A volta de Deus

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Não chega a ser uma novidade o fato de estarmos assistindo, já há algum tempo, a certo “reencantamento do mundo”, isto é, a uma inversão do processo de secularização deslanchado com a modernidade e sua crise. Essa tendência começou a visibilizar-se com a nova consciência religiosa trazida pela Nova Era, o esoterismo, o culto das pirâmides de cristal, o I-Ching, o tarô, o retorno dos anjos e duendes. A razão banida permanecia oculta pelo deslumbramento com um além povoado de deuses maiores e menores, porém fluidos e sem consistência. E o resgate da transcendência sem absolutos expressou-se até mesmo, mais recentemente, em livros de grande tiragem que falavam sobre meninos bruxos e anéis mágicos.

Os atentados de 11 de setembro de 2001 trouxeram novos e terríveis exemplos para completarem esse panorama. O fanatismo fundamentalista em todos os campos, e não somente no islâmico, semeou o estupor e o medo, mas também trouxe uma mudança de perspectiva para enxergar o mundo. No entanto, ao mesmo tempo em que crescia a aversão da opinião pública ocidental pelo fundamentalismo, assistia-se ao aumento de receptividade para com a atitude religiosa como tal. Não se pode mais dizer que Deus não é um tema atual.

A ideia da incompatibilidade de princípio da secularização com a religião entra decididamente em declínio. E os sintomas do que poderíamos chamar de uma volta de Deus aparecem como sinais visíveis de novos tempos. “Aquilo que muitos acreditavam que destruiria a religião – a tecnologia, a ciência, a democracia, a razão e os mercados -, tudo isso está se combinando para fazê-la ficar mais forte”, escreveram John Micklethwait e Adrian Wooldridge, ambos jornalistas da revista britânica The Economist, no livro “God is back”. Para muitos e bem concretamente para os jovens, como diz o título do livro, Deus está de volta.

A recente reportagem de revista de grande circulação analisa a relação da juventude de hoje com a religião. E a conclusão não deixa de ser surpreendente: os jovens são religiosos. Não como seus pais ou avós, mas de outra maneira, própria, fazendo uma nova síntese entre a experiência da fé e sua expressão. E a internet é um dos recursos que mais intervêm na sede de transcendência do jovem que vai para diante do computador buscar interlocução para seus anseios espirituais.

A modernidade, com efeito, significa uma humanização do divino, a ascensão irreversível da secularidade. Foi um extraordinário progresso para o espírito humano, porque permitiu ao homem, enfim, pensar por si mesmo. Mas a modernidade também comporta um movimento oposto, que eleva e diviniza o humano. A humanização do divino implica o fim das transcendências “verticais”, autoritárias, situadas fora e acima do sujeito. Nesse sentido, a modernidade é o reino da imanência.

No entanto, hoje se percebe ser possível, também, nas entranhas da imanência – da razão, do conhecimento e da ciência – pensar algo que a transborda, que a extravasa e a faz autotranscender-se. A força motriz dessa nova transcendência é o amor, que leva os seres humanos a ultrapassar sua interioridade solitária para alcançar o Outro e com ele entrar em relação.

Tal experiência e tal atitude não significam o banimento da razão; ao contrário, dão à ciência estatuto pleno de cidadania quando se trata de pensar esse Deus que volta a ser elemento constitutivo do conhecimento e do pensar humanos. A constatação da volta de Deus traduz, por outro lado, a certeza de que nenhuma sociedade pode sobreviver sem a religião, já que a maioria dos homens considera insatisfatórias as respostas dadas pela ciência às perguntas existenciais sobre a vida e a morte.

Como impulso utópico e como consciência vigilante dos limites, a fé e sua expressão religiosa têm hoje um lugar assegurado na sociedade do conhecimento e na comunidade científica. Deus está de volta e muito concretamente ali onde menos se esperava que estivesse: entre as novas gerações, filhas da ciência e da técnica. É preciso abrir os ouvidos para entender como esses novos crentes percebem o sujeito maior de sua crença.

Tu és um fogo ardente

Santa Catarina de Sena

Tu és um fogo ardente.
Sem destruir as coisas que Te são caras,
consomes tudo o que a alma passui fora de Ti.
Com a chama do Teu Espírito,
queima, consome e arranca desde as raízes
todo amor-próprio e apego sensível
do coração das novas plantas,
que iseriste na hierarquia da santa Igreja.
Retira-as do mundo para o jardim do Teu amor.
Encham-se de verdadeiro fervor em Te amar.
Sejam zelantes da fé e das virtudes.
Após deixar os prazeres falazes
e as honrarias deste frágil mundo,
sigam unicamente a Ti
com a caridade muito pura e fervorosa.

‘Lázaro, vem para fora!’

Sílvio Alves Félix

Ao sermos impelidos à reflexão sobre a Ressurreição do Senhor por ocasião da Páscoa, vem-nos à mente, a forte passagem bíblica de João capítulo 11, 1-43 que nos relata o episódio da Ressurreição de Lázaro. Esta, parece ser a única a nos relatar que Jesus chorou. Outra tradução bíblica diz: “comoveu-se interiormente e ficou conturbado”.

Diante desse trecho do evangelho de João, nos deparamos com um Jesus justo poderoso e glorioso, mas por outro lado um Jesus extremamente humano a ponto de se comover e até chorar, ao receber a notícia de que seu amigo Lázaro já havia morrido há quatro dias.

As irmãs de Lázaro, Marta e Maria, haviam mandado um recado a Jesus informando: “Senhor aquele que amas está doente.” (Jo11, 3). Mas Jesus, certo de que poderia demorar um pouco mais onde estava, assim o fez.

Podemos contemplar também outro aspecto forte dessa passagem bíblica, a saber, o momento que Jesus chega ao povoado de Betânia. “Informada da notícia da chegada de Jesus, Marta irmã de Lázaro, saiu ao seu encontro, e com intimidade de amiga, fala ao Senhor: “… se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido…”. Observe que profissão de fé em Jesus! E a mesma ainda completa: “Mais ainda agora sei que tudo que pedires a Deus ele te concederá.” (Jo 11,22) E Jesus vendo o sofrimento de sua amiga Marta, lhe diz: “Teu irmão ressuscitará” (Jo 11,23). A profundidade desse diálogo é de fato comovente! Oxalá pudéssemos cada um de nós ter a liberdade de falar com o Senhor com toda essa transparência, com toda essa franqueza e serenidade que essa conversa entre amigos aqui relatada, o diálogo de Jesus e Marta, nos transmite e nos transcende, mostrando-nos o quanto preenchida de Deus estava Marta, uma vez diante de Jesus, o próprio Deus nosso Salvador. Esse é para nós, um modelo de oração ideal, ou seja, dialogar com o Senhor de forma franca, livre e desprendida, abrindo-se a ele de maneira sincera e irrestrita.

Na sequência desse diálogo de fé, entre Marta e Jesus, ele, o Senhor, faz uma oração que nos remete a sua própria ressurreição: “Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em mim jamais morrerá. Crês nisso?” (Jo 11,25-26). Aqui nos deparamos com uma “autoproclamação” da Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, dita por ele mesmo, saída de seus lábios, dando a Marta a certeza da Ressurreição para os que nele crêem.

Continuando com essa leitura orante, o evangelista nos relata também, o encontro de Maria com o Senhor, ela também diz o mesmo a Jesus: “Senhor se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”. E aqui o evangelista mais uma vez faz referência à comoção interior de Jesus: “Quando Jesus a viu chorar e também os judeus que a acompanhavam, comoveu-se interiormente e ficou conturbado.” E mais à frente no texto, diz claramente: Jesus chorou. (Jo 11,35)

Ao ler e meditar este trecho de João, percebe-se Jesus muito mais próximo de nós do que podemos imaginar. Pois, como pode o Senhor Deus ser tão humano?! E com isso chega-se a conclusão de que Jesus é hoje mais do que nunca, nosso companheiro, nosso amigo e irmão em todas as nossas dificuldades e sofrimentos. Muitas vezes diante das intempéries que nos são impostas na vida, sentimo-nos de certa forma desamparados e até um pouco predispostos a nos entregar a um sentimento de revolta, uma vez que não somos socorridos por Jesus da forma como queremos ou necessitamos naquele momento. E aqui, o evangelista nos mostra Jesus comovido, talvez até angustiado e triste diante da morte do amigo Lázaro e do sofrimento de Marta e Maria, irmãs do morto e suas amigas.

Os judeus que estavam na casa de Marta e Maria para consolá-las e velar o morto, presenciaram o encontro de Jesus com as duas irmãs e perceberam a comoção dele, comentando entre si: “Vede como ele o amava.” (Jo 11,36) Podemos contemplar aqui o quão transparente se mostrou Jesus diante desse acontecimento. O mesmo Jesus que falava forte e tinha posições firmes a favor dos pobres e excluídos da época, o mesmo Jesus que se opôs fortemente aos vendilhões do templo de Jerusalém a ponto de expulsá-los, mostra sua compaixão pela morte do amigo que de fato muito amava.

Observe que liberdade de vida, que liberdade de ação! Muitas vezes nós achamos que nosso principal problema é dinheiro, é saúde, é amor, e na maioria das vezes o nosso problema é de liberdade, ou mesmo, falta de liberdade para agir, e falta de liberdade para viver e enxergar as possibilidades que a vida nos dá e os momentos intensos que a vida nos dispõe.

Em seguida Jesus pergunta: “Onde o colocastes?” (Jo 11,34) Aqui o Senhor recebe como resposta um convite: Vem e vê! (Jo 11,34) A partir daí o evangelista narra o episódio da ressurreição propriamente dita, que é um dos grandes milagres praticados por Jesus se não o maior de toda sua vida pública, pois quando o mesmo manda retirar a pedra, as irmãs de Lázaro dizem: Senhor, já cheira mal: é o quarto dia! (Jo 11,39). E Jesus aproveita para reafirmar sua intenção de ressuscitar Lázaro relembrando a Marta: ” Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” (Jo 11,40). E após a retirada da pedra, Jesus profere uma oração das mais profundas e belas encontradas na Bíblia:

“Pai dou-te graças porque me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves. Mas, digo isso por causa da multidão que me rodeia; para que creiam que me enviaste.” (Jo 11,42).

Chegamos então ao ponto da grande ordem de Jesus que grita em alta voz: “Lázaro vem para fora.” (Jo 11,43). Ao que Lázaro obedece e sai do túmulo ainda com os pés e mãos enfaixados. Hoje Jesus também nos ordena a sair e vir ao seu encontro a segui-lo e a ressurgir de onde estamos, de nossas prisões de nossos túmulos que a pós-modernidade nos impõe. Jesus nos convida a um encontro íntimo e pessoal com ele, e esse encontro só pode se dá por meio de uma comunidade viva que se reúne para celebrar em seu nome.

E por fim, Jesus ordena e envia Lázaro: “Desatai-o e deixai-o ir embora.” (Jo 11,44).

Cristo também nos envia ao encontro conosco mesmos e a nos confrontar e nos encontrar com nossos irmãos reunidos em comunidade. Hoje a Páscoa tem para nós cristãos católicos um significado muito mais profundo, que difere do simples fato de fazer memória da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Páscoa nos convida ao encontro, e nós podemos nos espelhar nesse belíssimo encontro de Marta, Maria, Jesus e Lázaro. Encontrar o irmão no caminho, e não ter medo de ser sincero, de abrir-se e dizer o que sente, ser conforto, ser presença, ser testemunho de fé e vida, estar firme e presente nas horas difíceis, comprometer-se com o outro e acreditar junto que a ressurreição é algo possível e que a ressurreição pode ser vivida também por meio de uma amizade verdadeira, de uma palavra de carinho, de uma atitude de comprometimento com a causa dos mais pobres e sofridos de nosso tempo, com os pobres e sofridos das grandes cidades, com as vítimas do alcoolismo, das drogas e da prostituição.

Que o Senhor Jesus possa nos inspirar e nos impulsionar a agirmos com a reta consciência e firme convicção, de que podemos ressuscitar, desde que ressuscitemos todos juntos, em comunidade, unindo forças em prol de uma igreja cada vez mais viva, comprometida e vivificante.

Feliz Páscoa!

Paz a todos e todas.

Semana Santa e Religião

Dom Demétrio Valentini

Para a Semana Santa convergem os dois trunfos mais importantes da Igreja Católica em nosso país.

De um lado, a Campanha da Fraternidade, instrumento privilegiado de inserção da Igreja na sociedade, assumindo causas importantes e de comum interesse, como se comprovou mais uma vez neste ano com o tema da segurança pública.

Por outro lado, as celebrações litúrgicas da Semana Santa, que melhor recolhem os sentimentos religiosos e a expressão de fé do povo brasileiro, desde o Domingo de Ramos, passando pela paixão do Senhor, e chegando à festa da Páscoa.

Nesta convergência entre ação social e celebração religiosa, encontramos a justificava maior para a Igreja Católica se sentir integrada na história e na tradição do povo brasileiro, com o lugar que lhe compete de direito, como instituição que tem sua identidade própria, a partir de sua missão religiosa, mas que tem também o seu lugar na sociedade, por sua consistência institucional e pela atuação social que dela decorre.

As campanhas anuais de fraternidade, que há décadas a Igreja vem promovendo, se tornaram símbolo da interação positiva que pode existir entre uma entidade de cunho religioso, como é a Igreja Católica, e a sociedade civil de nosso país. Ao cumprir sua função específica de expressar a fé, a Igreja se mostra solidária com as questões que permeiam a vida da sociedade. Ela também oferece sua valiosa contribuição, seja motivando seus membros a participarem com responsabilidade da cidadania, seja oferecendo para a própria sociedade sua competente atuação concreta em diversos campos de ação social, sobretudo em atividades de caráter beneficente, mas também apontando valores que são coincidentes com o interesse comum de toda a sociedade.

Ao mesmo tempo, a Igreja se habilita a ter esta presença de credibilidade na sociedade, em primeiro lugar pela maneira correta de expressar a religiosidade do povo, colocando-se a serviço dos sentimentos de fé, para que eles encontrem expressão adequada na sociedade, que assim se enriquece de tradições salutares e muito significativas. Basta conferir quanto são apreciadas pelo povo as celebrações religiosas da Semana Santa, com as quais a Igreja Católica tradicionalmente mais se identifica. Se fosse suprimir estas celebrações, que empobrecimento isto significaria para a sociedade brasileira, que conta com elas até para estabelecer a data do carnaval!

A credibilidade da Igreja Católica na sociedade brasileira tem sua maior justificativa na coerência ética com que a Igreja lida com os sentimentos religiosos. Ela sabe que estes sentimentos precisam ser bem assumidos e conduzidos com responsabilidade. E todos constatam como estes sentimentos são facilmente explorados, levando instituições religiosas a se enriquecerem de maneira desonesta, explorando o apelo forte da religiosidade do povo brasileiro, e ao mesmo tempo explorando sua ingenuidade, sua falta de discernimento, e também sua crença fácil em todos os que se apresentam com fachada eclesial, muitas vezes mascarada sutilmente com artifícios de seriedade, mas que escondem espertezas enganadoras.

Quando a religiosidade do povo é explorada de maneira desonesta, cabe ao Estado, por seus instrumentos legais, desmascarar as instituições que se revestem de funções religiosas, mas na verdade são meras empresas que vivem explorando a religiosidade popular, inclusive eximindo-se de obrigações fiscais. É tarefa delicada, que necessita de parâmetros legais para ser exercida com segurança.

Daí a importância do Estado dispor desses parâmetros legais, para agir com segurança jurídica e presteza eficaz. Neste sentido, é bem vindo o “Acordo” firmado recentemente pelo Governo Brasileiro e a Santa Fé, regulando a existência e a atuação da Igreja Católica no Brasil. Ele somente explicita o que o ordenamento jurídico brasileiro já reconhece. Nas próximas semanas ele será levado ao Congresso Nacional, para ser ratificado, como manda a Constituição Brasileira. Tornado público e reconhecido oficialmente, ele pode se tornar parâmetro válido para todas as instituições religiosas que aceitam o confronto transparente com a sociedade e o Estado Brasileiro.

O contexto da Campanha da Fraternidade e da Semana Santa pode servir de boa justificativa, para os Congressistas que talvez ainda não atinaram para a importância deste instrumento jurídico que eles são chamados a analisar e a ratificar.