assembleia dos bispos

Sob o signo de Bento XVI

Dom Demétrio Valentini

A Assembleia da CNBB deste ano parece mesmo destinada a sublinhar coincidências simbólicas.

Começa pelo fato, já registrado, de ser a qüinquagésima assembléia, justo quando se comemoram os 50 anos da abertura do Concílio. Esta coincidência revela a íntima relação entre a história da CNBB e as propostas do Concílio.

Mas há outro dado curioso. O contexto da assembléia vem marcado por três aniversários do Papa Bento XVI.

Na segunda-feira dia 16 de abril, o seu aniversário natalício. O Papa já chegou aos 85 anos de idade.

No dia 19, o aniversário de sua eleição papal.

No dia 24, o aniversário do início oficial do seu pontificado, que já chega a sete anos!

Nem precisava tanto, para recordar quem sempre é lembrado com tanta insistência. Em qualquer missa, por simples que seja, sempre existe o momento de rezar pelo Papa.

Mas parece que desta vez as datas convergem, para colocar esta assembleia, que já tinha a sua marca histórica, sob o signo do Papa Bento 16. Ao longo da assembleia, os diversos aniversários serão lembrados com a menção que merecem. Só mesmo um Papa pode celebrar três aniversários numa mesma semana!

Quando foi eleito, Bento 16 explicou a escolha do seu nome, alegando que Bento 15 tivera um pontificado breve. Assim ele pressentia que o dele também seria breve, pois acabava de celebrar 78 anos de vida.

Pelo andar da carruagem, e pela saúde que Bento 16 demonstra, a sua própria expectativa de vida vem sendo relativizada. De novo se comprova que, em se tratando de idade, só estamos seguros quando falamos a posteriori, não a priori.

Ninguém se anima hoje a fazer prognósticos a respeito da duração deste pontificado. Se olhamos para a agenda dos seus compromissos já marcados, entre os quais emerge o encontro mundial com a juventude no Rio de Janeiro em julho do ano que vem, dá para perceber que todos estão convictos que a saúde do Papa está em boa forma.

No contexto dos diversos aniversários do Papa nestes dias, vale recordar o episódio dos noventa anos do Papa Leão 13. Fizeram-lhe uma festa bonita. O cardeal encarregado de saudá-lo, no seu discurso desejou ao Papa mais dez anos de vida. Ao que Leão 13 prontamente interrompeu, dizendo: “Não se pode pôr limites à Providência de Deus!”.

Se com 90 anos era para deixar de lado as especulações, menos ainda convém especular agora, por ocasião dos 85 anos de Bento 16. Sobretudo porque o seu pontificado, que já chega a sete anos, se soma ao longo pontificado de João Paulo II. Pois dada a função exercida pelo então Cardeal Ratzinger, para presidir o mais importante “dicastério” do governo pontifício, como é a “Congregação para a Doutrina da Fé”, era evidente que os cardeais identificassem nele o candidato mais conveniente para levar em frente o pontificado de João Paulo II.

Em todo o caso, esta assembléia da CNBB, já emoldurada com as referências dos 50 anos do Concílio, pelos aniversários nestes dias, fica também colocada sob o signo de Bento 16. Até que a Providência dispuser, independente das especulações que se possam fazer.

Parafraseando o ditado, dá para dizer que “o homem supõe, e Deus surpreende!”

“Beatificação de Irmã Dulce nos faz mergulhar na profundidade de nossa fé”, afirma CNBB

“A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o povo cristão exultam de alegria pelo reconhecimento por parte da Igreja Católica das virtudes da Irmã Dulce – Anjo Bom da Bahia – e por sua beatificação no próximo dia 22 de maio, em Salvador, sua terra natal”. Essas são algumas palavras do texto divulgado pelos bispos participantes da 49ª Assembleia Geral da CNBB, em homenagem a beatificação de Irmã Dulce.

Segundo os bispos, Deus chamou a jovem Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes para um serviço especial junto ao seu povo, os baianos, em particular “os pobres, os doentes, também pessoas rejeitadas por serem portadoras de necessidades especiais. Deixando tudo, tornou-se religiosa na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus e designada para um serviço em sua cidade”.

A nota dos bispos destaca a espiritualidade de Irmã Dulce e a sua devoção por Nossa Senhora. “Sua espiritualidade era nutrida pela Eucaristia, oração, Palavra de Deus, e devoção a Nossa Senhora. A confiança na Providência Divina que se lhe manifestava em diversas ocasiões e, muitas vezes, de forma surpreendente, nunca lhe trazia constrangimento em estender as mãos para pedir ajuda a fim de saciar a fome de pão e saúde aos que a procuravam e a encorajava para seguir adiante vendo em cada sofredor o próprio Cristo Jesus.

Os bispos destacam também a escolha feita pelo papa Bento XVI na beatificação da Irmã baiana. “O papa Bento XVI, ao fazer o reconhecimento das virtudes da Irmã Dulce, nos exorta a assumirmos nossa fé, em gestos concretos, ‘para que todos tenham vida e vida em abundância’ (Jô 10,10).

Beatificação

O papa Bento XVI assinou o decreto que conclui o processo de beatificação de Irmã Dulce no dia 10 de dezembro de 2010. Irmã Dulce é a primeira baiana a tornar-se beata e agora está a um passo da canonização. O título de santa só poderá ser conferido após a comprovação de mais um milagre intercedido pela religiosa e reconhecido pelo Vaticano.

A causa da beatificação de Irmã Dulce foi iniciada em janeiro do ano 2000 por dom Geraldo Majella, bispo emérito de Salvador. Desde junho de 2001, o processo tramitava na Congregação das Causas dos Santos do Vaticano.

Começa em Aparecida a assembleia dos bispos

Teve início na manhã desta quarta-feira, 4, e segue até o próximo dia 13, a 49ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O evento acontece pela terceira vez no Santuário Nacional de Aparecida. As duas anteriores, 2ª e 8ª aconteceram nos anos de 1954 e 1967, respectivamente.

Dois temas centrais serão discutidos este ano: o primeiro as eleições da nova presidência da CNBB e Comissões Episcopais, e o segundo a aprovação das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) para o quadriênio (2011-2015).

Desta vez o evento ocupa, temporariamente, o espaço do Centro de Eventos Padre Vitor Coelho de Almeida, ao lado do Santuário Nacional de Aparecida, em Aparecida (SP). São 16.500 metros quadrados divididos em 40 salas e o auditório principal com 450 lugares para as principais discussões do evento, segundo informou o engenheiro da Lótus Empreendimentos, empresa que gerencia e implanta projetos para o local da Assembleia, Eric Pelogia Pieri.

Cerca de 400 funcionários do Santuário Nacional de Aparecida trabalham para a realização do acontecimento. Os mais de 300 bispos presentes na Assembleia estão hospedados em quatro hotéis da cidade, próximos ao Santuário Nacional. “Nós acabamos de concluir a penúltima fase do Centro de Eventos. Ele ainda terá uma última fase para ficar totalmente concluído. Está sendo utilizada boa parte de estrutura móvel que ainda ficará assim até a próxima Assembleia de 2012”, disse o responsável pela estrutura do local e ecônomo do Santuário Nacional, padre Luiz Cláudio Alves de Macedo.

Ao todo há cinco empresas envolvidas com a estrutura da 49ª AG. Segundo o engenheiro da Lótus Eric Pelogia, a estrutura física com divisórias foi pensada para a melhor circulação e aproveitamento de espaço do evento. “Como é um local temporário, nós optamos por usar divisórias que deu um aspecto visual e de ocupação do espaço muito bom. Nós (Lótus) coordenamos as empresas contratadas, cada uma na sua especificidade: montagens, instalações, informática”, explicou o engenheiro.

Ao longo da 49ª AG terá à disposição dos bispos uma equipe médica que realizará campanhas de vacinação e todos os tipos de atendimento: simples, de urgência e emergência. A equipe é formada por dois médicos (um em cada turno) e duas técnicas em enfermagem que estarão de plantão ao longo de todo o evento. Uma UTI móvel também está à disposição da equipe. A primeira campanha de vacinação contra a gripe tem início hoje, 4. A equipe é coordenada pelo médico Dr. Francisco Roberto Monteiro, gerente do Departamento Médico do Santuário.

Expectativas

O subsecretário adjunto geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, padre Antônio Silva da Paixão (Nequinho) disse estar animado com o local da Assembleia, principalmente porque o novo local trouxe o evento para junto do povo. “O ambiente é muito acolhedor e, ao lado disso tem toda a mística própria do lugar que vai favorecer o desenvolvimento desta Assembleia. Ao mesmo tempo temos outra riqueza que é a proximidade com o romeiros que vêm de todas as partes do Brasil em busca das bênçãos de Nossa Senhora Aparecida”, disse Nequinho.

Futuro

O reitor do Santuário Nacional de Aparecida, padre Darci José Nicioli, antecipou o andamento dos trabalhos da estrutura fixa da Assembleia Geral da CNBB, que, segundo ele, deverá começar a ocupar o novo espaço a partir de 2013. “A estrutura física da Assembleia está sendo construída na Cidade do Romeiro que fica a 800 metros da Basílica. São 180 mil metros quadrados e 330 apartamentos que deverão hospedar todos os envolvidos com o evento. Em 2015 toda a estrutura estará concluída”, antecipou o reitor.

CNBB em Brasília

Dom Demétrio Valentini

Desta vez a assembleia anual da CNBB se realiza em Brasília. O costume era outro. Durante trinta anos, o mosteiro de Itaici acolheu as assembleias. A tal ponto que o bairro de Indaiatuba, que leva este nome, acabou ficando mais conhecido do que a própria cidade, cujo prefeito cada ano comparecia na abertura da assembleia, e pedia aos bispos que, por favor, se lembrassem que Itaici é um bairro de Indaiatuba, no Estado de S. Paulo.

Desta vez a realização da assembleia em Brasília é uma clara deferência da CNBB para honrar a capital do país, que acaba de completar 50 anos de sua inauguração. No mesmo sentido, o 16º Congresso Eucarístico Nacional, cuja data se emenda à da assembleia, reforça a homenagem que a Igreja quer prestar a Brasília.

Na verdade, a intenção é mais ampla. Realizando neste ano na capital do país sua assembleia, e aí celebrando o Congresso Eucarístico, a Igreja quer ressaltar os muitos motivos que ela tem para sentir-se vinculada à história do país, com o qual se identifica de tantas maneiras.

Como de costume, a pauta da assembleia é sempre muito carregada. Os assuntos vão sendo recolhidos ao longo do ano. E precisam receber o tratamento de acordo com sua importância. Por isto, engana-se quem pensa que a assembleia vai se limitar ao cardápio proporcionado pelos assuntos na ordem do dia da imprensa. Se necessário, estes também podem receber o tratamento adequado, sobretudo na análise de conjunta que a assembleia sempre faz. Mas não é a imprensa que pauta a assembleia. Ela não vai sacrificar suas prioridades para tratar, por exemplo, do assunto da pedofilia.

Basta conferir seu tema central, e os temas que a assembleia caracteriza como prioritários, para dar-nos conta da intensidade dos trabalhos.

O tema central tem uma formulação que talvez dificulte a percepção de sua abrangência por parte de quem não está acostumado aos últimos acontecimentos e às recentes orientações pastorais da Igreja: “Discípulos e servidores da Palavra de Deus e a Missão da Igreja no mundo”.

Acontece que recentemente a Igreja fez um sínodo sobre a Palavra de Deus. A CNBB se mostra pronta a inserir as reflexões do Sínodo no cotidiano de sua vida. A referência aos “discípulos” e à “missão” é para dizer que a CNBB continua mantendo as duas dimensões fundamentais que a Conferência de Aparecida expressou em forma de “discípulos e missionários de Jesus Cristo”. Esta a intenção do tema central.

Como temas “prioritários”: as Comunidades Eclesiais de Base, os cem anos do movimento ecumênico, a avaliação das Diretrizes Pastorais, a questão agrária neste início de século 21.

Não podem faltar os diversos temas “estatutários”, como o relatório da Presidência e das diversas Comissões Episcopais, através das quais se estrutura o trabalho da CNBB. Será proposta uma declaração sobre a situação política que o país vive neste ano.

Portanto, um punhado de assuntos que exigem trabalho, que é realizado com sessões pela manhã, pela tarde e sempre que necessário à noite também.

Com isto, a CNBB acaba fazendo, sem o dizer explicitamente, um sério questionamento à burocracia estatal, especialmente ao Congresso Nacional. A CNBB se reúne dez dias por ano, e trata de tomar as decisões que se fazem necessárias. Depois, cada bispo retorna para suas dioceses e leva adiante sua missão, afinado com as orientações da assembleia. Não estaria aí uma boa sugestão para o Congresso Nacional? Por que não faz como a CNBB? Bastariam alguns períodos intensos de trabalho por ano em Brasília, onde seriam tomadas as decisões já amadurecidas junto ao povo nas bases. A continuidade dos trabalhos poderia ser garantida, como na CNBB, por uma Comissão Central que mantém expediente contínuo em Brasília, e se reúne mensalmente para municiar a continuidade dos trabalhos nas bases. Ainda mais com os recursos que hoje a informática nos oferece, os deputados e senadores poderiam se manter cotidianamente informados, com a vantagem de continuarem próximos à realidade do povo, o que sempre é salutar para quem precisa lidar com as esferas da burocracia.

Mesmo que não o diga explicitamente, a CNBB reunida em Brasília está clamando por uma radical e profunda reforma nas estruturas políticas, a começar por mudanças substanciais na organização do Congresso Nacional. Para que ele deixe de desperdiçar tantos recursos a serviço de sua inoperância escandalosa.

Presbíteros Pastores

O tempo pascal nos traz algumas celebrações marcantes: uma delas é o Domingo do Bom Pastor comemorado em 03 de maio passado. A figura do pastor marca a nossa espiritualidade quando, desde o Antigo Testamento, a Palavra de Deus lembra que existem os maus pastores também e que o próprio Senhor viria para conduzir o seu povo.

A figura de pastor, longe de nos fazer pensar sobre alguém que apenas conduz, é colocada como alguém que dá a vida, que conhece as ovelhas, que ajuda a chegar aos verdes campos e à água limpa.

Recordo isso quando a nossa 47ª Assembleia da CNBB, realizada no final do mês passado, em Itaici, nos ajudou a refletir sobre os desafios e atualizar o documento das diretrizes da formação presbiteral.

O mistério da vocação contradiz aos interesses que o mundo de hoje coloca para que uma pessoa seja feliz e se realize. A vocação presbiteral, que conduz o jovem para ter um coração e atitudes de pastor, é sempre um chamado de Deus que a pessoa responde com generosidade e que a Igreja confirma discernindo os sinais na vida daquele que se sente chamado.

O tempo pascal ao salientar este tema quer justamente nos ajudar a descobrir que verdadeiros pastores são aqueles que, fazendo uma verdadeira experiência de Deus em suas vidas, anunciam com alegria o Cristo Ressuscitado, Vida para o mundo!

Esse mesmo contexto nos remete ao proclamado “Ano Sacerdotal”, que terá início no próximo dia 19 de junho, Solenidade do Coração de Jesus e Dia Mundial de Oração pela Santificação do Clero. O Papa Bento XVI conclamou a Igreja a viver esse ano com iniciativas de orações e reflexões sobre a vida e vocação sacerdotais, especialmente para comemorar os 150 anos da morte do Santo Cura d’Ars, São João Maria Vianney, que será proclamado Padroeiro dos Padres.

São tempos nos quais o Senhor nos coloca para que, em vivendo com entusiasmo a nossa vocação, valorizemos as demais vocações, levando adiante, com generosidade, a nossa missão de discípulos missionários que anunciam a vida nova para esse mundo.

Ao celebrarmos o Domingo do Bom Pastor, à luz das novas diretrizes da formação presbiteral, anunciando o Ano Sacerdotal, agradecemos a Deus pela vida de tantos homens que, respondendo ao Seu chamado, responderam o Sim e, confirmados pela Igreja levam com ânimo renovado a sua missão de pastores segundo o coração de Deus para suas comunidades.

Assim, como o evento e documento de Aparecida colocou como se fosse uma única palavra “discípulos missionários”, retirando o “e”, eu digo que o mesmo deveria acontecer com o Presbítero que é chamado a ser pastor com todo o seu coração, de tal forma que pudéssemos colocar como uma única locução: “Presbítero pastor”!

Sou testemunha de muitos homens de Deus que, verdadeiros pastores Presbíteros, doam as suas vidas pelo rebanho e servem com alegria e generosidade. Louvo ao Senhor por nos conceder pastores segundo o Seu Coração e que, com corações generosos, servem aos irmãos na missão evangelizadora.

Abramos os olhos para essas maravilhas que o Senhor nos concede para que vivamos com entusiasmo as nossas vocações e rezemos para que os pastores de nosso povo tenham sempre mais os seus corações como o de Jesus, que, dando a vida por todos nós, nos salva e liberta

Centralidade do trabalho

Dom Demétrio Valentini

As assembléias da CNBB sempre se realizam nas proximidades do Dia do Trabalhador. Por coincidência, neste ano a assembléia se concluiu com o Primeiro de Maio.

Esta circunstância fez dos trabalhadores uma presença constante nas assembléias, contribuindo para que a realidade do trabalho ajudasse a trazer presente, na reunião dos bispos, a situação vivida pelo povo.

Desta vez, além da coincidência da data, havia outro motivo a urgir um pronunciamento da CNBB sobre o Dia do Trabalhador. As conseqüências da crise mundial têm repercussão direta nos trabalhadores. Eles se tornam, de novo, o termômetro para medir a problemática social, decorrente da crise de amplo espectro que o mundo está vivendo. Comprova-se o que “o trabalho é chave de toda questão social”, como já dizia João Paulo II, em sua encíclica Laborem Exercens.

É neste contexto de crise mundial que chega a palavra dos bispos dirigida especialmente às trabalhadoras e aos trabalhadores:

“Neste ano, o dia 1º de maio acontece no contexto da crise que assola o conjunto da economia mundial. A crise mostra a sua face mais cruel ao se deslocar do capital financeiro para o setor produtivo, dizimando milhares de postos de trabalho, na cidade e no campo. Os países e as populações pobres sofrem mais diretamente as conseqüências do atual modelo capitalista de desenvolvimento, incapaz de assegurar a dignidade humana, garantir os direitos sociais básicos e preservar a vida em nosso planeta.”

Esta situação de crise leva a CNBB a expressar sua solidariedade, e reafirmar seu compromisso com os trabalhadores:

“Ao celebrar o Dia do Trabalhador, a CNBB confirma seu compromisso em favor dos direitos sociais do povo e, em especial, dos direitos trabalhistas e dos esforços para consolidar as suas organizações. Expressa também a solidariedade com todos os desempregados, vítimas da crise ou dos que se aproveitam dela. Os princípios da Doutrina Social da Igreja – a dignidade da pessoa humana, a destinação universal dos bens da terra e a prioridade do trabalho sobre o capital – inspiram alternativas para uma nova ordem econômica, em vista de um mundo justo e solidário.”

Esta solidariedade da Igreja não se limita ao conforto que resulta da estima pessoal e do reconhecimento da importância dos trabalhadores. Ela toma a forma de firme posicionamento em favor de suas causas, e a convicção de que a saída da crise passa pelo atendimento da pauta de reivindicações dos trabalhadores, como afirma com ênfase a nota:

“Os tempos atuais, mesmo difíceis, representam oportunidades para as mudanças necessárias em direção a uma nova ordem econômica. Nesse contexto, a Igreja faz ressoar o clamor dos trabalhadores por vida e dignidade. As aspirações do povo trabalhador, por meio de suas organizações, indicam caminhos para a consolidação dos direitos, tais como: não às demissões, valorização das aposentadorias, queda nos juros, redução da jornada de trabalho sem redução dos salários, reforma agrária e fortalecimento da agricultura familiar e agro-ecológica, combate ao trabalho escravo e degradante, valorização dos movimentos de trabalhadores desempregados, incentivo às iniciativas de economia popular solidária, investimento nas políticas públicas de saúde, educação e moradia”.

Depois de dez dias de intensos trabalhos, os bispos concluem sua assembléia no Dia do Trabalhador. A mesma data é mais que mera coincidência. Lembra um compromisso histórico, entre Igreja e trabalhadores, que precisa ser levado adiante, no novo contexto de profundas transformações que atingem hoje o mundo do trabalho.

CNBB: Manifesto em favor da família

Nós, Bispos do Brasil, reunidos na 47ª Assembleia Geral da CNBB, em Itaici, Indaiatuba (SP), nos dias 22 de abril a 1º de maio de 2009, a caminho da “Peregrinação Nacional em Favor da Família” ao Santuário Nacional de Aparecida, dia 24 de maio de 2009, nos deparamos com constantes ameaças à vida e à família. À luz da Palavra de Deus, do Magistério da Igreja e da experiência humana, reafirmamos que:

Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, homem e mulher ele os criou (cf. Gn 1,27), destinando-os à plena realização na comunhão de vida, de amor e de trabalho. Por essa razão, o matrimônio e a família constituem um bem para os esposos e a sociedade. O amor conjugal aberto à geração e educação dos filhos proporciona a experiência de paternidade e maternidade através das quais os pais se tornam colaboradores do Criador. “O futuro da humanidade passa pela família” (João Paulo II);

O Estado e outras organizações civis estão a serviço, defesa e promoção da vida e da família. Ela é sujeito titular de direitos naturais e invioláveis. Sua legitimação se encontra na natureza humana e não no reconhecimento do Estado. A família tem prioridade em relação ao Estado e à sociedade, pois ela é a primeira e mais decisiva fonte onde se transmitem a vida e o seu significado e se experimentam os valores humanos para alcançar o bem da comunidade.

A família goza do direito de ser assistida por políticas públicas governamentais e sociais que possibilitem o seu acesso à vida digna, à alimentação, à saúde, à moradia, ao salário justo, à educação e escola para os filhos, à formação profissional, ao descanso, ao lazer e à infra-estrutura sanitária;

Cabe ao Estado proteger a família estável fundada no matrimônio, não por razões religiosas, mas porque ela gera relações decisivas de amor gratuito, cooperação, solidariedade, serviço recíproco e é fonte de virtudes para uma convivência honesta e justa;

Os meios de comunicação, os poderes públicos, os profissionais de saúde, as universidades, o sistema educacional, as empresas, as instituições e os organismos não-governamentais e todas as igrejas são conclamados a promover os valores da família e agirem como seus amigos;

A Pastoral Familiar, Movimentos, Serviços e Institutos sejam uma força intensa e vigorosa para anunciar o “Evangelho da vida e da família” e acolher aquelas que se encontram em situações especiais. Na verdade, a família contribui para que todos os povos reconheçam os laços fraternos que os unem, pois o mundo é chamado a ser uma grande família, um mundo de irmãos.

Pedimos a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira do Brasil, que abençoe e acompanhe a família brasileira a fim de que nela habitem a fé, a esperança e o amor tão próprios da Sagrada Família de Nazaré. “Dobremos os joelhos diante do Pai, de quem toda família no céu e na terra, recebe seu verdadeiro nome” (Ef 3,15).

Itaici, Indaiatuba-SP, 29 de abril de 2009

Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana-MG
Presidente da CNBB

Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus-AM
Vice-Presidente da CNBB

Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro-RJ
Secretário Geral da CNBB

Mensagem da CNBB para o Dia do Trabalhador

“O salário que vós deixastes de pagar está gritando e o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor” (Tg 5,4).

Ao celebrar o Dia do Trabalhador, a CNBB confirma seu compromisso em favor dos direitos sociais do povo e, em especial, dos direitos trabalhistas e dos esforços para consolidar as suas organizações. Expressa também a solidariedade com todos os desempregados, vítimas da crise ou dos que se aproveitam dela. Os princípios da Doutrina Social da Igreja – a dignidade da pessoa humana, a destinação universal dos bens da terra e a prioridade do trabalho sobre o capital – inspiram alternativas para uma nova ordem econômica, em vista de um mundo justo e solidário.

Neste ano, o dia 1º de maio acontece no contexto da crise que assola o conjunto da economia mundial. A crise mostra a sua face mais cruel ao se deslocar do capital financeiro para o setor produtivo, dizimando milhares de postos de trabalho, na cidade e no campo. Os países e as populações pobres sofrem mais diretamente as conseqüências do atual modelo capitalista de desenvolvimento, incapaz de assegurar a dignidade humana, garantir os direitos sociais básicos e preservar a vida em nosso planeta.

Na origem da crise estão o sistema neoliberal globalizado e a falta de ética na economia e na regulamentação do mercado, gerando corrupção e especulação. O mercado financeiro, na medida em que comanda as relações dos seres humanos entre si e com a natureza, reforça o consumismo comprometendo a justiça social e o equilíbrio ambiental. A crise financeira e econômica é apenas uma parte da crise mais profunda que é social, política, cultural, ambiental, ética e espiritual. Todas essas dimensões devem ser consideradas com coragem e lucidez, na busca de uma saída sustentável.

A crise atinge, sobretudo, os trabalhadores, os pobres, as pequenas e médias empresas. Os bancos recebem verbas milionárias dos governos para salvar o sistema financeiro. No entanto continuam as demissões, levando muitas pessoas a buscarem sua sobrevivência no trabalho informal. Tal situação corre o risco de ser agravada, caso seja aprovada a Proposta de Emenda Constitucional sobre a Reforma Tributária, do modo como está sendo apresentada. Ela atingiria o cerne do sistema de Seguridade Social e reduziria gravemente a proteção de mais de 36 milhões de trabalhadores aposentados e pensionistas.

Os tempos atuais, mesmo difíceis, representam oportunidades para as mudanças necessárias em direção a uma nova ordem econômica. Nesse contexto, a Igreja faz ressoar o clamor dos trabalhadores por vida e dignidade. As aspirações do povo trabalhador, por meio de suas organizações, indicam caminhos para a consolidação dos direitos, tais como: não às demissões, valorização das aposentadorias, queda nos juros, redução da jornada de trabalho sem redução dos salários, reforma agrária e fortalecimento da agricultura familiar e agro-ecológica, combate ao trabalho escravo e degradante, valorização dos movimentos de trabalhadores desempregados, incentivo às iniciativas de economia popular solidária, investimento nas políticas públicas de saúde, educação e moradia.

A CNBB convida trabalhadoras e trabalhadores a manterem viva a fé, a esperança e a alegria em Jesus Cristo Ressuscitado. Que Nossa Senhora Aparecida e São José Operário, o Carpinteiro de Nazaré, intercedam junto a Deus, a fim de que as mais copiosas bênçãos sejam derramadas sobre todos os que, irmanados pelos laços do trabalho, constroem o nosso País.

Indaiatuba- SP, 28 de abril de 2009.

Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana-MG
Presidente da CNBB

Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus-AM
Vice-Presidente da CNBB

Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro-RJ
Secretário Geral da CNBB

47ª Assembleia da CNBB

Cardeal Geraldo Majella Agnelo

Está reunida em Itaici-Indaiatuba, SP, durante dez dias, a 47ª Assembléia Geral dos Bispos do Brasil. São 330 bispos participantes, incluídos os eméritos. Em todo o Brasil existem 430 bispos. Já são 272 dioceses em todo o Brasil. Participa também o Sr. Núncio Apostólico.

O tema central da AG é Formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil: Desafios e Diretrizes. Temas prioritários: Iniciação à vida cristã, ano catequético, missão continental. Outros temas: conjuntura social e eclesial, missionários no Brasil, semana da Amazônia, Igreja e Pastoral Indígena. Assuntos permanentes: relatório do Presidente, Liturgia, Comissão de Doutrina, economia, Colégio Pio Brasileiro de Roma, acompanhamento das Diretrizes Gerais. Além de comunicações, comemorações, dia de retiro, declarações e notas.

Esta Assembléia acontece em momento histórico para o mundo inteiro. A economia mundial está numa das crises mais profundas, e isso repercute mais acentuadamente nos povos que sofrem as necessidades básicas para a sobrevivência. Dado que os condutores da economia estão mais preocupados com as perdas dos lucros do que com os dependentes do ganho do trabalho que não está ao alcance de todos, podemos ao menos imaginar as agruras, sofrimentos, fomes, saúde pouco ou nada assistida de quantas populações. Isso atinge as periferias de todos os países do mundo.

Nós bispos não temos receitas técnicas para a crise. Temos sim algo a dizer sobre a ética dos procedimentos, o bem comum com atenção aos mais necessitados.

Já se tornou lugar comum dizer que vivemos hoje não simplesmente uma época de mudança, mas uma mudança de época. Isso afeta todo o mundo religioso. Para a Igreja Católica, por exemplo, depois de longos séculos de posse tranqüila do espaço cultural e religioso, deparamos hoje com um cenário marcado pelo pluralismo cultural e religioso.

Após as perseguições religiosas iniciais, houve articulação entre fé e cultura, que constitui o cerne da cultura ocidental e cristã helênica, latina e, depois, germânica. Ela constitui o húmus do desenvolvimento eclesiológico da cristandade medieval, dentro do sistema feudal.

Com o advento da modernidade, os pressupostas da homogeneidade cultural e religiosa – a cultura cristã ocidental e o Estado cristão – foram corroídos. O Estado moderno se tornou ‘laico’, tal como reconhecemos hoje na maioria dos paises do Ocidente. A pretensão de universalidade sofre as conseqüências da globalização. A cultura ocidental perde a aura de referência para as demais. É um dado de fato da nossa realidade.

Os postulados da modernidade ocidental são a autonomia e liberdade individuais, a liberdade religiosa e o individualismo, como forma de construir-se a si mesmo. Esses postulados penetram hoje nos corações e nas mentes, sobretudo nas novas gerações. Pode-se dizer que esse seja o núcleo da nova cultura pós-moderna. Ela traz consigo a perda da memória histórica, leva ao enfraquecimento das relações de pertença. Ao limite chega-se à ‘crença sem pertença’. A nova religiosidade ‘sem memória’ está centrada no indivíduo e em sua realização pessoal. Tende a se esgotar numa religião terapêutica, pragmática, intramundana. Uma religião “a la carte”.

Assim o paradigma tradicional da transmissão da fé eclesial entra em crise. O desafio é deslanchar um processo criativo de recomposição do modo de crer, de construir a comunidade e de criar as relações de pertença eclesial na nova moldura histórico-cultural.

No documento de Aparecida, os bispos latino-americanos tomaram consciência do fato novo do pluralismo, quando afirmam que a pastoral de conservação já não é suficiente para os nossos tempos. É preciso uma pastoral missionária (cf. 370). Devemos apostar num novo paradigma de transmissão da fé eclesial.

Nossa Assembléia procura aprofundar esta análise e procura indicar para nossas comunidades eclesiais algumas diretrizes que ajudem a cumprir o mandato que Cristo Jesus conferiu à sua Igreja: “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28, 19-20).

Dom Helder Câmara brilha na 47ª Assembleia da CNBB

A voz de dom Helder Câmara foi ouvida novamente em sua histórica oração “Mariama”, na noite de ontem, 27, no auditório Rainha dos Apóstolos, na 47ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, que acontece até o próximo dia 1º de maio, em Itaici, município de Indaiatuba (SP).

“Dom Helder foi um homem de muita atividade e grandes iniciativas que recebeu de muitos o reconhecimento pela sua atuação em favor da paz e da justiça”, disse o presidente da CNBB, dom Geraldo Lyrio Rocha. O presidente também citou os prêmios recebidos por dom Helder, os livros publicados e as entidades das quais o arcebispo de Olinda e Recife participou ao longo de sua vida. “Dom Helder foi membro de mais de 40 entidades internacionais. Publicou mais de 20 livros. Cerca de 30 cidades lhe concederam o título de cidadão honorário. Recebeu 25 Prêmios nacionais e estrangeiros. Foi-lhe conferido o título de Doutor honoris causa por mais de 30 Universidades de várias partes do mundo”, lembrou dom Geraldo.

A amiga e colega de trabalho do Dom, como dom Helder era conhecido, Marina Bandeira contou sobre o trabalho do arcebispo no Rio de Janeiro. Um dos trabalhos marcantes, segundo a educadora e ex-secretária do Movimento de Educação de Base (MEB), a Cruzada de São Sebastião, foi uma idealização de dom Helder que consistiu na construção de um conjunto habitacional localizado no bairro do Leblon, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. A obra foi inaugurada em 29 de outubro de 1955.

O arcebispo emérito da Paraíba, dom José Maria Pires, também deu seu testemunho sobre o papel de dom Helder na Igreja do Brasil ao longo do século XX. “Dom Helder ficou marcado pelos grandes contextos sociais de seu tempo, principalmente no âmbito do Regime Militar, pelo qual foi acusado de ser comunista”. De acordo com o arcebispo, dom Helder foi o grande responsável de “projetar nas questões sociais de seu tempo a luz do Evangelho”.

Um dos cantos entoados pelo coral arquidiocesano de Campinas (SP) que emocionou os participantes da sessão foi “O Pastor da Paz”, composição do padre José Freitas Campos, que lembrou a figura de dom Helder.

Repercussão

De acordo com o arcebispo de Brasília, dom João Braz de Aviz, a figura de dom Helder é emblemática e singular no seu modo de ser, um exemplo a ser seguido pelo episcopado brasileiro. “Dom Helder para nós é uma figura em cujo lugar não é possível colocar outra igual. Ele tem uma beleza, uma luz, um profetismo, que ocupou um momento histórico como símbolo eclesial e importante do nosso povo que nós não podemos diminuir, nem esquecer. Precisamos compreender dom Helder de modo profundo porque ele traz de volta um aspecto do Evangelho que nós tínhamos esquecido e deixado de lado. Penso também que, em torno da figura de dom Helder e de sua vocação de bispo e de fé, nós podemos revisar o caminho que nós fizemos em torno da Teologia da Libertação. Em Cristo nós temos que reencontrar essa ligação com o pobre”, sublinhou.

Já o arcebispo de Salvador (BA), cardeal Geraldo Majella Agnelo, definiu a sessão como um momento de recordação e de graça. “Para nós foi um momento de muitas recordações e de muita gratidão a ele. Dom Helder foi um lutador sem medo, sem ficar na escuridão, no esquecimento durante sua vida e sua missão. Ele pregou o Evangelho do amor, do perdão, da misericórdia e esteve sempre ao lado das causas mais difíceis. Nós, que convivemos com dom Helder pessoalmente, podemos resumir esta noite como um momento de recordação e de graça”.