Nazaré

Cruz: suplício ou esperança?

Maria Clara Bingemer

A novidade da revelação cristã de Deus exige um ser humano novo, uma nova criatura. Sendo revelação de um mistério, só pode ser captada pela fé. Por isso, quando os Evangelhos apresentam Jesus, seus atos e palavras, eles o fazem de maneira misteriosa e velada.

Aqueles que no tempo de Jesus detinham o poder religioso e a interpretação oficial da verdadeira religião, declarando-a única e legítima, interpretaram Jesus como alguém que agia movido pelo espírito de Belzebu, e não pelo Espírito Santo. Consequentemente, por ser interpretado assim, Jesus devia morrer. Esse conflito o levou à condenação e à morte.

É aí que se levanta a grande questão que interpela a teologia e coloca a fé em cheque. O acontecimento da condenação e morte de Jesus é que vai pôr o selo definitivo na questão sobre sua natureza divina e sobre a identidade do Deus da revelação. Jesus é preso, acusado, condenado, torturado e morto. E diante de sua morte, seus seguidores silenciam e se dispersam, deixando-o sozinho. Fracassado e abandonado, ele e seu projeto são expostos à execração pública, aparentemente fracassados e destruídos. E não somente as testemunhas se calam. Deus também se cala. O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, que não suportou ver o povo sofrendo no Egito e no cativeiro da Babilônia, que mantinha com Jesus de Nazaré diálogo permanente e amoroso, de Pai para Filho, em profunda intimidade, retira-se e silencia diante da tragédia por que passa o Filho bem-amado.

A cruz de Jesus é o sinal de seu amor fiel à causa do reino de Deus. Não se pode separar a morte de Jesus do resto de sua vida. O martírio de Jesus toma seu sentido pleno como consequência dramática e coerente de sua mensagem e de sua obra; a cruz é o símbolo de sua absoluta fidelidade ao Pai. É, portanto, inseparável das perseguições e conflitos que a precederam; dos critérios, opções e atitudes de Jesus; do conteúdo de sua pregação.

Porque Jesus revelou o Deus verdadeiro; questionou a decadência religiosa e as deformações do discurso oficial sobre Deus; fez publicamente dos pobres e pecadores os preferidos de sua solicitude; combateu os ídolos de sua sociedade; questionou seus falsos valores; Jesus desatou o conflito que o levou à cruz. Portanto, para o cristão, o sofrimento – ou seja, as cruzes da vida – são a sequela coerente do seguimento fiel de Jesus Cristo. Frequentemente certa devoção cristã separou a cruz do resto da vida de Jesus. Isso fez com que a cruz fosse também dissociada da vida cristã em sua cotidianidade. Na verdade, ela está sempre presente, já que seguir Jesus é tornar-se interpelação e contradição no meio do mundo.

Em seu aspecto sombrio e negativo, a cruz nos ensina que o mal estará sempre presente enquanto dure a história. Por mais que o combatamos, sempre reaparece de novas maneiras. Sua persistência é uma trágica realidade. Sua oposição aos valores do Reino de Deus é constante. Por isso, é capaz, hoje como sempre, de trazer para a Igreja e sua missão duros fracassos.

A cruz nos ensina que a conversão do mundo contém a dimensão profunda de uma luta contra o mal (o pecado), expresso hoje em formas concretas: a corrida armamentista, todas as espécies de ameaças contra a vida, a corrupção do amor, a exploração do homem pelo homem, a fome, a miséria, o materialismo e todas as formas de injustiça, a agressão à natureza e ao planeta colocando em risco mortal o futuro da vida.

A Paixão e morte de Jesus de Nazaré, encarnação da inocência e do bem, recorda-nos hoje em dia que os inocentes e justos da terra, os fracos, os pobres e os desamparados continuam sendo crucificados. Pela cruz, a paixão de Cristo é a paixão do mundo, e a paixão do mundo é a paixão de Cristo.

Mas a paradoxo é que a cruz é decisivamente também sinal de esperança. Apesar da presença do mal, sobrepondo-se a ele, a cruz é sinal de esperança certa no reino, de sua eficácia e de sua vitória definitiva sobre todas as formas de pecado.

O paradoxo da cruz consiste em que o que em primeira instância parece um fracasso – a morte de Jesus e o fracasso da causa do reino; a perseguição e a derrota dos bons e o aparente triunfo do mal – por causa do poder de Deus que ressuscita Jesus dentre os mortos, transforma a cruz em fonte de nova vida e de libertação total, e constitui o começo irreversível da destruição do mal em sua raiz.

O mal, para ser superado, requer redenção. A perseguição e a cruz são a dimensão redentora da fidelidade. Ali onde os meios humanos são impotentes para atacar as raízes de todos os males e de todas as injustiças, o sofrimento e as cruzes que acompanham a vida cristã incorporam tudo aquilo que sofrem os discípulos à perseguição e ao martírio do Mestre, Jesus de Nazaré. Assim “completamos o que falta à paixão de Cristo em benefício de seu Corpo, a Igreja” (Col 1,24).

A cruz é o sinal da esperança cristã, porque nos ensina que na história o mal, o egoísmo, a injustiça, não têm a última palavra. A última palavra na história é do bem, da fraternidade, da justiça e da paz encarnados e testemunhados por Jesus e confirmados por Deus Pai na Ressurreição de Seu Filho.

Não desprezar ao Profeta

Jose Antonio Pagola

14 Domingo do Tempo ordinário (b) Marcos 6,1-6

O relato não deixa de ser surpreendente. Jesus foi rejeitado justamente em sua própria cidade, entre aqueles que acreditavam conhece-lo melhor do que ninguém. Chega a Nazaret, acompanhado de seus discípulos, e ninguém sai a seu encontro, como acontece às vezes em outros lugares. Também não lhe apresentam os doentes da aldeia para curá-los.

Sua presença só desperta neles espanto. Não sabem quem pôde ensinar-lhe uma mensagem tão cheia de sabedoria. Também não podem se explicar de onde vem a força curadora de suas mãos. A única coisa que sabem é que Jesus é um trabalhador nascido em uma família de sua aldeia. Fora disso, tudo para eles “é escandaloso”.

Jesus sente-se “desprezado”: os seus não o aceitam como o portador da mensagem e da salvação de Deus. Eles se formaram uma idéia de seu vizinho Jesus e resistem a abrir-se ao mistério que se esconde em sua pessoa. Jesus recorda-lhes um ditado que, provavelmente, todos conhecem: “Não há profeta sem honra, senão na sua terra, entre os seus parentes e na sua casa”.

Ao mesmo tempo, Jesus “admirou-se da incredulidade deles”. É a primeira vez que experimenta uma rejeição coletiva, não dos líderes religiosos, mas de toda a sua cidade. Ele não esperava isto dos seus. Sua incredulidade chega mesmo a bloquear sua capacidade de curar: “não pôde fazer ali nenhum milagre, senão curar uns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos”.

Marcos não narra este episódio para satisfazer à curiosidade de seus leitores, mas para advertir às comunidades cristãs que Jesus pode ser rejeitado precisamente por aqueles que acreditam conhecê-lo melhor: aqueles que se fecham em suas idéias preconcebidas sem se abrir nem à novidade de sua mensagem nem ao mistério de sua pessoa.

Como estamos acolhendo a Jesus aqueles que acreditamos ser os “seus”? No meio de um mundo que tem se tornado adulto, nossa fé não é infantil demais e superficial? Não vivemos indiferentes demais à novidade revolucionária de sua mensagem? Não é estranha nossa falta da fé em sua força transformadora? Não corremos o risco de apagar seu Espírito e de desprezar sua profecia?

Esta é a preocupação de Paulo de Tarso: “Não extingais o Espírito, não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom” (1 Tessalonicenses 5 19-21). Nós não precisamos algo disto, os cristãos de nossos dias?