leitura orante

Crescer na Fé, meditando a Palavra de Deus (II)

A pessoa que deseja seguir Jesus Cristo precisa ouvir a Palavra de Deus e praticá-la (cf. Lc 8,21). E disso não temos dúvidas. E os santos e as santas são testemunhas para todos nós de que este é o caminho a assumir, pois eles “se deixaram plasmar pela Palavra de Deus, através da sua escuta, leitura e meditação assídua” (Verbum Domini, 48). Mas para que isso aconteça é preciso passar de um saber intelectual – “é importante ler a Bíblia” – para um empenho existencial: organizar o tempo para dedicar-se a cada dia à leitura e meditação da Palavra de Deus: “debrucem-se, pois, gostosamente sobre o texto sagrado, quer através da sagrada Liturgia, […] quer pela leitura espiritual, quer por outros meios que se vão espalhando tão louvavelmente por toda a parte, com a aprovação e estímulo dos pastores da Igreja. Lembrem-se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração” (Dei Verbum, 25).

Talvez você ainda encontre outra dificuldade: “Eu não entendo o que leio”, como o eunuco respondeu a Filipe (cf. At 8,30). Bem, quero lhe propor, então, o caminho que muitos escolheram seguir na Igreja, o caminho da leitura orante, a lectio divina. Para isso, acolhamos o ensinamento do Papa Bento XVI sobre os “passos fundamentais” dessa leitura. “Começa com a leitura do texto, que suscita a interrogação sobre um autêntico conhecimento do seu conteúdo: o que diz o texto bíblico em si? […] Segue-se depois a meditação, durante a qual nos perguntamos: que nos diz o texto bíblico? [pois é uma palavra atual, pronunciada no nosso presente] […]. Sucessivamente chega-se ao momento da oração, que supõe a pergunta: que dizemos ao Senhor, em resposta à sua Palavra? A oração enquanto pedido, intercessão, ação de graças e louvor é o primeiro modo como a Palavra nos transforma. […] conclui-se com a contemplação, durante a qual assumimos como dom de Deus o seu próprio olhar, ao julgar a realidade, e interrogamo-nos: qual é a conversão da mente, do coração e da vida que o Senhor nos pede? […] «Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir a vontade de Deus: o que é bom, agradável e perfeito» (Rm 12, 2). […] Há que recordar ainda que a lectio divina não está concluída, na sua dinâmica, enquanto não chegar à ação, que impele a existência do fiel a doar-se aos outros na caridade” (Verbum Domini, 87)

Então, ajudados pelo Espírito Santo, dediquemo-nos à Leitura Orante da Palavra de Deus; todos nós, os que já a praticamos ou quem vai começar, perseveremos nesse caminho, irmãos e irmãs.

+ Edmar Peron,
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo
Vigário Episcopal para a Região Belém

Leitura Orante da Palavra de Deus

Frei Carlos Mesters

Uma prática antiga, sempre nova

“A Palavra está perto de ti, em tua boca e em teu coração” (Dt 30,14)

Há pessoas que acham a Bíblia um livro difícil. Dizem que ela só serve para o estudo das coisas de Deus, mas não para rezar e fazer a pessoa crescer na intimidade com Deus. No AT, já havia gente que pensava assim achando que só alguns poucos seriam capazes de descobrir e entender a Palavra de Deus. Por exemplo, pessoas estudadas e viajadas, capazes de entender as coisas do céu e da terra. More →

Carlos Mesters: A Palavra está presente em todos os setores da vida da Igreja

“Judeus, Cristãos e Muçulmanos, somos irmãos, filhos do mesmo pai Abraão”, considera o frei Carlos Mesters. Ao falar sobre a importância dos círculos bíblicos, o frei afirma que neles “a Bíblia se torna um espelho, no qual as pessoas descobrem dimensões mais profundas da sua própria vida que antes não tinham percebido”. Para ele, na entrevista que segue, concedida por e-mail para a IHU On-Line, a importância de um sínodo sobre a Bíblia no atual momento é muito grande por vários motivos, dentre os quais “o aprofundamento que a Palavra de Deus pode trazer para a vida humana” e a percepção da “importância da presença da sabedoria de Deus na leitura que os pobres do mundo inteiro fazem da Bíblia”.

Carlos Mesters é frade Carmelita, doutor em Teologia Bíblica. É natural da Holanda e ligado à caminhada das Comunidades Eclesiais de Base, ajudou a criar o CEBI (Centro de Estudos Bíblicos). Escreveu, entre outros, Esperança de um povo que luta (São Paulo: Paulus, 1983), Círculos bíblicos (São Paulo: Paulus, 2001), Paulo apóstolo: um trabalhador que anuncia o evangelho (São Paulo: Paulus, 2002), Bíblia: livro feito em mutirão (São Paulo: Paulus, 2002), e Por trás das palavras (Petrópolis: Vozes, 2003). Mesters é assessor de um dos bispos brasileiros na XII Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que ocorre de 5 a 26 de outubro, no Vaticano. A entrevista a seguir foi elaborada em parceria com a equipe de Teologia Pública do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

IHU On-Line – A leitura orante da Palavra de Deus tem tido muita difusão nas comunidades eclesiais, através dos círculos bíblicos. Qual é para o senhor a riqueza deste método e qual o seu limite?

Carlos Mesters – A riqueza deste método é que a leitura orante da Palavra de Deus provoca no povo um contato direto com a Bíblia, sem intermediários, num ambiente comunitário de fé, dentro da realidade do dia-a-dia da vida. Deste modo, vai nascendo um confronto entre Bíblia e Vida. A Bíblia se torna um espelho, no qual as pessoas descobrem dimensões mais profundas da sua própria vida que antes não tinham percebido. Você pergunta: “Qual o seu limite?”. Tudo o que é humano é limitado. Um limite aparece quando os participantes do Círculo Bíblico se fecham em si mesmos e esquecem a realidade da vida ao redor. Pois a Palavra de Deus não está só na Bíblia, mas também na Vida, na natureza, nos fatos, em tudo que acontece.

IHU On-Line – Qual é a importância de um Sínodo sobre a Bíblia no momento atual? Qual é a sua apreciação do “instrumentum laboris” para o sínodo?

Carlos Mesters – A importância de um sínodo sobre a Bíblia no atual momento é muito grande por vários motivos: 1) permite uma partilha entre os bispos, participantes do Sínodo, em torno das experiências e dos problemas no uso e na leitura que o povo faz da Bíblia nas várias partes do mundo, sobretudo nos países da América Latina, África e Ásia. Uma partilha assim enriquece a todos, ajuda relativizar os problemas e faz perceber melhor o caminho, o rumo do Espírito; 2) favorece o aprofundamento que a Palavra de Deus pode trazer para a vida humana e ajuda a descobrir melhor o alcance e o significado do documento “Dei Verbum ” do Vaticano II sobre a Revelação; 3) faz perceber a importância da presença da sabedoria de Deus na leitura que os pobres do mundo inteiro fazem da Bíblia. Isto ajudará para que a exegese científica descubra melhor qual a sua contribuição para a vida das Comunidades, para a Igreja; 4) o Sínodo sobre a “Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja” completa a caminhada iniciada no Sínodo anterior sobre a Eucaristia. Quanto ao Instrumentum Laboris, a opinião geral é de que se trata de um documento bom que está dando ao sínodo um rumo positivo. O Instrumentum Laboris é o resultado das contribuições do mundo inteiro. Mostra como a Palavra está presente em todos os setores da vida da Igreja.

IHU On-Line – Que leitura o senhor faz da presença de 25 mulheres e do rabino chefe de Haifa, Israel, Shear-Yashuv Cohen, neste sínodo?

Carlos Mesters – Acho muito importante a presença das mulheres, mas ainda é pouco. Só 25 entre mais de 200 participantes. O olhar feminino descobre e revela aspectos da Palavra de Deus que o olhar masculino não percebe, e vice-versa. Os dois olhares se completam e se enriquecem mutuamente. Limitando tudo ao olhar masculino, empobrecemos a riqueza que a Palavra de Deus poderia proporcionar às Igrejas e à humanidade. Quanto à presença do Rabino chefe de Haifa, Shear-Yashuv Cohen, ela é muito significativa e muito importante nos nossos dias. Ela nos ajuda a recuperar a memória. Não podemos esquecer nunca que Jesus era judeu, nasceu judeu, viveu como judeu e morreu como judeu. Todo o Novo Testamento é uma interpretação do Antigo Testamento à luz de Jesus. Temos muito a aprender uns dos outros. No passado, essa perda de memória a respeito da nossa origem nos levou a erros e crimes ao longo dos séculos. Recuperar a memória significa recuperar nossa identidade através do diálogo com nossos irmãos judeus. Em mim nasce o desejo de que, um dia, possa fazer o mesmo com nossos irmãos muçulmanos. Judeus, cristãos e muçulmanos, somos irmãos, filhos do mesmo pai Abraão.

IHU On-Line – Por que os livros apócrifos atraem tanto ao público? Não é tempo de fazer uma leitura de como foram selecionados os livros que hoje formam a Bíblia e revisar os que ficaram de fora?

Carlos Mesters – Acho que não há o que revisar. Os livros chamados apócrifos atraem porque são considerados proibidos. Tudo que é proibido atrai. Na realidade, nunca foram proibidos. Apócrifico quer dizer que estes livros não fazem parte da lista oficial. Deveriam ser chamados de livros “não-canônicos”. É bom notar que os livros apócrifos mais tardios, escritos entre o século V e VIII, têm uma tendência anti-semita, o que não é bom. É deplorável. Alguns chegam quase a considerar Pilatos como um homem honesto que foi enganado pelos judeus para condenar Jesus. Isto não corresponde à verdade histórica.

IHU On-Line – Que hermenêuticas o senhor apontaria como importantes, hoje, na leitura da Palavra, para não cair em fundamentalismos, literalismos ou leituras ideológicas?

Carlos Mesters – Todas as hermenêuticas que ajudam o povo a descobrir a presença da Palavra de Deus na vida são importantes: a hermenêutica feminina, a negra, a indígena, a leitura que os pobres fazem da Bíblia, enfim, tudo que faz a gente olhar os textos com um olhar a partir da realidade das pessoas. Resumindo, acho importante seguir os três passos do método ou da hermenêutica que Jesus usou com os discípulos na estrada de Emaús. O primeiro passo: aproximar-se das pessoas, escutar sua realidade e seus problemas; ser capaz de fazer perguntas que as ajudem a olhar a realidade da vida com um olhar mais crítico (Lc 24,13-24). O segundo passo: com a luz da Palavra de Deus iluminar a situação que os fazia sofrer e os levou a fugir de Jerusalém para Emaús; usar a Bíblia para fazer arder o coração (Lc 24,25-27). O terceiro passo: criar um ambiente orante de fé e de fraternidade, onde possa atuar o Espírito que abre os olhos, faz descobrir a presença de Jesus e transforma a cruz, sinal de morte, em sinal de vida e de esperança. Assim, aquilo que antes gerava desânimo e cegueira, torna-se luz e força na caminhada (Lc 24,28-32). O resultado do uso da Bíblia é o de criar coragem e voltar para Jerusalém, onde continuam ativas as forças de morte que mataram Jesus, e experimentar a presença viva de Jesus e do seu Espírito na experiência de Ressurreição (Lc 24,33-35). O objetivo último da Leitura Orante da Bíblia ou da Lectio Divina não é interpretar a Bíblia, mas sim interpretar a vida. Não é conhecer o conteúdo do Livro Sagrado, mas, ajudado pela Palavra escrita, descobrir, assumir e celebrar a Palavra viva que Deus fala hoje na nossa vida, na vida do povo, na realidade do mundo em que vivemos (Sl 95,7); é crescer na fé e experimentar, cada vez mais, que “Ele está no meio de nós!”

Leitura Orante, outra vez!

O grupo da leitura Orante da Bíblia mais uma vez reuniu-se neste tempo do Advento e seguindo as sugestões do Frei Carlos Mesters leu e orou o texto de Mateus 1,18-24.

A experiência foi intensa de oração e resposta à palavra de Deus para nós.

A Leitura Orante da Bíblia tão antiga e tão nova na vida da Igreja tem a força e a ternura de nos renovar tendo uma postura de “ler a palavra de Deus para escutar o que Deus tem a dizer,para conhecer sua vontade e viver melhor o Evangelho de Jesus Cristo” como nos diz o Frei Mesters, e de descobrir na Bílblia o espelho do que vivemos hoje interpretando a vida.

O texto escolhido mexeu com todos, fez uma reviravolta na cabeça e nos fez orar com grande confiança no Amor Divino que age em nossas impossibilidades e que nos mostra que o novo nasce dos fracos e pequenos.

Leitura Orante da Bíblia

Nossa comunidade fez ontem a Leitura Orante da Bíblia orientada pelo texto do Frei Carlos Mesters e ilustrada pela Irmã Elda Broilo, publicado pelas Paulinas.

O texto do evangelho de Lucas 1,39-47 foi o escolhido, Izabel e Maria, a visita, o encontro, a vida que pulsa no ventre de duas pobres mulheres, a fé na palavra de Deus, a esperança que resiste a história que se transforma,o serviço aos irmãos e irmãs.

Os dez pontos para orientar a leitura orante foram seguidos,procuramos aprofundar a mística que deve animar a leitura orante da Bíblia. A experiência foi impressioante, profunda, pessoal e comunitária, todos estavam envolvidos pela palavra de Deus ontem e hoje.

Duas frases marcaram a minha mente:
O olhar de Izabel, o olhar de Maria!
Respeitar o mistério do outro!

Nosso grupo era pequeno mas muito envolvido e ciente que o recente sínodo sobre a Palavra de Deus nos pediu empenho na Leitura orante da Bíblia, queremos continuar essa experiência na semana que vem e no ano próximo mensalmente. Vale a pena! Participe!