crise

O legado da crise atual: rever e reinventar conceitos

Leonardo Boff

Nutro a convicção, partilhada por outros analistas, de que a crise sistêmica atual nos deixará como legado e desafio a urgência de repensar a nossa relação para com a Terra, para com os modos de produção e consumo, reinventar uma forma de governança global e uma convivência que inclua a todos na única e mesma Casa Comum. Para isso é forçoso rever conceitos-chaves, que como bússola nos possam apontar um novo norte. Boa parte da crise atual se deriva de premissas falsas.

O primeiro conceito a rever é o de desenvolvimento. Na prática ele se identifica com o crescimento material, expresso pelo PIB. Sua dinâmica é ser o maior possível, o que implica exploração desapiedada da natureza e a geração de grandes desigualdades nacionais e mundiais. Importa abandonar esta compreensão quantitativa e assumir a qualitativa, esta sim como desenvolvimento, bem definido por Amartya Sen (prêmio Nobel) como “o processo de expansão das liberdades substantivas”, vale dizer, a ampliação das oportunidades de modelar a própria vida e dar-lhe um sentido que valha a pena. O crescimento é imprescindível; pois, é da lógica de todo ser vivo, mas só é bom a partir das interdependências das redes da vida que garantem a biodiversidade. Em vez de crescimento/desenvolvimento deveríamos pensar numa redistribuição do que já foi acumulado.

O segundo é o manipulado conceito de sustentabilidade que, no sistema vigente, é inalcançável. Em seu lugar deveríamos introduzir a temática, já aprovada pela ONU, dos direitos da Terra e da natureza. Se os respeitássemos, teríamos garantida a sustentabilidade, fruto da conformação à lógica da vida.

O terceiro é o de meio-ambiente. Este não existe. O que existe é o ambiente inteiro, no qual todos os seres convivem e se interconectam. Em vez de meio ambiente faríamos melhor usar a expressão da Carta da Terra: comunidade de vida. Todos os seres vivos possuem o mesmo código genético de base, por isso todos são parentes entre si: uma real comunidade vital. Este olhar nos levaria a ter respeito por cada ser, pois tem valor em si mesmo para além do uso humano.

O quarto conceito é o de Terra. Importa superar a visão pobre da modernidade que a vê apenas como realidade extensa e sem inteligência. A ciência contemporânea mostrou e isso já foi incorporado até nos manuais de ecologia, que a Terra não só tem vida sobre ela, mas é viva: um superorganismo, Gaia, que articula o físico, o químico e as energias terrenas e cósmicas para sempre produzir e reproduzir vida. Em 22 de abril de 2010 a ONU aprovou a denominação de Mãe Terra. Este novo olhar, nos levaria a redefinir nossa relação para com ela, não mais de exploração; mas, de uso racional e respeito. Nossa mãe a gente não vende nem compra; respeita e ama. Assim com a Mãe Terra.

O quinto conceito é o de ser humano. Este foi na modernidade pensado como desligado, fora e acima da natureza, fazendo-o “mestre e senhor” dela (Descartes). Hoje o ser humano está se inserindo na natureza, no Universo e como aquela porção da Terra que sente, pensa, ama e venera. Essa perspectiva nos leva a assumir a responsabilidade pelo destino da Mãe Terra e de seus filhos e filhas, sentindo-nos cuidadores e guardiães desse belo, pequeno e ameaçado Planeta.

O sexto conceito é o de espiritualidade. Esta foi acantonada nas religiões quando é a dimensão do profundo humano universal. Espiritualidade surge quando a consciência se apercebe como parte do Todo e intui cada ser e o inteiro Universo, sustentados e penetrados por uma força poderosa e amorosa: aquele Abismo de energia, gerador de todo o ser. É possível captar o elo misterioso que liga e re-liga todas as coisas, constituindo um cosmos e não um caos. A espiritualidade nos confere sentimento de veneração pela grandeur do universo e nos enche de autoestima por podermos admirar, gozar e celebrar todas as coisas.

Temos que mudar muito ainda para que tudo isso se torne um dado da consciência coletiva! Mas é o que deve ser. E o que deve ser tem força de realização.

A missão espiritual do cristianismo e o espírito do capitalismo

Jung Mo Sung

A missão das igrejas cristãs é, como sempre foi, uma missão espiritual. O que diferencia as igrejas de outras organizações sociais é, entre outras coisas, o caráter explicitamente espiritual da sua missão, da sua razão de existir. Deixar de tratar da espiritualidade ou colocar esse tema em segundo plano é um caminho que leva à perda da identidade e credibilidade das igrejas.

Mas, em que consiste a espiritualidade? Um dos grandes equívocos das pessoas ou grupos religiosos preocupados com esse tema é pensar que o mundo moderno, por não ser mais religioso como era antigamente, carece de espiritualidade. Isto é, a espiritualidade é entendida como algo que só existe dentro das religiões ou de correntes que se assumem explicitamente como espirituais. Por isso, a missão das igrejas cristãs seria a de levar a espiritualidade a um mundo sem espírito.

Nesse tipo de visão, a espiritualidade é sempre vista positivamente. Há grupos que diferenciam, corretamente, a espiritualidade da religião e defendem a prioridade da espiritualidade sobre a religião; outros chegam a negar a possibilidade de se viver espiritualidade dentro das religiões tradicionais por causa do seu ritualismo mecânico e seus dogmatismos autoritários desvinculados da vida cotidiana. Porém, mesmo nesses predomina a ideia essencialmente positiva de todas as espiritualidades.

Penso que esse equívoco se deve em grande parte à aceitação da “falsa propaganda” do mundo moderno que se diz ilustrado, racional, secularizado e, portanto, pós-religioso. Com isso, questões espirituais e religiosas ficariam restritas ao campo privado ou restritas aos grupos religiosos. O aumento do número de religiosos ou crentes em Deus não modificaria o fato de que o “mundo moderno” como tal é regido por razão e princípios da secularização. Diante de um mundo assim, os que não aceitam esse “ateísmo” moderno defendem a espiritualidade de um modo abstrato.

Para sairmos desse equívoco, precisamos repensar o que significa o “espírito”. Tanto em grego (pneuma), quanto em hebraico (ruah), a palavra “espírito” significa também “sopro”, “vento”, mostrando que o espírito é a força que move e dá direção uma pessoa ou uma sociedade. Um grande número de pessoas não forma por si um grupo ou se não for movido por um mesmo “espírito” (temos a expressão “espírito de equipe”), assim como uma sociedade ampla como a atual não caminharia em uma direção mais ou menos definida se não fosse movida por um espírito. O famoso livro de Max Weber “A ética protestante e o espírito do capitalismo” trata exatamente do surgimento de um novo espírito que move um tipo particular de sociedade, a capitalista.

Weber sintetizou, no início do século XX, o que ele entende por esse espírito dizendo: “O homem é dominado pela produção de dinheiro, pela aquisição encarada como finalidade última da sua vida. A aquisição econômica não mais está subordinada ao homem como meio de satisfazer suas necessidades materiais. Esta inversão do que poderíamos chamar de relação natural, tão irracional de um ponto de vista ingênuo, é evidentemente um princípio orientador do capitalismo, tão seguramente quanto ela é estranha a todos os povos fora da influência capitalista”.

A ganância ilimitada e o desejo ilimitado de consumo e ostentação são características fundamentais da espiritualidade que move o capitalismo global hoje. É essa espiritualidade que move o mundo globalizado em direção ao agravamento da crise social (aumento da desigualdade) e ambiental.

É contra esse tipo de espiritualidade que devemos viver e anunciar a vida em Espírito de Jesus Ressuscitado. Espiritualidade verdadeiramente cristã e humanizadora não é aquela que nos retira desse mundo para um mundo “celestial”, nem nos dá força para realizarmos os desejos nos impostos pela cultura de consumo, mas sim nos dá força para vivermos amor-solidário nesse mundo.

Dessa reflexão, podemos tirar algumas conclusões: a) as igrejas não pregam espiritualidade a um mundo sem espírito, mas sim a um mundo onde se vive uma espiritualidade desumanizadora e destruidora da meio ambiente, uma espiritualidade idolátrica; b) nem toda espiritualidade é boa, humanizadora, portanto é preciso desmascarar a espiritualidade capitalista e também discernir se as espiritualidades que as igrejas propõem são realmente nascidas do evangelho ou não; c) espiritualidades religiosas que nos fazem esquecer dos conflitos e problemas do mundo e nos “elevam” para o mundo “celestial”, por mais atraentes que sejam, não são espiritualidades cristãs, pois o Espírito de Deus não vem para nos tirar do mundo (cf Jo 17), mas para nos dar força para vivermos nossa fé, agindo solidariamente na luta pela Vida; d) lutas sociais e políticas não são meramente sociais e políticas, mas são também expressões visíveis de diferentes espiritualidades.

Tempo pós-democrático? Globalização capitalista e a política

Jung Mo Sung

O mundo moderno Ocidental foi construído em torno de dois pilares fundamentais que mantinha uma tensão entre eles: a economia de mercado e democracia no campo político. O mercado, com suas relações de concorrência e a busca de lucro, geraria progresso econômico que libertaria seres humanos da pobreza. O problema é que o motor desse progresso, a concorrência, é ao mesmo tempo uma lógica social baseada na exclusão. Pois a concorrência só gera progresso na medida em que os menos eficientes são eliminados. A tendência excludente do sistema de mercado seria compensada pela dinâmica inclusiva da democracia no campo político. A democracia combateria não somente o absolutismo das monarquias, mas também compensaria a lógica excludente do sistema mercado garantindo aos indivíduos os direitos de cidadania, que lhes daria certa proteção diante da fria lógica do mercado. Além disso, o reconhecimento pelo menos formal dos direitos humanos ou de cidadãos de todos os indivíduos serviu de base para as lutas sociais pela ampliação desses direitos de cidadãos a todos os seres humanos: pobres, mulheres, negros, indígenas, analfabetos…

Nesse sentido, podemos dizer que a social-democracia europeia, da primeira metade do século XX, era a expressão mais visível dessa proposta. Criar a riqueza através do sistema de mercado capitalista e redistribuir a renda e possibilitar condições de oportunidade de progresso econômico para toda a população através das políticas do estado de bem estar social e da regulação do mercado. É claro que em muitos países capitalistas do Ocidente esse projeto ficou mais no campo da retórica do que aplicação na realidade social. Mas, mesmo que reduzido à retórica, servia como argumento para lutas sociais populares.

O neoliberalismo foi uma grande ruptura desse modelo. A partir da década de 1980, o Estado e a democracia deixaram de ser vistas como formando um dos pilares desse projeto e a noção de Estado de bem estar social ou do Estado regulador da economia (como expressão da tensão necessária entre esses dois pilares da sociedade) passou a ser vista como inimiga do mercado e, portanto, do progresso e da própria sociedade. A batalha ideológica promovido por neoliberais foi dirigida ao Estado e aos políticos em geral, como forma de desmoralizar a política como tal e deixar o mercado como o único princípio organizador de toda a sociedade. Isto é, o mercado deixou de ser somente o coordenador da divisão social do trabalho, da economia, para ser proposto como o único princípio organizador e o principal critério de decisão de toda a sociedade.

As últimas décadas não foi somente o tempo do neoliberalismo, mas também da globalização econômica. Com isso, essa hegemonia neoliberal foi sendo estendida a todas as partes do mundo que iam sendo incorporadas a esse processo de globalização. A crise financeiro-econômica que iniciou em 2008 exigiu uma grande intervenção dos Estados para salvar os bancos, o sistema financeiro e também partes do setor produtivo. Os grandes defensores da política neoliberal, como Alan Greenspan, ex-presidente do Banco Central dos Estados Unidos, fizeram seus mea-culpa. Parecia que o neoliberalismo tinha sofrido um golpe fatal ou muito forte. Porém, a forma como a crise européia está sendo conduzida parece nos mostrar que a realidade não é essa. As indicações dos primeiro-ministros da Grécia e da Itália, apontados não pelos políticos ou povo dos seus países, mas pelos dirigentes do sistema financeiro europeu, mostram que talvez estejamos nos ingressando em um tempo pós-democrático.

Parece que de fato o sistema econômico global está se impondo sobre os Estados e o campo político e agora um único princípio rege o mundo: o da eficiência do mercado. O que diversos autores têm estudado como novo tipo de império, não de um país sobre outros, mas o próprio sistema capitalista global funcionando como império. O mundo não seria mais pensado a partir da tensão entre mercado-economia e democracia-política, mas a partir de uma “harmonia imperial” em torno de um único princípio e pilar: o mercado. Por isso, o perigo de um tempo pós-democrático, um tempo em que a democracia seria considerada, no máximo, um acessório, mas não um valor norteador das sociedades que queremos construir.

Eu penso que o neoliberalismo como foi proposto na década de 1940 por Hayek e tornado hegemônico a partir de 1980, com Reagan e Thatcher, entrou em crise; mas isso não significa que ele não esteja se reconfigurado, talvez com outro nome, para levar avante o projeto de fazer da eficiência do mercado o único ou”o” grande critério para a vida social e pessoal.

Mas se pensarmos bem, a modernidade tinha também um grande projeto, talvez o maior, que era o de uma sociedade e homens emancipados, que estariam livres da repressão e controle do Estado. Por isso, o progresso sempre foi o grande mote da modernidade e não a democracia. E os neoliberais não são os únicos a lutarem por uma sociedade sem Estado, os marxistas também lutaram, e alguns ainda lutam, por uma sociedade sem Estado. Por isso, eles também não valorizaram muito a democracia. Porém, esse é assunto para o próximo artigo.

Grito dos Exclúidos 2011

Frei Betto

Há 17 anos a Semana da Pátria é dedicada, no Brasil, à manifestação popular conhecida como Grito dos Excluídos. Ele é promovido pelo Setor de Pastoral Social da CNBB, Comissão Pastoral da Terra, Cáritas, Ibrades e outros movimentos e instituições.

O lema do 17º Grito é “Pela vida grita a Terra… Por direitos, todos nós!” Trata-se de associar a preservação ambiental do planeta aos direitos do povo brasileiro.

O salário mínimo atual – R$ 545,00 – possui, hoje, metade do valor de compra de quando foi criado, em 1940. Para equipará-los, precisaria valer R$ 1.202,80. Segundo o DIEESE, para atender as necessidades básicas de uma família de quatro pessoas, conforme prescreve o art. 7 da Constituição, o atual salário mínimo deveria ser de R$ 2.149,76.

As políticas sociais do governo são, sem dúvida, importantes. Mas não suficientes para erradicar a miséria. Isso só se consegue promovendo distribuição de renda através de salários justos, e não mantendo milhões de famílias na dependência de recursos do poder público.

O Brasil começa a ser atingido pela crise financeira internacional. Com a recessão nos países ricos, nossas exportações tendem a diminuir. O único modo de evitar que o Brasil também caia na recessão é aquecendo o consumo interno – o que significa aumento de salários e de crédito, e redução dos juros.

A população extremamente pobre do Brasil é estimada em 16 milhões de pessoas. Dessas, 59% (9,6 milhões de pessoas) estão concentradas no Nordeste.

Dos que padecem pobreza extrema no Brasil, 51% têm menos de 19 anos e 40%, menos de 14. O desafio é livrar essas crianças e jovens da carência em que vivem, propiciando-lhes educação e profissionalização de qualidade.

Um dos fatores que impedem nosso governo de destinar mais investimentos aos programas sociais e à educação e saúde é a dívida pública. Hoje, a dívida federal, interna e externa, ultrapassa R$ 2 trilhões. Em 2010, o governo gastou, com juros e amortizações dessa dívida, 44,93% do orçamento geral da União.

Quem lucra e quem perde com as dívidas do governo? O Grito dos Excluídos propõe, há anos, uma auditoria das dívidas interna e externa. Ninguém ignora que boa parcela da dívida é fruto da mera especulação financeira. Como aqui os juros são mais altos, os especuladores estrangeiros canalizam seus dólares para o Brasil, a fim de obter maior rendimento.

Há um aspecto da realidade brasileira que atende à dupla dimensão do lema do Grito deste ano: preservação ambiental e direitos sociais. Trata-se da reforma agrária. Só ela poderá erradicar a miséria no campo e paralisar o progressivo desmatamento da Amazônia e de nossas florestas pela ambição desenfreada do latifúndio e do agronegócio.

Dados do governo indicam que, no Brasil, existem, hoje, 62,2 mil propriedades rurais improdutivas, abrangendo área de 228,5 milhões de ha (hectares). Mera terra de negócio e, portanto, segundo a Constituição, passível de desapropriação.

Comparados esses dados de 2010 aos de 2003, verifica-se que houve aumento de 18,7% no número de imóveis rurais ociosos, e a área se ampliou em 70,8%.

Se o maior crescimento de áreas improdutivas ocorreu na Amazônia, palco de violentos conflitos rurais e trabalho escravo, surpreende o incremento constatado no Sul do país. Em 2003, havia nesta região 5.413 imóveis classificados como improdutivos. Ano passado, o número passou para 7.139 imóveis – aumento de 32%. São 5,3 milhões de hectares improdutivos em latifúndios do Sul do Brasil!

De 130,5 mil grandes propriedades rurais cadastradas em 2010, com área de 318,9 milhões de ha, 23,4 mil, com área de 66,3 milhões de ha, são propriedades irregulares – terras griladas ou devolutas (pertences ao governo), em geral ocupadas por latifúndios.

O Brasil tem, sim, margem para uma ampla reforma agrária, sem prejuízo dos produtores rurais e do agronegócio. Com ela, todos haverão de ganhar – o governo, por recolher mais impostos; a população, por ver reduzida a miséria no campo; os produtores, por multiplicarem suas safras e rebanhos, e venderem mais aos mercados interno e externo.

Um grito mudo

Frei Betto

A foto do jornal me causou horror. A criança somali lembrava um ET desnutrido. O corpo, ossinhos estufados sob a pele escura. A cabeça, enorme, desproporcional ao tronco minguado, se assemelhava ao globo terrestre. A boca –ah, a boca!– escancarada de fome emitia um grito mudo, amargura de quem não mereceu a vida como dom. Mereceu-a como dor.

Ao lado da foto, manchetes sobre a crise financeira do cassino global. Em dez dias, as bolsas de valores perderam US$ 4 trilhões. Estarrecedor! E nem um centavo para aplacar a fome da criança somali? Nem uma mísera gota de alívio para tamanho sofrimento?

Tive vergonha. Vergonha da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que reza que todos nascemos iguais, sem propor que vivamos com menos desigualdades. Vergonha de não haver uma Declaração Universal dos Deveres Humanos. Vergonha das solenes palavras de nossas Constituições e discursos políticos e humanitários. Vergonha de tantas mentiras que permeiam nossas democracias governadas pela ditadura do dinheiro.

US$ 4 trilhões derretidos na roleta da especulação! O PIB atual do Brasil ultrapassa US$ 2,1 trilhões. Dois Brasil sugados pelos desacertos dos devotos do lucro e indiferentes à criança somali.

Neste mundo injusto, uma elite privilegiada dispõe de tanto dinheiro que se dá ao luxo de aplicar o supérfluo na gangorra financeira à espera de que o movimento seja sempre ascendente. Sonha em ver sua fortuna multiplicada numa proporção que nem Jesus foi capaz de fazê-lo com os pães e os peixes. Basta dizer que o PIB mundial é, hoje, de US$ 62 trilhões. E no cassino global se negociam papeis que somam US$ 600 trilhões!

Ora, a realidade fala mais alto que os sonhos e a necessidade que o supérfluo. Toda a fortuna investida na especulação explica a dor da criança somali. Arrancaram-lhe o pão da boca na esperança de que a alquimia da ciranda financeira o transformasse em ouro.

À criança faltou o mais básico de todos os direitos: o pão nosso de cada dia. Aos donos do dinheiro, que viram suas ações despencarem na bolsa, nenhum prejuízo. Apenas certo desapontamento. Nenhum deles se vê obrigado a abrir mão de seus luxos.

Sabemos todos que a conta da recessão, de novo, será paga pelos pobres. São eles os condenados a sofrerem com a falta de postos de trabalho, de crédito, de serviços públicos de qualidade. Eles padecerão o desemprego, os cortes nos investimentos do governo, as medidas cirúrgicas propostas pelo FMI, o recuo das ajudas humanitárias.

A miséria nutre a inércia dos miseráveis. Antevejo, porém, o inconformismo da classe média que, nos EUA e na União Europeia, acalentava o sonho de enriquecer. A periferia de Londres entra em ebulição, as praças da Espanha e da Itália são ocupadas por protestos. Tantas poupanças a se volatilizarem como fumaça nas chaminés do cassino global!

Temo que a onda de protestos dê sinal verde ao neofascismo. Em nome da recuperação do sistema financeiro (dirão: “retomada do crescimento”), nossas democracias apelarão às forças políticas que prometem mais ouro aos ricos e sonhos, meros sonhos, aos pobres.

Nos EUA, a derrota de Obama na eleição de 2012 revigorará o preconceito aos negros e o fundamentalismo do “tea party” incrementará o belicismo, a guerra como fator de recuperação econômica. A direita racista e xenófoba assumirá os governos da União Europeia, disposta a conter a insatisfação e os protestos.

Enquanto isso, a criança somali terá sua dor sanada pela morte precoce. E a Somália se multiplicará pelas periferias das grandes metrópoles e dos países periféricos afetados em suas frágeis economias.

Ora, deixemos o pessimismo para dias melhores! É hora de reacender e organizar a esperança, construir outros mundos possíveis, substituir a globocolonização pela globalização da solidariedade. Sobretudo, transformar a indignação em ação efetiva por um mundo ecologicamente sustentável, politicamente democrático e economicamente justo.

A perda de confiança na ordem atual

Leonardo Boff

Na perspectiva das grandes maiorias da humanidade, a atual ordem é uma ordem na desordem, produzida e mantida por aquelas forças e países que se beneficiam dela, aumentando seu poder e seus ganhos. Essa desordem se deriva do fato de que a globalização econômica não deu origem a uma globalização política. Não há nenhuma instância ou força que controle a voracidade da globalização econômica. Joseph Stiglitz e Paul Krugman, dois prêmios Nobel em economia, criticam o Presidente Obama por não ter imposto freios aos ladrões de Wall Street e da City, ao invés de se ter rendido a eles. Depois de terem provocado a crise, ainda foram beneficiados com inversões bilionários de dinheiro público. Voltaram, airosos, ao sistema de especulação financeira.

Estes excepcionais economistas são ótimos na análise; mas, mudos na apresentação de saídas à atual crise. Talvez, como insinuam, por estarem convencidos de que a solução da economia não esteja na economia, mas no ‘refazimento’ das relações sociais destruídas pela economia de mercado, especialmente, a especulativa. Esta é sem compaixão e desprovida de qualquer projeto de mundo, de sociedade e de política. Seu propósito é acumular maximamente, apropriando-se de bens comuns vitais como água, sementes e solos e destroçado economias nacionais.

Para os especuladores, também no Brasil, o dinheiro serve para produzir mais dinheiro e não para produzir mais bens. Aqui o Governo tem que pagar 150 bilhões de reais anuais pelos empréstimos tomados, enquanto repassa apenas cerca de 60 bilhões para os projetos sociais. Esta disparidade resulta eticamente perversa, consequência do tipo de sociedade a qual nos incorporamos, sociedade essa que colocou, como eixo estruturador central, a economia, que de tudo faz mercadoria até da vida.

Não são poucos que sustentam a tese de que estamos num momento dramático de decomposição dos laços sociais. Alain Touraine fala até de fase pós-social ao invés de pós-industrial.

Esta decomposição social se revela por polarizações ou por lógicas opostas: a lógica do capital produtivo cerca de 60 trilhões de dólares/ano e a do capital especulativo, cerca de 600 trilhões de dólares sob a égide do “greed is good” (a cobiça é boa). A lógica dos que defendem a maior lucratividade possível e a dos que lutam pelos direitos da vida, da humanidade e da Terra. A lógica do individualismo que destrói a “casa comum”, aumentando o número dos que não querem mais conviver e a lógica da solidariedade social a partir dos mais vulneráveis. A lógica das elites que fazem as mudanças intrassistêmicas e se apropriam dos lucros e a lógica dos assalariados, ameaçados de desemprego e sem capacidade de intervenção. A lógica da aceleração do crescimento material (o PAC) e a dos limites de cada ecossistema e da própria Terra.

Vigora uma desconfiança generalizada de que deste sistema não poderá vir nada de bom para a humanidade. Estamos indo de mal a pior em todos os itens da vida e da natureza. O futuro depende do cabedal de confiança que os povos depositam em suas capacidades e nas possibilidades da realidade. E esta confiança está minguando dia a dia.

Estamos nos confrontando com esse dilema: ou deixamos as coisas correrem assim como estão e então nos afundaremos numa crise abissal ou então nos empenharemos na gestação de uma nova vida social, capaz de sustentar um outro tipo de civilização. Os vínculos sociais novos não se derivarão nem da técnica nem da política, descoladas da natureza e de uma relação de sinergia com a Terra. Nascerão de um consenso mínimo entre os humanos, a ser ainda construído, ao redor do reconhecimento e do respeito dos direitos da vida, de cada sujeito, da humanidade e da Terra, tida como Gaia e nossa Mãe comum. A essa nova vida social devem servir a técnica, a política, as instituições e os valores do passado. Sobre isso venho pensando e escrevendo já pelo menos há vinte anos. Mas é voz perdida no deserto. “Clamei e salvei a minha alma” (clamavi et salvavi animam meam), diria desolado Marx. Mas importa continuar. O improvável é ainda possível.

O individualismo tem ainda futuro?

Leonardo Boff

Há hoje nos EUA uma crise mais profunda do que aquela econômico-financeira. É a crise do estilo de sociedade que foi montada desde sua constituição pelos “pais fundadores”. Ela é profundamente individualista, derivação direta do tipo de capitalismo que aí foi implantado. A exaltação do individualismo ganhou a forma de um credo num monumento diante do majestoso Rockfeller Center em Nova York, no qual se pode ler o ato de fé de John D. Rockfeller Jr: “Eu creio no supremo valor do indivíduo e no seu direito à vida, à liberdade e à persecução da felicidade”.

Em finas análises no seu clássico livro “A democracia na América” (1835) o magistrado francês Charles de Tocqueville (1805-1859) apontou o individualismo como a marca registrada da nova sociedade nascente.

Ele sempre foi triunfante, mas teve que aceitar limites devido à conquista dos direitos sociais dos trabalhadores e especialmente com surgimento do socialismo que contrapunha outro credo, o dos valores sociais. Mas com a derrocada do socialismo estatal, o individualismo voltou a ganhar livre curso sob o presidente Reagan a ponto de se impor em todo o mundo na forma do neoliberalismo político. Contra Barack Obama que tenta um projeto com claras conotações sociais como a saúde para todos os estadounidenses e as medidas coletivas para limitar a emissão de gases de efeito estufa, o individualismo volta a ser reproposto com furor. Acusam-no de socialista e de comunista e até, num Facebook da internet, não se exclui seu eventual assassinato caso venha a cortar os planos individuais de saúde. E note-se que seu plano de saúde nem é tão radical assim, pois, tributário ainda do individualismo tradicional, exclui dele todos os milhões de imigrantes.

A palavra “nós” é uma das mais desprestigiadas da sociedade norteamericana. Denuncia-o o respeitado colunista do New York Times, Thomas L. Friedman num artigo recente:”Nossos lideres, até o presidente, não conseguem pronunciar a palavra ‘nós’ sem vontade de rir. Não há mais ‘nós’ na política norteamericana numa época em que ‘nós’ temos enormes problemas – a recessão, o sistema de saúde, as mudanças climáticas e guerras no Iraque e no Afeganistão – com que ‘nós’ só podemos lidar se a palavra ‘nós’ tiver uma conotação coletiva”(JB 01/10/09).

Ocorre que por falta de um contrato social mundial, os EUA comparecem como a potência dominante que, praticamente, decide os destinos da humanidade. Seu arraigado individualismo projetado para o mundo se mostra absolutamente inadequado para mostrar um rumo para o “nós” humano. Esse individualismo não tem mais futuro.

Mais e mais se faz urgente uma governança global que substitua o unilateralismo mocêntrico. Ou deslocamos o eixo do “eu” (a minha economia, a minha força militar, o meu futuro) para o “nós” (o nosso sistema de produção, a nossa política e o nosso futuro comum) ou então dificilmente evitaremos uma tragédia, não só individual mas coletiva. Independente de sermos socialistas ou não, o social e o planetário devem orientar o destino comum da humanidade.

Mas por que o individualismo é tão arraigado? Porque ele está fundado num dado real do processo evolucionário e antropogênico, mas assumido de forma reducionista. Os cosmólogos nos asseguram que há duas tendências em todos os seres, especialmente nos vivos: a de auto-afirmação (eu) e a de integração num todo maior (nós). Pela auto-afirmação cada ser defende sua existência; caso contrario, desaparece. Por outro lado, nunca está só, está sempre enredado numa teia de relações que o integra e lhe facilita a sobrevivência.

As duas tendências coexistem e juntas constroem cada ser e sustentam a biodiversidade. Excluindo uma delas surgem patologias. O “eu” sem o “nós” leva ao individualismo e ao capitalismo como sua expressão econômica. O “nós” sem o “eu” desemboca no socialismo estatal e no coletivismo econômico. O equilíbrio entre o “eu” e o “nós” se encontra na democracia participativa que articula ambos os pólos. Ela acolhe o indivíduo (eu) e o vê sempre inserido na sociedade maior (nós) como cidadão.

Hoje precisamos de uma hiperdemocracia que valorize cada ser e cada pessoa e garanta a sustentabilidade do coletivo que é a geosociedade nascente.

A voz das vítimas quem a escutará?

Leonardo Boff

Os 192 chefes de Estado ou de governo deverão se reunir no final de junho em Nova York convocados pela ONU para discutir a crise econômico-financeira e seus impactos sobre os diferentes países, especialmente sobre os pobres. Para prepará-la, o Presidente da Assembleia Miguel D’Escoto Brockmann, ex-chanceler da Nicarágua, criou uma Comissão para a Reforma do Sistema Financeiro e Monetário Internacional constituída por 20 celebridades da economia e da política sob a coordenação do prêmio Nobel de economia Joseph Stiglitz.

Os resultados já foram entregues e sabe-se mais ou menos os conteúdos principais. Como marco teórico, ético e humanístico que deve inspirar as novas medidas concretas, é sugerida uma Declaração Universal do Bem Comum da Humanidade e da Terra, tarefa difícil de ser realizada por falta de tradição jurídica e social nesta área. Em seguida, se recomenda a criação de um Conselho Mundial de Coordenação Econômica, paralelo ao Conselho de Segurança, desdobrado em duas autoridades mundiais, uma que cuida da regulação financeira e a outra da concorrência na economia. Sugere-se uma reforma das instituições de Bretton Woods (FMI e Banco Mundial) e uma regionalização das instituições financeiras que apóiam os processos de desenvolvimento. Pede-se ainda que, uma vez ao ano, os chefes de estado ou de governo de todo o mundo se encontrem para discutir o estado da Terra e da Humanidade e tomar medidas coletivas.

O grande temor é que esta reunião mundial seja esvaziada pelas pressões dos principais membros do G-20, enviando apenas representantes diplomáticos ou ministros. Por detrás destas pressões estão duas maneiras diferentes de enfrentar a crise atual.

Uma é a do G-20 que se reuniu em Londres em abril. Fundamentalmente se propõe salvar o sistema econômico-financeiro imperante para que, no fundo, tudo funcione como antes, com certos controles mas com níveis razoáveis de crescimento, mesmo sacrificando o equilíbrio da Terra e perpetuando o escandaloso fosso entre ricos e pobres. O propósito é o mesmo: como ganhar mais com o mínimo de investimento, competindo no mercado e considerando o estresse da natureza e a pobreza como externalidades.

A outra é dos grupos altermundistas, presentes em todos os estratos sociais do mundo e, em parte, assumida pela Comissão da ONU. Trata-se de situar a crise econômica no conjunto das demais crises: a energética, a alimentária, a do aquecimento global, a da insustentabilidade do planeta (passamos em 40% a capacidade de reposição dos recursos naturais) e a social e humanitária (quase um bilhão de pessoas abaixo da linha da pobreza). Mais que salvar o sistema trata-se de salvar a humanidade, a vida ameaçada e o planeta em estado caótico. O propósito é como garantir o bem viver em harmonia com os outros e com a natureza, produzindo conforme os seus ciclos, com equidade social e com solidariedade generacional.

Sendo o problema global, as soluções devem ser também globais. O único órgão glabal que existe é a ONU e é ela que deveria coordenar os esforços coletivos de enfrentamento da crise e não o G-20. Este não possui delegação para representar os demais 172 países, vítimas da crise global, cujas vozes não são escutadas.

As crises não surgem em vão. Elas emergem daquela Energia de fundo, carregada de propósito, que comanda o universo, a Terra e cada um de nós e que está exigindo um novo patamar de civilização, capaz de desenhar um outro futuro de esperança. Face a esta gravíssima situação notam-se duas limitações: a primeira, é dos economistas que, por ofício, tratam de economia mas possuem parca acumulação em ecologia; por isso, como se vê em todas as partes, não incluem a natureza em suas ponderações como se a Terra fosse inesgotável e estivesse em ordem, como não está. A segunda é dos chefes de estado: depois de séculos de racionalismo e de materialismo ficaram todos embotados. Não percebem as mensagens que o universo e a Terra, como superorganismo vivo, lhes estão enviando no sentido de uma transformação. Por sua falta de escuta, acontece o que dizia Gramcsi: “o velho resiste em morrer e o novo não consegue nascer”. E assim perdemos a chance, das últimas, para um novo começo. E nos atolamos em nossas próprias crises.

Carta aos movimentos sociais, redes não governamentais e aos intelectuais

Tradução: Agência Adital

Carta do sacerdote e teólogo belga aos movimentos sociais, denunciando a perversão do sistema capitalista mundial, principalmente dos países integrantes do G-20.

Nova York, 09.04.2009

Através dessas linhas, enviamos-lhes um chamado. Diante da situação de crise sistêmica e global, sem consultar a maioria dos países, o G-20 apresentou uma serie de medidas. Por outro lado, não abordou de maneira aprofundada os problemas criados pelo conjunto das crises: alimentar, energética, climática e social e sua aplicação tem sido confiada aos mesmos organismos que tem figurado entre os principais artesãos do impasse atual. No entanto, a situação continua agravando-se e todos os países são concernidos.

Por essa razão, o presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Miguel D’Escoto, convocou, nos dias 1º, 2 e 3 de junho próximo uma Conferência de 192 chefes de Estado e de Governo. No entanto, fortes pressões são exercidas, especialmente por certos países do G-20, para que estes últimos façam-se representar simplesmente por ministros ou embaixadores. Temos que exercer pressão em cada país para que a participação se realize no mais alto nível. O que está em risco é o futuro da humanidade e do planeta.

Trata-se de desencadear um processo a longo prazo; porém, sem tardar, de maneira que permita ultrapassar as regulações, para desembocar em alternativas. Isso exige um compromisso de todas as forças sociais, morais e intelectuais de cada país, começando por uma pressão sobre os dirigentes do planeta, para que participem da Conferência de junho. É somente um primeiro passo de um processo; porém, é importante.

Vocês poderiam alertar a opinião pública, através de atos públicos, declarações, entrevistas e artigos nos meios de informação e enviar cartas coletivas e pessoais às autoridades de seus respectivos países, a fim de que a Conferência dos 192 seja considerada? Sua participação é muito importante.

Atenciosamente,

François Houtart
Presidente do Conselho Administrativo do Centro Tricontinental (Lovaina a Nova). Secretário Executivo do Fórum Mundial de Alternativas. Representante do Presidente da Assembleia Geral da ONU pela Reforma do Sistema Financeiro e Monetário.