Eucaristia

Tempo Comum: Corpus Christi

Dom Edmar Peron

Entre as solenidades do Senhor, durante o Tempo Comum, temos a do Santíssimo Sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo. Tal celebração tem suas raízes na devoção eucarística, muito florescente a partir do século XII, que realçava a presença real de Cristo no sacramento e sua adoração. O papa Urbano IV, ao prescrever essa solenidade para toda a Igreja, no dia 11 de agosto de 1264, com a Bula “Transiturus de hoc mundo”, procurou situar a presença eucarística em seu contexto original: a celebração da morte e ressurreição de Cristo: “Este é o memorial… salvífico, no qual reconsideramos a grata memória da nossa redenção, no qual somos afastados do mal e revigorados no bem, e progredimos no crescimento das virtudes e das graças” (Denzinger Hünermann 846, = DH).

Esta festa é celebrada com missa, seguida de procissão, sendo consagrada, na missa, a hóstia que será levada em procissão; tal procissão e bênção ocupam o lugar dos ritos finais. As três orações da missa permaneceram as mesmas do missal de 1570, contudo – salientemos – a liturgia da Palavra foi enriquecida com leituras próprias para cada um dos anos: A, B e C. Enquanto as orações refletem respectivamente a eucaristia como memorial da paixão de Cristo, sacramento da unidade e prefiguração do gozo da vida divina, as leituras nos apresentam o mistério eucarístico a partir do êxodo (ano A), da Páscoa e da Aliança (ano B) e do Pão da Vida (ano C).

O sentido teológico é aquele que foi colocado por Jesus Cristo: “Fazei isto em memória de mim”. Colocar outro seria incorrer no erro gravíssimo de separar a “hóstia consagrada” do “mistério pascal” do Senhor (o que, às vezes, infelizmente, vemos acontecer – !?). Em cada santa missa, portanto, a Igreja torna presente o Senhor, faz a memória d’Ele, do seu mistério pascal, fato já acontecido, único, irrepetível e sempre atual (1Cor 11,23-26). Desse modo, a cada geração é dada a possibilidade de participar do mesmo sacramento do Senhor até que Ele venha! “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!”.

A comunhão eucarística é, pois, participação sacramental na vida de Jesus Cristo – vida doada, vida entregue – pois o cálice de bênção é comunhão com o sangue de Cristo, e o pão que partimos é comunhão com o corpo de Cristo (1Cor 10,16). Essa comunhão vai nos configurando com Jesus: “Este pão é comido, mas na verdade não é consumido; é comido, mas não mudado, porque não é de modo algum transformado naquele que come, mas, se é recebido de modo digno, aquele que o recebe é a ele amoldado” (Bula Transiturus: DH 847).

Por fim, com a procissão, somos chamados a participar do esforço missionário de toda a Igreja: levar Cristo pelas ruas, fábricas, lojas, shoppings… Seria deficiente a espiritualidade que valorizasse o tapete e a procissão, mas não desse testemunho de Cristo diante do mundo.

Tão sublime Sacramento!

Cardeal Odilo Pedro Scherer

A solenidade de Corpus Christi nos coloca diante do grande tesouro da Igreja, a Eucaristia. Todos os domingos celebramos, e também todos os dias; desta vez, porém, nossa atenção concentra-se sobre o próprio Mistério da Eucaristia; acolhendo mais uma vez este dom inefável, adoramos, agradecemos, louvamos e nos alegramos no Senhor.

Os textos da liturgia de Corpus Christi fazem menção a diversos significados e percepções da fé da Igreja na Eucaristia. É “memorial” da paixão, instituída por Cristo na última ceia, pouco antes de padecer a cruz. As palavras de Jesus dão significado ao gesto da entrega do pão e do vinho aos apóstolos: “é meu corpo entregue por vós; é meu sangue, derramado por vós”.

Jesus refere-se àquilo que aconteceria logo em seguida: ele se entregou “por” nós sobre a cruz, em nosso favor; seu sangue derramado é redentor, como para os hebreus, no Egito, foi o sangue dos cordeiros pascais, untado nos umbrais das portas. A última ceia de Jesus com os apóstolos era a ceia da Páscoa judaica, na qual se comia o cordeiro pascal. Jesus lhe dá novo significado, como “ceia da nova e eterna aliança”, selada no seu próprio sangue.

A Liturgia faz constantes referências a este aspecto “sacrifical” da Eucaristia, ceia pascal dos cristãos. Antes da comunhão, a Eucaristia é apresentada ao povo com estas palavras: “eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Na cruz, Jesus é o “cordeiro imolado” entregue inteiramente pela nossa redenção, “para que não pereça todo aquele que nele crê”. Por esta “entrega por nós”, alcançamos misericórdia, perdão e vida sem fim.

A Eucaristia é também “sinal de unidade e vínculo da caridade” (S.Agostinho). Chamando a atenção da comunidade de Corinto para a dignidade da celebração eucarística, Paulo recorda que “o pão que partimos é comunhão com o corpo e o sangue de Cristo” e, portanto, “nós todos somos um só corpo”, em Cristo (cf 1Cor 10,16-17).

No Prefácio da Santa Eucaristia, o celebrante proclama: “fazeis de todos nós um só coração, iluminais os povos com a luz da mesma fé e congregais os cristãos numa mesma caridade”. A Eucaristia é banquete de irmãos à mesma mesa, unidos todos numa só família, “em Cristo”. Nela, nossa comunhão no amor de Cristo e na mesma fé da Igreja é significada e realizada. Por isso, o dissenso da fé eclesial e a orientação individualista e egoísta da vida são atitudes contrárias à participação neste sacramento.

A Eucaristia é também “pão da vida eterna”. Após o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, Jesus convida as pessoas a procurarem “o pão vivo descido do céu”, que é ele próprio: “eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo” (Jo. 6,51). Cristo quer continuar a ser o alimento da nossa fé. E quem dele se nutre, “viverá para sempre” (cf Jo.6,58).

A Eucaristia é celebrada aqui na terra “até que Ele venha”.  Por isso, ela também é sinal e anúncio profético da grande esperança que vem da nossa fé: aquilo que acolhemos na penumbra da fé e celebramos por sinais na terra, é o mesmo que ainda esperamos e se tornará plenamente manifesto na vida eterna: “anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!”.

Quanta riqueza, na Eucaristia! Não é sem razão que, em Corpus Christi, a Igreja adora e aclama este “sublime Sacramento” – “Sacramento de Jesus Cristo e da sua Igreja”! Vinde, todos, adoremos e rendamos graças ao Senhor!

Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo!

Dom Edmar Peron

É sempre um prazer recordar que os cristãos nos alimentamos de um único “pão da vida”, Jesus Cristo, recebido, porém, de duas mesas, da Palavra e da Eucaristia, ambas tão unidas que constituem “um só ato de culto”.

Esse “ato de culto” uno é introduzido pelos Ritos Iniciais (IGMR 46-54): canto de entrada (com procissão dos ministros e veneração do Altar), sinal-da-cruz e saudação, rito penitencial, Kyrie, Glória e Oração do dia. Em seu conjunto, esses pequenos ritos têm por finalidade “fazer com que os fiéis, reunindo-se em assembleia, constituam uma comunhão e se disponham para ouvir atentamente a palavra de Deus e celebrar dignamente a Eucaristia”. Deste modo, é como Igreja, comunidade de fiéis – raça escolhida, povo sacerdotal, nação santa (1Pd 2,9) – que nos dispomos a participar ativamente da Liturgia da Palavra e da Liturgia Eucarística.

Consideremos, agora, cada um dos pequenos ritos. O canto de entrada promoverá a comunhão, principalmente em sua forma dialogal: a assembleia canta o refrão, mais “condizente com a ação sagrada e com a índole do dia ou do tempo”, enquanto que as estrofes (normalmente um Salmo) são cantadas pelo grupo de cantores ou por um(a) solista. A dimensão dialogal, realizadora de comunhão, prossegue no sinal-da-cruz e na saudação à assembleia: uma principal, a bíblico-ritual, e a outra espontânea para acolher as pessoas e introduzir a assembleia no mistério do dia. O ato penitencial é “realizado por toda a assembleia”, através de uma das três fórmulas presentes no Missal: Confesso…; Tende compaixão…; Senhor, que viestes… (há muitas invocações alternativas propostas pelo Missal, para os diversos tempos litúrgicos). Rico de caráter comunitário é o rito de bênção e aspersão da água, memória do nosso batismo, próprio para o Domingo, no lugar do ato penitencial. Quando a invocação cristológica Senhor, tende piedade – o Kyrie – não apareceu no próprio ato penitencial ela deverá ser cantada após o Deus todo-poderoso tenha compaixão… Também o Glória revela a comunhão da assembleia que canta ao Pai e ao Filho, “congregada no Espírito Santo”. E, por último, a Oração do dia ou coleta manifesta a comunhão dos fiéis; antes de ser formulada por quem preside a celebração, toda a assembleia, inclusive quem a preside, se conserva em silêncio e formula interiormente as suas intenções.

É claro que a comunhão eclesial, promovida por todos esses ritos do começo da missa, é ainda inicial; depois de escutarmos juntos a Palavra de Deus, alcançaremos o ponto alto de nossa união na comunhão eucarística, realizada pelo Espírito Santo: “participando do Corpo e Sangue de Cristo, sejamos reunidos pelo Espírito Santo num só corpo” (Oração Eucarística II). E a assembleia aclama: “Fazei de nós um só corpo e um só espírito”.

Enfim, os ritos iniciais nos ajudam a realizar uma primeira páscoa: a passagem da dispersão da vida cotidiana à união de uma assembleia convocada pelo próprio Deus, Pai e Filho e Espírito Santo, “sacramento de unidade” (São Cipriano – SC 26): Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo!

Na Audiência Geral desta semana, Francisco pede coerência entre liturgia e vida

Quarta-feira é dia do encontro semanal do Papa com os fiéis na Praça S. Pedro, para a Audiência Geral.

Na Praça, esta manhã, dia 12 de fevereiro, havia cerca de 15 mil peregrinos, oriundos de vários países do mundo. Depois de saudá-los a bordo do seu papamóvel, recebendo e retribuindo o carinho dos fiéis, o Pontífice retomou sua catequese sobre os Sacramentos.

Na última catequese, Francisco falou da Eucaristia, que nos introduz na comunhão real com Jesus e o seu mistério. Desta vez, o Papa aprofundou o aspecto da nossa relação com este Sacramento: trata-se somente de um parêntese da nossa vida, uma tradição consolidada, ou realmente nos envolve e nos transforma?

O Papa sugeriu três “indícios” para entender esta relação. O primeiro deles é o nosso modo de olhar e de considerar os outros. Quando participamos da Missa, nos encontramos com homens e mulheres de todo gênero: jovens, idosos, crianças, pobres e abastados, originários do lugar ou estrangeiros, sós ou acompanhados…. Celebrando a Eucaristia, devemos então nos questionar se sentimos todas essas pessoas como irmãos e irmãs, se somos capazes de reconhecer nelas a face de Jesus.

Mas amamos como Jesus quer esses irmãos e irmãs mais necessitados? Em Roma, por exemplo, vivemos tantos problemas sociais causados pela chuva, há ainda a falta de emprego, a crise social no mundo. Eu que vou à missa, me preocupo em ajudar? De rezar por eles? Ou me preocupo em fofocar, comentando como uma pessoa está vestida. Não devemos fazer isso, mas nos preocupar com nossos irmãos que necessitam.

O segundo indício é a graça de sentir-se perdoados e prontos a perdoar. Quem celebra a Eucaristia, explicou Francisco, não o faz porque se considera ou quer ser melhor dos que os outros, mas o faz justamente porque se reconhece sempre pecador e precisa da misericórdia de Deus. Naquele pão e naquele vinho que oferecemos e em volta dos quais nos reunimos, se renova toda vez o dom do corpo e do sangue de Cristo para a remissão dos nossos pecados, que por sua vez alarga o nosso coração ao perdão dos irmãos e à reconciliação.

O último indício vem da relação entre a celebração eucarística e a vida das nossas comunidades cristãs. O Papa advertiu que se deve sempre levar em consideração que a Eucaristia não é algo que nós fazemos, mas é uma ação de Cristo, em que Ele se faz presente para nos nutrir de sua Palavra e de sua própria vida. Isso significa que a missão e a própria identidade da Igreja brotam dali, da Eucaristia, e dela tomam forma.

Uma celebração pode ser impecável do ponto de vista exterior, belíssima, mas se não nos conduz ao encontro com Jesus, corre o risco de não trazer nenhum nutrimento ao nosso coração e à nossa vida. Ao invés, através da Eucaristia, Cristo quer entrar na nossa existência e permeá-la com sua graça, de modo que em cada comunidade cristã exista coerência entre liturgia e vida.

Nesse sentido, as palavras de Jesus relatadas no Evangelho de João são fundamentais: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia”.

Vivamos a Eucaristia com espírito de fé e de oração, de perdão, de penitência, de preocupação pelos necessitados, na certeza de que o Senhor realizará aquilo que prometeu.

Fonte: Rádio Vaticano

“Eucaristia, mistério da fé: nós cremos!”

Cartaz Corpus Christi 2013A celebração de Corpus Christi, quinta-feira, 30, será arquidiocesana. Todos os fiéis estão convidados a se reunir na Praça da Sé, a partir das 8h. A missa será celebrada, às 9h, pelo cardeal dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano, e com celebrada pelos bispos auxiliares e padres da arquidiocese.

Este ano o tema dado à celebração entra no contexto das celebrações do Ano da Fé, “Eucaristia, mistério da fé: nós cremos!”.

Logo após o final da celebração será feita a procissão com o Santíssimo Sacramento. Durante a procissão haverá seis momentos de benção.

1. A Procissão sai pela lateral da Praça.

2. Entra para o Pátio do Colégio, onde há uma Parada e Bênção do Santíssimo Sacramento.

3. Segue pela Rua Boa Vista.

4. Nova parada no Largo São Bento, onde também é dada a Bênção.

5. Continua pelo Viaduto Santa Ifigênia e, no meio do mesmo é dada a Bênção e segue até o

6. Largo Santa Ifigênia, onde é dada a Bênção Solene, com o que se encerra a festa de Corpus Christi.

Participe! Traga sua família!

Veja como vai ficar a disposição na Praça da Sé durante a celebração

Cartaz Corpus Christi 2013

Clique aqui ou na imagem para ver a versão ampliada.

Fonte: Arquidiocese de São Paulo

Entenda a história dessa celebração

A celebração teve origem em 1243, em Liège, na Bélgica, no século 13, quando a freira Juliana de Cornion teria tido visões de Cristo demonstrando-lhe desejo de que o mistério da Eucaristia fosse celebrado com destaque.

Em 1264, o papa Urbano 4 através da Bula Papal “Trasnsiturus de hoc mundo”, estendeu a festa para toda a Igreja, pedindo a São Tomás de Aquino que preparasse as leituras e textos litúrgicos que, até hoje, são usados durante a celebração. Compôs o hino “Lauda Sion Salvatorem” (Louva, ó Sião, o Salvador), ainda hoje usado e cantado nas liturgias do dia pelos mais de 400 mil sacerdotes nos cinco continentes.

A procissão com a Hóstia consagrada conduzida em um ostensório é datada de 1274. Foi na época barroca, contudo, que ela se tornou um grande cortejo de ação de graças.

No Brasil

No Brasil, a festa passou a integrar o calendário religioso de Brasília, em 1961, quando uma pequena procissão saiu da Igreja de madeira de Santo Antônio e seguiu até a Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima. A tradição de enfeitar as ruas surgiu em Ouro Preto, cidade histórica do interior de Minas Gerais.

A celebração de Corpus Christi consta de uma missa, procissão e adoração ao Santíssimo Sacramento.

A procissão lembra a caminhada do povo de Deus, que é peregrino, em busca da Terra Prometida. No Antigo Testamento esse povo foi alimentado com maná, no deserto. Hoje, ele é alimentado com o próprio Corpo de Cristo.

Durante a Missa o celebrante consagra duas hóstias: uma é consumida e a outra, apresentada aos fiéis para adoração. Essa hóstia permanece no meio da comunidade, como sinal da presença de Cristo vivo no coração de sua Igreja.

Fonte: http://www.catequisar.com.br

A Compaixão que partilha, sacia e faz viver!

httpv://www.youtube.com/watch?v=OAPd1D6K7vI

O Evangelho do 18º domingo do Tempo Comum nos leva a considerar a Compaixão de Jesus pelo povo sofrido e explorado que afaste-se do centros de poder e busca encontrar vida com dignidade.

O Pe Jacir de Freitas Faria nos diz: “A multiplicação dos pães quer nos ensinar que, se partilhamos, ninguém mais vai ter necessidade. Nisso reside o milagre. A comunidade é chamada a não ficar parada,mas ir além. Deus não quer a pobreza, mas a igualdade social. Um dos grandes males que assolam o ser humano é o desejo incontrolável de ter para ostentar o poder da posse. A felicidade não está no ter, mas no ser e nas relações. O Livro de Eclesiastes nos ensina que a felicade é comer e beber, desfrutando do produto do próprio trabalho.”

Celebrar a Eucaristia é compromisso de partilha que supera a acumulação e nos educa, partilhando o mesmo pão, a sermos pessoas de partilha e solidariedade que vence o egoísmo e o individualismo pelo amor.

A atitude de Jesus nascida de sua compaixão nos diz: Dai-lhe vós mesmos de comer.
A resposta é sempre a mesma: o que temos não é suficiente.
Jesus insiste e a partir de um povo numeroso e organizado e do pouco que se tem pede para que haja distribuição.

Distribuir, partilhar é o milagre que sacia e faz viver!

O Pão guardado endurece e o pão repartido tem gosto de Amor!!

Eucaristia: graças e distribuição

Pe. Geovane Saraiva

Realiza-se em Brasília, de 13-16 de maio deste ano de 2010, o XVI Congresso Eucarístico Nacional, com o tema: “Fica conosco, Senhor!”, na comemoração dos 50 anos de existência da Capital Federal.

Eucaristia é dom, sacrifício, solidariedade e fonte de reconciliação. Aprendemos no catecismo que a missa é o sacrifício incruento, isto é, sem derramamento de sangue, oferecido por Nosso Senhor Jesus Cristo, mas através do ministro, do sacerdote. Quando celebramos a eucaristia, a santa missa, devemos ter a consciência que se realiza o sacrifício de Jesus, que morreu na cruz, no calvário e que ressuscitou três dias depois.

No mundo atual, com carências e necessidades humanas, de toda ordem e natureza, Jesus se apresenta como aquele que quer dá uma resposta ao mundo. É ele mesmo, pão da vida, que deseja saciar e matar a fome da humanidade, ensinando que é pelo o amor que tudo se transforma em dom, em partilha.

“Graças” e “distribuição” são os elementos fundamentais na Instituição da Eucaristia, a partir do Evangelho da multiplicação dos pães (cf. Jo 6, 1-12; Mc 6, 34-44; Mt 14, 13-21), porque nos revela o aspecto mais belo, bonito e maravilhoso de Jesus, preocupado com a criatura humana, mesmo nos dias de hoje, de libertar de todo tipo de fome. Jesus, na sua obediência a vontade do Pai, matando a nossa fome, quer nos ver acordados e atentos, para que o nosso interior e as estruturas humanas de nossa sociedade sejam transformadas.

Que a nossa preocupação maior seja a de estarmos abertos, com o grande desejo conquistar, pela fé, o que mais desejamos, a nossa realização. Não deixar que os prazeres e a felicidade deste mundo prevaleçam e nos seduzam. Ele quer de nós muita atenção e vigilância. Há no mundo coisas que podem ou não acontecer. Uma, porém, não nos deixa a menor dúvida: Um dia vamos morrer. A morte é para o cristão o encontro definitivo com Deus, a eterna felicidade.

Que as atenções do povo brasileiro se voltem para o nosso bom Deus quer se revelar e se manifestar através deste Congresso Eucarístico Nacional, na capital da República. A nosso certeza é de que Jesus é o pão da vida, o pão descido do céu. Dele bem que podemos aprender sempre mais a compaixão, porque ele ao levantar os olhos e ver toda uma multidão sem tem ter o que comer, sentiu compaixão.

Comungar

Frei Betto

Eucaristia significa “ação de graças”. É o sacramento central da vida cristã. Entre os fiéis, não se costuma dizer: “Fiz a primeira eucaristia”. O habitual é: “Fiz a primeira comunhão”. Quem vai à missa diz: “Vou comungar”. Quase nunca fala: “Vou receber a eucaristia”.

Comunhão – eis uma palavra abençoada. Expressa bem o que a eucaristia significa. Comunhão vem da mesma raiz que a palavra comunicar. Se comungo as mesmas ideias de uma pessoa é porque sinto profunda afinidade. Ela diz o que penso e exprime o que sinto. Na eucaristia comungamos: 1) com Jesus; 2) com os nossos semelhantes; 3) com a natureza; e 4) com a Criação divina.

Jesus instituiu a eucaristia em vários momentos de sua vida. O mais significativo deles foi a Última Ceia, quando tomou o pão, repartiu entre seus discípulos e disse: “Tomai e comei, pois isto é o meu corpo”. A partir daquele momento, todas as vezes que uma comunidade cristã reparte entre si o pão e o vinho, abençoados pelo sacerdote, é o corpo e o sangue de Jesus que ela está compartindo. A palavra “companheiro” significa “compartir o pão”. Na eucaristia, compartimos mais do que o pão; é a própria vida de Jesus que nos é ofertada em alimento para a vida terna, deste lado, e eterna, do outro.

Ao receber a hóstia consagrada – pão sem fermento – os cristãos comungam a presença viva de Jesus eucarístico. Nossa vida recebe a vida dele que nos revigora e fortalece. Tornamo-nos um com ele (“…que todos sejam um” – João 17,21).

Ao instituir a eucaristia na Última Ceia, Jesus concluiu: “Fazei isto em minha memória”. Fazer o quê? A missa? A consagração? Sim, mas não apenas isso. Fazer memória é sinônimo de comemorar, rememorar juntos. Ao comemorar os 500 anos da invasão portuguesa, o Brasil deveria ter feito memória do que, de fato, ocorreu: genocídio indígena, tráfico de escravos, exclusão dos sem-terra etc.

Fazer algo em memória de Jesus não é, portanto, apenas recordar o que ele fez há dois mil anos. É reviver em nossas vidas o que ele viveu, assumindo os valores evangélicos, dispostos a dar o nosso sangue e a nossa carne para que outros tenham vida. Quem não se dispõe a dar a vida por aqueles que estão privados de acesso a ela, não deveria se sentir no direito de aproximar-se da mesa eucarística. Só há comunhão com Jesus se houver compromisso de justiça com os mais pobres, “pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (I João 4,20).

A vida é o dom maior de Deus. “Vim para que todos tenham vida e vida em plenitude” (João 10,10). Não foi em vão que Jesus quis perpetuar-se entre nós naquilo que há de mais essencial à manutenção da vida humana: a comida e a bebida, o pão e o vinho. O pão é o mais elementar e universal de todos os alimentos. O vinho era bebida de festa e liturgia no tempo de Jesus. De certo modo, o pão simboliza a vida cotidiana e, o vinho, aqueles momentos de profunda felicidade que nos faz sentir que vale a pena estar vivos.

No entanto, há milhões de pessoas que, ainda hoje, não têm acesso à comida e à bebida. O maior escândalo deste início de século e de milênio é a existência de pelo menos 1 bilhão de famintos entre os 6,5 bilhões de habitantes da Terra. Só no Brasil, 30 milhões estão excluídos dos bens essenciais à vida. E inúmeras pessoas trabalham de sol a sol para assegurar o pão de cada dia. Em toda a América Latina morrem de fome, a cada ano, cerca de 1 milhão de crianças com menos de 5 anos de idade.

A fome mata mais que a aids. No entanto, a aids mobliza campanhas milionárias e pesquisas científicas caríssimas. Por que não há o mesmo empenho no combate à fome? Por uma simples razão: a aids não faz distinção de classe social, contamina pobres e ricos. A fome, porém, só afeta os pobres.

Não se pode comungar com Jesus sem comungar com os que foram criados à imagem e semelhança de Deus. Fazer memória de Jesus é fazer com que o pão (símbolo de todos os bens que trazem vida) seja repartido entre todos. Hoje, o pão é injustamente distribuído entre a população mundial. Basta dizer que 80% dos bens industrializados produzidos no mundo são absorvidos por apenas 20% de sua população. Ou seja, se toda a riqueza da terra fosse um bolo dividido em 100 fatias, 1 bilhão e 600 milhões de pessoas ficariam com 80 fatias. E as 20 fatias restantes teriam de ser repartidas para matar a fome de 4 bilhões e 900 milhões. Basta dizer que apenas 4 homens, todos dos EUA, possuem uma fortuna pessoal superior à riqueza somada de 42 nações subdesenvolvidas, que abrigam cerca de 600 milhões de pessoas!

Jesus deixou claro que, comungar com ele, é comungar com o próximo, sobretudo com os mais pobres. No “Pai Nosso” ensinou-nos uma oração com dois refrões, “Pai Nosso” e “pão nosso”.

Não posso chamar Deus de “Pai” e de “nosso” se quero que o pão (os bens da vida) seja só meu. Portanto, quem acumula riquezas, arrancando o pão da boca do pobre, não deveria sentir-se no direito de se aproximar da eucaristia;

No capítulo 25, 31-44 de Mateus, Jesus enfatiza que a salvação se sujeita ao serviço libertador aos excluídos, com quem ele se identifica. E na partilha dos pães e peixes, episódio conhecido como “multiplicação dos pães”, Jesus ressalta a socialização dos bens da vida como sinal da presença libertadora de Deus.

Dom Luciano no céu

Pe Geovane Saraiva

Dom Luciano Mendes de Almeida, grande homem de Deus, por muitos anos bispo auxiliar de São Paulo, Secretário Geral e Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, por dois mandatos consecutivos, Arcebispo de Mariana – MG., deixou este mundo no dia 27 de agosto de 2006, coincidentemente, na festa de Santa Mônica, a mãe forte, por sua resistência, lágrimas e orações, conseguindo a conversão do filho Agostinho, um dos maiores Santos da Igreja e da própria humanidade, e no sétimo aniversário de morte de Dom Helder Pessoa Câmara, o homem dos grandes sonhos e nascido para as coisas mais elevadas, homem das viagens e cidadão do Mundo…

Dom Luciano soube viver e amar em profundidade o dom precioso da vida,  acolhendo o Filho de Deus como aquele que revelou o rosto amoroso e o enviado do Pai e como aquele que veio do alto. “Em Cristo Deus quis habitar com toda sua plenitude” (Col 1, 19). Esforçou-se para que esse mistério chegasse a todos, especialmente aos empobrecidos e rejeitados da sociedade, em nossos tempos…

Ele foi ao encontro da proposta do Filho de Deus, espalhando bondade, por onde passou, com o seu jeito simples de viver, acreditando na força transformadora da Palavra de Deus e da Eucaristia – acolhendo Jesus: “Pão da vida, pão descido do céu” (Jo 6, 34). “A Eucaristia é mensagem de comunhão fraterna, não só enquanto nos ajuda a vencer o egoísmo e partilhar o pão e também quando elimina o rancor e o dinamismo de vingança, mas enquanto consegue superar mágoas e ressentimentos e aproximar os distantes…” (Conferência de Dom Luciano, 15º Congresso Eucarístico Nacional – Florianópolis – SC).

Ele, uma preciosidade, com o seu modo santo de viver, tinha o céu ao seu redor. Mas mesmo assim ele queria ver o céu. Um dia ele decidiu: “Há um tempo queria muito ver o céu, saber como é lá. Um dia subi no céu. Não pensei que fosse tão bonito assim, fiquei contente com tanta música, pessoas dançando na presença de Deus. Mas, de repente, percebi que eu estava escondido atrás de uma árvore. Descobri que o céu é ver os outros felizes”.

Dom Moacyr Grechi, ao iniciar o retiro do clero de Fortaleza, disse: “Queria também invocar Dom Luciano Mendes, que tenho com “santo”. Eu fiz esta experiência: Iniciando a Conferência de Aparecida eu rezei a Dom Luciano dizendo: em Puebla o senhor muito ajudou a dar aquele tom evangelizador, que marcou a nossa pastoral; em santo Domingo, se não fosse a sua presença, com sua doçura e inteligência, talvez tivéssemos voltado para casa, sem nenhum Documento Pastoral. Eu quero a sua ajuda também nesta Conferência de Aparecida. Depois que eu rezei, mudei completamente por dentro: de desanimado que estava, resolvi enfrentar a Conferência com empenho, marcando presença em todas as reuniões, compreendendo que era a hora de Deus e que não deveria deixar passar em vão. Quero que Dom Luciano interceda por nós nestes dias do retiro do clero de Fortaleza”.

Dom Luciano, subindo ao céu, optou em primeiro lugar pela vida, em especial a vida dos empobrecidos, comprometida e indefesa. Que seu testemunho nos encoraje e nos estimule na nossa escolha e seguimento de Jesus de Nazaré, acolhendo-o com generosidade.

Deus seja louvado, amado e glorificado por esse homem que só soube fazer o bem. O amor nele cresceu e se fez dom, vivendo não para si, mas para Deus e para os irmãos e irmãs.