profeta

Pe.Comblin com Deus!

Consternado soube do falecimento do querido pe.José Comblin, grande teológo e pensador cristão. Foi meu professor na Faculdade de Teologia. Mestre e exemplo de dedicação, amor e serviço aos pobres. Pe.Comblin faleceu nesta madrugada na Bahia e será sepultado na Paraíba.

Fotos de arquivo – na Casa de Oração do Povo da Rua – lançamento do livro A Profecia na Igreja,  do Padre Comblin – març/2009.

Dom Aloisio, doçura e profecia

Leo Arlindo, Aloísio Cardeal Lorscheider, foi uma chama luminosa, com seu um coração amável e cheio de bondade, uma pessoa humana ao extremo, dotada de grandes virtudes e qualidades, de um “bispo completo”, segundo o grande teólogo Alberto Antoniazzi e no dizer do Senador Tasso Jereissati, “do homem mais ilustre da nossa geração, no Ceará, com a sua vida de dedicação à causa dos excluídos”, do maior benfeitor dos cearenses e patrimônio de todo povo brasileiro.

Ele foi um homem de Deus que, “na meditação da Palavra de Deus, na Eucaristia, e na oração do Ofício Divino se inebriava, se fortalecia, e na ação caritativa, prestimosa, solidária, constante e incansável, se entregava todos os dias para animar seus padres, para consolar os sofredores e fracos…” (cf. O livro A Ternura de um Pastor, p.13). Dele também disse o Desembargador Fernando Ximenes: “as camadas desfavorecidas ou marginalizadas, os sem-terra, os presos políticos, os presidiários comuns e os trabalhadores em greve – ganharam um aliado de peso” (Ibid. 22).

Doçura em pessoa, alegria constante, posições corajosas e determinadas, ao mesmo tempo, pregava e anunciava o diálogo e a concórdia com grande sabedoria. Carregou sempre no seu grande coração, as alegrias, as esperanças, as tristezas, as angústias e os sofrimentos de sua querida gente (cf. GS 200), além de travar, sem jamais se cansar, uma luta pela redemocratização, pela liberdade de expressão, pela dignidade da pessoa humana e pelo fim da tortura em nosso querido Brasil.

Dom Aloísio foi o grande teólogo que sabia compreender a realidade na sua conjuntura e, com suas posições bem claras e definidas, nas análises e nas conclusões teológicas pastorais, passando para o povo um clima que favorecia e gerava uma confiança generalizada. Daí ser o Cardeal que mais se destacou em todos os Conclaves e Sínodos de que participou, gerando para o mundo inteiro e, especialmente, para toda a imprensa, uma grande expectativa. Sua palavra sábia, corajosa e profética era acolhida por todos como uma boa notícia, muito especial.

Outra coisa bela, exemplar e maravilhosa no Cardeal Lorscheider foi a sua fidelidade à Igreja e à Sede de Pedro vivenciada e compreendida em profundidade a partir do Concílio Vaticano II (1962 a 1965), com um enorme desejo de que o maior acontecimento eclesial do Século XX, o Concílio, fosse aplicado e encarnado nas diversas realidades vividas pelo homem hodierno. A Igreja, mais do que nunca, precisava ser renovada, rejuvenescida. Era o sonho verdadeiro “aggiornamento”, que estava diante dos olhos e do seu coração.

Ele, na sua simplicidade, amabilidade e bondade sem limites, deixou-nos um legado de boas obras e ações, que se concretizaram no seu testemunho e no seu modo de viver, na íntima e em profunda comunhão, pela oração e ação, a Deus Pai. Para Dom Aloísio, como tão bem diz o Apóstolo Paulo, viver para foi verdadeiramente Cristo e morrer foi o lucro que todos nós experimentamos, através da sua vida, e nunca iremos esquecê-lo (cf. Fl 1, 21).

Seu modo de se comunicar e sua capacidade de dialogar com todas as classes sociais, especialmente os empobrecidos, sua palavra segura, advertindo “oportuna e inoportunamente” (2Tm 4, 2), sua voz corajosa em denunciar as injustiças e, sobretudo, a sua ternura e humildade franciscana, nos levam a afirmar que Dom Aloísio, verdadeiramente, habita eternamente em nossos corações.

30 anos do martírio de Oscar Romero

Fernando Altemeyer Júnior

É preciso reavaliar a pessoa de dom Romero, a trajetória de sua vida, sua coerência pessoal e evangélica e o sentido da morte deste mestre da fé, da verdade e da caridade.

Em 24 de março de 1980 um bispo é assassinado durante o ofertório da missa enquanto celebrava a Eucaristia em memória de dona Sarita Jorge Pinto, com sua família e os doentes de câncer do Hospital da Divina Providência, na capital de El Salvador, na América Central. Seu nome é Oscar Arnulfo Romero y Galdamez.

Com a alteração profunda da conjuntura eclesial, a Igreja Católica não pode esquecer aquele que foi um filho legítimo do Vaticano II, de Medellín e, sobretudo, das decisões de Puebla. Este grande bispo mártir viu a realidade dura de um povo mergulhado em uma guerra, reconheceu e assumiu seu papel estratégico como pastor de uma Igreja perseguida, e em plena sintonia com a mensagem de Cristo, constituiu-se em paradigma fiel do agir da Igreja feita opção pelos pobres e servidora do Reino de Deus. Suas últimas palavras foram premonitórias: “unamo-nos, pois, intimamente na fé e na esperança a este momento de oração por dona Sarita e por nós”.

Beatificação

Segundo a Agência de Notícias Zenit, a Conferência Episcopal de El Salvador (CEDES) no dia 28 de janeiro de 2010, pediu em carta ao papa Bento XVI a “rápida conclusão” do processo de beatificação do arcebispo Oscar Arnulfo Romero. Em sua primeira reunião anual de 2010, os bispos salvadorenhos decidiram encaminhar o pedido em uma carta endereçada a Bento XVI. “Uma decisão importante” tomada durante a reunião “foi a de encaminhar uma carta ao Santo Padre expressando o interesse de nossos pastores em uma rápida conclusão do processo de beatificação de Dom Romero”, disse dom Gregorio Rosa Chávez, bispo auxiliar de San Salvador. O arcebispo de San Salvador, dom José Luis Escobar anunciou que a Igreja iniciará as celebrações em memória de dom Romero com algumas jornadas de reflexões. O atual arcebispo recomendou também aos salvadorenhos que orassem e promovessem o “culto pessoal”, para favorecer a beatificação de dom Romero.

“Gostaria de fazer um apelo à oração”, disse ele. “Quando alguém é beatificado, é porque esta é a vontade de Deus”. Em coletiva à imprensa, o prelado disse que o processo estaria “em fase avançada”. Neste contexto, pediu aos fiéis que “roguem a Deus sob a intercessão de dom Romero”, e que deem seu testemunho de graças, favores e milagres recebidos. O prelado disse esperar que o processo se desenvolva em um ambiente “sereno”, livre da influência de questões políticas e sociais. “Pedimos, em diversas ocasiões, por um extremo respeito à causa de dom Romero”, explicou.

A Comissão para a Verdade, instituída para investigar os crimes políticos cometidos durante a guerra civil salvadorenha (1980-1992), declarou, num relatório divulgado em março de 1993, que o provável mandante do assassinato teria sido Roberto D’Aubuisson, fundador do partido conservador de direita Alianza Republicana Nacionalista (ARENA).

Dom Romero denunciava diariamente as injustiças contra a população e os assassinatos políticos perpetrados pelos “esquadrões da morte” pagos pela elite salvadorenha com o apoio do governo dos Estados Unidos, e pedira na semana anterior à sua morte que os soldados não mais obedecessem às ordens de matar seus irmãos. Esta foi sua sentença de morte.

Testemunhos

Na Conferência de Aparecida, a Igreja Católica não traiu a memória de dom Romero em seu serviço aos pobres. O documento final declarava solenemente: “Comprometemo-nos a trabalhar para que a Igreja latino-americana e do Caribe continue sendo, com maior afinco, companheira de caminho de nossos irmãos mais pobres, inclusive até ao martírio”. Ao testemunhar a fé dos mártires, lembra diretamente pessoas como dom Oscar Romero, e a Igreja que confirma com sangue a fé em Cristo. Esta Igreja sela com sangue o que assinara com a tinta. A missão da Igreja não se cristalizou no passado. Transmitiu o legado e o atualizou criativamente. Cultiva as sementes atenta aos novos sinais dos tempos, acompanhando a ‘floresta que cresce’ pela graça de Deus no meio das comunidades dos cristãos. Este era o trabalho diário de Romero. Por isso muitas capelas e centros comunitários já levam seu nome, à espera ansiosa de sua beatificação. É preciso reaprender as lições de Romero e buscar proclamar sua profecia. É preciso reatar sempre o casamento entre a Igreja e os pobres.

Se pudéssemos classificar as testemunhas recentes, diríamos que temos: os santos que assumiram a boa-notícia em sua vida (gente como dom Hélder Pessoa Câmara, dom Luciano Mendes de Almeida, dom Ivo Lorscheider e nosso querido intelectual Alceu de Amoroso Lima); os leigos mártires (gente como Verino Sossai, de Nova Venécia, Francisco, de Pancas, Purinha, de Linhares, Santo Dias da Silva, de São Paulo, Paulo Vinhas, de Vitória e, centenas de mulheres e homens cristãos, do mundo rural e urbano); os sacerdotes e bispos profetas e mártires (citamos dom Enrique Angel elli e dom Oscar Romero), e enfim, as religiosas que misturaram seu sangue ao da terra que tanto amaram e a Deus que quiseram servir até o fim (lembramos Dorothy Hazel, Ita Ford, Jean Donovan, Maura Clarke, Adelaide Molinari, Cleusa, e recentemente Dorothy Stang, entre dezenas de mulheres consagradas).

Toda obra espiritual procede da missão e não da função. O lema de dom Romero bem o exemplifica: Sentir com a Igreja. Quanto mais nos aproximarmos dos pobres e de Deus, tanto mais fecundos seremos. Esta foi a lição e a pregação de dom Romero. Quanto mais pobres, mais ricos. Quanto menos, mais. Quanto mais desafios assumirmos na Igreja dos pobres, mais esperança teremos e seremos. Quanto mais esperança, mais desafios devemos assumir. Os pedaços de pão que um homem oferece a outro são sacramentos de comunhão. Como disse Simone Weil em seu livro Attente de Dieu: “No amor verdadeiro, não somos nós que amamos os sofredores em Deus, mas é Deus em nós quem ama os sofredores. Aquele que dá pão a um esfaimado pelo amor de Deus não será agraciado pelo Cristo. Ele já terá recebido seu salário por esse seu pensamento. O Cristo agradece àqueles que não sabem a quem eles dão de comer” (p.111). Servir a Cristo sem saber que estamos diante d’Ele. Sem medalhas, nem comendas. Servir pelo amor gratuito e generoso de Deus ao povo por Ele amado. Assim viveu o arcebispo de San Salvador, como Bom Pastor. Por esta causa fundamental morreu, e por este testemunho fiel será lembrado como fiel servo do Cristo Salvador.


A Igreja Católica em todo o continente da América Latina possui 425.599.389 milhões de fiéis, reunidos em 800 dioceses, 31.530 paróquias, 104.331 centros de evangelização, coordenados por 1.201 bispos, 66.684 sacerdotes, 10.302 diáconos permanentes, 5.484 irmãos, 129.813 irmãs e 1.350.495 catequistas.

A Igreja de El Salvador que sempre foi a razão de ser de toda a vida de dom Romero é bem pequenina, mas, muito vigorosa em sua fé e sua fidelidade a Cristo Salvador. Ela é composta por 5.029.704 de católicos (79,87%), nove circunscrições eclesiásticas, 12 bispos, 765 sacerdotes, dois diáconos permanentes, 70 irmãos, 1.632 irmãs e 7.534 catequistas, que se reúnem em 828 centros de pastoral.

O Profeta rejeitado!

Neste Domingo Lucas nos mostra que depois de anunciar a sua missão, de ser admirado por sua sabedoria, Jesus é duramente rejeitado pelos que o conheciam.

Lucas nos mostra neste trecho do Evangelho a missão de Jesus e como será o seu caminho. Não o aceitaram porque queriam  apropriar-se dEle, e porque conheciam a sua história e O viam tão humano quanto eles. Como um homem do povoado cujo pai e mãe eram conhecidos pelo nome podia apresentar-se com a missão por Ele anunciada.

A missão de Jesus será estendida aos pagãos como será explicitada por Lucas nos Atos dos Apóstolos. O povo de Israel quer se apropriar de Deus, não aceita que os estrangeiros sejam acolhidos e recebam os sinais de seu amor.

O profeta sempre é rejeitado e perseguido, muitos foram massacrados e mortos.

Profetas de ontem e de hoje!

A missão libertadora de Jesus questiona  e muitas vezes é rejeitada, queremos um Jesus que fale e faça só o que queremos.

A missão é para todos não conhece fronteiras, ninguém é proprietário do amor de Deus. Seu amor é gratuito!

Profecia, gratuidade e rejeição fazem parte da vida marcada por conflitos e sinais de esperança.

Somos chamados ao discernimento para percebermos em meio aos conflitos onde nasce a esperança que humaniza a vida.

Uma mina de ouro

Pe. Geovane Saraiva

“Sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina, daqui a mil anos”. Esta afirmação do teólogo Padre José Comblin nos ajuda compreender, a vida do artesão da paz, Dom Helder Câmara, nascido para o que é mais elevado, as coisas maiores.

Sua vida é uma mina de ouro que precisa ser explorada. Ele, como cidadão universal, andou pelos diversos caminhos do Planeta e, com sua voz profética e seu profundo amor por este mundo em que vivemos, obra do Criador e Pai, com a criatura marcada pela dor, angústia e sofrimento, mas, ao mesmo tempo, cheia de amor, garra, sonhos e esperança. Ele, no seu centenário de nascimento, ensina-nos a ver e a descobrir a verdadeira face do Cristo nos nossos semelhantes. Para ele, pobre verdadeiramente pobre era aquele que não tem amor para dar, difundir e semear.

Dom Helder Câmara nasceu no dia 7 de fevereiro de 1909. Aos nove anos, fez a sua primeira comunhão e, aos quatorze, ingressou no Seminário da Prainha, em Fortaleza – CE. No dia 15 de agosto de 1931, com vinte e dois anos foi ordenado sacerdote. Exerceu seu ministério sacerdotal, por cinco anos em sua cidade natal, entre letrados e operários. Em 1936, partiu para o Rio de Janeiro, aí desempenhou, entre outras funções, o cargo de Diretor Técnico de Ensino da Religião na Arquidiocese do Rio de Janeiro.

Em 1948, foi agraciado com o título de monsenhor. Em 1950, expôs ao amigo Monsenhor Montini, futuro Papa Paulo VI seus planos de fundar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – da qual se tornou Secretário Geral, de 1952 a 1964. Em 1952, foi nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro. Em 1955, organizou o famoso Congresso Eucarístico Internacional da capital fluminense. Fundou, também, o Banco da Providência e a Cruzada São Sebastião, indo ao encontro dos pobres e favelados. Trabalhou, incansavelmente, pela fundação do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM – do qual foi vice-presidente de 1958 a 1964.

Em 1964, nomeado arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife, tomou posse no dia 12 de abril do mesmo ano, início do regime militar. Começou dizendo: “Quem estiver sofrendo, no corpo ou na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado, terá lugar no coração do bispo”. Passou, então, a desenvolver, com grande relevância, ações sociais junto às comunidades carentes e a lutar pelos direitos humanos. Ficou, mundialmente, conhecido como o arauto dos “sem vez e sem voz”. Durante o Regime Militar, de 1964 a 1983, sua voz se calou e ficou sem ser ouvida, pois foi proibida e censurada na Mídia.

Bispo da não-violência, da ternura e da solidariedade denunciou, em Paris, em 1970, num profético e contundente discurso, as práticas de torturas aos presos políticos em nosso Brasil. Dom Helder, homem de Deus, foi um dos grandes místicos dos nossos tempos, que, com sua palavra, sensibilizava e entusiasmava as multidões de todos os credos, de todas as raças, culturas e ideologias. Dizia que Deus para ele “era e só podia ser amor”, esforçando-se para viver o que anunciava, fazendo-se nosso irmão e acreditando na possibilidade da conversão de todos.

Dom Helder tem vinte e três livros publicados, sendo dezenove deles traduzidos para dezesseis idiomas. Seus títulos, suas homenagens e suas condecorações que, recebidos em todo mundo, somam 692. Após completar noventa anos, no dia 27 de agosto de 1999, foi chamado para a casa do Pai.

Esta extraordinária figura humana, patrimônio da humanidade, por seus dons e talentos colocados a serviço do próximo será sempre uma referência marcante na história do povo brasileiro. A sociedade, mais do que nunca, nos dias de hoje, necessita de referenciais como Dom Helder, para que possa aspirar por liberdade, justiça e paz. Que humanidade saiba sonhar. Dizia ele: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores!”. Que Dom Helder nos inspire o desejo sempre maior de gostar de viver e de lutar pelo dom maravilhoso da vida.

Dom Helder Câmara é tema da 5ª Assembleia Regional da Cáritas Brasileira

Com o tema “dom Helder Câmara: presença profética e poética do reino”, a Cáritas Brasileira Nordeste 2 da CNBB (Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte) realizou, de 16 a 18, no Convento São Francisco, no município de Lagoa Seca, a 20 Km de Campina Grande (PB), a 5ª Assembleia Regional.

“A missão da Cáritas foi de defender e promover a vida, participando da construção de uma sociedade mais justa e igualitária, junto com as pessoas em situação de exclusão social. Nesta Assembleia houve vários momentos para repensar nossas práticas, realizamos discussões e planejamos as ações para o próximo quadriênio da rede Cáritas no Nordeste 2 ”, explicou o articulador de projetos da Cáritas, Marcos Bezerra.

Houve na programação da Assembleia, um painel de debates “A herança profética e poética de dom Helder Câmara para Cáritas Brasileira”, que foi apresentado por dom Marcelo Barros, monge beneditino, prior do Mosteiro da Anunciação do Senhor de Goiás (GO) e escritor. Também, o sociólogo e educador, Paulo Afonso de Brito, fez uma análise de conjuntura com foco no tema “elementos do contexto atual à luz da mensagem profética de dom Helder Câmara”.

A Assembleia contou com a participação do bispo diocesano de Campina Grande (PR), dom Jaime Vieira Rocha; o bispo diocesano de Palmeira dos Índios (AL) e referencial do Regional NE2 da Cáritas Brasileira, dom Dulcênio Matos; bispo diocesano de Caruaru, dom Bernardino Marchió, bispo referencial das pastorais sociais da CNBB NE2, dom Genival França; e os representantes da diretoria nacional da Cáritas, padre Evaldo Praça Ferreira, Cristina dos Anjos e Luiz Cláudio Mandela. Além de representantes das entidades membros da Cáritas, pastorais sociais, parceiros e movimentos sociais.

O deserto de D. Helder

Pe Geovane Saraiva

A glória humana e os reinos da terra estão longe do projeto de Jesus. “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso teve fome” (Mt 4,1-2). O filho de Deus, no deserto, é vitorioso porque vence o mal e o egoísmo com todos os seus frutos.

As tentações de Jesus resumem toda a luta da pessoa humana contra os poderes do demônio. As tentações do deserto são um resumo de toda vida do Enviado do Pai, com as riquezas de suas experiências. Ele, andando de lugar em lugar, de aldeia em aldeia, fazendo o bem a todos, durante toda sua pregação e seu ministério.

“Quarenta” é um número simbólico, muito usado na caminhada do povo de Deus. Expressa um tempo santo, um tempo abençoado (dias, noites e anos) em que Deus se revela e se manifesta, com sua presença e com graças especiais, na vida e no mundo dos seres humano. Jesus prossegue firme na sua caminha para o Pai; não se permite envolver.

Olhando para o contexto do Evangelho, Jesus no deserto, gostaria de me voltar para Dom Hélder Câmara, nosso conterrâneo, o “maior brasileiro de todos os tempos”, o “irmão dos pobres”, que soube entender e compreender o deserto da vida humana, como algo santo, sagrado. O irmão querido que não viveu só para si, mas viveu para Deus e vivendo para Deus, soube visibilizar os sinais dos tempos.

Dia 07 de fevereiro deste ano de 2009 foi um dia histórico, feliz e sagrado para todos nós; foi o dia do seu centenário! Há mais de 10 anos ele, no dia 27 de agosto de l999, ele partiu para o seio do Pai. Mas na verdade o nosso querido Dom Hélder não nos deixou. Ele está vivo e muito vivo; ele é imortal. Ele é nosso grande e maior patrimônio; patrimônio do povo brasileiro e toda humanidade, porque a humanidade o tem como cidadão universal.

Aprendi uma frase em latim que diz: “De mortuis nisi bonum”, isto é, “dos mortos só se fala o bem”. Como os homens de fé do deserto, Dom Helder soube viver e assimilar os caminhos de Deus, pela oração e pela profunda vida interior. Soube, com esperança, “Acreditar nas minorias capazes de compreender a ação, justiça e paz e adotá-las como campo de estudo e de atuação”. De modo que só temos boas recordações dessa figura humana que fez de sua vida um grande deserto; que fez de sua vida um hino de louvor a Deus.

Chegou o momento feliz e oportuno de fazermos a memória desse profeta, que soube falar de Deus com a alma, com as mãos e com o coração. Homem apaixonado por Deus e por suas criaturas. “Quarenta” é simbólico. Dom Hélder é um símbolo para todos.

Ele não é a “Paz”, mas no seu centenário, ao falarmos nele e dele, falamos da paz verdadeira e duradoura; falamos de tempo santo e abençoado, falamos da vida, dom precioso de Deus, falamos de um místico, de um homem profundamente de Deus, e por isso mesmo, profundamente humano.

Refletindo Dom Hélder Câmara

Geraldo Frencken

Recife, 28 de agosto de 1999, a partir das 17 horas: uma multidão acompanha o carro dos bombeiros desde a Igreja das Fronteiras, cuja sacristia tinha servido durante quase trinta e dois anos como morada de Dom Helder Camara. Em cima do carro o caixão, e nele o corpo do Dom. Um percurso de uns sete, oito quilômetros. O povo cantando, rezando e dando adeus ao seu eterno pastor. O caixão desaparece debaixo das flores de todas as formas e todas as cores, “as rosas da minha vida”, como Dom Helder a elas se referia. Ao chegar à catedral de Olinda e Recife, em Olinda, a multidão aplaude ininterruptamente e, com horas de atraso, a Missa de corpo presente começa a ser celebrada. De repente, em meio às solenidades oficiais, uma pessoa se solta do meio da multidão e coloca a bandeira do MST sobre o caixão do Dom: um profundo silêncio, alguns olhares perturbados, o Núncio Apostólico, presidindo a cerimônia, pergunta a um dos padres concelebrantes: “Que bandeira é esta?!” ….. Mas ninguém ousa remover este símbolo por mais justiça e paz na terra. Mais tarde, ao sepultar o corpo cansado do Dom, a bandeira permanece onde fora colocada, e pouco a pouco integrar-se-á à terra junto com aquele que dedicou a sua vida à defesa daqueles que não “possuem um palmo de terra para sobreviver”, como rezava em sua oração à Mariama na Missa dos Quilombos-.

Dom Helder vivia uma espiritualidade de entrega total aos desígnios de Deus: “Dá liberdade ao Pai, para que Ele mesmo conduza a trama dos teus dias.”

Que Deus? O Deus dos pequenos, dos pobres, dos maltrapilhos, dos sem terra, sem teto, sem roupa, sem participação no assim chamado progresso do mundo. É o Deus dos povos da América Latina, chamada por Dom Helder de “a vila cristã do mundo pobre”, no qual o povo vive na “miséria que engloba sub-habitação, sub-trabalho, sub-diversão, sub-saúde, sub-vida, opressão: as formas de violência que geram todas as outras”. Dom Helder via-se presente neste mundo. Era bispo da Igreja, mas era bispo para o mundo, tornando-se “sal da terra e luz do mundo”.

Ele, juntamente com o nosso querido e saudoso Dom Aloísio Lorscheider e tantos outros, era um dos arquitetos de uma Igreja presente no mundo a partir e no meio dos pobres. Teve participação nos grandes momentos da Igreja no século XX, colocando sempre como tema central o mundo dos empobrecidos. Na vida destes, ele não queria ser somente mais um que praticava a caridade, mas levava os próprios pobres a entenderem as causas da pobreza, da miséria, do descaso, apontando para as estruturas sociais, os mecanismos econômicos e a falta de compromissos políticos. Ele dizia: “Se eu dou comida aos pobres, eles me chamam de santo. Se eu pergunto por que os pobres não têm comida, eles me chamam de comunista”.

Nada o Dom fazia sem consultar seu maior amigo: o próprio Cristo, com quem manteve longas conversas na madrugada de todos os dias, diante do altar de quem dançava, inspirado por quem escrevia seus discursos, suas poesias, suas cartas e no altar de quem derramava lágrimas todas as vezes quando celebrava o amor de Cristo vivido na celebração eucarística, isto é na partilha do pão, gesto este que continuará “mistério”, enquanto a humanidade toda não aprenda a partilhar seus dons espirituais e materiais.

Encontramos deste modo o profeta Helder. Profeta é aquele que, na calada da noite, escuta seu Deus a fim de saber a quem se dirigir e o que falar, pois o profeta é aquele que empresta sua língua a Deus a fim de que Este fale.

O profeta é livre. Dom Helder, mesmo vivendo, como todos nós, dentro das rígidas estruturas da igreja e da sociedade, as mesmas para ele não pareciam existir, embora, como testemunha um amigo confidente dele, “ele tenha sofrido um bocado por causa de um determinado funcionamento delas.” Um dia, Dom Jacques Gaillot, bispo de Partênia (Norte da África), amigo de Dom Helder, dizia: “Quando a gente tem medo não é livre, e quando é livre mete medo!” O Dom era livre, e aqueles que promoveram as injustiças e a opressão em nosso país, seja durante a ditadura como anterior e posterior a ela, exatamente por causa desta liberdade, o temiam, enquanto ele, Helder, não tinha o que temer! É nesta liberdade vivida, que nascera a denúncia nas palavras do Dom: denúncias contra todas as formas de sofrimento humano. E é na denúncia que o profeta faz germinar o anúncio, o anúncio da dignidade humana.

O profeta testemunha! Dom Helder optou livremente por uma vida austera, simples, junto dos seus irmãos, os pobres, seguindo os exemplos de dois gigantes do amor aos pobres na história: São Francisco de Assis e São Vicente de Paulo. O testemunho do Dom da Paz brotava justamente do perfeito equilíbrio, que havia nele, entre contemplação e ação.

Hoje nós temos saudade de profetas como Dom Helder, Dom Aloísio, as vozes e os testemunhos do passado recente. Mas não é só saudade que sentimos. Somos convencidos também de que o mundo sempre necessita de profetas. Nós deles precisamos!

Que a sociedade e, de forma especial, as igrejas permitam que haja sempre homens e mulheres que, livres, desimpedidos e com os pés no chão, possam testemunhar o dom da “vida em abundância”.

Geraldo Frencken, nascido na Holanda, no Brasil desde 1973, é teólogo e ex-professor do Instituto de Ciências da Religião (ICRE) na Prainha

Dom Helder jamais morrerá

Pe. Geovane Saraiva

Uma canção que homenageia Dom Helder Câmara, neste ano em que vivemos o seu centenário de nascimento (1909-2009), fala assim do irmão querido: “o dom paz, tu és muito mais, és um dom do céu!”. Que bela e maravilhosa afirmação! Ele foi uma obra preciosa, criada por Deus e marcada com o selo da sua graça, presente no coração do povo, com a missão transformar vidas, consciências e de semear a paz.

Suas idéias e todo seu trabalho e realizações, concretizado em toda sua plenitude na vida de oração e na sua ação pastoral, totalmente encarda na vida dos seus semelhantes, dos empobrecidos, enche-nos de esperança e nos leva crer que Dom Helder se imortalizará, jamais morrerá.

O teólogo, Padre José Comblin, com a grande sabedoria de que lhe é peculiar, quis imprimir na nossa mente e no nosso coração a imortalidade de Dom Helder, ao afirmar: “Eu sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina, daqui a mil anos. Ele lançou sementes destinadas a produzir uma messe abundante nesta época do cristianismo que está começando agora. Suas sucessivas conversões, sinalizando de certa maneira, a futura trajetória da Igreja neste momento da história da humanidade”.

Na caminhada do povo de Deus, tivemos figuras que marcaram em profundidade a história, as quais foram geniais, e por isso mesmo, exerceram uma decisiva influência sobre a nossa civilização cristã.

Gostaria de me deter um pouco sobre Martinho Lutero, que viveu de (1483 -1546). Ele foi uma dessas pessoas, que durante alguns séculos significou para a grande maioria dos católicos um rebelde, um herege, o herege por excelência, aquele que provocou, na Igreja, o cisma do ocidente e levou, com suas heresias, muitas almas à perdição. Mas para os protestantes, ao contrário, ele foi um “segundo Paulo”, que redescobriu o Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo, tirando-o de baixo da mesa e colocando-o em um lugar de destaque, em lugar bem elevado.

Os protestantes acentuam a profunda religiosidade do Reformador. Em 1970 chegou-se a dizer que “Lutero era mais católico do que se imaginavam…”. Estava longe dele a idéia de uma separação da Igreja. Na luta em favor do Evangelho, não só contribuiu substancialmente para a purificação da Igreja Católica, mas também para o aprofundamento das questões básicas, as da Sagrada Escritura, da fé, da consciência e da existência cristã.

Depois do Concílio Vaticano II, num desejo de encontrar a unidade, o bispo católico de Copenhagen (Dinamarca), Hans L. Martensen, em uma Conferência sobre “Lutero e Ecumenismo hoje”, declarou que também “católicos reconhecem hoje que Lutero, como poucos outros, foi um teólogo genial e de grande influência na história.

Dom Helder trabalhou intensamente pela unidade e foi considerado um rebelde, ao mesmo tempo ensinou que a pessoa humana é sagrada, porque ela é imagem e semelhança de Deus. O sonho carregado ao longo da vida e acalentado no seu coração foi o de colocar a criatura humana em um lugar de destaque, lugar bem elevado. Marcou uma época e nos deixou uma grande lição. A lição de que o deserto da nossa vida tem que ser fertilizado e que a vida está acima de tudo, que ela é mais forte do que a morte.

Quando no Brasil, em 1964, todos procuravam navegar nas águas e nas tempestades do regime militar, foi aí que entrou o grande irmão e amigo, ensinando-nos a navegar nas águas da vida, da esperança e da liberdade. E essa é imagem do homem de Deus, do dom da paz, tu és muito mais, um dom do céu! Guardemos a imagem que jamais morrerá, conforme seu desejo: “A imagem que gostaria que ficasse de mim é a imagem de um irmão”.

Calaram mais um profeta na Amazônia

Márcia Maria de Oliveira

Na tarde escaldante deste dia 20 de setembro, milhares de pessoas, entre lágrimas e cantos, deram seu último adeus ao Pe. Ruggero Ruvoletto. O missionário de 52, da Diocese italiana de Pádua fora, covardemente, alvejado por um tiro certeiro, preliminarmente planejado nas rodas de “boca-de-fumo” do crime organizado de um dos bairros mais violentos da periferia da cidade de Manaus.

Na manhã do dia 19 de setembro, seu sangue profético regou o chão da Amazônia. O último gesto corajoso de Pe. Ruggero foi estampado na capa dos jornais da cidade: de joelhos junto de sua simples cama oferecera a Deus, em oração, talvez, seus últimos minutos de vida. Uma vida marcada pela missão corajosa junto aos mais pobres e excluídos da sociedade.

Desde que chegara à Amazônia no início de 2008, Pe. Ruggero iniciou sua caminhada de oblação. Com um histórico missionário de opção evangélica pelos mais pobres e esquecidos do nordeste brasileiro, em Manaus, foi designado a uma região da periferia da cidade. Aqui, encontrou inúmeros agentes de pastoral ansiosos por sua sábia ajuda. Também encontrou muitos desafios pastorais e um silêncio da população com relação à atuação do crime organizado do tráfico de drogas na região.

Sua missão, no início, desenvolveu-se timidamente num processo intenso de visita às famílias, de escuta, de abertura ao novo. Freqüentemente solicitava ajuda, nos nossos “debates sociológicos”, para melhor compreender a dinâmica da cidade. Queria conhecer mais sobre os indígenas e ribeirinhos e entender porque continuam migrando, sempre em ordem crescente, para as periferias da cidade. Logo entendeu que a Amazônia vive um histórico de descaso dos poderes públicos nos municípios do interior e centraliza todos os bens e serviços nas capitais, principalmente na cidade de Manaus com seu fantasmagórico projeto de Zona Franca que canaliza todos os recursos federais para uma elite da indústria de montagem. Por isso essa realidade marcada pelo êxodo rural, pelos crimes ambientais, pelos conflitos agrários e pelas ocupações urbanas que indicam o grande déficit de políticas públicas de moradia, educação, emprego e segurança.

Sua presença simpática e acolhedora foi cirando laços de amizade e comprometimento. Sempre preocupado com as questões sociais, sugeriu a organização de um calendário permanente de debate sobre a situação das várias comunidades que atendia na Área Missionária Imaculado Coração de Maria (AMICOM). Sua intuição profética motivou várias iniciativas por parte das lideranças das comunidades e dos movimentos sociais na criação de espaços de formação permanente de lideranças tais como a Escola de Fé e Cidadania que abrange outras áreas. Não era presença somente na AMICOM. Logo passou a acompanhar a organização pastoral de outras áreas missionárias da Zona Norte da cidade. Passou a apoiar os organismos arquidiocesanos ligados à dimensão missionária e às Comunidades Eclesiais de Base.

Com uma prática litúrgica muito sensível e inculturada, fazia das celebrações eucarísticas momentos fortes de celebração da vida, das esperanças e do compromisso evangélico. Nas reflexões com os grupos nas comunidades ou nas famílias, embaixo das árvores, ou nas áreas externas nas pequenas casas, estava sempre atento aos clamores e lamentos das pessoas. Suas palavras davam novo alento e fazia o povo voltar a ter esperança em uma realidade marcada pela violência e pelo descaso das políticas públicas.

Depois de intensas reuniões e debates, juntamente com os agentes de pastoral, elaboraram uma carta-denúncia que foi lida, rezada e reformulada nas várias celebrações comunitárias. Na carta estava contido o clamor do povo que já não suporta mais tanta violência resultante do tráfico de drogas na região. Denunciava o descaso público para com a educação, o transporte coletivo, o abastecimento d’água e tantas outras deficiências por parte dos poderes públicos.

Com a carta-denúncia em mãos, o povo resolveu se pronunciar. Na manhã do dia 15 de agosto as ruas do bairro de Santa Etelvina foram tomadas pelos cantos e frases de protesto. Uma manifestação pacífica de centenas de pessoas cobrando o exercício pleno da cidadania. Esse dia marca o fim do silêncio e do medo histórico que amordaçava os moradores deste bairro. Durante a caminhada, Pe. Ruggero, o homem da palavra, não fez uso dos microfones. Sob um sol de quase 40 graus, acompanhou tudo de forma muito discreta, fotografando e distribuindo panfletos aos transeuntes e curiosos que saíam às portas para ver o povo passar.

Em dado momento, já na metade da manifestação, quando algumas pessoas lhe pediam para se pronunciar aos microfones, se aproximou e disse: “Márcia, estou pensando que é melhor eu não me pronunciar porque já vi passando algumas pessoas ligadas ao tráfico de drogas que vêm me ameaçando e me ‘aconselhando’ a deixar essas denúncias de lado. Eu lhe garanto que não vou deixar a luta porque já não é mais possível ficar calado diante de tanta violência e injustiça. Não agüento mais ouvir tantas mães desesperadas com seus filhos nas drogas sem poder fazer nada. Sei que é arriscado, mas não tenho medo”.

Foi uma das últimas conversas que tivemos. Uma semana depois passou rapidamente por minha casa depois da celebração e comentou que estava animado com a repercussão da carta e da manifestação. Novamente afirmou que se sentia ameaçado por pessoas ligadas ao tráfico de drogas do bairro de Santa Etelvina que atuavam também nos bairros visinhos, especialmente no Lagoa Azul. Parecia muito preocupado, mas sempre destemido, reafirmava o compromisso com a causa da justiça. Como sempre fazia, pediu algumas orientações no campo sociológico. Queria entender por que a pouca polícia que atua nos bairros da periferia não inspira a confiança do povo? Por que os assaltos aos ônibus coletivos e residências continuam aumentando e por que o 12º Distrito Policial do Bairro continuava desativado e sem nada que o substituísse? Comentou ainda sobre o alto índice de assassinatos no bairro, quase todos ligados ao tráfico de drogas. Estava muito preocupado, principalmente com os jovens, vítimas das drogas e da prostituição. Ao se despedir toquei no assunto das ameaças. Olhou-me sereno e, sorrindo me disse: “estou tranqüilo. Sei que esse tipo de gente, quando quer matar, não manda recados”.

Nas semanas que se passaram continuou se pronunciando sobre a necessidade da organização popular. Mas, parecia mais discreto do que o habitual. Talvez percebera que era preciso ter mais cautela pois estava mexendo numa “caixa preta” que envolve grandes traficantes e gente da polícia.

Após seu assassinato, a polícia trabalha com a suspeita de latrocínio. Pode ser que vão seguir com esta versão para não ter muito trabalho com a investigação. É mais simples afirmar que foi roubo seguido de assassinato. Muitos dos que estavam no velório também acreditam nesta versão. Talvez porque já estão habituados a acreditar em tudo o que a polícia diz, mesmo quando não se tem fundamentos convincentes. Entretanto, várias das milhares de pessoas que lotaram o ginásio de esportes do Santa Etelvina para se despedir do Pe. Ruggero, não acreditam nessa “orquestração”. O povo sabe a verdade. Talvez tenha medo de dizer, mas o certo é que sabe que não foi nenhum “ladrãozinho”, como afirma a polícia que alvejou o padre. Pode até ser que um ladrãozinho tenha sido contratado para disparar o tiro certeiro. Mas, todos sabem que por traz disso estão os controladores do tráfico que se sentiam incomodados com a atuação do Pe. Ruggero.

Desde que se espalhou a notícia, a comoção tomou conta de todos. Centenas de pessoas, durante todo o dia de sábado estiveram organizando o local do velório, preparando os cartazes de despedida, ensaiando os cantos e o último adeus. A chegada do corpo tomou a todos de grande comoção. Durante toda a noite de sábado e a manhã deste domingo, as comunidades se revezaram para prestar sua última homenagem. Algumas pessoas vinham de longe, trazendo flores dos seus jardins, como é costume na região. Uma adolescente “coroinha” trouxe pétalas vermelhas e espalhou ao redor do caixão. Chorava e falava baixinho com ele certa de que era escutada. Os idosos se aproximavam e o chamavam de “filho querido”. Foram inúmeras as demonstrações de carinho e emoção junto ao caixão. Na celebração da oblação, um gesto muito forte: representantes das várias comunidades se aproximaram do caixão no momento do ofertório, o levantaram e o ofereceram ao altar da imolação. Nas falas e nos cartazes o destaque era o clamor por justiça.

Até a hora da despedida, o povo seguiu cantando “se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão!” Todos os momentos de oração e celebração foram marcados por muitos gestos que falavam por si e por cânticos alegres e muito bem cantados seguindo o ritmo das águas dos rios e da sinfonia da floresta e das coisas bonitas da Amazônia.

No início desta manhã, um sinal importante indicava que “a semente que caiu na terra vai logo brotar”: Os agentes de pastoral da AMICOM e as lideranças dos movimentos sociais se reuniram logo cedo, ali mesmo, num cantinho do ginásio e formularam um pequeno panfleto exigindo justiça. Deliberaram as tarefas e em poucas horas, o folheto já havia sido digitado, fotocopiado e distribuído a todas as pessoas que estiveram na celebração enquanto alguns jovens saíram pelas ruas do bairro distribuindo-o a todos e convocando para uma manifestação no dia seguinte à missa de sétimo dia. O resumo do folheto afirma que a morte do Pe. Ruggero não será em vão. O último parágrafo é digno de reprodução neste breve ensaio: “Por isso gritamos que chega de violência! Queremos paz e ação enérgica do governo que tem sido incompetente e mentiroso afirmando que, por causa dele, devemos ter orgulho de ser amazonenses”.

Resta concluir que o Pe. Ruggero é mais um mártir da Amazônia e que sua luta seguirá na vez e na voz de todos aqueles e aquelas que descobriram que sua esperança está na força da união. Essa gente, ninguém mais segura. Oxalá que o sangue derramado deste profeta regue o chão da Amazônia e produza muitos frutos de justiça.

Manaus, 21 de setembro de 2009.

(Publicado originalmente pela Agência Adital)