Jerusalém

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio no Domingo de Ramos

Assista à íntegra da pregação do Pe. Julio Lancellotti no Domingo de Ramos, celebrado em 13/04/2014. O Evangelho traz a Paixão de Cristo segundo Mateus, narrativa da entrada de Jesus em Jerusalém, a traição, prisão, julgamento e morte.

Gravação realizada na missa das 18h na igreja São Miguel Arcanjo.

Dom Hélder, força e habilidade

Pe. Geovane Saraiva

Dom Helder Pessoa Câmara, por sua simplicidade, humilde e estatura franzina, nos faz lembrar o jumentinho que Jesus escolheu para montar, na sua entrada em Jerusalém, animal sem aparente beleza, mas de uma importância, força e resistência extraordinária (cf. Mt 21, 2-8). O pastor dos empobrecidos foi assim, no seu temperamento e na sua audácia sem limites, isto acontecia quando tinha que defender seus pontos de vistas, com um profundo desejo, usando de todos os meios possíveis, para que a Igreja se engajasse na causa dos empobrecidos, que fosse mais servidora e mais fiel a vontade daquele que a instaurou e menos “senhora e rica”.

Falamos de uma criatura humana extremamente habilidosa e com uma desenvoltura, que se tornou o mais influente bispo brasileiro no Concílio Vaticano II (1962-1965), a ponto de decisivamente contribuir para que a Igreja, no nosso continente latino americano, nos anos que se seguia, fizesse a sua “opção profética e preferencial pelos pobres”.

Segundo o grande teólogo José Comblin, falecido recentemente, aos 88 anos, que conviveu muito de perto com o querido arcebispo de Olinda e Recife, dizia: “Ele era um articulador de primeira grandeza, com noção de que, às vezes, sua influência seria maior se ficasse calado e não se manifestasse”. Muitas vezes os próprios colegas ignoravam de onde vinham as excelentes propostas contribuições que estavam votando, narra José Combiln.

Já bem antes do Concílio, as vésperas da inauguração de Brasília, Juscelino Kubitschek chamou Dom Helder e o convidou para ser o prefeito da nova capital federal, sendo insistente. Afirmou que tinha o parecer favorável de todos os líderes partidários, depois de consultá-los. Dom Helder recusou polidamente, dizendo: “Hoje, senhor presidente, eu estou aqui, frente a frente, debatendo com o senhor pontos de vista com absoluta liberdade e sem condionamentos de qualquer ordem. No dia em que me incorporar ao seu grupo de comando, dentro das injunções concretas das práticas políticas, eu estarei amarrado, balançando a cabeça para concordar com o que o senhor disser, deixando de lhe trazer a colaboração original e independente da Igreja. Eu quero ter sempre um canal de diálogo livre e respeitoso com o Estado para cobrar o seu dever. Quero fazê-lo em nome de Deus e do povo. Quero ser a boca dos que não têm vez nem voz”.

Compreendemos a força e a habilidade de Dom Helder, a partir daquilo que é belo e maravilhoso no poeta ou escritor, ao externar o que tem dentro de si: suas fantasias e suas ideias. Aquilo que ele tem na mente e no coração, releva-a e manifesta-a. Assim, também, foi o que aconteceu com os autores sagrados, ao redigirem as Sagradas Escrituras. Há tanta coisa bonita e surpreendente, muitas vezes, com tanto exagero, que se tem a impressão de se ir além do sagrado.

No último versículo do Evangelho de São João o autor sagrado afirma que o que Jesus realizou, neste mundo, é belíssimo e maravilhoso e, se tudo fosse escrito, livro algum caberia. O milagre da multiplicação dos pães (Mt 14, 13-21), finda dizendo: Os que comeram dos cinco pães e dos dois peixes eram cinco mil homens sem contar mulheres e crianças. Estudiosos e especialistas da Palavra de Deus, sem negar, evidentemente, a divindade do Filho de Deus, acham um exagero, para aquele tempo, o grande número de pessoas.

Deus fez o homem com uma imaginação fértil e criadora, chamando-o para participar da sua natureza divina. Aí está sua grandeza. A terra tornou-se pequena para caber a criatura humana, grandiosa na sua capacidade de imaginar e realizar, em todos os sentidos.

Padre Manfredo Oliveira, cearense de Limoeiro do Norte, grande figura humana e um dos maiores filósofos da atualidade, na sua mente dadivosa, foi extremamente feliz, ao afirmar que Dom Helder não cabia dentro da Igreja. Certamente ele quis enaltecer sua força imaginadora, talentos, sensibilidade e a inteligência privilegiada do pastor dos empobrecidos, que habilidade soube perceber todas as novidades e desafios do século XX e colocá-los no seu coração, procurando dar-lhes uma resposta.

Já o Cardeal Aloísio Lorscheider falava de Dom Helder, assim: “Foi um corifeu, com uma visão de futuro e com grande influência, muito respeitado e inquieto como uma barata tonta: Sua tribuna foi sua sabedoria em agir e articular nos bastidores, com uma oratória vibrante e com gestos rasgados que sensibilizavam e arrebatavam as multidões.

Tudo isso ele realizava, numa atitude de oração e na fidelidade ao Pai, no seu amor acendrado à Igreja. Ele mesmo dizia: Abandonar a Igreja seria o mesmo que abandonar o seu próprio corpo. Por isso devemos acolher tudo o que se disse e o que, ainda, irão dizer deste homem tão amado por Deus. Ele, por tudo que fez na sua força e habilidade invencível, é grande demais! De fato, a Igreja é pequena para caber Dom Helder.

 

Bento XVI: “que a religião não sirva à violência”

Do penhasco do monte Nebo, Bento XVI voltou o olhar para o Jordão, para Jericó, para Belém. “Deixem-me olhar”, murmurou aos fotógrafos que o bombardeiam com flashes. Depois, encerrou-se por um momento em meditação. Porque essa viagem tão político-religiosa também é uma peregrinação interior. Desde quando terminou seu primeiro livro sobre Jesus, explodiu em Ratzinger a vontade de voltar às terras onde Cristo pregou. Ele mesmo confessou o desejo de “ver, tocar, saborear” os lugares da presença física do Salvador, de Nossa Senhora, dos apóstolos e dos “primeiros discípulos que o viram ressuscitado dos mortos”.

Aqui no Nebo, Moisés concluiu a sua viagem, e aqui Bento XVI evoca – e as suas palavras chegam em um segundo em Jerusalém – “o inseparável vínculo que une a Igreja ao povo judeu”. Deve ser superado, acrescenta, todo obstáculo que se interpõe à reconciliação entre cristãos e judeus.

Duas horas depois, entrando na mesquita Al-Hussein, o pontífice exorta à cooperação entre cristãos e muçulmanos. Justamente por causa de uma “história tão frequentemente marcada por incompreensão”, explica, os seguidores das duas religiões devem se apresentar juntos ao mundo, como adoradores do único Deus: misericordiosos e compassivos, testemunhas coerentes do que é justo e bom, sempre lembrando-se da dignidade da pessoa humana. Cristãos e muçulmanos, declara, podem se conhecer e se respeitar mais para construir juntos uma sociedade em harmonia com a ordem divina.

Mas também é a ocasião para condenar, diante de uma platéia de muftis e ímãs muçulmanos e muitos representantes diplomáticos, a “manipulação ideológica” da religião, que produz divisões, tensões e violência. Pouco antes, abençoando a pedra fundamental da universidade católica em Madaba (aberta a muçulmanos e judeus), Bento XVI pronunciou com firmeza: “A religião é desfigurada quando é obrigada a servir à ignorância e ao preconceito, ao desprezo, à violência e ao abuso”. E continuou: “Aí, não vemos apenas a perversão da religião, mas também a corrupção da liberdade humana, o obscurecimento da mente”.

Em Aman pela segunda vez Ratzinger entrou em uma mesquita. E a percorreu com todos os sapatos. Pe. Georg, seu secretário, já tinha prontas em um saquinho duas pantufas especiais, mas os anfitriões jordanianos inventaram um percurso de tradicionais tapetes brancos que preservam a santidade da sala de oração. O L’Osservatore Romano publicou, em primeira página, a foto do papa com os mocassins vermelhos e o príncipe Ghazi bin Talal com as sandálias, atravessando juntos a mesquita. Foram os jordanianos, indica o órgão do Vaticano, que não pediram a Bento XVI que retirasse os sapatos. Que ninguém diga que o pontífice não respeitou o templo.

Internacionalmente, Ghazi bin Talal é um dos defensores mais comprometidos com o diálogo entre cristianismo e islã. Fala um inglês fluente e saudou o pontífice em latim: “Pax vobiscum”. O príncipe deu as boas-vindas a Ratzinger como um grande líder espiritual, líder global, autor de “muitos gestos amigáveis e gentis” para com os muçulmanos, comprometido com o diálogo inter-religioso e homem capaz de ir contra a corrente, também reintroduzindo a missa em latim.

Mas mandou uma mensagem precisa: não é bom ofender o nome do profeta Maomé. “Agradeço Vossa Santidade – diz com elegância oriental – por ter expressado arrependimento pela ofensa causada aos muçulmanos pelo discurso de Regensburg. Os muçulmanos apreciaram os esclarecimentos do Vaticano de que o que foi dito não reflete a vossa opinião, mas era apenas uma citação em uma aula acadêmica”.

Porque o profeta Maomé – reforça o príncipe, vestido em sua túnica branca e o manto bege ornado de ouro, a barba cuidada e o olhar penetrante – é completamente diferente das imagens distorcidas que circulam no Ocidente entre quem não conhece o árabe e o Corão. E então caberá aos muçulmanos explicar os exemplos de virtude, caridade, piedade e benevolência do Profeta.

Há habilidade política na intervenção de Talal, já que, em Aman, ao longo do dia explodiram novamente as polêmicas entre os falcões integralistas islâmicos que denunciam as “desculpas que faltaram do Papa”, e os pacifistas, satisfeitos com o arquivamento do “equívoco de Regensburg”. O príncipe aponta para o diálogo: “Podemos e devemos ser adoradores do único Deus que nos criou e cuida de todas as pessoas em todos os cantos do mundo”.

Já é noite quando Bento XVI se diz cansado, mas de ótimo humor, na catedral greco-melquita, onde ondas de aplauso o acolhem. O patriarca Laham evoca o direito dos palestinos a uma pátria. Atravessando o Jordão, Bento XVI é chamado a falar.

Jerusalém: Em ti as nossas fontes todas

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Brejo da Madre de Deus é uma obscura cidade do agreste pernambucano. Clima seco e 35 mil habitantes. Casas azulejadas entre pedras e vegetação rasteira. No entanto, dentro de menos de duas semanas, o brejo que tem o nome da Mãe de Deus será mais uma vez o lugar para onde convergirá uma peregrinação de 200 mil pessoas. Ali acontecerá, na cidade cenográfica de Nova Jerusalém, a encenação dos três dias que uma parte considerável da humanidade considera o apogeu de sua história: a Paixão de Jesus Cristo.

Mais de 2000 anos se passaram, o mundo mudou vertiginosa e radicalmente. Porém, a atração exercida por esse obscuro Galileu permanece de forma impressionante e inegável. A pequena cidade pernambucana será, mais uma vez, cenário do início da trajetória de Jesus de Nazaré, em Jerusalém. Cidade santa para o judaísmo, centro da religião, ali estavam situados o templo, o Sinédrio e as instituições mais importantes da Palestina daquele tempo.

O povo de Israel vê em Jerusalém uma cidade eleita por Deus, o qual em seu monte Sião erige novo Sinai, onde uma nova Lei é dada e recebida. Lugar da manifestação definitiva da glória divina e meta da esperança escatológica, Jerusalém acolhia os israelitas peregrinos que iam oferecer sacrifícios em seu templo, olhando desejosos para os tempos messiânicos, quando todas as tribos e nações ali se reuniriam.

Por isso o salmista aclama Jerusalém como a noiva do Senhor, da qual se anuncia um glorioso destino: ser o lugar de nascimento de todos os homens, um por um, pois foi o próprio Altíssimo quem a fundou. E o povo exalta sua amada cidade em meio a cantos de júbilo e alegres danças: “Todas as minhas fontes se acham em ti.” .

A primeira comunidade cristã, nascida no seio do judaísmo, narra a vida de Jesus de Nazaré, o carpinteiro Galileu que fazia milagres, multiplicava pães, amava pobres e crianças, deixava-se tocar por mulheres e leprosos e comia com publicanos e pecadores, como uma subida até Jerusalém. Subida que se intensifica a partir do momento em que o próprio Jesus toma o caminho da cidade santa não como rei glorioso, mas como profeta e servidor destinado a sofrer e morrer pela salvação do povo.

A entrada de Jesus na cidade se faz de forma humilde e pobre. Pois, apesar da aclamação que o saúda, Aquele que vem caminha ao encontro da morte e não da glória. Sobre a cidade que seria o lugar de seu martírio, Jesus chora de frustrado desejo de reunir todos os seus filhos “como uma galinha abriga os pintinhos sob suas asas”. E o drama que ali acontecerá dentro de poucos dias vai confirmar a tradição de que “não convém que um profeta morra fora de Jerusalém.”

Como toda realidade humana, Jerusalém se revelará santa mas também pecadora. E sua destruição por volta do ano 70 é por muitos interpretada em coerência com as dores que deveriam presidir os tempos messiânicos. No entanto, outra interpretação aconteceu com igual força e foi acolhida por uma parte da humanidade. A Cidade Santa, a Nova Jerusalém, não será mais uma cidade edificada com pedras e tijolos, mas o corpo humano, no corpo de Jesus que sofreu sua Paixão fora de suas portas.

E por isso, até hoje, e sempre e para sempre, se pode continuar entoando o salmo e dizendo: “Em ti nossas fontes todas. Em ti todo homem nasceu.” Pois o que nasce sempre de novo em Jerusalém é a esperança da humanidade em que o amor é mais forte do que a morte e a convicção de que os conflitos acontecem mas não aniquilam a criação de Deus e sim a fazem nascer, renascer.

E por isso Jerusalém está presente em todo lugar. No Oriente Médio e também em Brejo da Mãe de Deus, onde uma vez mais, durante a Semana Santa, a multidão contemplará a Paixão do Galileu que amou até o fim e em quem a comunidade reconheceu o Filho de Deus. Seja qual for nossa fé, o sopro singular que vem de Jerusalém nos diz que por mais obscura e aterrorizante que pareça a realidade, há um lugar, não geográfico, mas Transcendente, onde estão todas as nossas fontes todas e onde todo homem nasce e re-nasce a cada dia.