grito dos excluídos

“Juventude que ousa lutar, constrói o projeto popular” é o lema do 19º Grito dos Excluídos

O tema do Grito dos excluídos de 2013 foi definido na última semana, e esse ano a Juventude está no centro dessa manifestação que será realizado em todo o país no feriado de 7 de setembro. “Juventude que ousa lutar, constrói o projeto popular” é o lema do 19º Grito dos Excluídos, escolhido após avaliação das sugestões enviadas a coordenação por vários grupos, comunidades, dioceses, movimentos, sindicatos.
Grito dos Excluídos

O Grito dos Excluídos é uma manifestação popular carregada de simbolismo, sendo um espaço de animação e profecia aberto e plural de pessoas, grupos, entidades, igrejas e movimentos sociais comprometidos com as causas dos excluídos. É realizado num conjunto de manifestações no Dia da Pátria, 7 de setembro, tentando chamar à atenção da sociedade para as condições de crescente exclusão social na sociedade brasileira.

O Grito é parte das atividades da 5ª Semana Social Brasileira que tem o apoio da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da CNBB e constitui-se em uma mobilização sustentada em três objetivos:

– Denunciar o modelo político e econômico que, ao mesmo tempo, concentra riqueza e renda e condena milhões de pessoas à exclusão social;- Tornar público, nas ruas e praças, o rosto desfigurado dos grupos excluídos, vítimas do desemprego, da miséria e da fome;- Propor caminhos alternativos ao modelo econômico neoliberal, de forma a desenvolver uma política de inclusão social, com a participação ampla de todos os cidadãos.

Fonte: CNBB

Grito dos Exclúidos 2011

Frei Betto

Há 17 anos a Semana da Pátria é dedicada, no Brasil, à manifestação popular conhecida como Grito dos Excluídos. Ele é promovido pelo Setor de Pastoral Social da CNBB, Comissão Pastoral da Terra, Cáritas, Ibrades e outros movimentos e instituições.

O lema do 17º Grito é “Pela vida grita a Terra… Por direitos, todos nós!” Trata-se de associar a preservação ambiental do planeta aos direitos do povo brasileiro.

O salário mínimo atual – R$ 545,00 – possui, hoje, metade do valor de compra de quando foi criado, em 1940. Para equipará-los, precisaria valer R$ 1.202,80. Segundo o DIEESE, para atender as necessidades básicas de uma família de quatro pessoas, conforme prescreve o art. 7 da Constituição, o atual salário mínimo deveria ser de R$ 2.149,76.

As políticas sociais do governo são, sem dúvida, importantes. Mas não suficientes para erradicar a miséria. Isso só se consegue promovendo distribuição de renda através de salários justos, e não mantendo milhões de famílias na dependência de recursos do poder público.

O Brasil começa a ser atingido pela crise financeira internacional. Com a recessão nos países ricos, nossas exportações tendem a diminuir. O único modo de evitar que o Brasil também caia na recessão é aquecendo o consumo interno – o que significa aumento de salários e de crédito, e redução dos juros.

A população extremamente pobre do Brasil é estimada em 16 milhões de pessoas. Dessas, 59% (9,6 milhões de pessoas) estão concentradas no Nordeste.

Dos que padecem pobreza extrema no Brasil, 51% têm menos de 19 anos e 40%, menos de 14. O desafio é livrar essas crianças e jovens da carência em que vivem, propiciando-lhes educação e profissionalização de qualidade.

Um dos fatores que impedem nosso governo de destinar mais investimentos aos programas sociais e à educação e saúde é a dívida pública. Hoje, a dívida federal, interna e externa, ultrapassa R$ 2 trilhões. Em 2010, o governo gastou, com juros e amortizações dessa dívida, 44,93% do orçamento geral da União.

Quem lucra e quem perde com as dívidas do governo? O Grito dos Excluídos propõe, há anos, uma auditoria das dívidas interna e externa. Ninguém ignora que boa parcela da dívida é fruto da mera especulação financeira. Como aqui os juros são mais altos, os especuladores estrangeiros canalizam seus dólares para o Brasil, a fim de obter maior rendimento.

Há um aspecto da realidade brasileira que atende à dupla dimensão do lema do Grito deste ano: preservação ambiental e direitos sociais. Trata-se da reforma agrária. Só ela poderá erradicar a miséria no campo e paralisar o progressivo desmatamento da Amazônia e de nossas florestas pela ambição desenfreada do latifúndio e do agronegócio.

Dados do governo indicam que, no Brasil, existem, hoje, 62,2 mil propriedades rurais improdutivas, abrangendo área de 228,5 milhões de ha (hectares). Mera terra de negócio e, portanto, segundo a Constituição, passível de desapropriação.

Comparados esses dados de 2010 aos de 2003, verifica-se que houve aumento de 18,7% no número de imóveis rurais ociosos, e a área se ampliou em 70,8%.

Se o maior crescimento de áreas improdutivas ocorreu na Amazônia, palco de violentos conflitos rurais e trabalho escravo, surpreende o incremento constatado no Sul do país. Em 2003, havia nesta região 5.413 imóveis classificados como improdutivos. Ano passado, o número passou para 7.139 imóveis – aumento de 32%. São 5,3 milhões de hectares improdutivos em latifúndios do Sul do Brasil!

De 130,5 mil grandes propriedades rurais cadastradas em 2010, com área de 318,9 milhões de ha, 23,4 mil, com área de 66,3 milhões de ha, são propriedades irregulares – terras griladas ou devolutas (pertences ao governo), em geral ocupadas por latifúndios.

O Brasil tem, sim, margem para uma ampla reforma agrária, sem prejuízo dos produtores rurais e do agronegócio. Com ela, todos haverão de ganhar – o governo, por recolher mais impostos; a população, por ver reduzida a miséria no campo; os produtores, por multiplicarem suas safras e rebanhos, e venderem mais aos mercados interno e externo.

Gritos e respostas

Dom Demétrio Valentini

Na Semana da Pátria deste ano vai acontecer o 17º Grito dos Excluídos. Pela sua continuidade, e pelas repercussões que ainda suscita, o Grito se apresenta como uma das iniciativas bem sucedidas da CNBB, levada em frente pelas Pastorais Sociais.

Foi realizado pela primeira vez em 1995, ano da Campanha da Fraternidade sobre os Excluídos.

Aí já encontramos um dos motivos do acerto deste evento. Ao longo de todos os anos, ele sempre fez questão de retomar o tema da Campanha da Fraternidade, mostrando seus desdobramentos em torno de situações concretas, que mais exigem nossa atenção. O Grito faz repercutir a Campanha da Fraternidade. Como, por exemplo, neste ano com a campanha sobre a vida no planeta, o Grito nos provoca lembrando que “pela vida grita a terra, por direitos todos nós!”.

Outra razão que explica o sucesso do Grito foi o fato de vincular sua promoção ao Dia da Pátria. Desde a primeira edição, em 1995, a intenção era recuperar para a cidadania a celebração do “Dia da Pátria”, com manifestações que envolvessem os movimentos sociais, garantindo espaço para os que se sentiam, por um motivo ou outro, “excluídos” dos benefícios a que todos têm direito como cidadãos do mesmo país.

Esta é outra circunstância que ajuda a desenhar o quadro de referências do Grito dos Excluídos. Ele nasceu como gesto concreto da Semana Social, que tinha por tema “O Brasil que nós queremos”.

Desde o seu início, o Grito se colocou a serviço da cidadania, incentivando a participação popular em torno de grandes causas que o povo precisa assumir.

Como a história da proclamação da nossa independência vem associada ao “Grito” de Dom Pedro, o Grito dos Excluídos vem nos alertar que a soberania de nosso país precisa ser assumida sempre, de maneira consciente e articulada.

Por isto, em cada ano, não faltam causas, com a ênfase de gritos que apelam para os nossos compromissos de cidadãos.

Entre tantas, podemos citar algumas, que estão sendo assumidas pelo Grito deste ano.

Uma delas é a corrupção. Ela merece nosso repúdio constante. Ela precisa ser combatida com firmeza e sem complacência. Este combate deve ser sustentado pelo poder público, mas precisa ser apoiado pela cidadania.

Outro grito que precisa ecoar com mais clareza é contra a droga. Estamos chegando ao limite da tolerância. A nação corre perigo! A população, em especial a juventude, não pode mais ficar exposta à ganância de inescrupulosos, que permanecem impunes enquanto vidas inocentes são ceifadas em números assustadores. O combate contra a droga exige mais vigilância de nossas fronteiras territoriais. Mas exige também que nos demos conta que os caminhos da droga são abertos pela perda de valores morais, com o consequente abalo de nossas instituições. Além de enérgica ação do poder público, o combate contra a droga precisa contar com a corajosa recuperação dos critérios éticos que precisam presidir a nossa convivência familiar e social.

Outro Grito, que já começa a ficar impaciente, é por uma eficaz reforma política. Ela precisa desencadear um processo, que não pode prescindir da regulamentação dos instrumentos de democracia direta, que a Constituição já prevê, mas que até agora não foram regulamentados com clareza e segurança.

Outro tema de enorme responsabilidade se coloca agora em torno do novo Código Florestal, cuja votação está tramitando no Congresso. Em torno deste Código Florestal é necessário superar os radicalismos, para se chegar, com lucidez e equilíbrio, a compatibilizar os objetivos da proteção ao meio ambiente com os objetivos da agricultura. A discussão em torno do Código Florestal precisa se transformar em bom instrumento de consensos razoáveis, que levem em conta todas as dimensões implicadas neste complexo assunto, cheio de consequências práticas, que não podem ser ignoradas, ou atropeladas por bandeiras que escondem interesses ou carregam ingenuidades.

E assim o Grito pode ir levantando outros assuntos, como os agrotóxicos, a reforma tributária, a reforma previdenciária, a questão da moradia urbana, as barragens, e outros mais. A cidadania agradece!

7 Perguntas e respostas sobre o Plebiscito Popular: Limite de Propriedade da Terra

1- Qual o mapa populacional existente hoje no Brasil?

Resp: Mais de 80% da  população brasileira vive hoje nas cidades, com perspectivas de números ainda maiores com o novo censo que está sendo realizado  atualmente. Isso significa que a população rural está sendo expulsa de suas terras, vindo morar nas favelas e periferias das cidades, não encontrando nesses lugares, infra-estrutura adequada para uma vida digna. Fonte IBGE 2002

2- Como se compõem hoje as propriedade rurais existentes no Brasil?

Resp: Quase 50% das propriedades  têm menos de 10 hectares e ocupam 2,36% da área total disponível do país. Na outra ponta, menos de 1% tem área acima de 1000 hectares e ocupam 44% das terras. Aí faz parte o agro-negócio. Fonte IBGE- 2006

3- Sendo assim, como está o mapa econômico agropecuário no Brasil?

Resp: Apesar do disparate que verificamos acima, as pequenas propriedades (agricultura camponesa), produzem 87% da produção nacional de mandioca, 70% de feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 21% do trigo, 58% da produção do leite, 59% de suínos, 50% das aves e 30% dos bovinos. A agricultura camponesa emprega 74,4% das pessoas no campo, enquanto que o agro-negócio ao contrário do que se ouve na mídia, só oferece 25,6% do total de mão de obra.

4- A concentração de terras gera violência no campo aqui no Brasil?

Resp: Nos últimos 25 anos desse processo de expulsão das famílias das terras pelos grandes latifundiários,  1546 pessoas perderam a vida no campo, e o que mais nos impressiona é que das 1163 ocorrências de assassinato existentes, apenas 85 foram a julgamento, com apenas 20 mandantes dos crimes condenados. Esse é um quadro triste da impunidade que reina absoluta em nosso país.

5- Outros países  já aprovaram o limite de propriedade da terra?

Resp: Sim, muitos. Podemos citar alguns como Japão (1946), Itália (1950), Peru (1969), Índia (1972), Coréia do Sul (1950), Egito (1969), Filipinas (1988) etc….

Cabe salientar que os limites  estipulados  nesses países,  variou de 3 hectares como no caso da Coréia do Sul à 300 hectares na Itália, sempre portanto levando-se em consideração suas realidades. Fonte:Carter, Miguel- Combatendo a desigualdade social

6- E no Brasil, o que está sendo sugerido como limite de terra?

Resp: Como o Brasil é muito grande, com tantas diferenças geográficas e geológicas, criou-se em 1993, a Lei no. 8.629 que estabeleceu os tamanhos das propriedades em função de um referencial criado pelo Incra, chamado “ Módulo Fiscal” que significa “ Área mínima suficiente para prover o sustento e a vida digna de uma família rural”. Sendo assim, hoje todos os estados do Brasil já apresentam valores diferentes em ha, para o Módulo Fiscal. Por ex: em SP o MF máximo é 40 hectares. Já no Amazonas é 100. No Rio G. do Sul é 40, na Bahia 70. A proposta de limite é para 35 módulos fiscais, ou seja em SP por exemplo teríamos  35 x 40 = 1400 hectares , enquanto no Amazonas, seria de 35 x 100= 3500 hectares.

7- Quantas propriedades então seriam atingidas nesse limite?

Resp: Apenas 1% (50.000) de todas as propriedades existentes no Brasil seriam atingidas por esse instrumento de democratização da terra. Todas as demais permaneceriam como estão.

Qual o limite da propriedade da terra? Entrevista especial com Gilberto Portes

Em setembro deste ano, será realizado o Plebiscito Popular pelo limite da terra propriedade e uso dela por estrangeiros. Em entrevista à IHU On-Line, realizada por telefone, Gilberto Portes, do Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo, explica a inicia tiva. “Um estrangeiro vem para o Brasil e pode comprar a quantia que quiser de terra. Enquanto isso, há quatro milhões e duzentas mil famílias que não têm acesso à terra, ou seja, mais de doze milhões de pessoas”, aponta. Portes fala também da importância da revisão dos índices de produtividade para a efetiva realização da Reforma Agrária no país. “Os índices de produtividade são fundamentais, principalmente nas regiões que teoricamente dizem que não têm terra para Refor ma Agrária”, defendeu.

O advogado Gilberto Portes é secretário executivo do Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo. Foi coordenador estadual do MST no RS.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para começarmos, o senhor pode nos explicar a ideia central da questão do “Limite da Propriedade da Terra”?

Gilberto Portes – O Brasil é o segundo país com maior concentração de terra do mundo. Este é o elemento central. O outro, que está relacionado a esta situação, é que o Brasil, desde a sua descoberta ou da sua invasão, teve o poder econÿmico, o poder político e o próprio poder social concentrados através da propriedade da terra. A mudança da relação de trabalho, renda, alimentação, desenvolvimento econÿmico social do país passa necessariamente pela democratização da terra. Isso porque só dessa maneir a será possível garantir mais pessoas produzindo alimentos, mantendo o trabalho no campo e, assim, desenvolvendo o país através da produção de produtos de qualidade e, consequentemente, eliminando a violência das grandes periferias das cidades. Hoje, para cada família que é assentada, é possível empregar, em média, cinco pessoas no campo e mais três na cidade. Precisamos mostrar esse dado para a sociedade brasileira. O limite da propriedade da terra é a base para que se quebre a espinha dorsal de um problema histórico estrutural do Brasil.

IHU On-Line – Como está a preparação do Plebiscito pelo Limite da Propriedade da Terra?

Gilberto Portes – Em torno de 12 estados brasileiros já realizaram suas plenárias. Temos cerca de cem lideranças ligadas às pastorais sociais, movimentos sociais e movimento sindical. Estas instituições estão se envolvendo com lideranças das periferias dos bairros, associações de moradores, comunidades eclesiais. Agora, no final de junho, início de julho, teremos a consolidação destas plenárias estaduais, onde estamos formando os comitês nas comunidades. Em agosto, estaremos na fase intensiva de mobilização nacional que culminará no grande momento do plebiscito que acontecerá entre 1º e 7 de setembro. Faremos uma grande manifestação popular junto com o grito dos excluídos, em que vamos buscar apoio da sociedade para entrar no Congresso Nacional com uma prop osta de emenda constitucional para limitar o tamanho da propriedade de terra. Esse é o instrumento que estamos utilizando como forma de pressão política para fazer o debate com a sociedade brasileira. Nós precisamos retomar a Reforma Agrária para mudarmos a condiÍ ão social do povo brasileiro e, consequentemente, fazer com que as pessoas exerçam sua cidadania e sua participação popular.

IHU On-Line – Em que contexto surge a ideia de organizar um plebiscito sobre esse tema?

Gilberto Portes – A partir do estudo da luta pela terra no Brasil, os movimentos foram aprofundando este debate, vimos o quanto é necessário, assim como já foi feito em outros países, construir um processo de limitação da propriedade da terra. Esse processo ajuda muito no que diz respeito ao desenvolvimento do país, tanto do ponto de vista do capitalismo como do ponto de vista mais socialista. No Brasil, como nossas elites são as mais atrasadas deste mundo, não foi feito um investimento na democratização da terra para que a população tivesse acesso a alimento barato e emprego. Os movimentos, as organizações, as Igrejas, sempre se preocuparam com que a nossa Constituição Brasileira tivesse inciso ou um artigo que estabelecesse claramente que a propriedade de terra no Brasil tem que ter limite.

Um estrangeiro vem para o Brasil e pode comprar a quantia que quiser de terra. Enquanto isso, há quatro milhões e duzentas mil famílias que não têm acesso à terra, ou seja, mais de doze milhões de pessoas. Só as pessoas que têm dinheiro e poder possuem acesso a nossa biodiversidade, natureza, terra. Nossa ideia é fazer um debate mais ab erto com a sociedade e apresentar uma proposta para incluir, na Constituição Brasileira, no artigo 186, um inciso que estabeleça, com clareza, que devemoslimitar a propriedade da terra em tantos módulos.

IHU On-Line – E o que são módulos?

Gilberto Portes – São áreas que o INCRA tem como mecanismo de estabelecer para cada agricultor ou pequeno camponês, para ele sobreviver com a famíl ia. Isso varia de região para região. No Sul, por exemplo, o módulo varia de 25 a 30 hectares, já no norte vai até cem hectares, no Centro-Oeste varia de 30 a 35 hectares. Fizemos um cálculo que aponta que o máximo, para um brasileiro ou estrangeiro, deveria ser de 35 módulos, que já é um grande latifúndio. O Estado Brasileiro precisa ser obrigado constitucionalmente a democratizar a terra.

IHU On-Line – Qual é o uso que o estrangeiro dá a terra no Brasil?

Gilberto Portes – Os estrangeiros veem o Brasil como seu laboratório para duas coisas. Primeiro, para despejar os agrotóxicos que os europeus e os americanos não querem mais. Para você ter uma ideia, o Brasil consome anualmente 750 mil toneladas de agrotóxicos, isso significa que se nós dividirmos esses milhares de litros de agrotóxicos por membro da população brasileira, cada cidadão brasileiro consome anualmente cinco litros de veneno. Como aqui ainda não existe uma legislação, um controle maior, eles jogam este veneno na nossa terra. O segundo aspecto: qualquer propriedade que é conduzida por estrangeiro no Brasil trabalha com exportação, nenhuma propriedade de estrangeiro vem aqui para produzir comida para o povo brasileiro. Ele vem aqui para levar nossa riqueza, destruir os recursos naturais, retirar da propriedade a matéria-prima para enriquecer seus investimentos no mercado financeiro, esta é a lógica dos investimentos internacionais.

Consequentemente, estes grupos internacionais fazem aliança com o próprio agronegócio do Brasilpara aplicar a mesma política, há uma relação íntima entre este setor de investimento internacional com o agronegócio brasileiro. Um exemplo: no Mato Grosso, um político, que foi governador do estado, tem um milhão de hectares produzindo soja. Ele é o maior produtor de soja do mundo, e é brasileiro. Porém, ele tem uma forte relação com as transnacionais que produzem aqui e exportam. A nossa interpretação é que o agronegócio estÍ articulado essencialmente com o capital internacional para explorar e destruir a nossa natureza. Todo o desmatamento, destruição do bioma cerrado, da mata Atlântica, da Amazÿnia, da caatinga, do pampa no sul é consequência deste investimento nacional e internacional do agronegócio que tem como essência a exploração da matéria-prima para divisas do capital de seus interesses.

IHU On-Line – Quem está apoiando o Plebiscito?

Gilberto Portes – Nós temos 54 entidades nacionais que estão vinculadas à mobilização do plebiscito. A maior delas é a CNBB, que tem uma orientação do Conselho dos Bispos para que os agentes pastorais se envolvam efetivamente no processo de mobilização popular. Nós temos também o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs – CONIC -, que fez um trabalho com suas Igrejas para que todas as pessoas se envolvam nessa mobilização.

A Campanha da Fraternidade deste ano tem como tema central Economia e Vida, e o gesto concreto dela vai ser a participação do Plebiscito. Dos movimentos nacionais, temos a CUT, a CONTAG, a Via Campesina, o MST e outras organizações. A Comissão Pastoral da Terra também tem nos apoiado muito, assim como a Pastoral do Migrante e o Grito dos Excluídos. E, em vários estados, nós também temos o apoio de alguns partidos políticos de esquerda, que têm como proposta a reforma agrária como mudança no Brasil.

IHU On-Line – Quem e como as pessoas podem participar e votar no plebiscito?

Gilberto Portes – O primeiro passo é participar do abaixo assinado. Percebemos nas comunidades que há muita dúvida, porque está havendo uma contra-informação para tentar manipular a opinião pública sobre a nossa proposta. Estão dizendo, em alguns lugares, que limitar a propriedade de terra significa limitar também as propriedades dos pequenos e médios agricultores. A sociedade precisa estar presente no debate político e, assim, entender qual é a importância que nossa proposta delimite da propriedade da terra tem para a população urbana, para as comunidades tradicionais e pa ra os camponeses.

IHU On-Line – A revisão dos índices de produtividade pode colaborar com o início da Reforma Agrária efetiva no Brasil?

Gilberto Portes – Isso é básico e essencial para a Reforma Agrária. Os índices de produtividade são fundamentais, principalmente nas regiões que teoricamente dizem que não têm terra para Reforma Agrária. A correção desses dados é constitucional, e precisava ser feita há muito tempo. O governo não fez e não sei se vai fazer. A população tem uma expectativa enorme em relação à revisão desses índices para ampliar o número de áreas para a Reforma Agrária.

Grito dos Excluídos/as Continental chega à 11ª edição

Robson Braga
Agência Adital

Grito

Os haitianos exigem a saída das tropas militares estrangeiras de seu país. No Paraguai, as ocupações urbanas exigem respeito a um direito básico. No Panamá, o direito às águas é uma das demandas básicas dos movimentos sociais. Quando juntos, os vários povos conseguem articular lutas amplas, para além das fronteiras nacionais. Essa é a proposta do Grito dos Excluídos/as Continental, que alcança cerca de 22 países de diversas regiões nesta segunda (12).

Com o lema “Por Trabalho, Justiça e Vida”, a 11ª edição do ato traz consigo avanços importantes para os movimentos sociais das Américas. Os grupos populares estão cada vez mais articulados e as manifestações se ampliaram, das capitais para as demais cidades dos países. A análise é do coordenador da atividade, o teólogo brasileiro Luiz Bassegio.

“A exemplo do Brasil”, país onde o ato foi criado, “as pessoas vão perdendo o medo de se expressar. Elas se tornam mais criativas e adquirem mais ousadia de mostrar sua voz, seu descontentamento”, avaliou Bassegio.

Para o teólogo, o Grito tem propiciado a organização dos movimentos sociais do continente e dado visibilidade às suas demandas. Ele reconhece, no entanto, que parte dos governos da região “está na contramão”, ao criminalizar os grupos populares e tentar impedir a integração dos povos.

“A gente percebe uma mercantilização da vida, uma crise de paradigma capitalista e um crescimento das agressões à mãe terra”, citou Bassegio. O articulador político ponderou, no entanto, que, em alguns países, os governos estão mais sensíveis às reivindicações sociais, como na Bolívia e na Venezuela.

Ele ressaltou o caso cubano. “Os jovens do país assumiram o Grito, junto com outros estudantes estrangeiros que moram na ilha. As pessoas esperavam que a saída do [ex-presidente] Fidel [Castro] ia arrefecer as mobilizações”. Os cubanos lutam contra a militarização da América Latina, intensificada com a instalação de sete bases militares estadunidenses na Colômbia, prevista ainda para este ano.

A questão ambiental ganhou ainda mais força no ato deste ano. O tema “está crescendo muito, porque não é só mais um assunto da esquerda. A direita percebeu que tem culpa e que é algo que precisa ser freado. As gerações futuras estão em jogo”, reforçou Bassegio.

No Panamá, as mobilizações ocorrem nas cidades de David, Chiriquí e na província de Bocas del Toro. Uma caminhada indígena chega à Cidade do Panamá, onde se realizará a Tribuna Aberta Indígena.

No Paraguai, os grupos populares vão às ruas contra o déficit habitacional, que chega a 800 mil casas. O governo só prevê a construção de 1.600 habitações populares.

Um dia antes do Grito, os movimentos da Costa Rica já se instalarão, em um ato intercultural, em frente à embaixada de Honduras ou dos Estados Unidos, em protesto contra o golpe de Estado que depôs o presidente hondurenho Manuel Zelaya, em 28 de junho. No dia seguinte, em El Salvador, um ato solidário tomará a Ponte da Integração.

A proposta do Grito dos Excluídos/as Continental surgiu no Brasil como campanha nacional. Em 1996, a Conferência Nacional dos Bispos dos Brasil (CNBB) abordou a exclusão sócio-econômica em sua Campanha da Fraternidade.

A Secretaria Continental do Grito dos Excluídos é composta por quatro secretarias regionais: Caribe (sediada na república Dominicana), Meso-América (na Costa Rica), Cone Sul (Argentina) e Países Andinos (Bolívia). A secretaria continental se situa no estado brasileiro de São Paulo.

Grito dos Excluídos e Excluídas sai fortalecido em 2009

O Grito dos Excluídos, atividade organizada há 15 anos por várias pastorais sociais, organizações e movimentos sociais, aconteceu no dia 7 em 25 estados e no Distrito Federal. Neste ano, a manifestação tem como lema “Vida em primeiro lugar: a força da transformação está na organização popular”. Segundo o arcebispo de Aparecida, dom Raymundo Damasceno, o Grito dos Excluídos fortalece a participação do povo para a concretização de uma verdadeira democracia.

Uma das coordenadoras do Grito, Rosilene Wansetto, também falou neste sentido. Ela avalia que neste ano as atividades conclamaram a população para a organização popular em torno das necessidades dos trabalhadores e trabalhadoras. “Neste momento em que vivemos uma grande crise, com desemprego e diminuição dos salários, cada vez mais é necessário que o povo vá às ruas para reivindicar suas demandas e a ampliação dos direitos sociais”, afirmou ela.

Em Manaus, no coração da Amazônia, cerca de 4 mil manifestantes realizaram o Grito dos Excluídos sob um sol de 40 graus e discutiram temas como o problema da privatização da água, do abastecimento, do transporte coletivo e da saúde pública. Além disso, os manifestantes criticam a criação do Porto das Lages, uma obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) a ser realizada na união dos rios Negro e Solimões. Segundo as lideranças está acontecendo uma série de ameaças e a criminalização de quem se manifesta contra a construção do porto.

Em Belém, cerca de 2500 pessoas se manifestaram no bairro Terra Firme, um dos pioneiros na realização do Pré-Grito. Lá eles debateram sobre a pedofilia, a violência no estado e os encarcerados. Já em Goiânia (GO), o Grito discutiu principalmente sobre as dificuldades e a negligências do sistema prisional entre outros temas que foram trabalhados durante a caminhada no centro da cidade.

Em Minas Gerais, as atividades aconteceram em pelo menos 21 cidades. Em Montes Claros, o Grito foi realizado por cerca de 2 mil pessoas de organizações que compõe a Assembléia Popular. Lá existe o Palanque do Eleitor, no espaço os manifestantes criticaram a postura do prefeito, conhecido como o prefeito das lonas pretas, por não adotar uma política de habitação, fornecendo apenas lonas pretas para as famílias.

Na cidade, também foram pautados os problemas com o transporte coletivo. “Existe uma ação no Ministério Público que considera inconstitucional o valor cobrado na tarifa”, afirmou Sônia Gomes, da coordenação. Além disso, o Grito também debateu a reivindicação que pede uma política aos catadores de material reciclado. Eles foram ameaçados pelo prefeito local de não poderem mais coletar. Os organizadores afirmaram também que tanto o prefeito quanto a guarda municipal foram truculentos e tentaram impedir a manifestação da população.

Em Cuiabá (MT), centenas de manifestantes marcharam logo atrás do desfile oficial de 7 de setembro. Eles requereram os direitos e a preservação ambiental neste estado que é um dos mais desmatados pelo agronegócio. Além disso, criticaram os conflitos agrários e o trabalho escravo. “Só neste ano, três trabalhadores e uma indígena foram mortos no estado e 200 trabalhadores foram resgatados do trabalho escravo, não podemos mais aceitar isso”, afirmou Inácio Werner, da coordenação do Grito. Quanto a isso, no Grito foi lançado o Fórum dos Defensores dos Direitos Humanos do Mato Grosso.

Em Aracaju (SE), mais de 20 mil manifestantes dos movimentos sociais, pastorais e da Cáritas marcharam o percurso de 1 quilômetro por qualidade de vida. O Bispo auxiliar da arquidiocese, dom Henrique Costa, marchou com os manifestantes.

No Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, interior de São Paulo, 80 mil romeiros participaram do Grito dos Excluídos e da 22ª Romaria do Trabalhador. Os participantes deram um cartão vermelho à violência sofrida pelas mulheres, jovens e crianças. O cartão vermelho também foi dado ao Golpe de Estado em Honduras e disseram basta à corrupção e a impunidade e à criminalização dos movimentos sociais e às suas lideranças. O ato em Aparecida se encerrou no final desta manhã com uma missa na basílica. O Arcebispo Dom Raymundo Damasceno pediu mais participação da população para a concretização de uma verdadeira democracia.

Em Brasília, centenas de manifestantes realizaram o Grito dos Excluídos em paralelo ao desfile oficial na Esplanada dos Ministérios, do qual participaram 17 organizações e movimentos sociais. Eles organizaram o Tribunal Popular e o segundo julgamento do Governo Arruda, que tem feito gastos vultuosos com propaganda. “Queremos que este dinheiro seja investido na construção de moradias para o povo. Nesse julgamento, pela segunda vez foi dado o Impeachment do governador Arruda”, afirmou Thiago Ávila, coordenador do ato.

Em São Paulo, cerca de 6 mil pessoas participaram nesta manhã das atividades do Grito dos Excluídos, que incluiu uma missa na catedral Sé. De lá os participantes caminharam para o Monumento do Ipiranga, durante o trajeto, foram trabalhados temas como emprego, salário, moradia, terra e direitos sociais. Eles também protestam contra a criminalização dos movimentos sociais. “Somos contra o processo de criminalização que os movimentos sociais e as lideranças estão sofrendo no país. Quem luta pelo direito dos trabalhadores não pode ser criminalizado pelas ações que realiza”, afirmou um dos coordenadores do ato.

Em Vitória, no Espírito Santo, cerca de 6 mil pessoas fizeram uma lavagem simbólica das escadarias do Tribunal de Justiça, Tribunal de Contas e da Assembléia Legislativa. No estado, os eixos de debate da manifestação foram a crise que assola os trabalhadores, a política econômica e o desenvolvimento sustentável.

No Ceará, o Grito dos Excluídos foi realizado em pelo menos 16 municípios. Em Fortaleza, cerca de 5 mil pessoas protestaram contra os altos preços da energia elétrica, eles também pediram a reestatização da Coelce, a distribuidora de energia elétrica do estado, e a aplicação da Tarifa Social de energia para as famílias que consomem até 140 kwh/mês, o limite máximo estadual para enquadrarem-se na lei da Tarifa Social.

Como balanço deste ano, o coordenador nacional do Grito dos Excluídos, Ari Alberti, avaliou que a manifestação nos estados revelou mais uma vez que a crítica à falta de ética na política é um dos pontos muito abordados. Além disso, segundo ele, neste ano, a criminalização das lideranças e dos movimentos sociais foi um dos pontos de forte denúncia nas mobilizações. “Este é um espaço propício para a população se manifestar em defesa dos que lutam pela melhoria das condições de vida das pessoas. Há 15 anos estamos nas ruas manifestando nossa posição em favor da vida”, finalizou.

Grito dos excluídos: mobilizações marcam o Dia da Independência em todo o Brasil

Agência Adital

No próximo dia 7 de Setembro – dia da suposta Independência do Brasil – centenas de organizações civis, movimentos sociais, entidades, cidadãos e cidadãs, levarão para as ruas de diversas cidades brasileiras suas demandas, motivadas pelo desejo profundo por um Brasil melhor e mais justo. Em sua 15ª edição, o Grito dos Excluídos traduz bem essa urgência, constatando em seu tema que “A força da transformação está na organização popular”.

Marchas, celebrações, caminhadas, palestras, protestos, romarias. Várias são as formas de manifestações do Grito dos Excluídos. O objetivo é tornar evidente as desigualdades sociais, expor os prejuízos que o modelo econômico vigente traz para a população excluída, denunciar os danos causados pelas empresas que não respeitam o meio ambiente, denunciar a corrupção e o papel desempenhando pelo Brasil nesse contexto de exclusão.

De acordo com Luiz Bassegio, Secretário do Grito dos Excluídos Continental, alguns eixos básicos e principais serão refletidos nesta edição como o Projeto Popular Nacional com base na sustentabilidade e contra todas as formas de imperialismo. “Não é só o imperialismo norte-americano, mas também o imperialismo que o Brasil exerce sobre alguns países da América”, esclarece.

Outro ponto é a Defesa, Ampliação e Universalização dos direitos, além daqueles já previstos na constituição. Um dos eixos fundamentais, diz o secretário, é a Integração dos Povos e não só dos mercados como o sistema financeiro quer. “A integração dos povos e a troca de experiências enriquece a todos”, reforça.

Ao longo desses 15 anos é expressiva a participação das localidades que se envolvem com o evento. Atualmente, cerca de 500 cidades já aderiram ao evento. E é fato: para os militantes, o Grito mudou a cara do desfile de 7 de setembro. “Antes era só desfile de alunos, das escolas e dos militares. Hoje os excluídos também participam e mostram sua cara para o país”, diz, ressaltando que o Brasil é um país feito também dos excluídos.

Algumas histórias marcam a trajetória do movimento. O secretário conta que numa das edições, em Porto Velho (RO), a polícia não permitiu que os manifestantes entrassem na Avenida Dom Pedro, onde acontecia o desfile oficial. Então, alguns membros distraíram os policiais, enquanto a maioria foi para o final da avenida, entrando na contra mão do desfile. Já em Minas Gerais, uma determinada cidade não teria manifestação do Grito por falta de organização antecipada. Para que a data não passasse em branco, um grupo comprou cartões vermelhos e apitos e distribuiu numa feira livre. O resultado foi uma manifestação criativa e inesperada.

Luiz Bassegio enfatiza que uma das características do grito é a ousadia e a criatividade. E ressalta que essa manifestação popular e social mostra que o grau de exclusão ainda é grande no país. Mas ele comemora como avanço a participação política dos excluídos.

Pré-Grito

Diversas cidades brasileiras começam a se organizar com meses de antecedência. Algumas realizam o “Pré-Grito”, um momento preparatório que mostra um pouco do que será feito no grande dia.

Em São Paulo, manifestantes se reunirão na Catedral da Sé, na capital, às 8h e depois seguem para o Parque do Ipiranga, local onde foi dado o Grito de Independência do país. Na Paraíba a caminhada do grito aconteceu dia 3 e teve grupos temáticos protestando contra a Criminalização dos Movimentos Sociais e da Pobreza, além de gritar em prol dos direitos humanos, reforma agrária e defesa da natureza.

Já na capital federal, Brasília, o Pré-Grito aconteceu no dia 29 de agosto. Na ocasião, os manifestantes fizeram um julgamento popular do governador José Roberto Arruda, por crimes contra a população. Os militantes pediram a cassação dos direitos políticos e prisão de 150 anos denunciando crimes de corrupção, improbidade administrativa, compra de votos, fraudes em licitações, entre outros. No dia 7 o Grito será realizado na Esplanada dos Ministérios e pelo teor do ato preparatório é possível imaginar o que vai acontecer.

O Grito

Embalados pelo entusiasmo da Campanha da Fraternidade de 1995 que voltava seu tema para a questão do excluídos, os envolvidos na campanha, realizaram, sem imaginar que criariam tradição, o 1° do que viria a ser uma série de Grito dos Excluídos. Atualmente, o Grito tomou dimensões maiores e, agora, acontece em vários Continentes no dia 12 de outubro.

Gritar é preciso!

Dom Demétrio Valentini

O Dia de Pátria vem agora associado ao Grito dos Excluídos. Isto acontece desde 1995, quando esta iniciativa foi realizada pela primeira vez, sem nenhuma pretensão de criar tradição. Parecia se limitar ao contexto daquele ano, em que a Igreja Católica tinha promovido a Campanha da Fraternidade sobre Os Excluídos.

Mas a iniciativa repercutiu tanto, que logo despertou a idéia de ser colocada na agenda de cada ano, como gesto simbólico e aglutinador das demandas políticas postuladas pela cidadania no contexto da celebração da Independência do Brasil.

Não é difícil perceber agora, quando o Grito já está na décima quinta edição, as razões de sua aceitação e inclusão na agenda do Dia da Pátria. Dá para perceber uma confluência de intuições, que deram consistência ao Grito dos Excluídos.

Em primeiro lugar, a semelhança histórica com o folclore oficial do “Grito do Ipiranga”, que vem associado a esta data. Se um “grito” despertou o Brasil para a sua independência, fica evidente que ainda existem razões para continuar gritando, para despertar a nação para causas importantes que estão em jogo!

Outra intuição acertada foi associar, deste o início, a realização do Grito dos Excluídos com a Romaria dos Trabalhadores. E´ muito salutar vincular a independência do país com a causa do trabalho, com todas as implicações que esta associação coloca para a nação.

Outra providência que veio dar consistência e garantir apoio estratégico à realização anual do Grito dos Excluídos, foi o fato de ele ter sido assumido oficialmente pela assembléia da CNBB, ainda em 1996, como parte integrante do seu plano de pastoral. A partir daí, o Grito passou a fazer parte da agenda pastoral da CNBB, mesmo deixando em aberto a maneira de ser realizado em cada diocese.

A vinculação com a Romaria dos Trabalhadores associou o Grito ao contexto do Santuário de Aparecida, que assim se tornou referência nacional a estimar a realização do Grito em outros lugares também.

Estes detalhes explicam por que o Grito “veio para ficar”, em outra alusão à biografia de D. Pedro Primeiro!

Sua identidade histórica é garantida pela manutenção de sua primeira bandeira, erguida ainda em 1995, com a afirmação enfática de um critério ético indiscutível: “a vida em primeiro lugar!”.

Mas a este apelo, cada ano se acrescenta outra motivação, que venha ao encontro do momento que o Brasil vive, ou do ponto estratégico que é preciso acionar, ou da denúncia candente que se deve fazer.

Por exemplo, quem não sente, neste ano, vontade de gritar contra o clima de corrupção que tomou conta do Senado?

Mas desta vez o Grito prefere nos convocar para uma ação positiva, como é a organização popular, em vista de urgir transformações decisivas para a vida da nação. Daí o lema do Grito deste ano: “A força da transformação está na organização popular”.

É um apelo que tem sempre sua validade, e parece desprovido de mordência. Mas se olhamos um pouco melhor o clima político que vivemos agora no Brasil, percebemos que este alerta chega em boa hora, e é urgente entender o seu recado.

Estamos em tempo de refluxo da cidadania. Corremos o risco de incidir num sério equívoco. A atuação mais pontual do Estado, seja no atendimento de demandas sociais básicas, como na intervenção mais ativa na macroeconomia, não pode acomodar a cidadania, nem desmobilizar sua articulação social e política.

A cidadania precisa manter o Estado sob suas rédeas, para que ele cumpra os objetivos que a cidadania lhe confere. Quando esta dinâmica se inverte, a cidadania se atrofia, e o Estado começa a exorbitar de suas funções.

Desta vez, o Grito dos Excluídos nos alerta para a importância da organização popular. Vale a pena gritar esta verdade aos quatro ventos de nossa Pátria, na data de sua independência!