impulso de renovação eclesial.

A esperança é exatamente esta. A renúncia de Bento 16, e a eleição do Papa Francisco parecem ter criado um clima muito propício para desencadear um novo processo de renovação eclesial, retomando as propostas do Vaticano II, que receberiam um novo impulso, dentro do clima favorável, de diálogo e de abertura, já sinalizados pelo Papa Francisco.

Claro que se levantam algumas questões muito pertinentes, que nos fazem pensar na viabilidade prática desta retomada do Concílio. No tempo de João 23, o processo de renovação eclesial entusiasmou a todos, quase não encontrando nenhuma resistência.

Agora, quem iria sustentar este apoio, e como seria possível articulá-lo, para que encontre eco nas instâncias de decisão eclesial?

Mas o fato positivo é este: parecem recriadas as condições de um novo período de renovação eclesial, no clima favorável de caridade fraterna, de abertura e de compreensão, de que todos estão sedentos.

Em todo o caso, estaremos atentos a todos os sinais de convocação, que vierem da parte de nosso Papa Francisco. Pois não podemos desperdiçar um momento de graça tão forte e evidente como este que Deus suscitou com a eleição do nosso Papa Francisco.

“Vereis coisas maiores do que estas”, falou Jesus aos seus discípulos. Se os gestos do Papa Francisco já nos entusiasmaram, muito mais vamos traduzir o entusiasmo pelo Papa que temos, com as decisões que ele tomar, e para as quais necessitar de nosso apoio.

Então, os gestos de hoje, serão os fatos de amanhã.

A igreja das catacumbas

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Neste ano em que se celebra o centenário de Dom Helder Camara, muitas lembranças e recordações do grande Dom, que foi um dos presentes maiores de Deus à Igreja do Brasil têm sido desentranhados e trazidos à luz novamente. Limpos da poeira do esquecimento por nossa às vezes curta e ingrata memória, brilham como estrelas de primeira grandeza realimentando nossa vida espiritual e nossa capacidade ética.

Talvez um dos mais importantes seja a revisita do chamado Pacto das Catacumbas. No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio Vaticano II, cerca de 40 Padres Conciliares celebraram uma Eucaristia nas catacumbas de Domitila, em Roma, pedindo fidelidade ao Espírito de Jesus. Após essa celebração, firmaram o “Pacto das Catacumbas” .

O documento é um desafio aos “irmãos no Episcopado” – aos bispos presentes, portanto, – a levarem uma “vida de pobreza”, a construir uma Igreja que se queria “servidora e pobre”, como sugeriu o papa João XXIII. Os signatários – dentre eles, muitos brasileiros e latino-americanos, sendo que mais tarde outros também se uniram ao pacto – se comprometiam a viver na pobreza, a rejeitar todos os símbolos ou os privilégios do poder e a colocar os pobres no centro do seu ministério pastoral.

O texto teve forte influência sobre a Teologia da Libertação, que despontaria e floresceria nos anos seguintes. Um dos signatários, propositores e mesmo articuladores do Pacto foi Dom Hélder Câmara.

O belo texto do Pacto é altamente inspirador para toda a Igreja hoje como ontem. Aqui o transcrevemos do livro “Concílio Vaticano II”, Vol. V, Quarta Sessão (Vozes, 1966), organizado por Dom Boaventura Kloppenburg, pp. 526-528.

PACTO DAS CATACUMBAS DA IGREJA SERVA E POBRE

Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.

3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor…). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.

7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese.

Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.

9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de “beneficência” em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.

10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral – dois terços da humanidade – comprometemo-nos:

• a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;

• a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.

12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:

• esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida” com eles;

• suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;

• procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores…;

• mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10.

13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.

AJUDE-NOS DEUS A SERMOS FIÉIS. Com essas humildes e fervorosas palavras terminavam os bispos seu pacto. Elas precediam suas assinaturas. Que a mesma prece habite nosso coração e que o pacto das catacumbas, devidamente adaptado a nosso estado de vida, quer sejamos leigos, religiosos ou clérigos, possa ser o norte de nossas vidas.

Sinais dos Tempos

Dom Demétrio Valentini
A primeira advertência de Cristo, ao começar sua pregação, se referia ao tempo. “Completou-se o tempo”, dizia ele. Depois de realizar, por sua conta, diversos sinais, continuava insistindo na necessidade de “interpretar os sinais dos tempos”.

A expressão faz lembrar João 23. Ele a usava com freqüência. Otimista, pressentia que estava próxima uma nova primavera para a Igreja. Os sinais eram favoráveis, os ventos sopravam na mesma direção. O tempo era oportuno.

Ele mesmo foi um sinal de Deus. Com sua presença, com sua simplicidade, com sua bondade, com sua coragem de convocar um concílio com sua idade avançada, imprimia otimismo e transformava em sinais positivos até os problemas que a realidade apresentava.

Passados 50 anos, parece que os tempos mudaram. Já não existe aquele clima convergente, de esperança, de otimismo com o futuro da Igreja, de vontade de viver com autenticidade os valores do Evangelho.

Foi impressionante como João 23, em poucos meses, conseguiu contagiar de entusiasmo a todos, tanto a Igreja como a sociedade do seu tempo.

Começou com a surpresa de sua eleição, na idade de 77 anos, e com a expectativa logo criada de um “papa de transição”. Seu gesto de visitar as crianças doentes no hospital no natal de 1958, seguido da visita aos presos de Roma no mesmo dia, granjeou a simpatia e o entusiasmo de todo o povo. Esta simpatia feita de bondade, criou o ambiente favorável para a pronta adesão à idéia de um concílio ecumênico para renovar a Igreja e reconciliá-la com o mundo atual. De “papa de transição”, passou a “papa da transição”.

Agora, parece haver uma dispersão de apelos, e uma pesada inércia para enfrentar os problemas.

Crescem as resistências dentro da própria Igreja diante do projeto de renovação conciliar. No mundo, alguns problemas tomam forma dramática, como o aumento do número de famintos, mas a situação é vista como se fosse uma fatalidade diante da qual nos sentimos impotentes.

São estes os nossos tempos. Mas João 23 continua nos incentivando a ver o lado positivo da realidade. Ele continua nos pedindo para interpretar com esperança os sinais dos tempos.

A Diocese de Jales, em todo o caso, se sente especialmente ligada a João 23. Foi ele que assinou o decreto de sua criação, logo no início do seu pontificado.

De maneira especial, sentimos o compromisso de sustentar com firmeza a proposta de renovação eclesial que o concílio delineou com sólidos fundamentos e com indicações práticas.

A Diocese está prestes de celebrar o seu “ano jubilar”, para comemorar os 50 anos de sua existência. Ela percebe que agora já não é mais suficiente o entusiasmo fácil dos tempos do concílio. As resistências se cristalizaram, em diversos nichos. Para levar adiante o projeto conciliar é preciso um plano bem pensado e articulado. É o que a Diocese espera fazer, incentivada pela memória dos seus inícios, vividos com intensidade sob a inspiração do Papa João 23.

Foi ele que pediu aos bispos do Brasil um “plano de emergência” para a evangelização do povo brasileiro, na primeira sessão do concílio, em 1962. Agora, a maneira de administrar os ventos, que continuam soprando, é implementar um bom plano diocesano de pastoral. Assim será possível fazer da Igreja Local, da Diocese, a referência positiva, e indispensável, para todos os que querem ser Igreja e participar de sua vida e de sua missão.

Sabedoria da História

Dom Demétrio Valentini

Para a Diocese de Jales, o mês de agosto é propício para recordar a história, e continuar tirando as lições que ela nos dá. Ainda mais neste ano, em que a Diocese se aproxima do jubileu de ouro de sua criação.

Permanece válido o provérbio latino, que demonstra o apreço pela história que os antigos já tinham. “Historia est magistra vitae” – “A história é mestra da vida”.

E é mesmo. Basta estarmos atentos ao simbolismo de fatos e datas da história da Diocese, para deduzir alguns recados muito claros, e muito salutares.

A começar, por exemplo, pela data da criação da Diocese de Jales. Ela foi criada pelo Papa João 23, no dia 12 de dezembro, no ano de 1959.

Pareceriam todas referências inexpressivas, se olhadas sem a dimensão histórica. Mas se articuladas entre si pela dinâmica da história, acabam expressando uma mensagem clara e convergente.

A começar, então, pelo dia 12 de dezembro. É o dia dedicado a Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina. Criada neste dia, é claro que a diocese se sente, desde o berço, chamada a assumir as feições da Igreja da América Latina, com o peso que esta identificação apresenta com muita evidência. Bem que poderiam ter colocado outra data para o Papa assinar o decreto. Mas foi escolhida esta, com evidente marca eclesial. Depende agora da diocese valorizar a carga simbólica sugerida por esta data.

Outra referência é o ano da criação da Diocese. Foi em 1959. Também ele poderia passar em branco, se lido em desconexão com a história. Mas se queremos situar este ano de 1959 no contexto da Igreja em nosso tempo, salta aos olhos um acontecimento de todo singular, vivido pela Igreja em 1959. Foi naquele ano que o Papa João 23 surpreendeu o mundo com o anúncio da convocação de um Concílio, para renovar a Igreja, reencontrar seus fundamentos evangélicos, e atualizar sua linguagem e sua fisionomia aos tempos atuais.

Pois bem, uma diocese criada no ano do anúncio do concílio, pode muito bem evocar este episódio para fortalecer sua opção pastoral fundada nas propostas de renovação eclesial do Concílio, que suscitaram um intenso processo que ainda continua e precisa ser levado adiante. Isto supõe persistência e discernimento, que encontram sólido fundamento no Concílio Vaticano II.

Aí chegamos à figura do Papa João 23. É certamente motivo de honra para uma diocese ter sido criada por decreto assinado por este Papa, que marcou a história da Igreja de maneira tão profunda.

Em João 23 encontramos muitas virtudes que podem servir de referência para a caminhada pastoral da diocese. A começar pela sua abertura e docilidade ao Espírito, que explica a coragem que ele teve de convocar um concílio que iria mexer profundamente com a postura pastoral da Igreja, suscitando reações que ele soube contornar de maneira extraordinária, sabendo se antecipar a elas e desfazê-las antes que tomassem corpo, como aconteceu com a indiferença inicial de alguns cardeais que julgavam imprudente convocar um concílio com estas propostas amplas e corajosas de renovação eclesial.

Quantas lições a aprender. Quantos recados oportunos a história nos oferece, com a credibilidade de sua experiência e com a força dos fatos que ela registra.

Que João 23 abençoe agora a diocese, que ele criou no início do seu pontificado. Ele merece uma estátua, a assinalar o jubileu de ouro da Diocese de Jales.

50 anos de João 23

Dom Demétrio Valentini *

O ano de 2008 traz muitas evocações históricas. Neste início de novembro recordamos mais uma. No dia 04 se completam 50 anos da posse do papa João 23.

Já tinha sido uma surpresa a sua eleição, concluída no dia 28 de outubro de 1958, depois de vários dias de fumaça preta, indicando a dificuldade do conclave em escolher o substituto de Pio XII. Eleito o Cardeal Ângelo Roncalli, o novo papa propôs sua posse para o dia 04 de novembro, uma terça-feira.

Na época ninguém deu importância a este capricho de João 23, de tomar posse num dia de semana, numa terça-feira, na festa de S. Carlos Borromeu. Depois, com a convocação do Concílio, se começou a desvendar o enigma, que ajuda a compreender por que seu pontificado foi tão fecundo e tão eficaz. O novo papa, que parecia um simples bonachão, entendia muito bem de história, e tinha um apurado senso das estratégias a seguir para plantar fatos que fazem andar a história.

Acontece que João 23 tinha sido professor de história da Igreja, e tinha estudado particularmente a vida e a obra de S.Carlos Borromeu, bispo que tinha se dedicado a implementar o Concílio de Trento, no século 16. João 23 entendia de concílios. E ele intuiu que estava na hora de fazer mais um. Mas para fazê-lo, era preciso agir com estratégia. Foi o que ele fez, desde o momento de sua posse.

Passados 50 anos, emerge agora com mais evidência a lucidez de João 23, e a sua agilidade em viabilizar seus planos. É comum atribuir a uma inspiração de Deus o anúncio do concílio, feito pelo novo papa no dia 25 de janeiro de 1959, três meses depois de eleito. É verdade. Mas a inspiração de Deus, como sempre, passa por mediações humanas. Desta vez a mediação foi um papa simples, bondoso, tradicional, mas muito esperto. Soube se antecipar às resistências, criando um fato consumado, e desencadeando um processo que ninguém mais ousaria deter. Foi assim que nasceu o Concílio Vaticano II.

De fato, ainda na fase de fixação de sua imagem de papa, João 23 foi convidado a concluir, na Basílica de São Paulo, a semana de orações pela unidade dos cristãos. Ele intuiu que era a oportunidade de traçar as linhas mestras do seu pontificado. Mas não quis se dirigir só ao seleto grupo de cardeais que com ele estariam na basílica. Antes de falar aos cardeais, colocou ao alcance dos jornalistas a informação sobre os planos que anunciaria. De tal modo que, concluída a celebração, enquanto os cardeais ainda se refaziam da surpresa, a notícia de um novo concílio já estava percorrendo o mundo. E ninguém mais iria detê-la.

Sabe-se agora que Pio XII também tinha pensado em convocar um concílio. E tinha nomeado, secretamente, uma comissão para analisar sua oportunidade. Passaram-se os anos, morreu o Papa, e o concílio nem foi mencionado.

Mas João 23 fez diferente. Aproveitou um momento simbólico, e abriu o jogo. Suscitou a dinâmica que desde o tempo dos apóstolos vem conduzindo os passos da Igreja. O Espírito vai à frente de nossas decisões, e mostra na realidade os rumos que a Igreja precisa seguir. Assim aconteceu com João 23. Na adesão entusiasta à sua proposta de um novo concílio, todos puderam perceber que se tratava de uma iniciativa que contava com a graça de Deus.

A memória dos 50 anos do pontificado de João 23, e a lembrança do seu desembaraço em integrar iniciativas humanas com inspirações divinas, nos coloca o sério desafio de perceber os sinais dos tempos, para neles inserir nossa ação humana, com estratégias adequadas para sua eficácia. Sobretudo para aplicar agora as decisões deste Concílio que João 23 soube tão bem desencadear. Para que não aconteça de serem abortados os planos de Deus por causa de nossa imperícia humana, deixando que as resistências sufoquem a renovação eclesial proposta pelo Vaticano II.

* Bispo de Jales, São Paulo.