discípulos

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio na “cracolândia” em 26/07/2015

Assista à reflexão do Pe. Julio Lancellotti na missa celebrada na chamada “cracolândia” na região central de São Paulo em 26/07/2015. Nesse dia, 17º Domingo do Tempo Comum, o Evangelho conta a passagem em que Jesus partilha cinco pães e dois peixes com cinco mil pessoas, episódio que ficou conhecido como “multiplicação dos pães”.

Gravação feita na missa das 15h.

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio no Domingo de Ramos

Assista à íntegra da pregação do Pe. Julio Lancellotti no Domingo de Ramos, celebrado em 13/04/2014. O Evangelho traz a Paixão de Cristo segundo Mateus, narrativa da entrada de Jesus em Jerusalém, a traição, prisão, julgamento e morte.

Gravação realizada na missa das 18h na igreja São Miguel Arcanjo.

Páscoa: Experiência de fé e compromisso missionário

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Não sei o que mais impressiona nos relatos pascais que encontramos nos Evangelhos. Se a mudança radical que faz com que o luto doloroso e lacrimejante pelo Crucificado morto de maneira infame se transmute em alegria exultante e intrépida; ou se o fato de que um mistério tão profundo e tão sublime seja ao mesmo tempo tão carregado de raiz histórica e realismo humano.

Talvez ambas as coisas. Mas o fato é que a lógica de Deus, que sempre desconcerta, porque vai na contra mão de nossa lógica humana, talvez jamais desconcerte tanto como no evento pascal que dá origem à fé cristã. A começar pela fragilidade do movimento que mudará o mundo e dividirá a história em “antes” e “depois”: umas frágeis e desoladas mulheres que não se conformavam que o corpo do Amado mestre, morto depois de sofrer tanto, ficasse sem o perfume e os óleos por elas cuidadosamente preparados em sua última morada.

Será que acreditavam mesmo que era a última? Será que em seus corações e, sobretudo em seus ventres feitos para a vida e a fecundidade, acreditavam na morte como última palavra? Ainda que suspeitando que não, o fato é que na madrugada do domingo, quando tudo ainda dormia e a noite ameaçadora ainda não fora vencida pela luz, elas caminharam trêmulas e tristes, amparando-se umas às outras e habitadas por uma pergunta que dá bem testemunho de sua fragilidade: “Quem nos há de remover a pedra da entrada do sepulcro?”

Força para enfrentar a noite e seus fantasmas elas tinham. Força para sobrepor-se à dor e levar perfumes para ungir o corpo do Mestre também. Mas força para remover a enorme pedra que selava o sepulcro… para isso precisariam da ajuda de alguém. E, no entanto, encontraram a pedra removida e o túmulo vazio e alguém que lhes disse, diante de seu estupor pela ausência do Mestre, que ele as precederia na Galiléia. E que fossem dar esta notícia a Pedro e ao discípulos.

Tiveram medo, diz o evangelista, e fugiram e calaram-se. Mas em Maria Madalena não houve medo que paralisasse, pois além de ver a pedra rolada, as impossibilidades removidas e a ausência que a desesperou pensando haver perdido o que lhe restava de seu Senhor para sempre, a necessidade de partilhar esta notícia foi mais forte que o medo. E foi dizê-lo aos discípulos… que não creram nela.

Depois, no entanto, foram ver. E não viram nada, pois o túmulo estava vazio. Mas aquele a quem Jesus amava viu e creu. E a partir daí, já nada nem ninguém mais era capaz de segurar esta notícia, esta boa nova, esta espetacular inversão da lógica da morte e da tristeza: aquele que vimos morto está vivo e apareceu às mulheres, a Maria Madalena, a Simão Pedro, a dois dos nossos que caminhavam para Emaús, aos onze reunidos.

Seria lógico que a alegria dos amigos que reencontram a preciosidade do amigo perdido fosse retumbante… se tudo voltasse a ser como antes. Mas não. Nada era como antes. O Ressuscitado aparecia e de novo os deixava. Dava-lhes incumbência e missão: contar a todos, anunciar a outros, a outros e outros mais. Fazer com que a notícia corresse mundo e transformasse os corações enlutados em alegres, o medo em coragem, a solidão em companhia. Deixava-os, mas desta vez não sozinhos, não em lágrimas, não mergulhados na desolação.

Sua identidade estava transformada. De frágeis e desolados seres humanos atirados em irremissível orfandade eram agora intrépidas testemunhas. Que deviam fazer? Juntar-se o mesmo grupo para comemorar juntos a boa notícia da qual só eles sabiam, na qual somente eles e elas creram? Não. Trabalhar, mover-se, contá-la aos outros. Testemunhar para que outros creiam e tenham parte nesta alegria.

Após a experiência tão dolorosa da Paixão, a palavra de ordem de Jesus Ressuscitado não é descansar e recuperar-se dos traumas para depois voltar à rotina. Mas é imediatamente mudar de vida, lançar fora uma rotina que nunca mais acontecerá. Porque agora a vida consistirá em não descansar nunca mais de anunciar que aquele que os homens mataram está vivo pelo poder de Deus e a morte não tem mais nenhum poder sobre ele.

O anúncio do mistério maior que funda a fé cristã não lança os discípulos que agora são apóstolos e mensageiros da boa notícia na órbita longínqua e distante da alienação imobilizante. Mas pelo contrário, os atira de cheio no ventre da história conflitiva e problemática, a mesma que levou Jesus à morte, para dar testemunho de sua Ressurreição.

O tempo mostrou que a muitos e muitas estaria reservada a mesma sorte do Mestre. Que importância tinha? Que medo poderiam ter de uma morte que Deus já havia vencido em seu Filho? O que poderia detê-los ou retê-los? Nada. Ninguém. Pelos caminhos de terra, pelo seio do mundo, pelo espaço e pelo tempo, desde aquela madrugada até hoje, esta notícia continua disponível para mudar a face da terra, transformar a dor em júbilo e proclamar que tudo tem sentido, uma vez que o amor é mais forte que a morte.

Passar por aí, sofrer a perda e proclamar o ganho, chorar a morte e converter-se em testemunha da vida, apalpar o fim e constatar e anunciar que é apenas o princípio da vida que não morre é o sentido da vida humana sobre a terra. Cabe a nós levar adiante essa notícia, cuidando-a desveladamente, a fim de que sua amorosa fragilidade possa chegar aos confins da terra, como desejou e profetizou Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem, padeceu, morreu, foi sepultado, mas foi ressuscitado por Deus seu Pai e nosso, porque o amor é mais forte que a morte.

FELIZ PÁSCOA PARA TODOS!

Mensagem do Papa para o Dia Mundial das Missões

Neste domingo dedicado às missões, me dirijo, sobretudo a vós, irmãos no ministério episcopal e sacerdotal, e também aos irmãos e irmãs do Povo de Deus, a fim de vos exortar a reavivar em si a consciência do mandato missionário de Cristo para que “todos os povos se tornem seus discípulos” (Mt 28,19), seguindo as pegadas de São Paulo, o apóstolo dos gentios.

“As nações caminharão à sua luz” (Ap 21, 24). O objetivo da missão da Igreja é iluminar com a luz do Evangelho todos os povos em seu caminhar na história rumo a Deus, pois Nele encontramos a sua plena realização. Devemos sentir o anseio e a paixão de iluminar todos os povos, com a luz de Cristo, que resplandece no rosto da Igreja, para que todos se reúnam na única família humana, sob a amável paternidade de Deus.

É nesta perspectiva que os discípulos de Cristo espalhados pelo mundo trabalham, se dedicam, gemem sob o peso dos sofrimentos e doam a vida. Reitero com veemência o que muitas vezes foi dito pelos meus predecessores: a Igreja não age para ampliar o seu poder ou reforçar o seu domínio, mas para levar a todos Cristo, salvação do mundo. Pedimos somente nos colocar a serviço da humanidade, sobretudo daquela sofredora e marginalizada, porque acreditamos que “o compromisso de anunciar o Evangelho aos homens de nosso tempo… é sem dúvida alguma um serviço prestado à comunidade cristã, mas também a toda a humanidade” (Evangelii nuntiandi, 1), que “apesar de conhecer realizações maravilhosas, parece ter perdido o sentido último das coisas e de sua própria existência”(Redemptoris missio, 2).

1. Todos os povos são chamados à salvação.

Na verdade, a humanidade inteira tem a vocação radical de voltar à sua origem, que é Deus, somente no Qual ela encontrará a sua plenitude por meio da restauração de todas as coisas em Cristo. A dispersão, a multiplicidade, o conflito, a inimizade serão repacificadas e reconciliadas através do sangue da Cruz e reconduzidas à unidade.

O novo início já começou com a ressurreição e a exaltação de Cristo, que atrai a si todas as coisas, as renova, as tornam participantes da eterna glória de Deus. O futuro da nova criação brilha já em nosso mundo e acende, mesmo se em meio a contradições e sofrimentos, a nossa esperança por uma vida nova. A missão da Igreja é “contagiar” de esperança todos os povos. Por isto, Cristo chama, justifica, santifica e envia os seus discípulos para anunciar o Reino de Deus, a fim de que todas as nações se tornem Povo de Deus. É somente nesta missão que se compreende e se confirma o verdadeiro caminho histórico da humanidade. A missão universal deve se tornar uma constante fundamental na vida da Igreja. Anunciar o Evangelho deve ser para nós, como já dizia o apóstolo Paulo, um compromisso impreterível e primário.

2. Igreja peregrina

A Igreja Universal, sem confim e sem fronteiras, se sente responsável por anunciar o Evangelho a todos os povos (cfr. Evangelii nuntiandi, 53). Ela, germe de esperança por vocação, deve continuar o serviço de Cristo no mundo. A sua missão e o seu serviço não se limitam às necessidades materiais ou mesmo espirituais que se exaurem no âmbito da existência temporal, mas na salvação transcendente que se realiza no Reino de Deus. (cfr. Evangelii nuntiandi, 27).

Este Reino, mesmo sendo em sua essência escatológico e não deste mundo (cfr. Jo 18,36), está também neste mundo e em sua história é força de justiça, paz, verdadeira liberdade e respeito pela dignidade de todo ser humano. A Igreja mira em transformar o mundo com a proclamação do Evangelho do amor, “que ilumina incessantemente um mundo às escuras e nos dá a coragem de viver e agir e… deste modo, fazer entrar a luz de Deus no mundo” (Deus caritas est, 39). Esta é a missão e o serviço que, também com esta Mensagem, chamo a participar todos os membros e instituições da Igreja.

3. Missão ad gentes

A missão da Igreja é chamar todos os povos à salvação realizada por Deus em seu Filho encarnado. É necessário, portanto, renovar o compromisso de anunciar o Evangelho, fermento de liberdade e progresso, fraternidade, união e paz (cfr. Ad gentes, 8). Desejo “novamente confirmar que a tarefa de evangelizar todos os homens constitui a missão essencial da Igreja”(Evangelii nuntiandi, 14), tarefa e missão que as vastas e profundas mudanças da sociedade atual tornam ainda mais urgentes. Está em questão a salvação eterna das pessoas, o fim e a plenitude da história humana e do universo. Animados e inspirados pelo Apóstolo dos Gentios, devemos estar conscientes de que Deus tem um povo numeroso em todas as cidades percorridas também pelos apóstolos de hoje (cfr. At 18, 10). De fato, “a promessa é em favor de todos aqueles que estão longe, todos aqueles que o Senhor nosso Deus chamar “(At 2,39).

Toda a Igreja deve se empenhar na missão ad gentes, enquanto a soberania salvífica de Cristo não está plenamente realizada: “Agora, porém, ainda não vemos que tudo lhe esteja submisso” (Hb 2,8).

4. Chamados a evangelizar também por meio do martírio

Neste dia dedicado às missões, recordo na oração aqueles que fizeram de suas vidas uma exclusiva consagração ao trabalho de evangelização. Menciono em particular as Igrejas locais, os missionários e missionárias que testemunham e propagam o Reino de Deus em situações de perseguição, com formas de opressão que vão desde a discriminação social até a prisão, a tortura e a morte. Não são poucos aqueles que atualmente são levados à morte por causa de seu “Nome”. É ainda de grande atualidade o que escreveu o meu venerado predecessor papa João Paulo II: “A comemoração jubilar descerrou-nos um cenário surpreendente, mostrando o nosso tempo particularmente rico de testemunhas, que souberam, ora dum modo ora doutro, viver o Evangelho em situações de hostilidade e perseguição até darem muitas vezes a prova suprema do sangue” (Novo millennio ineunte, 41).

A participação na missão de Cristo, de fato, destaca também a vida dos anunciadores do Evangelho, aos quais é reservado o mesmo destino de seu Mestre. “Lembrai-vos do que eu disse: nenhum empregado é maior do que seu patrão. Se perseguiram a mim, vão perseguir a vós também” (Jo 15,20). A Igreja se coloca no mesmo caminho e passa por tudo aquilo que Cristo passou, porque não age baseando-se numa lógica humana ou com a força, mas seguindo o caminho da Cruz e se fazendo, em obediência filial ao Pai, testemunha e companheira de viagem desta humanidade.

Às Igrejas antigas como as de recente fundação, recordo que são colocadas pelo Senhor como sal da terra e luz do mundo, chamadas a irradiar Cristo, Luz do mundo, até os extremos confins da terra. A missão ad gentes deve ser a prioridade de seus planos pastorais.

Agradeço e encorajo as Pontifícias Obras Missionárias pelo indispensável trabalho a serviço da animação, formação missionária e ajuda econômica às jovens Igrejas. Por meio destas instituições pontifícias, se realiza de forma admirável a comunhão entre as Igrejas, com a troca de dons, na solicitude recíproca e na comum projetualidade missionária.

5. Conclusão

O impulso missionário sempre foi sinal de vitalidade de nossas Igrejas (cfr. Redemptoris missio, 2). É preciso, todavia, reafirmar que a evangelização é obra do Espírito, e que antes mesmo de ser ação, é testemunho e irradiação da luz de Cristo (cfr. Redemptoris missio, 26) através da Igreja local, que envia os seus missionários e missionárias para além de suas fronteiras. Rogo a todos os católicos para que peçam ao Espírito Santo que aumente na Igreja a paixão pela missão de proclamar o Reino de Deus e ajudar os missionários, as missionárias e as comunidades cristãs empenhadas nesta missão, muitas vezes em ambientes hostis de perseguição.

Ao mesmo tempo, convido todos a darem um sinal crível da comunhão entre as Igrejas, com uma ajuda econômica, especialmente neste período de crise que a humanidade está vivendo, a fim de colocar as jovens Igrejas em condições de iluminar as pessoas com o Evangelho da caridade.

Guie-nos em nossa ação missionária a Virgem Maria, Estrela da Evangelização, que deu ao mundo Cristo, luz das nações, para que leve a salvação “até aos extremos da terra” (At 13,47). A todos, a minha bênção.

Cidade do Vaticano, 29 de junho de 2009

BENEDICTUS PP. XVI

Por que somos tão covardes?

José Antonio Pagola

“Por que sois assim tímidos?! Como é que não tendes fé?”. Para o evangelista Marcos, estas duas perguntas que Jesus dirige aos seus discípulos não são uma anedota do passado. São as perguntas que devem ouvir os seguidores de Jesus no meio de suas crises. As perguntas que nós temos que fazer também hoje: Onde está a raiz de nossa covardia? Por que temos medo frente ao futuro? É porque nos falta a fé em Jesus Cristo?

A história é breve. Tudo começa com uma ordem de Jesus: “Passemos para a outra margem”. Os discípulos sabem que na outra margem do lago Tiberíades se encontra o território pagão da Decápolis. Um país diferente e estranho. Uma cultura hostil a sua religião e as suas crenças.

De repente uma tempestade forte se levanta, a metáfora gráfica do que acontece no grupo dos discípulos. O vento violento, as ondas que quebram contra o barco, a água que começa a invadir tudo, expressam bem a situação: Que poderão os seguidores de Jesus frente à hostilidade do mundo pagão? Não somente está em perigo sua missão, mas a sobrevivência mesma do grupo.

Despertado pelos seus discípulos, Jesus intervém. O vento se aquietou e no lago fez-se grande bonança. A coisa surpreendente é que os discípulos “ficam possuídos de grande temor”.

Antes estavam com medo da tempestade. Agora parece que estão com medo de Jesus. Não entanto, algo decisivo se produziu neles: recorreram a Jesus; puderam experimentar nele uma força salvadora que não conheciam; começam a se perguntar pela sua identidade. Começam a intuir que com Ele tudo é possível.

Hoje o Cristianismo encontra-se no meio “de uma forte tempestade” e o medo começa a tomar conta de nós. Não ousamos passar para “uma outra margem”.

A cultura moderna é para nós um país estranho e hostil. Temos medo do futuro. A criatividade parece proibida. Alguns acham mais seguro mirar para atrás, para ir melhor adiante Jesus pode nos surpreender todos. O Ressuscitado tem a força para inaugurar uma fase nova na história do Cristianismo. Só a fé nos é pedida. Uma fé que nos liberte de tantos medos e covardia, e nos leve ao compromisso de caminhar atrás das pegadas de Jesus.