Testemunhos

José Comblin e Paulo Freire

Eduardo Hoornaert

Como os tempos correm rápidos está na hora de se recuperar a memória de pessoas que renovaram significativamente o pensamento no Brasil nos últimos cinqüenta anos. Muitas delas não são mais conhecidas pela juventude emergente, o que é uma pena. Pois, como escreve Bertold Brecht, ‘quem desconhece sua história está condenado a repeti-la’.

Enfoco aqui duas figuras que atuaram em áreas aparentemente muito diversas: José Comblin, o teólogo, e Paulo Freire, o educador. Quem observa as coisas de mais perto percebe que a distância entre ambos é apenas aparente. Na realidade, ambos são eminentes educadores. Todos repetem que a educação é o grande problema do Brasil, mas poucos dizem o que entendem por educação. Todos dizem que a educação escolar não corresponde aos desafios da vida atual, mas poucos dizem com clareza como remediar a essa situação. É aqui que entra Paulo Freire. Ele diz com toda clareza: a educação tem de partir de ‘temas geradores’. As situações vividas no dia-a-dia geram a reflexão e desse modo originam a educação. Quem nasceu e se criou numa casa de taipa reflete o que isso significa na sociedade em que vivemos, e o mesmo se dá com quem se criou num apartamento de luxo. Em outras palavras, a casa (o apartamento), a rua, o bairro, o trabalho, o dinheiro, o corpo, o sexo, a festa, etc. são temas geradores de educação. Da realidade se chega à reflexão, que por sua vez gera a ação. Logo se vê que o método Paulo Freire combina bem com o método Cardijn, o sacerdote belga fundador da Juventude Operária Católica (JOC) nos anos 1940, que criou um método de formação de jovens operários(as) baseado no lema ‘ver, julgar, agir’. Cardijn não fala em ‘temas geradores’, mas a intuição é a mesma. Ora, quando José Comblin chega ao Brasil em 1958, ele está imbuído da metodologia de José Cardijn. Ele inicia seu trabalho aqui com a JOC, e depois de muitas peripécias consegue, em 1969, ‘fugir’ do Instituto de Teologia de Recife (ITER) com nove seminaristas dispostos a repensar sua vocação sacerdotal em consonância com a realidade do povo rural do Nordeste. É em cima dessa disposição por parte de jovens candidatos ao sacerdócio que Comblin elabora a ‘teologia da enxada’, que significativamente está articulada nos ‘temas geradores’ de Freire: a casa, a comunidade local, a terra, o trabalho, a refeição, o corpo, a festa.

Penso que Comblin pedagogo é mais importante que Comblin teólogo e conselheiro de bispos. A teologia da enxada é um método pedagógico que excede de longe as experiências concretas com seminaristas. Hoje se assemelha ao método Paulo Freire aplicado à formação de agentes de pastoral, como se pode verificar em seis ‘escolas missionárias’, espalhadas por cinco estados nordestinos: Bahia, Pernambuco, Paraíba, Ceará e Piauí. Trata-se de uma experiência que merece ser melhor divulgada, inclusive junto a políticos responsáveis pela educação. Muitos deles (mesmo os da esquerda) não parecem perceber a relevância do método na educação e pensam que basta conseguir verbas para as instituições educacionais existentes. Seria bom se eles se aprofundassem na metodologia exemplarmente praticada por figuras como José Cardijn, Paulo Freire e José Comblin (poderíamos acrescentar aqui Ivan Illich, mas isso nos levaria longe).

De qualquer modo, Comblin figura ao lado de Paulo Freire como expressão de uma pedagogia nova na América Latina, surgida na década de 1960. Sua pedagogia é relevante para a sociedade como um todo, não só para a igreja. Ela é revolucionária no sentido que está baseada no ‘amor desordenado’, ou seja, num amor pelas pessoas que desordena a sociedade estabelecida, baseada na injustiça. Como escreve José Comblin numa sequência de três frases lapidares: o amor não fundamenta a ordem, mas a desordem. O amor quebra toda a estrutura da ordem. O amor fundamenta a liberdade e, por conseguinte, a desordem.

Páscoa: Experiência de fé e compromisso missionário

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Não sei o que mais impressiona nos relatos pascais que encontramos nos Evangelhos. Se a mudança radical que faz com que o luto doloroso e lacrimejante pelo Crucificado morto de maneira infame se transmute em alegria exultante e intrépida; ou se o fato de que um mistério tão profundo e tão sublime seja ao mesmo tempo tão carregado de raiz histórica e realismo humano.

Talvez ambas as coisas. Mas o fato é que a lógica de Deus, que sempre desconcerta, porque vai na contra mão de nossa lógica humana, talvez jamais desconcerte tanto como no evento pascal que dá origem à fé cristã. A começar pela fragilidade do movimento que mudará o mundo e dividirá a história em “antes” e “depois”: umas frágeis e desoladas mulheres que não se conformavam que o corpo do Amado mestre, morto depois de sofrer tanto, ficasse sem o perfume e os óleos por elas cuidadosamente preparados em sua última morada.

Será que acreditavam mesmo que era a última? Será que em seus corações e, sobretudo em seus ventres feitos para a vida e a fecundidade, acreditavam na morte como última palavra? Ainda que suspeitando que não, o fato é que na madrugada do domingo, quando tudo ainda dormia e a noite ameaçadora ainda não fora vencida pela luz, elas caminharam trêmulas e tristes, amparando-se umas às outras e habitadas por uma pergunta que dá bem testemunho de sua fragilidade: “Quem nos há de remover a pedra da entrada do sepulcro?”

Força para enfrentar a noite e seus fantasmas elas tinham. Força para sobrepor-se à dor e levar perfumes para ungir o corpo do Mestre também. Mas força para remover a enorme pedra que selava o sepulcro… para isso precisariam da ajuda de alguém. E, no entanto, encontraram a pedra removida e o túmulo vazio e alguém que lhes disse, diante de seu estupor pela ausência do Mestre, que ele as precederia na Galiléia. E que fossem dar esta notícia a Pedro e ao discípulos.

Tiveram medo, diz o evangelista, e fugiram e calaram-se. Mas em Maria Madalena não houve medo que paralisasse, pois além de ver a pedra rolada, as impossibilidades removidas e a ausência que a desesperou pensando haver perdido o que lhe restava de seu Senhor para sempre, a necessidade de partilhar esta notícia foi mais forte que o medo. E foi dizê-lo aos discípulos… que não creram nela.

Depois, no entanto, foram ver. E não viram nada, pois o túmulo estava vazio. Mas aquele a quem Jesus amava viu e creu. E a partir daí, já nada nem ninguém mais era capaz de segurar esta notícia, esta boa nova, esta espetacular inversão da lógica da morte e da tristeza: aquele que vimos morto está vivo e apareceu às mulheres, a Maria Madalena, a Simão Pedro, a dois dos nossos que caminhavam para Emaús, aos onze reunidos.

Seria lógico que a alegria dos amigos que reencontram a preciosidade do amigo perdido fosse retumbante… se tudo voltasse a ser como antes. Mas não. Nada era como antes. O Ressuscitado aparecia e de novo os deixava. Dava-lhes incumbência e missão: contar a todos, anunciar a outros, a outros e outros mais. Fazer com que a notícia corresse mundo e transformasse os corações enlutados em alegres, o medo em coragem, a solidão em companhia. Deixava-os, mas desta vez não sozinhos, não em lágrimas, não mergulhados na desolação.

Sua identidade estava transformada. De frágeis e desolados seres humanos atirados em irremissível orfandade eram agora intrépidas testemunhas. Que deviam fazer? Juntar-se o mesmo grupo para comemorar juntos a boa notícia da qual só eles sabiam, na qual somente eles e elas creram? Não. Trabalhar, mover-se, contá-la aos outros. Testemunhar para que outros creiam e tenham parte nesta alegria.

Após a experiência tão dolorosa da Paixão, a palavra de ordem de Jesus Ressuscitado não é descansar e recuperar-se dos traumas para depois voltar à rotina. Mas é imediatamente mudar de vida, lançar fora uma rotina que nunca mais acontecerá. Porque agora a vida consistirá em não descansar nunca mais de anunciar que aquele que os homens mataram está vivo pelo poder de Deus e a morte não tem mais nenhum poder sobre ele.

O anúncio do mistério maior que funda a fé cristã não lança os discípulos que agora são apóstolos e mensageiros da boa notícia na órbita longínqua e distante da alienação imobilizante. Mas pelo contrário, os atira de cheio no ventre da história conflitiva e problemática, a mesma que levou Jesus à morte, para dar testemunho de sua Ressurreição.

O tempo mostrou que a muitos e muitas estaria reservada a mesma sorte do Mestre. Que importância tinha? Que medo poderiam ter de uma morte que Deus já havia vencido em seu Filho? O que poderia detê-los ou retê-los? Nada. Ninguém. Pelos caminhos de terra, pelo seio do mundo, pelo espaço e pelo tempo, desde aquela madrugada até hoje, esta notícia continua disponível para mudar a face da terra, transformar a dor em júbilo e proclamar que tudo tem sentido, uma vez que o amor é mais forte que a morte.

Passar por aí, sofrer a perda e proclamar o ganho, chorar a morte e converter-se em testemunha da vida, apalpar o fim e constatar e anunciar que é apenas o princípio da vida que não morre é o sentido da vida humana sobre a terra. Cabe a nós levar adiante essa notícia, cuidando-a desveladamente, a fim de que sua amorosa fragilidade possa chegar aos confins da terra, como desejou e profetizou Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem, padeceu, morreu, foi sepultado, mas foi ressuscitado por Deus seu Pai e nosso, porque o amor é mais forte que a morte.

FELIZ PÁSCOA PARA TODOS!

Exposição em Fortaleza (Ceará) apresenta fotografias de Dom Helder

Nos próximos dias 16 e 17 de março, a Faculdade Católica da Prainha (Facap), em Fortaleza (CE), dá início à exposição “Centenário de Dom Helder Camara”. Um dos fundadores da CNBB, o arcebispo emérito de Olinda e Recife, falecido em 1999, completaria cem anos no último dia 7 de fevereiro. A faculdade, que é integrada pelo Instituto de Teologia Pastoral do Ceará (Itep) e pelo Instituto de Ciências Religiosas (Icre), fica na rua Tenente Benévolo, n° 201, no Centro da cidade.

Com o chamado “Dom Helder de Volta à Prainha”, o evento dá destaque ao Seminário Diocesano de Fortaleza, conhecido como Seminário da Prainha, onde, em 1931, o jovem Helder Câmara foi ordenado padre, com apenas 22 anos. Anos depois, em 1936, transferiu-se para o Rio de Janeiro (RJ) a fim de dedicar-se aos estudos sobre educação pública e fortalecer sua atuação na Igreja Católica.

Segundo o padre Luis Sartorel, diretor-administrativo do Icre, a exposição vai ser organizada em uma sala com a disposição de 24 paineis fotográficos de 1,70m de altura por 1,20 de largura. No local, os visitantes também vão poder adquirir o livro com a reprodução das fotografias. Além disso, o padre acrescenta que outros produtos devem ser expostos, já que a estrutura da exposição ainda está sendo finalizada.

Além da exposição, antecedendo a abertura oficial, na manhã do dia 16, a programação inicia com uma Conferência sobre a Campanha da Fraternidade 2009, que aborda a segurança pública sob o lema “A paz é fruto da justiça”. O palestrante é o padre Almir Magalhães, reitor do Seminário Arquidiocesano de Filosofia e professor do Itep. Em seguida, no miniauditório da instituição, o Monsenhor Manfredo Ramos, diretor-geral da Facap, faz a abertura oficial da exposição, que segue até a noite do dia 17.

Para mais informações sobre a exposição, o telefone da Faculdade Católica da Prainha é (85) 3219.9023.

Dom Helder, Pastor e Profeta

Antônio Mesquita Galvão

No dia 7 de fevereiro de 2009 o Brasil celebrou o centenário do nascimento de Dom Helder Pessoa Câmara, Arcebispo Emérito de Olinda e Recife, aquele que talvez tenha sido a voz brasileira mais conhecida no exterior. Junto com Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Helder, mercê sua inspiração e coragem, foi uma das personalidades mais temidas pela ditadura.

Eu tive oportunidade de conviver com ele quando lutávamos para implantar o movimento de Cursilhos em João Pessoa (PB), em 1981. Foi um privilégio posterior ouvi-lo pregar, quando em 1982 ele animou uma ultreya dos cursilhistas. Igual a um apóstolo ou a um Santo Antônio, as pessoas paravam, largavam o que estavam fazendo, para ouvi-lo falar. No dia da ultreya, o “guardinha” abandonou o controle do trânsito da esquina e entrou timidamente no salão das “dorotéias” para escutar o pregador.

O prelado era um homem corajoso e objetivo. É dele uma frase lapidar: “Se ajudo os pobres me chamam de profeta; se pergunto por que existe pobreza me tacham de comunista”. Uma vez, eu viajava de João Pessoa para São Paulo. O avião fez escala em Recife, onde Dom Helder embarcou. Os passageiros se levantaram e aplaudiram aquele homem idoso e sorridente, em sua característica batina cinzenta.

Dom Helder foi um injustiçado na vida e na morte. Enquanto o piloto Ayrton Senna e o cantor Leandro e outros menos notáveis, tiveram pompas fúnebres de celebridades, Dom Helder teve um funeral modesto, aliás, digno de um homem humilde. Por sua coragem profética, capaz de denunciar as injustiças sem medo, ele foi perseguido. Ele foi chamado, pelos corifeus da ditadura de “Arcebispo vermelho”. Em 1972 ele esteve cotado para receber o prêmio Nobel da Paz. Os generais, pessoas altamente “esclarecidas”, mexeram os pauzinhos para que ele não recebesse a comenda. Seria o único Nobel outorgado até hoje a um brasileiro. Foi igualmente perseguido pela ditadura religiosa, que nunca o fez Cardeal, em detrimento de outros, menos capazes, medíocres porém alinhados.

Uma vez, Dom Helder ligou para um empresário, pedindo um emprego para um irmão seu. Dias depois, o homem de negócios dá o retorno: “Tudo certo, Dom Helder, o rapaz já está trabalhando. Só não precisava dizer que ele era seu irmão. O senhor é Camara, e ele é Silva. Além disso, o senhor é branco e ele negro!” Como o bispo insistisse na tese da irmandade, o dono da firma perguntou: “Pode ser seu irmão ‘por parte de Adão e Eva’, mas não é seu irmão ‘de sangue’?”. A sentença do velho profeta é antológica: “Mas como não? Ele é meu irmão e irmão de sangue, sim! E o generoso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, derramado na cruz, não nos torna irmãos de sangue a todos?”.

Solidariedade não dá Ibope. Por causa do filtro ideológico imposto à mídia da época, a maioria dos atos de Dom Helder nunca chegou aqui. Só quem morou no nordeste pode conhecer o que ele fez pelos pobres e excluídos. Com sua morte, aos 90 anos, em 1999, perdeu o Brasil, perdeu a Igreja, perdemos nós…

Entrevista especial com Marcelo Barros

Reproduzimos abaixo a entrevista com o teólogo Marcelo Barros, feita pelo Instituto Humanitas Unisinos e publicada na Agência Adital. O entrevistado fala do Fórum Mundial de Teologia e Libertação, comenta os desafios ecológicos e cita como “exemplo e testemunho de espiritualidade liberadora” o trabalho do Pe. Júlio Lancellotti.


Adital – Relacionar a questão do pluralismo cultural e religioso à ecologia é um dos desafios que a teologia enfrenta hoje. Para colaborar nessa discussão, o teólogo e monge beneditino Marcelo Barros participará do III Fórum Mundial de Teologia e Libertação, que ocorre em Belém, no Pará, nos próximos dias 21 a 25 de janeiro. Seu desejo é “aprofundar a fé e o projeto divino a partir da realidade dos povos empobrecidos e dos atuais problemas do mundo”. Nesse sentido, a responsabilidade da Teologia, segundo ele, é denunciar.

Nesta entrevista especial, concedida por e-mail à IHU On-Line, Barros afirma que, “para uma nova relação de respeito e de comunhão do ser humano com a natureza, não basta boa vontade ou ideologia ecológica”. Para ele, um caminho novo só será possível se os governos perceberem que “o capitalismo é, por essência, depredador” e que não existe um desenvolvimento sustentável dentro dele. E também critica o atual governo, especialmente o PAC, por ainda não ter rompido com a lógica do capitalismo no que se refere às questões ambientais.

Marcelo Barros é monge beneditino e biblista. Membro da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT), é autor de 32 livros, entre os quais o recém-lançado “O Amor fecunda o Universo – Ecologia e espiritualidade” (Editora Agir, 2009), em coautoria de Frei Betto.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – Quais são os principais desafios e possibilidades que a Teologia da Libertação enfrenta hoje?

Marcelo Barros – Um importante desafio continua sendo aprofundar a fé e o projeto divino a partir da realidade dos povos empobrecidos e dos atuais problemas do mundo. A Teologia da Libertação se desenvolveu nas décadas de 70 e 80 a partir da inserção dos cristãos nos processos sociais latino-americanos (sandinistas na Nicarágua, FSMN em El Salvador, Cristãos para o Socialismo na Argentina e no Chile, CEBs e movimentos populares no Brasil, e assim por diante). Hoje, existe um processo de transformações sociais em curso em vários países da América Latina. Na Venezuela, fala-se em revolução socialista bolivariana; no Equador, em uma sociedade cidadã; na Bolívia, em uma revolução a partir da valorização das culturas indígenas. Onde está nisso tudo a Teologia da Libertação?

Outro importante desafio atual é reelaborar a Teologia da Libertação a partir da realidade diversa de um mundo pluralista e da responsabilidade das diversas religiões e tradições espirituais de contribuir com a paz, a justiça e o cuidado com a criação.

IHU On-Line – Pode esboçar alguns pontos que vão ser debatidos no Fórum, especialmente em sua conferência?

Marcelo Barros – Não terei propriamente uma conferência no Fórum. Penso que coordenarei uma oficina entre as muitas nas quais os participantes do Fórum de Teologia se dividirão, e essa oficina terá como tema “O Pluralismo Cultural e Religioso e o Desafio Ecológico”. Ali apresentarei o novo livro que está saindo de autoria minha e do Frei Betto: “O Amor fecunda o Universo – Ecologia e Espiritualidade”.

IHU On-Line – Quais são as articulações da teologia hoje? Existem debates teológicos com a sociedade civil em nível nacional ou latino-americano?

Marcelo Barros – Para haver pesquisa teológica, é necessário respirar-se um clima de liberdade e de diálogo respeitoso nas Igrejas e no mundo. Em vários países da América Latina, a teologia índia está presente no processo que, a partir das comunidades índias, repensa a organização social e política da sociedade e do mundo de forma a respeitar a diversidade, a interculturalidade e assim por diante. No Brasil, o fato do Fórum Social Mundial ter escolhido como tema a Amazônia e o 3º Fórum Mundial de Teologia e Libertação ter também assumido o tema da Ecologia conduz, nessa direção, os debates mais atuais.

IHU On-Line – Dados de 2005, indicam que a contaminação das águas no Brasil aumentou cinco vezes desde 1995, e que, desde 2000, o país foi responsável por cerca de 74% da área desmatada na América do Sul. Ao mesmo tempo, muito se critica os desafios ecológicos. Mas por onde se pode iniciar uma proposta mais articulada quando ainda se vê pouco apoio do governo? Por onde iniciar uma reflexão que ajude a uma mudança de mentalidade social e até religiosa com relação à natureza?

Marcelo Barros – Para uma nova relação de respeito e de comunhão do ser humano com a natureza, não basta boa vontade ou ideologia ecológica. Enquanto os governos não perceberem que o capitalismo é, por essência, depredador, e que não existe verdadeiramente um “desenvolvimento sustentável” dentro desse sistema, não temos possibilidade de um caminho novo. Estão aí os projetos de hidroelétricas na Amazônia e do desvio das águas e a construção dos canais do São Francisco para provar. Não é apenas com PAC que o governo cuida dessa questão. Romper com a lógica desse sistema é fundamental. Não podemos continuar aceitando que, entre uma estrada e um matinho, fiquemos com o desenvolvimento.

A responsabilidade da teologia nesse contexto é denunciar (alguns teólogos se pronunciaram com muita propriedade e clareza quando a ministra Marina Silva se sentiu obrigada a pedir demissão do ministério do Meio Ambiente). Além disso, temos de favorecer, desde o início, o processo de uma nova educação nas escolas, nas Igrejas e em todos os setores da sociedade. É por meio de uma nova educação que poderemos mudar isso.

IHU On-Line – Em que pontos a teologia e a ecologia convergem atualmente? Como a teologia pode ajudar a responder aos “gemidos da criação”?

Marcelo Barros – Para responder aos “gemidos da criação”, temos antes de ser capazes de “escutá-los” e compreendê-los em sua natureza complexa e suas causas.

A teologia eco-feminista, que associa a tragédia que ocorre com a Terra à opressão infligida durante séculos à mulher, une a ecologia social (igualdade homem-mulher) à Ecologia ambiental. E a Teologia Pluralista da Libertação procura resgatar e revalorizar as antigas expressões espirituais das culturas indígenas e negras que adoram a divindade nas suas manifestações na terra, na água e em todos os elementos da natureza.

IHU On-Line – A partir da figura de Cristo, que guia e orienta tantas denominações cristãs no mundo, como entender a ecologia? Qual foi a relação dele com a criação e como ele nos ensina a conviver com os demais seres não-humanos?

Marcelo Barros – Quando o quarto evangelho diz: “A Palavra de Deus se fez Carne”, podemos compreender que todo o universo, com a imensidade da sua “comunidade da vida”, não somente se torna uma espécie de presépio permanente para a manifestação humana de Deus, na pessoa de Jesus Cristo, mas também é assumida mesmo pela encarnação como uma espécie de extensão do corpo do Cristo. Os evangelhos e cartas, escritos tantos anos depois, não tinham nenhuma preocupação de falar em ecologia ou de aprofundar o que Jesus poderia nos dizer sobre isso. São testemunhos de como ele nos manifestou o projeto divino que os evangelhos chamam de “reino de Deus”.

Diversas parábolas do evangelho e diversas palavras de Jesus nos mostram que a comunhão com a natureza é fundamental como caminho de intimidade com Deus. É assim que, no sermão da montanha, ele nos convida a “olhar as aves do céu e os lírios do campo” (Mateus 6, 27-28), para aprender deles a simplicidade e a viver no essencial, preocupação, hoje, tão atual com o desafio de uma sociedade que não é sustentável e não pode mais manter o mesmo ritmo de crescimento de antes. Ele nos estimula a construir a casa sobre a rocha e a abrir os olhos aos sinais do reino presentes em torno a nós no mundo. Hoje, todo o universo parece crucificado com Cristo (não são mais somente, como dizia Jon Sobrino, “os povos crucificados”). É preciso crer na ressurreição e ser testemunhas disso. Eu procuro desenvolver uma teologia ecológica da eucaristia: a ceia da partilha e da comunhão na qual a presença de Cristo se dá através dos elementos básicos da vida e da natureza.

Hoje, cada vez mais aumenta o número das pessoas que levantam a questão dos direitos dos animais e a necessidade da nossa sociedade mudar totalmente a forma como os animais são tratados como objeto para o consumo e maltratados imensamente para engordar mais rápido e para ser sacrificados com mais lucro. Quem aprofunda uma espiritualidade ecológica começa a pensar em um vegetarianismo de paz e não-violência com as outras espécies animais.

IHU On-Line – O que seria uma espiritualidade libertadora? Que grupos e/ou experiências você pode salientar nesse sentido?

Marcelo Barros – Se a espiritualidade significa “deixar-se conduzir pelo Espírito”, a experiência de muitos de nós é que podemos vivenciar isso na prática da solidariedade. Desde 1978, assessoro e acompanho a Pastoral da Terra. Tenho de confessar que, poucas vezes, vivi experiências verdadeiramente místicas, quase de êxtase, como quando acompanhei uma ou outra comunidade de lavradores sem-terra a ocupar um terreno incultivado. Cantando e orando pela madrugada, eu me senti plenamente refazendo o Êxodo bíblico e pude experimentar a presença divina junto àquele povo.

É verdade que vivo isso também quando participo de algum culto afro-brasileiro no Candomblé. Todo dia, procuro encontrar essa intimidade com Deus no sacramento e posso dizer que a encontro na escuridão e sobriedade da fé, Mas, no outro e no diferente, parece que ele se excede e grita para nós sua presença e seu amor. Todos os grupos que vivem a solidariedade como expressão de fé vivem uma espiritualidade libertadora.

Para mim, são exemplos e testemunhas de espiritualidade libertadora, o padre Júlio Lancelotti em São Paulo (ele, as irmãs beneditinas e equipe) no trabalho com o povo da rua e com as crianças que têm Aids. Continuo vibrando com o testemunho profético de irmãos como Dom Pedro Casaldáliga, Dom Tomás Balduíno e outros pastores que não descansam na sua profecia. E devo dizer com sinceridade que o MST, mesmo sendo um movimento leigo e que não tem nenhuma opção religiosa, sempre me toca pela força espiritual que sinto neles, em cada contato e em cada evento do qual participo.