economia solidária

Economia e Vida (XI): economia solidária e o reinado de Deus

Jung Mo Sung

No artigo anterior eu afirmei que a luta pela vida das pessoas concretas sempre começa no nível das interrelações humanas e sociais, isto é, no nível micro-social. A luta pela nossa vida e a experiência de compaixão que leva a solidariedade sempre se dão em contextos locais, onde as pessoas interagem entre si e com a natureza. A noção de sociedade ou de macro-economia é resultado de uma abstração intelectual. Nós só chegamos a descobrir a noção de sociedade ou de estruturas econômicas quando percebemos que as “causas locais” ou as intenções das pessoas não são mais suficientes para explicar os acontecimentos que afetam as nossas vidas. Ninguém jamais viu “a sociedade”. Nós vemos pessoas, prédios e outras coisas, mas não a sociedade. Sabemos que a sociedade existe, que vivemos dentro dela, mas não a vemos com os nossos olhos. Podemos dizer que a vemos com a nossa “cabeça”, porque temos internalizada em nossas cabeças a noção de sociedade.

É no âmbito micro-social das relações humanas e sociais concretas que surgiram e surgem os projetos de economia solidária. Entre as características dos mais diversos tipos de projetos econômico-sociais que fazem parte do que hoje se chama de economia solidária, podemos destacar: a) a solidariedade ou a cooperação como o espírito que move os empreendimentos locais e a rede que vai se construindo entre esses; b) participação dos “associados/trabalhadores” nas discussões e decisões, subvertendo a relação vertical que domina nas empresas capitalistas ou socialistas; c) o objetivo imediato de melhorar as condições de vida dos participantes e da sua região.

O grande valor desses empreendimentos econômicos é que neles se realizam concretamente alguns dos aspectos fundamentais da relação economia e vida na perspectiva da fé: a) melhoria nas condições materiais da vida; b) a afirmação do ser humano como um ser de dignidade, com auto-estima e reconhecimento mútuo. Projetos econômicos e sociais que atendem somente um desses dois aspectos são, na perspectiva da fé cristã e também na perspectiva humanista, falhos. É por isso que não basta uma comunidade (de fé ou de outro tipo) ajudar os pobres se não resgata ou promove a auto-estima e o senso de dignidade dessas pessoas marginalizadas ou diminuídas pela sociedade; assim como não se pode resgatar a dignidade dessas pessoas sem preocupar com as condições materiais da sua vida. Como disse Jesus, “Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra de Deus” (Lc 4,4), isto é, de pão e da Palavra que resgata a dignidade de todas as pessoas. Resgate da dignidade que só pode acontecer na medida em que se luta pelo seu pão e pelo do próximo, dos mais necessitados.

O grande número desses empreendimentos e das suas conquistas, no meio de dificuldades e desafios, traz para nós uma nova questão. Na medida em que essas experiências são realmente gratificantes e torna a vida de todos/as os/as participantes melhores, muitos propõem que a economia solidária deva ser o projeto de uma nova sociedade, substituindo o socialismo como uma alternativa ao capitalismo. Isto é, projetam no nível macrossocial, global, a experiência micro ou ainda marginal na economia. É como se não houvesse diferenças qualitativas entre o âmbito micro da economia e sociedade e o do macro.

Outros, por não concordar que se possa construir uma economia solidária em nível nacional ou global, não reconhecem os valores desses trabalhos e empreendimentos. No fundo, os dois grupos baseiam-se no mesmo princípio. O primeiro diz: como funciona bem no nível macro, também deve ser o modelo para o macro. O segundo diz, como não é possível funcionar no nível macro, não tem valor nem mesmo para o âmbito local e regional. Os dois grupos continuam buscando uma única solução para âmbitos e problemas diferentes.

Eu penso que devemos sair desta polarização e reconhecer que a economia solidária é uma proposta importante, necessária e muito boa para vida de muitas pessoas, mesmo que não possa ser aplicada – pelo menos sem grandes adaptações que a modificariam- à economia em escala global. É fundamental conhecer os limites e os valores de projetos e trabalhos concretos para não cairmos no erro de nos cobrarmos ou cobrar de outros objetivos que estão além das possibilidades. Quem se cobra ou cobra de outros a realização de objetivos não-factíveis acaba só semeando frustração e paralisia.

Na perspectiva da fé cristã, um trabalho não vale porque cria uma solução definitiva para os problemas do mundo, mas porque é expressão do amor solidário e resgata a vida das pessoas que viviam na morte. Essa passagem da morte para a vida pode ser chamada de reinado de Deus que acontece no meio de nós. Não importa quão pequeno é o resultado em termos de estatística, o que conta é o que significou e significa na vida das pessoas. Mas, é claro também que a compaixão (a dor que sinto pela dor do/a outro/a) nos leva a queremos ampliar ao máximo os resultados e os alcances de trabalhos como o da economia solidária.

Campanha da Fraternidade tem cartilha sobre Economia Solidária

Sergio Mariani e Mayrá Lima

Com o tema Economia e Vida, a Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano tem como um dos objetivos chamar atenção para a Economia Solidária como forma de desenvolvimento das comunidades e combate à pobreza. Para embasar a sociedade sobre o tema, a Campanha disponibilizou a cartilha “Economia Solidária: Outra Economia a Serviço da Vida”, material que será distribuído por todo o Brasil.

A cartilha surgiu do diálogo entre Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES), Cáritas Brasileira, Instituto Marista de Solidariedade e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic). O objetivo é trazer a Economia como algo que faz parte do nosso dia a dia como gestão da vida. Dessa forma, a Economia Solidária pode trazer soluções e apontar caminhos para que essa economia seja vitsa sob uma perspectiva humana e de cuidado com as relações sociais e o meio ambiente. “Esperamos que a publicação aproxime nosso diálogo com outros movimentos sociais e diversos atores e pessoas da sociedade”, diz a apresentação da cartilha.

Baixe a cartilha “Economia Solidária: Outra Economia a Serviço da Vida

Sergio Mariani é Assessor do Centro Nacional de Formação em Economia Solidária – CFES. Mayrá Lima é jornalista.

Economia e Vida (I): a missão

Jung Mo Sung

Nas próximas semanas, uma boa parte das comunidades católicas e de outras Igrejas que participam da Campanha da Fraternidade Ecumênica vai começar a debater sobre “economia e vida”. Eu gostaria de contribuir nessa discussão com uma série de artigos (espero que eu possa manter o ritmo semanal) sobre o tema da CF.

Quero começar com a pergunta: qual é o assunto central da CF? Muitos poderão responder rapidamente que é a economia. Respostas rápidas assim podem nos levar a repetir os velhos esquemas mentais e nos fazer a reduzir a CF a discussões sobre temas e questões econômicas, como por ex., o desemprego, pobreza, economia solidária etc.

Entretanto, o tema proposta pela CF não é economia, mas sim a relação entre “economia e vida”, vista na perspectiva da fé cristã. Eu gostaria de destacar aqui duas dimensões dessa relação: a) a materialidade da vida; b) o aspecto teológico-espiritual da economia.

Há em muitas tradições religiosas, seja do Ocidente ou do Oriente, uma tendência de “espiritualizar” a noção de vida. Por exemplo, quando cristãos falam da salvação, uma grande parte pensa na salvação da alma. Isto é, estão preocupados com a vida eterna da alma. A vida que interessa realmente é a eterna de um “ser incorpóreo” (sem corpo). Com isso, a noção de vida vai se “espiritualizando” (no mal sentido), perdendo a sua dimensão corpóreo-material. Por isso, a missão das igrejas se concentra na evangelização ou na Pregação da Palavra entendidas como não tendo relação com aspectos materiais e econômicos da vida humana. A ação ou preocupação social em favor das pessoas pobres ou em necessidade se torna um complemento secundário à missão. O mais importante seria a salvação da alma.

Essa é uma das razões pela qual muitos grupos religiosos não se interessam pelo tema ou questões da economia nas suas discussões ou preocupações religiosas. Em grupos assim, o tema da CF deste ano não é importante para missão das Igrejas e será esquecido logo após a Campanha, se é que não será deixado de lado até mesmo no período da Campanha.

Essa separação é reforçada também, mesmo que inconsciente ou não intencionalmente, por grupos que assumem, em nome da sua fé, lutas econômicas e sociais, mas não conseguem elaborar um discurso religioso-espiritual capaz de articular de modo coerente a relação economia e fé. Esses grupos tendem a justificar as suas lutas e preocupações em nome da ética (bem-comum) ou da doutrina social da Igreja, mas não em relação à evangelização, salvação ou missão da Igreja. Infelizmente, muitos cristãos atuantes no campo econômico-social-político têm dificuldade em falar sobre evangelização, salvação ou missão, como se isso não fizesse parte do “cristianismo de libertação” ou como se “libertação” não tivesse muito a ver com salvação. (Provavelmente uma boa parte da responsabilidade disso cabe a teólogos, assessores e formadores).

A CF deste ano deve ajudar as comunidades a tomarem mais consciência da materialidade da vida e da íntima relação entre essa dimensão e a salvação. A Bíblia, diferentemente da filosofia grega que divide o ser humano em corpo X alma, nos ensina que, na criação, Deus insuflou nas narinas do ser humano “um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2,7). Nós somos seres viventes e como tais lutamos contra a morte. E a imagem de “sopro de vida” nos lembra que a vida é o dom mais precioso que recebemos de Deus, que a vida vem de “dentro” de Deus (nosso Deus é Deus da Vida) e que, como sopro, a vida é algo frágil que precisa ser continuamente cuidada e preservada. Por isso, a Bíblia continua a narrativa dizendo que Deus fez brotar da terra “toda espécie de árvore formosa para ver e boas de comer”. A vida humana é para ser vivida na formosura, beleza, e com boa comida partilhada.

É pela mesma razão que Jesus disse que veio para que todos nós tenhamos vida e a tenhamos em abundância (cf. Jo 1010), assim como nós celebramos na eucaristia a memória de Jesus, que viveu e lutou para que a mesa compartilhada fosse uma realidade para toda a humanidade e, por isso, deixou o seu corpo como comida e o seu sangue como bebida. E na missa católica apresentamos, na oferta, “o pão que é fruto da terra e do trabalho do homem”.

A vida humana depende do trabalho e da “natureza”, depende também de como funciona a economia. E salvar a vida contra as forças da morte e contra as mentiras (8º. mandamento, na versão da Igreja Católica e 9º na versão das Igrejas protestante) e idolatrias que justificam essas mortes em nome de falsos deuses das (2º/3o. mandamento) é a missão do cristianismo e das igrejas.

Se perdermos de vista a dimensão material-econômica da vida, perdemos de vista o ser humano real e concreto e, assim, perdemos o núcleo da missão cristã e o que faz valer a pena sermos cristãos hoje, apesar de tudo. (No próximo artigo, o aspecto teológico-espiritual da economia).

Por um novo humanismo na economia

Marcus Eduardo de Oliveira

Parece ser consenso que a humanidade vive uma crise civilizatória. A fome que atinge 1 bilhão de seres humanos talvez seja a prova incontestável que as coisas não andam bem em matéria de dignidade e respeito ao próximo, termos esses caros a sociedades que se encontram “desconectadas” das boas e adequadas políticas públicas sociais. Até mesmo porque, nesse sentido, uma polêmica ronda essa discussão. Dizem alguns que temos que produzir mais porque somos muitos. Será isso verdade? Não seria melhor mudarmos o foco: produzirmos melhor (com qualidade), e não mais (diminuir a quantidade). Temos que “distribuir” e não “concentrar”.

No que toca a ignomínia da fome, temos que evitar o desperdício que beira cifras indecentes de 30% a 40% da produção de grãos e distribuir melhor os alimentos cuja produção atual é suficiente.

A produção de alimentos é suficiente

A produção mundial de alimentos dos dias de hoje dá conta suficiente das 6,7 bilhões de bocas a serem alimentadas. De acordo com a FAO (Fundo para Agricultura e Alimentação – ONU), entre 1950 e 2000, a produção mundial de grãos mais que triplicou, passando de cerca de 590 para mais de 2 trilhões de toneladas métricas ao ano. De 1950 a 1975, a produção de grãos aumentou em média 3,3% ao ano, um percentual maior do que o do crescimento populacional, de 1,9% ao ano.

No entanto, o “probleminha” da alocação/distribuição dessa produção nos lugares que mais carece de ajuda continua a não acontecer. E, assim, os que tanto precisam acabam ficando sem acesso. Menos da metade dos grãos hoje em dia é destinada à alimentação, enquanto a maior parte serve para fabricar rações animais, biocombustíveis e outros produtos industriais. Além disso, deve-se computar ainda o efeito de pragas sobre a plantação e o apodrecimento entre a colheita e o consumo. O que falta para uns, sobra para outros. É a distribuição que não é feita a contento.

Desse modo, temos que de um lado há um 1 bilhão de famintos; do outro, 1 bilhão de obesos.

E assim, outros e outros “probleminhas” que giram em torno da má distribuição de recursos e rendas vão se agravando, contribuindo, sobremaneira, para desumanizar ainda mais as relações entre nossos pares.

Em especial sobre a questão dos subnutridos, cabe ressaltar que esse mal acomete uma entre três crianças. Em números absolutos, a subnutrição e a fome crônica afetam aproximadamente 200 milhões de pessoas na Índia; mais de 200 milhões na África; 40 milhões em Bangladesh; 15 milhões no Afeganistão. O número de mortes por causas relacionadas com a fome é da ordem de nove milhões por ano. Isso resulta em uma média de 25 mil mortes por dia.

Percebe-se, com isso, que os números que perfazem a desigualdade são gritantes e inadmissíveis.

A conta disso é bastante simples: tem pouca gente ganhando muito, enquanto há muita gente que nada está ganhando. A riqueza de uns está sendo literalmente construída sobre a pobreza de milhões de pessoas.

O consumo excessivo de uns é a contrapartida da escassez de outros. Para uns sobra o que tanto falta a outros tantos. É o “desequilíbrio” que parece assim regular as atividades da economia gerando, na ponta final, mais desigualdade.

A falta de equilíbrio

Se as relações econômicas fossem, ao menos, próximas do equilíbrio, bastaria dividir a produção mundial (60 trilhões de dólares) por 6,7 bilhões de pessoas e obteríamos algo como 9 mil dólares por pessoa.

Mas, sabemos que não é bem assim que a coisa funciona. E sabemos também que a desigualdade não é natural, é imposta. E, sendo imposta, alguém está no “centro” dessas decisões dirigindo o destino de muitos que vão sendo condenados à miséria e a exploração. É a desumanização da economia que provoca a desumanização de nossos pares.

E a exploração está por todos os lados, incluindo até mesmo os que estão fora desse “deus-mercado” que é abençoado pelo “consumo excessivo”, regulado pela lógica mercadológica que defende que mais e mais produtos devam ser “empurrados” para um número cada vez mais crescente de compradores. É a lógica perversa do consumo excessivo que prioriza apenas o consumidor detentor de poder aquisitivo.

Nesse pormenor, o velho e bom Marx chegou a afirmar que “é melhor ser explorado pelo capitalismo do que não ser explorado por ele”. Marx sentenciava que ao não ser explorado pelo capitalismo, o trabalhador visivelmente não “existia”, pois se encontrava fora do mercado de trabalho (no desemprego) na condição de nem mesmo ser “explorado pelo sistema” (excluído).

Percebemos então que a exclusão social é de tamanha ferocidade que atinge até mesmo quem dela não contribui nem para o lucro do capitalista, nem para aumentar o número de produtos disponíveis no mercado. Em nossa opinião, esse é o “excluído dentro da exclusão” que contribui, assim, grosso modo, para a total desumanização das atividades.

Cabe reiterar que os números dessa “desumanização” são alarmantes. Do lado dos óbitos são: 10 milhões de crianças mortas a cada ano por problemas com “insegurança alimentar”; 25 milhões de vítimas do HIV/AIDS até os dias de hoje; 1 bilhão e meio de pessoas sem acesso à água potável; 3 milhões de mortes ao ano na África em decorrência da malária; meio milhão de mulheres que morrem no parto por deficiências no sistema de saúde. Acrescenta-se a isso o aquecimento global que provoca o desequilíbrio do ecossistema a ponto de chegarmos a seguinte conclusão: não é o planeta Terra que está prestes a entrar em decomposição, somos nós. Não são os animais que entrarão em extinção, somos nós. Não é o habitat natural que soçobrará, somos nós.

O rumo que a economia tomou nos últimos quatrocentos anos apenas reforça essa idéia. No início, com os clássicos ministrando as primeiras lições, no centro da análise econômica estava o indivíduo. Era a ação humana – palavra cara a Escola Austríaca de Economia – o fator responsável pelos avanços.

Com o passar dos tempos e com a chegada dos marginalistas na cena econômica, a análise matemática ganhou relevância e as necessidades humanas deixaram de ser o ponto fundamental de preocupação.

O que fizeram então esses analistas econômicos da Escola Marginalista? Jogaram para escanteio o cabedal sócio-econômico que mirava as necessidades humanas e estabelecia o bem-estar como meta. Desde então, a economia se “matematizou” e, aos poucos, o social se tornou apêndice da matemática econômica.

Disso surge uma pergunta inevitável: o que tem que ser feito para resgatar o foco social e humano que um dia caracterizou a abordagem das ciências econômicas?

O resgate necessário

Precisamos praticar a Economia Solidária, a Economia Sustentável, a Humanização da Economia na qual o dinheiro não seja o ponto central. É simples? Não. Porém, não é impossível.

Para tanto, “É preciso reinventar uma economia da convivência”, diz Edgar Morin. Dom Pedro Casaldáliga, nessa mesma linha, fala em “humanizar a humanidade”; enquanto o educador Marcos Arruda escreve sobre tornar “real o possível”.

Mas, o que é “real” e o que significa, de fato, o “possível”? Real é desejarmos um mundo melhor para todos, sem exceção, nem discriminação. Possível é praticarmos isso mediante a cooperação e a solidariedade. No lugar da competição coloquemos a cooperação. Em lugar do individualismo, solicitemos a coletivismo, a ajuda mútua, a socialização dos benefícios.

A canção popular entoada em cantos religiosos profetiza que “Deus criou o infinito para a vida ser mais”. Viver é isso. Viver é conviver. Não nascemos sozinhos, não estamos isolados, não habitamos ilhas em isolacionismo perpétuo. Vivemos em comunidade. Em comum unidade. Logo, vivenciamos o coletivo, não o individualismo.

No entanto, só vale a pena viver em um mundo onde esse mundo mereça ser vivido. Do jeito que está, com as desigualdades sociais e econômicas esparramando miséria e indecência por todos os lados, até mesmo sonhar a possibilidade de construir uma vida igualitária e digna torna-se algo espinhoso. Parte daí a necessidade de humanizar a economia, visto que a economia “estuda” o comportamento dos agentes econômicos. Assim, por essa casual definição, a economia estuda o “nosso” comportamento, porque somos, antes de qualquer outra coisa, agentes dessa transformação que se faz necessária.

É nesse sentido que desejamos promover o resgate do verdadeiro fundamento da ciência econômica e torná-la útil em nosso favor, usando a Economia como instrumento da construção do bem comum. Nesse pormenor, cabe ao economista entender o mundo e propor alternativas.

Ladislau Dowbor nos diz que “a economia é um meio que deve servir para o desenvolvimento equilibrado da humanidade, ajudando-nos, como ciência, a selecionar as soluções mais positivas, a evitar os impasses mais perigosos”.

Em nosso entendimento, a economia só faz sentido de ser e torna-se útil se, e somente se, agrupar em seu intento crescimento econômico (equilibrado), equilíbrio ecológico (meio ambiente sustentável) e progresso social (justiça e equidade). Fora disso, a Economia encontra-se totalmente desconectada da realidade.

Primavera das mudanças

Pe. Alfredo J. Gonçalves, Cs

A estação da primavera está para o ano como a aurora para o dia. Após a noite escura e fria, propensa aos fantasmas, o sol do amanhecer remove as sombras e traz a esperança de um recomeço. Assim a primavera. Após o inverno gélido e prenhe de turbulências, raios e tempestades, a nova estação renova sonhos e expectativas. O céu azul e os campos floridos costumam ser a expressão plástica desse renascimento.

Não é sem razão que a primavera tornou-se, no imaginário popular, um dos símbolos mais expressivos na música, na literatura, na arte, na religião, enfim, na trajetória existencial das pessoas. Diz-se, por exemplo, que alguém está na primavera da vida, e isso nem sempre corresponde à idade medida de seus anos. Corresponde também ao rejuvenescimento após um outono nebuloso ou um inverso rígido, ou seja, após uma doença, uma crise pessoal, um fracasso inesperado.

O mesmo vale para determinada sociedade ou determinado país. Também aqui, passadas crises profundas, simbolicamente invernais, um povo pode reerguer-se das trevas, do frio e dos escombros, para construir uma alternativa mais promissora. As transformações, as mudanças e as revoluções normalmente são adjetivadas como primaveris. Afugentam os fantasmas do ódio e da violência e abrem espaço para um horizonte recriado. Que o diga quem experimentou na carne tensões, conflitos ou guerras declaradas.

Nesta perspectiva, seria correto afirmar que, passados os sintomas mais graves da crise financeira, a economia mundial encontra-se em estado de primavera? É difícil imprimir aqui um sim imediato e taxativo. Mais fácil é continuar em tom de interrogação. De fato, primavera tem a ver com cores e sabores, com flores e amores. Tem a ver com crianças brincado nas ruas e praças, com namorados se abraçando e beijando, com passeios e piqueniques. Tem a ver com o desabrochar vigoroso e virulento da vegetação castigada pelos ventos do inverno.

Ora, em geral, as propostas do G20 e dos políticos e economistas para a saída da crise do mercado é mais mercado. O que significa continuidade na devastação dos recursos naturais, ritmo acelerado de produção, maior número de carros individuais nas ruas e mais gás carbÿnico na atmosfera, aceleração do aquecimento global e mais consumo, sempre mais consumo. É o círculo de ferro do produtivismo consumista de nossa cultura ocidental. Tudo para favorecer uma porcentagem de privilegiados do planeta, em detrimento de bilhões de pessoas que vivem das migalhas do progresso científico e tecnológico. O remédio se converte em veneno cada vez mais letal.

Que pena! Nada de novo nesta primavera! Nenhuma flor, nenhuma cor, nenhum amor, nenhum sabor diferente do que já se conhece. A roda vida do capitalismo neoliberal aumenta sua velocidade, ignorando a nova estação. No caso da América Latina, a cobiça pela riqueza, pelo acúmulo e pelo poder vem ressuscitando até um começo de corrida armamentista, coisa que parecia execrada ao lixo da história.

Mas, espera um pouco, não sejamos tão pessimistas. Há sim algo novo debaixo do sol. Milhares e milhares de iniciativas populares, espalhadas por todo o Brasil e por outros países do planeta, vão forjando uma rede capilar de experiências de economia solidária. Ao invés do lucro, o objetivo é dar conta das necessidades básicas das populações mais carentes. Alternativas se multiplicam, formigas trabalham no silêncio, esperanças se renovam.

Mas como competir com a força, os estímulos, o marketing e o fascínio do mercado? Aqui é preciso ter a fé do camponês, acreditar na semente jogada na terra. Tempo de crise é sulco aberto na história para o lançamento de novas sementes. Sementes que não criam espetáculo, não fazem estardalhaço, mas maturam lentamente na umidade oculta do solo. Mergulham suas raízes no interior da terra, para depois, firmes no chão, erguer-se em direção ao céu, ao sol, ao ar livre. Como as sementes, também as mudanças não são feitas de espetáculos. Amadurecem passo a passo na consciência de um povo, até chegarem ao ponto de dar um salto qualitativo em direção à liberdade.

Da mesma forma que a espiga, a flor, o poema ou o edifício, as mudanças se levantam do chão. Primeiro crescem para baixo, buscando as dores e esperanças do povo, depois se projetam para o alto em forma de projetos, sonhos utopias. E então, sim, estaremos deixando o inverso da injustiça e da exclusão social e entrando na primavera de uma nova história.

Conic lança material da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010

Agência Adital

O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic) fará o lançamento oficial do material da Campanha da Fraternidade 2010 (CF), “Fraternidade e Economia” nesta quinta-feira, dia 10. Com o lema “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24) a CF ecumênica terá como objetivo fazer uma reflexão sobre prioridades e justiça econômica.

O evento acontecerá às 15h, aos pés do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro (RJ), e reunirá diversas autoridades eclesiásticas e políticas, entre eles dom Dimas Lara Barbosa, secretário geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); pastor sinodal Carlos Augusto Möller, presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic); a senadora Marina Silva e o professor Paul Singer, economista e secretário de Economia Solidária do Ministério do Trabalho, dentre outros.

A Campanha da Fraternidade de 2010 será a terceira ecumênica. As outras aconteceram em 2000 e em 2005. Segundo o Reverendo Luiz Alberto Barbosa, secretário Geral do Conic, a CF ecumênica será realizada no próximo ano, pois em 2010 se completam 100 anos do ecumenismo no mundo moderno. “O ecumenismo faz com que respeitemos as diferenças e é necessário abrir mão dessas diferenças em prol de um bem comum. É necessário nos reconhecermos como cristãos e entendermos que Cristo, que nos une, é maior que as diferenças”, completa.

O tema relativo à economia foi escolhido ano passado e busca incentivar uma reflexão sobre nossa vida. “2010 será um ano eleitoral e as discussões sobre economia ainda são bastante fortes. Nosso sistema econômico está contaminado. É preciso trazer uma reflexão sobre o tipo de economia que temos. Estamos gerando mais morte?”, questiona o Reverendo.

A abertura da cerimônia de lançamento do material da Campanha da Fraternidade será feita pelo pastor sinodal Carlos Möller. Logo em seguida, o Pe. Valdeir dos Santos Goulart, Diretor Executivo das Edições CNBB e o Reverendo Luiz Alberto Barbosa farão a apresentação do material. Caberá à Elinete Miller, membro do comitê Gestor da CFE 2010, fazer a apresentação do cartaz da Campanha com leitura do significado.

Ainda durante a programação, o público do evento e as autoridades religiosas e civis farão a oração do Pai Nosso Ecumênico, motivada por dom Orani João Tempesta, como também a Oração da CFE-2010.

Segundo o Reverendo Luiz Alberto a cerimônia de lançamento faz parte da Oficina de preparação para a Campanha da Fraternidade, que acontece de 10 a 12 de setembro e é promovida pelo Conic, para as lideranças religiosas nacionais. Cada Igreja deve fazer sua capacitação interna antes do lançamento da CF, em 17 fevereiro de 2010.

Um círculo vicioso mortal

Leonardo Boff *
Fonte: Adital

Estamos todos sentados em cima de paradigmas civilizacionais e econômicos falidos. É o que nos revela a atual crise global com suas várias vertebrações. Nada de consistente se apresenta como alternativa viável a curto e a médio prazo. Somos passageiros de um avião em vôo cego. O que se oferece, é fazer correções e controles à la Keynes, que, no fundo, são mudanças no sistema mas não do sistema. Mas é este sistema que comparece como insustentável, incapaz de oferecer um horizonte promissor para a humanidade. Por isso, a demanda é por um outro sistema e um outro paradigma de habitar este pequeno, velho, devastado e superpovoado planeta. É urgente porque o tempo do relógio corre contra nós e temos pouca sabedoria e parco sentido de cooperação.

Em razão dos interesses dos poderosos que não fazem o necessário para evitar o fatal, as soluções implementadas mundo afora vão na linha de “mais do mesmo”. Mas isso é absolutamente irracional pois foi esse “mesmo” que levou à crise que poderá evoluir para uma tragédia completa.

Estamos, pois, enredados num círculo vicioso letal. Dois impasses estão à vista, gostem ou não os economistas, “os salvadores” do mundo: um humanitário e outro ecológico.

O primeiro é de natureza ética: a consciência planetária, surgida à deriva da globalização, suscita a pergunta: quanto de inumanidade e de crueldade aguenta o espírito humano ao verificar que 20% das pessoas consome 80% de toda a riqueza da Terra, condenando o resto à cruz do desespero, encurralada nos limites da sobrevivência? Esta aceitará o veredito de morte sobre ela? Ela resiste, se indigna e, por fim, se rebelará por instinto de sobrevivência O ideal capitalista de crescimento ilimitado num planeta limitado parece não ser mais proponível ou só sob grande violência.

O segundo é o limite ecológico. O capitalismo criou a cultura do consumo e do desperdício cujo protótipo é a sociedade norte-americana. Generalizar esta cultura – cálculos foram já feitos – precisar-se-iam de duas ou mais Terras semelhantes à nossa, o que torna o propósito irrealizável. Por outra parte, encostamos nos limites dos recursos e serviços da Terra e os ultrapassamos em 40%. Todas as energias alternativas à fóssil, mantido o atual consumo, atenderia somente 30% da demanda global. Como se depreende, dentro do mesmo modelo, somos um sapo sendo lentamente cozido sem chances de saltar da panela.

Há três propostas criativas: a da economia solidária que não mais se guia pelo objetivo capitalista da maximização do lucro e de sua apropriação individual. A do escambo com as moedas regionais. A terceira é a da biocivilização e da Terra da Boa Esperança, do economista polonês que dirige um centro de pesquisa sobre o Brasil em Paris: Ignacy Sachs. Ela confere centralidade à vida e à natureza, tendo o Brasil como o lugar de sua antecipação. As três são possíveis mas não acumularam ainda força suficiente para ganhar a hegemonia.

Talvez elas nos poderiam salvar. Mas teremos tempo hábil? Bem dizia Gramsci: “o velho não acaba de morrer e o novo custa em nascer”. Não se desmonta uma cultura de um dia para outro. Quem está acostumado a comer bife de filé dificilmente se resignará a comer ovo.

Meu sentimento do mundo diz que vamos ao encontro de uma formidável crise generalizada que nos colocará nos limites da sobrevivência. Chegando a água ao nariz, faremos tudo para nos salvar. Possivelmente seremos todos socialistas, não por ideologia mas por necessidade: os parcos recursos naturais serão repartidos equanimemente entre os humanos e os demais viventes da comunidade de vida.

Santo Agostinho sabiamente ensinou que dois fatores ocasionam em nós grandes transformações: o sofrimento e o amor. Devemos aprender já agora a amar e a sofrer por esta única Casa Comum a fim de que possa ser uma grande Arca de Noé que albergue a todos. Então será, sim, a Terra da Boa Esperança, um sinal de um Jardim do Éden ainda por vir.

[Autor de Comer e beber juntos e viver em paz. Vozes 2008]

* Teólogo, filósofo e escritor

Alimentar-se para viver! Mensagem de Páscoa

Dom Mauro Morelli

Em manhã de Páscoa o Sopro da Vida renova a face da Terra. Tudo precisa ser renovado neste início de milênio. No atual estágio do desenvolvimento da vida em nosso planeta estamos acordando para um tempo em que tudo será novo ou não será.

A síntese da vida se manifesta em sabedoria e beleza no ser humano. Porém, a arrogância e a soberba nos desfiguram, tornando-nos grave ameaça para a vida de nossa casa, o Planeta Terra. Crescemos muito, principalmente na voracidade do consumo. Não se trata apenas dos alimentos que consumimos, mas do desperdício e do acúmulo de bens. A degradação ambiental, a concentração de riqueza e do poder em poucas mãos, a legião imensa de excluídos e famintos, são alguns dos males que fermentam no caldeirão da civilização que gestamos ao longo de milênios.

Como ninguém vive sem se alimentar, portanto um direito humano básico, alimento será caminho da guerra ou da paz. Bom lembrar que nos alimentamos de oxigênio, luz, água, leite materno, ternura, leguminosas, frutas, sementes e de muitas outras dádivas da natureza.

Nas casas e nas escolas aprendamos a viver em paz, não apenas cultivando relações de justiça, de fraternidade e de solidariedade entre nós, mas com tudo que existe e habita esta nossa Casa, um pontinho azul na imensidão do universo. A riqueza e a diversidade da composição de nosso pequenino “cosmos” garantem e sustentam a teia de vida que nos envolve.

O caminho da paz passa pelo respeito às fontes da vida de onde brotamos e pela simplicidade e frugalidade. Precisamos de uma porção para existir e viver, ou seja, alimento, teto, agasalho, espaço e oportunidade, não muito mais. Urge inaugurar uma nova administração dos dons e riquezas de nossa Casa ou “OIKOS”, ou seja, uma nova economia. Uma Economia com Mercado e Solidária, que seja regida pelos ditames do bem comum à luz de nossa vocação à vida em comunhão.

Um mundo livre da miséria, da violência, dos males da fome que atrofiam o corpo e o espírito, não surgirá por um passe de mágica ou por um milagre.

Em nosso próprio país, tarefas inadiáveis nos desafiam. Com sede de justiça e famintos de paz, não seremos saciados sem que as grandes fortunas sejam taxadas para prover recursos exigidos pela cidadania, o povo seja livre do analfabetismo e que ninguém seja privado da porção que necessita para nascer, crescer e participar do processo evolutivo de nossa presença no Cosmos.

Não ignorando os caminhos percorridos, ao longo da história de nossos povos e nos tempos mais recentes, para o surgimento de um mundo em que possamos viver com dignidade e liberdade, desejo chamar atenção para a Medida Provisória 455, de 28 de Janeiro de 2009, que dispõe sobre o atendimento da alimentação escolar e do Programa Dinheiro Direto na Escola.

Enquanto tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei 2877, o Presidente Lula, com força de lei, dá novas diretrizes e toma providências sobre todo o alimento oferecido no ambiente escolar.

Não entrando no mérito da própria medida provisória ou do projeto que tramita no Congresso Nacional, proponho que sejamos práticos e tenhamos pressa em criar condições políticas, sociais, econômicas, jurídicas e administrativas para que a MP seja aprovada, regulamentada e implementada. Assim, a médio e longo prazo, possamos libertar nossas escolas do alimento-mercadoria, cujo valor principal consiste mais em nutrir a corrupção e a engordar contas bancárias.

Um estudo acurado da MP vai nos dar elementos fundamentais para um processo de planejamento da produção de alimentos saudáveis, adequados e solidários, em micro regiões que integrem vários municípios, através de um modelo de desenvolvimento econômico e social que valoriza a agricultura familiar e as várias modalidades de associações produtivas rurais e Peri – urbanas. Feliz será o país quando atingir o mínimo proposto pela MP sobre a produção e aquisição de alimentos saudáveis e adequados (cfr. Artigo 14). Forte e saudável, quando alcançar cem por cento! Taxas sobre grandes fortunas poderão prover recursos financeiros indispensáveis para a efetiva realização de excelente programa de alimentação escolar em toda a rede pública de ensino, em todos os seus níveis. Então, a infância e a juventude brasileira serão saudáveis e inteligentes. Teremos atingido estágio avançado de democracia.

Valorizando-se a competência e as atribuições dos profissionais das áreas afins, o controle social deverá ser exercido principalmente pelos Conselhos de Alimentação Escolar (cfr. Artigos 18 e 19 da MP455), à luz da Política Nacional de Alimentação e Nutrição, das diretrizes formuladas por Conferências de Segurança Alimentar e Nutricional, realizadas nos três níveis da federação, do Guia Alimentar para o Povo Brasileiro e de tantos outros subsídios que procuram orientar as famílias e instituições sociais para a produção, processamento e consumo de alimentos saudáveis e adequados. De grande importância, as seis diretrizes do artigo segundo da MP.

A educação, como determina o artigo 13 da MP, é o grande caminho para a superação da miséria e dos males da fome. Depois de nossas casas, a escola deveria ser um centro de referência em tudo o que se refere ao direito ao alimento e à nutrição. Por que não assumir também o monitoramento nutricional de toda a comunidade escolar? A cozinha, o refeitório, a biblioteca e a horta, sejam considerados como excelentes e nobres espaços de educação.

A MP, como o PL, marcada pelas contradições e ambigüidades que caracterizam a sociedade e o Estado, oferece-nos ocasião para agir com sabedoria, coragem, ousadia, humildade e competência.

Votos de Feliz Páscoa para o povo brasileiro. A MP do Presidente Lula, como Moisés, não nos conduz até o coração da Terra Prometida. Contudo não será pouca coisa, se o povo se levantar e caminhar para a vida com liberdade e dignidade. Chegaremos lá! Então reinarão a Paz e o Bem.