Preparação

Quaresma: tempo de escutar o Filho amado

Dom Edmar Peron

Entre os poemas de Carlos Drummond de Andrade, um me chama a atenção: Procura da Poesia. O Poeta convida a penetrar “surdamente no reino das palavras”, pois nesse reino os poemas, à espera de serem escritos, estão paralisados, sós e mudos. Nesse reino, é preciso conviver com os poemas, ter paciência, caso se mostrem obscuros, e esperar “que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio”.

Ora essa postura livre, desarmada, perseverante, silenciosa requerida para quem deseja entrar no mundo da poesia, não seria necessária também para a pessoa que deseja entrar no mundo da Palavra, daquela inspirada por Deus e contida na Bíblia? Sim, e disso são testemunhas e exemplo: Jesus Cristo, Maria e os outros santos e as santas, bem como a tradição da Igreja que nos ensina a leitura orante da Palavra de Deus (Verbum Domini, 86-87).

Os primeiros Domingos da Quaresma nos apresentam Jesus como modelo de quem penetrou “surdamente no reino das palavras”. Ele, no silêncio do deserto, entrou como habitante no mundo da Palavra de Deus, e dela tirou a força para vencer o demônio; três foram as tentações, três vezes Jesus venceu-as com a Palavra, dizendo um texto das Escrituras (Mt 4,4.7.9). E porque Jesus entrou no mundo da Palavra, o Pai o apresenta como Aquele cuja palavra deve ser ouvida: “Este é o meu Filho amado. Escutem o que ele diz” (17,5).

Escutar a Palavra do Filho amado… Maria é exemplo porque “meditava em seu coração” tudo o que se referia a Jesus, e igualmente suas palavras e ações (Lc 2,19.51). Os santos e as santas são exemplos também, pois, como nos diz Bento XVI, “se deixaram plasmar pela Palavra de Deus, através da sua escuta, leitura e meditação assídua” (Verbum Domini, 48). Eles nos ensinam que é próprio do cristão “conformar-se com o significado das palavras da Escritura, sem ousar tirar nem acrescentar seja o que for” (São Basílio Magno). Dizia Santa Teresa do Menino Jesus: “Apenas lanço o olhar sobre o Evangelho, imediatamente respiro os perfumes da vida de Jesus e sei para onde correr”.

Sei que nos parece impossível a nossa geração ficar um só instante sem falar ao celular ou sem estar conectado nas redes sociais, sem ouvir música (nem sempre de qualidade!) ou assistir tv… e sempre falando, claro! Mas fui aprendendo ao longo da vida que temos necessidade do recolhimento e do silêncio para crescermos como homens e mulheres, como gente de fé. Assim, deixemos crescer em nossos corações um vivo amor pela leitura e meditação da Palavra de Deus. Reservemos um momento a cada dia, ainda que curto, para ler e meditar a Palavra de Deus. Cristo quer nos falar, falar você e a mim. Vivamos a Quaresma, preparando-nos para celebrar a Páscoa, dedicando-nos a uma “escuta mais frequente da Palavra de Deus”.

Quaresma: tempo de retornar ao abraço do Pai!

Dom Edmar Peron

Esses dias, enquanto dirigia, ouvi uma música que, parece-me, pode nos ajudar a entrar no mistério da Quaresma. Ela dizia: “O melhor lugar no mundo é dentro de um abraço. Tudo que a gente sofre, num abraço se dissolve. Tudo que se espera ou sonha, num abraço a gente encontra” (Jota Quest). Assim, como o filho pródigo, no tempo da Quaresma, desejamos reencontar a Deus, o Pai cheio de bondade, que Jesus nos revelou. Ele é o Pai que nos aguarda e que, vendo-nos voltar, “corre” ao nosso encontro e nos acolhe (Lc 15,20); não pergunta o que fizemos, mas, no abraço dele, “tudo o que a gente sofre (…) se dissolve”. É (re)encontro, é festa, é Páscoa!

Seguindo o ritmo do ano litúrgico, é dada para nós, de novo, a graça de entrar no Tempo da Quaresma, o qual tem por finalidade “preparar os fiéis para a celebração da Páscoa” (SC 109). A liturgia desse período quaresmal, com efeito, prepara para a celebração do mistério pascal os que se preparam para o batismo e todos os fiéis; aqueles, conduzindo-os às águas batismais, e esses, às águas da penitência, bebidas no Sacramento da Penitência e nas muitas atitudes penitenciais, necessárias à conversão. O Concílio nos recorda, ainda, que essa preparação para a Páscoa, buscando uma vida nova, se dá por uma escuta “mais” frequente da Palavra de Deus e pela entrega “à oração com mais insistência”. Palavra e Oração: eis o caminho que nos (re)conduzem ao abraço do Pai.

O Tempo da Quaresma vai da Quarta-feira de Cinzas até a tarde do dia em que celebramos a Missa da Ceia do Senhor (a Quinta-feira Santa, como a chamamos). Assim, quando a Semana Santa (que vai do Domingo de Ramos até quinta-feira à tarde) se inicia, ainda estamos no tempo da Quaresma.

Mas, como insiste a Palavra de Deus, o amor a Deus não é desvinculado do amor aos irmãos. Assim, no Brasil, a cada ano, no período quaresmal, desde 1964, a Igreja realiza uma Campanha da Fraternidade, desejosa de que os cristãos se comprometam cada vez mais na “busca do bem comum”, sejam educados “para a vida em fraternidade” e se renove “a consciência da responsabilidade de todos pela ação da Igreja na evangelização, na promoção humana, em vista de uma sociedade justa e solidária” (Objetivos Permanentes da Campanha da Fraternidade). Neste ano, a realidade gritante que pede o comprometimento de nossas comunidades é o tráfico humano. Com o tema Fraternidade e Tráfico Humano, o lema desta Campanha é Para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1).

Aproveitemos desses sagrados dias da Quaresma para voltar ao “abraço” do Pai, estendendo “a mão” aos irmãos e às irmãs que sofrem: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração… e amarás a teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12,3-31); dediquemo-nos ainda mais à escuta da Palavra de Deus e à Oração.

Reflexão de Advento

Maria Clara Bingemer

A palavra “advento” tem origem latina e significa “chegada”, “aproximação”, “vinda”. No Ano Litúrgico, o Advento é um tempo de preparação para a segunda maior festa cristã: o Natal do Senhor. Neste tempo, celebramos a grande verdade da nossa fé, que é o nascimento de Jesus em Belém.  Assim, a Igreja comemora a vinda do Filho de Deus entre os homens (aspecto histórico) e vive a alegre expectativa de sua segunda vinda d’Ele, em poder e glória, em dia e hora desconhecidos para nós, mas conhecidos para Deus.

A espiritualidade do Advento é marcada por algumas atitudes básicas: a preparação para receber Jesus que ad-vém, que se aproxima, a vigilância e a espera feita de esperança. Será na  oração e na vivência da esperança cristã que essas atitudes poderão ser vividas e cultivadas.

A preparação para receber o Senhor se dá na vivência da conversão e da ascese.  E para isso é necessária a vigilância. É com olhar atento sobre nós e a realidade que nos cerca que somos convocados a nos empenharmos para corresponder à ação do Espírito de Deus que quer restaurar todas as coisas. Assim, nosso relacionamento com  nosso corpo e  nossos afetos, com nossos familiares e pessoas íntimas, nossa participação na vida eclesial e social devem estar no foco de nossa atenção.

Para receber o Deus feito criança é necessária uma renovação interior profunda e radical, deixando para trás o que foi ficando velho e desgastado em nossa vida e abrindo-nos para acolher o que é novo e tem cheiro de pão saído do forno, de livro recém impresso, de bebê saído do banho.  Quando a eternidade invade o tempo, a divindade impregna a humanidade, o infinito perpassa a finitude, nada mais será como antes, porque tudo se fez novo e tudo é possível.

Para receber o Menino Jesus  que vem e chega no Natal é igualmente necessário ter a atitude da espera.  E para isso duas figuras bíblicas podem ajudar.  Uma é João Batista, o profeta de olhos de lince e língua de fogo, que esperava sem desfalecer a salvação de Deus, mas sabia que para isso era preciso passar pelo tempo das dores, quando o machado fincado na raiz da árvore começaria seu trabalho purificador.  É o mesmo João que reconhece e aponta o Cordeiro de Deus e o indica a seus discípulos,  João que tinha o olhar purificado por Deus e sabia reconhecer o advento definitivo que estava por acontecer ali mesmo, diante de seus olhos.

Assim também João é o que não tem medo de falar do que lhe enche o coração.  Há tanto espera.  Espera e crê.  E agora vê sua espera atendida e cumulada, preenchida pelo advento do esperado das nações. Reconhece o Messias e sua língua de profeta, que denuncia injustiças, também anuncia aquele que chega e muda o destino de todo o povo e da humanidade em seu conjunto.  João Batista, o vigilante, é figura da vigilância que deve ser a nossa neste tempo que agora vivemos.

A outra figura é Maria, a jovem de Nazaré que recebe o anúncio do Advento que começa a acontecer em seu corpo e mudará toda a sua vida.  E que acreditando e dizendo que sim, espera.  Espera diligente, não se comprazendo em sua própria gravidez, mas parte para ajudar a prima, que em sua velhice concebeu quando já não seria mais possível.  Espera atenta que move no fundo de seu coração as coisas que lhe são ditas da parte do Senhor.  Espera alegre, que crê que aquele do qual seu ventre está repleto encherá a terra inteira com sua bênção e seu amor infinito.

Maria não se contém e canta.  Canta louvando a Deus pelas maravilhas que nela operou.  Canta proclamando que a justiça tão esperada por seu povo já se encontra presente em seu ventre grávido do menino que se chamará Jesus. Canta anunciando que toda a espera de Israel finalmente culminou no evento salvador da vinda do Menino.  E  alegra-se porque o fruto de seu ventre será fruto de salvação para o mundo inteiro.

Aquilo que é  menor do que tudo que existe, a fragilidade mais absoluta que se possa imaginar –  uma criança que se forma na vulnerabilidade do corpo de uma mulher –  carrega em si a salvação que todos desejam e esperam.  Seu Advento é ocasião de vida em abundância para todos os que vivem essa espera vigilante e amorosa, essa abertura de corpo e espírito para a fecundação que Deus realiza com sua graça sobre toda carne.

Advento, alegria e penitência

Edmar Peron

“Seguir com fidelidade o desenrolar do Ano Litúrgico” é um convite, hoje, para entrarmos no mistério do Advento, particularmente guiados pelos textos da liturgia. O Primeiro Domingo do Advento iniciou adequadamente o Ano Litúrgico, pois marcou o início desse intenso período de preparação que conduz à celebração do Natal do Senhor e às suas primeiras manifestações, particularmente a Epifania. Tal preparação é ao mesmo tempo litúrgica, espiritual e moral, pois requer verdadeira conversão do coração. A segunda leitura desse Domingo – Rm 13,11-14a – continua a ressoar como um convite apropriado à conversão: “Vocês conhecem o tempo, e já é hora de vocês acordarem: a nossa salvação está agora mais próxima do que quando começamos a acreditar. A noite vai avançada e o dia está próximo. Deixemos, portanto, as obras das trevas e vistamos as armas da luz. Vivamos honestamente como em pleno dia: não em orgias e bebedeiras, prostituição e libertinagem, brigas e ciúmes. Mas, vistam-se do Senhor Jesus Cristo” (Bíblia Pastoral). Essa palavra muito ajudou Santo Agostinho, em sua conversão, e tem o poder de, no tempo atual, mudar também as nossas vidas.

A penitência é empenho para ver acontecer uma regeneração espiritual. A vida espiritual é semelhante à terra seca, não cultivada, que precisa de máquinas e trabalho duro para ser semeada e dar frutos; somente com um trabalho árduo e incansável poderemos preparar um caminho para o Senhor, como encontramos na seguinte oração: “Despertai, ó Deus, os nossos corações, a fim de prepararmos os caminhos do vosso Filho, para que possamos, pelo seu advento, vos servir de coração purificado” (Liturgia das Horas, 2ª Semana do Advento, Quinta-feira).

Entretanto, a penitência não é somente um trabalho da pessoa, ela é, em primeiro lugar, um efeito da graça de Deus em nossas vidas. Mas, para que Deus realize em nós a sua obra salvadora, devemos remover os obstáculos que impedem a sua ação: “deixemos, portanto, as obras das trevas e vistamos as armas da luz”. E nós fazemos essa limpeza – “remover os obstáculos” – como pessoas livres; usando nossa liberdade de modo responsável abrimos caminho para que Deus tenha acesso à nossa vida. Nesse sentido, ouçamos o ensinamento de São Carlos Borromeu: “A Igreja deseja ardentemente fazer-nos compreender que o Cristo, assim como veio uma só vez a esse mundo, revestido de nossa carne, também está disposto a vir de novo, a qualquer momento, para habitar espiritualmente em nossos corações com a profusão de suas graças, se não opusermos resistência” (Liturgia das Horas, Ofício de Leituras, 1ª Semana do Advento, Segunda-feira).

Lembremo-nos, ainda, que o Advento não é um tempo penitencial da mesma maneira que o é a Quaresma. Ele é marcado pela alegria jubilosa: “um tempo de piedosa e alegre expectativa”; é a alegria de quem espera a pessoa amada, o tempo em que a Igreja espera a chegada do Esposo, e, como João Batista – na austeridade e na alegria – alegra-se ao ouvir a voz do esposo (cf. Jo 3,29).

Assim, para acolhermos sem obstáculos o “Verbo de Deus” – Jesus Cristo – que vem, dediquemo-nos com maior empenho à meditação da “Palavra de Deus”, ajudados por Maria, a serva do Senhor.