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Episcopado é serviço, não honra: diz o Papa Francisco

Amem os presbíteros e os diáconos, os pobres e os indefesos e velem com amor pelo rebanho inteiro. Foram algumas das exortações feitas na tarde desta quinta-feira pelo Papa Francisco durante a missa – na Basílica de São Pedro – de ordenação episcopal do presidente da Pontifícia Academia Eclesiástica, Dom Giampiero Gloder, e do núncio apostólico na República de Gana, Dom Jean-Marie Speich. O Santo Padre leu o texto da homilia ritual, prevista no Pontifical Romano para o rito da Ordenação episcopal, fazendo espontaneamente alguns acréscimos.

Papa: “Quereis pregar, com fidelidade e perseverança, o Evangelho de Cristo?”

Eleitos: “Sim, quero!”

Seguindo a antiga tradição dos santos padres, essas e outras perguntas foram dirigidas aos dois ordenandos, antes da homilia da celebração.

Os bispos, “custódios e dispensadores dos ministérios de Cristo” – disse o Papa Francisco –, são chamados a seguir o exemplo do Bom Pastor e a servir ao povo de Deus.

Como se recorda no Pontifical Romano, ao bispo “compete mais o servir do que o dominar”:

“De fato, Episcopado é o nome de um serviço, não de uma honra. Sempre em serviço, sempre a serviço.”

Após exortar a anunciar a Palavra em toda ocasião, oportuna e inoportuna – como se lê no Pontifical Romano –, o Santo Padre recordou a centralidade da oração:

“Um bispo que não reza é um bispo na metade do caminho. E se não reza ao Senhor acaba no mundanismo.”

O serviço alimentado pela Palavra – acrescentou o Pontífice – deve ser orientado pelo amor:

“Amem, amem com amor de pai e de irmão todos aqueles que Deus lhes confiou. Em primeiro lugar, amem os presbíteros e os diáconos. São seus colaboradores, são, para vocês, os mais próximos dos próximos. Jamais façam um presbítero esperar, esperar uma audiência, respondam imediatamente. Estejam próximos deles. Mas amem também os pobres, os indefesos e aqueles que precisam de acolhimento e de ajuda. Tenham grande atenção por aqueles que não pertencem ao único rebanho de Cristo, porque também estes lhes foram confiados no Senhor. Rezem muito por eles.”

Além de servir e amar, os bispos são chamados a velar “pelo rebanho inteiro”, em nome do Pai, de seu Filho Jesus Cristo e do Espírito Santo que dá vida à Igreja, concluiu o Papa Francisco. (RL)

Fonte: News. Va

Mensagem do Pe. Edmar Peron, nomeado bispo da Região Belém

Neste dia do anúncio de minha nomeação episcopal, envio minha mensagem a toda a Arquidiocese de São Paulo: ao estimado arcebispo, o cardeal Dom Odilo Pedro Scherer, e aos bispos auxiliares, aos quais me unirei como bispo auxiliar; aos padres, diáconos e seminaristas; aos numerosos e dedicados leigos e leigas, comprometidos na ação pastoral e evangelizadora; aos religiosos e religiosas e a todo o povo de Deus de São Paulo.

Quando o senhor Núncio Apostólico me comunicou que o papa Bento XVI me havia escolhido para ser “Bispo Titular de Mattiana e Auxiliar do Eminentíssimo Arcebispo de São Paulo” fiquei cheio de temor, pensando nos desafios evangelizadores de uma grande cidade, como São Paulo. Respondi “sim”, em obediência ao chamado da Igreja que me vinha através da decisão do Papa, sobretudo, confiando no Senhor, “Pastor e Bispo de nossas almas” (1Pd 2,25), que virá em meu socorro, como rezamos cada dia: “vinde, ó Deus em meu auxílio, socorrei-me sem demora”.

No próximo dia 28 de fevereiro, em Maringá (PR), serei ordenado bispo pela imposição das mãos dos bispos presentes e o Senhor, pelo seu Espírito, me assumirá totalmente para o seu serviço, atraindo-me ao seu próprio sacerdócio e consagrando-me para o anúncio do seu Evangelho.

E, no dia 14 de março, tomarei a posse canônica do ofício de bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, iniciando o exercício do meu ministério episcopal. Será na comunhão eclesial da Igreja de São Paulo que aprenderei a ser bispo, junto com arcebispo e os outros bispos auxiliares que já servem aquela arquidiocese, de cuja missão e tradição viva quero participar ativamente! Espero contar com a ajuda de todos, pastores e fiéis, a fim de que a realização da vontade de Deus em minha vida se expresse no serviço concreto à Igreja, na entrega diária da vida e na busca perseverante da santidade. Precisarei da oração todos e da ajuda fraterna, a fim de que eu seja existencialmente configurado a Cristo, “Cabeça e Pastor do rebanho”.

Desejo também enviar uma especial saudação de paz a todo o povo da Região Episcopal Belém, seus padres, religiosas/os e agentes de pastoral; saudação ainda, e apreço, a todas as famílias, aos jovens e a todo homem e mulher que se coloca a serviço dos pobres, doentes e dos que sofrem na cidade de São Paulo.

Enfim, mesmo que meu coração esteja inteiramente afeiçoado a esta querida arquidiocese de Maringá, da qual sou filho e que servi como amor até agora, como padre, chegou para mim a hora de ouvir o novo chamado missionário de Deus e de partir para uma nova e mais empenhativa missão. Portanto, neste momento, uma só coisa me interessa: é fazer a vontade de Deus, como o Filho, ao ser enviado ao mundo, como missionário do Pai (cf. Hb 10,7); como o Beato José de Anchieta, missionário e fundador de São Paulo; como os santos Frei Galvão, Madre Paulina, beato Padre Mariano de la Mata e uma multidão de irmãos e irmãs, discípulos e missionários de Jesus Cristo na cidade de São Paulo. Ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, toda a glória na santa Igreja.

Maringá, PR, no Ano Sacerdotal, 30.12.2009
Padre Edmar Peron

Carta de D. Odilo sobre a transferência de D. Pedro Luiz e a nomeação do novo bispo da Região Belém

Aos Bispos Auxiliares,
Ao Clero, Religiosos
e todo o povo da Arquidiocese de São Paulo

No dia de hoje, o papa Bento XVI nomeou nosso estimado Dom Pedro Luiz Stringhini Bispo Diocesano de Franca, no Estado de São Paulo. Desejo manifestar minhas congratulações a Dom Pedro por esta nomeação e pela nova missão que recebe da Igreja, através do chamado do papa. Dom Pedro serviu a Arquidiocese como padre e, em seguida, como bispo auxiliar, por mais de 9 anos, respondendo pelo cuidado pastoral da Região Episcopal Belém e por vários encargos de âmbito arquidiocesano, como o acompanhamento das pastorais sociais.

Desejo expressar meu mais profundo agradecimento a dom Pedro Luiz pela sua dedicação generosa e entusiasta ao povo de Deus em São Paulo, pelo seu zelo em acompanhar a vida e a missão dos padres, dos religiosos e dos leigos, pelo seu amor e dedicada atenção aos pobres de nossa cidade.

Que o Espírito de Cristo o ilumine e fortaleça agora ainda mais no pastoreio da linda diocese de Franca! São José o proteja e o apostolo São Paulo lhe dê sempre coragem e vigor apostólico. Que Dom Pedro leve no seu coração a certeza de nossa fraterna estima e o carinho do clero e do povo de São Paulo.

Também hoje temos a grande alegria de já receber um novo bispo Auxiliar para a Arquidiocese de São Paulo: trata-se de Pe. Edmar Perón, um sacerdote do clero da arquidiocese de Maringá, PR, que, até agora, era reitor do seminário de teologia daquela arquidiocese em Londrina, PR e lá também professor de teologia na PUC-PR. Dom Edmar é muito bem-vindo como Auxiliar de São Paulo, onde será encarregado da Região Episcopal Belém.

Sua ordenação episcopal acontecerá no dia 28 de fevereiro (15h) em Maringá e a posse do ofício de Auxiliar da Arquidiocese, no dia 14 de março (11h) na Catedral metropolitana de São Paulo.

Deus seja louvado por esta nomeação de mais um bispo auxiliar para nossa Arquidiocese! Desde agora, convido toda a Arquidiocese a rezar por Pe. Edmar para que o Espírito de Deus o ilumine e enriqueça com seus dons para o exercício da missão episcopal!

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo

Novo bispo para a Região Belém

O papa Bento XVI nomeou o padre Edmar Perón, atual reitor do Seminário de Teologia de Maringá  (PR), para a função de bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, responsável pela Região Episcopal Belém. Pe. Edmar substituirá D. Pedro Luiz Stringhini, transferido para Franca, no interior paulista.

O anúncio foi feito nesta quarta-feira, 30/12, junto com outra nomeação e duas transferências de bispos.

Edmar Perón, nomeado bispo para a Região Episcopal Belém

Edmar Perón

O novo bispo da Região Belém é o primeiro dos quatro filhos de Leonildo Perón e Aparecida Besagio Perón. Natural de Maringá (PR), nasceu em 04 de março de 1965. Cursou filosofia no Seminário Maior Arquidiocesano Nossa Senhora da Glória – Instituto de Filosofia de Maringá [1983 -1985] e teologia no Seminário Paulo VI – Instituto Teológico Paulo VI de Londrina (PR) entre os anos de 1986 a 1989.

Monsenhor Edmar foi ordenado sacerdote em 21 de janeiro de 1990. Desde então serviu à arquidiocese de Maringá como diretor espiritual dos filósofos [1991 a 1997]. Ele também foi vigário paroquial e pároco em diversas paróquias; membro do Conselho Presbiteral e do Colégio de Consultores; assessor de Liturgia e Canto arquidiocesano por nove anos. Após seus estudos em Roma, entre os anos 2000 e 2002, onde fez o mestrado em teologia dogmática, especialização em teologia dos sacramentos, foi professor de teologia dogmática e liturgia, inicialmente no Instituto Teológico Paulo VI e, ultimamente, na PUC – PR – campus Londrina.

Durante os últimos três anos foi reitor do Seminário de Teologia Santíssima Trindade, da arquidiocese de Maringá, situado em Londrina.

Dom Pedro Luiz Stringhini

O bispo que deixa a Região Belém nasceu em 17 de agosto de 1953 em Laranjal Paulista, no interior de São Paulo. Ele é bispo auxiliar de São Paulo desde 18 de março de 2001, tendo se ordenado em São Paulo (SP) no dia 10 de março de 2001. Estudou Teologia na Faculdade Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo (SP) [1977 – 1980]; fez mestrado em Bíblia pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma [1986 – 1990] e doutorado em Teologia Bíblica [1994 – 1995] na Universidade Gregoriana de Roma, além de ter se formado em Letras, pela Faculdade Anchieta de São Paulo [1972 – 1974]. O lema de D. Pedro é “Em tua palavra (Lc 5, 5)”.

Outras mudanças

O papa anunciou também a transferência de Dom Vicente Costa, da diocese de Umuarama (PR) para a vacante diocese de Jundiaí (SP) e do  arcebispo de Palmas (TO), dom Alberto Taveira Corrêa, para a vacante Arquidiocese de Belém (PA).

Para bispo auxiliar de Goiânia (GO), foi nomeado o padre Waldemar Passini Dalbello, atualmente reitor do Seminário Interdiocesano São João Maria Vianney de Goiânia.

Dom Aloisio: medo do inferno

Desenbargador Luiz Ximenes

“O homem deixa de ser quem é pra transformar-se naquilo de que outros homens precisam”. Afonso Arinos de Melo Franco

Em 8 de outubro de 1924, no interregno entre as duas guerras mundiais, num pedaço da Germânia reproduzido no Rio Grande do Sul, mais precisamente na zona rural de Estrela e onde o português era idioma estrangeiro para os colonos de ascendência e fala alemãs, nasceu Leo Arlindo, o segundo dos nove filhos de José Aloysio e Verônica Lorscheider, agricultores como seus antepassados. Profundamente católicos, os pais do menino permitiram que aos nove anos ele ingressasse no seminário franciscano de Taquari, pra cursar o ginasial e o colégio. O medo do inferno, lugar pra onde, segundo sua crença, não iriam as almas dos sacerdotes, fortaleceu a vocação religiosa do seminarista, que fez o noviciado em 1942 e iniciou o curso de Filosofia. Em 1944 foi transferido para o convento Santo Antônio, em Divinópolis (MG), onde concluiu Filosofia e cursou Teologia. Em homenagem ao pai e ao irmão mais velho, adotou o nome religioso de Frei Aloísio ao ordenar-se sacerdote em 22 de agosto de 1948, na mesma Divinópolis, e retornou a Taquari, em cujo seminário lecionou latim, alemão e matemática. Vislumbrando seu grande potencial, a ordem franciscana enviou o jovem frade a Roma no final de 1948, para especializar-se em Teologia Dogmática. Em junho de 1952 defendeu a tese doutoral, obtendo o grau máximo, summa cum laude. De volta ao Brasil, lecionou Teologia e outras disciplinas canônicas em seminários seráficos durante seis anos, até ser chamado de volta a Roma, para ensinar Teologia Dogmática no mesmo Pontifício Ateneu Antoniano onde se doutorara.

Em 3 de fevereiro de 1962, o Papa João XXIII nomeou-o bispo da recém-criada Diocese de Santo Ângelo (RS). Sagrado em 20 de maio, adotou o sugestivo lema In Cruce Salus et Vita (Na Cruz, a Salvação e a Vida) e em 12 de junho, sem haver completado38 anos, tornou-se o primeiro bispo da Diocese que comandou durante 11 anos, até ser transferido a Fortaleza. Como padre conciliar, participou de todas as sessões do Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965.

A partir de 1968 integrou a cúpula da CNBB, como Sacerdote-Geral e como Presidente em dois mandatos consecutivos (1971-1975 e 1975-1978). Paralelamente em 1972 foi eleito primeiro Vice-Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM. Reeleito em 1975, assumiu em 14976 a Presidência desse Conselho, que reúne os bispos católicos da América Latina e do Caribe, substituindo Dom Eduardo Perônio, bispo de Mar Del Plata, nomeado Cardeal e transferido para o Vaticano. Expoente da Teologia da Libertação de defensor dos fracos e oprimidos, Dom Lorscheider tornou-se, como representante máximo do episcopado latino-americano, paladino dos direitos humanos e uma das principais vozes de oposição às ditaduras militares que grassavam pelo continente.

Em 4 de abril de 1973, a comunidade católica de fortaleza recebeu jubilosamente a notícia de que o Papa Paulo VI nomeara Dom Aloísio para suceder Dom José de Medeiros Delgado à frente da Arquidiocese. Vejamos, em suas próprias palavras, como encarou a mudança abrupta, verdadeiro choque cultural:

Quando eu chequei, tinham me avisado o seguinte: “O senhor vai para o Ceará, onde vai encontrar uma situação muito difícil”. […] Mas nunca encontrei essa situação tão difícil. Não sei de onde saiu essa idéia. Engraçado que fui enviado para cá

Para permanecer apenas cinco anos. Acabei ficando vinte e dois! […] Minha transferência foi uma mudança da noite para o dia. Sul e Nordeste são completamente diferentes. Aos poucos fui aprendendo. O que me ajudou muito foram as CEBs [Comunidades Eclesiais de Base], que no Sul não existiam desse jeito. Ao entrar em contato com o povo, eu não falava muito, muitas vezes ficava escutando. Até hoje, na igreja, esse deve ser o caminho. Perdemos esse hábito, mas acho isso fundamental, porque nos faz conhecer a religiosidade popular.

Ao defrontar-se com uma nova realidade, o Bispo aos poucos transformou seu modo de pensar e de agir:

No Sul parecia-me ter exercido muito mais o papel de quem ensina o que sabe, sem grandes preocupações com os problemas concretos do povo. Eu levava a fé ao povo como se leva uma receita já pronta, sem refletir mais detidamente sobre o seu significado. […] Eu era mais professor e dirigente de culto do que realmente evangelizador dentro da realidade vivida do povo. No Nordeste (Ceará – Fortaleza), em contato com outro tipo de Comunidade Eclesial de Base, nascida da necessidade de buscar solução cristã para problemas concretos da vida, o meu ministério episcopal, na sua tríplice função de ensinar, santificar e governar, foi adquirindo outra função.

Em pleno regime de exceção, a sociedade cearense logo sentiu os efeitos dessa guinada. As camadas desfavorecidas ou marginalizadas, os sem-terra, os sem-teto, os presos políticos, os presidiários comuns, os trabalhadores em greve – ganharam aliado de peso. A partir da experiência pioneira de Aratuba, expandiu o número e o raio de atuação das Comunidades Eclesiais de Base, o prestígio do cargo e a estrutura moral do Arcebispo, aliados à sua propensão para o diálogo, permitiram-lhe atuar com êxito em situações de conflito. Favelados da Av. José Bastos, lavradores de Palmácia, índios Tapeba de Caucaia, agricultores sem-terra de Canindé e Santa Quitéria, os hansenianos de Antônio Diogo, os presidiários – todos foram objetos de ações pessoais de diretas do Arcebispo.

É importante também ressaltar que, nos “anos de chumbo”, diante dos quadros mais críticos, das injustiças mais atrozes, dos maiores atentados à dignidade da pessoa humana, a figura de D. Aloísio se exponenciou na trincheira da resistência. É igualmente forçoso mencionar que nunca lhe faltou a atitude da interlocução e do diálogo altivo, mas sereno, no sentido da superação da injustiça e da busca do império da dignidade humana, do predomínio do bem sobre o mal. Enfim, foi líder da resistência civil sem perder o entendimento da natureza humana, no qual não pode prescindir o líder religioso, o pastor das almas transviadas.

Em sessão do Congresso Nacional, nos primeiros meses do ano corrente, prestou-se homenagem a D. Aloísio Lorscheider, o senador Tasso Jereissati, ao proferir discurso naquela ocasião, salientou que, em toda sua vida pública não conheceu “um homem maior do que D. Aloísio Lorscheider”, asseverando:

A sua importância na história do nosso Ceará ainda será conhecida como o grande transformador da mentalidade social e política e da consciência cristã no Estado do Ceará. A sua presença marcou uma verdadeira mudança de trajetória na organização e na consciência dos direitos das comunidades mais pobres, mais marginalizadas em nosso Estado e em nossa região.

Também recolho de Pedro Simon, senador pelo Rio Grande do Sul, conterrâneo do religioso, excerto das palavras com que, na mesma sessão do Congresso Nacional, procedeu ao elogio póstumo do hoje homenageado:

D. Aloísio não abandonou jamais a sua opção preferencial pelos pobres, nem quando bombas intimadoras foram atiradas nos seus jardins. Mesmo diante do principal chefe de repressão, sua voz, naturalmente doce, alterava-se apenas quando era preciso confrontar os vendilhões da Justiça. Foi assim quando Secretário e, depois, Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, foi assim nos anos difíceis da nossa história, quando todos os jardins da democracia corriam o risco de ser alvo de bombas atiradas pelos olhares fixos da repressão. Foi exatamente nesse momento da história, que a voz de D. Aloísio se alterou. E ecoou pelos corredores das prisões. (…). (…) Teve a coragem de colocar em debate temas polêmicos, inclusive, dentro da própria Igreja, e defendeu teses que contrariavam o Poder. Jamais se preocupou em tornar-se uma unanimidade. Se havia o contraditório tinha um único lado: o do bem, o da democracia, o da soberania, o da cidadania. Foi contumaz nos sentimentos de humildade e de perdão.

Paralelamente, não descurou da sua ação como pastor. Visitou tosas as paróquias do território arquidiocesano e assinou Cartas Pastorais densas em que eram traçados diagnósticos da situação e fixadas regras claras sobre animação da fé, catequese e liturgia. Dedicou atenção especial ao sacerdócio, aumentando sensivelmente o número de seminaristas e de ordenações. Acolheu os padres casados, consentindo que alguns deles ensinassem nos institutos de formação religiosa e chegando mesmo a participar de encontro do Movimento dos Padres Casados, no que foi censurado na Cúria Romana.

Três anos após a indicação para o Arcebispo de Fortaleza, Dom Aloísio foi nomeado Cardeal em 24 de abril de 1976, pelo Papa Paulo VI, recebendo a investidura um mês depois. Em 1978, tomou parte nos dois conclaves que elegeram os pontífices João Paulo I e João Paulo II. Apesar da voz corrente de que foi o único cardeal brasileiro a receber, até hoje, votos em eleição papal Dom Aloísio sempre negou veemente esse fato, considerando-o sem fundamento.

O chapéu cardinalício fez subir Dom Aloísio na hierarquia eclesiástica, mas em nada afetou sua humildade franciscana e suas convicções democráticas. Em sei diálogo com “O Grupo”, enfeixado no livro “Mantenham as Lâmpadas Acesas: Revisitando o Caminho, Recriando a Caminhada”, chega a ironizar:

Agora, esse negócio de ser cardeal! A única função que ele tem (se não tiver oitenta anos) é poder eleger o papa, só isso! O pessoal vem com aquelas histórias que tem que se enfeitar, não sei de quantas maneira. Meu pensamento hoje é que a Santa Sé deveria se perguntar se não chegou a hora de abolir o colégio cardinalício, porque não tem mais sentindo. Hoje temos os presidentes das Conferências Episcopais; esses seriam os homens indicados para a eleição do papa.

Em virtude da fragilidade de sua saúde, o Cardeal-Arcebispo solicitou em 1995 remoção para uma diocese com menor carga de trabalho. O Papa João Paulo II atendeu-o e foi transferido de Fortaleza pra a Arquidiocese de Aparecida, assumindo o novo posto em 18 de agosto daquele ano. Ao ser indagado sobre as medidas que tomaria para conter a evasão de fiéis católicos rumo a outras igrejas, o novo Arcebispo retrucou dizendo que havia um engano nessa informação: quem saiu da Igreja católica não foram os fiéis e , sim, os infiéis. A sábia resposta recebeu calorosos aplausos.

Em 2000, por haver ultrapassado a idade-limite, de 75 anos, anunciou sua renúncia, que somente foi aceita e janeiro de 2004 e formalizada em 25 de março do mesmo ano, com a transferência do comando a Arquidiocese para o sucessor, Dom Raymundo Damasceno Assis. O Arcebispo emérito retornou para o Convento dos Franciscanos em Porto Alegre, ao convívio dos seus irmãos de hábito. Em 23 de dezembro de 2007, antevéspera de Natal, às 5h30min, o príncipe da Igreja encerrou sua trajetória terrena.

Homem do diálogo, Dom Aloísio indicava essa prática como método aplicável à abordagem de todos os problemas, mesmo os mais embaraçosos. Opção preferencial pelos pobres, ecumenismo, magistério eclesiástico, papel dos leigos, inserção dos padres casados e das mulheres vocacionadas na ação eclesial, homossexualismo no clero e nos seminários – sobre esse e tantos outros temas Dom Aloísio emitiu opiniões sinceras e bastantes pessoais, que em muitos casos divergem da visão dominante na hierarquia católica.

Fiel a suas convicções e ao espírito de Medellín, Puebla e São Domingos, o Cardeal Lorscheider depositava grandes esperanças na restauração e ampliação do papel das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, que considerava adequadas a diversas pastorais, que deveriam tê-las como modelo para revigorar, no seio do catolicismo, o ardor missionário e evangelizador, hoje amortecido.

Traçado o perfil do homenageado, fica fácil explicar a razão que levou o Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, por votação unânime, atendendo proposição de seu Presidente, Atribuir ao Auditório principal da Corte o nome do insigne Dom Aloísio Cardeal Lorscheider. Um auditório caracteriza-se por ser um locus de diálogo, de transmissão de conhecimentos ou de diretrizes administrativas. Acresça-se o fato de o recinto estar situado no Palácio da Justiça, e que estão aqui congregadas quatro características vivenciadas pelo dignitário que homenageamos nesta expressiva solenidade: a valorização do diálogo, o magistério, a liderança democrática e o acendrado amor à justiça, tal como ensinada nos Evangelhos.

È, pois, com orgulho que, em nome do Poder Judiciário do Estado do Ceará, testemunho esta homenagem ao pastor que transfundiu para o rebanho o espírito missionário e evangelizador que o animava, ao teólogo competente que semeou a palavra de fé, da esperança e da caridade cristã, a par da luta política e civil, na busca da concretização daquele princípio que é o maior valor constitucional brasileiro, a dignidade da pessoa humana.

Não poderia deixar de ressaltar a atitude varonil de D. Aloísio no episódio do seqüestro de que foi vítima, quando cumpria a sua missão pastoral, visitando e consolando os encarcerados do Instituto Penal Paulo Sarasate. Pouco tempo depois do episódio, D. Aloísio voltava ao local do verdadeiro martírio a que foi submetido para, no gesto mais cristão que poderia realizar, generosamente lavar os pés dos detentos, alguns dos quais envolvidos na agressão que sofrera.

Com efeito, o sentimento de justiça que dominava a personalidade de D. Aloísio, com a realização cotidiana das bem-aventuranças evangélicas, tinha transcendência na compreensão mais larga do que é a justiça e do que são os direitos humanos. Assim é que, firme, pela palavra e pela ação, tornou a opção preferencial pelos pobres um manifesto e um programa, sem descurar da necessária ação política, em sentido largo, que deve ser imperativo imanente a tal opção. Nesse diapasão, não se intimidava em desfraldar as bandeiras da reforma agrária, da melhor distribuição da renda, da assistência aos necessitados, da melhoria do desumano sistema prisional que, talvez, seja o indicador mais solene da injustiça brasileira e do quanto se tem de fazer para a consecução do respeito à dignidade da pessoa humana.