A comunidade canta “Utopia”
No final das missas de domingo, 23/06, a comunidade cantou “Utopia”, de Zé Vicente:
editor canto, utopia, Zé Vicente
No final das missas de domingo, 23/06, a comunidade cantou “Utopia”, de Zé Vicente:
editor coca, crack, dependência, Drogas, incenso, religião, utopia
Frei Betto
Participei em São Paulo, em dezembro último, do simpósio sobre crack promovido pelo Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas).
Historicamente, o uso de alucinógenos e outros aditivos químicos teve início em rituais religiosos, como ainda hoje ocorre com a ayahuasca, utilizada pelos adeptos do Santo Daime.
Na descrição que o evangelista Mateus faz do nascimento de Jesus consta que os reis magos (astrólogos?) levaram de presente ao Messias ouro, símbolo da realeza; incenso, símbolo da espiritualidade; e mirra, símbolo do profetismo.
O incenso, utilizado inicialmente no antigo Egito e extraído do tronco de árvores aromáticas, é uma “droga” que reduz a ansiedade e o apetite. Ao contrário do que muitos pensam, não é originário da Índia, e sim das montanhas do sul da Arábia Saudita e da Somália e Etiópia.
A mirra, originária da África tropical, é uma resina obtida dos arbustos do gênero Commiphora. Seus efeitos analgésicos se comparam aos da morfina. No Evangelho de Marcos, aparece, mesclada ao vinho, oferecida a Jesus torturado antes de o crucificarem; ele rejeitou a bebida.
Hoje, as substâncias químicas obtidas de plantas superaram o âmbito religioso e terapêutico e se tornaram iscas à dependência química com suas nefastas consequências, como é o caso da coca, cuja folha é mascada pelos indígenas andinos para facilitar a respiração em regiões de oxigenação rarefeita.
Há ainda a produção de drogas sintéticas e o “doctor shopping”, o médico que produz poderosos analgésicos capazes de provocar a morte de seus pacientes, como foram os casos de Michael Jackson e Whitney Houston.
A repressão ao narcotráfico não mostra resultados satisfatórios. As famílias dos dependentes, desesperadas, buscam internações e terapias “miraculosas”.
Ora, médicos, remédios e terapias podem, sim, ajudar na recuperação de dependentes. O fundamental, porém, é o amor da família e dos amigos – o que não é nada fácil nessa sociedade consumista, individualista, na qual o “drogado” representa uma ameaça e um estorvo.
A religião, adotada em algumas comunidades terapêuticas, pode favorecer a recuperação, desde que infunda no dependente um novo sentido para a sua vida. Eis, aliás, o que evitou que a minha geração, aquela que tinha 20 anos na década de 1960, entrasse de cabeça nas drogas: éramos viciados em utopia. Nossa “viagem” era derrubar a ditadura e mudar o mundo.
Na questão das drogas há que distinguir segurança pública de saúde pública. Sou favorável à descriminalização dos usuários e penalização dos traficantes. Os usuários só deveriam ser afastados do convívio social quando forem uma ameaça à sociedade. Nesse caso, precisariam ser encaminhados a tratamento, e não a encarceramento.
A religião nos mergulha no universo onírico, pois nos faz emergir da realidade objetiva e nos introduz na esfera do transcendente, imprimindo sacralidade à nossa existência. Mais do que um catálogo de crenças, ela nos permite experimentar Deus, daí sua etimologia, nos re-liga com Aquele que nos criou e nos ama, e no qual haveremos de desembocar ao atingir o limite desta vida.
Ocorre que, graças ao neoliberalismo e seu nefasto “fim da história” -uma grave ofensa à esperança-, e às novas tecnologias eletrônicas, às quais transferimos o universo onírico, já quase não temos utopias libertárias nem o idealismo altruísta de um mundo melhor. Queremos melhorar a nossa vida, a de nossa família, não a do país e da humanidade.
Esse buraco no peito abre, nos jovens, o apetite às drogas. Todo “drogado” é um místico em potencial, alguém que descobriu o que deveria ser óbvio a todos: a felicidade está dentro e não fora da gente. O equívoco é buscá-la pela porta do absurdo e não a do Absoluto.
Um pouco mais de espiritualidade cultivada nas famílias, sobretudo em crianças e jovens, e não teríamos tanta vulnerabilidade à sedução das drogas.
Enfim, incenso faz bem à alma.
editor capitalismo, globalização, indignados, neoliberalismo, ocupe Wall Street, outro mundo possível, utopia
Jung Mo Sung
Após décadas do anúncio e contínuo reforço da ladainha de que “não há alternativa”, o mundo parece se encher de indignação; a tal ponto de que essa começa a se extravasar através de diversas formas. Algo deu errado nessa pregação.
A repetição constante da ideologia neoliberal – de que não há alternativa ao sistema de mercado capitalista e que o único caminho é o da “purificação” da economia com a expulsão do Estado e a liberdade total do mercado – deveria, supostamente, levar pessoas a aceitarem a realidade como ela é. Afinal, se não há alternativa, não há porque se revoltar. Ou melhor, revoltar-se contra o que não pode ser mudado é um ato infantil de quem ainda não amadureceu e não sabe ainda aceitar a vida como ela é.
É claro que, para os neoliberais convictos e outros grupos ideológicos e/ou religiosos “fatalistas”, o principal grupo dos “infantis” é o da esquerda (aqui incluído o cristianismo de libertação) que ainda teimam em afirmar que a vida e o mundo podem ser diferentes. Porém, felizmente, a vida é muito mais complexa e rica do que os neoliberais ou qualquer outra ideologia ou teologia que pensam conhecer “a” realidade e o “futuro da humanidade”. Assim, a vida sempre nos prega surpresas.
E uma das surpresas que aconteceu no centro do capitalismo nos últimos anos veio exatamente da direita: o “Tea Party”. Esse grupo é tão conservador e radical que não se opõe somente ao que eles chamam de “política socialista” do governo Obama, e à pessoa de Obama, mas também a uma visão mais “cosmopolita” ou moderna do capitalismo globalizado. Ironicamente, o Tea Party também afirma, com outras palavras, que “outro mundo é possível”; também está indignado com atual globalização capitalista.
Felizmente, entrou no cenário internacional, desde setembro último outro grupo de indignados: o dos “ocupem Wall Street”, que se espalhou pelas diversas partes do mundo e que podemos chamar aqui de “ocupem o mundo”. Esse movimento tem recebido muito apoio e cobertura, especialmente nos Estados Unidos onde a crise atingiu severamente as camadas baixas e médias.
Ainda é cedo para saber onde vai dar esse movimento ou até mesmo para compreender as novidades desse tipo de movimento em relação aos movimentos sociais e políticos do século XX. Com certeza, esse movimento não se parece com aqueles organizados ou liderados por partidos de esquerda ou sindicatos; também não é igual aos movimentos de contestação de 1968. Contudo, por mais novos e diferentes que sejam, esses movimentos de indignados vão precisar articular pautas, objetivos e estratégias de mudança social e política. Pois, se o protesto se mantiver somente no nível de exigência de reformas de caráter político-ético (mais apoio à população e não aos grandes bancos; menos corrupção etc.), está supondo que esse mesmo sistema capitalista é capaz de atender essas demandas e realmente “governar” para as necessidades e direitos da grande massa da população. Que no fundo, uma alternativa real não é possível ou não é necessária.
Alguns dos indignados mais radicais poderiam contra-argumentar dizendo que a alternativa radical é uma sociedade que não precise de estruturas econômicas, sociais e políticas alternativas; porque essa nova sociedade seria autogerida espontaneamente na fraternidade de todas as pessoas. Esse tipo de imaginação soa bastante belo e atraente, um horizonte que nos chama ao protesto e ação, mas por si só não nos possibilita construir uma outra sociedade.
Manifestação pública da indignação é o primeiro passo para afirmar publicamente a nossa humanidade que transcende às ideologias e sistemas totalitários. Mas, não é suficiente. O desafio é como a partir dessa indignação pensar e lutar por novas estruturas sociais e políticas que sejam mais parecidas –apesar de nunca serem iguais– às nossas imaginações de um mundo realmente livre. Pois como disse Paulo, “foi para a liberdade que Cristo nos libertou!”.
editor Comblin, Dom Helder Camara, profeta, testemunho, utopia
Pe. Geovane Saraiva
“Sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina, daqui a mil anos”. Esta afirmação do teólogo Padre José Comblin nos ajuda compreender, a vida do artesão da paz, Dom Helder Câmara, nascido para o que é mais elevado, as coisas maiores.
Sua vida é uma mina de ouro que precisa ser explorada. Ele, como cidadão universal, andou pelos diversos caminhos do Planeta e, com sua voz profética e seu profundo amor por este mundo em que vivemos, obra do Criador e Pai, com a criatura marcada pela dor, angústia e sofrimento, mas, ao mesmo tempo, cheia de amor, garra, sonhos e esperança. Ele, no seu centenário de nascimento, ensina-nos a ver e a descobrir a verdadeira face do Cristo nos nossos semelhantes. Para ele, pobre verdadeiramente pobre era aquele que não tem amor para dar, difundir e semear.
Dom Helder Câmara nasceu no dia 7 de fevereiro de 1909. Aos nove anos, fez a sua primeira comunhão e, aos quatorze, ingressou no Seminário da Prainha, em Fortaleza – CE. No dia 15 de agosto de 1931, com vinte e dois anos foi ordenado sacerdote. Exerceu seu ministério sacerdotal, por cinco anos em sua cidade natal, entre letrados e operários. Em 1936, partiu para o Rio de Janeiro, aí desempenhou, entre outras funções, o cargo de Diretor Técnico de Ensino da Religião na Arquidiocese do Rio de Janeiro.
Em 1948, foi agraciado com o título de monsenhor. Em 1950, expôs ao amigo Monsenhor Montini, futuro Papa Paulo VI seus planos de fundar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – da qual se tornou Secretário Geral, de 1952 a 1964. Em 1952, foi nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro. Em 1955, organizou o famoso Congresso Eucarístico Internacional da capital fluminense. Fundou, também, o Banco da Providência e a Cruzada São Sebastião, indo ao encontro dos pobres e favelados. Trabalhou, incansavelmente, pela fundação do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM – do qual foi vice-presidente de 1958 a 1964.
Em 1964, nomeado arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife, tomou posse no dia 12 de abril do mesmo ano, início do regime militar. Começou dizendo: “Quem estiver sofrendo, no corpo ou na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado, terá lugar no coração do bispo”. Passou, então, a desenvolver, com grande relevância, ações sociais junto às comunidades carentes e a lutar pelos direitos humanos. Ficou, mundialmente, conhecido como o arauto dos “sem vez e sem voz”. Durante o Regime Militar, de 1964 a 1983, sua voz se calou e ficou sem ser ouvida, pois foi proibida e censurada na Mídia.
Bispo da não-violência, da ternura e da solidariedade denunciou, em Paris, em 1970, num profético e contundente discurso, as práticas de torturas aos presos políticos em nosso Brasil. Dom Helder, homem de Deus, foi um dos grandes místicos dos nossos tempos, que, com sua palavra, sensibilizava e entusiasmava as multidões de todos os credos, de todas as raças, culturas e ideologias. Dizia que Deus para ele “era e só podia ser amor”, esforçando-se para viver o que anunciava, fazendo-se nosso irmão e acreditando na possibilidade da conversão de todos.
Dom Helder tem vinte e três livros publicados, sendo dezenove deles traduzidos para dezesseis idiomas. Seus títulos, suas homenagens e suas condecorações que, recebidos em todo mundo, somam 692. Após completar noventa anos, no dia 27 de agosto de 1999, foi chamado para a casa do Pai.
Esta extraordinária figura humana, patrimônio da humanidade, por seus dons e talentos colocados a serviço do próximo será sempre uma referência marcante na história do povo brasileiro. A sociedade, mais do que nunca, nos dias de hoje, necessita de referenciais como Dom Helder, para que possa aspirar por liberdade, justiça e paz. Que humanidade saiba sonhar. Dizia ele: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores!”. Que Dom Helder nos inspire o desejo sempre maior de gostar de viver e de lutar pelo dom maravilhoso da vida.
editor economia solidária, esperança, primavera, solidariedade, utopia
Pe. Alfredo J. Gonçalves, Cs
A estação da primavera está para o ano como a aurora para o dia. Após a noite escura e fria, propensa aos fantasmas, o sol do amanhecer remove as sombras e traz a esperança de um recomeço. Assim a primavera. Após o inverno gélido e prenhe de turbulências, raios e tempestades, a nova estação renova sonhos e expectativas. O céu azul e os campos floridos costumam ser a expressão plástica desse renascimento.
Não é sem razão que a primavera tornou-se, no imaginário popular, um dos símbolos mais expressivos na música, na literatura, na arte, na religião, enfim, na trajetória existencial das pessoas. Diz-se, por exemplo, que alguém está na primavera da vida, e isso nem sempre corresponde à idade medida de seus anos. Corresponde também ao rejuvenescimento após um outono nebuloso ou um inverso rígido, ou seja, após uma doença, uma crise pessoal, um fracasso inesperado.
O mesmo vale para determinada sociedade ou determinado país. Também aqui, passadas crises profundas, simbolicamente invernais, um povo pode reerguer-se das trevas, do frio e dos escombros, para construir uma alternativa mais promissora. As transformações, as mudanças e as revoluções normalmente são adjetivadas como primaveris. Afugentam os fantasmas do ódio e da violência e abrem espaço para um horizonte recriado. Que o diga quem experimentou na carne tensões, conflitos ou guerras declaradas.
Nesta perspectiva, seria correto afirmar que, passados os sintomas mais graves da crise financeira, a economia mundial encontra-se em estado de primavera? É difícil imprimir aqui um sim imediato e taxativo. Mais fácil é continuar em tom de interrogação. De fato, primavera tem a ver com cores e sabores, com flores e amores. Tem a ver com crianças brincado nas ruas e praças, com namorados se abraçando e beijando, com passeios e piqueniques. Tem a ver com o desabrochar vigoroso e virulento da vegetação castigada pelos ventos do inverno.
Ora, em geral, as propostas do G20 e dos políticos e economistas para a saída da crise do mercado é mais mercado. O que significa continuidade na devastação dos recursos naturais, ritmo acelerado de produção, maior número de carros individuais nas ruas e mais gás carbÿnico na atmosfera, aceleração do aquecimento global e mais consumo, sempre mais consumo. É o círculo de ferro do produtivismo consumista de nossa cultura ocidental. Tudo para favorecer uma porcentagem de privilegiados do planeta, em detrimento de bilhões de pessoas que vivem das migalhas do progresso científico e tecnológico. O remédio se converte em veneno cada vez mais letal.
Que pena! Nada de novo nesta primavera! Nenhuma flor, nenhuma cor, nenhum amor, nenhum sabor diferente do que já se conhece. A roda vida do capitalismo neoliberal aumenta sua velocidade, ignorando a nova estação. No caso da América Latina, a cobiça pela riqueza, pelo acúmulo e pelo poder vem ressuscitando até um começo de corrida armamentista, coisa que parecia execrada ao lixo da história.
Mas, espera um pouco, não sejamos tão pessimistas. Há sim algo novo debaixo do sol. Milhares e milhares de iniciativas populares, espalhadas por todo o Brasil e por outros países do planeta, vão forjando uma rede capilar de experiências de economia solidária. Ao invés do lucro, o objetivo é dar conta das necessidades básicas das populações mais carentes. Alternativas se multiplicam, formigas trabalham no silêncio, esperanças se renovam.
Mas como competir com a força, os estímulos, o marketing e o fascínio do mercado? Aqui é preciso ter a fé do camponês, acreditar na semente jogada na terra. Tempo de crise é sulco aberto na história para o lançamento de novas sementes. Sementes que não criam espetáculo, não fazem estardalhaço, mas maturam lentamente na umidade oculta do solo. Mergulham suas raízes no interior da terra, para depois, firmes no chão, erguer-se em direção ao céu, ao sol, ao ar livre. Como as sementes, também as mudanças não são feitas de espetáculos. Amadurecem passo a passo na consciência de um povo, até chegarem ao ponto de dar um salto qualitativo em direção à liberdade.
Da mesma forma que a espiga, a flor, o poema ou o edifício, as mudanças se levantam do chão. Primeiro crescem para baixo, buscando as dores e esperanças do povo, depois se projetam para o alto em forma de projetos, sonhos utopias. E então, sim, estaremos deixando o inverso da injustiça e da exclusão social e entrando na primavera de uma nova história.
editor D. Helder Camara, justiça, paz, utopia
Pe Geovane Saraiva
Dom Helder soube vencer e ultrapassar as barreiras do assistencialismo, quase sempre necessário, indo ao encontro da justiça e da paz, não apenas apontando os caminhos que levassem os homens a um mundo mais justo, solidário e humano, mas ele foi concreto, ao colocar sua vida a serviço da humanidade, através das suas ações, gestos e práticas pastorais.
Sonhar com uma civilização ideal, com um povo organizado, vivendo em boas condições, com equilíbrio, justiça e paz, em um lugar e em um mundo possível, não só no futuro, mas já no presente, no tempo real, esta foi, durante toda vida, a luta do peregrino da paz, Dom Helder Câmara.
Carregou dentro de si os grandes problemas e desafios da humanidade do seu tempo, tais como: dois terço da humanidade passando fome; a distância entre países pobres e ricos; o constante apelo ao desenvolvimento social; o desemprego no Brasil e no mundo inteiro; todo tipo de preconceito: raciais, étnicos e religiosos é sua grande bandeira; quer a cidadania, isto é, o pobre se colocando como sujeito da sua própria história; abre os olhos para uma tomada de consciência dos pecados sociais; propõe a não violência ativa como meio de solucionar os conflitos sociais; condena todo tipo de guerra como solução para os conflitos sociais e condena com veemência todas as formas de exclusão social.
Ele não só pensou e imaginou, mas teve clareza e persistência e, com suas idéias fixas, aspirou por mundo segundo a vontade Deus, de tal modo que os seus sonhos e suas utopias transformaram-se em realidade. Essa afirmação nos faz pensar nas suas obras e realizações em favor da humanidade. É só olhar para seus escritos, poemas e pensamentos. Sua fidelidade a Deus e ao povo o fez manter-se acordado, olhando para dentro de si e, ao mesmo tempo, externando-a através dos sonhos e utopias.
Como Abraão, acreditou, sem jamais perder a esperança. Daí as marcas profundas deixadas por este homem de Deus. Neste ano do seu centenário, percebemos, com todas as evidências, tudo o que ele representou para o Brasil e para o mundo, como um símbolo, como um patrimônio e, sobretudo, como um referencial. Por isso, mesmo que alguém ou grupo tentem ofuscar ou neutralizar, não irão destruí-lo nunca. A história o tem e o terá sempre como imortal.
Dom Helder, pastor da paz e da ternura, sentia-se honrado quando seus inimigos o acusavam de utópico e demagogo, porque se aproximava do “cavaleiro andante”. Ele, com seu grande coração e na sua maneira de ver o mundo, longe do espírito de ódio e vingança, dizia-lhes: “Comparar-me a Dom Quixote, está longe de ser uma nota depreciativa” e acrescentava: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores”.
Hoje, diante do avanço que experimentamos no mundo inteiro, nem sempre positivo, deve-se aos sonhadores. Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales – SP, afirmou: “Dom Helder foi indiscutivelmente um grande poeta e um sonhador das grandes utopias humanas e cristãs” (cf. Adital, 04.02.2009). Os sonhadores e os utópicos, a exemplo de Dom Helder, mudaram e continuarão a mudar a história da humanidade, porque aventura e fascínio maior não é só sonhar, mas, sobretudo, ver os sonhos transformados em realidade.
Poeta e um sonhador, ele o foi. Eu, porém, digo que ele foi muito mais: Foi um santo, porque forte e corajoso, ao mesmo tempo em que se igualou ao menor dos menores. Guardemos esse seu pensamento: “Quem aceita o impossível como uma realidade e acolhe o mistério como bebe água? Sem dúvida, as crianças, os embriagados, os loucos, os poetas e os santos”.
Urge não ter medo da utopia, como aquele lugar que parece não existir, como um mundo possível e harmônico, já aqui e agora. Dom Helder, homem dos grandes sonhos e das realidades últimas, gostava de repetir: “Quando se sonha sozinho, é apenas um sonho, mas quando se sonha em mutirão, já é uma realidade”.
editor América Latina, esperança, Reino de Deus, utopia
Frei Betto
A esperança é uma das três virtudes teologais, ao lado da fé e do amor. Rima com confiança, termo que deriva de fé: quem acredita, espera; e quem espera, acredita. Esperar é confiar.
Vivemos um momento novo da história da América Latina. Com a eleição de governos democrático-populares, a esperança dá sinais de se transformar em realidade. Há esperança de que se priorizem as questões sociais e se reduzam significativamente as desigualdades que caracterizam o Continente.
Para Jesus, a esperança se coloca lá na frente, no Reino de Deus, que marca o fim e a plenitude da história, e não lá em cima, enquanto postura verticalista de quem ignora a existência deste mundo ou a rejeita. Hoje, a expressão Reino de Deus possui conotação vaga, metafórica. Pode-se, porém, imaginar o que significava falar disso em pleno reino de César… Não há dúvida da ressonância política do termo, pois Jesus ousou anunciar um outro Reino que não o de César e, por isso, pagou com a vida.
Hoje, a esperança tem conotação secular – a utopia. É curioso observar que, antes do Renascimento, não se falava em utopia. Esta resultou da dessacralização do mundo, da morte dos deuses e, portanto, da necessidade de projetar ou visualizar o mundo futuro. Na medida em que o ser humano, com o advento da modernidade, começou a dominar os recursos técnicos e científicos que interferem no curso da natureza e aprimoram a nossa convivência social, surge a necessidade de antever o modelo ideal, assim como o artista que faz a escultura traz na cabeça ou no papel o desenho da obra terminada. Como afirmou Ernst Bloch, a razão não pode florescer sem esperanças, e a esperança não pode falar sem razão (Karl Marx, Bolonha, 1972, 60).
O marxismo foi a primeira grande religião secular, capaz de traduzir a esperança em sociedade ideal. Ele introduziu na cultura ocidental a consciência histórica, a percepção do tempo como processo histórico, a tal ponto que o ser humano passou a prefigurar sua existência, não mais em referência aos valores subjetivos, mas ao devir, lutando contra os obstáculos que, no ainda-não, impedem a realização do que se espera como ideal libertador.
Para o cristão, a utopia do Reino supera as utopias seculares, sejam elas políticas, técnicas ou científicas. Espera-se, neste mundo, a realização plena das promessas de Deus o que plenifica e transfigura o mundo. Assim, à luz dessas promessas elencadas na Bíblia, o cristão mantém sempre uma postura crítica frente a toda realização histórica, bem como diante dos modelos utópicos. O homem novo e o mundo novo são resultados do esforço humano através do dom de Deus que, em última instância, os conduzem ao ápice. Em outras palavras, quem espera em Cristo não absolutiza jamais uma situação adquirida ou a ser conquistada. Toda progressão é relativa e, portanto, passível de aperfeiçoamento, até que a Criação retorne ao seio do Criador. Pois Deus realiza progressivamente, na história humana, a sua salvação.
A esperança se baseia na memória. Quem espera, rememora e comemora. Nosso Deus não é um qualquer do Olimpo politeísta. É um Deus que tem história e faz memória: Javé, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó. É essa memória que alimenta a consciência crítica, consciência da diferença, da inadequação, ao ainda-não. Pois a utopia cristã sustenta-se na promessa de Deus. Por isso, a esperança cristã não teme o negativo, as vicissitudes históricas, o fracasso. É uma esperança crucificada, que se abre à perspectiva da ressurreição.
Na esperança, nós já fomos salvos. Ver o que se espera já não é esperar: como se pode esperar o que já se vê? Mas, se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos (Romanos 8, 24-25). Como diz a Carta aos Hebreus, a fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem (11, 1). Se a fé vê o que existe, a esperança vê o que existirá, dizia Péguy. E acrescentava: o amor só ama o que existe, mas a esperança ama o que existirá… no tempo e por toda a eternidade.
A esperança é o caminhar na fé para o seu objeto. A fé nos dá a certeza de que Jesus venceu a morte; a esperança, o alento de que venceremos os sinais de morte: a injustiça, o opressão, o preconceito etc. Esse processo não é contínuo, pois somos prisioneiros da finitude, embora trazendo a Infinitude em nossos corações. Por isso, o caminhar é entrecortado de dúvidas e dores, conquistas e alegrias, mas sabe que, se trilha as sendas do amor, tem Deus como guia.
Leonardo Boff
A conjugação das várias crises, algumas conjunturais e outras sistêmicas, obriga a todos a trabalhar em duas frentes: uma intrasistêmica buscando soluções imediatas dos problemas para salvar vidas, garantir o trabalho e a produção e evitar o colapso. Outra transsistêmica, fazendo uma crítica rigorosa aos fundamentos teóricos que nos levaram ao atual caos e trabalhar sobre outros fundamentos que propiciem uma alternativa que permita, num outro nivel, a continuidade do projeto planetário humano.
Cada época histórica precisa de um mito que congregue pessoas, galvanize forças e confira novo rumo à história. O mito fundador da modernidade reside na razão, desde os gregos, o eixo estruturador da sociedade. Ela cria a ciência, transforma-a em técnica de intervenção na natureza e se propõe dominar todas as suas forças. Para isso, segundo Francis Bacon, o fundador de método científico, deve-se torturar a natureza até que entregue todos os seus segredos. Essa razão crê num progresso ilimitado e cria uma sociedade que se quer autônoma, de ordem e progresso. A razão suscitava a pretensão de tudo prever, tudo gerir, tudo controlar, tudo organizar e tudo criar. Ela ocupou todos os espaços. Enviou ao limbo outras formas de conhecimento.
Eis que, depois de mais de trezentos anos de exaltação da razão, assistimos a loucura da razão. Pois só uma razão enlouquecida organiza a sociedade na qual 20% da população mundial detém 80% de toda riqueza da Terra; as três pessoas mais ricas do mundo possuem ativos superiores à toda riqueza de 48 paises mais pobres onde vivem 600 milhões de pessoas; 257 indivíduos sozinhos acumulam mais riqueza do que 2,8 bilhões de pessoas, o equivalente a 45% da humanidade; no Brasil 5 mil famílias detém 46% da riqueza nacional. A insanidade da razão produtivista e consumista gerou o aquecimento global que trará desequilíbrios já visíveis e a dizimação de milhares de espécies, inclusive a humana.
A ditadura da razão criou a sociedade da mercadoria com sua cultura típica, um certo modo de viver, de produzir, de consumir, de fazer ciência, de educar, de ensinar e de moldar as subjetividades coletivas. Estas devem se afinar à sua dinâmica e valores, procurando sempre maximalizar os ganhos, mediante a mercantilização de tudo. Ora, essa cultura, dita moderna, capitalista, burguesa, ocidental e hoje globalizada entrou em crise. Ela se expressa nas várias crises atuais que são todas expressão de uma única crise, a dos fundamentos. Não se trata de abdicar da razão, mas de combater sua arrogância (hybris) e de criticar seu estreitamento na capacidade de compreender. O que a razão mais precisa neste momento é de ser urgentemente completada pela razão sensível (M. Maffesoli), pela inteligência emocional (D. Goleman), pela razão cordial (A. Cortina), pela educação dos sentidos (J.F.Duarte Jr), pela ciência com consciência (E. Morin), pela inteligência espiritual (D. Zohar), pelo concern (R.Winnicott) e pelo cuidado como eu mesmo venho propondo há tempos.
É o sentir profundo (pathos) que nos faz escutar o grito da Terra e o clamor canino de milhões de famélicos. Não é a razão fria, mas a razão sensível que move as pessoas para tira-las da cruz e fazê-las viver. Por isso, é urgente submeter à crítica o modelo de ciência dominante, impugnar radicalmente as aplicações que se fazem dela mais em função do lucro do que da vida, desmascarar o modelo de desenvolvimento atual que é insustentável por ser altamente depredador e injusto.
A sensibilidade, a cordialidade, o cuidado levados a todo os níveis, para com a natureza, nas relações sociais e na vida cotidiana, podem fundar, junto com a razão, uma utopia que podemos tocar com as mãos porque imediatamente praticável. Estes são os fundamentos do nascente paradigma civilizatório que nos dá vida e esperança.
julio Ano novo, compromisso, esperança, utopia
Os últimos momentos do ano envelhicido nos fazem pensar em tudo que vivemos, nas alegrias e tristezas, nas buscas, perdas, encontros e desencontros, lágrimas e sorrisos. O mistério da vida, do amor e da dor!
O ano novo, e é bom perguntar novo em que? Nos faça encontrar a novidade que nos revigore e fortaleça no caminho da Vida. As previsões são pesadas, os pessimistas estão alvoroçados, a nós cabe esperança a partir do real e dos compromissos assumidos, da utopia sonhada e anunciada, da indignação diante da violência e da mediocridade.
A frase de Santo Agostinho que li estes dias nos faça desejar coragem para trabalhar e amar! Nos diz o santo doutor de Hipona: Para quem ama, não há trabalho. E se houver, o trabalho vira amor.
No próximo ano espero contar com todos vocês, que nossa comunidade seja viva e missionária, seja forte sem perder a ternura, não tenha medo de suas fragilidades nem de amar e defender a vida, não seja acomodada e incomode, anuncie com a vida que JESUS vive e ama, protege e guarda. Que nossos olhos não se fechem a quem chega e procurem os que estão longe, as nossas portas sempre abertas e nossos pés sempre a caminho. A cidade seja nossa casa e todas as pessoas nossa família!Bom Ano, que Deus nos abençôe e nos faça sinais do seu AMOR !
