pão

Conselho Permanente: Cáritas divulga Campanha Mundial de Combate à Fome

A Cáritas Brasileira apresentou hoje, aos bispos do Conselho Permanente, a Campanha Mundial “Uma família humana – Pão e Justiça para todos”, a ser lançada em 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos. O lançamento ocorrerá simultaneamente em todo o país em consonância com o lançamento em nível mundial.

Segundo a diretora executiva da Cáritas Brasileira, Maria Cristina dos Anjos, a Campanha “quer unir a humanidade como uma família e fazer que esta família, unida, assuma a causa do combate à fome e à pobreza até que sejam extintas”.

A proposta é sensibilizar a sociedade sobre a fome, miséria e desigualdade no mundo e no Brasil; mobilizar a Igreja e a sociedade para um diálogo sobre a realidade no país, a fim de colaborar para uma mudança efetiva da situação; evidenciar ações da Igreja no enfrentamento da fome, pobreza e desigualdade sociais e promover gesto concreto em favor do povo do Haiti.

Apoio à Síria

Ainda durante a reunião, a CNBB decidiu somar-se a outras entidades na campanha humanitária de apoio à Síria. De acordo com o arcebispo de Aparecida (SP) e presidente da CNBB, cardeal Damasceno Assis, trata-se de uma campanha de arrecadação de recursos materiais e financeiros e de divulgação sobre a situação do povo sírio, com a finalidade de ajudar a diminuir o sofrimento tanto das pessoas que ficam no país como dos refugiados. “Sobretudo, agora, no inverno, quando as pessoas vão para os campos e necessitam de alimento, roupas e outros materiais”, lembrou dom Damasceno.

A campanha é organizada pela Cáritas Brasileira e conta com o apoio de entidades como o Regional Sul 1 da CNBB, Consulado Sírio, instituição ‘Ajuda à Igreja que sofre’, entre outras.

Signis Brasil

A presidente da Signis Brasil, Irmã Helena Corazza, apresentou, aos bispos do Conselho Permanente, os trabalhos desenvolvidos pela instituição que congrega todos os meios de comunicação católicos e de inspiração cristã no país. A Signis também oferece formação aos comunicadores.

De acordo com Irmã Helena, a Signis é uma instituição ligada ao Pontifício Conselho das Comunicações, com sede em Bruxelas e que está presente em mais de cem países. “É uma rede que tem um pé na Igreja e um pé no mundo, que mantém diálogo com a sociedade. Segue exatamente esse espírito que o Concílio Vaticano trouxe e que nós estamos reavivando nos 50 anos”, ressaltou Irmã Helena.

Encerramento

A reunião do Conselho Permanente da CNBB teve início no dia 22 e terminou hoje, 24 de outubro, pela manhã. Durante o encontro, os bispos deram encaminhamentos à 52ª Assembleia Geral, que acontecerá em maio de 2014, e discutiram questões como a conjuntura atual, Diretório de Comunicação, Lei da Mídia Democrática, Filantropia, Reforma Política, entre outros.

Fonte: CNBB

Comungar

Frei Betto

Eucaristia significa “ação de graças”. É o sacramento central da vida cristã. Entre os fiéis, não se costuma dizer: “Fiz a primeira eucaristia”. O habitual é: “Fiz a primeira comunhão”. Quem vai à missa diz: “Vou comungar”. Quase nunca fala: “Vou receber a eucaristia”.

Comunhão – eis uma palavra abençoada. Expressa bem o que a eucaristia significa. Comunhão vem da mesma raiz que a palavra comunicar. Se comungo as mesmas ideias de uma pessoa é porque sinto profunda afinidade. Ela diz o que penso e exprime o que sinto. Na eucaristia comungamos: 1) com Jesus; 2) com os nossos semelhantes; 3) com a natureza; e 4) com a Criação divina.

Jesus instituiu a eucaristia em vários momentos de sua vida. O mais significativo deles foi a Última Ceia, quando tomou o pão, repartiu entre seus discípulos e disse: “Tomai e comei, pois isto é o meu corpo”. A partir daquele momento, todas as vezes que uma comunidade cristã reparte entre si o pão e o vinho, abençoados pelo sacerdote, é o corpo e o sangue de Jesus que ela está compartindo. A palavra “companheiro” significa “compartir o pão”. Na eucaristia, compartimos mais do que o pão; é a própria vida de Jesus que nos é ofertada em alimento para a vida terna, deste lado, e eterna, do outro.

Ao receber a hóstia consagrada – pão sem fermento – os cristãos comungam a presença viva de Jesus eucarístico. Nossa vida recebe a vida dele que nos revigora e fortalece. Tornamo-nos um com ele (“…que todos sejam um” – João 17,21).

Ao instituir a eucaristia na Última Ceia, Jesus concluiu: “Fazei isto em minha memória”. Fazer o quê? A missa? A consagração? Sim, mas não apenas isso. Fazer memória é sinônimo de comemorar, rememorar juntos. Ao comemorar os 500 anos da invasão portuguesa, o Brasil deveria ter feito memória do que, de fato, ocorreu: genocídio indígena, tráfico de escravos, exclusão dos sem-terra etc.

Fazer algo em memória de Jesus não é, portanto, apenas recordar o que ele fez há dois mil anos. É reviver em nossas vidas o que ele viveu, assumindo os valores evangélicos, dispostos a dar o nosso sangue e a nossa carne para que outros tenham vida. Quem não se dispõe a dar a vida por aqueles que estão privados de acesso a ela, não deveria se sentir no direito de aproximar-se da mesa eucarística. Só há comunhão com Jesus se houver compromisso de justiça com os mais pobres, “pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (I João 4,20).

A vida é o dom maior de Deus. “Vim para que todos tenham vida e vida em plenitude” (João 10,10). Não foi em vão que Jesus quis perpetuar-se entre nós naquilo que há de mais essencial à manutenção da vida humana: a comida e a bebida, o pão e o vinho. O pão é o mais elementar e universal de todos os alimentos. O vinho era bebida de festa e liturgia no tempo de Jesus. De certo modo, o pão simboliza a vida cotidiana e, o vinho, aqueles momentos de profunda felicidade que nos faz sentir que vale a pena estar vivos.

No entanto, há milhões de pessoas que, ainda hoje, não têm acesso à comida e à bebida. O maior escândalo deste início de século e de milênio é a existência de pelo menos 1 bilhão de famintos entre os 6,5 bilhões de habitantes da Terra. Só no Brasil, 30 milhões estão excluídos dos bens essenciais à vida. E inúmeras pessoas trabalham de sol a sol para assegurar o pão de cada dia. Em toda a América Latina morrem de fome, a cada ano, cerca de 1 milhão de crianças com menos de 5 anos de idade.

A fome mata mais que a aids. No entanto, a aids mobliza campanhas milionárias e pesquisas científicas caríssimas. Por que não há o mesmo empenho no combate à fome? Por uma simples razão: a aids não faz distinção de classe social, contamina pobres e ricos. A fome, porém, só afeta os pobres.

Não se pode comungar com Jesus sem comungar com os que foram criados à imagem e semelhança de Deus. Fazer memória de Jesus é fazer com que o pão (símbolo de todos os bens que trazem vida) seja repartido entre todos. Hoje, o pão é injustamente distribuído entre a população mundial. Basta dizer que 80% dos bens industrializados produzidos no mundo são absorvidos por apenas 20% de sua população. Ou seja, se toda a riqueza da terra fosse um bolo dividido em 100 fatias, 1 bilhão e 600 milhões de pessoas ficariam com 80 fatias. E as 20 fatias restantes teriam de ser repartidas para matar a fome de 4 bilhões e 900 milhões. Basta dizer que apenas 4 homens, todos dos EUA, possuem uma fortuna pessoal superior à riqueza somada de 42 nações subdesenvolvidas, que abrigam cerca de 600 milhões de pessoas!

Jesus deixou claro que, comungar com ele, é comungar com o próximo, sobretudo com os mais pobres. No “Pai Nosso” ensinou-nos uma oração com dois refrões, “Pai Nosso” e “pão nosso”.

Não posso chamar Deus de “Pai” e de “nosso” se quero que o pão (os bens da vida) seja só meu. Portanto, quem acumula riquezas, arrancando o pão da boca do pobre, não deveria sentir-se no direito de se aproximar da eucaristia;

No capítulo 25, 31-44 de Mateus, Jesus enfatiza que a salvação se sujeita ao serviço libertador aos excluídos, com quem ele se identifica. E na partilha dos pães e peixes, episódio conhecido como “multiplicação dos pães”, Jesus ressalta a socialização dos bens da vida como sinal da presença libertadora de Deus.

O Coração do Cristianismo

José Antonio Pagola

As pessoas necessitam de Jesus e procuram-no. Há algo Nele que as atrai, mas todavia não sabem exatamente por que o procuram nem para quê. Segundo o evangelista, muitos fazem-no porque no dia anterior distribuiu-lhes pão para saciar a sua fome.

Jesus começa a conversar com eles. Há coisas que convêm aclarar desde o princípio. O pão material é muito importante. Ele mesmo os ensinou a pedir a Deus “o pão de cada dia” para todos. Mas o ser humano necessita de algo mais. Jesus quer oferecer-lhes um alimento que possa saciar para sempre a sua fome de vida.

As pessoas intuem que Jesus lhes está a abrir um horizonte novo, mas não sabem que fazer, nem por donde começar. O evangelista resume as suas interrogações com estas palavras: “e que obras temos que fazer para trabalhar no que Deus quer?”. Há neles um desejo sincero de acertar. Querem trabalhar no que Deus quer, mas, acostumados a pensar tudo a partir da Lei, perguntam a Jesus que obras, práticas e observâncias novas têm que ter em conta.

A resposta de Jesus toca o coração do cristianismo: “a obra (no singular!) que Deus quer é esta: que acrediteis Naquele que foi enviado”. Deus só quer que creiam em Jesus Cristo pois é a grande dádiva que Ele enviou ao mundo. Esta é a nova exigência. Nisto têm de trabalhar. O resto é secundário.

Depois de vinte séculos de cristianismo, não necessitaremos de descobrir de novo que toda a força e originalidade da Igreja estão em crer em Jesus Cristo e segui-Lo? Não necessitamos passar da atitude de adeptos de uma religião de “crenças” e de “práticas”, a viver como discípulos de Jesus?

A fé cristã não consiste primordialmente em ir cumprindo corretamente um código de práticas e observâncias novas, superiores às do antigo testamento. Não. A identidade cristã está em aprender a viver um estilo de vida que nasce da relação viva e confiada em Jesus, o Cristo. Vamo-nos fazendo cristãos na medida em que aprendemos a pensar, sentir, amar, trabalhar, sofrer e viver como Jesus.

Ser cristão exige hoje uma experiência de Jesus e uma identificação com o Seu projeto que não se requeria anos atrás para ser um bom praticante. Para subsistir no meio da sociedade laica, as comunidades cristãs necessitam cuidar mais que nunca da adesão e do contacto vital com Jesus, o Cristo.

Semana da solidariedade

Dom Demétrio Valentini *

Para a Cáritas Brasileira, esta é a Semana da Solidariedade. O motivo é simples: estamos na semana que recorda a fundação da Cáritas Brasileira, a 12 de novembro de 1956, por D. Helder Camara.
O lema deste ano traz a marca de D. Helder, com a sentença pronunciada por ele: “Melhor que o pão é a sua partilha”.

Não é só uma frase de efeito. É a explicação de um milagre. A partilha faz acontecer a multiplicação do pão. Lendo com atenção o Evangelho, percebemos, de fato, que ele não fala em multiplicação, fala em partilha do pão. Da partilha nasceu a multiplicação.

O mundo está precisando com urgência de pão. Segundo a ONU, o número de famintos passou de oitocentos para novecentos e cinqüenta milhões. Mas não é que falta pão. Falta repartir melhor os alimentos guardados a sete chaves nos estoques das nações ricas. E falta uma política responsável de produção de alimentos que os torne suficientes e acessíveis a toda a população mundial.

Na verdade, se Cristo perguntasse: “quantos alimentos tendes em vossos estoques?”, ficaríamos bem mais encabulados do que os discípulos, que na verdade só tinham “sete pães e alguns peixinhos”.

O que falta no mundo não é tanto o pão, mas sua partilha.

Foi a preocupação com a partilha, com a solidariedade, que levou D. Helder a semear instituições, que a seu tempo frutificariam de muitas maneiras, incentivando a partilha de tantos bens.

Impressiona a seqüência de lúcidas iniciativas empreendidas por D. Helder naquela fervilhante década de cinqüenta.

Em 1952 era fundada a CNBB – a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, por articulação de D. Helder quando ele ainda nem era bispo, e se inspirava na organização dos leigos para imaginar um organismo que articulasse a solidariedade entre os bispos. Como seria bom se hoje as instituições reencontrassem as motivações originais de sua existência!

Depois, foi a vez do CELAM em 1955, o Conselho Episcopal Latino Americano. Este organismo iria possibilitar tantas preciosas iniciativas da Igreja. Lá estava D. Helder com D. Larrain, do Chile, tramando a fundação do CELAM, possibilitando que sua sede ficasse em Bogotá, para facilitar a articulação em nível continental.

Por fim, faltava criar a Cáritas na Igreja do Brasil E de novo D. Helder articulou sua fundação, que culminou com a aprovação dos seus estatutos e o lançamento de suas atividades em 12 de novembro de 1956, tendo D. Helder como seu primeiro secretário. A providência sintonizava bem com o momento vivido pelo país, que decidia construir uma nova capital para simbolizar melhor sua unidade nacional, projetando a utopia da justiça e da fraternidade entre todos os brasileiros.

Estas iniciativas revelam a lucidez e a audácia de D. Helder. Como São Paulo, ele também podia dizer: “Segundo a graça que Deus me deu, como bom arquiteto, lancei os fundamentos. Veja agora cada um como constrói” (1Cor 3,10).

Sobre estes fundamentos somos chamados a construir. Estamos agora nos preparando para celebrar o centenário de nascimento deste grande profeta. Para homenageá-lo, nada melhor do que valorizar as grandes intuições que ele teve. A Cáritas sente o compromisso de continuar a obra lançada por D. Helder, e fazê-la produzir muitos frutos de solidariedade.

Melhor que o pão, é a sua partilha! Incentivando a solidariedade, a Cáritas Brasileira se apresenta como instrumento do Evangelho, que nos incentiva a apostar nos sentimentos de solidariedade que Deus semeou em nossos corações, para que se multipliquem em gestos concretos de justiça e de ajuda fraterna.

(www.diocesedejales.org.br)

* Bispo de Jales, São Paulo.