Belém

Belém: Terra do Pão

Dom Demétrio Valentini

Estamos chegando ao Natal de 2013. É o primeiro sob o Papa Francisco. Ainda temos bem presente o impacto positivo, causado no final do conclave, com a dupla surpresa: a escolha de um cardeal que ninguém imaginava, junto com a escolha do nome Francisco.

Esta dupla surpresa abriu logo um amplo espaço de projeção de expectativas, que foram se confirmando. Como o Francisco de Assis, o agora “Francisco de Roma” também se defronta com o desafio de renovar a Igreja de Cristo, e de retornar à vivência dos valores evangélicos.

Foi dentro deste contexto, que São Francisco teve a ideia de celebrar o Natal reproduzindo o cenário de Belém, de onde resultou o “presépio”, que acabou entrando na tradição cristã. Hoje não se celebra o Natal, sem um presépio, por simples que seja.

Pois bem, estas circunstâncias nos chamam a atenção para conferir como vai ser este Natal, com um nome que sintetiza bem dois personagens, colocados a serviço da missão de Cristo e da Igreja, o Francisco de Assis e o Francisco de Roma.

Em vista desta sintonia de duas figuras simbolizando os mesmos valores, a Diocese de Jales elaborou sua novena propondo um “Natal com Francisco”.

O “presépio” é fácil de fazer. O mais desafiador é sintonizar com os objetivos que o novo papa vem nos propondo, com surpreendente objetividade e impressionante firmeza.

Uma iniciativa, que encontra respaldo no contexto do Natal, é a campanha contra a fome no mundo, lançada pela Cáritas, e recomendada com particular insistência pelo Papa Francisco.

Assumindo esta iniciativa concreta, em tempos ainda de definição do seu pontificado, resulta clara a intenção de fazer desta campanha contra a fome a inspiração para a Igreja se voltar para a sociedade, e abraçar suas causas importantes.

A fome é expressão da necessidade mais premente de toda pessoa humana. Todos temos absoluta necessidade de comer, para viver. A fome se torna símbolo das necessidades, que precisam ser atendidas para garantir um mínimo de dignidade humana.

O bispo emérito de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, referindo-se ao debate sobre valores relativos e valores absolutos, com sua verve costumeira sentenciou: “só Deus é absoluto, e a fome!”

Concordamos com Dom Pedro, se entendemos que a fome dispensa qualquer discussão ou justificativa. Ela precisa ser atendida, e não pode esperar.

Nestes dias de Natal nos encantamos com os gestos proféticos do Papa Francisco, aproximando-se dos mendigos de Roma.

Estes gestos sinalizam o compromisso do combate à fome, que precisa ser colocado de maneira absoluta, pela Igreja e pela sociedade. Até o nome da cidade onde Jesus nasceu lembra o alimento mais necessário e mais universal.

Belém significa “terra do pão”. Que o Natal nos ensine de novo o gesto da partilha do pão, como fez Jesus, saciando as multidões. Assim o Natal será, certamente, mais feliz, para todos!

Reflexão de Advento

Maria Clara Bingemer

A palavra “advento” tem origem latina e significa “chegada”, “aproximação”, “vinda”. No Ano Litúrgico, o Advento é um tempo de preparação para a segunda maior festa cristã: o Natal do Senhor. Neste tempo, celebramos a grande verdade da nossa fé, que é o nascimento de Jesus em Belém.  Assim, a Igreja comemora a vinda do Filho de Deus entre os homens (aspecto histórico) e vive a alegre expectativa de sua segunda vinda d’Ele, em poder e glória, em dia e hora desconhecidos para nós, mas conhecidos para Deus.

A espiritualidade do Advento é marcada por algumas atitudes básicas: a preparação para receber Jesus que ad-vém, que se aproxima, a vigilância e a espera feita de esperança. Será na  oração e na vivência da esperança cristã que essas atitudes poderão ser vividas e cultivadas.

A preparação para receber o Senhor se dá na vivência da conversão e da ascese.  E para isso é necessária a vigilância. É com olhar atento sobre nós e a realidade que nos cerca que somos convocados a nos empenharmos para corresponder à ação do Espírito de Deus que quer restaurar todas as coisas. Assim, nosso relacionamento com  nosso corpo e  nossos afetos, com nossos familiares e pessoas íntimas, nossa participação na vida eclesial e social devem estar no foco de nossa atenção.

Para receber o Deus feito criança é necessária uma renovação interior profunda e radical, deixando para trás o que foi ficando velho e desgastado em nossa vida e abrindo-nos para acolher o que é novo e tem cheiro de pão saído do forno, de livro recém impresso, de bebê saído do banho.  Quando a eternidade invade o tempo, a divindade impregna a humanidade, o infinito perpassa a finitude, nada mais será como antes, porque tudo se fez novo e tudo é possível.

Para receber o Menino Jesus  que vem e chega no Natal é igualmente necessário ter a atitude da espera.  E para isso duas figuras bíblicas podem ajudar.  Uma é João Batista, o profeta de olhos de lince e língua de fogo, que esperava sem desfalecer a salvação de Deus, mas sabia que para isso era preciso passar pelo tempo das dores, quando o machado fincado na raiz da árvore começaria seu trabalho purificador.  É o mesmo João que reconhece e aponta o Cordeiro de Deus e o indica a seus discípulos,  João que tinha o olhar purificado por Deus e sabia reconhecer o advento definitivo que estava por acontecer ali mesmo, diante de seus olhos.

Assim também João é o que não tem medo de falar do que lhe enche o coração.  Há tanto espera.  Espera e crê.  E agora vê sua espera atendida e cumulada, preenchida pelo advento do esperado das nações. Reconhece o Messias e sua língua de profeta, que denuncia injustiças, também anuncia aquele que chega e muda o destino de todo o povo e da humanidade em seu conjunto.  João Batista, o vigilante, é figura da vigilância que deve ser a nossa neste tempo que agora vivemos.

A outra figura é Maria, a jovem de Nazaré que recebe o anúncio do Advento que começa a acontecer em seu corpo e mudará toda a sua vida.  E que acreditando e dizendo que sim, espera.  Espera diligente, não se comprazendo em sua própria gravidez, mas parte para ajudar a prima, que em sua velhice concebeu quando já não seria mais possível.  Espera atenta que move no fundo de seu coração as coisas que lhe são ditas da parte do Senhor.  Espera alegre, que crê que aquele do qual seu ventre está repleto encherá a terra inteira com sua bênção e seu amor infinito.

Maria não se contém e canta.  Canta louvando a Deus pelas maravilhas que nela operou.  Canta proclamando que a justiça tão esperada por seu povo já se encontra presente em seu ventre grávido do menino que se chamará Jesus. Canta anunciando que toda a espera de Israel finalmente culminou no evento salvador da vinda do Menino.  E  alegra-se porque o fruto de seu ventre será fruto de salvação para o mundo inteiro.

Aquilo que é  menor do que tudo que existe, a fragilidade mais absoluta que se possa imaginar –  uma criança que se forma na vulnerabilidade do corpo de uma mulher –  carrega em si a salvação que todos desejam e esperam.  Seu Advento é ocasião de vida em abundância para todos os que vivem essa espera vigilante e amorosa, essa abertura de corpo e espírito para a fecundação que Deus realiza com sua graça sobre toda carne.

Advento IV – COM VÍDEO

Neste IV Domingo do Advento a pedagogia de Deus manifesta-se de maneira admirável. Entra na vida humana de maneira simples e humilde. No seio de Maria, uma jovem que dá o seu sim à promessa que o povo mais esperava e desejava.

Numa simples e desconhecida cidade, na região periférica, onde o povo era pobre e sem grande importância.
Num povo simples, sem nobreza, na casa de uma jovem comum e escolhida o mensageiro de Deus se faz presente e anuncia a maior notícia de todos os tempos: Deus, mesmo, assume a humana condição por amor a seu povo e para tornar-se presente de maneira visível.

A graça de Deus transforma a vida humana, por amor, sem força e com beleza de quem ama e aceita ser pequeno e humilde.

Que a ternura do Natal nos torne mais humanos e fraternos sempre!

A criança que vem é o Senhor da História e o Senhor da Vida!

Participe do Projeto Comunidade Segura

Venha participar do primeiro encontro do Projeto Comunidade Segura no dia 20 de maio, às 14h no Auditório do Térreo da Universidade São Judas Tadeu.

O objetivo desse evento é avaliar as dificuldades enfrentadas na região e propor intervenções para tornar a cidade mais segura para os moradores, em especial os idosos. Serão identificados faróis, travessias de pedestres, obstáculos, sinalização e demais problemas encontrados nas suas atividades pelas ruas do bairro da Mooca e Belém.

Os idosos têm preferência, mas todos podem participar ajudando a construir uma comunidade mais segura, uma cidade mais humana!

Local: Auditório do Térreo – Universidade São Judas Tadeu
Rua Taquari, 546 – Mooca
Telefone: 2799-1677
Site da Universidade: http://www.usjt.br

Realização: Paróquia São Miguel Arcanjo, Universidade São Judas Tadeu, Instituto Sou da Paz, Prefeitura de São Paulo, Polícia Militar de São Paulo e CET.

Bento XVI: “que a religião não sirva à violência”

Do penhasco do monte Nebo, Bento XVI voltou o olhar para o Jordão, para Jericó, para Belém. “Deixem-me olhar”, murmurou aos fotógrafos que o bombardeiam com flashes. Depois, encerrou-se por um momento em meditação. Porque essa viagem tão político-religiosa também é uma peregrinação interior. Desde quando terminou seu primeiro livro sobre Jesus, explodiu em Ratzinger a vontade de voltar às terras onde Cristo pregou. Ele mesmo confessou o desejo de “ver, tocar, saborear” os lugares da presença física do Salvador, de Nossa Senhora, dos apóstolos e dos “primeiros discípulos que o viram ressuscitado dos mortos”.

Aqui no Nebo, Moisés concluiu a sua viagem, e aqui Bento XVI evoca – e as suas palavras chegam em um segundo em Jerusalém – “o inseparável vínculo que une a Igreja ao povo judeu”. Deve ser superado, acrescenta, todo obstáculo que se interpõe à reconciliação entre cristãos e judeus.

Duas horas depois, entrando na mesquita Al-Hussein, o pontífice exorta à cooperação entre cristãos e muçulmanos. Justamente por causa de uma “história tão frequentemente marcada por incompreensão”, explica, os seguidores das duas religiões devem se apresentar juntos ao mundo, como adoradores do único Deus: misericordiosos e compassivos, testemunhas coerentes do que é justo e bom, sempre lembrando-se da dignidade da pessoa humana. Cristãos e muçulmanos, declara, podem se conhecer e se respeitar mais para construir juntos uma sociedade em harmonia com a ordem divina.

Mas também é a ocasião para condenar, diante de uma platéia de muftis e ímãs muçulmanos e muitos representantes diplomáticos, a “manipulação ideológica” da religião, que produz divisões, tensões e violência. Pouco antes, abençoando a pedra fundamental da universidade católica em Madaba (aberta a muçulmanos e judeus), Bento XVI pronunciou com firmeza: “A religião é desfigurada quando é obrigada a servir à ignorância e ao preconceito, ao desprezo, à violência e ao abuso”. E continuou: “Aí, não vemos apenas a perversão da religião, mas também a corrupção da liberdade humana, o obscurecimento da mente”.

Em Aman pela segunda vez Ratzinger entrou em uma mesquita. E a percorreu com todos os sapatos. Pe. Georg, seu secretário, já tinha prontas em um saquinho duas pantufas especiais, mas os anfitriões jordanianos inventaram um percurso de tradicionais tapetes brancos que preservam a santidade da sala de oração. O L’Osservatore Romano publicou, em primeira página, a foto do papa com os mocassins vermelhos e o príncipe Ghazi bin Talal com as sandálias, atravessando juntos a mesquita. Foram os jordanianos, indica o órgão do Vaticano, que não pediram a Bento XVI que retirasse os sapatos. Que ninguém diga que o pontífice não respeitou o templo.

Internacionalmente, Ghazi bin Talal é um dos defensores mais comprometidos com o diálogo entre cristianismo e islã. Fala um inglês fluente e saudou o pontífice em latim: “Pax vobiscum”. O príncipe deu as boas-vindas a Ratzinger como um grande líder espiritual, líder global, autor de “muitos gestos amigáveis e gentis” para com os muçulmanos, comprometido com o diálogo inter-religioso e homem capaz de ir contra a corrente, também reintroduzindo a missa em latim.

Mas mandou uma mensagem precisa: não é bom ofender o nome do profeta Maomé. “Agradeço Vossa Santidade – diz com elegância oriental – por ter expressado arrependimento pela ofensa causada aos muçulmanos pelo discurso de Regensburg. Os muçulmanos apreciaram os esclarecimentos do Vaticano de que o que foi dito não reflete a vossa opinião, mas era apenas uma citação em uma aula acadêmica”.

Porque o profeta Maomé – reforça o príncipe, vestido em sua túnica branca e o manto bege ornado de ouro, a barba cuidada e o olhar penetrante – é completamente diferente das imagens distorcidas que circulam no Ocidente entre quem não conhece o árabe e o Corão. E então caberá aos muçulmanos explicar os exemplos de virtude, caridade, piedade e benevolência do Profeta.

Há habilidade política na intervenção de Talal, já que, em Aman, ao longo do dia explodiram novamente as polêmicas entre os falcões integralistas islâmicos que denunciam as “desculpas que faltaram do Papa”, e os pacifistas, satisfeitos com o arquivamento do “equívoco de Regensburg”. O príncipe aponta para o diálogo: “Podemos e devemos ser adoradores do único Deus que nos criou e cuida de todas as pessoas em todos os cantos do mundo”.

Já é noite quando Bento XVI se diz cansado, mas de ótimo humor, na catedral greco-melquita, onde ondas de aplauso o acolhem. O patriarca Laham evoca o direito dos palestinos a uma pátria. Atravessando o Jordão, Bento XVI é chamado a falar.