espiritualidade

O segredo do poder do capitalismo (II): a dimensão mística das mercadorias e a espiritualidade

Jung Mo Sung

No artigo anterior, eu disse que “o segredo do poder do capitalismo não está na sua força bruta ou no seu poder econômico, mas na sua capacidade de fascinar o povo e, a partir de e em nome dessa fascinação, justificar e até fazer invisíveis as injustiças sociais e as mortes dos pobres”; e que, se não formos capazes de desvelar essa fascinação, as nossas críticas “amargas” sobre o capitalismo não serão entendidas e/ou aceitas pela maioria da população. Em outras palavras, se o nosso “ver” (da famosa trilogia ver-julgar-[planejar]agir) só foca nos problemas sociais e ambientais provocados pelo atual sistema capitalista global e não é capaz de enxergar o seu lado fascinante e sedutor, é um ver incompleto e equivocado.

Na verdade, um dos primeiros – se não o primeiro – a perceber essa dupla dimensão do capitalismo foi Marx. Ele inicia o capítulo I do livro O Capital dizendo: “A riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista aparece como uma ‘imensa coleção de mercadorias’,” e que essas mercadorias satisfazem as necessidades humanas, sejam essas originadas do estômago (necessidades orgânicas), ou da fantasia (desejos que foram transformados em necessidades existenciais).

Penso que é importante aqui recordar que o ser humano é um ser de necessidades orgânicas (comer, beber, proteção contra intempérie, segurança…), mas também um ser de desejos. E entre os mais variados desejos, há o desejo básico de ser aceito, reconhecido, por outras pessoas que consideram importantes ou significativas. Esse desejo de reconhecimento é, podemos dizer, um segundo tipo de necessidade básica: pessoas que se sentem rejeitadas por todas as pessoas tendem ao suicídio ou processo de autodestruição. Portanto, adquirir qualidades humanas ou objetos material-simbólicos que são requisitos para o reconhecimento/aceitação por parte do grupo ao qual quer pertencer passam a ser mais do que simples desejos, se tornam necessidades.

Assim, podemos dizer que há dois tipos de necessidades que todo ser humano precisa satisfazer: as “necessidades orgânicas”, originadas do seu organismo biológico e as “necessidades psicossociais”, originadas da interação do indivíduo com o seu grupo social.

Em uma comunidade religiosa, por ex, as qualidades e práticas religiosas características do grupo são exigências (necessidades a serem cumpridas) para a pertença e o reconhecimento. No caso de uma comunidade de inspiração franciscana radical, é necessário vencer a tentação (desejo que contradiz o espírito da comunidade) de viver no conforto e luxo.

No capitalismo, como diz Marx, cabe à mercadoria satisfazer, não somente as necessidades orgânicas, mas também as necessidades psicossociais do desejo/necessidade de pertença e reconhecimento. Por isso, mercadoria é muito mais do que algo material. Como diz Marx: “À primeira vista, a mercadoria parece uma coisa trivial, evidente. Analisando-a, vê-se que ela é uma coisa muito complicada, cheia de sutileza metafísica e manhas teológicas. Como valor de uso, não há nada misterioso nela (…) Mas logo que ela aparece como mercadoria, ela se transforma numa coisa fisicamente metafísica. O caráter místico da mercadoria não provém, portanto, de seu valor de uso.”

Sem entrar em discussão mais aprofundada sobre esse tema, quero somente destacar a menção a “sutilezas metafísicas e manhas teológicas” e ao “caráter místico” da mercadoria dentro do sistema econômico-cultural capitalista. Características essenciais da mercadoria no capitalismo que produzem fascinação e sedução. Hoje em dia, também especialistas em marketing e propaganda (como P. Kotler e T. Gad) falam explicitamente da dimensão espiritual das marcas ou de marketing espiritual na propaganda e nas empresas.

Para desmascarar o caráter perverso e desumano dessa dimensão teológico-mística das mercadorias e dos “grifes”, é preciso fazer o uso da teologia e das ciências da religião. Nesse ponto, a teologia da libertação pode e deve fazer uma contribuição ao debate social crítico. Contudo, teorias podem convencer as pessoas da validade de uma explicação, mas não são capazes de “converter”, de fazer elas verem que estão seduzidos por uma mística desumana e optar por seguir um novo caminho espiritual-existencial. Para é preciso uma espiritualidade alternativa que, além de iluminar a vida, seja capaz de fornecer uma força para vencer a sedução e o “espírito do mundo”. Penso que esse é um, se não o mais importante, desafio para o cristianismo de libertação no mundo de hoje. A força e a relevância do cristianismo de libertação dependem da sua espiritualidade. Uma espiritualidade que não seja marcada pela amargura da crítica “sem fim”, mas pela esperança e luz que ilumina os novos caminhos possíveis. (A continuar)

A razão espiritual do cristianismo de libertação

Jung Mo Sung

Recentemente assisti uma entrevista de um padre famoso por suas liturgias-show em um canal de TV aberto. Ele disse que respeitava a Teologia da Libertação, mas que ela levava somente assistência social aos pobres, mas não a fé; e que ele levava a fé e também a assistência social.

Eu não quero discutir aqui se a opinião dele sobre a TL está correta ou não, mas temos que reconhecer que essa é uma imagem muito divulgada sobre a TL. Isto é, difundiu-se na sociedade, e também em muitos setores das igrejas cristãs, que a TL se preocuparia somente ou prioritariamente com as questões sociais e políticas (o que é mais do que mera assistência aos pobres dito por aquele padre) e, com isso, deixaria sem segundo plano a religião, fé e espiritualidade.

Quem conhece melhor a TL sabe que isso não é correto, mas algo deve ter passado para que essa “falsa imagem” tenha se espalhado. Não pode ser somente culpa ou responsabilidade de algum tipo de “difamação” ou incompreensão por parte dos que se opõe a TL. Talvez não tenhamos sido suficientemente claro em explicitar os fundamentos bíblicos, a experiência viva da fé e a espiritualidade que nos move nas lutas e debates sociais e políticos. Em me lembro de uma aula que tive com Hugo Assmann, no mestrado em teologia, em 1988, quando ele nos dizia muito seriamente: se a TL perder a bandeira da espiritualidade para setores carismáticos conservadores será o início do seu fim.

Não sei se já perdemos essa bandeira e luta, mas penso que é fundamental sempre nos relembrarmos e reforçarmos uma das convicções fundamentais dos primeiros teólogos da libertação: a TL é uma teologia espiritual! Não porque discute a espiritualidade na Bíblia ou retoma o estudo dos grandes mestres espirituais – coisas que também faz –, mas porque assume como o seu momento “zero” uma experiência espiritual. É bastante divulgada a tese de que a TL é o momento segundo, sendo o momento primeiro as lutas pela libertação. (Por isso, a TL não é uma simples releitura dos tratados teológicos a partir da opção pelos pobres, ou como diversos propõe hoje a partir do pluralismo religioso, mas uma reflexão teológica a partir e sobre as lutas de libertação.) Mas, poucos se lembram que, na tradição do cristianismo de libertação, o que nos motiva para essa luta é a indignação ética frente a realidade da injustiça social, do sofrimento dos pobres. E que essa indignação é mais do que meramente uma questão ética. Como a primeira geração da TL afirmou: é uma experiência espiritual de ver na face do pobre a face de Jesus.

Talvez esse ponto fundamental, que está no fundamento, deva ser mais aprofundado e difundido pelo cristianismo de libertação. Quando se diz que no encontro solidário com os pobres e outras vítimas das injustiças e preconceitos encontramos com Jesus ressuscitado, é claro que isso não deve ser entendido no sentido literal, como se pudéssemos ver Jesus com os olhos que ” a terra irá comer”. É uma linguagem espiritual-teológica. Entendemos melhor o seu sentido quando nos perguntamos de onde vem essa força que nos empurra a lutar por pessoas que não podem nos pagar ou retribuir – lutar de “graça” – e quando nos perguntamos também porque, apesar de tanta dificuldade e incompreensões, essa luta deixa nossa vida com mais “graça” de ser vivida, razão pela qual nos mantemos fieis a luta.

É da sabedoria espiritual cristã ser capaz de “ver” esses “mistérios da fé” – a experiência da “graça” de Deus no cotidiano – que estão por detrás, para além da mera aparência, de “assistência social” ou de “luta política”. Uma sabedoria que é capaz de perceber e compreender o Espírito de Jesus Crucificado e Ressuscitado nas nossas vidas. É isso que quer dizer “encontrar Jesus no encontro solidário com os pobres e vítimas”.

Pessoas e grupos que vivem movidas por essas experiências espirituais se congregam em comunidades para celebrar sua fé e sua caminhada espiritual. É uma celebração “energizada” por algo mais profundo do que performances de rituais humanos, uma celebração movida por esse Espírito de Amor solidário, que nos faz compreender o que diz a primeira carta de são João: “Ninguém jamais contemplou a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é realizado” (1Jo, 4, 12).

Talvez o que precisamos é melhorar nossa comunicação com a igreja e a sociedade para mostrar mais claramente que o que move o cristianismo de libertação não é ideologia política ou problemas sociais, mas é a fé em Jesus e o Espírito Santo, que nos movem ao encontro das pessoas que sofrem e juntos lutar pela Vida. E isso porque, além de ser teologicamente correto, a força social do cristianismo está na sua espiritualidade.

A missão espiritual do cristianismo e o espírito do capitalismo

Jung Mo Sung

A missão das igrejas cristãs é, como sempre foi, uma missão espiritual. O que diferencia as igrejas de outras organizações sociais é, entre outras coisas, o caráter explicitamente espiritual da sua missão, da sua razão de existir. Deixar de tratar da espiritualidade ou colocar esse tema em segundo plano é um caminho que leva à perda da identidade e credibilidade das igrejas.

Mas, em que consiste a espiritualidade? Um dos grandes equívocos das pessoas ou grupos religiosos preocupados com esse tema é pensar que o mundo moderno, por não ser mais religioso como era antigamente, carece de espiritualidade. Isto é, a espiritualidade é entendida como algo que só existe dentro das religiões ou de correntes que se assumem explicitamente como espirituais. Por isso, a missão das igrejas cristãs seria a de levar a espiritualidade a um mundo sem espírito.

Nesse tipo de visão, a espiritualidade é sempre vista positivamente. Há grupos que diferenciam, corretamente, a espiritualidade da religião e defendem a prioridade da espiritualidade sobre a religião; outros chegam a negar a possibilidade de se viver espiritualidade dentro das religiões tradicionais por causa do seu ritualismo mecânico e seus dogmatismos autoritários desvinculados da vida cotidiana. Porém, mesmo nesses predomina a ideia essencialmente positiva de todas as espiritualidades.

Penso que esse equívoco se deve em grande parte à aceitação da “falsa propaganda” do mundo moderno que se diz ilustrado, racional, secularizado e, portanto, pós-religioso. Com isso, questões espirituais e religiosas ficariam restritas ao campo privado ou restritas aos grupos religiosos. O aumento do número de religiosos ou crentes em Deus não modificaria o fato de que o “mundo moderno” como tal é regido por razão e princípios da secularização. Diante de um mundo assim, os que não aceitam esse “ateísmo” moderno defendem a espiritualidade de um modo abstrato.

Para sairmos desse equívoco, precisamos repensar o que significa o “espírito”. Tanto em grego (pneuma), quanto em hebraico (ruah), a palavra “espírito” significa também “sopro”, “vento”, mostrando que o espírito é a força que move e dá direção uma pessoa ou uma sociedade. Um grande número de pessoas não forma por si um grupo ou se não for movido por um mesmo “espírito” (temos a expressão “espírito de equipe”), assim como uma sociedade ampla como a atual não caminharia em uma direção mais ou menos definida se não fosse movida por um espírito. O famoso livro de Max Weber “A ética protestante e o espírito do capitalismo” trata exatamente do surgimento de um novo espírito que move um tipo particular de sociedade, a capitalista.

Weber sintetizou, no início do século XX, o que ele entende por esse espírito dizendo: “O homem é dominado pela produção de dinheiro, pela aquisição encarada como finalidade última da sua vida. A aquisição econômica não mais está subordinada ao homem como meio de satisfazer suas necessidades materiais. Esta inversão do que poderíamos chamar de relação natural, tão irracional de um ponto de vista ingênuo, é evidentemente um princípio orientador do capitalismo, tão seguramente quanto ela é estranha a todos os povos fora da influência capitalista”.

A ganância ilimitada e o desejo ilimitado de consumo e ostentação são características fundamentais da espiritualidade que move o capitalismo global hoje. É essa espiritualidade que move o mundo globalizado em direção ao agravamento da crise social (aumento da desigualdade) e ambiental.

É contra esse tipo de espiritualidade que devemos viver e anunciar a vida em Espírito de Jesus Ressuscitado. Espiritualidade verdadeiramente cristã e humanizadora não é aquela que nos retira desse mundo para um mundo “celestial”, nem nos dá força para realizarmos os desejos nos impostos pela cultura de consumo, mas sim nos dá força para vivermos amor-solidário nesse mundo.

Dessa reflexão, podemos tirar algumas conclusões: a) as igrejas não pregam espiritualidade a um mundo sem espírito, mas sim a um mundo onde se vive uma espiritualidade desumanizadora e destruidora da meio ambiente, uma espiritualidade idolátrica; b) nem toda espiritualidade é boa, humanizadora, portanto é preciso desmascarar a espiritualidade capitalista e também discernir se as espiritualidades que as igrejas propõem são realmente nascidas do evangelho ou não; c) espiritualidades religiosas que nos fazem esquecer dos conflitos e problemas do mundo e nos “elevam” para o mundo “celestial”, por mais atraentes que sejam, não são espiritualidades cristãs, pois o Espírito de Deus não vem para nos tirar do mundo (cf Jo 17), mas para nos dar força para vivermos nossa fé, agindo solidariamente na luta pela Vida; d) lutas sociais e políticas não são meramente sociais e políticas, mas são também expressões visíveis de diferentes espiritualidades.

Espiritualidade e Religião

Frei Betto

Espiritualidade e religião se complementam; mas, não se confundem. A espiritualidade existe desde que o ser humano irrompeu na natureza, há mais de 200 mil anos. As religiões são recentes, não ultrapassam 8 mil anos de existência.

A religião é a institucionalização da espiritualidade, assim como a família é do amor. Há relações amorosas sem constituir família. Do mesmo modo, há quem cultive sua espiritualidade sem se identificar com uma religião. Há inclusive espiritualidade institucionalizada sem ser religião, como é o caso do budismo, uma filosofia de vida.

As religiões, em princípio, deveriam ser fontes e expressões de espiritualidades. Nem sempre isso ocorre. Em geral, a religião se apresenta como um catálogo de regras, crenças e proibições, enquanto a espiritualidade é livre e criativa. Na religião, predomina a voz exterior, da autoridade religiosa. Na espiritualidade, a voz interior, o “toque” divino.

A religião é uma instituição; a espiritualidade, uma vivência. Na religião há disputa de poder, hierarquia, excomunhões e acusações de heresia. Na espiritualidade predominam a disposição de serviço, a tolerância para com a crença (ou a descrença) alheia, a sabedoria de não transformar o diferente em divergente.

A religião culpabiliza; a espiritualidade induz a aprender com o erro. A religião ameaça; a espiritualidade encoraja. A religião reforça o medo; a espiritualidade, a confiança. A religião traz respostas; a espiritualidade suscita perguntas. As religiões são causas de divisões e guerras; as espiritualidades, de aproximação e respeito.

Na religião se crê; na espiritualidade se vivencia. A religião nutre o ego, pois uma se considera melhor que a outra. A espiritualidade transcende o ego e valoriza todas as religiões que promovem a vida e o bem.

A religião provoca devoção; a espiritualidade, meditação. A religião promete a vida eterna; a espiritualidade a antecipa. Na religião, Deus, por vezes, é apenas um conceito; na espiritualidade, uma experiência inefável.

Há fiéis que fazem de sua religião um fim e se dedicam de corpo e alma a ela. Ora, toda religião, como sugere a etimologia da palavra (religar), é um meio para amar o próximo, a natureza e a Deus. Uma religião que não suscita amorosidade, compaixão, cuidado do meio ambiente e alegria, serve para ser lançada ao fogo. É como flor de plástico, linda, mas sem vida.

Há que tomar cuidado para não jogar fora a criança com a água da bacia. O desafio é reduzir a distância entre religião e espiritualidade, e precaver-se para não abraçar uma religião vazia de espiritualidade nem uma espiritualidade solipsista, indiferente às religiões.

Há que fazer das religiões fontes de espiritualidade, de prática do amor e da justiça, de compaixão e serviço. Jesus é o exemplo de quem rompe com a religião esclerosada de seu tempo, e vivencia e anuncia uma nova espiritualidade, alimentada na vida comunitária, centrada na atitude amorosa, na intimidade com Deus, na justiça aos pobres, no perdão. Dessa espiritualidade resultou o cristianismo.

Há teólogos que defendem que o cristianismo deveria ser um movimento de seguidores de Jesus, e não uma religião tão hierarquizada e cuja estrutura de poder suga parte considerável de sua energia espiritual.

O fiel que pratica todos os ritos de sua religião acata os mandamentos e paga o dízimo e, no entanto, é intolerante com quem não pensa ou crê como ele, pode ser um ótimo religioso, mas carece de espiritualidade. É como uma família desprovida de amor.

O apóstolo Paulo descreve magistralmente o que é espiritualidade no capítulo 13 da Primeira Carta aos Coríntios. E Jesus a exemplifica na parábola do Bom Samaritano (Lucas 10, 25-37) e faz uma crítica mordaz à religião em Mateus 23.

A espiritualidade deveria ser a porta de entrada das religiões. Antes de pertencer a uma Igreja ou a uma determinada confissão religiosa, melhor propiciar ao interessado a experiência de Deus, que consiste em se abrir ao Mistério, aprender a orar e meditar, penetrar o sentido dos textos sagrados.

A espiritualidade na construção da paz

Leonardo Boff

Todos os fatores e práticas nos distintos setores da vida pessoal e social devem contribuir para a construção da paz tão ansiada nos dias atuais. Os esforços seriam incompletos se não incluíssemos a perspectiva da espiritualidade.

A espiritualidade é aquela dimensão em nós que responde pelas derradeiras questões que sempre acompanham nossas indagações: De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido do universo? Que podemos esperar para além desta vida?

As religiões costumam responder a tais indagações. Mas elas não detêm o monopólio da espiritualidade. Esta é um dado antropológico de base como é a vontade, o poder e a libido. Ela emerge quando nos sentimos parte de um Todo maior. É mais que a razão, é um sentimento oceânico de que uma Energia amorosa origina e sustenta o universo e cada um de nós.

No processo evolutivo de onde viemos, irrompeu, um dia, a consciência humana. Há um momento nesta consciência em que ela se dá conta de que as coisas não estão jogadas aleatoriamente ou justapostas, ao léu, umas às outras. Ela intui que um “Fio Condutor” as perpassa, liga e re-liga.

As estrelas que nos fascinam nas noites quentes do verão tropical, a floresta amazônica na sua majestade e imensidão, os grandes rios como o Amazonas chamado como razão de rio-mar, a profusão de vida nas campinas, o vozerio sinfônico dos pássaros na mata, a multiplicidade das culturas e dos rostos humanos, a misteriosidade dos olhos de um recém-nascido, o milagre do amor entre duas pessoas apaixonadas, tudo isso nos revela quão diverso e uno é o nosso mundo universo.

A este “Fio Condutor” os seres humanos chamaram por mil nomes, de Tao, de Shiva, de Alá, de Javé, de Olorum e de outros mais. Tudo se resume na palavra Deus. Quando se pronuncia com reverência este nome algo se move dentro do cérebro e do coração. Neurólogos e neurolinguistas identificaram o “ponto Deus” no cérebro. É aquele ponto que faz subir a frequência hertz dos neurônios como se tivesse recebido um impulso. Isto significa que no processo evolutivo surgiu um órgão interior pelo qual o ser humano capta a presença de Deus dentro do universo. Evidentemente, Deus não está apenas neste ponto do cérebro, mas em toda a vida e no inteiro universo. Entretanto, é a partir daquele ponto que nos habilitamos a captá-lo. Mais ainda. Somos capazes de dialogar com Ele, de elevar-lhe nossas súplicas, de render-lhe homenagem e de agradecer-lhe pelo dom da existência. Outras vezes, nada dizemos, apenas O sentimos silenciosos e contemplativos. É então que nosso coração se dilata às dimensões do universo e nos sentimos grandes como Deus ou percebemos que Deus se faz pequeno como nós. Trata-se de uma experiência de não-dualidade, de imersão no mistério sem nome, da fusão da amada com o Amado.

Espiritualidade não é apenas saber, mas, principalmente, poder sentir tais dimensões do humano radical. O efeito é uma profunda e suave paz, paz que vem do Profundo.

Desta paz espiritual a humanidade precisa com urgência. Ela é a fonte secreta que alimenta a paz cotidiana em todas as suas formas. Ela irrompe de dentro, irradia em todas as direções, qualifica as relações e toca o coração íntimo das pessoas de boa-vontade. Essa paz é feita de reverência, de respeito, de tolerância, de compreensão benevolente das limitações dos outros e da acolhida do Mistério do mundo. Ela alimenta o amor, o cuidado, a vontade de acolher e de ser acolhido, de compreender e de ser compreendido, de perdoar e de ser perdoado.

Num mundo conturbado como o nosso, nada há de mais sensato e nobre do que ancorar nossa busca da paz nesta dimensão espiritual.

Então a paz poderá florescer na Mãe Terra, na imensa comunidade de vida, nas relações entre as culturas e os povos e aquietará o coração humano, cansado de tanto buscar.

Espiritualidade de Prosperidade

J. B. Libanio

Os sistemas políticos e econômicos não vivem só de ideologia e dinheiro. Política e economia satisfazem as necessidades básicas do ser humano. Mas deixam em descoberto seu lado espiritual, religioso. Por isso, todo sistema econômico cria sua espiritualidade ou encampa algo já existente, imprimindo-lhe sua marca.

Os ideais socialistas casavam muito bem com a teologia da libertação, assim como com a luta das comunidades eclesiais de base nas suas reivindicações fundamentais. Sem transformar-se em ideologia socialista, a espiritualidade da libertação alimentava e alimenta até hoje as pessoas que se envolvem com as práticas transformadoras da realidade na linha da emancipação e promoção dos pobres.

E agora, que espiritualidade está a responder ao triunfo do neoliberalismo? Onde ele busca apoio espiritual para preencher o vazio que o puro consumismo e o materialismo deixam atrás de si?

Muitas igrejas pentecostais e neopentecostais têm elaborado a espiritualidade da prosperidade e com isso mantido as pessoas nas redes do neoliberalismo, respaldadas por uma visão religiosa da realidade. Em que consiste tal espiritualidade?

Na base está o individualismo neoliberal com sua concepção de concorrência e competição de modo que vencem os mais fortes, os mais sabidos, os mais “vivos”. Daí resulta o progresso. Pior para quem fica fora dele. Dito desta maneira rude poderia doer aos ouvidos cristãos. Aí entra uma pitada de espiritualidade que tudo tempera.

Deus quer a felicidade, a riqueza, os bens materiais, a felicidade, a saúde, aqui e agora, para seus filhos. Quem são eles se não os cristãos? Pensar de maneira diferente é cair na alienação tradicional. Esta prometia os bens somente para a vida eterna que se obtinha com os sofrimentos aqui na terra.

Cristo já sofreu no nosso lugar. Agora vem-nos a bênção de Deus. Somos “filhos do Rei”. Se vamos para o céu, por que não antecipar um pouco dele nesta vida?

E os pobres? Sempre os haverá entre nós, como diz o Senhor. Eles são os perdidos. São preguiçosos, viciados, idólatras. Se vão mesmo para o inferno, por que não ensaiar um pouco aqui na terra? “O Terceiro Mundo é pobre porque idólatra”, pregava Luiz Palau, evangelista argentino, americano naturalizado. Dois irmãos nordestinos sentenciavam, em São Paulo, que a culpa da pobreza do Nordeste é a devoção idólatra ao Padre Cícero.

Se os cristãos não ficarem ricos, isto é falta de fé. Vem de algum pecado oculto. Confessando-os, conhecerão a prosperidade. Mas se mesmo assim, não ficarem ricos, então a culpa é de algum antepassado.

Nessa espiritualidade, não há lugar para a solidariedade nem para a opção pelos pobres. É estritamente individualista. É uma espiritualidade dos resultados. Os ricos já estão abençoados. Encontram nela paz interior, uma vez que já possuem os bens materiais. Os pobres devem buscá-la para si e seus familiares, recorrendo a ritos religiosos, como o de abençoar ou ungir de óleo santo as carteiras profissionais.

Para a Igreja Universal do Reino de Deus a vida espiritual é uma transação financeira com o céu. Quanto maior a oferta, tanto maior a bênção. A espiritualidade da prosperidade é o coração dessa Igreja. Ela incentiva mais que ter carteira assinada é a criação de microempresas. Um bispo seu, trafegando em luxuoso carro do ano, dizia: “Eu ensino a prosperidade e vivo a prosperidade”.

Apela-se então para um “poder” nas palavras o qual libera “energias positivas” e combate o baixo astral com efeito sobre as coisas, doenças. A realização dessa espiritualidade é “vida longa e próspera”.

Outra expressão é a idéia de que Deus não fez seu povo para ser “cauda” do mundo, mas sua “cabeça”. Incentivam-se os cristãos a ambicionar postos de mando na Terra. Aos “perdidos” cabe impor obediência e evitar que façam males maiores.

A participação na política não visa a uma transformação social, mas a travar a luta do bem contra o mal, sem lugar para o pluralismo. O bem se identifica com os ideais e interesses da própria igreja e de seus dirigentes. Volta-se à velha idéia da batalha espiritual que transforma em inimigo tudo com o que essa espiritualidade não concorda. Divide o mundo em dois campos: o lado de Deus (o lado da igreja) e o lado do mal, do demônio: todas as forças que divergem de sua maneira de ver a realidade.

A espiritualidade da prosperidade é uma resposta ao momento atual. Corresponde muito bem ao clima dominante da cultura pós-moderna a serviço do neoliberalismo. Daí sua sedução. Oferece o caminho rápido do sucesso sem passar pelo trabalho, pela renúncia, pelo esforço. O êxito econômico se faz até mesmo por vias suspeitas. Ele é sinal da bênção de Deus. A riqueza é vista no seu valor em si mesmo, sem nenhuma responsabilidade social. Muito distante da doutrina social da Igreja que defende a hipoteca social sobre toda posse. Os bens materiais são vistos como privilégio e bênção para alguns escolhidos de Deus e não destinados a todos. Produz-se uma identificação rápida entre a bênção de Deus e os bens materiais dos ricos.

Atém-se a uma interpretação literal e unilateral do Antigo Testamento. Esquece-se de que Jesus veio dar-lhe o verdadeiro sentido. Não se tem a mínima sensibilidade pela dimensão social nem pelo amor predileto de Deus pelo pobre. Os verdadeiros bens para o cristão encontram-se retratados por Jesus no sermão da montanha e na sua vida.

Jesus proclama bem-aventurados os pobres e não aqueles que nadam em riqueza e a ambicionam para si. Jesus invectiva aquele rico que só pensava em armazenar ainda mais seus bens. “Insensato! Esta noite mesmo a tua vida ser-te-á reclamada e o que tu preparaste, quem é o que o terá?” E conclui com um dito lapidar: “Eis o que acontece a quem reúne um tesouro para si mesmo, em vez de enriquecer junto a Deus” (Lc 12, 16-21)

Como se vê, é exatamente o oposto da espiritualidade da prosperidade que só pensa em entesourar para si e quanto mais, melhor. Esquece da condição mortal.

Mais ainda. Jesus refere-se diretamente à fragilidade dos bens terrestres que as traças e os vermes corroem; que os ladrões roubam. Conclui: “acumulai para vós tesouros no céu, onde nem as traças nem os vermes causam estragos, onde os ladrões não arrombam nem roubam”. E termina com um dito de sabedoria: “onde está o teu tesouro, aí também estará o teu coração” (Mt 6, 19-21).

O ensinamento de Jesus sobre o seguimento situa-se em posição diametralmente oposta à espiritualidade da prosperidade. Na base está o desprendimento e não a acumulação. “Qualquer um de nós que não renuncia a tudo o que lhe pertence não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 33).

Precisa ser de uma absoluta cegueira a respeito do evangelho de Jesus para propor uma espiritualidade da prosperidade como expressão do projeto de Deus. Este se manifestou em sua plenitude na pregação e pessoa de Jesus. As passagens do Antigo Testamento, que parecem identificar a bênção de Deus com a abundância dos bens, revelam um aspecto de seu projeto criador. Os bens criados estão destinados a todos os seres humanos e não a serem privilégio de alguns que se engolfam neles enquanto outros carecem de tudo. O Novo Testamento avança. Relativiza os bens materiais na perspectiva do irmão, do serviço aos outros, da própria missão.

A espiritualidade da prosperidade inverte o sentido cristão. É materialista, pagã. Nada cristã. Não se opondo ao canto de sereia do neoliberalismo, capitula. É a espiritualidade que justifica a injustiça social, tranqüilizando a consciência com tintura religiosa. Camufla a verdade da injustiça social, transferindo para Deus – bênção e maldição – a diferença social entre os humanos, fruto do sistema econômico, ao menos, na forma atual.

Religião e Espiritualidade

Frei Betto

A espiritualidade é, como a sexualidade, uma dimensão constitutiva do ser humano. Essa potencialidade neurobiológica pode ou não ser cultivada. Uma pessoa desprovida de espiritualidade prescinde da percepção da profundência de sua subjetividade. Nela os desejos prevalecem sobre os ideais.

Se Sócrates e Descartes nos despertaram para a inteligência racional; Colleman, para a emocional; foi a física e filósofa Danah Zohar que chamou a atenção para a inteligência espiritual. Maria Corbi sugere que a espiritualidade se resume em IDS: Interesse (por ela); Desapego (de si e dos bens finitos); Silenciamento (concentrar-se para descentrar-se no Outro e nos outros).

À primeira vista, espiritualidade opõe-se à materialidade. E o espírito ao corpo. Esse dualismo platônico está superado, tanto pela ciência quanto pela teologia. Somos todos e tudo uma Unidade. Os mesmos 92 átomos encontrados em nosso corpo são os “tijolos” que edificam o conjunto do Universo.

A espiritualidade prescinde das religiões, pode ser vivida sem elas, e há religiões desprovidas de espiritualidade, asfixiadas pelo peso do doutrinarismo autoritário. Sócrates (470 a.C.-399 a.C.) e Sêneca (4 a.C.-65 d.C.) eram homens profundamente espiritualizados, “santos pagãos”, embora destituídos de religião.

As religiões surgiram no período neolítico, quando o ser humano, até então nômade e coletor, fixou-se na atividade agrícola, tornando-se sedentário. Seu ponto axial foi o século VII a.C. Nele nasceram e/ou viveram Buda (600), Lao-Tsé (604) Zaratustra (660) e os profetas Jeremias e Daniel.

A religião, como instituição, surge naquela época. Antes, predominava a cosmovisão tribal, comunitária, voltada a aplacar a ira dos deuses e obter proteção diante das catástrofes naturais, sem individuação do sujeito frente à divindade. Só a partir do século VII a.C. o ser humano passa a ter consciência de sua relação pessoal com Deus.

A religião surge como forma de controle da sociedade agropastoril e seus grandes relatos disciplinam o caos ético, ao mesmo tempo que interioriza o poder da autoridade.

Hoje, o que está em crise não é a espiritualidade. São as formas tradicionais de religião. Nesse mundo secularizado, desencantado, os valores são substituídos pelas ciências; o ser pelo ter; o ideal pelo desejo; o altruísmo pelo consumismo. Assim, a religião reflui para a vida privada e os locais de culto. E deixa de influir na vida social.

No interior das próprias Igrejas cria-se a dicotomia: fiéis se distanciam da doutrina e da moral oficiais, como é o caso do uso de preservativos por católicos. Como nas relações de trabalho, ocorre uma flexibilização institucional da crença. Ela se constitui num amálgama de propostas, formando um mosaico esotérico.

A crise da Cristandade, no Renascimento, não significou a crise do cristianismo. Da mesma forma, a crise das religiões não pode ser confundida com a da espiritualidade. Agora nos deparamos com uma espiritualidade pós-axial, laica, pós-religiosa, centrada na autonomia do indivíduo.

O que caracteriza essa espiritualidade pós-moderna é, de um lado, a busca, não do outro, mas de si, da tranqüilidade espiritual, da paz do coração. Nesse sentido, trata-se de uma espiritualidade egocêntrica, centrada no próprio ego. De outro, uma espiritualidade política, voltada à promoção da justiça e da paz, comprometida com a ética e a proteção do meio ambiente.

Vale retomar o esquema Corbi: hoje, uma espiritualidade evangélica deve ter clareza de seus objetivos. O meu próprio bem-estar subjetivo ou também uma sociedade fundada na justiça? Deve propiciar o desapego aos bens finitos, como mercadorias, poder, dinheiro, fama, de modo a favorecer o cultivo dos bens infinitos: amizade, solidariedade, compaixão. E, sobretudo, fundar-se no silenciamento, na abertura dialógica, orante, a Deus; na atitude servidora aos outros; na reverência devocional à natureza.

A espiritualidade no conflito

Antônio Mesquita Galvão

Vivam em harmonia uns com os outros.
Não se deixem levar pela mania de grandeza,
mas se afeiçoem às coisas modestas (Rm 12,6).

As pessoas, em geral, têm dificuldade de compreender o sentido da palavra “espiritualidade”. E é justamente por causa desse equívoco que não conseguem desenvolver adequadamente um cristianismo eficaz, de acordo com seu estado de vida. Muitos a confundem com “espiritismo” ou “espiritualismo” e apontam para algum modo evasivo de vida espiritual, sem saber conceituar nem tampouco avaliar como se desdobra esse tipo de vivência. Por ser a espiritualidade uma forma muito rica de relação com Deus, ela aponta para um estilo de vida. De vida cristã.

Nesta reflexão vamos estudar a superveniência da espiritualidade nos conflitos que atingem os cristãos no mundo todo, especialmente nas regiões de contenda entre os lavradores e o latifúndio. Como envolve uma questão da moral cristã, vamos iluminar nosso trabalho com a carta de São Paulo aos romanos, um tratado espiritual que privilegia sobremodo a reflexão cristã à luz da Teologia Moral.

A ambigüidade da vida humana

O grande desafio da espiritualidade cristã é compatibilizar uma vida voltada para os apelos do Espírito na ambigüidade das limitações da vida material a que todos estão sujeitos. Não é possível a ninguém, alienar-se de sua vida material, social, profissional, familiar, política, etc. É justamente nessas circunstâncias de nossa existência que devemos nos encontrar com Deus, sem fugir do mundo, mas relacionando-nos com o Infinito conforme nosso estado de vida. Reside aí o desafio: viver uma vida cristã, espiritualizada e voltada para o alto, sem furtar-se à vida material e à dimensão sócio-fraterna inerente a esse tipo de vida.

Na oração de despedida Jesus reconhece essa ambigüidade e pede ao Pai que proteja seus amigos (cf. Jo 17,9). Na magnificência da misericórdia, Deus vem ao nosso encontro, ignorando nossas limitações, incapaz de nos rejeitar, reconhecendo em nós a continuidade de seu projeto na história. A esse respeito chega-nos a palavra inspirada do apóstolo:

É o que continua acontecendo até hoje: sobrou um resto, conforme a livre eleição da graça. E isso acontece pela graça, e não pelas obras: do contrário a graça já não seria graça (Rm 11, 5s).

A espiritualidade de cada estado de vida

É fundamental que se insista na necessidade que os cristãos têm, cada vez mais, de descobrirem eles próprios os caminhos de sua espiritualidade, de acordo com a forma de vida abraçada por cada um, sem que um queira viver em sua vida o tipo de espiritualidade do outro, ou simplesmente se omitindo. Deus quer que eu me envolva com ele, sem, no entanto, fechar os olhos à injustiça que sofre o irmão, o vizinho, o companheiro de caminhada. Essa opressão é uma tônica gritante fora do âmbito das grandes capitais do Sul-Sudeste. Em tudo ocorrem conflitos e desacertos. Na psicologia, vemos conflito, segundo as teorias behavioristas, como um “estado provocado pela coexistência de dois estímulos que disparam reações mutuamente excludentes”.

Simplificando, há quem defina, igualmente o conflito como “profunda falta de entendimento entre duas ou mais partes”. A vida humana e a existência dos cristãos não estão imune, ocorre no meio dos conflitos. O conflito possui diversos estágios, desde não-percebido, em potencial, latente e manifesto. Na antítese do conflito surgem a misericórdia e a temperança como forma de organizar a vida cristã, mesmo sob o fogo do conflito. A atitude cristã, como ensina São Paulo é a resposta à misericórdia de Deus. Ela abrange toda a existência concreta do homem. As propostas do mundo são variadas. Algumas delas são boas e outras conduzem ao conflito. Nessa conjuntura cabe a cada cristão oferecer a si mesmo como sacrifício vivo à vida e à justiça, sem se deixar contaminar pelo mal.

Não se amoldem às estruturas deste mundo, mas transformem-se pela renovação da mente, a fim de distinguir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que é agradável e ele, o que é perfeito (Rm 12, 2).

O sentido da vida

Por sentido de vida entende-se o ato de imprimir à existência um rumo que a valorize, que faça a todos felizes e transmita essa alegria aos demais. Esse sentido constrói os fundamentos de uma vida feliz e produtiva. Uma vida com sentido é algo que se elabora com o tempo, com esforço e dedicação. É preciso saber organizá-la para tirar dela o melhor que ela tem a oferecer. A busca de um sentido para nossa vida é árdua e laboriosa, mas possível.

É preciso que o ser humano se conheça. O homem tem três referenciais de encontro: com Deus (que eu te conheça… conforme Santo Agostinho), consigo (gnôti s’eautón = conhece a ti mesmo, de Sócrates) e com o outro, em suas necessidades (eu tive fome e me deste de comer…). O homem se realiza através desses três encontros. A vida com sentido começa por esse tipo de atitude. É por aí que começa a escolha de um bom caminho.

Ás questões usuais, como “Por que vivo?”, “Tem sentido a minha vida?”, têm respostas na necessidade de cada um encontrar o significado para a sua existência. Para a descoberta de um sentido, a vida precisa ser plena em seu sentido ontológico, devendo ser construída em três planos: a) físico – retrata o lado instintivo, onde só os apelos do corpo decidem e ordenam; b) sensível – enfoca o sentimentalismo: o indivíduo sonhador forma seu viver e agir em um campo de simpatias, gostos e paixões; d) sobrenatural – consciente de sua origem e destinação, o espírito torna-se livre para tomar as decisões mais importantes da vida.

O aspecto espiritual, o lado místico do ser humano é um importante aliado ao desenvolvimento do projeto da vida. Nosso projeto nunca terá sucesso se não colocarmos vida nele. A nossa vida. Não colhe quem não jogou primeiro o grão na terra. Assim ocorre com a nossa felicidade. Deus dá seus dons, como sementes férteis e valiosas, mas o ser humano precisa aprimorá-las, colocá-las na terra fértil e ter paciência para deixar crescer e frutificar.

Se de um lado a morte é o salário do pecado, de outro, o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Jesus Cristo (Rm 6,23)

A radiografia dos conflitos

Por conflito, como vimos nas meditações anteriores, se entende aquela profunda falta de entendimento entre duas ou mais partes. Como sinônimo de choque ou enfrentamento o conflito subentende um ato, estado ou efeito de grupos estabelecerem divergências que se manifestam acentuadamente ou de se oporem como interesses irreconciliáveis. No campo social, o conflito de caracteriza pela contestação recíproca entre dois grupos pelos mesmos valores, a que julgam ter direito, competência ou atribuição. O conflito, segundo a psicologia e a sociologia, pode ser não-percebido, latente ou manifesto.

Os conflitos por causa da terra

No meio das comunidades, especialmente no interior do país, e mais ainda no eixo norte-nordeste, ocorre a grilagem e o choque com os posseiros, contrastando com o coronelismo, a extração irregular de madeira e minérios, a falta de demarcação de terras indígenas, ameaças ao meio-ambiente, doenças e endemias tropicais, subemprego, violência (e não-raro mortes) contra sindicalistas, líderes comunitários e ministros da Igreja. Isto sem falar nos “reflorestamentos” de árvores que só produzem celulose, plantações de maconha, etc.

A isto se soma a falta de saneamento básico, um sistema educacional deficiente e famílias que se desestruturam por problemas sociais, econômicos e de migração compulsória. Há, por causa desses conflitos, uma perda de fé e de referenciais humanos. Mesmo à vista de todos esses problemas, geradores de inúmeros conflitos, não se pode esquecer do amor de Deus, que é quem nos sustenta.

Quem poderá nos separar do amor de Cristo? A tribulação, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? Como diz a Escritura (cf. Sl 44,23): “Por tua causa somos postos à morte o dia todo, somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro”. Mas, em todas essas coisas somos mais do que vencedores, por meio daquele que nos amou (Rm 8, 35ss).

Na Igreja urbana

Na “igreja urbana” os conflitos têm origem nas discordâncias pessoais ou de pequenos grupos, com certa “disputa de beleza” para saber quem sabe mais, quem pode mais, quem agrada mais à “chefia” ou quem trabalha melhor. Isso ocorre, em certos locais, nos “conselhos”, nos “movimentos” e nos “serviços” paroquiais e grupos de ministérios leigos, onde há muita luta pelo posto de coordenador, etc. O confronto também pode surgir em disputas entre leigos e religioso(a)s. Nessas comunidades o conflito pode ter sua gênese a partir de ideologias políticas, perfis religiosos, desejo de conquistar hegemonias ou motivado por algum tipo de divergência ou disparidade socioeconômica.

Se for possível, naquilo que depende de vocês, vivam em paz com todos (Rm 12,8).

Na Igreja das periferias

Nas periferias o desafio de viver a fé é mais complexo, pois a par de um certo abandono espiritual, constata-se a escalada da violência e a marginalidade (tráfico de drogas, armas e pessoas), além dos problemas sociais como falta de saúde, habitação, escola e segurança. As autoridades parecem não se importar com a vida do povo das periferias, e isto redunda na formação de – em alguns casos – de uma “terra de ninguém”, onde impera a lei do mais forte, e onde ávida humana não tem o valor de sua dignidade. Enquanto as chamadas “seitas eletrônicas” crescem nessas áreas, como uma espiritualidade de evasão, milagreira e visando quase que exclusivamente a arrecadação de dízimos e ofertas, resultando numa ponderável ausência de obras, as Igrejas tradicionais, como a nossa, por conta da estrutura pesada das paróquias não consegue atingir essas regiões. A Igreja não vai onde o povo está. Esse distanciamento ajuda a fermentar o conflito social.

Na zona rural

No campo a atuação das Igrejas é mais tênue, pois inflete mais no trato espiritual e sacramentalista (batizados, casamentos e exéquias) deixando de prestar aquela assistência social ao camponês, que oprimido pela pobreza e pela inércia do Estado, fica a mercê da violência do latifúndio, dos grileiros e da desastrada política agrícola e fundiária dos governos, que só atentam para o bem-estar do produtor, do rico e das cooperativas. Na zona rural o conflito – como notei aqui no interior da Bahia – é mais percebido, eclodindo em violência, desapropriações de terras dos pequenos agricultores e desrespeito ao direito dos mais fracos. A resposta a esses desmandos gera conflito que acaba resultando em violência e morte. A atuação das “pastorais rurais” ainda não logrou aquela eficácia preconizada pelas “cartilhas” da CNBB e Dioceses.

Palavra e fé

O cristão, mesmo sob o conflito, deve ser afável, amante da justiça e semeador da verdade. Tudo deve ter início, a partir da iluminação da fé, pela Palavra de Deus, numa formação bíblica e doutrinária adequada, assim como a descoberta de uma nítida consciência crítica, não jungida a outros modelos que não sejam os de vida cristã, adequados à vida concreta de cada pessoa, conforme sua missão no meio do mundo. A fé e o estudo da Palavra de Deus são ponderáveis pilares da espiritualidade dos cristãos. Hoje em dia o modelo social, político e econômico pretende impor certos padrões, como verdade incontestável, capazes de se tornar paradigma para todos. É a esse respeito que Paulo nos adverte:

Ninguém pode colocar outro alicerce diferente daquele que já foi posto: Jesus Cristo (1Cor 3,11).

Sendo a espiritualidade a forma como nos relacionamos com Deus, é importante que deixemos de lado certo tipo de cristianismo desvinculado com a vida e o mundo, demasiadamente angelista, sem o compromisso com as transformações que o evangelho de Jesus não cansa de nos exortar.

A Palavra (de Deus) está perto de você, na sua boca e no seu coração. Isto é a palavra de fé que nós pregamos (Rm 10,8).

Ao profeta cabe denunciar

Toda a religião vivida de modo alienado torna-se alienante, para quem a pratica e para tantos quantos interajam com pessoas que assim atuam. Além disto, a vivência de uma espiritualidade incoerente é capaz de, pelo negativo do testemunho, desviar muitas pessoas do caminho reto, da amizade com Deus, da Igreja e do convívio com os irmãos. Os profetas davam alento ao povo sofredor por causa da coragem de seu testemunho e de suas denúncias. Ninguém melhor que eles soube sobreviver no meio do conflito. São Paulo denunciou os caminhos do pecado e da dissolução da sociedade sob o egoísmo do poder:

Vivamos honestamente, como em pleno dia: não em orgias e bebedeiras, adultério e libertinagem, brigas e ciúmes. Mas vistam-se do Senhor Jesus Cristo e não corram atrás dos desejos dos instintos egoístas (Rm 13,13s).

Diferentes tipos de cultura

Para quem conhece o Brasil fica a constatação da existência de um conflito, entre o ser-cristão de muitos e a figura paulina do “espírito do mundo”. O conflito se instala, muitas vezes, dentro das Igrejas, com motivação político-ideológica, social e por causa da busca de poder, intentada por determinados grupos. Para quem, como eu, reside no Sul do país, onde se vive sob o foco de uma religião de corte nitidamente europeu, burocrática, sacramentalista, demasiadamente hierárquica, que forma uma “Igreja sentada”, estática, pouco missionária e, geralmente acomodada, muitas facetas do conflito passam despercebidas.

O poder que gera conflito

Em alguns lugares do Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil viver a fé é estar no meio do conflito, pois os obstáculos, como a natureza hostil, as pressões políticas, o descaso oficial e as ameaças dos poderes sociais contra as pessoas, especialmente pobres, humildes e sem voz, faz emergir a necessidade de um profetismo militante.

A convivência com os negros e os índios, cada um segregados à sua maneira, a sobrevivência sob o tacão da opressão, seja ela representada pelo patrão, pelo senhor dos engenhos ou do latifúndio, impõe a esses grupos de excluídos, certas necessidades de viver a fé, de relacionar-se com Deus,

Por conta desses problemas, o povo deve ir se organizando, fomentando um espírito crítico, sem apelar para a violência e sem a tentação de quebrar os paradigmas da paz e do perdão. A própria Justiça, que em tese deveria ser cega, dispensa a cada grupo um quinhão proporcional a sua representatividade social.

Dois tipos de erro

Querendo devolver olho-por-olho as injustiças sofridas, muitos abandonam a fé, por não saberem desenvolver uma “espiritualidade no conflito”. Muitos erram alienando-se dos problemas; outros por querer revidar as agressões. Em alguns lugares do Brasil, os crentes vivem uma espiritualidade cômoda, sem riscos; em outros, têm que desenvolvê-la no meio do conflito. Só com fé, espírito de oração, e desejo de concórdia é possível conviver com o conflito sem se deixar contaminar por seus efeitos negativos. Caso contrário estaríamos, ao invés de pacificadores, nos tornando incentivadores do conflito e da discórdia, gerando ódios e confrontos, que nos afastam totalmente da piedade cristã.

A vida humana, por causa do pecado que existe no mundo, nos impõe sofrimentos a partir dos tantos conflitos que são deflagrados no dia-a-dia. Uma espiritualidade discernida e orientada pela Palavra é capaz de nortear os rumos de quem insiste em ser cristão e viver sua fé no meio do conflito que, por exemplo, nas regiões mais ínvias, é permanente.

Vivam em harmonia uns com os outros.
Não se deixem levar pela mania de grandeza,
mas se afeiçoem às coisas modestas

A solução para entender o conflito está em refletir a Palavra de Deus e sua aplicação aos fatos do cotidiano. A forma de resolver as questões da violência indica a necessidade de o povo se organizar para defender, na justiça, os seus direitos. A espiritualidade no conflito indica a necessidade desse tipo de providências.

A escuridão para além da luz

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Tomando como ponto de referência a luz da razão, podemos estabelecer dois estágios no difícil caminho da espiritualidade: uma escuridão que permanece aquém da razão e uma escuridão que vai além da razão.

No primeiro estágio, temos a ignorância quanto a determinadas leis da natureza, do universo e até mesmo da sociedade e do comportamento da pessoa humana. Frente a essa carência do conhecimento, desenvolve-se um tipo de espiritualidade que prima pela magia. Pressupõe uma leitura fatalista e estática da realidade, onde o ser humano não tem qualquer poder de transformação. “Só Deus pode dar um jeito”, diz com freqüência a piedade desse tipo.

Neste caso, a escuridão encontra-se aquém da razão. Isto não quer dizer que essa forma de espiritualidade não comporte uma fé profunda e autêntica. Fé que muitas vezes vem de nossos familiares, especialmente de origem rural. Buscam a Deus, sem dúvida, mas facilmente abdicam da própria liberdade de criar, inovar, recriar. Prevalece a obediência às regras e preceitos. Nos escritos de Paulo, isso aparece como subordinação à antiga lei judaica, enquanto o apóstolo insiste que “fomos libertados para viver na liberdade dos filhos de Deus”.

No segundo estágio, marcado pela escuridão para além da luz, embora a razão conheça os mistérios da natureza, da história e do homem, a alma pressente que esse racionalismo calculista não explica tudo. A ciência disseca as leis que regem o universo, disseca as forças que movem a história, disseca o funcionamento dos organismos vivos, incluído o ser humano. Mas não consegue encontrar um sentido mais profundo para a existência e o funcionamento dessa gigantesca obra. Continuamos reféns do renascimento e do iluminismo, de uma ciência instrumental e pragmática.

A razão “desencanta” o mundo e a história, para usar a expressão da Max Weber. Mas seu raciocínio é transparente demais para dar conta de alguns mistérios ocultos, lógico demais para dar conta das incongruências e contradições de nosso percurso humano sobre a face da terra. Interrogações e dúvidas existenciais continuam se levantando, e a luz da razão parece mais cegar do que iluminar. O ser humano está projetado para superar-se dinâmica e continuamente. Segue inquieto por mares bravios, navegando de porto em porto, como hóspede de um mundo inóspito e provisório, a caminho da pátria definitiva. O que não o impede de buscar formas históricas sempre mais justas, fraternas e solidárias. O Reino de Deus, porém, não se reduz a nenhuma delas, chamando-nos continuamente a dar um passo à frente.

É então que a alma mergulha num campo de sombras, que se encontram além e acima da razão. Aqui predominam o abandono e a confiança em Alguém que, ocultamente, confere uma significação desconhecida à vida terrestre e a seus aparentes absurdos. Entra em cena o salto da fé sobre o escuro das interrogações profundas,  sobre o abismo das dores sem remédio e sobre o futuro incerto. Imagens como deserto, silêncio, abandono e escuridão costumam representar esse mundo das trevas. Nele não há perguntas nem respostas, porque a resposta a todas as perguntas já foi dada uma vez por todas no alto da cruz. O ato de amor supremo no contexto de uma violência extremada revela a toda a misericórdia humano-divina e divino-humana.Somente atravessando esse deserto árido e escuro, não raro solitário, é que a face oculta de Deus lança alguns raios, sempre fugazes e instantâneos, que abrem pequenas veredas no meio de um grande sertão, como diria Guimarães Rosa. A escuridão aqui, embora efêmera e fugazmente, brilha mais forte do que toda a ciência construída pelos conceitos da razão. Um pequeno raio de luz supera horas, dias e meses de trevas. Supera, nutre e orienta o caminhante do deserto. Essa trajetória espiritual ou mística, cheia de avanços e recuos, nos ensina não tanto a pedir clareza para continuar a estrada, mas a pedir forças para caminhar no escuro.