José Comblin

Pe. José Comblin, o Caminheiro

Eduardo Hoornaert

Os que só conhecem o padre José Comblin por suas conferências, artigos e livros podem estranhar a insistência com que ele se referia, principalmente no período em que atuou na Paraíba, ao padre-mestre Ibiapina (1806-1883), ao ponto de expressar o desejo de ser enterrado ao lado dele no pequeno cemitério dentro do complexo comemorativo que se criou em torno da mais famosa Casa de Caridade fundada pelo missionário em Santa Fé (Arara, município de Solânea) no brejo paraibano, onde o padre-mestre passou os últimos anos de sua vida (1878-1883). O desejo do padre Comblin foi atendido. Falecido em 27 de março em Salvador, seu corpo foi transferido para Santa Fé e aí enterrado no dia 29, na presença de seis bispos[1], numerosos padres, amigos e amigas, várias religiosas inseridas no meio popular, diversos de seus ex-alunos do Seminário Regional do Nordeste e do Instituto de Teologia do Recife; representantes de diversos movimentos sociais e pastorais sociais (MST, CPT, Consulta Popular, Assembléia Popular, Pastoral Operária, entre outros) e vários pastores protestantes (de Olinda, de Recife, de Souza). Duas pessoas vieram do Chile para acompanhar o enterro na Paraíba. Mas o realce principal foi dado por alguns dos primeiros protagonistas dos núcleos missionários iniciais de Tacaimbó (PE) e Salgado de São Félix (PB) e também por representantes atuais (homens e mulheres) das numerosas obras missionárias por ele criadas e/ou animadas nos últimos 35 anos de sua longa vida, entre os quais alguns (algumas) tomaram a palavra na ocasião.

No mesmo santuário de Ibiapina em Santa Fé (Arara) se reuniu, em 2007, um bom grupo de amigos(as) e missionários(as), para festejar os sessenta anos da ordenação sacerdotal de mestre Comblin, reatar os contactos, fortalecer a rede e reanimar o espírito. José tinha 85 anos e estava particularmente eufórico. Ele nos confidenciou detalhes sobre sua vida, algo que não costumava fazer. Relato aqui o que pude anotar na hora.

 

1. Desde muito jovem, seus talentos intelectuais chamaram a atenção de familiares e educadores. Quando, provavelmente com a idade de 16 ou 17 anos, ele disse a seu tio padre que queria ser missionário, este respondeu prontamente: ‘Missionário não, você e inteligente demais. Professor, isso sim, professor na universidade de Lovaina!’. Efetivamente, José estudou teologia em Lovaina e admirou a competência, aplicação e honestidade intelectual de professores como Lucien Cerfaux e Gustave Thils. Então o novo ‘doutor’ é nomeado vigário auxiliar numa paróquia em Bruxelas, e fica decepcionado: ‘eu senti que não havia mais futuro para o catolicismo na Bélgica’. Procurando outra coisa, entra no Colégio para a América Latina que a universidade de Lovaina abre a pedido do papa Pio XII, na intenção de preparar sacerdotes que desejam ir trabalhar naquele continente. Ele é um dos primeiros candidatos.

 

2. Com a idade de 35 anos, em 1958, José parte para o Brasil. Na conversa de 2007 ele insiste: ‘Não deixei a Bélgica para responder ao apelo do papa nem para combater comunismo, protestantismo ou espiritismo (três ameaças da época, na opinião do Vaticano). Parti tampouco para remediar a falta de padres. Eu compreendi que o cristianismo estava se extinguindo na Europa e só poderia renascer fora de um continente deformado por longa tradição de colonialismo, tráfico de escravos, matança de povos, como também por multissecular opressão da liberdade e das forças vitais do ser humano’. Ao encontrar aqui, já nos primeiros dias, pessoas que correspondem à sua visão, a alegria é grande. José fica imediatamente fascinado pelo Brasil. Seus primeiros contactos se fazem com jovens da JOC (juventude operária católica), pois, assim como muitos padres de sua geração, ele é influenciado por Cardijn, padre da diocese de Bruxelas e fundador da JOC. Educado em ambiente onde obediência, discrição e mesmo timidez eram apreciadas e mesmo encorajadas, ele encontra aqui pessoas que não são nem obedientes, nem discretas nem tímidas. ‘Eu encontrei pessoas verdadeiras, que não escondiam o que eram, pessoas sem mentira’. A fascinação pelo modo de ser brasileiro aparentemente nunca mais o abandonou e isso me foi confirmado inesperadamente por sua própria irmã, que encontrei certa vez em Bruxelas, em 1980: ‘O que fizeram com meu irmão? Ele não é mais o mesmo!’.

 

3. Comblin nunca foi a Roma: ‘O que eu faria ali?’. Mas em 1968, o arcebispo Hélder Câmara lhe pede redigir um texto para a conferência dos bispos em Medellín (Colômbia). José vai a seu quarto e bate o dia inteiro com os dedos na máquina de escrever. Sou testemunha, pois na época vivíamos na mesma casa, com portas e janelas sempre abertas. Principalmente a partir de textos de José Comblin, Gustavo Gutiérrez (Peru) e Juan Luis Segundo (Uruguay) surgiu então a expressão ‘opção pelos pobres’, na verdade uma confirmação verbal do que diversos bispos da América latina já estavam praticando na época, na fidelidade ao ‘pacto das catacumbas’ firmado em Roma no final do Concílio Vaticano II. Os três teólogos sabiam, pois, que estavam construindo sobre terreno firme, o que mais tarde ficou comprovado pelo surgimento da teologia da libertação. Dom Hélder Câmara, que era um homem perspicaz, tinha convidado José Comblin a vir trabalhar em Recife. Isso em 1965. Desse modo o conselheiro de Dom Hélder entrou, aos poucos, em contacto com outros bispos progressistas da América latina como Leônidas Proaño (Ecuador), Mendez Arceo (México), Aloísio Lorscheider, José Maria Pires e outros bispos. A visão dos teólogos da libertação consistia basicamente na rejeição da ideologia do desenvolvimento e no aprofundamento de temas como opressão, ditadura econômica e política, fascínio do capitalismo (Jung Mo Sung) e solidariedade com os pobres. Quando o texto de 1968, por indiscrição, caiu nas mãos dos militares, Comblin entrou numa rota de colisão com o sistema e foi expulso do país em 1972. Ainda tentou viver no Chile, mas ali também Pinochet tomou o poder em 1974. A única possibilidade, depois da ‘abertura lenta e progressiva’ de 1977, consistia em permanecer no Brasil na qualidade de ‘turista’ por consecutivos períodos de três anos. Seu estatuto legal só foi regularizado no decorrer dos anos 1980.

 

4. Entretempo, Comblin muda outra vez o rumo de sua vida. Adeus formação sacerdotal em seminários e institutos de teologia, adeus grandes cidades. José desaparece e começa uma peregrinação de longos anos e grandes percursos, ziguezagueando pelos imensos espaços do Nordeste, à procura de pessoas que se sensibilizem com sua ‘teologia da enxada’. A agricultura tradicional do Nordeste opera por meio da enxada, não do arado. Isso significa que a teologia da enxada parte da cosmovisão do agricultor comum, algo que pressupõe uma ‘reversão de todos os valores’ por parte de um teólogo formado por Cerfaux e Thils. Na qualidade de teólogo da enxada, José viaja até três dias antes de morrer tranquilamente no Recanto da Transfiguração, em Salvador. Nos últimos anos ele conta com a dedicação incondicional de Mônica Muggler, que faz de tudo para que José possa trabalhar e viajar até a idade de 88 anos. Ela é motorista (ele mesmo não sabe dirigir carro!), planeja encontros (nos últimos anos de forma intensiva por meio de telefone celular), estabelece contactos, organiza planos de viagens, coloca textos na internet (laptop), encontra lideranças locais. José também tem seu laptop. Ele ainda me manda algumas palavras por ocasião de seu aniversário, cinco dias antes de morrer.

 

Eis a vida de um padre caminheiro, que operou o milagre da comunicação com uma cultura totalmente diferente da cultura em que nasceu e se formou. O fato de que um intelectual estrangeiro, de índole reservada, consiga estabelecer um laço estável com a cultura iletrada do interior nordestino é um milagre. Um milagre que, como todos os milagres, é incompreensível. As obras missionárias de Comblin são a prova desse laço: Seminário Rural e Centro de Formação Missionária (primeira experiência, dos anos 1970); Associação dos Missionários do Campo (AMC); Associação dos Missionários e Missionárias do Nordeste (AMINE); Missionárias do Meio Popular; Fraternidade do Discípulo Amado (AL); Associação da Árvore; Escolas Missionárias de Juazeiro (BA), Mogeiro (PB), Floresta (PE), Esperantina (PI) e Barra (BA). O professor, escritor e intelectual de renome, no fim da vida, se transformou em ‘padre José’ (padre Zé), um sacerdote da linhagem espiritual do padre Ibiapina. Decididamente, um padre caminheiro.


[1] Dom Frei Luiz Cappio (Barra, BA), Dom André De Wittte (Rui Barbosa, BA), Dom Adriano (Floresta, PE), Dom Lucena (Guarabira, PB), Dom Jaime (Campina Grande, PB), Dom Sebastião Armando Gameleira Soares, bispo anglicano de Recife.

 

 

José Comblin, o legado de um profeta

Maria Clara Bingemer

A Igreja brasileira vive na saudade e na esperança o luto por José Comblin, morto aos 88 anos no último dia 27 de março. Belga de nascimento, brasileiro por adoção, latino-americano por vocação, esse missionário que deu sua vida junto aos pobres e sofredores do sul do Equador deixa um vazio nestes nossos tempos carentes de profetas. Sua voz de fogo e sua razão clara e lúcida certamente provocam imensa saudade e nostalgia.

O Padre José, como era carinhosamente chamado pelo povo nordestino a quem servia, nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 1923. Foi ordenado sacerdote em 1947 e obteve o título de doutor em Teologia pela Universidade Católica de Louvain, Bélgica. Onze anos depois de ordenado, em 1958, Comblin desembarcou em Campinas, Brasil. Aqui, foi assessor da JOC (JuventudeOperáriaCatólica) e professor da Escola Teológica dos Dominicanos emSão Paulo, tendo como alunos alguns frades notáveis na história brasileira como Carlos Alberto Libanio Christo, o Frei Betto e Frei Tito Alencar Lima, torturado barbaramente nos cárceres da ditadura militar brasileira, o que o levou à depressão e ao suicídio na França.

Posteriormente lecionou na Faculdade de Teologia do Chile, mas voltou para Recife a convite de Dom Helder Camara onde foi professor do famoso ITER (Instituto de Teologia do Recife), pondo em prática iniciativas criativas para colocar a teologia ao alcance do povo mais pobre do meio rural. Criou muitos seminários rurais em Pernambuco e Paraíba e aí encontrou inspiração e base para uma Teologia da Enxada.

Por suas idéias e prática, Pe. Comblin passou a ser persona non grata para o regime militar e foi finalmente expulso do Brasil em 1971. Exilou-se no Chile por oito anos. Dali foi por sua vez expulso pela ditadura de Pinochet, em 1980. Voltou ao Brasil e radicou-se na Paraíba, dedicando-se inteiramente à formação de seminaristas rurais e animadores de comunidades eclesiais de base. Alternava essa práxis docente e reflexiva em meio aos pobres com aulas no curso de pós-graduação de missiologia na PUC de São Paulo.

Ouvir José Comblin falar era sempre um privilégio. Comprometido com a verdade, sem fazer nenhuma concessão neste ponto, abria sua boca de profeta e deixava-nos muitas vezes desconcertados e perplexos. Não poupava críticas a uma Igreja que no entanto amava com paixão. E a violência da crítica dava a medida do amor. No entanto, era muito consciente de que a Igreja estava a serviço do Evangelho de Jesus, seu amor maior. E fazia questão sempre de recordar isso.

José Comblin tinha uma grande esperança eclesial: os leigos. Acreditava profundamente nos cristãos batizados que recebiam do Espírito carismas e ministérios e se entregavam ao serviço de sua fé. E por isso criou vários movimentos missionários leigos, na Bahia, na Paraíba, em Tocantins e outros pontos do Nordeste brasileiro.

As reuniões da SOTER (Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião) não serão mais as mesmas sem sua presença lúcida, profética e sábia. Cercado pelos jovens teólogos de todo o Brasil, Comblin sorria e respondia a cada pergunta com atenção e simplicidade, como era seu estilo. Seu pensamento encantava e impunha respeito, mesmo se dele se discordava. Era um mestre, sem sombra de dúvida.

Encontrei-o pela última vez em março de 2010 em El Salvador, no congresso teológico que celebrava os 30 anos do martírio de Monsenhor Romero. Ali estava ele, sorridente, e presente e ativo em corpo e alma. Caminhamos juntos com milhares de outros peregrinos até a catedral onde celebramos com devoção e júbilo a memória viva e subversiva do mártir que congregava gente do mundo inteiro em volta a sua pessoa e seu testemunho.

Ali me disse que agora morava em Barra na Bahia. Explicou-me com uma pureza cheia de simplicidade e por isso mesmo mais comovente que sentia estar perto da morte. E que por isso necessitava converter-se. E nada melhor para converter-se do que estar perto de um profeta. Por isso tinha escolhido ir morar na diocese de Dom Cappio, a quem situava na categoria dos profetas. Seu depoimento comoveu-me profundamente. Ouvir aquele homem de muito mais de 80 anos buscando ainda conversão e proximidade do Senhor após toda uma vida entregue a Deus e aos pobres era realmente edificante.

A notícia de sua morte chegou-me por mensagem eletrônica de amigos. Juntamente com a dor da perda de um irmão mais velho, senti gratidão por sua vida e responsabilidade em não deixar perder seu legado de teólogo, de profeta, de servidor de Deus e de seu povo. Junto ao Padre Ibiapina, o padre José descansa de sua longa jornada. Mas sua profecia continua viva, sem descanso inspirando e movendo novas vocações teológicas que se dispõem a refletir e articular a Revelação de Deus com a história dos pobres que vão se tornando sujeitos de sua história e construtores do Reino.

O que José Comblin nos contou em 2007

Eduardo Hoornaert

Por ocasião dos sessenta anos da ordenação sacerdotal de José Comblin, um bom grupo de amigos(as) e missionários(as) se reuniu no santuário de Ibiapina em Santa Fé (Arara), no brejo paraibano, para festejar a data, reatar os contactos, fortalecer a rede e reanimar o espírito. José tinha 85 anos e estava particularmente eufórico. Ele nos confidenciou detalhes sobre sua vida, algo que não costumava fazer.

1. Desde muito jovem, seus talentos intelectuais chamaram a atenção de familiares e educadores. Quando, provavelmente com a idade de 16 ou 17 anos, ele disse a seu tio padre que queria ser missionário, este respondeu prontamente: ‘Missionário não, você é inteligente demais. Professor, isso sim, professor na universidade de Lovaina!’. Efetivamente, José estudou teologia em Lovaina e admirou a competência, aplicação e honestidade intelectual de professores como Lucien Cerfaux e Gustave Thils. Quando o novo ‘doutor’ foi nomeado vigário auxiliar numa paróquia em Bruxelas, foi uma decepção: ‘eu senti que não havia mais futuro para o catolicismo na Bélgica’. Então, ele procurou outra coisa. Quando, respondendo ao pedido do papa Pio XII, a universidade de Lovaina abriu um colégio para sacerdotes que desejavam partir para a América Latina, ele foi um dos primeiros candidatos.

2. Com a idade de 35 anos, em 1958, José partiu para o Brasil. Na conversa de 2007 ele insistiu: Não deixei a Bélgica para responder ao apelo do papa nem para combater o comunismo, o protestantismo ou o espiritismo (as três ameaças da época, na opinião do Vaticano). Parti tampouco para remediar a falta de padres. Eu compreendi que o cristianismo estava se extinguindo na Europa e só poderia renascer fora de um continente tão deformado por longa tradição de colonialismo, tráfico de escravos, matança de povos, deformado também por multissecular opressão da liberdade e das forças vitais do ser humano’. Ao encontrar aqui, já nos primeiros dias, pessoas que correspondiam à sua visão, a alegria era grande. José ficou imediatamente fascinado pelo Brasil. Seus primeiros contactos foram com jovens da JOC (juventude operária católica), pois, como muitos padres de sua geração, ele era influenciado por Cardijn, padre da diocese de Bruxelas e fundador da JOC. Educado num ambiente onde obediência, discrição e mesmo timidez eram apreciadas e mesmo encorajadas, ele encontrou aqui pessoas que não eram nem obedientes, nem discretas nem tímidas. ‘Eu encontrei pessoas verdadeiras, que não escondiam o que eram, pessoas sem mentira’. A fascinação pelo modo de ser brasileiro aparentemente nunca mais o abandonou e isso me foi confirmado inesperadamente por sua própria irmã, que encontrei certa vez em Bruxelas, em 1980: ‘O que fizeram ali com meu irmão? Ele não é mais o mesmo!’.

3. Comblin nunca foi a Roma: ‘O que eu faria ali?’. Mas em 1968 o arcebispo Hélder Câmara lhe pediu de redigir um texto para a conferência dos bispos em Medellín (Colômbia). José foi a seu quarto e bateu o dia inteiro com os dedos na sua máquina de escrever. Sou testemunha, pois na época vivíamos na mesma casa, com portas e janelas sempre abertas. Principalmente a partir de textos de José Comblin, Gustavo Gutiérrez (Peru) e Juan Luis Segundo (Uruguay) surgiu então a expressão ‘opção pelos pobres’, na verdade uma confirmação verbal do que diversos bispos da América latina já estavam praticando na época, na fidelidade ao ‘pacto das catacumbas’ firmado em Roma no final do Concílio Vaticano II. Os três teólogos sabiam, pois, que estavam construindo sobre terreno firme, o que mais tarde ficou comprovado pelo surgimento da teologia da libertação. Dom Hélder Câmara, que era um homem perspicaz, tinha pedido, em 1965, a José Comblin de vir trabalhar em Recife. Desse modo o conselheiro de Dom Hélder entrou, aos poucos, em contacto com outros bispos progressistas da América latina como Leônidas Proaño (Ecuador), Mendez Arceo (México), Aloísio Lorscheider, José Maria Pires e muitos outros. A visão dos teólogos da libertação consistia basicamente na rejeição da ideologia do desenvolvimento e no aprofundamento de temas como opressão, ditadura econômica e política, fascínio do capitalismo (Jung Mo Sung) e solidariedade com os pobres. Quando o texto de 1968, por indiscrição, caiu nas mãos dos militares, Comblin entrou numa rota de colisão com o sistema e foi expulso do país em 1972. Ainda tentou viver no Chile, mas ali também Pinochet tomou o poder em 1974. A única possibilidade, depois da ‘abertura lenta e progressiva’ de 1977, consistia em permanecer no Brasil na qualidade de ‘turista’ por consecutivos períodos de três anos. Seu estatuto legal só foi regularizado no decorrer dos anos 1980.

4. Entretempo, Comblin muda outra vez o rumo de sua vida. Adeus formação sacerdotal em seminários e institutos de teologia, adeus grandes cidades. José desaparece e começa uma peregrinação de longos anos e grandes percursos, zigue-zague pelos imensos espaços do Nordeste, à procura de pessoas que se sensibilizem com sua ‘teologia da enxada’. A agricultura tradicional do Nordeste opera por meio da enxada, não do arado. Isso significa que a teologia da enxada parte da cosmovisão do agricultor comum, algo que pressupõe uma ‘reversão de todos os valores’ por parte de um teólogo formado por Cerfaux e Thils. Na qualidade de teólogo da enxada, José peregrina até três dias antes de morrer tranquilamente no Recanto da Transfiguração, em Salvador. Nos últimos anos ele conta com a dedicação incondicional de Mônica Muggler, que faz de tudo para que José possa trabalhar e viajar até a idade de 88 anos. Ela é motorista (ele mesmo não sabe dirigir carro!), planeja encontros (nos últimos anos de forma intensiva por meio de telefone celular), estabelece contactos, organiza planos de viagens, coloca textos na internet (laptop), encontra lideranças locais. José também tem seu laptop. Ele ainda me manda algumas palavras por ocasião de seu aniversário, cinco dias antes de morrer.

5. O milagre consiste no fato que um intelectual estrangeiro, de índole retraída, consegue estabelecer um laço provavelmente estável com a cultura iletrada do interior nordestino. Um milagre que, como todos os milagres, é incompreensível. Neste momento (31/03/2011) estou sendo informado que há velas acesas em cima de sua cova, ao lado do túmulo do padre Ibiapina, na calma e linda natureza do brejo paraibano, em baixo das árvores. E uma mulher se declara curada depois de rezar no túmulo do padre José Comblin.

Pe. José Comblin, Pregador da Palavra de Deus

Domingos Zamagna
Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo

Acabo de participar da Missa de 7º dia em sufrágio do Pe. José Comblin. Presidida por Dom Angélico Sândalo, emérito de Blumenau, ao lado de outros bispos eméritos, foi realizada no Convento dos Dominicanos, em cuja Escola de Teologia (hoje intitulada Instituto Bartolomeu de Las Casas, afiliado à Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino – Angelicum, em Roma) o Pe. Comblin lecionou durante mais de uma década.

Ali fui aluno deste extraordinário mestre e, como centenas e milhares de pessoas, pude aprender com ele as maravilhas da fé cristã. Nossa amizade já durava 46 anos, quando recebi, da querida amiga comum Ana Flora Anderson, a notícia de seu falecimento.

Falando dele para alunos, dentre os quais muitos seminaristas, a maior parte nem sequer sabe quem foi este teólogo. Alguns se recordavam que sobre ele pairava uma proibição de dar conferências em instituições católicas, inclusive na PUC-SP. Eu me recordo que quando a PUC-SP foi invadida em 1977 pelas tropas do Cel. Erasmo Dias (governo Paulo Egydio Martins) para violentamente reprimir estudantes que faziam assembleia, o cardeal Paulo Evaristo Arns (grão-chanceler da universidade) retornou às pressas da Europa e declarou, logo que desceu do avião: “A universidade existe e sempre existiu para debater todos os problemas, sem exceção. É sinal de pouca civilização proibir professores e alunos de debater os seus problemas”. Não temos registro de uma só voz que tenha protestado contra a injustiça feita ao Pe. Comblin, mas temos certeza que várias vozes se ergueriam se a interdição fosse dirigida a algum político corrupto de partido da carcomida coligação de sustentação do governo.

Santo Tomás de Aquino, São Boaventura e tantos outros doutores em Teologia foram debatedores, jamais fugiam das “quaestiones disputatae”. Lecionar, debater, pregar (legere, disputare, praedicare) eram as tarefas próprias dos mestres em Teologia. Por que várias autoridades eclesiásticas fingem ignorar que dezenas de documentos oficiais da Igreja incentivam os teólogos a seguir o exemplo de Santo Tomás que, fidelíssimo à doutrina da Igreja, jamais ensinou sem antes se informar e expor as razões dos objetores? Queremos formar seminaristas e leigos para serem meros repetidores de surradas manualísticas? Para quem não conhece, recomendo a leitura de J. Comblin. A atualidade de Santo Tomás de Aquino. REB 135 (1974), 515-523.

Pe. Comblin fez da investigação rigorosa um compromisso da sua atividade professoral. Suas aulas e conferências jamais provocaram indiferença, pelo contrário, despertavam o senso crítico e nos incomodavam profundamente. Costumava dizer: “É diante do pobre que a nossa teologia tropeça”. Uma reverberação de Basílio de Cesareia, de João Crisóstomo, de GregórioMagno… de Dom Larrain, Dom Proaño, Dom Romero, Dom Helder, Dom Luciano… e de tantos da Patrística latino-americana.

No ano de 1972, após participarmos do primeiro congresso de Teologia da Libertação em El Escorial, pude acompanhar Pe. Comblin numa longa viagem pela Espanha. Se às vezes parecia-me viajar em companhia de Fliche e Martin, tal a sua cultura e erudição, percebi que eu estava mesmo era ao lado de um discípulo de Jesus, seduzido pela aventura de Deus, apaixonado pela Igreja e pela evangelização, tomado de amor pelos pobres e pecadores, amigo dos santos e dos místicos, que passou horas em contemplação na capela do convento de Calaruega, terra de São Domingos de Gusmão; num misterioso silêncio, ajoelhado, com o Terço na mão, no mosteiro da Encarnação, certamente na intimidade da Virgem Maria e de Teresa d’Ávila; na catedral de Sevilha, quando os tradicionais cônegos, capitaneados por Gonzalez-Ruiz, retardaram a recitação das horas canônicas para ouvi-lo numa improvisada e inesquecível homilia sobre a Igreja na América Latina; no Instituto Fe y Secularidad, de Madri, o Pe. Castilho SJ, após uma palestra de Comblin sem anotação alguma, admirava-se de seu minucioso conhecimento da história e da modernidade da espiritualidade de Santo Inácio de Loyola. Esses são pálidos exemplos de como nosso teólogo se desdobrava para falar de Deo aut cum Deo, de modo que sobre ele se pode dizer o que Guilherme de Tocco escreveu sobre São Tomás: fora o sono e a alimentação, “o resto do tempo era empregado na oração, no ensino, na pregação, na meditação ou em escrever e ditar questões”.

Nas próximas semanas, meses e anos ouviremos muitos relatos sobre as facetas deste apaixonado Pregador da Palavra de Deus: no campo e na cidade, nas montanhas e nas planícies, entre as monjas e os operários, nas favelas e nas faculdades, entre os clérigos e os índios, diante do soberanos belgas e dos sertanejos nordestinos. Seria bom que os que conviveram com ele mais de perto colocassem tudo por escrito, para que não se perca a memória dessa relevante, porém – nudum Christum nudus sequi – humilde e não obstante alegre página da história da nossa Igreja.

Às vésperas da Páscoa, a imagem do Pe. Comblin se apaga, para que sobressaia a realidade da pessoa e missão de nosso Salvador Jesus Cristo que ele, com singela sabedoria e de diversas maneiras, dócil à graça divina, quis nos transmitir pela pregação e pelo testemunho.

Pe.Comblin com Deus!

Consternado soube do falecimento do querido pe.José Comblin, grande teológo e pensador cristão. Foi meu professor na Faculdade de Teologia. Mestre e exemplo de dedicação, amor e serviço aos pobres. Pe.Comblin faleceu nesta madrugada na Bahia e será sepultado na Paraíba.

Fotos de arquivo – na Casa de Oração do Povo da Rua – lançamento do livro A Profecia na Igreja,  do Padre Comblin – març/2009.

Dom Helder, o místico

Pe Geovane Saraiva

O místico é profundamente marcado pela graça de Deus com dons e talentos colocados a serviço do próximo. É alguém totalmente voltado para Deus e para a realidade com os pés firmes no chão, com grande capacidade de perceber, de modo lúcido, os desafios, as exigências e as dificuldades de seu tempo, com enorme vontade de superá-las.

Karl Rahner, sacerdote jesuíta, nascido na Alemanha, que viveu de 1904 a 1984 e foi um dos maiores e mais importantes teólogos do século XX, marcou forte presença, nem sempre bem compreendido, com os seus dons e inteligência privilegiada, como assessor do Concílio Vaticano II. Desempenhou, também, papel de destaque, incentivando a Igreja Católica para que se abrisse ao mundo e às diversas tradições e dizia, com a coragem profética que lhe era peculiar, que o cristão do futuro será um místico ou não será nada.

O místico é aquela pessoa que sabe conviver e dialogar com todas as pessoas do mundo inteiro. Numa palavra, místico é o cidadão do Planeta, o cidadão universal, consciente de que o diálogo é uma arte que deve ser cultivada com sinceridade e paciência através da palavra, da conversa, do colóquio e da comunicação.

Dom Helder Câmara era, antes de tudo, um místico. Assim o definiu o nosso grande teólogo, Padre José Comblin. Como místico, tornou-se conhecido no Brasil e no mundo inteiro por sua luta em favor da humanidade, especialmente, dos desafortunados da vida, dos empobrecidos e dos “sem voz e sem vez”.

Sua vida foi uma obra de arte, pela simplicidade de viver, conviver e dialogar, indo ao encontro de todos e amando-os indistintamente. Assim dizia Mahtma Gandhi: “A arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte”. Certamente Dom Helder teve suas contradições, suas limitações e seus erros, mas, segundo Roosevelt, “o único homem que não erra é aquele que nunca fez nada”. Deus foi mais forte e sua bondade sem limites fez dele um belo instrumento de seu amor e de sua paz.

Místico é, pois, alguém que sabe experimentar o amor de Deus Pai e Criador, que inicia bem suas atividades, que é perseverante e que vai até o fim… Dom Helder, profeta e místico, foi assim e sintetiza a vida com o seguinte pensamento: É graça divina começar bem, graça maior é persistir na caminhada, mas a graça das graças é não desistir nunca…

Profecia na Igreja

Profecia na Igreja é o último livro do Pe. José Comblin que será lançado pela Paulus no dia 23 de março na Casa de Oração do Povo da Rua, às 19 horas.

O livro do Pe. Comblin é alimento que precisamos neste momento de raquitismo profético, o autor resgata a profecia desde o antigo testamento até a atuação de JESUS.

Passa historicamente pelos padres da Igreja até a América Latina nos dias de hoje. Nos faz considerar a ação profética de Bartolomeu De Las Casas até D. Helder Camara e D. Luciano Mendes de Almeida.

É um livro inquietante e questionador, é um profeta falando da Profecia! É espiritualidade , teologia, história e sobretudo compromisso no seguimento de JESUS.

No centenário de D. Helder, vépera da memória do martírio de D. Oscar Romero, na Casa de Oração do Povo da Rua, equação perfeita da Profecia que se faz AMOR que questiona e renova a vida!

No dia 24 , no mesmo local e horário, estaremos celebrando o Centenário de D. Helder Camara, no dia do martíro de D.Romero, mais uma equação insistente e coincidente de um AMOR que resiste e liberta.

Veja fotos do lançamento: