fariseus

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio no Domingo de Ramos

Assista à íntegra da pregação do Pe. Julio Lancellotti no Domingo de Ramos, celebrado em 13/04/2014. O Evangelho traz a Paixão de Cristo segundo Mateus, narrativa da entrada de Jesus em Jerusalém, a traição, prisão, julgamento e morte.

Gravação realizada na missa das 18h na igreja São Miguel Arcanjo.

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio no 22º Domingo do Tempo Comum

Assista à íntegra da reflexão do Pe. Julio Lancellotti no 22º Domingo do Tempo Comum, celebrado em 02/09/2012. A Carta de Tiago defende que a religião pura é cuidar dos indefesos. No Evangelho de Marcos, Jesus critica os fariseus que não vivem o que pregam.

Gravação realizada na missa das 18h na igreja São Miguel Arcanjo, em São Paulo.

O que é de César a César… O que é mesmo de César?

Edmilson Schinelo
Assessor do CEBI – Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos

Um plano bem armado: fazer Jesus cair na armadilha de suas próprias palavras! A cilada é introduzida por um elogio que é, ao mesmo tempo, reconhecimento de integridade: “Mestre, sabemos que és verdadeiro, que ensinas o caminho de Deus… que não consideras as pessoas pela aparência…” (v. 16). Depois do elogio, a pergunta: “É lícito ou não pagar o imposto a César?”

Em caso de resposta afirmativa, toda a pregação de Jesus cairia por terra diante do povo. A ocupação romana era o que havia de mais explorador, a transferência de impostos para Roma era elemento provocador de miséria e fome. Além disso, do ponto de vista religioso, pagar o imposto significava aceitar o culto ao imperador. Na própria moeda, podia-se ler: Tibério César, Filho do Divino Augusto. Por isso, os fariseus e a maioria do povo se opunham ao pagamento.

Por outro lado, se Jesus responde que não se deve pagar o tributo, é apanhado em atitude aberta de afronta ao império. Os próprios herodianos, favoráveis ao pagamento do tributo e a serviço dos romanos, ali estavam para o flagrante.

A resposta de Jesus desmascara qualquer religião fetichista e legitimadora do sistema, seja a divulgada pela propaganda imperialista, seja a alimentada pelas autoridades judaicas (no texto, representadas pelos fariseus). É possível que Jesus tenha tocado no coração do sistema religioso romano: o lucro proveniente da cobrança do tributo imposta às províncias conquistadas por Roma. Ao questionar o caráter divino do imperador, todo culto a ele prestado (leia-se: submissão, oferenda e pagamento do tributo) está deslegitimado.

Mas também está desautorizada e ridicularizada a prática de boa parte das lideranças judaicas, que mantinham duplo comportamento. Desejavam a expulsão dos dominadores,ao mesmo tempo em quereproduziam a dominação ou usufruíam das benesses propiciadas pela ocupação, incluindo o sistema de cobrança do tributo: ainda que a maior parte dos impostos fosse repassada a Roma, as elites alimentavam seu luxo com o que retinham do montante arrecadado pelos malvistos cobradores de impostos. Se, por um lado, as autoridades judaicas negavam-se a oferecer incenso ao divino César, por outro, eram beneficiadas com tal divinização.

Pagar ou devolver?

O texto de Mateus, seguindo a versão de Marcos (Mc 12,13), coloca juntos fariseus e herodianos. A narrativa de Lucas opta por classificá-los: “espiões que se fingiam de justos” (cf Lc 20,20). O interessante é que enquanto os falsos justos perguntam se é lícito ou não “pagar” (em grego, é o verbo dídomi) o tributo a César, Jesus responde com outra concepção de justiça: usa o mesmo verbo, mas acrescentando um prefixo (apo) que dá uma ênfase diferente: não se trata de pagar, mas de devolver, como pode ser traduzido o termo apodídomi.

Se na moeda está a imagem (literalmente a epígrafe) do seu proprietário, o dinheiro pertence ao opressor romano e é preciso devolver a ele. Como gosta de afirmar Gustavo Gutierrez, “se na pergunta dos fariseus está implícita a possibilidade de não pagar o tributo, também está a de ficar, nesse caso, com o dinheiro”. Jesus supera o pretenso nacionalismo dos fariseus, vai à raiz: “é preciso erradicar toda dependência do dinheiro. Não basta romper com o domínio político estrangeiro, é necessário romper a opressão que nasce do apego ao dinheiro e de suas possibilidades de exploração dos demais” (O Deus da vida. São Paulo: Loyola, 1990. p. 87-88).

Fazendo uso do imperativo, a comunidade de Mateus mantém enfática a resposta de Jesus: devolvam ao imperador o que lhe é devido; e, da mesma forma, a Deus o que é de Deus! No Sermão da Montanha, a comunidade já havia lembrado: Não se pode servir a dois senhores, não há como servir a Deus e ao dinheiro (Mateus 6,24). O culto a Deus não se coaduna com o culto a Mamon, aqui representado pelo sistema do império romano.

Mas o que é mesmo de César? E o que é de Deus?

Neste “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” ainda cabe a pergunta: o que mais é de César e o que é de Deus?

Em terra ocupada, toda a população sabia que além do denário, também era de César o procurador da Judéia, nomeado pelo próprio imperador. Eram de César os exércitos invasores. “A César o que é de César” inclui, portanto, todo o anseio de libertação. O clássico texto de Marcos 5,1-20 já tinha descrito, através da imagem dos porcos lançando-se ao mar, o mesmo desejo: a legião(termo militar para designar uma corporação de soldados) volta pelo caminho de onde veio, o mar (pelo Mediterrâneo chegavam os exércitos de Cesar). Da mesma forma que no Êxodo o mar havia engolido os cavalos do faraó e a opressão do Egito foi vencida, a comunidade espera que os porcos do império sejam devolvidos ao mar. É o que pode também ser lido no “Devolvam a César o que é de César”.

Em contrapartida, o que mesmo é de Deus? Conforme Levítico 25,23, a terra pertence a Deus, o povo é nela hóspede. Logo, não pode a terra ser tomada por outra divindade, o império romano. O povo, em última instância, é o “povo de Deus”, com ele Deus fez aliança (Josué 24). A liberdade do povo é dom de Deus!

Cumprir a sugestão de Jesus pode nos trazer riscos

Há que se repetir que o processo de divinização de Jesus feito pelas comunidades é implícita (ou até mesmo explícita) oposição à divinização do imperador. Isso nos permite afirmar que o movimento de Jesus, ou pelo menos a leitura que dele se fez na segunda metade do primeiro século, traz em si forte reação antiimperialista. E se reconhecemos que a teologia imperial romana era, de fato, o centro ideológico do poder imperial, seu coração teológico, devemos admitir também que a comunidade cristã entendeu que proclamar Jesus Cristo como filho de Deus significava deliberadamente negar a César o seu mais alto título.

Consequências viriam… Não por menos, tantas lideranças tiveram a mesma sorte de Jesus, A essa altura, só restaria mesmo a um camponês de periferia, já considerado blasfemo pelas autoridades religiosas de seu povo (Marcos 14,60-64), ser condenado como malfeitor (Lucas 23,33-34). Como o próprio Jesus, as comunidades experimentariam que não é simples “devolver a César o que é de César”. O império não costuma aceitar.

Coerência cristã e testemunho evangélico

Dom Demétrio Valentini

Em nome da CNBB, carrego há algum tempo uma incumbência importante: acompanhar a PMM – Pastoral da Mulher Marginalizada. É uma pastoral levada adiante por um punhado de pessoas beneméritas, competentes, dedicadas, conscientes, que além do trabalho feito em favor das prostitutas, precisam carregar o peso de preconceitos, ainda presentes na sociedade e na própria Igreja.

Elas mereceriam muito mais atenção. De minha parte não exigem quase nada, além do apoio e incentivo, acompanhado de esporádicas mediações eclesiais que se fazem necessárias para garantir sua inserção na pastoral de conjunto da CNBB. Acostumadas a enfrentarem preconceitos e desconfianças, quando recebem um pouco de atenção e de encorajamento multiplicam suas energias e se sentem reanimadas a prosseguir com generosidade sua difícil missão.

Quero aqui citar o nome de uma delas. Monique Laroche. Sei que todas as outras vão ficar muito felizes com a menção que faço desta religiosa canadense, simples, austera, sempre disponível, incansável. Depois de vinte anos à frente da PMM, ela retornou nestes dias para o Canadá, a fim de refazer suas energias. Mas já antecipou que voltará ao Brasil, dentro de seis meses, para se reintegrar na PMM.

O testemunho evangélico dado por estas pessoas honra a Igreja, e desbarata a legião de fariseus que estão sempre de plantão para lançarem falsas acusações contra pessoas que expõem sua vida a serviço do Evangelho de Cristo.

Nestes dias, por ocasião da Marcha das Mulheres, a PMM foi convidada a participar de uma mesa de debates sobre a prostituição. Buscando discernimento e apoio, quiseram contar com meu parecer. Elas estavam firmes e dispostas a aceitar o convite, e aproveitar a oportunidade para expressarem sua clara posição contra o aborto, e contra a profissionalização da prostituição, ambas as posições claramente de acordo com a doutrina da Igreja.

Sentiam firmeza, mas queriam contar com a bênção da Igreja.

Nestes casos, o certo é recorrer ao Evangelho. Com sua luz, e com sua autoridade, encontramos discernimento e coragem para agir. A coragem que aconselhei a elas, sem titubear, à luz do Evangelho.

“Vós sois o sal da terra” (MT 5,13) Se o sal não é colocado na hora certa, para que serve ele?

“Vós sois a luz do mundo” (MT 5,14). Se lastimamos a escuridão, porque não acender, no lugar certo, a luz do Evangelho de Cristo?

Mas existe outra passagem que os fariseus de hoje ignoram, e que revela quanto eles estão em desacordo com o Evangelho. É a parábola do trigo e do joio. Constatando a presença do joio no meio do trigo, os trabalhadores perguntaram se deviam arrancar o joio. Ao que o senhor ponderou que arrancando o joio se arrancaria também o trigo. E que por isto é sábio deixar a ambos, até que se faça a colheita final.

Neste mundo coexistirão sempre trigo e joio.

Está em desacordo com o Evangelho quem se precipita furioso contra o joio, usurpando o poder do Juiz que, ele sim, fará a colheita final, que não cabe a nós antecipar!

Há pessoas que se arvoram em justiceiros dos agentes de pastoral que procuram testemunhar o Evangelho na complexa realidade de hoje. Nem toleram, por exemplo, que se mencione a marcha das mulheres, lançando logo acusações gratuitas, injustas, maldosas, perversas, pois forjadas a partir dos seus preconceitos e da falsa ilação de que citar a marcha das mulheres, ou o terceiro PNDH, é ser a favor do aborto.

Diante destas acusações falaciosas e mal intencionadas, interponho meu firme testemunho em favor dos agentes da PMM, do SPM – Serviço Pastoral dos Migrantes, e da Cáritas Brasileira, três serviços que tenho a incumbência de acompanhar. E deixo que os fariseus de hoje se avenham com Cristo, que já os desmascarou em outros tempos, advertindo que sua mania de acusar e crucificar pessoas já perdeu a graça, e já conta com o julgamento da história.