Paulo VI

Sob o signo de Francisco

Dom Demétrio Valentini

Foi muito movimentada a semana. Os oito cardeais, membros do agora “conselho permanente” do Papa, se reuniram com ele durante três dias. Em seguida, o Papa Francisco se sentiu na obrigação de visitar Assis, a terra do primeiro Francisco. E precedendo a estes episódios todos, saiu a nova entrevista, desta vez concedida a um ateu professo, diretor do jornal italiano La Repubblica.Diante deste contexto, parece clara a advertência do Evangelho sobre os “sinais dos tempos”. Se somos capazes de pressentir a chuva, como não perceber que em Roma está se armando um tempo, sujeito a relâmpagos e trovoadas, prometendo bem mais que uma chuva passageira.

Pelos sinais emitidos, aos poucos o Papa Francisco, com firmeza e convicção, vai direcionando suas propostas de mudanças, que prometem ser urgentes e amplas. A começar pela decisão de dar perenidade ao “conselho de consultores”. Antes de sua primeira reunião, este “Conselho” foi elevado à categoria de órgão permanente, com a finalidade de assessorar o Papa no governo da Igreja.

Para entender o alcance desta medida, é bom relacioná-la com o tempo de Paulo VI, logo após o Concílio. Eram insistentes as recomendações, no sentido de que o Papa criasse um “conselho de cardeais”, para ajudá-lo a implementar as orientações do Concílio. Mas Paulo VI, por sua natural timidez, não criou este “conselho”. Agora o Papa Francisco, por clara decisão tomada e publicada nestes dias, criou esta nova instância do governo eclesial, dando-lhe caráter definitivo, com possibilidade de agregar outras incumbências, e com o número dos seus componentes podendo ser adaptado de acordo com as circunstâncias.

Com isto, o Papa Francisco tem agora o instrumento para acionar as iniciativas que ele julgar oportunas. Algumas delas, de certa maneira, já foram confidenciadas. Entre elas, sua disposição de abrir o diálogo com a modernidade. Era a grande intenção do Concílio Vaticano II. Cinqüenta anos depois, esta disposição parece tomar forma concreta. Assim se expressa o Papa, de maneira clara e incisiva, diante de um interlocutor ateu:

“Os padres conciliares sabiam que abrir-se à cultura moderna significava ecumenismo religioso e diálogo com os não-crentes. Desde então foi feito muito pouco nesta direção. Tenho a humildade e a ambição de querer fazê-lo”. Portanto, ele decidiu levar em frente o Concílio, que permanece referência indiscutível para a Igreja em nosso tempo.

Outra grande empreitada do Papa é abrir a Igreja para que ela perceba os problemas da humanidade, e os assuma de maneira solidária. Depois de comentar a situação em que vivem hoje os jovens, sem trabalho e sem futuro, e o abandono em que se encontram as pessoas idosas, ele afirma claramente que este problema precisa ser assumido pela Igreja: “Isto é o problema mais urgente que a Igreja tem pela frente.”

Portanto, o Papa quer uma Igreja aberta aos problemas que hoje a humanidade enfrenta. Esta decisão do Papa leva a outra, agora definida claramente. Diz respeito à Cúria Romana. Reconhecendo seus muitos valores, aponta o problema principal de que ela padece. No dizer do Papa, a Cúria Romana é muito “vaticano-cêntrica”… “vê e cuida dos interesses do Vaticano…e descuida do mundo que nos circunda”. É uma análise pesada que o Papa faz da Cúria Romana. Diante disto, assume uma posição corajosa e firme, dizendo textualmente: “Não compartilho com esta visão, e farei tudo para mudá-la”.

Assim, vão ficando claros os propósitos renovadores do Papa Francisco. Ele se mostra muito disposto a levá-los em frente, conforme revelou para o jornalista Eugênio Scalfari: “farei o que for possível para cumprir o mandato que me foi confiado”.

Vaticano II: uma referência do nosso tempo

Maria Clara Bingemer

Há cinquenta anos a Igreja Católica vivia um dos períodos mais importantes de sua história. Convocado pelo Papa João XXIII na festa de Natal de 1961, o Concílio Vaticano II era inaugurado no dia 11 de outubro de 1962. Realizado em quatro sessões, foi encerrado em 8 de dezembro de 1965, já sob o pontificado de Paulo VI.

O que pretendia o adorável e bondoso Papa João ao convocar em tempo recorde um Concílio Ecumênico com mais de 2000 participantes? Que necessidade pulsava nas entranhas da comunidade eclesial, fazendo sentir como necessária esta convocação? Por que a tradicional e respeitada Igreja Católica assumia o risco de abrir suas portas e situar-se sob os holofotes da opinião pública do mundo inteiro?

Desde Leão XIII, que em 1891 confessara com dor o distanciamento do catolicismo para com a classe operária, tornava-se sempre mais claro para o governo da Igreja que esse distanciamento se dava em relação ao mundo como um todo. No pontificado do Papa Pio XII (1939- 1958) já aconteciam dentro mesmo das fronteiras católicas movimentos de renovação fortes e influentes.

Os mais importantes diziam respeito ao estudo da Bíblia e à liturgia. Brilhante intelectual e agudo observador, Pio XII teve que viver um período conturbado em termos políticos, enfrentando a subida do Nazismo e uma guerra mundial que esfacelou a Europa.

Ali se sentiu ainda mais claramente a necessidade imperiosa para a Igreja de reaprender a dialogar com um mundo passado pelo crivo da modernidade, que não se regia mais pelos ditames da religião, mas avançava a passos largos pelos caminhos da secularidade e da autonomia da ciência e da técnica.

Eleito em1958, João XXIII surpreendeu o mundo ao recolher todos esses desejos e expectativas e torná-los realidade com a convocação do Concílio. Seu objetivo era repensar e renovar os costumes do povo cristão e adaptar a disciplina eclesiástica às condições do mundo moderno.

A palavra italiana aggiornamento (atualização) foi cunhada para expressar o que o Concílio pretendia e os frutos que desejava e perseguia.

Na visão profética de João XXIII, o Concílio seria como “um novo Pentecostes”, ou seja, uma profunda e ampla experiência espiritual que reconstituiria a Igreja Católica não somente como instituição, mas como movimento evangélico dinâmico, feito de abertura e renovação. Assim começou o processo que resultou no Concílio Vaticano II e que foi como um divisor de águas para a Igreja. “Sopro de inesperada primavera”, em palavras do próprio Papa, foi marcado pela abertura e pelo olhar reconciliado para o mundo e sua complexa realidade.

Enquanto Concílios anteriores na Igreja tinham como preocupação principal condenar heresias, definir verdades de fé e costumes e corrigir erros que nublavam a clareza da plena verdade, o Vaticano II teve desde o princípio como orientação fundamental a procura de um papel mais positivo e participativo para a fé católica na sociedade, discutindo não apenas definições dogmáticas e teológicas, mas voltando sua atenção igualmente para problemas sociais e econômicos, vendo-os não como ameaças, mas como autênticos desafios pastorais que pediam uma resposta por parte da Igreja.

Ao definir a especificidade do Concílio que convocava, João XXIII declarou enfaticamente, com força e audácia pastoral, não pretender uma vez mais fazer listas de erros e condenações, como tantas vezes havia acontecido no passado. Desejava, sim, a Igreja abrir diante do mundo a beleza e o valor de sua doutrina, usando mais de misericórdia e menos de severidade. Isto, no seu entender, ia mais ao encontro das necessidades dos tempos atuais e dava à mesma Igreja um rosto mais maternal e acolhedor.

João XXIII não pretendia revogar nada do depósito da fé que lhe cabia guardar com zelo de pastor. Mas tampouco desejava corrigir formulações ou proclamar novos dogmas. Sua intenção ao convocar o Concílio era que Igreja e Mundo pudessem finalmente dialogar abertamente, para que a mensagem cristã pudesse ser vivida em toda a sua profundidade e vigor. Hoje, o Vaticano II continua sendo uma referência não apenas para os católicos, e sim para todos aqueles e aquelas que desejam entender melhor o tempo em que vivem.

50 anos do Concílio Vaticano II

Pe. Geovane Saraiva

O Papa João XXIII, ao assumir a mais elevada função da Igreja Católica, no dia 28 de outubro de 1958, logo veio com a grande e surpreendente inspiração, que indelevelmente marcou o Século XX, a de convocar em 1959 o Concílio Vaticano II. Sua realização se deu de (1962- 1965). Foi um sopro do Espírito Santo de Deus a penetrar e ecoar, alegremente, no mundo inteiro. Chegou numa hora certa e oportuna, porque a Igreja precisava, sem dúvida, perceber os sinais dos tempos, necessitava de uma renovação, de um rejuvenescimento, o “aggiornamento”, assim chamado pelo o povo italiano. Foi um acontecimento tão profundo, tão rico e precioso, desejando a Igreja, na feliz iniciativa do Romano Pontífice, esposa de Cristo, como era chamado, usar de novos meios e novos métodos – uma nova pedagogia: “O remédio do perdão e da misericórdia e não o da severidade”, no dizer do Papa.

Na mensagem aos padres conciliares (20.10.1962), o Papa João XXIII, conhecido como o Papa da “bondade”, anunciou: “Procuremos apresentar aos homens do nosso tempo, íntegra e pura, a verdade de Deus de tal maneira que eles a possam compreender…”. Pense num Papa extraordinário e, ao mesmo tempo, surpreendente: amigo de todos e com um carinho todo particular para com as crianças, chegando a dizer aos padres conciliares: “Quando vocês voltarem para casa encontrarão crianças. Dêem a elas um carinho e digam: este é o carinho do Papa”.

Ele morreu no dia 3 de junho de 1963, terminada a primeira sessão conciliar. Veio em seguida o Papa Paulo VI para continuar os trabalhos do “Papa bom”. No seu discurso de abertura da segunda sessão (29.9.1963), fez questão de reafirmar a finalidade pastoral do Concílio Vaticano II, com as mesmas palavras de seu predecessor. Depois de tudo concluído ele disse palavras belíssimas: “Para que foi celebrado um Concílio? Para despertar, para renovar, para modernizar, para intensificar, para dilatar a vida da Igreja (…). De fato nós observamos, felizmente, e disto damos graças a Deus de todo coração, que toda a Igreja está em fermentação” (Paulo VI, 7.9.1966).

O Concílio Vaticano II quis acentuar que a Igreja é ação, é acima de tudo obra do Espírito Santo, com uma energia divina profundamente trabalhada por dentro, passando de uma Igreja-Instituição, Igreja Sociedade Perfeita, para uma Igreja Comunidade, inserida no mundo e a serviço do Reino de Deus; de uma Igreja Poder para uma Igreja Pobre, despojada, peregrina; de uma Igreja Autoridade para uma Igreja Serva, servidora e toda ministerial; de uma Igreja Piramidal para uma Igreja-Povo; de uma Igreja Pura e sem mancha para uma Igreja Santa e Pecadora, sempre necessitada de conversão e de reforma; de uma Igreja Cristandade para uma Igreja Comunhão e Missão, uma Igreja toda missionária.

O Concílio reafirmou evidentemente que a Igreja é Mãe e deseja com empenho cuidar da reforma geral da Sagrada Liturgia, a fim de que o povo cristão consiga perceber com mais segurança e graças abundantes, através do emprego da língua vernácula, hoje tão útil e indispensável ao povo. Os fiéis são favorecidos com lugares e ambientes mais amplos, principalmente para as leituras e admoestações, também em algumas orações e cânticos… (cf. SC, 579). A criatura humana se abre para Deus e o reconhece como Pai e doador de todos os dons e benefícios recebidos.

A liturgia é a fonte da vida da Igreja. É a celebração do sacrifício do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, no altar, pelo ministério do sacerdote. É ação do povo e em favor do povo. Daí as iniciativas surgidas, muito a enriquecer a vida da Igreja. O grande avanço é incontestável, porque de fato, o Concílio Vaticano II renovou a liturgia da missa, modificando-a no sentido da simplificação e da participação dos fiéis e de todo povo de Deus.

De modo que precisamos ter uma visão clara da grandeza e importância do Vaticano II e, ao mesmo tempo, deixar-nos guiar pelo Espírito do Senhor, para que deste modo, percebamos os sinais de Deus neste acontecimento muito feliz e no que dele decorreu até hoje. Que o nosso anseio maior seja o de conhecer sempre mais a vontade e os sinais de Deus no mundo.

Graças a Deus tivemos enormes avanços e a Igreja se empenhou fortemente em anunciar com grande esperança o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo aos homens e mulheres do nosso tempo, valorizando, as diversidades de dons, talentos e carismas, e aqui no nosso continente, com expressões, ações e gestos, indo ao encontro da nossa realidade cultural. Experimentamos e vivenciamos uma grande riqueza, a partir de Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e a Conferência de Aparecida (2007). Que beleza! Que maravilha!

Agradecemos ao bom Deus pelos 50 anos do Concílio Vaticano II, nas suas maravilhosas conquistas na Igreja e no mundo, nos nossos tempos atuais. Temos, portanto, o grande e o maior desafio, que é acolher nos dias de hoje, o sopro do Espírito Santo de Deus, que quer de nós todos, uma convivência fraterna em relação ao mundo, a natureza e a própria humanidade, tendo diante dos nossos olhos aquele remédio que estava no generoso coração de João XXIII, o remédio do perdão e da misericórdia.

A igreja das catacumbas

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Neste ano em que se celebra o centenário de Dom Helder Camara, muitas lembranças e recordações do grande Dom, que foi um dos presentes maiores de Deus à Igreja do Brasil têm sido desentranhados e trazidos à luz novamente. Limpos da poeira do esquecimento por nossa às vezes curta e ingrata memória, brilham como estrelas de primeira grandeza realimentando nossa vida espiritual e nossa capacidade ética.

Talvez um dos mais importantes seja a revisita do chamado Pacto das Catacumbas. No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio Vaticano II, cerca de 40 Padres Conciliares celebraram uma Eucaristia nas catacumbas de Domitila, em Roma, pedindo fidelidade ao Espírito de Jesus. Após essa celebração, firmaram o “Pacto das Catacumbas” .

O documento é um desafio aos “irmãos no Episcopado” – aos bispos presentes, portanto, – a levarem uma “vida de pobreza”, a construir uma Igreja que se queria “servidora e pobre”, como sugeriu o papa João XXIII. Os signatários – dentre eles, muitos brasileiros e latino-americanos, sendo que mais tarde outros também se uniram ao pacto – se comprometiam a viver na pobreza, a rejeitar todos os símbolos ou os privilégios do poder e a colocar os pobres no centro do seu ministério pastoral.

O texto teve forte influência sobre a Teologia da Libertação, que despontaria e floresceria nos anos seguintes. Um dos signatários, propositores e mesmo articuladores do Pacto foi Dom Hélder Câmara.

O belo texto do Pacto é altamente inspirador para toda a Igreja hoje como ontem. Aqui o transcrevemos do livro “Concílio Vaticano II”, Vol. V, Quarta Sessão (Vozes, 1966), organizado por Dom Boaventura Kloppenburg, pp. 526-528.

PACTO DAS CATACUMBAS DA IGREJA SERVA E POBRE

Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.

3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor…). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.

7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese.

Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.

9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de “beneficência” em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.

10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral – dois terços da humanidade – comprometemo-nos:

• a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;

• a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.

12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:

• esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida” com eles;

• suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;

• procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores…;

• mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10.

13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.

AJUDE-NOS DEUS A SERMOS FIÉIS. Com essas humildes e fervorosas palavras terminavam os bispos seu pacto. Elas precediam suas assinaturas. Que a mesma prece habite nosso coração e que o pacto das catacumbas, devidamente adaptado a nosso estado de vida, quer sejamos leigos, religiosos ou clérigos, possa ser o norte de nossas vidas.

Dom Aloisio: medo do inferno

Desenbargador Luiz Ximenes

“O homem deixa de ser quem é pra transformar-se naquilo de que outros homens precisam”. Afonso Arinos de Melo Franco

Em 8 de outubro de 1924, no interregno entre as duas guerras mundiais, num pedaço da Germânia reproduzido no Rio Grande do Sul, mais precisamente na zona rural de Estrela e onde o português era idioma estrangeiro para os colonos de ascendência e fala alemãs, nasceu Leo Arlindo, o segundo dos nove filhos de José Aloysio e Verônica Lorscheider, agricultores como seus antepassados. Profundamente católicos, os pais do menino permitiram que aos nove anos ele ingressasse no seminário franciscano de Taquari, pra cursar o ginasial e o colégio. O medo do inferno, lugar pra onde, segundo sua crença, não iriam as almas dos sacerdotes, fortaleceu a vocação religiosa do seminarista, que fez o noviciado em 1942 e iniciou o curso de Filosofia. Em 1944 foi transferido para o convento Santo Antônio, em Divinópolis (MG), onde concluiu Filosofia e cursou Teologia. Em homenagem ao pai e ao irmão mais velho, adotou o nome religioso de Frei Aloísio ao ordenar-se sacerdote em 22 de agosto de 1948, na mesma Divinópolis, e retornou a Taquari, em cujo seminário lecionou latim, alemão e matemática. Vislumbrando seu grande potencial, a ordem franciscana enviou o jovem frade a Roma no final de 1948, para especializar-se em Teologia Dogmática. Em junho de 1952 defendeu a tese doutoral, obtendo o grau máximo, summa cum laude. De volta ao Brasil, lecionou Teologia e outras disciplinas canônicas em seminários seráficos durante seis anos, até ser chamado de volta a Roma, para ensinar Teologia Dogmática no mesmo Pontifício Ateneu Antoniano onde se doutorara.

Em 3 de fevereiro de 1962, o Papa João XXIII nomeou-o bispo da recém-criada Diocese de Santo Ângelo (RS). Sagrado em 20 de maio, adotou o sugestivo lema In Cruce Salus et Vita (Na Cruz, a Salvação e a Vida) e em 12 de junho, sem haver completado38 anos, tornou-se o primeiro bispo da Diocese que comandou durante 11 anos, até ser transferido a Fortaleza. Como padre conciliar, participou de todas as sessões do Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965.

A partir de 1968 integrou a cúpula da CNBB, como Sacerdote-Geral e como Presidente em dois mandatos consecutivos (1971-1975 e 1975-1978). Paralelamente em 1972 foi eleito primeiro Vice-Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM. Reeleito em 1975, assumiu em 14976 a Presidência desse Conselho, que reúne os bispos católicos da América Latina e do Caribe, substituindo Dom Eduardo Perônio, bispo de Mar Del Plata, nomeado Cardeal e transferido para o Vaticano. Expoente da Teologia da Libertação de defensor dos fracos e oprimidos, Dom Lorscheider tornou-se, como representante máximo do episcopado latino-americano, paladino dos direitos humanos e uma das principais vozes de oposição às ditaduras militares que grassavam pelo continente.

Em 4 de abril de 1973, a comunidade católica de fortaleza recebeu jubilosamente a notícia de que o Papa Paulo VI nomeara Dom Aloísio para suceder Dom José de Medeiros Delgado à frente da Arquidiocese. Vejamos, em suas próprias palavras, como encarou a mudança abrupta, verdadeiro choque cultural:

Quando eu chequei, tinham me avisado o seguinte: “O senhor vai para o Ceará, onde vai encontrar uma situação muito difícil”. […] Mas nunca encontrei essa situação tão difícil. Não sei de onde saiu essa idéia. Engraçado que fui enviado para cá

Para permanecer apenas cinco anos. Acabei ficando vinte e dois! […] Minha transferência foi uma mudança da noite para o dia. Sul e Nordeste são completamente diferentes. Aos poucos fui aprendendo. O que me ajudou muito foram as CEBs [Comunidades Eclesiais de Base], que no Sul não existiam desse jeito. Ao entrar em contato com o povo, eu não falava muito, muitas vezes ficava escutando. Até hoje, na igreja, esse deve ser o caminho. Perdemos esse hábito, mas acho isso fundamental, porque nos faz conhecer a religiosidade popular.

Ao defrontar-se com uma nova realidade, o Bispo aos poucos transformou seu modo de pensar e de agir:

No Sul parecia-me ter exercido muito mais o papel de quem ensina o que sabe, sem grandes preocupações com os problemas concretos do povo. Eu levava a fé ao povo como se leva uma receita já pronta, sem refletir mais detidamente sobre o seu significado. […] Eu era mais professor e dirigente de culto do que realmente evangelizador dentro da realidade vivida do povo. No Nordeste (Ceará – Fortaleza), em contato com outro tipo de Comunidade Eclesial de Base, nascida da necessidade de buscar solução cristã para problemas concretos da vida, o meu ministério episcopal, na sua tríplice função de ensinar, santificar e governar, foi adquirindo outra função.

Em pleno regime de exceção, a sociedade cearense logo sentiu os efeitos dessa guinada. As camadas desfavorecidas ou marginalizadas, os sem-terra, os sem-teto, os presos políticos, os presidiários comuns, os trabalhadores em greve – ganharam aliado de peso. A partir da experiência pioneira de Aratuba, expandiu o número e o raio de atuação das Comunidades Eclesiais de Base, o prestígio do cargo e a estrutura moral do Arcebispo, aliados à sua propensão para o diálogo, permitiram-lhe atuar com êxito em situações de conflito. Favelados da Av. José Bastos, lavradores de Palmácia, índios Tapeba de Caucaia, agricultores sem-terra de Canindé e Santa Quitéria, os hansenianos de Antônio Diogo, os presidiários – todos foram objetos de ações pessoais de diretas do Arcebispo.

É importante também ressaltar que, nos “anos de chumbo”, diante dos quadros mais críticos, das injustiças mais atrozes, dos maiores atentados à dignidade da pessoa humana, a figura de D. Aloísio se exponenciou na trincheira da resistência. É igualmente forçoso mencionar que nunca lhe faltou a atitude da interlocução e do diálogo altivo, mas sereno, no sentido da superação da injustiça e da busca do império da dignidade humana, do predomínio do bem sobre o mal. Enfim, foi líder da resistência civil sem perder o entendimento da natureza humana, no qual não pode prescindir o líder religioso, o pastor das almas transviadas.

Em sessão do Congresso Nacional, nos primeiros meses do ano corrente, prestou-se homenagem a D. Aloísio Lorscheider, o senador Tasso Jereissati, ao proferir discurso naquela ocasião, salientou que, em toda sua vida pública não conheceu “um homem maior do que D. Aloísio Lorscheider”, asseverando:

A sua importância na história do nosso Ceará ainda será conhecida como o grande transformador da mentalidade social e política e da consciência cristã no Estado do Ceará. A sua presença marcou uma verdadeira mudança de trajetória na organização e na consciência dos direitos das comunidades mais pobres, mais marginalizadas em nosso Estado e em nossa região.

Também recolho de Pedro Simon, senador pelo Rio Grande do Sul, conterrâneo do religioso, excerto das palavras com que, na mesma sessão do Congresso Nacional, procedeu ao elogio póstumo do hoje homenageado:

D. Aloísio não abandonou jamais a sua opção preferencial pelos pobres, nem quando bombas intimadoras foram atiradas nos seus jardins. Mesmo diante do principal chefe de repressão, sua voz, naturalmente doce, alterava-se apenas quando era preciso confrontar os vendilhões da Justiça. Foi assim quando Secretário e, depois, Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, foi assim nos anos difíceis da nossa história, quando todos os jardins da democracia corriam o risco de ser alvo de bombas atiradas pelos olhares fixos da repressão. Foi exatamente nesse momento da história, que a voz de D. Aloísio se alterou. E ecoou pelos corredores das prisões. (…). (…) Teve a coragem de colocar em debate temas polêmicos, inclusive, dentro da própria Igreja, e defendeu teses que contrariavam o Poder. Jamais se preocupou em tornar-se uma unanimidade. Se havia o contraditório tinha um único lado: o do bem, o da democracia, o da soberania, o da cidadania. Foi contumaz nos sentimentos de humildade e de perdão.

Paralelamente, não descurou da sua ação como pastor. Visitou tosas as paróquias do território arquidiocesano e assinou Cartas Pastorais densas em que eram traçados diagnósticos da situação e fixadas regras claras sobre animação da fé, catequese e liturgia. Dedicou atenção especial ao sacerdócio, aumentando sensivelmente o número de seminaristas e de ordenações. Acolheu os padres casados, consentindo que alguns deles ensinassem nos institutos de formação religiosa e chegando mesmo a participar de encontro do Movimento dos Padres Casados, no que foi censurado na Cúria Romana.

Três anos após a indicação para o Arcebispo de Fortaleza, Dom Aloísio foi nomeado Cardeal em 24 de abril de 1976, pelo Papa Paulo VI, recebendo a investidura um mês depois. Em 1978, tomou parte nos dois conclaves que elegeram os pontífices João Paulo I e João Paulo II. Apesar da voz corrente de que foi o único cardeal brasileiro a receber, até hoje, votos em eleição papal Dom Aloísio sempre negou veemente esse fato, considerando-o sem fundamento.

O chapéu cardinalício fez subir Dom Aloísio na hierarquia eclesiástica, mas em nada afetou sua humildade franciscana e suas convicções democráticas. Em sei diálogo com “O Grupo”, enfeixado no livro “Mantenham as Lâmpadas Acesas: Revisitando o Caminho, Recriando a Caminhada”, chega a ironizar:

Agora, esse negócio de ser cardeal! A única função que ele tem (se não tiver oitenta anos) é poder eleger o papa, só isso! O pessoal vem com aquelas histórias que tem que se enfeitar, não sei de quantas maneira. Meu pensamento hoje é que a Santa Sé deveria se perguntar se não chegou a hora de abolir o colégio cardinalício, porque não tem mais sentindo. Hoje temos os presidentes das Conferências Episcopais; esses seriam os homens indicados para a eleição do papa.

Em virtude da fragilidade de sua saúde, o Cardeal-Arcebispo solicitou em 1995 remoção para uma diocese com menor carga de trabalho. O Papa João Paulo II atendeu-o e foi transferido de Fortaleza pra a Arquidiocese de Aparecida, assumindo o novo posto em 18 de agosto daquele ano. Ao ser indagado sobre as medidas que tomaria para conter a evasão de fiéis católicos rumo a outras igrejas, o novo Arcebispo retrucou dizendo que havia um engano nessa informação: quem saiu da Igreja católica não foram os fiéis e , sim, os infiéis. A sábia resposta recebeu calorosos aplausos.

Em 2000, por haver ultrapassado a idade-limite, de 75 anos, anunciou sua renúncia, que somente foi aceita e janeiro de 2004 e formalizada em 25 de março do mesmo ano, com a transferência do comando a Arquidiocese para o sucessor, Dom Raymundo Damasceno Assis. O Arcebispo emérito retornou para o Convento dos Franciscanos em Porto Alegre, ao convívio dos seus irmãos de hábito. Em 23 de dezembro de 2007, antevéspera de Natal, às 5h30min, o príncipe da Igreja encerrou sua trajetória terrena.

Homem do diálogo, Dom Aloísio indicava essa prática como método aplicável à abordagem de todos os problemas, mesmo os mais embaraçosos. Opção preferencial pelos pobres, ecumenismo, magistério eclesiástico, papel dos leigos, inserção dos padres casados e das mulheres vocacionadas na ação eclesial, homossexualismo no clero e nos seminários – sobre esse e tantos outros temas Dom Aloísio emitiu opiniões sinceras e bastantes pessoais, que em muitos casos divergem da visão dominante na hierarquia católica.

Fiel a suas convicções e ao espírito de Medellín, Puebla e São Domingos, o Cardeal Lorscheider depositava grandes esperanças na restauração e ampliação do papel das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, que considerava adequadas a diversas pastorais, que deveriam tê-las como modelo para revigorar, no seio do catolicismo, o ardor missionário e evangelizador, hoje amortecido.

Traçado o perfil do homenageado, fica fácil explicar a razão que levou o Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, por votação unânime, atendendo proposição de seu Presidente, Atribuir ao Auditório principal da Corte o nome do insigne Dom Aloísio Cardeal Lorscheider. Um auditório caracteriza-se por ser um locus de diálogo, de transmissão de conhecimentos ou de diretrizes administrativas. Acresça-se o fato de o recinto estar situado no Palácio da Justiça, e que estão aqui congregadas quatro características vivenciadas pelo dignitário que homenageamos nesta expressiva solenidade: a valorização do diálogo, o magistério, a liderança democrática e o acendrado amor à justiça, tal como ensinada nos Evangelhos.

È, pois, com orgulho que, em nome do Poder Judiciário do Estado do Ceará, testemunho esta homenagem ao pastor que transfundiu para o rebanho o espírito missionário e evangelizador que o animava, ao teólogo competente que semeou a palavra de fé, da esperança e da caridade cristã, a par da luta política e civil, na busca da concretização daquele princípio que é o maior valor constitucional brasileiro, a dignidade da pessoa humana.

Não poderia deixar de ressaltar a atitude varonil de D. Aloísio no episódio do seqüestro de que foi vítima, quando cumpria a sua missão pastoral, visitando e consolando os encarcerados do Instituto Penal Paulo Sarasate. Pouco tempo depois do episódio, D. Aloísio voltava ao local do verdadeiro martírio a que foi submetido para, no gesto mais cristão que poderia realizar, generosamente lavar os pés dos detentos, alguns dos quais envolvidos na agressão que sofrera.

Com efeito, o sentimento de justiça que dominava a personalidade de D. Aloísio, com a realização cotidiana das bem-aventuranças evangélicas, tinha transcendência na compreensão mais larga do que é a justiça e do que são os direitos humanos. Assim é que, firme, pela palavra e pela ação, tornou a opção preferencial pelos pobres um manifesto e um programa, sem descurar da necessária ação política, em sentido largo, que deve ser imperativo imanente a tal opção. Nesse diapasão, não se intimidava em desfraldar as bandeiras da reforma agrária, da melhor distribuição da renda, da assistência aos necessitados, da melhoria do desumano sistema prisional que, talvez, seja o indicador mais solene da injustiça brasileira e do quanto se tem de fazer para a consecução do respeito à dignidade da pessoa humana.

O progresso dos povos

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Papa Bento XVI, na sua encíclica, a caridade na verdade, de 29 de junho de 2009, mostra a atualidade, depois de mais de quarenta anos, da mensagem da carta encíclica do Papa Paulo VI, acerca do progresso dos povos. São outros os termos em que se coloca hoje o problema do desenvolvimento. Contudo, permanece atual a mensagem ali construída e balizada pela caridade e pela verdade. Ora, as questões acerca do desenvolvimento não são apenas de caráter exclusivamente sociológicos.

A Populorum Progressio brotou como fruto maduro do magistério do Papa Paulo VI logo depois do acontecimento do Concílio Vaticano II, encerrado em dezembro de 1965 – que abriu um horizonte novo para a missão da Igreja em se considerando a sua presença no mundo, o teor e o tom de sua profecia. A tônica importante é aquela de que pertence à verdade da fé a convicção de que a Igreja, estando a serviço de Deus, serve o mundo em termos de amor e verdade. Compreende-se, portanto, que a Igreja Católica, em todo o seu ser e agir, quando anuncia, celebra e atua na caridade, o faz buscando a promoção e a realização do desenvolvimento integral do homem.

A Igreja não pode abrir mão desse seu papel público. Ela luta por essa liberdade, enfrentando perseguições ou proibições, incompreensões e limites inconsequentes a ela impostos. Nem mesmo só as atividades sócio-caritativas da Igreja podem esgotar o alcance de sua presença pública. Essa verdade se alia a outra de grande importância. Trata-se da compreensão do desenvolvimento humano em referência à totalidade da pessoa. Isto é, a consideração de todas as suas dimensões. Nessa perspectiva, pois, não pode riscar a referência à vida eterna, sob pena de o progresso humano, diz o Papa, ficar privado do respiro. As consequências são nefastas por fechar o homem dentro da história, sujeitando-o ao risco de reduzir-se ao incremento do ter.

Daí vem o comprometimento da capacidade imprescindível de se permanecer disponível para os bens mais altos, para iniciativas altruístas que a caridade universal solicita. O homem não se desenvolve apenas com suas próprias forças, assevera o Papa Bento XVI na carta encíclica. É uma ilusão pensar, como tem ocorrido ao longo da história, que a criação de instituições seja o suficiente para a garantia do desenvolvimento da humanidade. De fato, conclui o Papa, as instituições sozinhas não são suficientes, porque o desenvolvimento integral é primariamente vocação e exige um assumir livre e solidário da responsabilidade de cada um por todos.

A necessidade de Deus e a visão transcendente da pessoa compõem a compreensão ajustada do desenvolvimento, ultrapassando e alargando o horizonte que se alcança apenas com os dados sociológicos. Sem Deus, retoma o Papa, o desenvolvimento ou é negado ou fica confiado unicamente às mãos do homem, levando-o a cair na presunção da auto-salvação e na produção de um desenvolvimento desumanizado. O encontro com Deus,assim, se torna alavanca importante do desenvolvimento integral enquanto evita,sublinha Bento XVI, ver no outro sempre e apenas o outro, tornando-se capaz de ver nele a imagem divina, alcançando uma adequada compreensão dele e criando possibilidades de maturação de um amor que se torna cuidado do outro e pelo outro. Já na Populorum Progressio, o Papa Paulo VI focalizava que o progresso é, na sua origem e na sua essência, uma vocação. Entender o desenvolvimento como vocação, retoma o Papa Bento XVI, equivale a reconhecer que ele nasce de um apelo transcendente e que por si mesmo não pode, adequadamente, atribuir-se o significado último.

Este entendimento continua atual e, levado a sério, pode abrir horizontes novos para os gravíssimos impasses que estão configurando o cenário contemporâneo. Basta pensar a contradição inconsequente que se verifica quando se pensa a grandeza dos avanços tecnológicos e científicos e a incapacidade de superação das vergonhosas situações de exclusão social. É uma lógica que está presidindo o aumento dessa brecha que a inteligência humana por si só não está conseguindo resolver. Ora, a pessoa não pode ser reduzida à categoria de meio para o desenvolvimento. Há uma gravíssima responsabilidade imputada a cada pessoa no uso de sua liberdade à luz da consciência de sua vocação. O desenvolvimento é, na verdade, a busca de ser mais.

O que significa ser mais? O Papa Paulo VI já respondia que a característica do desenvolvimento autêntico é de que este deve ser integral. Isto é, promover todos os homens e o homem todo. É o desafio ao desenvolvimento da integralidade da humanidade. A reflexão precisa continuar. Bento XVI lembra a indicação do Papa Paulo VI: “o que conta é o homem, cada homem, cada grupo de homens até se chegar à humanidade inteira”. É o verdadeiro caminho para o progresso dos povos.

O Papa e a crise mundial

Frei Betto

“A Caridade na verdade” é o titulo da mais recente encíclica de Bento XVI, lançada a 29 de junho. Nela o papa enfatiza a dimensão social e política do amor: “Querer o bem comum (todos os grifos são do texto original) e trabalhar por ele é exigência de justiça e de caridade. Comprometer-se pelo bem comum é, por um lado, cuidar e, por outro, valer-se daquele conjunto de instituições que estruturam jurídica, civil, política e culturalmente a vida social, que deste modo toma a forma de pólis, cidade. Ama-se tanto mais eficazmente o próximo, quanto mais se trabalha em prol de um bem comum que dê resposta também às suas necessidade reais” (n.7).

O documento homenageia Paulo VI ao fazer eco à Populorum Progresio (1967), uma das mais progressistas encíclicas dos últimos dois séculos. Bento XVI frisa que “as situações de subdesenvolvimento não são fruto do acaso nem de uma necessidade histórica, mas dependem da responsabilidade humana. É por isso que ‘os povos da fome se dirigem hoje, de modo dramático, aos povos da opulência’. (…) Viva era, em Paulo VI, a percepção da importância das estruturas econômicas e das instituições, mas era igualmente clara nele a noção da sua natureza de instrumentos da liberdade humana” (n. 17).

Enquanto no Brasil se fala em “crescimento”, o papa lembra que “Paulo VI tinha uma visão articulada do desenvolvimento. Com o termo ‘desenvolvimento’ queria indicar, antes de mais nada, o objetivo de fazer sair os povos da fome, da miséria, das doenças endêmicas e do analfabetismo. Isto significava, do ponto de vista econômico, a sua participação ativa e em condições de igualdade no processo econômico internacional; do ponto de vista social, a sua evolução para sociedades instruídas e solidárias; do ponto de vista político, a consolidação de regimes democráticos capazes de assegurar a liberdade e a paz” (n. 21).

Em seguida, Bento XVI critica o neoliberalismo: “O objetivo exclusivo de lucro, quando mal produzido e sem ter como fim último o bem comum, arrisca-se a destruir riqueza e criar pobreza. (…) Todavia há que reconhecer que o próprio desenvolvimento econômico foi e continua a ser molestado por anomalias e problemas dramáticos, evidenciados ainda mais pela atual situação de crise. Esta coloca-nos improrrogavelmente diante de opções que dizem respeito sempre mais ao próprio destino do homem, o qual aliás não pode prescindir da sua natureza. As forças técnicas em campo, as interrelações em nível mundial, os efeitos deletérios sobre a economia real duma atividade financeira mal utilizada e majoritariamente especulativa, os imponentes fluxos migratórios, com frequência provocados e depois não geridos adequadamente, a exploração desregrada dos recursos da Terra, induzem-nos hoje a refletir sobre as medidas necessárias para dar solução a problemas que são não apenas novos relativamente aos enfrentados pelo Papa Paulo VI, mas também e sobretudo com impacto decisivo no bem presente e futuro da humanidade. (…) A crise obriga-nos a projetar de novo o nosso caminho, a impor-nos regras novas e encontrar novas formas de empenho, a apostar em experiências positivas e rejeitar as negativas. Assim, a crise torna-se ocasião de discernimento e elaboração de nova planificação. Com esta chave, feita mais de confiança que resignação, convém enfrentar as dificuldades da hora atual” (n. 21).

A encíclica denuncia que “cresce a riqueza mundial em termos absolutos, mas aumentam as desigualdades. Nos países ricos, novas categorias sociais empobrecem e nascem novas pobrezas. Em áreas mais pobres, alguns grupos gozam duma espécie de superdesenvolvimento dissipador e consumista que contrasta, de modo inadmissível, com perduráveis situações de miséria desumanizadora. Continua «o escândalo de desproporções revoltantes». Infelizmente, a corrupção e a ilegalidade estão presentes tanto no comportamento de sujeitos econômicos e políticos dos países ricos, antigos e novos, como nos próprios países pobres. No número de quantos não respeitam os direitos humanos dos trabalhadores, contam-se às vezes grandes empresas transnacionais e também grupos de produção local. As ajudas internacionais foram muitas vezes desviadas das suas finalidades, por irresponsabilidades que se escondem tanto na cadeia dos sujeitos doadores como na dos beneficiários” (n. 22).

E há quem suponha que a Teologia da Libertação morreu… Não apenas continua viva, como hoje encontra abrigo até em documentos papais.

A nova encíclica

Dom Aloísio Sinésio Bohn

O papa Bento XVI publicou uma nova carta encíclica para todas as pessoas de boa vontade, tendo como título: A Caridade na Verdade. Em Latim: “Caritas in Veritate”. A ocasião é o aniversario de 40 anos da encíclica social de Paulo VI: “O Progresso dos Povos” (Populorum Progressio). Não desejo aqui fazer uma síntese do documento. Desejo suscitar o interesse e a curiosidade, para que o povo leia o documento pontifício.

Quando iniciou a revolução industrial no século XIX, de um lado, os operários eram oprimidos nas fábricas e nas minas de carvão, sem respeito pela sua dignidade, sem organização sindical, com salários insuficientes para a manutenção da família. De outro lado, o marxismo incentivava a luta de classes, pregava a ditadura do proletariado, a supressão da liberdade individual, o fim da propriedade particular e prometia o paraíso na terra. Então, em 1892, o Papa Leão XIII publicou a primeira grande encíclica social, a “Rerum Novarum” (As coisas novas).

Os cristãos criaram consciência social, superou-se a luta de classes pela organização sindical, e pela negociação e o diálogo. Foi uma grande contribuição à Paz e ao progresso social dos povos.

Em março de 1967, Paulo VI ofereceu ao mundo a importante carta encíclica “Populorum Progressio” (O Progresso dos Povos). O ideal apontado é o desenvolvimento integral da pessoa toda e de todas as pessoas. Defende um humanismo aberto ao Absoluto, a liberdade, a civilização do amor. Cunhou a expressão: “O desenvolvimento é o novo nome da paz”.

Diante da explosão da interdependência mundial, já conhecida mundialmente por globalização e da crise financeira mundial, Bento XVI achou conveniente oferecer a doutrina social da Igreja, atualizando-a para os tempos de hoje.

Para quem sonhava com a eliminação das funções do Estado, pois o mercado global regula tudo, o Papa adverte: “Razões de sabedoria e prudência sugerem que não se proclame depressa demais o fim do Estado” (nº 41).

Para os profetas que olham a globalização como demoníaca, o Pontífice afirma: “A globalização ‘a priori’ não é boa nem má. Será aquilo que as pessoas fazem dela. Não devemos ser vítimas dela, mas protagonistas” (nº42).

Sabemos que Bento XVI está preocupado com o papel demolidor do relativismo, do indiferentismo religioso e do fanatismo. O fanatismo tende a impedir o direito de religião e de pregar a morte em nome de Deus, o que os líderes religiosos já condenaram como blasfêmia contra Deus. O indiferentismo e o ateísmo prático subtraem aos povos recursos espirituais e humanos. O relativismo, enquanto não aceita a verdade, acaba proclamando como verdade os próprios interesses egoístas.

João Paulo II dizia que a razão deve ser curada pelo amor. O Papa Bento diz que “o saber deve ser ‘temperado’ com o ‘sal’ da caridade. Pois a ação é cega sem o saber, e o saber é estéril sem o amor” (nº 30).

Esta bela e importante carta pontifícia deve fazer parte da leitura assídua dos que se preocupam com a paz e com a solidariedade entre os povos.

“Caritas in Veritate”

Dom Geraldo Lyrio Rocha

Esperamos que a nova encíclica do papa Bento 16 inspire as nações na busca irrenunciável de caminhos para a superação da crise

Anunciada no final do ano passado, veio a lume no dia 7 de julho a terceira encíclica do papa Bento 16, “Caritas in Veritate” (“Caridade na Verdade”), sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade.

Tendo como base e motivação originária a comemoração dos 40 anos da encíclica “Populorum Progressio”, publicada pelo papa Paulo 6º, a nova encíclica de Bento 16 se detém na atualíssima questão do desenvolvimento e chama a atenção da sociedade para as implicações da busca de um desenvolvimento que não leva em conta a ética, desconsidera a dignidade da pessoa humana na sua totalidade e prescinde de Deus.

“Sem Deus, o desenvolvimento ou é negado ou acaba confiado unicamente às mãos do homem, que cai na presunção da autossalvação e acaba por fomentar um desenvolvimento desumanizado”, recorda-nos o papa. A nova encíclica foi recebida com grande expectativa e vivo interesse exatamente por tocar em tema social, numa época em que o mundo todo se vê comprometido a buscar soluções para a crise econômica e financeira que tem vitimado, de forma impiedosa, os pobres e os excluídos.

A escandalosa situação de desigualdade que impera no mundo, aprofundando o fosso entre ricos e pobres, é um escândalo que contrasta com os grandes avanços alcançados pela pós-modernidade, marcada especialmente pela evolução das ciências e das novas tecnologias. A atual crise financeira mundial expõe de maneira evidente esse contraste e ameaça, primordialmente, os países mais pobres, deixando-os ainda mais reféns da economia mundial globalizada.

Sábias, oportunas e iluminadoras as palavras do santo padre, que reafirma o desenvolvimento como uma “vocação” do homem, mas que só poderá ser alcançado plenamente se respeitar os princípios que considerem o ser humano como criatura predileta de Deus, revestido de uma dignidade que não pode ser sacrificada pelas leis da economia destituídas da ética e da caridade na verdade.

O grande drama da humanidade hoje é a crise do sistema econômico, que, para o papa, é fruto da busca exacerbada do lucro, alimentada por uma subserviência ao mercado, que, ganancioso e voraz, ignora os mais pobres e miseráveis. O papa reafirma que “o objetivo exclusivo de lucro, quando mal produzido e sem ter como fim último o bem comum, arrisca-se a destruir riqueza e criar pobreza”.

A mentalidade laicista que se expande de forma incontrolável e, às vezes, irracional, não pode obnubilar o ensinamento da igreja, que, vocacionada para o serviço à humanidade, chama a atenção para os desvios de um desenvolvimento centrado em si mesmo e orientado para o homem como se ele, autossuficiente, fosse fim em si mesmo. Nesse sentido, o papa Bento 16 recorda o papel imprescindível do Estado de garantir a liberdade religiosa como condição também para o desenvolvimento.

“Quando o Estado promove, ensina ou até impõe formas de ateísmo prático, tira aos cidadãos a força moral e espiritual indispensável para se empenharem no desenvolvimento humano integral e os impede de avançar com renovado dinamismo no próprio compromisso de uma resposta humana mais generosa ao amor divino”.

Repetimos à exaustão que à igreja não cabe propor soluções técnicas para os problemas da economia. Ela tem direito, no entanto, de iluminar com a sabedoria do evangelho os caminhos dos que buscam essas soluções.

Assim é que o papa, mais uma vez, insiste na ética, também para a economia, como condição “sine qua non” para um desenvolvimento que se pretenda humano. Com efeito, diz o papa: “A área econômica não é nem eticamente neutra nem de natureza desumana e antissocial. Pertence à atividade humana; e, precisamente porque humana, deve ser eticamente estruturada e institucionalizada”.

Com o papa, podemos dizer que temos um grande desafio, que é mostrar que os princípios tradicionais da ética social como a justiça, a transparência, a honestidade e a responsabilidade “podem e devem encontrar lugar dentro da atividade econômica normal”. Trata-se, como bem afirma Bento 16, de uma exigência simultaneamente da caridade e da verdade.

Esperamos, com a ajuda de Deus, que a nova encíclica do papa Bento 16 inspire as nações na sua irrenunciável busca de caminhos para a superação da crise em vista de um desenvolvimento que coloque no centro a pessoa humana, sobretudo os pobres, defenda a vida em todas as suas formas de manifestação e elimine as desigualdades que ofendem o Criador que nos fez à sua imagem e semelhança.

Caritas in Veritate

Pe. Alfredo J. Gonçalves

A mais de 40 anos da Populorum Progressio, o Papa Bento XVI acaba de publicar a Carta Encíclica Caritas in Veritate, Caridade na Verdade. Ancorando-se na encíclica de Paulo VI, publicada em 1967, o Papa retoma o tema do desenvolvimento dos povos como pano de fundo para a justiça e a paz. “O desenvolvimento é o novo nome da paz”, já dizia Paulo VI, no texto escrito logo após o Concílio Ecumênico Vaticano II. Se os anos 60 foram marcados pelo fantasma da guerra fria e do poder nuclear de destruição, hoje é a crise econômica mundial que ronda nossas portas. Daí o retorno ao tema da paz ligado ao desenvolvimento integral.

Logo na introdução da encíclica, o pontífice aponta o caminho que deverá percorrer no desenvolvimento do tema: “Pela sua estrita ligação com a verdade, a caridade pode ser reconhecida como expressão autêntica da humanidade e como elemento fundamental nas relações humanas, nomeadamente de natureza pública. Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida. A verdade é luz que dá sentido e valor à caridade” (CV, Nº 03). A caridade transforma-se em ação transformadora quando guiada pelo farol da verdade. Somente assim se estabelecem as bases para uma justiça real e não apenas retórica.

Em seguida, o papa procura resgatar o conceito original e bíblico da palavra caridade como amor ativo, amor que produz obras de justiça social. Ao longo dos tempos, o amor-caridade perdeu sua incidência solidária e sua dimensão social. Revestiu-se de uma espécie de emotivismo inócuo e ineficaz, ou então de um mero assistencialismo, sem preocupação com as mudanças mais profundas da sociedade. Chegou a ser sinônimo da ação pessoal em favor dos necessitados. Como converter esse impulso em ação coletiva de transformação? Essa parece ser a preocupação de fundo do Papa: “Sem a verdade, a caridade cai o sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente”, diz a nova mensagem (CV, Nº 03).

Partindo de inúmeras citações bíblicas e de outros documentos da Doutrina Social da Igreja, Bento XVI passa a insistir que a caridade, quando iluminada pela luz da verdade, tem um papel fundamental na transformação das estruturas sociais, políticas, econômicas e culturais. Sua força é trazer à luz do dia as relações dúbias, turvas e encobertas, buscando assim soluções viáveis para os desequilíbrios e assimetrias que dividem povos e nações, especialmente nas relações internacionais. Frente à crise atual, as mudanças se fazem necessárias e urgentes. Não basta a assistência social, é preciso avançar para mudanças mais amplas e profundas.

O papa detém-se de modo especial na Populorum Progressio. Se esta procura dar continuidade à Gaudium et Spes, carta magna da Doutrina Social da Igreja, elaborada durante o Concílio Vaticano II, a Caritas in Veritate prossegue com o trinômio desenvolvimento, justiça e paz (capítulo 1). Depois, o texto trata de fazer um diagnóstico sobre o desenvolvimento humano no nosso tempo, com suas contradições e desigualdades flagrantes, mas também com suas potencialidades tecnológicas (capítulo 2). A partir do diagnóstico, traça alguns caminhos que ajudam a entender a fraternidade, o desenvolvimento econômico e a sociedade civil. O fortalecimento desta, em suas várias instituições, movimentos e organizações, ganha importância fundamental frente à crise atual dos Estados (capítulo 3). Da mesma forma que Paulo VI em 1967, o atual pontífice indica o desenvolvimento dos povos, com seus direitos e deveres, incluindo o meio-ambiente, como caminho de solução para os problemas atuais (capítulo 4). Por fim, entre as responsabilidades a serem assumidas, destaca a colaboração da família humana (capítulo 5).