Marta

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio no 16º Domingo do Tempo Comum

Assista à reflexão do Pe. Julio Lancellotti na missa do 16º Domingo do Tempo Comum, celebrado em 21/07/2013. No Evangelho, Lucas conta a visita de Jesus à casa de Marta e Maria e mostra que, numa cultura patriarcal, as mulheres também são discípulas.

Gravação realizada na missa das 18h na igreja São Miguel Arcanjo.

Saber Acolher!

Duas mulheres dois modos de se comprometer? Esta é a pergunta que nos faz o Pe. José Bortolini em seu comentário ao texto do Evangelho de hoje.

Marta e Maria não são a contraposição de dois modos de ser discípulo de Jesus mas atitudes diferentes.

Frente às situações limites e decisivas na vida temos que fazer escolhas, precisamos discernir!

Maria escolheu a melhor parte não para dizer que Marta escolheu a pior, mas para nos convidar ao discernimento.

Jesus está caminhando para Jerusalém onde sua vida será colocada diante da condenação, rejeição e morte.

Mais do que coisas, Jesus precisa de pessoas que o acolham e o ouçam com atenção e afeto.

Lucas fala de duas mulheres, não fala do dono da casa, a casa é das mulheres e não do irmão delas, Lazáro. Nova maneira de valorizar a presença das mulheres no seguimento de Jesus, que as liberta e as chama ao discernimento, como pessoas livres e não propriedade do homem.

Ouvir a palavra de Deus, fazer-se discípulos atentos é caminho de discernimento e busca de humanização para uma vida mais plena.

Que no corre corre da vida saibamos ter critérios que nos orientem e nos ajudem a seguir sempre o Mestre Jesus.

‘Lázaro, vem para fora!’

Sílvio Alves Félix

Ao sermos impelidos à reflexão sobre a Ressurreição do Senhor por ocasião da Páscoa, vem-nos à mente, a forte passagem bíblica de João capítulo 11, 1-43 que nos relata o episódio da Ressurreição de Lázaro. Esta, parece ser a única a nos relatar que Jesus chorou. Outra tradução bíblica diz: “comoveu-se interiormente e ficou conturbado”.

Diante desse trecho do evangelho de João, nos deparamos com um Jesus justo poderoso e glorioso, mas por outro lado um Jesus extremamente humano a ponto de se comover e até chorar, ao receber a notícia de que seu amigo Lázaro já havia morrido há quatro dias.

As irmãs de Lázaro, Marta e Maria, haviam mandado um recado a Jesus informando: “Senhor aquele que amas está doente.” (Jo11, 3). Mas Jesus, certo de que poderia demorar um pouco mais onde estava, assim o fez.

Podemos contemplar também outro aspecto forte dessa passagem bíblica, a saber, o momento que Jesus chega ao povoado de Betânia. “Informada da notícia da chegada de Jesus, Marta irmã de Lázaro, saiu ao seu encontro, e com intimidade de amiga, fala ao Senhor: “… se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido…”. Observe que profissão de fé em Jesus! E a mesma ainda completa: “Mais ainda agora sei que tudo que pedires a Deus ele te concederá.” (Jo 11,22) E Jesus vendo o sofrimento de sua amiga Marta, lhe diz: “Teu irmão ressuscitará” (Jo 11,23). A profundidade desse diálogo é de fato comovente! Oxalá pudéssemos cada um de nós ter a liberdade de falar com o Senhor com toda essa transparência, com toda essa franqueza e serenidade que essa conversa entre amigos aqui relatada, o diálogo de Jesus e Marta, nos transmite e nos transcende, mostrando-nos o quanto preenchida de Deus estava Marta, uma vez diante de Jesus, o próprio Deus nosso Salvador. Esse é para nós, um modelo de oração ideal, ou seja, dialogar com o Senhor de forma franca, livre e desprendida, abrindo-se a ele de maneira sincera e irrestrita.

Na sequência desse diálogo de fé, entre Marta e Jesus, ele, o Senhor, faz uma oração que nos remete a sua própria ressurreição: “Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em mim jamais morrerá. Crês nisso?” (Jo 11,25-26). Aqui nos deparamos com uma “autoproclamação” da Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, dita por ele mesmo, saída de seus lábios, dando a Marta a certeza da Ressurreição para os que nele crêem.

Continuando com essa leitura orante, o evangelista nos relata também, o encontro de Maria com o Senhor, ela também diz o mesmo a Jesus: “Senhor se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”. E aqui o evangelista mais uma vez faz referência à comoção interior de Jesus: “Quando Jesus a viu chorar e também os judeus que a acompanhavam, comoveu-se interiormente e ficou conturbado.” E mais à frente no texto, diz claramente: Jesus chorou. (Jo 11,35)

Ao ler e meditar este trecho de João, percebe-se Jesus muito mais próximo de nós do que podemos imaginar. Pois, como pode o Senhor Deus ser tão humano?! E com isso chega-se a conclusão de que Jesus é hoje mais do que nunca, nosso companheiro, nosso amigo e irmão em todas as nossas dificuldades e sofrimentos. Muitas vezes diante das intempéries que nos são impostas na vida, sentimo-nos de certa forma desamparados e até um pouco predispostos a nos entregar a um sentimento de revolta, uma vez que não somos socorridos por Jesus da forma como queremos ou necessitamos naquele momento. E aqui, o evangelista nos mostra Jesus comovido, talvez até angustiado e triste diante da morte do amigo Lázaro e do sofrimento de Marta e Maria, irmãs do morto e suas amigas.

Os judeus que estavam na casa de Marta e Maria para consolá-las e velar o morto, presenciaram o encontro de Jesus com as duas irmãs e perceberam a comoção dele, comentando entre si: “Vede como ele o amava.” (Jo 11,36) Podemos contemplar aqui o quão transparente se mostrou Jesus diante desse acontecimento. O mesmo Jesus que falava forte e tinha posições firmes a favor dos pobres e excluídos da época, o mesmo Jesus que se opôs fortemente aos vendilhões do templo de Jerusalém a ponto de expulsá-los, mostra sua compaixão pela morte do amigo que de fato muito amava.

Observe que liberdade de vida, que liberdade de ação! Muitas vezes nós achamos que nosso principal problema é dinheiro, é saúde, é amor, e na maioria das vezes o nosso problema é de liberdade, ou mesmo, falta de liberdade para agir, e falta de liberdade para viver e enxergar as possibilidades que a vida nos dá e os momentos intensos que a vida nos dispõe.

Em seguida Jesus pergunta: “Onde o colocastes?” (Jo 11,34) Aqui o Senhor recebe como resposta um convite: Vem e vê! (Jo 11,34) A partir daí o evangelista narra o episódio da ressurreição propriamente dita, que é um dos grandes milagres praticados por Jesus se não o maior de toda sua vida pública, pois quando o mesmo manda retirar a pedra, as irmãs de Lázaro dizem: Senhor, já cheira mal: é o quarto dia! (Jo 11,39). E Jesus aproveita para reafirmar sua intenção de ressuscitar Lázaro relembrando a Marta: ” Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” (Jo 11,40). E após a retirada da pedra, Jesus profere uma oração das mais profundas e belas encontradas na Bíblia:

“Pai dou-te graças porque me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves. Mas, digo isso por causa da multidão que me rodeia; para que creiam que me enviaste.” (Jo 11,42).

Chegamos então ao ponto da grande ordem de Jesus que grita em alta voz: “Lázaro vem para fora.” (Jo 11,43). Ao que Lázaro obedece e sai do túmulo ainda com os pés e mãos enfaixados. Hoje Jesus também nos ordena a sair e vir ao seu encontro a segui-lo e a ressurgir de onde estamos, de nossas prisões de nossos túmulos que a pós-modernidade nos impõe. Jesus nos convida a um encontro íntimo e pessoal com ele, e esse encontro só pode se dá por meio de uma comunidade viva que se reúne para celebrar em seu nome.

E por fim, Jesus ordena e envia Lázaro: “Desatai-o e deixai-o ir embora.” (Jo 11,44).

Cristo também nos envia ao encontro conosco mesmos e a nos confrontar e nos encontrar com nossos irmãos reunidos em comunidade. Hoje a Páscoa tem para nós cristãos católicos um significado muito mais profundo, que difere do simples fato de fazer memória da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Páscoa nos convida ao encontro, e nós podemos nos espelhar nesse belíssimo encontro de Marta, Maria, Jesus e Lázaro. Encontrar o irmão no caminho, e não ter medo de ser sincero, de abrir-se e dizer o que sente, ser conforto, ser presença, ser testemunho de fé e vida, estar firme e presente nas horas difíceis, comprometer-se com o outro e acreditar junto que a ressurreição é algo possível e que a ressurreição pode ser vivida também por meio de uma amizade verdadeira, de uma palavra de carinho, de uma atitude de comprometimento com a causa dos mais pobres e sofridos de nosso tempo, com os pobres e sofridos das grandes cidades, com as vítimas do alcoolismo, das drogas e da prostituição.

Que o Senhor Jesus possa nos inspirar e nos impulsionar a agirmos com a reta consciência e firme convicção, de que podemos ressuscitar, desde que ressuscitemos todos juntos, em comunidade, unindo forças em prol de uma igreja cada vez mais viva, comprometida e vivificante.

Feliz Páscoa!

Paz a todos e todas.