Reino de Deus

Terra de Zabulon, terra das periferias

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Muito interessante a mensagem do 3º Domingo do Tempo Comum, celebrado no dia 26 de janeiro. Fala do início da missão pública de Jesus, depois da prisão de João Batista (cf. Mt 4, 12-23).

Jesus deixa Nazaré, onde passou a fase de sua vida oculta, e fixa morada em Cafarnaum, iniciando sua missão pública junto do mar da Galileia. Vai anunciando que o Reino de Deus está perto e chama as pessoas a acolherem essa Boa Nova e a se voltarem para o Reino de Deus. Logo vai juntando muita gente ao seu redor; trazem-lhe doentes, pessoas com problemas de todos os tipos, que Jesus atende e cura. E vai chamando discípulos a seguirem atrás dele.

Chama a atenção o fato de Jesus não começar a pregar em Jerusalém, no templo, no ”centro”… Ele começa pela periferia, em regiões tidas até mesmo como “lugar de trevas”, gente meio pagã, idólatra… A “terra de Zabulon”, na Galileia, ainda hoje faz divisa com o sul do Líbano e com a Síria; a “terra de Neftali”, do outro lado do Jordão, ia para dentro do Líbano e da Síria atuais. Essas regiões, meio pagãs e contagiadas pela idolatria dos povos vizinhos, no tempo de Jesus, constituíam a “Galileia dos gentios”.

É lá que Jesus faz ressoar o bom anúncio da proximidade do Reino de Deus. Mateus vê, assim, realizada a profecia de Isaías, que falava da luz que resplandece para aqueles que viviam nas trevas e na “região escura da morte” (cf. Is 9,1). É Jesus a luz de Deus que resplandece e ilumina os homens esquecidos e até desprezados, fazendo-os reviver e ter esperança. Não foram esquecidos por Deus, que lhes enviou seu Filho.

A realização dessa profecia continua ao longo da história através da vida e da atuação da Igreja. Também isso aparece já no início da pregação pública de Jesus, que chama apóstolos para o seguirem e para serem, depois, enviados em missão, com a sua própria autoridade. Em vários momentos, Jesus enviou os discípulos em missão, para anunciarem a Boa Nova do Reino de Deus; finalmente, após a ressurreição, enviou os apóstolos, na força do Espírito Santo, para continuarem a sua missão “até o fim dos tempos”.

O papa Francisco, em nossos dias, tem incentivado a Igreja para ir às periferias da humanidade. Talvez ficamos muito sossegados, cuidando mais de quem já está no “centro” e cujo cuidado absorve todas as nossas energias e todo o nosso tempo. A Igreja é enviada, não apenas às periferias geográficas, mas também sociais, econômicas, políticas e mesmo religiosas. As “periferias” podem estar mesmo no centro de nossa cidade; elas não estão longe de nós; basta abrir os olhos.

O Evangelho é luz para todos, mas onde as pessoas já acham que vivem “na luz”, ele é menos bem acolhido e tem menos fruto. A Boa Nova do Reino de Deus, dirigida ao povo relegado às periferias, redime, resgata e salva essas pessoas, fazendo-as viver e dando-lhes esperança. Os fiéis em Cristo, se desejam ser fiéis a ele, precisam imitar o seu exemplo e fazer como ele.

De maneira significativa, neste mesmo domingo, foi feito o envio missionário de três religiosas do Regional Sul 1 para a Diocese de Alto Solimões, no Regional Norte 1, na extrema periferia noroeste do Brasil; e o padre Fabiano, da Arquidiocese de São Paulo, como missionário fidei donum, para a Diocese de Castanhal, no Pará. Que Deus nos ajude a sermos uma Igreja verdadeiramente missionária, disposta a levar a Boa Nova do Reino de Deus às terras de Zabulon e Neftali dos nossos dias…

Não nascer em vão

Pe. Geovane Saraiva

Todo ser humano, por decisão de Deus, entra neste mundo com uma vocação, primeira e fundamental, que é a sua própria existência. Vocação para ser gente, para ser criatura humana. Por isso mesmo é muito importante pensar naquilo que nos é proposto durante a trajetória de nossa vida. Cícero, o maior orador romano, ao tratar sobre a idade da vetustez, que significa mais do que velhice ou idade avançada; quer dizer reverência e respeitabilidade, afirmou: “Vivi de tal forma, que sinto não ter nascido em vão”.

Já Dom Helder Câmara gostava de dizer: “Feliz da pessoa que atravessa a vida tendo mil razões para viver”. À medida que a pessoa humana entende que é necessário percorrer com muita disposição o seu percurso natural, interiormente cresce, encontra-se consigo mesmo e se integra na comunidade em que reside, dando sua contribuição através do serviço, do anúncio e do testemunho.

Concretamente, constatamos esse tipo de procedimento com facilidade em nossas comunidades, que nos faz compreender as pessoas que querem viver a sua vocação, de tal maneira, que desejam tomar como suas as palavras de Cícero, na certeza de que no final chegará à recompensa, promessa do próprio Deus. É claro que as pessoas procuram tesouros de felicidade, bem estar e realização. Agora, uma coisa é importante e necessária, ter clara consciência do tesouro que está escondido, dentro de nós.

Quando afirmamos que a vida não foi em vão é porque temos na mente a recompensa, que supõe o merecimento, frequente nas palavras e ações de Jesus, ao falar da vida eterna como uma promessa, como uma dádiva do Pai para os que nele professam sua fé. É um dom, que de alguma maneira é preciso ser conquistado, tendo na mente e no coração o que disse Jesus: “Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele” (1Jo 3, 1-2)

Pessoas que vivem assim compreendem em profundidade o Reino de Deus, na sua beleza e na sua preciosidade, como tão bem nos assegura o Filho de Deus: “O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Depois, cheio de alegria, ele vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo (Mt, 13, 44). Para vivermos bem, na concórdia e em harmonia com Deus, com o mundo e com nossos semelhantes, urge perseguir esse ideal, preenchendo nosso coração, sedento e ávido de felicidade.

O Reino nos aponta para a eternidade. É tarefa nossa fazer de tudo, mas de tudo mesmo para descobrir seu valor inigualável, maior tesouro que podemos encontrar como aspiração mais profunda, porque nele está nossa motivação e nossa razão pela qual somos capazes compreender e discernir o relativo do absoluto, de compreender os mistérios do Reino com dom gratuito, e por isso mesmo, o nosso esforço gigantesco, de sempre mais tê-lo conosco.

São Mateus, no seu Evangelho, usa a expressão “reino dos céus” mais de trinta vezes, querendo dizer, quase sempre: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3, 2). Descobrir os mistérios do Reino significa ter mente, ouvidos e olhos abertos para o novo, para o que ainda não conhecemos e que não devemos colocar nossas seguranças e convicções, no nosso modo pensar e agir, como algo absoluto. Quando depositamos confiança e expectativas nas pessoas, o risco de se decepcionar é grande. Podemos pensar o Reino de Deus como um jardim. No jardim, no dizer do Poeta Mário Quintana, “o segredo é não cuidar das borboletas, mas sim do jardim, para que as borboletas venham até você”. Por analogia, segredo é cuidar do tesouro, um maravilhoso dom, que é o próprio Deus.

É deste modo que haverá mais gente querendo usar de seus dons e talentos, não para explorar seus semelhantes, mas usando-os para fazer o bem, como uma esperança de ver seus sonhos utopias de um mundo justo, terno e solidário transformado em realidade. Pensemos na célebre frase do grande Santo Agostinho: “Meu coração está inquieta, enquanto em vós não descansar”, seguros de que não nascemos em vão.

Sair e semear

José Antonio Pagola

Antes de contar a parábola do semeador que “saiu a semear”, o evangelista apresenta-nos Jesus que “sai de casa” para encontrar-se com as pessoas, para “sentar-se” sem pressas e dedicar-se durante “muito tempo” a semear o Evangelho entre todo o tipo de pessoas. Segundo Mateus, Jesus é o verdadeiro semeador. Dele temos de aprender também hoje a semear o Evangelho.

Primeiro é sair de nossa casa. É o que pede sempre Jesus aos Seus discípulos: “Ide por todo o mundo…”, “Ide e fazei discípulos…”. Para semear o Evangelho temos de sair da nossa segurança e dos nossos interesses. Evangelizar é “deslocar-se”, procurar o encontro com as pessoas, comunicarmos com o homem e a mulher de hoje, não viver encerrados no nosso pequeno mundo eclesial.

Esta “saída” para os outros não é proselitismo. Não tem nada de imposição ou reconquista. É oferecer às pessoas a oportunidade de encontrar-se com Jesus e conhecer uma Boa Nova que, se a acolhem, lhes pode ajudar a viver melhor e de forma mais acertada e sã. É o essencial.

A semear não se pode sair sem levar connosco a semente. Antes de pensar em anunciar o Evangelho a outros, temos de o acolher dentro da Igreja, nas nossas comunidades e nas nossas vidas. É um erro sentirmo-nos depositários da tradição cristã com a única tarefa de transmiti-la a outros. Uma Igreja que não vive o Evangelho, não pode contagia-lo. Uma comunidade onde não se respira o desejo de viver seguindo os passos de Jesus, não pode convidar ninguém a segui-la.

As energias espirituais que há nas nossas comunidades estão a ficar por vezes sem explorar, bloqueadas por um clima generalizado de desalento e desencanto. Dedicamo-nos apenas a “sobreviver” mais que a semear vida nova. Temos de despertar a nossa fé.

A crise que estamos a viver está a conduzir-nos à morte de um certo cristianismo, mas também ao início de uma fé renovada, mais fiel a Jesus e mais evangélica. O Evangelho tem força para gerar em cada época a fé em Cristo de forma nova. Também nos nossos dias.

Mas temos de aprender a semeá-lo com fé, com realismo e com verdade. Evangelizar não é transmitir uma herança, mas tornar possível o nacimento de uma fé que brote, não como “clonagem” do passado, mas como resposta nova ao Evangelho escutado a partir das preguntas, dos sofrimentos, das alegrias e das esperanças do nosso tempo. Não é o momento de distrair-se as pessoas com qualquer coisa. É a hora de semear nos corações o essencial do Evangelho.

Cruz: suplício ou esperança?

Maria Clara Bingemer

A novidade da revelação cristã de Deus exige um ser humano novo, uma nova criatura. Sendo revelação de um mistério, só pode ser captada pela fé. Por isso, quando os Evangelhos apresentam Jesus, seus atos e palavras, eles o fazem de maneira misteriosa e velada.

Aqueles que no tempo de Jesus detinham o poder religioso e a interpretação oficial da verdadeira religião, declarando-a única e legítima, interpretaram Jesus como alguém que agia movido pelo espírito de Belzebu, e não pelo Espírito Santo. Consequentemente, por ser interpretado assim, Jesus devia morrer. Esse conflito o levou à condenação e à morte.

É aí que se levanta a grande questão que interpela a teologia e coloca a fé em cheque. O acontecimento da condenação e morte de Jesus é que vai pôr o selo definitivo na questão sobre sua natureza divina e sobre a identidade do Deus da revelação. Jesus é preso, acusado, condenado, torturado e morto. E diante de sua morte, seus seguidores silenciam e se dispersam, deixando-o sozinho. Fracassado e abandonado, ele e seu projeto são expostos à execração pública, aparentemente fracassados e destruídos. E não somente as testemunhas se calam. Deus também se cala. O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, que não suportou ver o povo sofrendo no Egito e no cativeiro da Babilônia, que mantinha com Jesus de Nazaré diálogo permanente e amoroso, de Pai para Filho, em profunda intimidade, retira-se e silencia diante da tragédia por que passa o Filho bem-amado.

A cruz de Jesus é o sinal de seu amor fiel à causa do reino de Deus. Não se pode separar a morte de Jesus do resto de sua vida. O martírio de Jesus toma seu sentido pleno como consequência dramática e coerente de sua mensagem e de sua obra; a cruz é o símbolo de sua absoluta fidelidade ao Pai. É, portanto, inseparável das perseguições e conflitos que a precederam; dos critérios, opções e atitudes de Jesus; do conteúdo de sua pregação.

Porque Jesus revelou o Deus verdadeiro; questionou a decadência religiosa e as deformações do discurso oficial sobre Deus; fez publicamente dos pobres e pecadores os preferidos de sua solicitude; combateu os ídolos de sua sociedade; questionou seus falsos valores; Jesus desatou o conflito que o levou à cruz. Portanto, para o cristão, o sofrimento – ou seja, as cruzes da vida – são a sequela coerente do seguimento fiel de Jesus Cristo. Frequentemente certa devoção cristã separou a cruz do resto da vida de Jesus. Isso fez com que a cruz fosse também dissociada da vida cristã em sua cotidianidade. Na verdade, ela está sempre presente, já que seguir Jesus é tornar-se interpelação e contradição no meio do mundo.

Em seu aspecto sombrio e negativo, a cruz nos ensina que o mal estará sempre presente enquanto dure a história. Por mais que o combatamos, sempre reaparece de novas maneiras. Sua persistência é uma trágica realidade. Sua oposição aos valores do Reino de Deus é constante. Por isso, é capaz, hoje como sempre, de trazer para a Igreja e sua missão duros fracassos.

A cruz nos ensina que a conversão do mundo contém a dimensão profunda de uma luta contra o mal (o pecado), expresso hoje em formas concretas: a corrida armamentista, todas as espécies de ameaças contra a vida, a corrupção do amor, a exploração do homem pelo homem, a fome, a miséria, o materialismo e todas as formas de injustiça, a agressão à natureza e ao planeta colocando em risco mortal o futuro da vida.

A Paixão e morte de Jesus de Nazaré, encarnação da inocência e do bem, recorda-nos hoje em dia que os inocentes e justos da terra, os fracos, os pobres e os desamparados continuam sendo crucificados. Pela cruz, a paixão de Cristo é a paixão do mundo, e a paixão do mundo é a paixão de Cristo.

Mas a paradoxo é que a cruz é decisivamente também sinal de esperança. Apesar da presença do mal, sobrepondo-se a ele, a cruz é sinal de esperança certa no reino, de sua eficácia e de sua vitória definitiva sobre todas as formas de pecado.

O paradoxo da cruz consiste em que o que em primeira instância parece um fracasso – a morte de Jesus e o fracasso da causa do reino; a perseguição e a derrota dos bons e o aparente triunfo do mal – por causa do poder de Deus que ressuscita Jesus dentre os mortos, transforma a cruz em fonte de nova vida e de libertação total, e constitui o começo irreversível da destruição do mal em sua raiz.

O mal, para ser superado, requer redenção. A perseguição e a cruz são a dimensão redentora da fidelidade. Ali onde os meios humanos são impotentes para atacar as raízes de todos os males e de todas as injustiças, o sofrimento e as cruzes que acompanham a vida cristã incorporam tudo aquilo que sofrem os discípulos à perseguição e ao martírio do Mestre, Jesus de Nazaré. Assim “completamos o que falta à paixão de Cristo em benefício de seu Corpo, a Igreja” (Col 1,24).

A cruz é o sinal da esperança cristã, porque nos ensina que na história o mal, o egoísmo, a injustiça, não têm a última palavra. A última palavra na história é do bem, da fraternidade, da justiça e da paz encarnados e testemunhados por Jesus e confirmados por Deus Pai na Ressurreição de Seu Filho.

República e Reino

Dom Demétrio Valentini

A próxima semana começa com o dia da República, e termina com o domingo de Cristo Rei.

República e Reino. Até parece combinado. Para arrematar bem este ano litúrgico, nada melhor do que estas duas referências estimuladoras, com o claro desafio de integrar os valores que elas apontam.

Uma visão, portanto, não teórica, mas prática, no intuito de discernirmos como participar concretamente da República, e como, ao mesmo tempo, sentir-nos cidadãos do Reino de Deus.

Logo salta aos olhos que a referência mais rica, mais profunda, mais permanente, é sem dúvida o Reino. Não é por acaso que o Evangelho o menciona com tanta freqüência, a ponto de Cristo ter dedicado a ele a maior parte de suas parábolas. E depois de ter contado tantas, ele mesmo se perguntava com que mais poderia ser comparado o Reino.

Mateus, herdeiro da tradição judaica, fala do “Reino dos Céus”, para evitar de citar, por respeito, o nome de Deus. É sempre prudente não usar em vão o nome de Deus!

São pitorescas as comparações usadas por Cristo. Desde o aceno para o grão de mostarda, até a comparação do banquete, rejeitado pelos convidados, mas oferecido inesperadamente aos pobres.

As muitas comparações usadas por Cristo sugerem que o Reino aponta para a integração, para a harmonia, para a totalidade, onde somos convidados a nos integrar. O Reino não disputa lugar com as outras realidades. Ao contrário, ele integra a todas, apontando o sentido e a finalidade de cada uma, concreta e singular, que assim não se entende perdida ou isolada, mas integrada no conjunto maior.

O Reino supõe harmonia interior, que Jesus expressava de maneira surpreendente e encantadora, e buscava por sua atitude mística de recolher-se longamente em oração.

Jesus fala que o Reino é semelhante ao fermento que a mulher põe na farinha, até que tudo fique levedado. Ou semelhante também ao sal, que torna saborosa a comida. Ou à luz, que deve ser colocada em lugar de destaque para iluminar todo o ambiente.

Com estas comparações, fica claro que o Reino não é alheio à realidade. Ele a respeita, mas tem a força de transformá-la por dentro, não contrariando sua natureza, mas levando-a a desabrochar suas potencialidades.

Portanto, o Reino não é alheio à realidade. Quem se sente animado a participar do Reino, e a agir de acordo com sua inspiração, se volta para a realidade, e procura a maneira adequada de nela interagir.

Pois bem, nesta semana comparece uma realidade muito importante, com um nome bem concreto: a nossa República, a “República Federativa do Brasil”.

Se quisermos ser coerentes com a realidade do Reino, precisamos encontrar a maneira adequada de participar da vida republicana. O cristão se sente participante do Reino, mas também cidadão da república.

Porém, com uma diferença: na esfera do Reino, lidamos com o absoluto, contamos com verdades definitivas, apelamos para a obediência e para a comunhão de pensamentos e de vontades.

Na vida republicana lidamos com o relativo, com o precário, com o provisório, com o limitado, e não podemos invocar sobre estas realidades a mesma postura que adotamos na vivência do Reino. Na República não convém, por exemplo, invocar o nome de Deus! O melhor é cumprir, na prática, a sua vontade.

No Reino se escuta e se obedece. Na República se pensa e se decide. Quando aplicamos à República os mesmos procedimentos do Reino, acabamos desrespeitando a República, mas também traindo o Reino, pois ele aposta, não na imposição, mas no convencimento.

A propósito, isto tem alguma coisa a ver com as recentes eleições acontecidas na República?

Jesus de Nazaré ontem, hoje e sempre

Maria Clara Lucchetti Bingemer

O conhecimento da pessoa e da vida de Jesus Cristo – essa figura que passados dois mil anos ainda fascina e cativa a humanidade – tem necessariamente que passar por sua humanidade, trilhar seus caminhos de terra, viver e sofrer a perplexidade e as perguntas daqueles e daquelas que com ele conviveram para ter acesso a seu mistério.

A reflexão teológica procura, portanto, sempre seguir esse caminho e esse itinerário. A partir de baixo, da carne vulnerável, frágil e exposta de Jesus de Nazaré, um judeu entre tantos, somos chamados a colocar-nos a caminho, em busca do mistério do Deus que ele revela e da salvação que ele traz.

Há duas tendências dominantes na Cristologia hoje: a ascendente e a descendente. Não é legítimo prescindir de nenhuma das duas ao encetar a aventura de uma reflexão cristológica. A “cristologia ascendente” – que vai de baixo para cima, do humano para o divino – vem a ser a explicação mais plausível do mistério de Jesus Cristo. Mas não é uma explicação excludente. Também a “cristologia descendente” – de cima para baixo, do divino para o humano – tem um sentido e uma significação fundamentais para a fé.

A partir do momento em que sabemos que Jesus nos revela o que pertence à essência eterna de Deus, podemos falar de Jesus aplicando-lhe o que corresponde à essa essência eterna do divino. Mas, neste caso, trata-se de uma afirmação ou explicação subsequente. Porque o critério fundamental de interpretação do mistério é o que designamos como “cristologia ascendente”, ou seja: o desdobrar do mistério de Deus na vida humana de Jesus de Nazaré diante dos sentidos humanos. Isso é que vai possibilitar ao Novo Testamento proclamar que o mistério de Deus e o mistério da vida humana são um só e mesmo mistério.

Aqueles que conviveram com Jesus de Nazaré ficaram fascinados com sua personalidade. Parece-nos que aí se destacam três traços da pessoa de Jesus que constituem três vias de acesso a seu mistério. Em primeiro lugar, sua fidelidade ao Deus que ele chama de Pai. Em segundo, sua liberdade, consequência de sua experiência do absoluto de Deus, único ao qual entendia dever fidelidade radical. Em terceiro, o Reino, o projeto do Pai, que é fundamentalmente um projeto de inclusão de tudo e todos que estão à margem. A partir daí se faz patente a preferência de Jesus pelos marginalizados de seu tempo (os pobres, os doentes, as mulheres etc.) e como aí revelava a maneira de Deus se aproximar da humanidade.

Jesus era um apaixonado por sua missão e a entendia de uma maneira muito própria. No centro dessa missão estava o projeto do Reino do Pai, no qual consistia toda a sua paixão. Esse reino é dado a nós como graça, mas também como tarefa. Deve ser construído com todas as forças, embora seja dado por Deus como dom livre de seu amor. Jesus forma uma comunidade – a futura Igreja – que será a artesã desse projeto, encarregada de construí-lo no meio do mundo.

A primeira comunidade chega a reconhecer em Jesus o Messias esperado. Havia uma forte esperança messiânica no tempo de Jesus e os diversos grupos do povo de Israel esperavam por esse Messias. Jesus vai, então, tomando progressiva consciência do messianismo que o Pai deseja para ele e por isso recusa o messianismo davídico que está presente nas expectativas do povo e dos discípulos. Isso o empurra em direção à Jerusalém e à morte.

A partir do desejo do Pai, Jesus entendeu seu caminho e seu destino e assumiu sua morte. A comunidade primitiva leu a morte de Jesus, incompreensível no início, mas depois iluminada por Deus com a vida que não morre como a morte do Servo de Deus, Cordeiro que tira o pecado do mundo.

A Ressurreição de Jesus vem ao encontro das esperanças presentes no seio do Judaísmo, as plenifica e as supera. A Ressurreição é uma revelação e uma experiência que acontece dentro da história, mas que é transistórica, ou seja, supera a história e a transcende, sendo a palavra interpretativa do Pai sobre a vida e a morte de Jesus, revelando-o como o Filho Amado, que não foi retido no poder da morte, mas se tornou vida para todos.

Vivendo e anunciando a fé em Jesus Cristo, Messias e Servo de Deus, Filho querido e amado do Pai de todos os homens e mulheres, a Igreja dos primeiros séculos teve que lutar e refletir para encontrar palavras adequadas que dissessem teologicamente toda a riqueza e a profundidade do seu mistério. Assim é que no Concílio de Nicéia (+325) encontra a maneira de dizer que Ele é consubstancial com o Pai; o concílio de Constantinopla (+381) confirma isso. E quase dois séculos depois o concílio de Calcedônia (+451) encontra a maneira definitiva e feliz de dizer que em Jesus há a natureza divina e humana convivendo harmonicamente e assim Ele revela Deus a nós e nos revela a nós mesmos, oferecendo-nos gratuitamente a salvação.

Ao final deste texto esperamos que estas reflexões, modestas e limitadas, possam ajudar as pessoas a refletir amorosa e profundamente sobre o mistério que nos salva: o mistério do Filho de Deus encarnado que faz a história girar sobre seus gonzos e introduz a humanidade no interior do mistério de Deus. Que um maior conhecimento desse mistério central da fé cristã possa ajudar-nos a ser discípulos mais fiéis e diligentes do Senhor que por nós se fez humano a fim de construir seu Reino em meio à história.

Os contrastes do REINO!

JESUS em Jerusalem põe a publico os contrastes que todos veêm e ninguém fala!

JESUS diz à multidão que ouve seus ensinamentos: Tomai cuidado com os doutores da Lei!

Eles sabem de tudo, gostam de serem vistos, admirados, respeitados, são autoridades, mas enganam os pobres, devoram as casas das viúvas, porque são considerados seus protetores, e assumem todos os seus bens e as deixam sobreviver à mingua (faz lembar a situação das viúvas pensionistas de hoje em dia).

Este grupo tão ilustre, importante e religioso recebe de JESUS uma solene condenação: a pior!

Em contraste, a viúva, pobre, despercebida, ignorada, sem nenhuma importância recebe de JESUS o elogio que a torna depositária das promessas de REINO de DEUS! Não tem o que dar, dá-se a si mesma.

Os poderosos  são colocados em contraste com uma pobre viúva, que diante deles tem mais mérito por ser humana e confiar em DEUS e na sua providência.

A pobre viúva, apesar de explorada pelos que em nome de DEUS deveriam cuidar dela, confia em DEUS e no seu AMOR!

O Reino não pertence aos que dele se fazem donos, mas àqueles a quem DEUS os concedeu e que NELE confiam!

SENHOR, que confie em TI e no TEU AMOR!

Não queira o poder, mas o serviço!

Que aprenda de TI! Amém!

A Semente do REINO!

A parábola da semente de mostarda revela a crise do Reino, ontem e hoje.
A menor semente se torna a maior hortaliça.

Como entender as crises pelas quais passou JESUS, as primeiras comunidades, e as comunidades de hoje?

Como buscar perseverança no meio das dificuldades?
Se a mensagem de JESUS é de transformação e vida porque encontra tanta manipulação , rejeição e até hostilidade ?

As pequenas comunidades encontrarão força para resistir e perseverar?

A parábola da semente de mostarda mostra que apesar de nossa fragilidade a força da semente é grande.

A força do REINO de DEUS não está no poder mas no serviço.
A força do REINO de DEUS não está na acumlação mas na partilha.

Se a semente não cair na terra e não morrer não produzirá fruto nos ensinou JESUS!

A desproporção entre a semente e a hortaliça é espantosa!
A semente cresce vai germinado e o semeador não sabe como isto acontece.

É preciso confiar na força da semente!
É preciso confiar na força do AMOR!

Perseverantes e fiéis caminhamos nos meandros e contradições da história!
Algumas vezes pensamos que não estamos fazendo nada, mas se semeamos a semente por menor que seja, os frutos crescerão mesmo que não saibamos como.

O que não podemos é nos acomodar.

Somos díscipulos e missionários!
JESUS no evangelho de São Marcos sempre recomeça, as crises não desanimam mas ajudam a crescer!

SENHOR que TUA palavra nos reanime!
que TUA ternura nos envolva,
que TUA generosidade nos console,
que TEU amor nos faça caminhar sem
desistir nem desanimar!


Assista à homilia da Missa de 14/06/2009:

Descendo a montanha

A devoção autêntica nasce de um vínculo com o Senhor da vida e do amor. Daí, assim como como flui a água da vertente, brota uma religiosidade apaixonada, entregue e comprometida. Não é forçada, pois, são criaturas que entraram em harmonia natural com seu Deus e criador. É próprio do homem viver em sintonia com quem é a fonte de sua imagem e semelhança.

Jesus convida seus amigos a descobrir realmente quem é. O Senhor e companheiro de todos brilha como o sol no topo da montanha. Descendo da montanha, continua com o seu andar humilde, como filho de seu Pai, e irmão de todos.

Ao associar-se com ele você se transforma completamente. Ele devolve sua dignidade, define sua identidade, e dá sentido aos seus desvelos.

Por outro lado, há também, uma falsa simulação da devoção autêntica. A estrita observância se disfarça de fervor, mas essencialmente, em nada se parece. Quem nunca subiu à montanha com Jesus, às vezes, cai nas garras de “exactismo idolátrico” , desconhecendo o amor apaixonado.

É certo que, em Cristo, não cabem as mediocridades. Para seus discípulos, não há apatia, mas somente radicalidade. Seus seguidores não postergam a opção, deixam tudo para seguir o caminho.

Os que desconhecem o alvor deslumbrante do amor transfigurado fingem seu compromisso radical, dando vazão às suas obsessões pelo cumprimento meticuloso do detalhe, do ritual e da palavra exata. Como bem dizia o Senhor, coam as moscas, mas engolem os camelos. Louvam o Senhor com os lábios, mas pecam pela vaidade espiritual.

Pensam salvar-se por sua própria conta, quando conseguem a ilusória perfeição pessoal.

Pretendem estar sempre com a cabeça metida entre as nuvens, ou pelo menos, que os vejam assim. Não são capazes de descer da montanha, para viver, amar e servir, como o Mestre os ensinou. Suas vidas não dão fruto de misericórdia, pois, querem impor sua doutrina aos demais, mediante obrigações e ameaças.

Eles se preocupam muito com suas próprias virtudes, passando de lado, diante de um irmão necessitado. Oferecem em holocausto os filhos que Deus lhes encomendou.

Não dão testemunho do amor desbordante que se estende aos mais simples, aos doentes e aos excluídos. Repreendem os humildes, por não saber o catecismo de memória. Seu deus é o rigor. Não reconhecem o Senhor que cura, salva e alimenta. Quando excluem aqueles que consideram indesejáveis, sentem-se orgulhosos, como se tivessem feito um grande favor a Deus.

O Reino de Deus não é uma doutrina que se impõe. Pelo contrário, começa com uma maneira de olhar; de ver o Senhor, tal qual é, e deixar ser olhado por ele como você é. Depois, com o mesmo olhar, descendo a montanha, olhar para os outros com os olhos de Jesus, e amar apaixonadamente, como ele amou. Jesus o convida a converter-se, e entrar no Reino.

A esperança como atitude crítica

Frei Betto

A esperança é uma das três virtudes teologais, ao lado da fé e do amor. Rima com confiança, termo que deriva de fé: quem acredita, espera; e quem espera, acredita. Esperar é confiar.

Vivemos um momento novo da história da América Latina. Com a eleição de governos democrático-populares, a esperança dá sinais de se transformar em realidade. Há esperança de que se priorizem as questões sociais e se reduzam significativamente as desigualdades que caracterizam o Continente.

Para Jesus, a esperança se coloca lá na frente, no Reino de Deus, que marca o fim e a plenitude da história, e não lá em cima, enquanto postura verticalista de quem ignora a existência deste mundo ou a rejeita. Hoje, a expressão Reino de Deus possui conotação vaga, metafórica. Pode-se, porém, imaginar o que significava falar disso em pleno reino de César… Não há dúvida da ressonância política do termo, pois Jesus ousou anunciar um outro Reino que não o de César e, por isso, pagou com a vida.

Hoje, a esperança tem conotação secular – a utopia. É curioso observar que, antes do Renascimento, não se falava em utopia. Esta resultou da dessacralização do mundo, da morte dos deuses e, portanto, da necessidade de projetar ou visualizar o mundo futuro. Na medida em que o ser humano, com o advento da modernidade, começou a dominar os recursos técnicos e científicos que interferem no curso da natureza e aprimoram a nossa convivência social, surge a necessidade de antever o modelo ideal, assim como o artista que faz a escultura traz na cabeça ou no papel o desenho da obra terminada. Como afirmou Ernst Bloch, a razão não pode florescer sem esperanças, e a esperança não pode falar sem razão (Karl Marx, Bolonha, 1972, 60).

O marxismo foi a primeira grande religião secular, capaz de traduzir a esperança em sociedade ideal. Ele introduziu na cultura ocidental a consciência histórica, a percepção do tempo como processo histórico, a tal ponto que o ser humano passou a prefigurar sua existência, não mais em referência aos valores subjetivos, mas ao devir, lutando contra os obstáculos que, no ainda-não, impedem a realização do que se espera como ideal libertador.

Para o cristão, a utopia do Reino supera as utopias seculares, sejam elas políticas, técnicas ou científicas. Espera-se, neste mundo, a realização plena das promessas de Deus o que plenifica e transfigura o mundo. Assim, à luz dessas promessas elencadas na Bíblia, o cristão mantém sempre uma postura crítica frente a toda realização histórica, bem como diante dos modelos utópicos. O homem novo e o mundo novo são resultados do esforço humano através do dom de Deus que, em última instância, os conduzem ao ápice. Em outras palavras, quem espera em Cristo não absolutiza jamais uma situação adquirida ou a ser conquistada. Toda progressão é relativa e, portanto, passível de aperfeiçoamento, até que a Criação retorne ao seio do Criador. Pois Deus realiza progressivamente, na história humana, a sua salvação.

A esperança se baseia na memória. Quem espera, rememora e comemora. Nosso Deus não é um qualquer do Olimpo politeísta. É um Deus que tem história e faz memória: Javé, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó. É essa memória que alimenta a consciência crítica, consciência da diferença, da inadequação, ao ainda-não. Pois a utopia cristã sustenta-se na promessa de Deus. Por isso, a esperança cristã não teme o negativo, as vicissitudes históricas, o fracasso. É uma esperança crucificada, que se abre à perspectiva da ressurreição.

Na esperança, nós já fomos salvos. Ver o que se espera já não é esperar: como se pode esperar o que já se vê? Mas, se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos (Romanos 8, 24-25). Como diz a Carta aos Hebreus, a fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem (11, 1). Se a fé vê o que existe, a esperança vê o que existirá, dizia Péguy. E acrescentava: o amor só ama o que existe, mas a esperança ama o que existirá… no tempo e por toda a eternidade.

A esperança é o caminhar na fé para o seu objeto. A fé nos dá a certeza de que Jesus venceu a morte; a esperança, o alento de que venceremos os sinais de morte: a injustiça, o opressão, o preconceito etc. Esse processo não é contínuo, pois somos prisioneiros da finitude, embora trazendo a Infinitude em nossos corações. Por isso, o caminhar é entrecortado de dúvidas e dores, conquistas e alegrias, mas sabe que, se trilha as sendas do amor, tem Deus como guia.