Messias

Jesus de Nazaré ontem, hoje e sempre

Maria Clara Lucchetti Bingemer

O conhecimento da pessoa e da vida de Jesus Cristo – essa figura que passados dois mil anos ainda fascina e cativa a humanidade – tem necessariamente que passar por sua humanidade, trilhar seus caminhos de terra, viver e sofrer a perplexidade e as perguntas daqueles e daquelas que com ele conviveram para ter acesso a seu mistério.

A reflexão teológica procura, portanto, sempre seguir esse caminho e esse itinerário. A partir de baixo, da carne vulnerável, frágil e exposta de Jesus de Nazaré, um judeu entre tantos, somos chamados a colocar-nos a caminho, em busca do mistério do Deus que ele revela e da salvação que ele traz.

Há duas tendências dominantes na Cristologia hoje: a ascendente e a descendente. Não é legítimo prescindir de nenhuma das duas ao encetar a aventura de uma reflexão cristológica. A “cristologia ascendente” – que vai de baixo para cima, do humano para o divino – vem a ser a explicação mais plausível do mistério de Jesus Cristo. Mas não é uma explicação excludente. Também a “cristologia descendente” – de cima para baixo, do divino para o humano – tem um sentido e uma significação fundamentais para a fé.

A partir do momento em que sabemos que Jesus nos revela o que pertence à essência eterna de Deus, podemos falar de Jesus aplicando-lhe o que corresponde à essa essência eterna do divino. Mas, neste caso, trata-se de uma afirmação ou explicação subsequente. Porque o critério fundamental de interpretação do mistério é o que designamos como “cristologia ascendente”, ou seja: o desdobrar do mistério de Deus na vida humana de Jesus de Nazaré diante dos sentidos humanos. Isso é que vai possibilitar ao Novo Testamento proclamar que o mistério de Deus e o mistério da vida humana são um só e mesmo mistério.

Aqueles que conviveram com Jesus de Nazaré ficaram fascinados com sua personalidade. Parece-nos que aí se destacam três traços da pessoa de Jesus que constituem três vias de acesso a seu mistério. Em primeiro lugar, sua fidelidade ao Deus que ele chama de Pai. Em segundo, sua liberdade, consequência de sua experiência do absoluto de Deus, único ao qual entendia dever fidelidade radical. Em terceiro, o Reino, o projeto do Pai, que é fundamentalmente um projeto de inclusão de tudo e todos que estão à margem. A partir daí se faz patente a preferência de Jesus pelos marginalizados de seu tempo (os pobres, os doentes, as mulheres etc.) e como aí revelava a maneira de Deus se aproximar da humanidade.

Jesus era um apaixonado por sua missão e a entendia de uma maneira muito própria. No centro dessa missão estava o projeto do Reino do Pai, no qual consistia toda a sua paixão. Esse reino é dado a nós como graça, mas também como tarefa. Deve ser construído com todas as forças, embora seja dado por Deus como dom livre de seu amor. Jesus forma uma comunidade – a futura Igreja – que será a artesã desse projeto, encarregada de construí-lo no meio do mundo.

A primeira comunidade chega a reconhecer em Jesus o Messias esperado. Havia uma forte esperança messiânica no tempo de Jesus e os diversos grupos do povo de Israel esperavam por esse Messias. Jesus vai, então, tomando progressiva consciência do messianismo que o Pai deseja para ele e por isso recusa o messianismo davídico que está presente nas expectativas do povo e dos discípulos. Isso o empurra em direção à Jerusalém e à morte.

A partir do desejo do Pai, Jesus entendeu seu caminho e seu destino e assumiu sua morte. A comunidade primitiva leu a morte de Jesus, incompreensível no início, mas depois iluminada por Deus com a vida que não morre como a morte do Servo de Deus, Cordeiro que tira o pecado do mundo.

A Ressurreição de Jesus vem ao encontro das esperanças presentes no seio do Judaísmo, as plenifica e as supera. A Ressurreição é uma revelação e uma experiência que acontece dentro da história, mas que é transistórica, ou seja, supera a história e a transcende, sendo a palavra interpretativa do Pai sobre a vida e a morte de Jesus, revelando-o como o Filho Amado, que não foi retido no poder da morte, mas se tornou vida para todos.

Vivendo e anunciando a fé em Jesus Cristo, Messias e Servo de Deus, Filho querido e amado do Pai de todos os homens e mulheres, a Igreja dos primeiros séculos teve que lutar e refletir para encontrar palavras adequadas que dissessem teologicamente toda a riqueza e a profundidade do seu mistério. Assim é que no Concílio de Nicéia (+325) encontra a maneira de dizer que Ele é consubstancial com o Pai; o concílio de Constantinopla (+381) confirma isso. E quase dois séculos depois o concílio de Calcedônia (+451) encontra a maneira definitiva e feliz de dizer que em Jesus há a natureza divina e humana convivendo harmonicamente e assim Ele revela Deus a nós e nos revela a nós mesmos, oferecendo-nos gratuitamente a salvação.

Ao final deste texto esperamos que estas reflexões, modestas e limitadas, possam ajudar as pessoas a refletir amorosa e profundamente sobre o mistério que nos salva: o mistério do Filho de Deus encarnado que faz a história girar sobre seus gonzos e introduz a humanidade no interior do mistério de Deus. Que um maior conhecimento desse mistério central da fé cristã possa ajudar-nos a ser discípulos mais fiéis e diligentes do Senhor que por nós se fez humano a fim de construir seu Reino em meio à história.

Páscoa: manifestação de Deus e futuro da humanidade

Maria Clara Lucchetti Bingemer

A experiência cristã primitiva e seu anúncio primeiro era que Jesus havia ressuscitado dentre os mortos. Juntamente com isto, proclamava que esse que morrera e ressuscitara era o Messias e o Cristo de Deus. Por isto o Reino havia chegado e a nova era havia despontado. Esse Jesus que havia liderado a vinda do Reino era reconhecido desde muito cedo na história do Cristianismo como Messias. O antigo fariseu Paulo, trinta anos após a morte de Jesus, referia-se a ele como Cristo, o que mostra quão firmemente dentro da mais antiga tradição a idéia do caráter messiânico de Jesus havia sido sustentada. E a explicação para isto não poderia ser sustentada somente devido a sua ressurreição dentre os mortos. A vida de Jesus era lida de forma inseparável com sua morte e ressurreição. Esta última era a confirmação da identidade messiânica daquele que vivera e morrera.

Havia certamente muitas variações na crença messiânica judaica deste período. Nenhuma delas imaginava um Messias que morreria pelas mãos dos pagãos. Contudo, em nenhum outro caso, de um século antes de Jesus até um século depois dele, ouvimos falar de algum grupo judaico dizendo que seu líder executado pelos pagãos havia ressuscitado dentre os mortos. Por isso, uma vez que Jesus de Nazaré foi certamente crucificado como um rebelde é extremamente surpreendente que os primeiros cristãos não apenas insistissem em que ele era realmente o Messias, mas reordenassem sua visão de mundo, sua práxis, suas histórias, símbolos e teologia em torno desta crença.

Por que então o Cristianismo começou e, mais que isso, continuou, como um movimento messiânico, quando seu Messias tão claramente não apenas deixou de fazer aquilo que se esperava que um Messias fizesse mas sofreu um destino que deveria mostrar de forma conclusiva que ele não poderia ter sido o ungido de Israel? Por que este grupo de judeus do primeiro século, que tinham acalentado esperanças messiânicas e as havia centralizado em Jesus de Nazaré, não apenas continuou a crer que ele era o Messias apesar de sua execução, mas ativamente o anunciou como tal tanto ao mundo pagão como ao mundo judaico? Por que o fez alegremente redesenhando o quadro do messianismo em torno dele, ao mesmo tempo em que se recusava a abandoná-lo?

A resposta que deram era que Jesus, após sua execução sob a acusação de ser um pretenso Messias, havia ressuscitado dentre os mortos. A ressurreição foi desde cedo, portanto, a força motora central do Cristianismo, dando forma ao movimento inteiro. Era a confirmação do atípico messianismo de Jesus. Em especial, podemos ver entretecida na teologia cristã mais antiga que temos – a de Paulo – a crença firme de que a ressurreição tinha realmente acontecido e que os seguidores de Jesus deviam reordenar suas vidas, suas narrativas, seus símbolos, e sua práxis de acordo com ela (Cf o que diz Rom. 6:3-11; e tb. 1 Cor 15).

Diante do absoluto fracasso que representou a morte de Jesus, a única explicação para o comportamento de seus seguidores, suas histórias, seus símbolos e sua teologia é que eles realmente acreditavam que Jesus havia ressuscitado dentre os mortos. De fato, a crucifixão de Jesus era símbolo de esperança não apenas derrotada, mas esmagada e dizimada.

O fato teologal da ressurreição expressa a experiência dos discípulos com aquele que viram morto e agora se manifestava vivo em seu meio. Assim, eles buscavam transmitir que a crucifixão de Jesus não era uma trágica derrota, mas um ato divino de salvação. Nela, os primeiros cristãos afirmam que o eschaton, o esperado Reino de Deus, havia chegado; o Rabbi de Nazaré crucificado era o Messias; ele havia ressuscitado dentre os mortos e “a ressurreição dos mortos” havia já e finalmente ocorrido.

A afirmação cristã primitiva universal é que Jesus atravessara a morte não apenas em algum estado intermediário ou existência desprovida de corporeidade, mas que sua pessoa havia sido transformada de uma maneira para a qual eles, seus seguidores, estavam despreparados, mas que pela aparição e o testemunho, aceitaram e acolheram. Acreditavam que com isso seu anúncio do Reino tinha atingido o clímax, o cumprimento, em sua morte e ressurreição.

A ressurreição de Jesus constitui, pois, artigo fundamental da fé cristã, a ponto de São Paulo poder dizer: “Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação; vazia também é a vossa fé… Se Cristo não ressuscitou, vazia é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados” (1Cor 15, 14.17). Nos escritos do Novo Testamento e nos da primeira Tradição cristã é tal a ênfase na ressurreição de Jesus que ela ocupa lugar primordial e indispensável no conjunto das verdades da fé.

E a afirmação incontestável da Ressurreição por parte do Novo Testamento não quer significar a reanimação de um cadáver, mas a manifestação plena e gloriosa daquele que foi visto vivo e depois morto e agora se apresenta com a plenitude de sua pessoa animada pelo Espírito da vida e sobre quem a morte já não tem poder.

A ressurreição é o selo de autenticação da vida de Jesus e de sua morte.

Jesus, como homem, morreu após haver pregado a boa notícia da chegada do Reino de Deus. Deus seu Pai o ressuscitou testemunhando, por este sinal de sua onipotência, da autenticidade da pregação de Jesus. Não sem razão as fórmulas de fé mais antigas apresentam o Pai como autor da ressurreição de Jesus: “Deus ressuscitou esse Jesus, e disto nós todos somos testemunhas” (At 2, 32), diz Pedro no relato de Pentecostes. A propósito escreve João Paulo II na encíclica “Dives in Misericórdia”: “A cruz não é a última palavra do Deus da aliança: essa palavra será pronunciada na alvorada quando as mulheres, em primeiro lugar, e os discípulos, depois, indo ao sepulcro do Crucificado, verão o túmulo vazio e proclamarão pela primeira vez: ‘Ressuscitou!’“

Por isso hoje ao celebrarmos a ressurreição do Crucificado, estamos proclamando também a nossa. Todos nós estamos destinados à vida e não à morte. Estamos ressuscitados com Cristo e só nele está nossa plenitude de vida. Nossa esperança está fundada na fé no Filho de Deus, que nos amou, se entregou por nós e foi ressuscitado pelo Pai ao terceiro dia. Aleluia!

Os Ramos que antecedem a Paixão

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Como muitas vezes na vida nos acontece, agora esta acontecendo com Jesus. A liturgia deste domingo que inicia oficialmente a celebração de seus últimos dias o mostra aclamado antes de ser crucificado. O povo o aclama como bendito, como aquele que vem em nome do Senhor. Colocam ramos à sua passagem como tapetes cobrindo o chão por onde passa o burrinho no qual está montado. E chamam Filho de David aquele que vem humilde e manso, revertendo as expectativas messiânicas do povo, que esperava um rei com glória e poder, chegando majestoso e com sinais de pompa. Jesus de Nazaré ao entrar em Jerusalém onde se dará o seu suplicio dentro de poucos dias é aclamado como o Messias esperado por Israel.

O conceito de Messias vem do judaísmo. Representa a esperança de Israel na vinda do enviado de Deus, quando a Aliança deste com o povo eleito chegará à sua plenitude e as promessas se cumprirão em toda a sua extensão. A idéia de Messias se liga à esperança de um mundo renovado por Deus, um mundo de justiça e paz, íntegro e redimido. O Messias é aquele que inaugura este novo tempo, o Reino de Deus entre os homens. Por isso a expectativa messiânica é uma idéia e uma esperança profundamente revolucionárias. É a afirmação de um futuro radicalmente distinto do passado. E é a negação de uma história cíclica condenada à repetição infindável de suas grandezas e misérias. Essa idéia, que fez a humanidade dar um verdadeiro salto qualitativo, foi fundamento de muitos movimentos libertários na história ocidental.

Nunca mais o mundo foi o mesmo depois que surgiu a fé no Messias.

Como dizia um sábio judeu: “Cada segundo é uma porta estreita por onde o Messias pode entrar”. Dentre todas as formas de expectativas e aspirações em torno à figura do Messias, há elementos comuns que permitem sintetizar a figura de um messias político do qual se esperava que devesse restaurar a glória do Império Davídico. No século I da nossa era, os judeus apegados à corrente que liderava o povo desde o tempo dos reis e dos profetas, esperavam um Messias filho de Davi que realizasse, em primeiro lugar, a sua libertação política, e vencesse (ou até exterminasse!) as potências pagãs, estabelecendo em Israel uma ordem social justa e conforme as exigências da Tora. Ele restituiria ao Estado judeu o brilho perdido há muito tempo, asseguraria um reconhecimento universal do Deus único, permitiria a irradiação do Templo em que todas as comunidades dispersas viriam em peregrinações regulares até a sede do Judaísmo oficial. Em suma, o Messias seria aquele que conduziria ao seu coroamento a obra dos grandes reis de outrora. Esse sonho aparecia no horizonte desde o momento em que era pronunciado o nome do Messias. Certamente ele está subordinado ao tema muito mais fundamental do Reino de Deus, ele mesmo ligado à observância da Torah. Mas ele não é independente desse tema: é até a condição indispensável dele. Assim a esperança conserva uma dimensão de nacionalismo religioso, dimensão esta que até hoje não foi posta em questão por nada: o povo, a terra, o Templo, o culto, são aspectos indispensáveis da salvação esperada; a ‘redenção de Israel’ passa necessariamente por eles.

Jesus, porém experimentou sua autoconsciência messiânica não em termos de um messianismo régio ou monárquico ou mesmo de uma condição de ser pré-existente, mas de um chamado divino ao qual ele deu resposta de plena e total obediência filial. O que caracteriza, portanto o messianismo de Jesus é o fato de sentir-se eleito e enviado para realizar uma missão divina particular e obedecer estritamente ao chamado de Deus. Nesse sentido as ações e o ensinamento de Jesus mostram que ele se autocompreendia dentro de uma relação marcante com Deus seu Pai e investido de uma missão especial. O sofrimento e a morte, do mesmo modo que a esperança na ressurreição foram assumidos como decorrência da obediência irrestrita à vontade do Pai. Essa vontade, necessariamente, contrariava a vontade daqueles que não aceitavam o messianismo de Jesus e sua ação libertadora.

Entrando em Jerusalém humildemente montado em um jumentinho, Jesus mostra que seu messianismo está relacionado com o serviço a Deus e não é monárquico e triunfal. Do ponto de vista político, Jesus será rejeitado justamente pelas autoridades formadas pelos anciãos, sacerdotes e escribas, representantes das principais correntes do Sinédrio. São esses que o condenarão. O sonho de glória dos discípulos que esperavam participar de um poder terreno de Jesus, é transtornado e frustrado pela realidade do sofrimento de Jesus.

O itinerário de Jesus contém a resposta sobre a identidade de seu messianismo. Apoiando-se sobre a promessa de Deus, e não sobre as expectativas humanas, ele quis ir ao encontro do ser humano naquilo que este tem de mais verdadeiro e fundamental: sua liberdade e responsabilidade. Jesus mostra por sua vida qual é a prática que convém pôr em marcha para significar a concretização do projeto do Reino de justiça e para que o verdadeiro Deus seja adorado. O amor e o serviço vão juntos com o reconhecimento de Deus que é amor.

A fecundidade histórica do messianismo de Jesus não será, portanto, fruto do poder, mas do serviço mais humilde, que começa a partir de baixo, resgatando a todos a partir dos mais pobres, oprimidos e diminuídos da sociedade. O caminho de Jesus de Nazaré, reconhecido e proclamado Messias de Deus, irá em curva descendente, sempre para baixo até desembocar na morte. Será um caminho difícil e doloroso.

Deverá fazer-se entre a recusa de uma salvação que poderia ser fuga das realidades deste mundo em nome de uma espiritualidade desencarnada e a recusa de uma salvação que prefere ao perdão e à misericórdia gratuita e sem limites a violência dominadora. Eis por que as testemunhas desta salvação trazida por Jesus, homem que vem de Deus, são não os poderosos, mas os pequenos e rejeitados, os marginalizados de toda sorte.

Esta é a lógica de Deus que Jesus de Nazaré assumiu e revelou em toda plenitude. Para revelar uma reconciliação universal, era necessário começar a situar seus sinais a partir dos excluídos.

Não é nem seria possível haver excluídos à mesa de Jesus porque seus anfitriões são justamente os excluídos. Jesus revela em sua pessoa e em sua prática que a salvação de Deus é recusa de poder e de violência que rejeita e mata. E é por isso que as vítimas de toda sorte e os pobres é que lhe vão à frente e preparam seu caminho.

O profeta que entra em Jerusalém aclamado pelo povo entende sua missão messiânica como serviço ate o fim. Jesus Cristo, que será depois exaltado como Senhor à direita de Deus Pai, é inseparavelmente o servo que se esvazia das prerrogativas gloriosas de sua condição divina, para entrar num caminho de obediência que o levará até o sacrifício da cruz. É este o mistério que celebramos no Domingo de Ramos.