profeta

Região Belém celebra a memória de Dom Luciano

A  Região Belém celebrou a memória de Dom Luciano Mendes de Almeida neste 7º aniversário de falecimento, dia 27/8. De manhã, a cerimônia foi com as crianças, adolescentes e educadores das diversas obras sociais, no Centro Pastoral São José. À noite, houve missa na Igreja São José do Belém, presidida pelo Pe. Julio Lancellotti e concelebrada pelos padres Miguel de Oliveira, Claudio de Oliveira, Tarcisio Marques Mesquita, Marcio Leitão, Atanasio Enchioglo e Mauro Domezzi.

No início, Iracema Silva, do Secretariado de Pastoral da Região, homenageou Dom Luciano:

Na homilia, Pe. Julio lembrou com emoção dos sinais da presença de Dom Luciano e lançou o desafio para que a Região Belém seja memorial vivo da sua caminhada:

No final, alguns dos participantes da missa deram seu testemunho:

Missionário lança livro sobre Dom Helder na CNBB

Resgatar a memória sobre dom Helder Câmara. Este foi o principal objetivo da pesquisa do missionário redentorista padre Edvaldo M. Araújo, professor da Faculdade de Teologia e Ciências Religiosas da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Ele é autor da pesquisa Dom Helder Câmara: Profeta-peregrino da justiça e da paz, tese de doutorado que foi agora publica pela editora Ideias e Letras. A obra foi lançada oficialmente na quinta-feira, 08/03, na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em Brasília (DF).

O autor conta que a sua proposta na obra foi realizar um estudo do pensamento de uma pessoa interessante como dom Helder Câmara. “Ele não era teólogo, nem especialista em nada, mas tinha uma visão de teologia pastoral muito grande”, explica Edvaldo.

Sua principal fonte de pesquisa foram as mais de 500 conferências proferidas pelo bispo entre 1964 e 1993, e que revelam o objetivo principal de sua missão: a realização plena do ser humano.

“Dom Helder enfrentou este grande desafio na vida: evangelizar na realidade de injustiça. Um grande profeta de nossa Igreja, que passou por muitas situações na vida, mas sempre procurando discernir a vontade de Deus, procurando ser fiel também ao povo”.

Edvaldo explica que seu estudo sobre dom Hélder revelou as suas propostas na área social e humana. “Percebi como ele teve como fonte em sua atuação o pensamento, o ensino, a doutrina da Igreja. É interessante como ele tentou colocar isso em prática” revela o autor.

Precisamos de muita e muita Coragem

Leonardo Boff

Em 14 de setembro último, celebrou 90 anos de idade uma das figuras religiosas brasileiras mais importantes do século XX: o Cardeal Paulo Evaristo Arns. Voltando da Sorbonne, foi meu professor quando ainda andava de calça curta em Agudos-SP e depois, em Petrópolis-RJ, já frade, como professor de Liturgia e da teologia dos Padres da Igreja antiga. Obrigava-nos a lê-los nas linguas originais em grego e latim, o que me infundiu um amor entranhado pelos clássicos do pensamento cristão. Depois foi eleito bispo auxiliar de São Paulo. Para protegê-lo porque defendia os direitos humanos e denunciava, sob risco de vida, as torturas a prisioneiros políticos nas masmorras dos órgãos de repressão, o Papa Paulo VI o fez Cardeal.

Embora profético mas manso como um São Francisco, sempre manteve a dimensão de esperança mesmo no meio da noite de chumbo da ditadura militar. Todos os que o encontravam podiam, infalivelmente, ouvir como eu ouvi, esta palavra forte e firme: “coragem, em frente, de esperança em esperança”.

Coragem, eis uma virtude urgente para os dias de hoje. Gosto de buscar na sabedoria dos povos originários o sentido mais profundo dos valores humanos. Assim que na reunião da Carta da Terra em Haia em 29 de junho de 2010, onde atuava ativamente sempre junto com Mercedes Sosa enquanto esta ainda vivia, perguntei à Pauline Tangiora, anciã da tribo Maori da Nova Zelândia qual era para ela a virtude mais importante. Para minha surpresa ela disse:”é a coragem”. Eu lhe perguntei: “por que, exatamente, a coragem?” Respondeu:

”Nós precisamos de coragem para nos levantar em favor do direito, onde reina a injustiça. Sem a coragem você não pode galgar nenhuma montanha; sem coragem nunca poderá chegar ao fundo de sua alma. Para enfrentar o sofrimento você precisa de coragem; só com coragem você pode estender a mão ao caído e levantá-lo. Precisamos de coragem para gerar filhos e filhas para este mundo. Para encontrar a coragem necessária precisamos nos ligar ao Criador. É Ele que suscita em nós coragem em favor da justiça”.

Pois é essa coragem que o Cardeal Arns sempre infundiu em todos os que, bravamente, se opunham aos que nos seqüestraram a democracia, prendiam, torturavam e assassinavam em nome do Estado de Segurança Nacional (na verdade, da segurança do Capital).

Eu acrescentaria: hoje precisamos de coragem para denunciar as ilusões do sistema neoliberal, cujas teses foram rigorosamente refutadas pelos fatos; coragem para reconhecer que não vamos ao encontro do aquecimento global mas que já estamos dentro dele; coragem para mostrar os nexos causais entre os inegáveis eventos extremos, conseqüências deste aquecimento; coragem para revelar que Gaia está buscando o equilíbrio perdido que pode implicar a eliminação de milhares de espécies e, se não cuidarmos, de nossa própria; coragem para acusar a irresponsabilidade dos tomadores de decisões que continuam ainda com o sonho vão e perigoso de continuar a crescer e a crescer, extraindo da Terra, bens e serviços que ela já não pode mais repor e por isso se debilita dia a dia; coragem para reconhecer que a recusa de mudar de paradigma de relação para com a Terra e de modo de produção pode nos levar, irrefreavelmente, a um caminho sem retorno e destarte comprometer perigosamente nossa civilização; coragem para fazer a opção pelos pobres contra sua pobreza e em favor da vida e da justiça, como o fazem a Igreja da libertação e Dom Paulo Evaristo Arns.

Precisamos de coragem para sustentar que a civilização ocidental está em declínio fatal, sem capacidade de oferecer uma alternativa para o processo de mundialização; coragem para reconhecer a ilusão das estratégias do Vaticano para resgatar a visibilidade perdida da Igreja e as falácias das igrejas mediáticas que rebaixam a mensagem de Jesus a um sedativo barato para alienar as consciências da realidade dos pobres, num processo vergonhoso de infantilização dos fiéis; coragem para sentar na cadeira de Galeleo Galilei para defender a libertação e a dignidade dos pobres; coragem para anunciar que uma humanidade que chegou a perceber Deus no universo, portadora de consciência e de responsabilidade, pode ainda resgatar a vitalidade da Mãe Terra e salvar o nosso ensaio civilizatório; coragem para afirmar que, tirando e somando tudo, a vida tem mais futuro que a morte e que um pequeno raio de luz é mais potente que todos as trevas de uma noite escura.

Para anunciar e denunciar tudo isso, como fazia o Cardeal Arns e a indígena maori Pauline Tangiori, precisamos de coragem e de muita coragem.

Dom Hélder, força e habilidade

Pe. Geovane Saraiva

Dom Helder Pessoa Câmara, por sua simplicidade, humilde e estatura franzina, nos faz lembrar o jumentinho que Jesus escolheu para montar, na sua entrada em Jerusalém, animal sem aparente beleza, mas de uma importância, força e resistência extraordinária (cf. Mt 21, 2-8). O pastor dos empobrecidos foi assim, no seu temperamento e na sua audácia sem limites, isto acontecia quando tinha que defender seus pontos de vistas, com um profundo desejo, usando de todos os meios possíveis, para que a Igreja se engajasse na causa dos empobrecidos, que fosse mais servidora e mais fiel a vontade daquele que a instaurou e menos “senhora e rica”.

Falamos de uma criatura humana extremamente habilidosa e com uma desenvoltura, que se tornou o mais influente bispo brasileiro no Concílio Vaticano II (1962-1965), a ponto de decisivamente contribuir para que a Igreja, no nosso continente latino americano, nos anos que se seguia, fizesse a sua “opção profética e preferencial pelos pobres”.

Segundo o grande teólogo José Comblin, falecido recentemente, aos 88 anos, que conviveu muito de perto com o querido arcebispo de Olinda e Recife, dizia: “Ele era um articulador de primeira grandeza, com noção de que, às vezes, sua influência seria maior se ficasse calado e não se manifestasse”. Muitas vezes os próprios colegas ignoravam de onde vinham as excelentes propostas contribuições que estavam votando, narra José Combiln.

Já bem antes do Concílio, as vésperas da inauguração de Brasília, Juscelino Kubitschek chamou Dom Helder e o convidou para ser o prefeito da nova capital federal, sendo insistente. Afirmou que tinha o parecer favorável de todos os líderes partidários, depois de consultá-los. Dom Helder recusou polidamente, dizendo: “Hoje, senhor presidente, eu estou aqui, frente a frente, debatendo com o senhor pontos de vista com absoluta liberdade e sem condionamentos de qualquer ordem. No dia em que me incorporar ao seu grupo de comando, dentro das injunções concretas das práticas políticas, eu estarei amarrado, balançando a cabeça para concordar com o que o senhor disser, deixando de lhe trazer a colaboração original e independente da Igreja. Eu quero ter sempre um canal de diálogo livre e respeitoso com o Estado para cobrar o seu dever. Quero fazê-lo em nome de Deus e do povo. Quero ser a boca dos que não têm vez nem voz”.

Compreendemos a força e a habilidade de Dom Helder, a partir daquilo que é belo e maravilhoso no poeta ou escritor, ao externar o que tem dentro de si: suas fantasias e suas ideias. Aquilo que ele tem na mente e no coração, releva-a e manifesta-a. Assim, também, foi o que aconteceu com os autores sagrados, ao redigirem as Sagradas Escrituras. Há tanta coisa bonita e surpreendente, muitas vezes, com tanto exagero, que se tem a impressão de se ir além do sagrado.

No último versículo do Evangelho de São João o autor sagrado afirma que o que Jesus realizou, neste mundo, é belíssimo e maravilhoso e, se tudo fosse escrito, livro algum caberia. O milagre da multiplicação dos pães (Mt 14, 13-21), finda dizendo: Os que comeram dos cinco pães e dos dois peixes eram cinco mil homens sem contar mulheres e crianças. Estudiosos e especialistas da Palavra de Deus, sem negar, evidentemente, a divindade do Filho de Deus, acham um exagero, para aquele tempo, o grande número de pessoas.

Deus fez o homem com uma imaginação fértil e criadora, chamando-o para participar da sua natureza divina. Aí está sua grandeza. A terra tornou-se pequena para caber a criatura humana, grandiosa na sua capacidade de imaginar e realizar, em todos os sentidos.

Padre Manfredo Oliveira, cearense de Limoeiro do Norte, grande figura humana e um dos maiores filósofos da atualidade, na sua mente dadivosa, foi extremamente feliz, ao afirmar que Dom Helder não cabia dentro da Igreja. Certamente ele quis enaltecer sua força imaginadora, talentos, sensibilidade e a inteligência privilegiada do pastor dos empobrecidos, que habilidade soube perceber todas as novidades e desafios do século XX e colocá-los no seu coração, procurando dar-lhes uma resposta.

Já o Cardeal Aloísio Lorscheider falava de Dom Helder, assim: “Foi um corifeu, com uma visão de futuro e com grande influência, muito respeitado e inquieto como uma barata tonta: Sua tribuna foi sua sabedoria em agir e articular nos bastidores, com uma oratória vibrante e com gestos rasgados que sensibilizavam e arrebatavam as multidões.

Tudo isso ele realizava, numa atitude de oração e na fidelidade ao Pai, no seu amor acendrado à Igreja. Ele mesmo dizia: Abandonar a Igreja seria o mesmo que abandonar o seu próprio corpo. Por isso devemos acolher tudo o que se disse e o que, ainda, irão dizer deste homem tão amado por Deus. Ele, por tudo que fez na sua força e habilidade invencível, é grande demais! De fato, a Igreja é pequena para caber Dom Helder.

 

José Comblin, o legado de um profeta

Maria Clara Bingemer

A Igreja brasileira vive na saudade e na esperança o luto por José Comblin, morto aos 88 anos no último dia 27 de março. Belga de nascimento, brasileiro por adoção, latino-americano por vocação, esse missionário que deu sua vida junto aos pobres e sofredores do sul do Equador deixa um vazio nestes nossos tempos carentes de profetas. Sua voz de fogo e sua razão clara e lúcida certamente provocam imensa saudade e nostalgia.

O Padre José, como era carinhosamente chamado pelo povo nordestino a quem servia, nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 1923. Foi ordenado sacerdote em 1947 e obteve o título de doutor em Teologia pela Universidade Católica de Louvain, Bélgica. Onze anos depois de ordenado, em 1958, Comblin desembarcou em Campinas, Brasil. Aqui, foi assessor da JOC (JuventudeOperáriaCatólica) e professor da Escola Teológica dos Dominicanos emSão Paulo, tendo como alunos alguns frades notáveis na história brasileira como Carlos Alberto Libanio Christo, o Frei Betto e Frei Tito Alencar Lima, torturado barbaramente nos cárceres da ditadura militar brasileira, o que o levou à depressão e ao suicídio na França.

Posteriormente lecionou na Faculdade de Teologia do Chile, mas voltou para Recife a convite de Dom Helder Camara onde foi professor do famoso ITER (Instituto de Teologia do Recife), pondo em prática iniciativas criativas para colocar a teologia ao alcance do povo mais pobre do meio rural. Criou muitos seminários rurais em Pernambuco e Paraíba e aí encontrou inspiração e base para uma Teologia da Enxada.

Por suas idéias e prática, Pe. Comblin passou a ser persona non grata para o regime militar e foi finalmente expulso do Brasil em 1971. Exilou-se no Chile por oito anos. Dali foi por sua vez expulso pela ditadura de Pinochet, em 1980. Voltou ao Brasil e radicou-se na Paraíba, dedicando-se inteiramente à formação de seminaristas rurais e animadores de comunidades eclesiais de base. Alternava essa práxis docente e reflexiva em meio aos pobres com aulas no curso de pós-graduação de missiologia na PUC de São Paulo.

Ouvir José Comblin falar era sempre um privilégio. Comprometido com a verdade, sem fazer nenhuma concessão neste ponto, abria sua boca de profeta e deixava-nos muitas vezes desconcertados e perplexos. Não poupava críticas a uma Igreja que no entanto amava com paixão. E a violência da crítica dava a medida do amor. No entanto, era muito consciente de que a Igreja estava a serviço do Evangelho de Jesus, seu amor maior. E fazia questão sempre de recordar isso.

José Comblin tinha uma grande esperança eclesial: os leigos. Acreditava profundamente nos cristãos batizados que recebiam do Espírito carismas e ministérios e se entregavam ao serviço de sua fé. E por isso criou vários movimentos missionários leigos, na Bahia, na Paraíba, em Tocantins e outros pontos do Nordeste brasileiro.

As reuniões da SOTER (Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião) não serão mais as mesmas sem sua presença lúcida, profética e sábia. Cercado pelos jovens teólogos de todo o Brasil, Comblin sorria e respondia a cada pergunta com atenção e simplicidade, como era seu estilo. Seu pensamento encantava e impunha respeito, mesmo se dele se discordava. Era um mestre, sem sombra de dúvida.

Encontrei-o pela última vez em março de 2010 em El Salvador, no congresso teológico que celebrava os 30 anos do martírio de Monsenhor Romero. Ali estava ele, sorridente, e presente e ativo em corpo e alma. Caminhamos juntos com milhares de outros peregrinos até a catedral onde celebramos com devoção e júbilo a memória viva e subversiva do mártir que congregava gente do mundo inteiro em volta a sua pessoa e seu testemunho.

Ali me disse que agora morava em Barra na Bahia. Explicou-me com uma pureza cheia de simplicidade e por isso mesmo mais comovente que sentia estar perto da morte. E que por isso necessitava converter-se. E nada melhor para converter-se do que estar perto de um profeta. Por isso tinha escolhido ir morar na diocese de Dom Cappio, a quem situava na categoria dos profetas. Seu depoimento comoveu-me profundamente. Ouvir aquele homem de muito mais de 80 anos buscando ainda conversão e proximidade do Senhor após toda uma vida entregue a Deus e aos pobres era realmente edificante.

A notícia de sua morte chegou-me por mensagem eletrônica de amigos. Juntamente com a dor da perda de um irmão mais velho, senti gratidão por sua vida e responsabilidade em não deixar perder seu legado de teólogo, de profeta, de servidor de Deus e de seu povo. Junto ao Padre Ibiapina, o padre José descansa de sua longa jornada. Mas sua profecia continua viva, sem descanso inspirando e movendo novas vocações teológicas que se dispõem a refletir e articular a Revelação de Deus com a história dos pobres que vão se tornando sujeitos de sua história e construtores do Reino.

O que José Comblin nos contou em 2007

Eduardo Hoornaert

Por ocasião dos sessenta anos da ordenação sacerdotal de José Comblin, um bom grupo de amigos(as) e missionários(as) se reuniu no santuário de Ibiapina em Santa Fé (Arara), no brejo paraibano, para festejar a data, reatar os contactos, fortalecer a rede e reanimar o espírito. José tinha 85 anos e estava particularmente eufórico. Ele nos confidenciou detalhes sobre sua vida, algo que não costumava fazer.

1. Desde muito jovem, seus talentos intelectuais chamaram a atenção de familiares e educadores. Quando, provavelmente com a idade de 16 ou 17 anos, ele disse a seu tio padre que queria ser missionário, este respondeu prontamente: ‘Missionário não, você é inteligente demais. Professor, isso sim, professor na universidade de Lovaina!’. Efetivamente, José estudou teologia em Lovaina e admirou a competência, aplicação e honestidade intelectual de professores como Lucien Cerfaux e Gustave Thils. Quando o novo ‘doutor’ foi nomeado vigário auxiliar numa paróquia em Bruxelas, foi uma decepção: ‘eu senti que não havia mais futuro para o catolicismo na Bélgica’. Então, ele procurou outra coisa. Quando, respondendo ao pedido do papa Pio XII, a universidade de Lovaina abriu um colégio para sacerdotes que desejavam partir para a América Latina, ele foi um dos primeiros candidatos.

2. Com a idade de 35 anos, em 1958, José partiu para o Brasil. Na conversa de 2007 ele insistiu: Não deixei a Bélgica para responder ao apelo do papa nem para combater o comunismo, o protestantismo ou o espiritismo (as três ameaças da época, na opinião do Vaticano). Parti tampouco para remediar a falta de padres. Eu compreendi que o cristianismo estava se extinguindo na Europa e só poderia renascer fora de um continente tão deformado por longa tradição de colonialismo, tráfico de escravos, matança de povos, deformado também por multissecular opressão da liberdade e das forças vitais do ser humano’. Ao encontrar aqui, já nos primeiros dias, pessoas que correspondiam à sua visão, a alegria era grande. José ficou imediatamente fascinado pelo Brasil. Seus primeiros contactos foram com jovens da JOC (juventude operária católica), pois, como muitos padres de sua geração, ele era influenciado por Cardijn, padre da diocese de Bruxelas e fundador da JOC. Educado num ambiente onde obediência, discrição e mesmo timidez eram apreciadas e mesmo encorajadas, ele encontrou aqui pessoas que não eram nem obedientes, nem discretas nem tímidas. ‘Eu encontrei pessoas verdadeiras, que não escondiam o que eram, pessoas sem mentira’. A fascinação pelo modo de ser brasileiro aparentemente nunca mais o abandonou e isso me foi confirmado inesperadamente por sua própria irmã, que encontrei certa vez em Bruxelas, em 1980: ‘O que fizeram ali com meu irmão? Ele não é mais o mesmo!’.

3. Comblin nunca foi a Roma: ‘O que eu faria ali?’. Mas em 1968 o arcebispo Hélder Câmara lhe pediu de redigir um texto para a conferência dos bispos em Medellín (Colômbia). José foi a seu quarto e bateu o dia inteiro com os dedos na sua máquina de escrever. Sou testemunha, pois na época vivíamos na mesma casa, com portas e janelas sempre abertas. Principalmente a partir de textos de José Comblin, Gustavo Gutiérrez (Peru) e Juan Luis Segundo (Uruguay) surgiu então a expressão ‘opção pelos pobres’, na verdade uma confirmação verbal do que diversos bispos da América latina já estavam praticando na época, na fidelidade ao ‘pacto das catacumbas’ firmado em Roma no final do Concílio Vaticano II. Os três teólogos sabiam, pois, que estavam construindo sobre terreno firme, o que mais tarde ficou comprovado pelo surgimento da teologia da libertação. Dom Hélder Câmara, que era um homem perspicaz, tinha pedido, em 1965, a José Comblin de vir trabalhar em Recife. Desse modo o conselheiro de Dom Hélder entrou, aos poucos, em contacto com outros bispos progressistas da América latina como Leônidas Proaño (Ecuador), Mendez Arceo (México), Aloísio Lorscheider, José Maria Pires e muitos outros. A visão dos teólogos da libertação consistia basicamente na rejeição da ideologia do desenvolvimento e no aprofundamento de temas como opressão, ditadura econômica e política, fascínio do capitalismo (Jung Mo Sung) e solidariedade com os pobres. Quando o texto de 1968, por indiscrição, caiu nas mãos dos militares, Comblin entrou numa rota de colisão com o sistema e foi expulso do país em 1972. Ainda tentou viver no Chile, mas ali também Pinochet tomou o poder em 1974. A única possibilidade, depois da ‘abertura lenta e progressiva’ de 1977, consistia em permanecer no Brasil na qualidade de ‘turista’ por consecutivos períodos de três anos. Seu estatuto legal só foi regularizado no decorrer dos anos 1980.

4. Entretempo, Comblin muda outra vez o rumo de sua vida. Adeus formação sacerdotal em seminários e institutos de teologia, adeus grandes cidades. José desaparece e começa uma peregrinação de longos anos e grandes percursos, zigue-zague pelos imensos espaços do Nordeste, à procura de pessoas que se sensibilizem com sua ‘teologia da enxada’. A agricultura tradicional do Nordeste opera por meio da enxada, não do arado. Isso significa que a teologia da enxada parte da cosmovisão do agricultor comum, algo que pressupõe uma ‘reversão de todos os valores’ por parte de um teólogo formado por Cerfaux e Thils. Na qualidade de teólogo da enxada, José peregrina até três dias antes de morrer tranquilamente no Recanto da Transfiguração, em Salvador. Nos últimos anos ele conta com a dedicação incondicional de Mônica Muggler, que faz de tudo para que José possa trabalhar e viajar até a idade de 88 anos. Ela é motorista (ele mesmo não sabe dirigir carro!), planeja encontros (nos últimos anos de forma intensiva por meio de telefone celular), estabelece contactos, organiza planos de viagens, coloca textos na internet (laptop), encontra lideranças locais. José também tem seu laptop. Ele ainda me manda algumas palavras por ocasião de seu aniversário, cinco dias antes de morrer.

5. O milagre consiste no fato que um intelectual estrangeiro, de índole retraída, consegue estabelecer um laço provavelmente estável com a cultura iletrada do interior nordestino. Um milagre que, como todos os milagres, é incompreensível. Neste momento (31/03/2011) estou sendo informado que há velas acesas em cima de sua cova, ao lado do túmulo do padre Ibiapina, na calma e linda natureza do brejo paraibano, em baixo das árvores. E uma mulher se declara curada depois de rezar no túmulo do padre José Comblin.

Pe. José Comblin, Pregador da Palavra de Deus

Domingos Zamagna
Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo

Acabo de participar da Missa de 7º dia em sufrágio do Pe. José Comblin. Presidida por Dom Angélico Sândalo, emérito de Blumenau, ao lado de outros bispos eméritos, foi realizada no Convento dos Dominicanos, em cuja Escola de Teologia (hoje intitulada Instituto Bartolomeu de Las Casas, afiliado à Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino – Angelicum, em Roma) o Pe. Comblin lecionou durante mais de uma década.

Ali fui aluno deste extraordinário mestre e, como centenas e milhares de pessoas, pude aprender com ele as maravilhas da fé cristã. Nossa amizade já durava 46 anos, quando recebi, da querida amiga comum Ana Flora Anderson, a notícia de seu falecimento.

Falando dele para alunos, dentre os quais muitos seminaristas, a maior parte nem sequer sabe quem foi este teólogo. Alguns se recordavam que sobre ele pairava uma proibição de dar conferências em instituições católicas, inclusive na PUC-SP. Eu me recordo que quando a PUC-SP foi invadida em 1977 pelas tropas do Cel. Erasmo Dias (governo Paulo Egydio Martins) para violentamente reprimir estudantes que faziam assembleia, o cardeal Paulo Evaristo Arns (grão-chanceler da universidade) retornou às pressas da Europa e declarou, logo que desceu do avião: “A universidade existe e sempre existiu para debater todos os problemas, sem exceção. É sinal de pouca civilização proibir professores e alunos de debater os seus problemas”. Não temos registro de uma só voz que tenha protestado contra a injustiça feita ao Pe. Comblin, mas temos certeza que várias vozes se ergueriam se a interdição fosse dirigida a algum político corrupto de partido da carcomida coligação de sustentação do governo.

Santo Tomás de Aquino, São Boaventura e tantos outros doutores em Teologia foram debatedores, jamais fugiam das “quaestiones disputatae”. Lecionar, debater, pregar (legere, disputare, praedicare) eram as tarefas próprias dos mestres em Teologia. Por que várias autoridades eclesiásticas fingem ignorar que dezenas de documentos oficiais da Igreja incentivam os teólogos a seguir o exemplo de Santo Tomás que, fidelíssimo à doutrina da Igreja, jamais ensinou sem antes se informar e expor as razões dos objetores? Queremos formar seminaristas e leigos para serem meros repetidores de surradas manualísticas? Para quem não conhece, recomendo a leitura de J. Comblin. A atualidade de Santo Tomás de Aquino. REB 135 (1974), 515-523.

Pe. Comblin fez da investigação rigorosa um compromisso da sua atividade professoral. Suas aulas e conferências jamais provocaram indiferença, pelo contrário, despertavam o senso crítico e nos incomodavam profundamente. Costumava dizer: “É diante do pobre que a nossa teologia tropeça”. Uma reverberação de Basílio de Cesareia, de João Crisóstomo, de GregórioMagno… de Dom Larrain, Dom Proaño, Dom Romero, Dom Helder, Dom Luciano… e de tantos da Patrística latino-americana.

No ano de 1972, após participarmos do primeiro congresso de Teologia da Libertação em El Escorial, pude acompanhar Pe. Comblin numa longa viagem pela Espanha. Se às vezes parecia-me viajar em companhia de Fliche e Martin, tal a sua cultura e erudição, percebi que eu estava mesmo era ao lado de um discípulo de Jesus, seduzido pela aventura de Deus, apaixonado pela Igreja e pela evangelização, tomado de amor pelos pobres e pecadores, amigo dos santos e dos místicos, que passou horas em contemplação na capela do convento de Calaruega, terra de São Domingos de Gusmão; num misterioso silêncio, ajoelhado, com o Terço na mão, no mosteiro da Encarnação, certamente na intimidade da Virgem Maria e de Teresa d’Ávila; na catedral de Sevilha, quando os tradicionais cônegos, capitaneados por Gonzalez-Ruiz, retardaram a recitação das horas canônicas para ouvi-lo numa improvisada e inesquecível homilia sobre a Igreja na América Latina; no Instituto Fe y Secularidad, de Madri, o Pe. Castilho SJ, após uma palestra de Comblin sem anotação alguma, admirava-se de seu minucioso conhecimento da história e da modernidade da espiritualidade de Santo Inácio de Loyola. Esses são pálidos exemplos de como nosso teólogo se desdobrava para falar de Deo aut cum Deo, de modo que sobre ele se pode dizer o que Guilherme de Tocco escreveu sobre São Tomás: fora o sono e a alimentação, “o resto do tempo era empregado na oração, no ensino, na pregação, na meditação ou em escrever e ditar questões”.

Nas próximas semanas, meses e anos ouviremos muitos relatos sobre as facetas deste apaixonado Pregador da Palavra de Deus: no campo e na cidade, nas montanhas e nas planícies, entre as monjas e os operários, nas favelas e nas faculdades, entre os clérigos e os índios, diante do soberanos belgas e dos sertanejos nordestinos. Seria bom que os que conviveram com ele mais de perto colocassem tudo por escrito, para que não se perca a memória dessa relevante, porém – nudum Christum nudus sequi – humilde e não obstante alegre página da história da nossa Igreja.

Às vésperas da Páscoa, a imagem do Pe. Comblin se apaga, para que sobressaia a realidade da pessoa e missão de nosso Salvador Jesus Cristo que ele, com singela sabedoria e de diversas maneiras, dócil à graça divina, quis nos transmitir pela pregação e pelo testemunho.

José Profeta

Pe. Alfredo J. Gonçalves

De uns tempos para cá, os profetas estão fora de moda. Prevalece o espetáculo recheado de câmeras, holofotes e microfones. Em tempo de mídia, a visibilidade do fantástico ganha terreno sobre o silêncio da semente e do fermento. Com frequência se confunde mudança com show ilusionista, profusamente iluminado e ruidoso, com luzes, sons e imagens. José Comblin viveu, lutou e morreu para mostrar que a profecia continua viva e ativa. E que o Evangelho só é Boa Nova na exata medida em que se faz profecia renova em cada contexto histórico. E, ainda, que profetizar e evangelizar é promover a libertação integral do ser humano.

Três características marcam o movimento profético no Antigo Testamento: memória, denúncia e anúncio. A memória está associada a um reiterado “lembra-te” que remonta à abertura do decálogo: “Eu sou Iahewh teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex 20,2). O decálogo, por sua vez, vem precedido do código da aliança. Assim, os profetas procuravam, em primeiro lugar, trazer para o contexto do reinado e do exílio o espírito de libertação fundamentado na memória do êxodo. Ali se encontram suas raízes. Em outras palavras, se foste escravo no Egito, como podes agora submeter teus próprios irmãos ao mesmo regime? Enquanto sob o Faraó, os hebreus eram subjugados por uma nação estrangeira, agora era o próprio Estado de Israel que escravizava seu povo através de pesados impostos e do trabalho de corvéia. Contra isso se insurgem o movimento profético, retomando e atualizando as exigências do Deus que os tirou da condição de escravos.

Um Deus que “vê a aflição, ouve o clamor, conhece o sofrimento e desce para libertar” marca profundamente a experiência religiosa do Povo de Israel. Ou seja, esse povo vivenciou o contato vivo com um Deus único: atento, sensível e solidário com as condições de vida e trabalho dos oprimidos. Numa palavra, um Deus que caminha pelo deserto da história pessoal e coletiva. Os profetas tentam reviver e recriar essa mesma experiência num novo contexto de opressão e exploração.

Aqui entra em cena a segunda palavra chave do movimento profético. A denúncia tem uma força devastadora em figuras como Isaías, Jeremias, Amós, Oséias e Miquéias. Na mira de seus ataques estão os poderosos dos reinados do Norte e do Sul. São os “chefes da casa de Jacó e magistrados da casa de Israel”, na medida em que desconhecem o “direito e a justiça”, “comeram a carne de meu povo, arrancam-lhe a pele, quebram-lhe os ossos, cortaram-no como carne na panela” (Mq 3,1-3). Aos mesmos chefes e magistrados, o profeta acusa: “vós que detestais o direito, que torceis o que é reto; vós que edificais Sião com sangue e Jerusalém com injustiça” (Mq 3,9-10). Mas estão também na mira os líderes religiosos: “seus chefes julgam por suborno, seus sacerdotes ensinam por salário e seus profetas vaticinam por dinheiro” (Mq 3,11).

A veemência de Miquéias irá repetir-se nos demais representantes do profetismo vetero-testamentário. Sobrecarregados de tributos, os camponeses gemiam sob o reinado. O templo representava uma espécie de coração político e econômico da Israel, para o qual convergiam os esforços dos trabalhadores em forma de numerosos impostos. Daí a dureza das palavras proféticas contra chefes e magistrados, de um lado, falsos profetas e sacerdotes, de outro, todos circulando na órbita do tempo e de seus rendimentos. Daí também as profecias sobre a destruição do tempo e do exílio.

A denúncia, porém, vinha acompanhada por um anúncio. Este se expressa de forma particular nos poemas de Isaías sobre a “Nova Jerusalém”. “Vou criar novos céus e nova terra” – diz o profeta – “nela não se tornará a ouvir choro nem lamentação. Já não haverá ali criancinhas que vivam apenas alguns dias, nem velhos que não completem a sua idade; com efeito, o menino morrerá com cem anos”. E prossegue: “Os homens construirão casas e as habitarão; plantarão videiras e comerão seus frutos (…). A duração da vida do meu povo será como os dias de uma árvore, os meus eleitos consumirão eles mesmos o fruto do trabalho de suas mãos” (Is 65,17-25).

A imagem de Isaías, que se repete com outras cores e graus nas páginas de vários profetas, será retomada pelo Apocalipse, no capítulo 21: “Vi então um céu novo e uma nova terra (…). Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e Ele, Deus-com-eles, será seu Deus. Ele enxugará toda lágrima de seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!” (Ap 21,1-4).

Nas últimas décadas da história brasileira, poucas pessoas representam esse tríplice terreno da profecia como o belga José Comblin. Memória viva, denúncia vigorosa e anúncio de esperança e liberdade – assim se poderia resumir sua trajetória histórica. Ele que seguramente já conhece “o novo céu e a nova terra”, deixa-nos muitas veredas para trilhar o caminho da fonte e da Boa Nova. José está vivo! O profeta com sotaque estrangeiro e com nome e alma brasileira, segue entre nós. Sua fala mansa e seus escritos proféticos seguem clamando por justiça. Nosso ponto final resume-se a um muito obrigado José!

José Comblin: Bruxelas, 22/03/1923, Bahia, 27/03/2011

José Oscar Beozzo

É com tristeza que comunico a vocês que, na manhã de hoje, domingo, dia 27 de março, depois de completar 88 anos, nesta semana, faleceu no interior da Bahia, onde estava assessorando grupos de base, o amigo e mestre de todos nós, José Comblin.

Levantou-se cedo, tomou banho, aprontou-se, mas não apareceu para a oração da manhã. Procuram-no e o encontraram-no sentado no quarto e já morto.

Rezemos por ele que dedicou praticamente toda sua vida ao povo e à Igreja da América Latina, no Brasil, no Chile e no Equador e em centenas de assessorias por todos os países. Ele veio para o Brasil em 1958, junto com o Pe. Michel Schooyans e o Pe. Laga, todos doutores por Lovaina, mas que foram dar aulas no seminário menor, para onde os mandou o Bispo Paulo de Tarso!

Esteve conosco antes da Conferência de Aparecida, analizando a situação e dando- nos todo apoio, para as iniciativas do Fórum.

Perdemos um mestre e um guia inquieto e exigente como os velhos profetas, denunciando sempre nossas incoerências na fidelidade aos preferidos de Deus: o pobre, o órfão, a viúva, o estrangeiro. Trabalhou por uma Igreja profética a serviço destes últimos nas nossas sociedades.

Que ele siga nos inspirando e acompanhando.

Sentiremos e muita sua falta.

Um abraço fraterno para todos vocês. Rezemos pelo Comblin, sua família e as igrejas e comunidades que o acolheram, em especial, Talca de Dom Larrain, no Chile, Dom Proaño em Riobamba, no Equador e, no Brasil, Recife do Dom Helder, Paraíba do Dom José Maria Pires e agora Dom Cappio, em Barra, no sertão da Bahia, onde estava residindo.

Foto de arquivo do O Arcanjo no Ar – na Casa de Oração do Povo da Rua – lançamento do livro A Profecia na Igreja,  do Padre Comblin – març/2009.