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Papa: a Igreja não deve se isolar em um “microclima eclesiástico”

Na missa desta segunda-feira, na Casa Santa Marta, o Papa falou dos cristãos que correm o risco de se isolarem em um “microclima eclesiástico”, ou seja, que querem estar com Jesus, mas não com os pobres.

Para Francisco, a Igreja vive em todas as épocas a tentação de olhar para Jesus esquecendo de ver Nele o pobre que pede ajuda, fechando-se em um “microclima eclesiástico”, ao invés de se abrir aos excluídos sociais. A homilia foi inspirada em uma das páginas mais intensas do Evangelho, cujo protagonista é o cego de Jericó.

O cego, explicou o Papa, representa “a primeira classe de pessoas” que povoa a narração do evangelista Lucas. Um homem que não contava nada, mas que “tinha sede de salvação”, “de ser curado”, e que, portanto, grita mais forte do que o muro de indiferença que o circunda, “para bater à porta do coração de Jesus”. A este homem se opõe o círculo dos discípulos, que querem calá-lo para evitar que incomode e, assim – afirmou o Papa – afastar “o Senhor da periferia”:

Esta periferia não podia chegar ao Senhor, porque este círculo – mas com muita boa vontade, hein – fechava a porta. E isso acontece com frequência entre nós, fiéis: quando encontramos o Senhor, sem que percebamos, se cria este microclima eclesiástico. Não só os padres, os bispos, mas também os fiéis: ‘Mas nós somos os que estão com o Senhor’. E de tanto olhar para Ele, não olhamos para as suas necessidades: não olhamos para o Senhor que tem fome, que tem sede, que está na prisão, que está no hospital. ‘Aquele Senhor não, pois é um marginalizado’. E este clima nos faz tão mal”.

A seguir, o Papa descreveu o grupo dos que se sentem eleitos pelo Senhor e que, por isso mesmo, querem afastar qualquer pessoa que posa incomodá-Lo – inclusive as crianças. Essas pessoas, observou, esqueceram e abandonaram o primeiro amor:

Quando na Igreja os fiéis, os ministros se tornam assim… não eclesial, mas ‘eclesiástico’, de privilégio de proximidade ao Senhor, têm a tentação de esquecer o primeiro amor, aquele amor tão bonito que todos nós recebemos quando Ele nos chamou, nos salvou. Esta é uma tentação dos discípulos: esquecer o primeiro amor, ou seja, esquecer inclusive as periferias, onde eu me encontrava, e também me envergonhar disso”.

Há ainda o terceiro grupo nesta narração: o povo simples, que louva a Deus pela cura do cego. “Quantas vezes, afirmou o Papa, encontramos pessoas simples, quantas idosas que caminham, com sacrifício, para rezar em um santuário de Nossa Senhora”. “Não pedem privilégios, mas somente graça”. É o “povo fiel”, que “sabe seguir o Senhor sem pedir qualquer privilégio”, capaz de “perder tempo com Ele” e, sobretudo, de não esquecer a “Igreja marginalizada” das crianças, dos doentes, dos prisioneiros. O Papa então conclui:

Peçamos ao Senhor a graça de que todos nós, que temos a graça de sermos chamados, de jamais nos afastar desta Igreja; de jamais entrar neste microclima dos discípulos eclesiásticos, privilegiados, que se afastam da Igreja de Deus, que sofre, que pede salvação, que pede fé, que pede a Palavra de Deus. Peçamos a graça de ser povo fiel de Deus, sem pedir ao Senhor qualquer privilégio que nos afaste de Seu povo”.

Fonte: News.va

O evangelho de Aparecida

Dom Demétrio Valentini

Com a realização, em Aparecida, da V Conferência Latino Americana em 2007, e com a visita do Papa nesse ano ao Santuário Nacional, a festa de Nossa Senhora Aparecida recebeu um destaque especial. Aparecida está se tornando uma referência, não só para a Igreja no Brasil, mas também a Igreja na América Latina, com repercussões positivas em âmbito mundial.

Este destaque se deve, sobretudo, ao “relato de Aparecida”. Trata-se da narrativa dos episódios que compuseram o cenário do encontro da pequena imagem no Rio Paraíba. Estes episódios foram compondo uma espécie de nova “parábola evangélica”, feita de circunstâncias bem concretas, de início ligadas aos pobres pescadores, mas em seguida envolvendo mais pessoas, até a imagem ser reconhecida como um símbolo carregado de mensagens positivas.

Pela maneira como os fatos foram encadeados, a história de Aparecida se reveste de uma singularidade muito especial. Ela assume características bem evangélicas. Ela continua a dinâmica do Evangelho. Em suas parábolas, Cristo sabia organizar suas narrativas de modo a transmitirem a mensagem que ele queria expressar. Assim dá para reconhecer no relato de Aparecida um fio condutor, apontando para valores evangélicos bem evidentes.

Aparecida tem como fato desencadeador da interpretação religiosa, circunstâncias que fazem parte da realidade cotidiana, de consistência indiscutível. É dessas circunstâncias reais e concretas que se fez a costura de todo o episódio. Baseado, portanto, em cenas da vida real, como Cristo fazia em suas parábolas.

Neste sentido, Aparecida não parte de fatos extraordinários, que envolvem a subjetividade das pessoas, como são as “aparições”, sempre necessitadas de discernimento eclesial para serem aceitas.

Aparecida não teve nenhuma “aparição”. Sua mensagem se assenta em dados reais. O Rio Paraíba continua lá, a pequena imagem também, revestida agora do manto que expressa a respeitosa acolhida do mistério, detectado pelos simples pescadores, iluminados por sua fé.

O relato de Aparecida, se constitui, na verdade, em exemplo de como perceber a presença do mistério, nas circunstâncias cotidianas da vida. É um relato que não apela, em nenhum momento, para episódios fora da normalidade. Aparecida nos ensina a perceber a presença do mistério de Deus no cotidiano da vida.

O Papa Francisco, em sua homilia aos Bispos do Brasil, no Rio de Janeiro, fez uma exímia interpretação mística de todo o relato de Aparecida. Ele estruturou esse relato em forma de verdadeira parábola, na qual ele se permitiu ir tirando, de imediato, as lições práticas dos diversos momentos do episódio.

Desde o achado da imagem. Mesmo fragmentada, foi acolhida com respeito pelos pescadores. Em sua fé simples e profunda, souberam valorizar o pequeno símbolo imerso nas águas. Eles mesmos o recompuseram, com sua iniciativa de unir corpo e cabeça. Tiveram cuidado e carinho para com a pequena imagem assim recomposta. Eles a acolheram, protegendo-a, e cobrindo-a com um manto. Assim ela se tornou motivo de atração de outras pessoas, que passaram a se reunir em torno dela, suscitando a necessidade de erguer uma pequena capela, desencadeando o processo de ampliação e difusão de sua mensagem.

Aparecida nos ensina uma grande lição. As circunstâncias concretas de nossa vida, são matéria prima para a permanente parábola evangélica, que somos todos chamados a reescrever. Quanto mais simples forem os episódios desta parábola, mais próximos estarão do Evangelho. Pois Deus continua preferindo o caminho da simplicidade e da pobreza para ele mesmo realizar suas maravilhas, como Maria reconheceu antes de todos!

A Igreja e a alegria pascal

Maria Clara Bingemer

Mais uma vez celebrando a Páscoa, a Igreja cantará e se alegrará com a ressurreição do Crucificado Jesus de Nazaré, arrancado às garras da morte pelo Pai, que enfim revela-se como Deus dos vivos e não dos mortos. Mais uma vez a comunidade eclesial reunida acenderá suas velas no Círio que simboliza a luz de Cristo e todo o recinto antes escuro se iluminará.

O mestre de canto entoará o Exsultet com júbilo e deslumbramento, constatando que seu Senhor cumpriu todas as promessas que fez e não permitiu que seu Eleito conhecesse a corrupção e a derrota da morte. E neste canto litúrgico proclamará: Que a Mãe Igreja alegre-se igualmente, erguendo as velas deste fogo novo, / E escutem reboando de repente o aleluia cantado pelo povo.

E talvez há muito tempo este canto não seja tão verdadeiro quanto nesta Páscoa que em 2013 celebramos. Porque talvez nunca uma Quaresma tenha sido tão intensa e por isso mesmo seu pascal desfecho excede em alegria e esperança. A Igreja Católica vem vivendo um verdadeiro processo pascal e agora celebrará com maior e renovado júbilo este momento de Ressurreição.

No dia 11 de fevereiro, ainda em pleno Carnaval, Bento XVI renunciou a seu cargo de Bispo de Roma que preside todas as Igrejas. A cátedra de Pedro ficou vazia enquanto a perplexidade tomava conta de mentes e corações pelo mundo afora. Os dias que se seguiram foram de desolação ao conhecer muitas das razões do corajoso gesto do Papa hoje emérito. Mas também de especulações tateantes e conjeturas sobre quem seria seu sucessor e o que representaria neste momento difícil da Igreja.

A comunidade eclesial no mundo inteiro voltava seus olhos para Roma onde uma situação nunca antes vivida acontecia. Tornava-se ciente das sombras que se haviam abatido sobre esta instituição que é a mais antiga da história da humanidade e que parecia a muitos inexpugnável a fatos dolorosos e obscuros como os que a mídia trazia à luz. A sociedade secular também se interessava. E multiplicavam-se ao redor do mundo as perguntas, o espanto, a espera.

Ao terminar o conclave, a fumaça branca foi festejada não apenas pelos católicos, mas por todos os que sabem a importância que tem o Cristianismo na história e na cultura do Ocidente. Todos os homens e mulheres de boa vontade que ainda que não se sintam membros plenos desta Igreja percebiam dentro de si um sentimento de orfandade com todas as vicissitudes que a golpeavam. A fumaça branca anunciava que havia novo Papa, que a sé de Pedro já não estava vazia. Mas quem a ocuparia.

O anúncio da alegria foi feito com voz trêmula pelo cardeal francês. O nome pronunciado – Jorge Mario Bergoglio – intrigou a muitos, surpreendeu a tantos. O silêncio desceu sobre o mundo enquanto se esperava que o novo Papa se apresentasse. E Francisco chegou ao balcão do Vaticano. Com voz acolhedora e alegre saudou: “Boa noite”. E, antes de abençoar, pediu oração e bênção para si próprio. Estava proclamado um novo tempo pascal para a Igreja que voltava a respirar esperança e júbilo.

A partir daí, a simplicidade e o estilo despojado do novo Papa têm encantado a todos. Suas palavras são pontuadas por uma preocupação central: os pobres. E todos que o ouvimos descobrimos que saudades tínhamos de ouvir essa palavra presente e reincidente nos lábios do Pastor. Vindo do Sul, “do fim do mundo”, onde a pobreza e a injustiça fazem seu trabalho predatório a cada dia sobre as vidas humanas, Francisco não esquece e não deixa esquecer a serviço de quem está a Igreja que preside na caridade. E sua fé proclama que estes que o mundo considera últimos são e devem ser, na verdade, os mais queridos de Deus, os preferidos. E, portanto devem ser a opção primeira e preferencial da Igreja de Cristo.

Com ele e por causa dele, podemos na vigília pascal cantar com verdade e alegria autênticas: Ó noite de alegria verdadeira, Que prostra o Faraó e ergue os hebreus, Que une de novo ao céu a terra inteira, Pondo na treva humana a luz de Deus. Francisco até agora não tem deixado de nos lembrar que o Evangelho que professamos nos leva necessariamente a erguer os caídos e cuidar das vítimas. As três palavras que disse aos cardeais como um programa – caminhar, edificar, confessar – necessariamente levarão a Igreja de volta à primavera do Concílio.

E a Mãe Igreja então se alegrará e cantará aleluia! porque redescobrirá sua vocação de ser uma Igreja pobre e para os pobres. Feliz Páscoa para todos e todas!

A vida da Irmã Dulce em vídeo

A TV Canção Nova resgata a história da Irmã Dulce, o “anjo bom do Brasil”, em quatro vídeos, desde a infância, a fé e o envolvimento com os pobres até as obras sociais que ela inspirou.

>> Parte 1 – Infância e adolescência

>> Parte 2 – Trabalho com os pobres

>> Parte 3 – Uma vida de oração

>> Parte 4 – Obras sociais

Desafios para a Presidenta Dilma Rousseff

Leonardo Boff

Celebramos alegremente a vitória de Dilma Rousseff. E não deixamos de folgar também pela derrota de José Serra que não mereceu ganhar esta eleição dado o nível indecente de sua campanha, embora os excessos tenham ocorrido nos dois lados. Os bispos conservadores que, à revelia da CNBB, se colocaram fora do jogo democrático e que manipularam a questão da descriminalização do aborto, mobilizando até o Papa em Roma, bem como os pastores evangélicos raivosamente partidizados, saíram desmoralizados.

Post festum, cabe uma reflexão distanciada do que poderá ser o governo de Dilma Rousseff. Esposamos a tese daqueles analistas que viram no governo Lula uma transição de paradigma: de um Estado privatizante, inspirado nos dogmas neoliberais, para um Estado republicano que colocou o social em seu centro para atender as demandas da população mais destituída. Toda transição possui um lado de continuidade e outro de ruptura. A continuidade foi a manutenção do projeto macroeconômico para fornecer a base para a estabilidade política e exorcizar os fantasmas do sistema. E a ruptura foi a inauguração de substantivas políticas sociais destinadas à integração de milhões de brasileiros pobres, bem representadas pela Bolsa Familia entre outras. Não se pode negar que, em parte, esta transição ocorreu pois, efetivamente, Lula incluiu socialmente uma França inteira dentro de uma situação de decência. Mas desde o começo, analistas apontavam a inadequação entre projeto econômico e o projeto social. Enquanto aquele recebe do Estado alguns bilhões de reais por ano, em forma de juros, este, o social, tem que se contentar com bem menos.

Não obtante esta disparidade, o fosso entre ricos e pobres diminuiu o que granjeou para Lula extraordinária aceitação.

Agora se coloca a questão: a Presidenta aprofundará a transição, deslocando o acento em favor do social onde estão as maiorias ou manterá a equação que preserva o econômico, de viés monetarista, com as contradições denunciadas pelos movimentos sociais e pelo melhor da inteligentzia brasileira?

Estimo que Dilma deu sinais de que vai se vergar para o lado do social-popular. Mas alguns problemas novos como aquecimento global devem ser impreterivelmente enfrentados. Vejo que a nova Presidenta compreendeu a relevância da agenda ambiental, introduzida pela candidata Marina Silva. O PAC (Projeto de Aceleração do Crescimento) deve incorporar a nova consciência de que não seria responsável continuar as obras desconsiderando estes novos dados. E ainda no horizonte se anuncia nova crise econômica, pois os EUA resolveram exportar sua crise, desvalorizando o dólar e nos prejudicando sensivelmente.

Dilma Rousseff marcará seu governo com identidade própria se realizar mais fortemente a agenda que elegeu Lula: a ética e as reformas estruturais. A ética somente será resgatada se houver total transparência nas práticas políticas e não se repita a mercantilização das relações partidárias (“mensalão”).

As reformas estruturais é a dívida que o governo Lula nos deixou. Não teve condições, por falta de base parlamentar segura, de fazer nenhuma das reformas prometidas: a política, a fiscal e a agrária. Se quiser resgatar o perfil originário do PT, Dilma deverá implementar uma reforma política. Será dificil, devido aos interesses corporativos dos partidos, em grande parte vazios de ideologia e famintos de benefícios. A reforma fiscal deve estabelecer uma equidade mínima entre os contribuintes, pois até agora poupava os ricos e onerava pesadamente os assalariados. A reforma agrária não é satisfeita apenas com assentamentos. Deve ser integral e popular levando democracia para o campo e aliviando a favelização das cidades.

Estimo que o mais importante é o salto de consciência que a Presidenta deve dar, caso tomar a sério as consequências funestas e até letais da situação mudada da Terra em crise sócio-ecológica. O Brasil será chave na adaptação e no mitigamento pelo fato de deter os principais fatores ecológicos que podem equilibrar o sistema-Terra. Ele poderá ser a primeira potência mundial nos trópicos, não imperial mas cordial e corresponsável pelo destino comum. Esse pacote de questões constitui um desafio da maior gravidade, que a nova Presidenta irá enfrentar. Ela possui competência e coragem para estar à altura destes reptos. Que não lhe falte a iluminação e a força do Espírito Criador.

Mensagem da CNBB para o Dia do Trabalhador

“O salário que vós deixastes de pagar está gritando e o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor” (Tg 5,4).

Ao celebrar o Dia do Trabalhador, a CNBB confirma seu compromisso em favor dos direitos sociais do povo e, em especial, dos direitos trabalhistas e dos esforços para consolidar as suas organizações. Expressa também a solidariedade com todos os desempregados, vítimas da crise ou dos que se aproveitam dela. Os princípios da Doutrina Social da Igreja – a dignidade da pessoa humana, a destinação universal dos bens da terra e a prioridade do trabalho sobre o capital – inspiram alternativas para uma nova ordem econômica, em vista de um mundo justo e solidário.

Neste ano, o dia 1º de maio acontece no contexto da crise que assola o conjunto da economia mundial. A crise mostra a sua face mais cruel ao se deslocar do capital financeiro para o setor produtivo, dizimando milhares de postos de trabalho, na cidade e no campo. Os países e as populações pobres sofrem mais diretamente as conseqüências do atual modelo capitalista de desenvolvimento, incapaz de assegurar a dignidade humana, garantir os direitos sociais básicos e preservar a vida em nosso planeta.

Na origem da crise estão o sistema neoliberal globalizado e a falta de ética na economia e na regulamentação do mercado, gerando corrupção e especulação. O mercado financeiro, na medida em que comanda as relações dos seres humanos entre si e com a natureza, reforça o consumismo comprometendo a justiça social e o equilíbrio ambiental. A crise financeira e econômica é apenas uma parte da crise mais profunda que é social, política, cultural, ambiental, ética e espiritual. Todas essas dimensões devem ser consideradas com coragem e lucidez, na busca de uma saída sustentável.

A crise atinge, sobretudo, os trabalhadores, os pobres, as pequenas e médias empresas. Os bancos recebem verbas milionárias dos governos para salvar o sistema financeiro. No entanto continuam as demissões, levando muitas pessoas a buscarem sua sobrevivência no trabalho informal. Tal situação corre o risco de ser agravada, caso seja aprovada a Proposta de Emenda Constitucional sobre a Reforma Tributária, do modo como está sendo apresentada. Ela atingiria o cerne do sistema de Seguridade Social e reduziria gravemente a proteção de mais de 36 milhões de trabalhadores aposentados e pensionistas.

Os tempos atuais, mesmo difíceis, representam oportunidades para as mudanças necessárias em direção a uma nova ordem econômica. Nesse contexto, a Igreja faz ressoar o clamor dos trabalhadores por vida e dignidade. As aspirações do povo trabalhador, por meio de suas organizações, indicam caminhos para a consolidação dos direitos, tais como: não às demissões, valorização das aposentadorias, queda nos juros, redução da jornada de trabalho sem redução dos salários, reforma agrária e fortalecimento da agricultura familiar e agro-ecológica, combate ao trabalho escravo e degradante, valorização dos movimentos de trabalhadores desempregados, incentivo às iniciativas de economia popular solidária, investimento nas políticas públicas de saúde, educação e moradia.

A CNBB convida trabalhadoras e trabalhadores a manterem viva a fé, a esperança e a alegria em Jesus Cristo Ressuscitado. Que Nossa Senhora Aparecida e São José Operário, o Carpinteiro de Nazaré, intercedam junto a Deus, a fim de que as mais copiosas bênçãos sejam derramadas sobre todos os que, irmanados pelos laços do trabalho, constroem o nosso País.

Indaiatuba- SP, 28 de abril de 2009.

Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana-MG
Presidente da CNBB

Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus-AM
Vice-Presidente da CNBB

Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro-RJ
Secretário Geral da CNBB

O deserto fértil de Dom Helder

Eugênio Mattos Viola

“Se eu dou comida a um pobre, me chamam de santo, mas se eu pergunto por que ele é pobre, me chamam de comunista”.

Talvez essa frase possa servir como síntese da vida de Helder Pessoa Camara, nascido em 7 de fevereiro de 1909, em Fortaleza, no Ceará.

Combatido pelas elites insensíveis ao sofrimento humano e carregando a cruz do preconceito, ele não se deixou abater e chegou a ser indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz. Percorreu o mundo na luta contra todo tipo de opressão. Mereceu o reconhecimento internacional, enquanto no Brasil seu nome era proibido de ser mencionado pela mídia durante mais de dez anos, no triste período de total cerceamento da ditadura militar, em seguida ao AI-5, em 1968. “A justiça e a paz serão estabelecidas ao fim de tortuoso caminho, de longas marchas e contramarchas em que os homens se irão depurando dos ódios, das vaidades e dos preconceitos. Se o ódio pode ser mais forte e intenso do que o amor, num curto espaço de tempo, só o amor construirá para sempre”, escrevia o editor Ênio Silveira na apresentação de um dos livros de Dom Helder (O Deserto é Fértil), publicado pela Civilização Brasileira, naquele período de trevas. Como Gandhi, abraçou a Perseverança – a Força da Verdade (Satyagraha). Sabia discernir com sua abençoada sabedoria a diferença entre a caridade, que vê no pobre apenas o objeto de sua generosidade – do expurgo de suas culpas conscientes e inconscientes -, daquela que é a verdadeira caridade: a que tenta resgatar os desamparados, ofertando possibilidades concretas de alcançar o que não lhe foi proporcionado na infância ou ao longo da vida, como direito à educação, saúde, salário digno, moradia descente, Ou seja, Esperança e não apenas esmola.

Ordenado padre em 15 de agosto de 1931, em 1952 era nomeado bispo-auxiliar no Rio de Janeiro. Participou da criação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM). Dom Helder alcançou altos cargos na hierarquia eclesial, mas a humildade nunca o afastou do povo de Deus. Teve influência marcante nos novos rumos adotados pela Igreja durante e pós o Concílio Vaticano II, que abriu as janelas do Vaticano para que os ventos da História tirassem a poeira do trono de Pedro. Seu espírito se manifestou leve e sábio nos tantos livros que deixou publicado. Os profetas não se calam. Tornam o deserto fértil, mesmo sob o martírio.

“É bom que ninguém se iluda, ninguém aja de maneira ingênua: quem escuta a voz de Deus e faz sua opção interior e arranca-se de si e parte para lutar pacificamente por um mundo mais justo e mais humano, não pense que vai encontrar caminho fácil, pétalas de rosa debaixo dos pés, multidões à escuta, aplausos por toda a parte e, permanentemente, como proteção decisiva, a Mão de Deus. Quem se arranca de si e parte como peregrino da Justiça e da Paz, prepare-se para enfrentar desertos”. E ele soube enfrentar os desertos com firmeza e mansidão de espírito.

Schopenhauer dizia que “talento é quando um atirador atinge um alvo que os outros não conseguem. Gênio é quando um atirador atinge um alvo que os outros não vêem”. Quando muitos se esforçavam para ‘catequizar’ os jovens, Dom Helder enxergava além e serenamente apontava o caminho: “Os jovens estão sempre com suas antenas ligadas, e sabem muito bem como captar os sinais do amor apaixonado e apaixonante de Deus. Por que falar sempre de ‘prática religiosa’e jamais de ‘prática evangélica’, feita de amor e de coragem, sempre a serviço dos outros? Ao que tudo indica, essa prática não foi abandonada. Muito pelo contrário, eu a vejo em plena ação por onde quer me passe. Se os jovens vão menos à igreja, talvez seja porque nela não encontram adequadamente reunidas a Vida e o Evangelho”. Era uma visão profética, nos idos de 70, do esvaziamento dos templos e seminários, principalmente na Europa e na América do Norte, como constata-se atualmente.”O desespero, na juventude, é a coisa mais terrível que há, tão terrível que mal posso pensar nisso. E, no entanto, me dizem que ele existe aqui, que está ao lado e em torno de vocês! Exorto-vos a não aceitarem de braços cruzados, jamais! A pior coisa que se pode retirar de um jovem é sua esperança no futuro. Tenham coragem e firmeza para auxiliá-los a reconquistá-la”.

Como diz Frei Betto “procura-se incutir nos jovens a idéia de que não adianta querer mudar o mundo, exceto no que se refere à tecnologia e à ciência. Mas há os jovens que lutam por ‘um outro mundo possível’, que preferem injetar utopia na veia do que drogas”. E Dom Helder foi um eterno jovem. A santa utopia corria em suas veias, em seu coração, em suas palavras, dando o fôlego necessário para enfrentar desertos e tempestades.

Não é difícil imaginar o quanto seria enriquecedora a participação de Dom Helder nas atuais divergências entre os irmãos Clodovis Boff e Leonardo Boff sobre a teologia da libertação.

“Não devemos ficar tão presos assim às palavras. É possível que muitas pessoas não hajam compreendido bem a essência da ‘teologia da libertação’, pois ouviram dizer que ela tinha influência marxista, ou coisa parecida. Mas há também os que a entendem, adequadamente, como a redescoberta do poder revolucionário do amor de Deus na história dos homens, o que lhes parece muito perigoso. É por isso que se vê tanto debate em torno da ‘teologia da libertação’, embora seja indiscutível que o Cristo queira que todos os homens lutem pela libertação de seus semelhantes. O progresso humano, a campanha contra as causas das injustiças, a conquista da dignidade, são a maneira mais direta dos homens poderem cooperar para a sua própria redenção e salvação, causas pelas quais o Senhor deu sua vida”. Sem aprofundar muito os pontos de vista levantados por cada um, observo que a síntese do pensamento de Clodovis é de que o pobre não leva necessariamente ao Cristo. O pobre estaria ocupando lugar do Cristo, o que seria uma heresia. Enquanto a visão de Leonardo é justamente contrária, de que “o Cristo leva necessariamente ao pobre, é a Face do Cristo. Diante dessa polêmica, bem ressaltou o teólogo José Comblin: “Quem vai sofrer com essas controvérsias, são os pobres. Os teólogos têm comida garantida, casa garantida. Se são condenados, não vão sofrer muito. Quem vai sofrer serão os pobres na medida em que a Igreja se desinteressa deles por medo de cair numa heresia. Sempre ouvi Gustavo Gutiérrez dizendo que a teologia da libertação pode morrer e não importa. O que importa, são os pobres. Para um cristão a teologia é algo completamente secundário e dispensável. Mas os pobres não são dispensáveis. Não se pode ser cristão sem acolher a mensagem que vem dos pobres”.

Quem terá perdido um pouco da Compaixão? Quem teria trocado – como os fariseus-, o Amor pela Lei? Os que acusam os teólogos da libertação de terem se valido de elementos do marxismo na leitura da História ou os que propõem uma atuação pastoral vertical, voltada para uma dimensão que coloca em segundo plano a Condição Humana?

O que é inquestionável é que a Conferência de Medellín, em 1968, foi o ‘aggionarmento’ da Igreja na América Latina, deixando no passado uma atuação condenável em relação aos índios, aos escravos, aos desamparados, firmando pacto com os Estados e a aristocracia, com as forças opressoras que de cristã nada tinham. Essa chama não pode morrer, ainda que muitos apontem que haveria ‘poeira ideológica’. É um debate rico, que convida à participação até de ‘não-crentes’ na busca de um mundo mais digno e fraterno, como fez o Cardeal Carlo Maria Martini ao se abrir no belo diálogo epistolar com o escritor Umberto Eco no livro “Em que crêem os que não crêem?”. Dom Helder com o olhar voltado para o Ecumenismo já tinha declarado anos antes: “desculpem-me se porventura lhes dei a impressão de que apenas os crentes, os cristãos, é que podem trabalhar por um mundo melhor. Não é assim que penso de modo algum. Quando olho em torno de mim, logo percebo que nem todos os que se dizem crentes têm esperança verdadeira de paz, justiça e felicidade para os homens, para os que vivem nesse mundo de riscos e incertezas, ao passo que muitos daqueles que em nada crêem, que sequer reconhecem a existência de Deus, estão dispostos a participar nos combates da esperança sem receio de colocar suas próprias vidas em jogo. Bem imagino a surpresa que muitos terão quando souberem que o Senhor dirá àqueles que sem O conhecerem – ou reconhecerem – viveram a fraternidade universal: ‘Agradeço-vos por me terdes acolhido, tratado, vestido, alimentado, defendido e amparado contra a injustiça’. Muitos cristãos, muitos católicos terão surpresa ao constatar que não serão eles os únicos convidados a entrar na casa Pai. Pois o coração do Pai é muito mais amplo do que os registros de todas as paróquias do mundo, e o Espírito Santo sopra em todas as direções, mesmo aquelas onde os pés dos missionários não tenham ainda pousado”.

Nesses dias de angústia em que nos sentimos impotentes diante do ‘holocausto dos palestinos’, da fúria israelense sobre Gaza – sem poupar crianças, mulheres e idosos -, Dom Helder dizia ‘por mais que o homem avance na ciência e na técnica, enquanto houver guerras no mundo daremos um triste atestado de falta de amadurecimento espiritual’.

Como as muitas vozes que hoje apontam para a urgência de aprofundamento dos avanços do Concílio Vaticano II de João XXIII, como a necessidade do fim do celibato, da eleição direta dos bispos, da maior participação dos leigos na construção do Reino, da maior inserção das mulheres na hierarquia eclesiástica, do fim da condenação ao homossexualismo. Como as vozes dos apaixonados pela Igreja, que enxergam além de nosso tempo cronológico e sofrem com o esvaziamento dos templos, abrindo espaço ao surgimento e fortalecimento dos falsos pastores e profetas que arrebatam multidões aflitas e assumem o controle da mídia. Como vozes que não atingem o coração da Cúria Romana e são até perseguidos. Como vozes que vêem da América Latina do bispo Dom Clemente Isnard ou da Europa do Cardeal Martini, Dom Helder também já havia se manifestado e deixado como legado em sua biografia espiritual: “sou um velho bispo, e não tenho receio em pedir-lhes que jamais se conformem com as fraquezas, os compromissos, ou talvez até mesmo com as traições da Igreja, assim como jamais perderem a confiança no Espírito do Senhor, que sempre está dentro dela”.

Certa vez, questionado por um grupo de jovens franceses sobre a razão de Deus permitir o sofrimento humano, Dom Helder despiu-se de todas as doutrinas, de toda fria intelectualidade e, numa demonstração de humildade, de quem também chorou no Monte das Oliveiras, respondeu: “Eu bem que gostaria, quando chegar a minha hora de partir para a eternidade, de levar comigo um bom número de perguntas que desejo fazer, um bom número de questões sobre as quais preciso ser esclarecido, um bom número de hipóteses que pretendo verificar. E isso sem falar nos mistérios que jamais chegarei a esclarecer, a respeito dos esforços que Deus faz para ser entendido perfeitamente. Bem sabemos que o Senhor conheceu o sofrimento. Ele foi capaz de chorar. Ele teve de alimentar, de curar, de consolar. Ele já teve de reconduzir um filho aos braços de seus pais. No entanto, quando a agonia O acometeu, Ele próprio não teve dúvida em implorar piedade. Ele jamais nos disse que o sofrimento era bom, necessário ou Justo”.

Dom Helder Camara foi ao encontro do Senhor no dia 28 de agosto de 1999, aos 90 anos de idade. Para ele, já não há mais mistérios ou dúvidas. Para nós, ficou a certeza de uma vida dedicada em plenitude ao amor, humildade e fé. Em fevereiro do ano passado, a Comissão Nacional de Presbíteros, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), encaminhou à Congregação para a Causa dos Santos o pedido de beatificação de Dom Helder Pessoa Camara. Em seu deserto, nasceram flores.

(Eugênio Mattos Viola é jornalista e o artigo acima foi publicado originalmente na Agência Adital)