Brasília

Congressos Eucarísticos

Dom Demétrio Valentini

A Igreja do Brasil está celebrando, neste final de semana, mais um Congresso Eucarístico. É o décimo sexto da história. Desta vez é em Brasília, e foi precedido pela assembléia anual da CNBB, também realizada em Brasília, com a evidente intenção de juntar um evento a outro.

Mas é claro que o motivo da escolha da capital federal se liga à celebração dos 50 anos de Brasília. Os episódios ligados à constatação do esquema de corrupção envolvendo o governador do Distrito Federal, deixou a cidade a descoberto, com um vácuo político constrangedor, inibindo as naturais expressões de festa, ficando assim empanadas as celebrações oficiais do jubileu da cidade.

Assim, a Igreja, que tinha deixado ao governo o espaço privilegiado para celebrar a festa de Brasília em abril, postergando sua celebração para o mês de maio, agora ela se apercebe que acaba incumbida de garantir ao menos uma comemoração expressiva, sobretudo através do Congresso Eucarístico, que é um evento propício para participação multitudinária, como convém para as circunstâncias.

Esta a incumbência deste Congresso Eucarístico. Para muitos brasilienses, será a oportunidade de lavar a alma, deixando de lado as notícias sobre os desmandos de políticos que comprometeram o nome de Brasília.

A história dos congressos eucarísticos, mostra que sempre eles expressaram a identificação forte e arraigada que o povo brasileiro percebe entre a realidade do País e a presença da Igreja Católica. De tal modo que os congressos eucarísticos sempre foram oportunidade para as cidades sedes mostrarem suas qualidades e suas características, em salutar emulação que estimula a auto-estima de cada capital, estado ou comunidade.

De todos os congressos eucarísticos já realizados no Brasil, destaca-se por sua importância e por sua repercussão aquele realizado em 1955, no Rio de Janeiro. Daquela vez era um congresso internacional, o trigésimo quinto da história. Serviu para divulgar ao mundo as belezas da cidade, que aproveitou a oportunidade para fazer o aterro do Flamengo, que a partir de então integrou à cidade o vasto espaço criado para ser a esplanada do congresso.

Foi a oportunidade para D. Helder, jovem bispo auxiliar, também revelar seu talento e sua liderança. Naquela época em que ainda não havia comunicação via satélite, o rádio era ainda o grande meio de comunicação, e para o Congresso Eucarístico do Rio, em 1955, a grande expectativa foi aguardar o discurso do Papa Pio XII, em português, transmitido diretamente do Vaticano!

Outro congresso que evidenciou o momento em que S. Paulo começava a despontar como futura megalópole, foi o Congresso Eucarístico de 1942. O arcebispo que o organizou veio a falecer pouco depois num acidente aéreo entre Rio e São Paulo.

Outros congressos também serviram para projetar as cidades onde se realizaram. Em 1948 foi em Porto Alegre, em 75 foi em Manaus, do qual a Igreja guarda uma recordação especial pela oração eucarística feita especialmente para o congresso, e que depois foi integrada no missal usado no Brasil.

O Congresso de Fortaleza, em 1980, serviu de pretexto para o Papa João Paulo II visitar o Brasil pela primeira vez, como o congresso de Natal, em 1995, que também contou com a presença de João Paulo II, em sua segunda visita.

E assim os congressos mais recentes, realizados em Vitória, em Campinas e em Florianópolis.

Todos deixaram marcas positivas para as cidades que os acolheram. Será que este congresso de Brasília conseguirá reverter o clima de decepção política e de pessimismo, que envolveu a cidade com os recentes escândalos do dinheiro nas meias e nas bolsas?

CNBB em Brasília

Dom Demétrio Valentini

Desta vez a assembleia anual da CNBB se realiza em Brasília. O costume era outro. Durante trinta anos, o mosteiro de Itaici acolheu as assembleias. A tal ponto que o bairro de Indaiatuba, que leva este nome, acabou ficando mais conhecido do que a própria cidade, cujo prefeito cada ano comparecia na abertura da assembleia, e pedia aos bispos que, por favor, se lembrassem que Itaici é um bairro de Indaiatuba, no Estado de S. Paulo.

Desta vez a realização da assembleia em Brasília é uma clara deferência da CNBB para honrar a capital do país, que acaba de completar 50 anos de sua inauguração. No mesmo sentido, o 16º Congresso Eucarístico Nacional, cuja data se emenda à da assembleia, reforça a homenagem que a Igreja quer prestar a Brasília.

Na verdade, a intenção é mais ampla. Realizando neste ano na capital do país sua assembleia, e aí celebrando o Congresso Eucarístico, a Igreja quer ressaltar os muitos motivos que ela tem para sentir-se vinculada à história do país, com o qual se identifica de tantas maneiras.

Como de costume, a pauta da assembleia é sempre muito carregada. Os assuntos vão sendo recolhidos ao longo do ano. E precisam receber o tratamento de acordo com sua importância. Por isto, engana-se quem pensa que a assembleia vai se limitar ao cardápio proporcionado pelos assuntos na ordem do dia da imprensa. Se necessário, estes também podem receber o tratamento adequado, sobretudo na análise de conjunta que a assembleia sempre faz. Mas não é a imprensa que pauta a assembleia. Ela não vai sacrificar suas prioridades para tratar, por exemplo, do assunto da pedofilia.

Basta conferir seu tema central, e os temas que a assembleia caracteriza como prioritários, para dar-nos conta da intensidade dos trabalhos.

O tema central tem uma formulação que talvez dificulte a percepção de sua abrangência por parte de quem não está acostumado aos últimos acontecimentos e às recentes orientações pastorais da Igreja: “Discípulos e servidores da Palavra de Deus e a Missão da Igreja no mundo”.

Acontece que recentemente a Igreja fez um sínodo sobre a Palavra de Deus. A CNBB se mostra pronta a inserir as reflexões do Sínodo no cotidiano de sua vida. A referência aos “discípulos” e à “missão” é para dizer que a CNBB continua mantendo as duas dimensões fundamentais que a Conferência de Aparecida expressou em forma de “discípulos e missionários de Jesus Cristo”. Esta a intenção do tema central.

Como temas “prioritários”: as Comunidades Eclesiais de Base, os cem anos do movimento ecumênico, a avaliação das Diretrizes Pastorais, a questão agrária neste início de século 21.

Não podem faltar os diversos temas “estatutários”, como o relatório da Presidência e das diversas Comissões Episcopais, através das quais se estrutura o trabalho da CNBB. Será proposta uma declaração sobre a situação política que o país vive neste ano.

Portanto, um punhado de assuntos que exigem trabalho, que é realizado com sessões pela manhã, pela tarde e sempre que necessário à noite também.

Com isto, a CNBB acaba fazendo, sem o dizer explicitamente, um sério questionamento à burocracia estatal, especialmente ao Congresso Nacional. A CNBB se reúne dez dias por ano, e trata de tomar as decisões que se fazem necessárias. Depois, cada bispo retorna para suas dioceses e leva adiante sua missão, afinado com as orientações da assembleia. Não estaria aí uma boa sugestão para o Congresso Nacional? Por que não faz como a CNBB? Bastariam alguns períodos intensos de trabalho por ano em Brasília, onde seriam tomadas as decisões já amadurecidas junto ao povo nas bases. A continuidade dos trabalhos poderia ser garantida, como na CNBB, por uma Comissão Central que mantém expediente contínuo em Brasília, e se reúne mensalmente para municiar a continuidade dos trabalhos nas bases. Ainda mais com os recursos que hoje a informática nos oferece, os deputados e senadores poderiam se manter cotidianamente informados, com a vantagem de continuarem próximos à realidade do povo, o que sempre é salutar para quem precisa lidar com as esferas da burocracia.

Mesmo que não o diga explicitamente, a CNBB reunida em Brasília está clamando por uma radical e profunda reforma nas estruturas políticas, a começar por mudanças substanciais na organização do Congresso Nacional. Para que ele deixe de desperdiçar tantos recursos a serviço de sua inoperância escandalosa.