dom helder

Livro comemora centenário de Dom Helder

Como parte das comemorações do centenário de nascimento de Dom Helder Camara, Pe. Geovane Saraiva e o professor José Cajuaz lançam o livro “Dom Helder – O Peregrino da Paz”, com apoio da Pastoral da Juventude.

A cerimônia de lançamento acontecerá no sábado, após celebração eucarística na paróquia Santo Afonso, em Fortaleza, cidade natal de arcebispo. A obra reúne em 135 páginas um resumo de sua vida como menino, padre e bispo, suas mensagens e pensamentos, além de fotos, artigos e depoimentos de pessoas que o admiram. A ideia é mostrar a importância que o arcebispo teve para o mundo, como “Peregrino da Paz”, e como figura fundamental na luta pelas grandes causas humanas.

Pe. Geovane diz ainda que “pretende também divulgar para a juventude quem foi o arcebispo, pois os jovens hoje são carentes de referenciais e muitos não conhecem Dom Helder”.

Nascido em 7 de fevereiro de 1909, Dom Helder jamais se intimidou com ameaças, partissem de onde partissem, pois sua força vinha daquele em que sempre acreditou – Jesus Cristo – razão de sua vida sacerdotal e de sua missão que sempre foi anunciar o Evangelho, pregar a paz e lutar contra a miséria.

Dom Helder: Acusações e defesas

Márcio de Souza Porto *

Em 1970, um boletim interno, mimeografado, do Secretariado Regional Nordeste I da CNBB, presidido por Dom José de Medeiros Delgado, sob o título de ‘Dom Helder Camara: acusações e defesas’ fez um apanhado de notícias e artigos publicados nos grandes jornais do Brasil, a respeito de Dom Helder, desde maio daquele ano. Em relação às acusações, logo no início do boletim, vem assinalado que:

A imprensa brasileira vem desencadeando uma intensa campanha contra a pessoa de D. Helder Camara, Arcebispo de Olinda e Recife. Fatos comprobatórios estamos a encontrar diariamente nas páginas dos grandes jornais do país, numa prova concreta de que o Arcebispo estaria sendo tolhido nas suas manifestações. (1)

A primeira notícia reproduzida pelo citado boletim foi publicada no jornal “O Estado de São Paulo”, em 30 de maio de 1970 e é assinada por Gustavo Corção. O articulista ironiza a homenagem recebida por Dom Helder na Universidade de Louvain, na França, ao ser agraciado com o título de doutor honoris causa daquela instituição de ensino superior de origem católica. Em linguagem ríspida, Corção busca desqualificar todo e qualquer apoio recebido por Dom Helder em solo francês e diz textualmente:

Não há perigo. O Sr. Câmara não completou ainda a rede de viagens que sonhou, e ainda não percorreu todas as prostituídas Universidades ex-católicas que lhe trarão uma bandeja, para ser cuspido, o título de doutor “honoris causa”. (2)

Gustavo Corção sentia-se incomodado por Dom Helder ter sido recebido no “Palais des Sports”, sob aplausos de 15 mil pessoas, a convite do então bispo de Lyon, Dom Alexandre Renard, onde fizera conferência inclusive com a participação de representantes das Igrejas Reformada, Apostólica da Armênia, Ortodoxa Grega e Luterana. Dom Helder era combatido também por jornalistas franceses, como no caso de Jean Marc Kalfleche, do periódico Combat, em artigo reproduzido pelo “Estado de São Paulo” em 3 de julho de 1970. Na abertura do artigo, depois de dizer que seu intuito era reduzir Dom Helder às suas verdadeiras proporções, ataca fortemente o então Arcebispo de Olinda e Recife, dizendo:

Dom Helder Câmara desapontou um pouco seus admiradores franceses, com exceção daqueles que possuem a fé do carvoeiro, isto é uma fé simples e ingênua. O fato é que o Arcebispo de Recife mostra-se bastante diferente de sua caricatura fraudulenta divulgada pela boa imprensa. O que é esse rato de Igreja, pretensamente vermelho, que não canta a glória de S. Camilo Torres, nem o martírio dos índios assados no espeto? Dom Helder não consegue iludir com seu simplismo que só produz boas manchetes. (3)

O jornal “O Globo” de 11 de julho de 1970 reproduziu os principais momentos de uma conferência pronunciada por Gustavo Corção no Conselho Técnico da Conferência Nacional do Comércio em que afirmava que o Brasil estava em guerra. Numa guerra cujas fontes, origens e causas poderiam ser encontradas na França, no início da década de 1930. Sendo Paris o centro de uma disputa entre um humanismo e um desumanismo e que os meios de comunicação e publicidade estavam nas mãos daqueles que defendiam a guerra revolucionária, concluindo que não era de admirar a existência de uma propaganda tendenciosa de correntes que tentavam denegrir a imagem do governo brasileiro no exterior. Diz ainda que ao contrário do que se pensava não fora Dom Helder o primeiro a se levantar contra o Brasil no exterior, mas os provinciais dominicanos que publicaram na “Documentação Católica” uma carta lamentando o que estava acontecendo no país e ao mesmo tempo se solidarizando com os sacerdotes correligionários presos pelo Governo brasileiro.

Dom Helder era atacado por padres, bispos, deputados, jornalistas nacionais e estrangeiros e Arcebispos, como no caso de dom Vicente Scherer, de Porto Alegre que, em entrevista ao “Jornal do Brasil” de 30 de julho de 1970, diz que ele deveria usar o prestígio que possuía em alguns círculos europeus, para desmentir calúnias contra o Brasil e a Igreja brasileira. Dom Geraldo Proença Sigaud, então bispo de Diamantina (MG), declarou ao jornal “Estado de São Paulo”, em 05 de julho de 1970, antes de embarcar para Roma, que a realidade religiosa, política e social do Brasil se apresentava com uma imagem deformada na Europa, como resultado de uma campanha desenvolvida com este objetivo, acrescentando que a ideologia esquerdista dominava largos setores dos meios de informação, inclusive no campo católico. Após manter contatos na Santa Sé, Dom Geraldo dizia que seguiria para a Alemanha para proferir palestras na Baviera e em Wurtemberg, com o objetivo de alertar sobre a existência da campanha difamatória contra o Brasil, retificar o noticiário que se desenvolvia na Europa sobre o Brasil e refutar a imagem que Dom Helder havia espalhado sobre o País em cidades européias.

O “Correio do Ceará” (4) transcreveu artigo escrito por David Nasser construindo suspeitas sobre Dom Helder, indagando quem seria o financiador de suas viagens que denominava de “peregrinações do pior dos ódios”. O “Jornal do Brasil” de 31 de julho de 1970 trazia declarações do Deputado Federal Clovis Stenzel, da ARENA do Rio Grande do Sul, acusando o Arcebispo de Olinda e Recife de “conspurcar a imagem do nosso País e, mais do que isso, continua a dizer inverdades a respeito do que se passa em nossa Pátria”. (5)

Gustavo Corção, não satisfeito com os ataques desferidos contra Dom Helder Camara, escreveu no jornal “o Globo” de 9 de julho de 1970, um artigo no qual Dom Helder é identificado como partidário do terrorismo. Começa dizendo que o Brasil havia iniciado em 1969 uma luta cruel contra o desmantelamento da quadrilha de Marighella e o desmascaramento dos “maus religiosos” que desonravam a ordem dominicana. Aqueles que denominava de “agentes da guerra revolucionária” estavam a serviço de Havana, Pequim ou de Paris, realizando assaltos a bancos e seqüestros de embaixadores, conseguindo inquietar a opinião pública. Por outro lado, os rapazes assaltantes de bancos recebiam de Dom Helder, sem a menor hesitação, afeto e admiração, como ficava patente na entrevista dada por Dom Helder ao L’Express.

O Boletim do Regional Nordeste I reproduz, também, todas as defesas feitas em favor de Dom Helder na imprensa nacional e estrangeira, além de declarações pessoais do Arcebispo de Olinda e Recife, esclarecendo as acusações que lhe eram feitas de ser a favor da violência, sobre quem financiava as suas viagens, suas posições em face do marxismo e do socialismo. No final do documento, Dom Delgado fez publicar a “Voz de Um Bispo”, sobre Dom Helder Câmara, escrito pelo então Bispo de Crateús, Dom Antônio Batista Fragoso. Mais do que uma peça de defesa de Dom Helder, o escrito de Dom Fragoso é um desabafo contra a campanha de difamação da Igreja que se colocava ao lado dos pobres e oprimidos. Dom Fragoso identifica os difamadores, entre eles a 10ª Região Militar, que através de um informativo que se dizia “estritamente confidencial” sobre as atividades políticas, sociais e religiosas de Dom Helder, no final recomendava a divulgação a vários bispos, padres e instituições religiosas, com o único objetivo de desacreditá-lo moralmente dentro da Igreja, para que Dom Helder fosse mais facilmente preso, condenado e expatriado.

Para Moreira Alves (6), Dom Helder decidiu denunciar as torturas cometidas pelo regime militar contra presos políticos, após o assassinato, em 27 de maio de 1969, do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, o primeiro padre a perder a vida sob o terror da ditadura, seu assistente para o meio estudantil, pelo Comando de Caça aos Comunistas, em Recife. De acordo com o Boletim do Secretariado Arquidiocesano de Olinda e Recife – CNBB (7), o Padre Antônio Henrique Pereira Neto tinha 29 anos, era natural de Recife e tinha feito seus estudos eclesiásticos, nos Seminários de Olinda e de João Pessoa, na América do Norte e no Seminário Regional do Nordeste. Foi ordenado sacerdote, pelo Arcebispo Dom Helder Camara, aos 25 de dezembro de 1965, na Matriz de Nossa Senhora do Rosário da Torre, onde havia sido batizado.

Na tarde do dia 26 de maio, como sempre fazia, recebeu vários jovens, no Juvenato Dom Vital, onde permaneceu até pouco depois das 19 horas. Daí saindo, esteve no bairro do Dérbi, na casa da família de um estudante, reunido com outros jovens recifenses. Saindo do Dérbi, dois estudantes levaram-no em condução própria ao Bairro do Parnamirim, onde participou de uma reunião de pais e filhos. Daquele local saiu por volta de 22:30 horas. Uma família que saiu da casa da reunião um pouco depois observou que o padre Antônio Henrique conversava no largo do Parnamirim com algumas pessoas que estavam em uma caminhoneta e com as quais parecia estar partindo.

No dia seguinte, a polícia recebeu a denúncia de que havia uma pessoa morta, em lugar ermo da Cidade Universitária. Um pouco antes das 14 horas, as autoridades eclesiásticas foram avisadas do ocorrido, tendo sido identificado o corpo, definitivamente, no Necrotério Público. Desde que teve notícia do ocorrido, Dom Helder, acompanhado do Bispo Auxiliar, Dom José Lamartine, do Abade do Mosteiro de São Bento, dos Vigários Episcopais e de vários sacerdotes e leigos, dirigiram-se ao necrotério até a conclusão da autópsia.

O sacerdote foi amarrado, arrastado, recebeu três tiros na cabeça e torturas. Dom Basílio Penido, Abade do Mosteiro de São Bento, e médico, acompanhou toda a necropsia. Todos os golpes atingiram a cabeça e o pescoço.

Por volta das 20 horas do dia 27 de maio, o corpo foi conduzido para a Matriz do Espinheiro, onde houve concelebração às 21 horas, com a participação de quarenta sacerdotes e centenas de jovens. Na quarta-feira, dia 28 de maio, houve nova concelebração de quarenta sacerdotes com Dom Helder. O Arcebispo de Olinda e Recife garantiu aos grupos de jovens que não ficariam órfãos. Após as últimas orações dos funerais, na Igreja, o corpo foi conduzido, para o sepultamento por milhares de pessoas a pé. No cruzamento da rua Visconde de Irajá com a rua Visconde de Albuquerque, o cortejo foi interceptado por um pelotão da Polícia Militar. Houve um início de pânico, mas logo se restabeleceu a calma. O Pe. Isnaldo Fonseca dirigiu-se ao comandante que o atendeu e explicou não se tratar de qualquer ação contra o enterro. Porém, não seria permitida a condução de várias faixas com dizeres que denunciavam o bárbaro assassinato do pe. Antônio Henrique. Os policiais militares recolheram rapidamente todas as faixas que continham protestos contra o brutal assassinato do pe. Antônio Henrique Pereira Neto. O cortejo prosseguiu até a Matriz da Torre, onde houve uma parada. Neste templo, o Pe. Antônio Henrique fora batizado, havia feito a primeira comunhão e fora ordenado sacerdote. Dom Helder lembrou estes acontecimentos. O povo foi consultado se o corpo poderia ser conduzido dali para o cemitério da Várzea, em carro, pois ainda faltavam cerca de seis quilômetros para o local do enterramento. A multidão resolveu continuar a pé até o final, ocupando a Avenida Caxangá, passando pela Cidade Universitária até o cemitério. Foi como que um trajeto de reparação, cobrindo possivelmente a trilha do crime, pelo menos em parte. O corpo baixou á sepultura por volta das 13:30 Hs. Dom Helder proferiu algumas palavras e após alguns minutos de silêncio foi rezado um “Pai Nosso”, seguido do hino “Prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão”, da Campanha da Fraternidade.

Na entrada da Cidade Universitária, foi preso o deputado federal cassado, Osvaldo Lima Filho, que acompanhava o enterro e, na Avenida Caxangá, foi registrada também a prisão de um soldado do Corpo de Bombeiros, amigo da família do pe. Antônio Henrique, que ajudava a conduzir o caixão.

No jornal “Diário de Pernambuco”, de 6 de julho de 1969, foi publicada a notícia de que o enfermeiro Ives José Siqueira, que trabalhava e residia em Parnamirim, em depoimento prestado à Secretaria de Segurança Pública, afirmou ter visto Rogério Matos do Nascimento, à noite, às vésperas do crime, dentro de uma Rural com um revólver na mão, juntamente com um comparsa. Embora a Comissão Judiciária, encarregada do Inquérito, nomeada pelo Governador de Pernambuco, já tivesse encerrado seus trabalhos, em razão da importância da testemunha, seus membros assistiram ao depoimento do enfermeiro durante uma hora.

Em 9 de julho de 1969, o Promotor de Justiça da 7a. Vara Criminal, Massilon Tenório Medeiros, denunciou Rogério Matos do nascimento, de 26 anos, ex-estudante e sem profissão, pelo assassinato do Pe. Antônio Henrique Pereira Neto.

Logo que circulou a trágica notícia do trucidamento do Pe. Antônio Henrique, Dom Helder recebeu inúmeras mensagens de solidariedade e de pesar, por telegramas e cartas do Brasil e de diversas partes do mundo, entre as quais a do Papa Paulo VI, do Secretário de Estado do Vaticano, da Presidência do CELAM, da CNBB, de Bispos, Arcebispos, sacerdotes, religiosas e leigos.

A imprensa de Paris divulgou, em 9 de junho de 1969, um apelo em favor do Brasil, com o seguinte texto:

O assassinato do Pe. Antônio Henrique Pereira Neto, assistente da Juventude Católica de Recife, revela brutalmente à opinião mundial a violência dos grupos ocultos que, pelo terror, procuram matar no povo brasileiro toda esperança de libertação. Bispos e padres são os últimos sob o regime militar e ‘católico’, em vigor a poder falar aos pobres. Um a um, estes últimos defensores são reduzidos ao silêncio. Proclamando nossa solidariedade com os 30 padres e leigos cujos nomes se encontram na mesma lista negra do Pe. Pereira Neto, assassinado; – Dom Helder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife, cuja casa já foi metralhada; – o Pe. Geraldo Bonfim, condenado no dia 15 de maio, a um ano de prisão pela Justiça Militar de Fortaleza; – os padres. Antonio Alberto Soligo e João Talpes, presos em São Paulo; – Mário Carvalho de Jesus, o advogado dos trabalhadores de São Paulo, preso de 25 de abril a 10 de maio último; – os padres franceses e americanos expulsos ou acusados nestes últimos meses; – e tantos outros bispos, padres e leigos expostos às ameaças dos terroristas ou à inquisição policial; – nós pedimos, com eles, justiça para todos os brasileiros privados de seus direitos políticos, expulsos das universidades, entregues sem defesa à exploração capitalista, privados das mais elementares garantias jurídicas, – O governo brasileiro dispõe de um poder absoluto; nós lhe dirigimos um apelo em nome dos princípios que ele se atribui a fim de que use deste poder não somente para impedir a periculosidade dos comandos que multiplicam impunemente os atentados, mas ainda para restabelecer o pleno exercício dos Direitos do Homem. Nós dirigimos um apelo, igualmente, à opinião francesa e internacional, a fim de que ela empreste sua voz ao grito abafado de um povo oprimido (8)

No documento, constavam as assinaturas de Jean et Odile Bassé; José de Broucker, des Informations Catholiques Internationales; Robert Buron; Michel de Certeau S. J.; Jacques Chantagner de Temps Présent; Marie-Dominique Chenu O.P.; Pasteur Jean Casali et Mme.; André Cruiziat de Vie Nouvelle; Vicent Cosmao O. P.; Jean Marie Domenach de la Revue Esprit; Pierre et Bernadette Drouet; Abbé Michel Duclercq; Edouard Gueydan S.J.; Aumôner National des Latino-Américains; René Rémond; Mme. Emmanuel Mounier; Pierre Haubtmann, Recteur de L’Institute Catholique de Paris; Henri Lê Duan, Président de L’A.C.O.; Pasteur Lochart, de Christianisme Sociale; Dr. Jean Merilhou; La Paroisse Universitaire; Elia Perroy; Hélène Prouet; Guy Riobé, évêque d’ Orléans et Président du Comité Episcopal Français pour l’Amerique Latine, Pére Congar e outras 400 assinaturas.

Dom Helder Camara, a partir da década de 1970, passou a ser o Bispo da Igreja Católica mais conhecido do mundo, por seu engajamento social e enfrentamento do regime militar no Brasil. Nos anos 60, embora muito mais cauteloso que os membros da Juventude Universitária Católica (JUC), nunca deixou de apoiar seus militantes e de assumir posições reformadoras dentro do catolicismo, o que já o colocava à frente da maioria do clero brasileiro ainda bastante conservador. Os confrontos entre a Igreja e o Estado se acirraram, quando, em 1970, Dom Helder denunciou a tortura no Brasil, durante uma palestra em Paris (9). A represália da ditadura não tardou, e em 1972, em plena Semana Santa, o Pe. José Comblin, assistente de Dom Helder, Coordenador dos Estudos Teológicos do Instituto de Teologia de Recife (ITER), ao tentar desembarcar na capital pernambucana, foi impedido de fazê-lo, obrigado a seguir viagem até o Rio de Janeiro. Nesta capital passou todo o dia 24 de março de 1972 e, no final da tarde, foi embarcado para Bruxelas. Antes do embarque forçado, o Pe. Comblin foi comunicado de que havia um Decreto proibindo-o de desembarcar em qualquer parte do território nacional. Durante o interrogatório, os agentes do aparato repressor do Estado, mostraram-lhe uma carta que ele havia escrito a Dom Fragoso, na qual fazia referências à participação que tivera em um curso de Pastoral, no município de Crateús. O Secretário Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), na época, Dom Ivo Lorscheiter, informado do que estava acontecendo no Galeão, ali permaneceu a tarde inteira, buscando em vão avistar-se com o Padre. As autoridades afirmavam que ninguém estava detido no Aeroporto, muito menos, um padre.

Dom Helder protestou, por escrito contra o banimento do Pe. Comblin, em Recife, no dia 28 de março de 1972, usando as seguintes palavras:

Quem não percebe que o episódio “Comblin” é um capítulo do que vem acontecendo em todo o país com a Igreja, na medida em que ela recusa a continuar servindo de suporte a estruturas de opressão e compromete-se, de modo pacífico, mas válido, com o Povo e a sua libertação? O que há de particularmente grave no caso “Comblin” é que ele é mais um testemunho da marginalização da classe pensante. Ai de quem ousar ter e exercer consciência crítica, ao menos no tocante ao Governo e seus planos.

Quanto ao Povo, se sabe que ele está banido dentro do próprio país, por mais que, em teoria, se proclame que a meta é o homem. E tudo isso se passa em vésperas da abertura das comemorações oficiais do sesquicentenário de nossa independência política. Patriotismo, amor ao Brasil não será a coragem cívica de lembrar que é básico para termos condições morais de festejar o 7 de setembro de 1972 a abolição pura e simples do Ato Institucional nº 5? (10)

Notas:
(1) Cf. Boletim do Secretariado Regional Nordeste I da CNBB. Mimeografado, s/d. 16 p. Arquivo da Sala de História Eclesiástica da Arquidiocese de Fortaleza (SHEAF).
(2) Idem. p. 2.
(3) Ibid,.
(4) Jornal Correio do Ceará, de 23 de julho de 1970.
(5) Cf. Boletim do Secretariado Regional Nordeste I da CNBB.
(6) ALVES, Márcio Moreira. Op. Cit. p. 185-186.
(7) Notícia Sobre o Bárbaro Trucidamento do Padre Antonio Henrique Pereira da Silva Neto, no Recife, a 27 de maio de 1969. Boletim do Secretariado Arquidiocesano de Olinda e Recife (PE). Assessoria de Opinião Pública. Datilografado em 18 de julho de 1969. 14 p. Arquivo da Sala de História Eclesiástica da Arquidiocese de Fortaleza.
(8) Ibid., p. 10.
(9) Ver SERBIN, Kenneth P. Padres, Celibato e conflito social: uma história da Igreja católica no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p 260 – 64.
(10)Comunicado da Arquidiocese de Olinda e Recife, datilografado e assinado por Dom Helder Camara, em 28 de março de 1972, em Recife. Acervo da Sala de História Eclesiástica da Arquidiocese de Fortaleza (SHEAF).

* Mestre em História Social – UFC. Doutorando em Sociologia – UFC

(Artigo publicado originalmente na Agência Adital)

O deserto fértil de Dom Helder

Eugênio Mattos Viola

“Se eu dou comida a um pobre, me chamam de santo, mas se eu pergunto por que ele é pobre, me chamam de comunista”.

Talvez essa frase possa servir como síntese da vida de Helder Pessoa Camara, nascido em 7 de fevereiro de 1909, em Fortaleza, no Ceará.

Combatido pelas elites insensíveis ao sofrimento humano e carregando a cruz do preconceito, ele não se deixou abater e chegou a ser indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz. Percorreu o mundo na luta contra todo tipo de opressão. Mereceu o reconhecimento internacional, enquanto no Brasil seu nome era proibido de ser mencionado pela mídia durante mais de dez anos, no triste período de total cerceamento da ditadura militar, em seguida ao AI-5, em 1968. “A justiça e a paz serão estabelecidas ao fim de tortuoso caminho, de longas marchas e contramarchas em que os homens se irão depurando dos ódios, das vaidades e dos preconceitos. Se o ódio pode ser mais forte e intenso do que o amor, num curto espaço de tempo, só o amor construirá para sempre”, escrevia o editor Ênio Silveira na apresentação de um dos livros de Dom Helder (O Deserto é Fértil), publicado pela Civilização Brasileira, naquele período de trevas. Como Gandhi, abraçou a Perseverança – a Força da Verdade (Satyagraha). Sabia discernir com sua abençoada sabedoria a diferença entre a caridade, que vê no pobre apenas o objeto de sua generosidade – do expurgo de suas culpas conscientes e inconscientes -, daquela que é a verdadeira caridade: a que tenta resgatar os desamparados, ofertando possibilidades concretas de alcançar o que não lhe foi proporcionado na infância ou ao longo da vida, como direito à educação, saúde, salário digno, moradia descente, Ou seja, Esperança e não apenas esmola.

Ordenado padre em 15 de agosto de 1931, em 1952 era nomeado bispo-auxiliar no Rio de Janeiro. Participou da criação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM). Dom Helder alcançou altos cargos na hierarquia eclesial, mas a humildade nunca o afastou do povo de Deus. Teve influência marcante nos novos rumos adotados pela Igreja durante e pós o Concílio Vaticano II, que abriu as janelas do Vaticano para que os ventos da História tirassem a poeira do trono de Pedro. Seu espírito se manifestou leve e sábio nos tantos livros que deixou publicado. Os profetas não se calam. Tornam o deserto fértil, mesmo sob o martírio.

“É bom que ninguém se iluda, ninguém aja de maneira ingênua: quem escuta a voz de Deus e faz sua opção interior e arranca-se de si e parte para lutar pacificamente por um mundo mais justo e mais humano, não pense que vai encontrar caminho fácil, pétalas de rosa debaixo dos pés, multidões à escuta, aplausos por toda a parte e, permanentemente, como proteção decisiva, a Mão de Deus. Quem se arranca de si e parte como peregrino da Justiça e da Paz, prepare-se para enfrentar desertos”. E ele soube enfrentar os desertos com firmeza e mansidão de espírito.

Schopenhauer dizia que “talento é quando um atirador atinge um alvo que os outros não conseguem. Gênio é quando um atirador atinge um alvo que os outros não vêem”. Quando muitos se esforçavam para ‘catequizar’ os jovens, Dom Helder enxergava além e serenamente apontava o caminho: “Os jovens estão sempre com suas antenas ligadas, e sabem muito bem como captar os sinais do amor apaixonado e apaixonante de Deus. Por que falar sempre de ‘prática religiosa’e jamais de ‘prática evangélica’, feita de amor e de coragem, sempre a serviço dos outros? Ao que tudo indica, essa prática não foi abandonada. Muito pelo contrário, eu a vejo em plena ação por onde quer me passe. Se os jovens vão menos à igreja, talvez seja porque nela não encontram adequadamente reunidas a Vida e o Evangelho”. Era uma visão profética, nos idos de 70, do esvaziamento dos templos e seminários, principalmente na Europa e na América do Norte, como constata-se atualmente.”O desespero, na juventude, é a coisa mais terrível que há, tão terrível que mal posso pensar nisso. E, no entanto, me dizem que ele existe aqui, que está ao lado e em torno de vocês! Exorto-vos a não aceitarem de braços cruzados, jamais! A pior coisa que se pode retirar de um jovem é sua esperança no futuro. Tenham coragem e firmeza para auxiliá-los a reconquistá-la”.

Como diz Frei Betto “procura-se incutir nos jovens a idéia de que não adianta querer mudar o mundo, exceto no que se refere à tecnologia e à ciência. Mas há os jovens que lutam por ‘um outro mundo possível’, que preferem injetar utopia na veia do que drogas”. E Dom Helder foi um eterno jovem. A santa utopia corria em suas veias, em seu coração, em suas palavras, dando o fôlego necessário para enfrentar desertos e tempestades.

Não é difícil imaginar o quanto seria enriquecedora a participação de Dom Helder nas atuais divergências entre os irmãos Clodovis Boff e Leonardo Boff sobre a teologia da libertação.

“Não devemos ficar tão presos assim às palavras. É possível que muitas pessoas não hajam compreendido bem a essência da ‘teologia da libertação’, pois ouviram dizer que ela tinha influência marxista, ou coisa parecida. Mas há também os que a entendem, adequadamente, como a redescoberta do poder revolucionário do amor de Deus na história dos homens, o que lhes parece muito perigoso. É por isso que se vê tanto debate em torno da ‘teologia da libertação’, embora seja indiscutível que o Cristo queira que todos os homens lutem pela libertação de seus semelhantes. O progresso humano, a campanha contra as causas das injustiças, a conquista da dignidade, são a maneira mais direta dos homens poderem cooperar para a sua própria redenção e salvação, causas pelas quais o Senhor deu sua vida”. Sem aprofundar muito os pontos de vista levantados por cada um, observo que a síntese do pensamento de Clodovis é de que o pobre não leva necessariamente ao Cristo. O pobre estaria ocupando lugar do Cristo, o que seria uma heresia. Enquanto a visão de Leonardo é justamente contrária, de que “o Cristo leva necessariamente ao pobre, é a Face do Cristo. Diante dessa polêmica, bem ressaltou o teólogo José Comblin: “Quem vai sofrer com essas controvérsias, são os pobres. Os teólogos têm comida garantida, casa garantida. Se são condenados, não vão sofrer muito. Quem vai sofrer serão os pobres na medida em que a Igreja se desinteressa deles por medo de cair numa heresia. Sempre ouvi Gustavo Gutiérrez dizendo que a teologia da libertação pode morrer e não importa. O que importa, são os pobres. Para um cristão a teologia é algo completamente secundário e dispensável. Mas os pobres não são dispensáveis. Não se pode ser cristão sem acolher a mensagem que vem dos pobres”.

Quem terá perdido um pouco da Compaixão? Quem teria trocado – como os fariseus-, o Amor pela Lei? Os que acusam os teólogos da libertação de terem se valido de elementos do marxismo na leitura da História ou os que propõem uma atuação pastoral vertical, voltada para uma dimensão que coloca em segundo plano a Condição Humana?

O que é inquestionável é que a Conferência de Medellín, em 1968, foi o ‘aggionarmento’ da Igreja na América Latina, deixando no passado uma atuação condenável em relação aos índios, aos escravos, aos desamparados, firmando pacto com os Estados e a aristocracia, com as forças opressoras que de cristã nada tinham. Essa chama não pode morrer, ainda que muitos apontem que haveria ‘poeira ideológica’. É um debate rico, que convida à participação até de ‘não-crentes’ na busca de um mundo mais digno e fraterno, como fez o Cardeal Carlo Maria Martini ao se abrir no belo diálogo epistolar com o escritor Umberto Eco no livro “Em que crêem os que não crêem?”. Dom Helder com o olhar voltado para o Ecumenismo já tinha declarado anos antes: “desculpem-me se porventura lhes dei a impressão de que apenas os crentes, os cristãos, é que podem trabalhar por um mundo melhor. Não é assim que penso de modo algum. Quando olho em torno de mim, logo percebo que nem todos os que se dizem crentes têm esperança verdadeira de paz, justiça e felicidade para os homens, para os que vivem nesse mundo de riscos e incertezas, ao passo que muitos daqueles que em nada crêem, que sequer reconhecem a existência de Deus, estão dispostos a participar nos combates da esperança sem receio de colocar suas próprias vidas em jogo. Bem imagino a surpresa que muitos terão quando souberem que o Senhor dirá àqueles que sem O conhecerem – ou reconhecerem – viveram a fraternidade universal: ‘Agradeço-vos por me terdes acolhido, tratado, vestido, alimentado, defendido e amparado contra a injustiça’. Muitos cristãos, muitos católicos terão surpresa ao constatar que não serão eles os únicos convidados a entrar na casa Pai. Pois o coração do Pai é muito mais amplo do que os registros de todas as paróquias do mundo, e o Espírito Santo sopra em todas as direções, mesmo aquelas onde os pés dos missionários não tenham ainda pousado”.

Nesses dias de angústia em que nos sentimos impotentes diante do ‘holocausto dos palestinos’, da fúria israelense sobre Gaza – sem poupar crianças, mulheres e idosos -, Dom Helder dizia ‘por mais que o homem avance na ciência e na técnica, enquanto houver guerras no mundo daremos um triste atestado de falta de amadurecimento espiritual’.

Como as muitas vozes que hoje apontam para a urgência de aprofundamento dos avanços do Concílio Vaticano II de João XXIII, como a necessidade do fim do celibato, da eleição direta dos bispos, da maior participação dos leigos na construção do Reino, da maior inserção das mulheres na hierarquia eclesiástica, do fim da condenação ao homossexualismo. Como as vozes dos apaixonados pela Igreja, que enxergam além de nosso tempo cronológico e sofrem com o esvaziamento dos templos, abrindo espaço ao surgimento e fortalecimento dos falsos pastores e profetas que arrebatam multidões aflitas e assumem o controle da mídia. Como vozes que não atingem o coração da Cúria Romana e são até perseguidos. Como vozes que vêem da América Latina do bispo Dom Clemente Isnard ou da Europa do Cardeal Martini, Dom Helder também já havia se manifestado e deixado como legado em sua biografia espiritual: “sou um velho bispo, e não tenho receio em pedir-lhes que jamais se conformem com as fraquezas, os compromissos, ou talvez até mesmo com as traições da Igreja, assim como jamais perderem a confiança no Espírito do Senhor, que sempre está dentro dela”.

Certa vez, questionado por um grupo de jovens franceses sobre a razão de Deus permitir o sofrimento humano, Dom Helder despiu-se de todas as doutrinas, de toda fria intelectualidade e, numa demonstração de humildade, de quem também chorou no Monte das Oliveiras, respondeu: “Eu bem que gostaria, quando chegar a minha hora de partir para a eternidade, de levar comigo um bom número de perguntas que desejo fazer, um bom número de questões sobre as quais preciso ser esclarecido, um bom número de hipóteses que pretendo verificar. E isso sem falar nos mistérios que jamais chegarei a esclarecer, a respeito dos esforços que Deus faz para ser entendido perfeitamente. Bem sabemos que o Senhor conheceu o sofrimento. Ele foi capaz de chorar. Ele teve de alimentar, de curar, de consolar. Ele já teve de reconduzir um filho aos braços de seus pais. No entanto, quando a agonia O acometeu, Ele próprio não teve dúvida em implorar piedade. Ele jamais nos disse que o sofrimento era bom, necessário ou Justo”.

Dom Helder Camara foi ao encontro do Senhor no dia 28 de agosto de 1999, aos 90 anos de idade. Para ele, já não há mais mistérios ou dúvidas. Para nós, ficou a certeza de uma vida dedicada em plenitude ao amor, humildade e fé. Em fevereiro do ano passado, a Comissão Nacional de Presbíteros, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), encaminhou à Congregação para a Causa dos Santos o pedido de beatificação de Dom Helder Pessoa Camara. Em seu deserto, nasceram flores.

(Eugênio Mattos Viola é jornalista e o artigo acima foi publicado originalmente na Agência Adital)