violência contra a mulher

VÍDEO: Pe. Julio critica violência contra a mulher e cultura do estupro

VÍDEO: Pe. Julio critica violência contra a mulher e cultura do estupro

“Nós temos que construir um mundo em que não haja violência dos homens contra as mulheres”, afirmou o Pe. Julio Lancellotti durante a homilia de 29/05/2016, 9º Domingo do Tempo Comum. Dirigindo-se às crianças e adolescentes que se preparam para a 1ª Eucaristia e seus familiares, ele defendeu “que nós ensinemos os meninos que eles têm que respeitar as meninas; e que não há nenhuma justificativa pra que um homem desrespeite uma mulher”.

Assista na íntegra:

Violências contra a mulher

Frei Betto

O hediondo crime que envolve o goleiro Bruno -a mulher, após ser assassinada, teve o corpo destroçado e devorado por cães, segundo denúncia- é a ponta do iceberg de um problema recorrente: a agressão masculina à mulher.

Entre 1997 e 2007, segundo o Mapa da Violência no Brasil/2010, 41.532 mulheres foram assassinadas no país. Um índice de 4,2 vítimas por cada grupo de 100 mil habitantes, bem acima da média internacional. O Espírito Santo apresenta o quadro mais grave: 10,3 assassinatos de mulheres/100 mil.

O Núcleo de Violência da Universidade de São Paulo identifica como assassinos maridos, ex-maridos e namorados inconformados com o fim da relação. Ao forte componente de misoginia (aversão à mulher), acresce-se a prepotência machista de quem se julga dono da parceira e, portanto, senhor absoluto sobre o destino dela.

A Central de Atendimento à Mulher (telefone 180) recebeu, nos primeiros cinco meses deste ano, 95% mais denúncias do que no mesmo período do ano passado. Mais de 50 mil mulheres denunciaram agressões verbais e físicas. A maioria é de mulheres negras, casadas, com idade entre 20 e 45 anos e nível médio de escolaridade. Os agressores são, em maioria, homens com idade entre 20 e 55 anos e nível médio de escolaridade.

Acredita-se que o aumento de denúncias se deve à Lei Maria da Penha, sancionada em 2006 pelo presidente Lula, e que aumenta o rigor da punição aos agressores. Apesar desse avanço, tudo indica que muitos lares brasileiros são verdadeiras casas dos horrores. A mulher é humilhada, destratada, surrada, por vezes vive em regime de encarceramento virtual e de semiescravidão no trabalho doméstico. Sem contar os casos de pedofilia e agressão sexual de crianças e adolescentes por parte do próprio pai.

A violência contra a mulher decorre de vários fatores, a começar pela omissão das próprias vítimas que, dependentes emocional e financeiramente do agressor, ou em nome da preservação do núcleo familiar, ficam caladas ou dominadas pelo pavor frente aos efeitos de uma denúncia. Soma-se a isso a impunidade. Eliza Zamudio, ex-namorada do goleiro Bruno, teria recorrido à Delegacia de Defesa da Mulher, sem que sua queixa tivesse sido levada a sério. Raramente o poder público assegura proteção à vítima e é ágil na punição ao agressor.

A violência contra a mulher não ocorre apenas nas relações interpessoais. Ela é generalizada pela cultura mercantilizada em que vivemos. Basta observar a multiplicidade de anúncios televisivos que fazem da mulher isca pornográfica de consumo.

Pare diante de uma banca de revistas e confira a diversidade do “açougue” fotográfico! Preste atenção no papéis femininos em programas humorísticos. Ora, se a mulher é reduzida às suas nádegas e atributos físicos, tratada como “gata” ou “avião”, exposta como mero objeto de uso masculino, como esperar que seja respeitada?

Nossas escolas, de uns anos para cá, introduziram no currículo aulas que abordam o tema da sexualidade. Em geral se restringem a noções de higiene corporal para se evitar doenças sexualmente transmissíveis. Não tratam do afeto, do amor, da alteridade entre parceiros, da família como projeto de vida, da irredutível dignidade do outro, incluídos os/as homossexuais.

Nas famílias, ainda há pais que conservam o tabu de não falar de sexo e afeto com os filhos ou julgam melhor o extremo oposto, o “liberou geral”, a total falta de limites, o que favorece a erotização precoce de crianças e a promiscuidade de adolescentes, agravada pelos casos de gravidez inesperada e indesejada.

Onde andam os movimentos de mulheres? Onde a indignação frente às várias formas de violência contra elas?

Os clubes esportivos deveriam impor a seus atletas, como fazem empresas e denominações religiosas, um código de ética. Talvez assim a fama repentina e o dinheiro excessivo não virassem a cabeça de ídolos de pés de barro…

Presidente da Pontifícia Academia para a Vida comenta o caso da menina violentada em Pernambuco

D. Rino Fishichella

“O debate sobre algumas questões frequentemente se torna cerrado e as diferentes perspectivas nem sempre permitem considerar o quanto o acontecimento em jogo seja realmente grande. É este o momento em que se deve olhar o essencial e, por um momento, deixar de lado aquilo que não toca diretamente o problema. O caso em sua dramaticidade é simples. Uma menina de apenas nove anos, a quem chamaremos Carmen, e a quem devemos olhar fixamente nos olhos sem distrair sequer um minuto, para fazê-la entender o quanto a queremos bem. Carmen, em Alagoinha, foi violentada várias vezes pelo seu jovem padrasto, engravidou de dois gêmeos e nunca mais teve uma vida tranquila. A ferida é profunda porque a violência a destruiu por dentro e dificilmente lhe permitirá no futuro olhar os outros com amor.

Carmen representa uma história de violência cotidiana e ganhou as páginas dos jornais somente porque o arcebispo de Olinda e Recife se apressou em excomungar os médicos que a ajudaram a interromper a gravidez. Uma história de violência que, infelizmente, teria passado despercebida, pois estamos acostumados a ver todos os dias fatos de uma gravidade sem igual, se não fossem as reações causadas pela atuação do bispo. A violência sobre uma mulher é grave, e se torna ainda mais deplorável quando perpetrada contra uma menina pobre, que vive em condição de degradação social. Não existe linguagem correspondente para condenar tais episódios, e os sentimentos que surgem são muitas vezes uma mistura de raiva e de rancor que se acalmam somente quando a justiça é feita realmente e se tem certeza de que o criminoso será punido.

Carmen deveria ter sido em primeiro lugar defendida, abraçada, acariciada com doçura para fazê-la sentir que estamos todos com ela; todos, sem exceção. Antes de pensar na excomunhão era necessário e urgente salvaguardar sua vida inocente e recolocá-la num nível de humanidade da qual nós homens de Igreja devemos ser anunciadores e mestres. Assim não foi feito e, infelizmente, a credibilidade de nosso ensinamento sofre com isso, pois aparece aos olhos de muitos como insensível, incompreensível e sem misericórdia. É verdade, Carmen trazia consigo outras vidas inocentes como a sua, não obstante fossem frutos da violência, e foram ceifadas; isso, todavia, não basta para fazer um julgamento que pesa como uma guilhotina.

No caso de Carmen se confrontaram a vida e a morte. Por causa de sua tenra idade e de suas condições de saúde precárias sua vida corria sério risco por causa da gravidez. Como agir nestes casos? Decisão árdua para o médico e para a lei moral. Escolha como esta, mesmo como uma casuística diferente, se repetem cotidianamente nas salas de tratamento intensivo e o médico se encontra só no ato de decidir o que fazer. Ninguém chega a uma decisão desse tipo com desenvoltura; é injusto e ofensivo pensá-lo.

O respeito devido ao profissionalismo do médico é uma regra que deve envolver todos e não pode consentir chegar a um julgamento negativo sem antes considerar o conflito criado em seu íntimo. O médico traz consigo sua história e sua experiência; uma escolha como essa de ter que salvar uma vida, sabendo que coloca em sério risco outra, jamais é vivida com facilidade. Certo, alguns se acostumam a tais situações que e as vivem sem sentimento; nestes casos, porém, a vocação de ser médico é reduzida apenas a uma profissão vivida sem entusiasmo e passivamente. Fazer de um caso um todo, além de incorreto seria injusto.

Carmen repropôs um caso moral entre os mais delicados; tratá-lo de forma rápida não faria justiça nem à sua frágil pessoa nem aos que estão envolvidos no caso. Como todo caso singular e concreto, merece ser analisado de forma peculiar, sem generalizações. A moral católica possui princípios dos quais não pode prescindir, mesmo se o quisesse. A defesa de uma vida humana desde a sua concepção pertence a um destes princípios e se justifica pela sacralidade da existência. Todo ser humano, de fato, desde o primeiro instante de vida traz consigo a imagem do Criador, e por isto estamos convictos de que devem ser reconhecidos os direitos e a dignidade de toda pessoa, primeiro entre todos o de sua intangibilidade e inviolabilidade. O aborto não espontâneo sempre foi condenado pela lei moral como um ato intrinsecamente mau e este ensinamento permanece imutável em nossos dias desde os primórdios da Igreja. O Concílio Vaticano II na Gaudium es spes – documento de grande abertura e perspicácia em relação ao mundo contemporâneo – usa de forma inesperada palavras inequívocas e duríssimas contra o aborto direto. A colaboração formal constitui uma culpa grave que, quando realizada, exclui automaticamente da comunidade cristã. Tecnicamente, o código de Direito Canônico usa a expressão latae sententiae para indicar que a excomunhão se atua automaticamente no momento em que o fato acontece.

Não era preciso tanta urgência e publicidade ao declarar um fato que se realiza de maneira automática. O que se sente maior necessidade neste momento é o sinal de um testemunho de proximidade a quem sofre, um ato de misericórdia que, mesmo mantendo firme o princípio, é capaz de olhar além da esfera jurídica para atingir aquilo que o direito prevê como objetivo de sua existência: o bem e a salvação daqueles que crêem no amor do Pai e daqueles que acolhem o Evangelho de Cristo como as crianças, que Jesus chamava para junto de si e as abraçava dizendo que o reino dos céus pertence a quem é como elas.

Carmen, estamos do seu lado. Partilhamos o sofrimento pelo qual passou, queremos fazer de tudo para lhe restituir a dignidade que lhe foi tirada e o amor de que você precisa ainda mais. São outros que merecem a excomunhão e o nosso perdão, não os que lhe permitiram viver e ajudam a recuperar a esperança e a confiança, não obstante a presença do mal e a maldade de muitos”.

CNBB fala sobre o caso da menina violentada em Pernambuco

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“É lamentável o acontecido”, disse o secretário-geral da CNBB, dom Dimas Lara Barbosa, a respeito do abuso sexual sofrido pela menina de nove anos em Alagoinhas, que ficou grávida de gêmeos e abortou. “Mais lamentável ainda é o fato de que não se trata de um caso isolado. Infelizmente, temos no Brasil inúmeras denúncias de exploração sexual e até de tráfico de crianças. Alguns dos nossos bispos estão sendo ameaçados no Pará por denunciar esse tipo de prática de exploração contra crianças e adolescentes”, lembrou o bispo durante entrevista coletiva à imprensa realizada hoje, na sede da CNBB, em Brasília, na qual estiveram presentes o presidente, vice-presidente e o assessor de Direito Canônico, respectivamente, dom Geraldo Lyrio Rocha, dom Luiz Soares e padre Enrique Pujol.

Para dom Dimas, esses casos de violência contra crianças e adolescentes lembram a Campanha da Fraternidade deste ano que traz como tema “Fraternidade e Segurança Pública”. “A Campanha da Fraternidade aponta a violência doméstica como um fator de insegurança”, disse.

Excomunhão

Para, dom Geraldo Lyrio Rocha, não se pode reduzir a violência ocorrida com a menina de Alagoinha à questão da excomunhão. Ele lembrou que a nota da CNBB, divulgada na sexta-feira da semana passada, manifesta, em primeiro lugar, solidariedade à família da criança que está passando por um constrangimento enorme e condena o estuprador que deve pagar pelo crime segundo a justiça.

“Eu fico pensando na situação da mãe desta criança e nos demais familiares. É um enorme sofrimento, uma humilhação ter uma criança sendo explorada sexualmente pelo padrasto desde os seis anos de idade. Isto é uma coisa repugnante e me causa estranheza que este aspecto tão repugnante tenha se diluído diante da história da excomunhão, que precisa, sim, ser tratada. Porém reduzir uma problemática deste porte unicamente ao episódio da história da excomunhão é esvaziar uma questão sobre a qual a consciência nacional precisa ser despertada”, disse.

Segundo dom Geraldo, excomunhão não é sinônimo de condenação ao inferno, mas trata-se de um ato disciplinar da Igreja. “A excomunhão existe para chamar atenção para a gravidade do ato. O aborto traz consigo essa pena porque está se diluindo a gravidade do aborto até mesmo entre os cristãos. Quem viola isto, se coloca fora da comunidade eclesial”, esclareceu.

Ainda de acordo com o presidente da CNBB, o estupro não é penalizado com a excomunhão porque todos já têm consciência de que se trata de um ato repugnante. “O estupro é uma coisa tão repugnante que a Igreja não precisa chamar a atenção para ele, está na consciência de todos. O aborto não, por isso a excomunhão não é só para punir, mas para que quem praticou o ato possa perceber a gravidade e buscar sua reconciliação”, afirmou dom Geraldo.

Para dom Dimas, o arcebispo dom José Cardoso Sobrinho “não excomungou ninguém”, apenas lembrou uma norma que existe no Direito Canônico. “Em alguns casos especiais se prevê este tipo de pena, como por exemplo, a profanação do Santíssimo Sacramento, ou o caso do padre que revela um segredo de confissão, em que a pessoa, pelo simples fato de cometer este tipo de ato, se coloca fora da comunhão da Igreja”, explicou. É a chamada excomunhão latae sententiae.

O presidente da CNBB concorda com dom Dimas. “Na verdade, o arcebispo não excomungou ninguém. Ele anunciou que este tipo de ato traz consigo tal possibilidade, de acordo com o que prevê o Código de Direito Canônico”, esclareceu.

Dom Dimas disse que, para incorrer em excomunhão, a pessoa precisa ter consciência da gravidade do ato e liberdade para praticá-lo. “Em qualquer tipo de pecado existem as circunstâncias. Uma coisa é a pessoa agir deliberadamente contra o outro. Outra coisa é a pessoa agir sob pressão ou sob efeito da droga, por exemplo. Neste sentido existe uma previsão no Código de Direito Canônico, considerando a gravidade do aborto, de que as pessoas que trabalham contra o nascituro, consciente e livremente, se colocam fora da Igreja, porque já não comungam com o pensamento cristão que é a defesa da vida”.

Para dom Dimas, a Igreja considera o aborto um ato grave, sobretudo por aqueles que o praticam conscientemente. “Os que praticam o aborto com consciência e as clínicas de aborto não estão em comunhão com o pensamento cristão em defesa da vida”, recordou.

O secretário deixou claro também que a criança violentada não incorreu em excomunhão. “Eu acredito que a mãe dela também não [incorreu na excomunhão] porque ela agiu sob pressão”, disse.

Carta aberta a uma menina

Maria Clara Lucchetti Bingemer

No Dia Internacional da Mulher penso a quem homenagear. E só você me vem à cabeça e à pena. Você que ainda não é uma mulher, mas uma menina. Você que tem apenas nove anos, um corpo frágil e magrinho, cabelinhos compridos atados em rabo de cavalo. Você que deveria estar brincando de bonecas e, no entanto teve sua infância brutalmente interrompida dentro de sua própria casa. Você de quem não sei o nome, mas de quem acompanhei a tragédia pelos jornais, televisão e toda a mídia disponível neste mundo que se excita de curiosidade com o sofrimento alheio.

Aquele que acabou com sua vida de menina vivia em sua própria casa e era marido de sua mãe. Mas ele não era uma pessoa normal e por isso, às escondidas como costumam agir os criminosos, além de ter sua mãe no leito, também para lá levava você e sua irmã mais velha que além de ser menor ainda era deficiente física. Abusava de vocês que seguramente por medo ou por inocência não se queixavam nem o descobriam diante de sua mãe. E o estupro silencioso continuava povoando a casa que devia ser de convivência familiar, transformando-a em bordel sem paga, usando duas menores para saciar a sede de sexo de um homem que não era marido nem padrasto e sim tarado e criminoso.

Você certamente não entendia nada do que estava se passando com seu corpinho de menina. Não entendia por que aqueles seios crescidos, as dores no ventre, o mal estar. E tinha medo de perguntar. Medo de ser mal compreendida, medo de apanhar, de ser castigada. Por isso calou até que as dores se tornaram insuportáveis e você se abriu com sua mãe que constatou sua gravidez de gêmeos. Sua mãe que nunca desconfiou de nada porque seu padrasto tratava você muito bem. “Ele tratava ela sempre muito bem, eu não ia achar que era por mal” disse sua mãe à imprensa.

Eu acredito nela. São tão indefesas as mulheres diante do homem a quem amam e com quem vivem, muitas vezes. São tão impotentes para reconhecer que muitas vezes, infelizmente, eles só querem usá-las ou fazê-las de ponte para usar as filhas menores que estão com elas. Não foi apenas sua mãe que sofreu esse horror. Gente muito mais culta, formada e intelectualizada que ela, como a grande atriz de cinema Mia Farrow, há alguns anos atrás, teve que passar pela dor insuportável de ver seu marido, o talentosíssimo diretor Woody Allen, admitir que molestava sexualmente suas duas filhas – uma adolescente de 15 anos e outra pequena ainda – e que ia separar-se dela para viver com a mais velha, uma linda vietnamita que os dois haviam adotado juntos para criar e proteger.

Eu sei, querida, que mal de muitos não é consolo a não ser de bobos. Não é porque seu caso não é o único que é menos brutal e horripilante. Recordo hoje suas irmãs de sexo para que, ainda com o coração sensibilizado pela brutalidade do que aconteceu com você, as pessoas tomem consciência das barbaridades que ocorrem nesse nosso país, nesse nosso mundo, das quais a mulher é vítima principal.

Não é possível que enquanto nos orgulhamos de frivolidades tais como ter “investment grade” e havermos sido agregados ao grupo dos países respeitáveis internacionalmente, ainda admitamos em nosso meio atos de barbárie como esse, em tão larga escala. Seu caso, infelizmente , apenas engrossa estatísticas que já têm dimensões simplesmente terríveis. Nestas últimas semanas nosso noticiário esteve cheio de casos de meninas como você, mais velhas ou mais novas, mas sempre meninas, indefesas e desprotegidas que foram violentadas, sofreram constrangimentos de toda sorte e morreram em conseqüência da violência de que foram vítimas.

Por isso eu, neste Dia Internacional da Mulher, quando todos celebram as conquistas da mulher emancipada no mercado de trabalho, na vida sexual e em não sei mais quanto terrenos, eu quero homenagear você. A mídia parecia não se interessar muito por sua pessoa. Estava mais preocupada em confrontar os médicos, o bispo, a polícia etc. Estava mais preocupada com a discussão que seu caso ia gerar que ajudaria a vender jornal e audiência.

Eu estou preocupada com você. Gostaria de estar perto de você para poder te abraçar, te beijar, dizer que você é uma pessoa amada e querida por Deus que te criou, que toda essa maldade que se abateu sobre você não pode destruir sua identidade de filha de Deus, que você com a ajuda dele pode superar tudo isso e transformar sua dor em ajuda para que outras meninas não sofram o que você sofreu.

Como estou longe, não posso dar-lhe mais que esse texto. Que você o sinta como um afago, mesmo sem lê-lo. Feliz Dia Internacional da Mulher, menina anônima, feita mulher e mãe antes do tempo. Que seu frágil corpinho que só vimos de costas, de mãos dadas com o médico e levará para sempre as marcas desse sofrimento nos sirva de ícone para lembrar-nos que enquanto a violência contra a mulher, sobretudo aquela que é menor de idade, for uma realidade tão constante em nosso país, não faz o menor sentido comemorarmos estatísticas que falam de libertação da mulher. As vítimas nos interpelam a nós e a nossos discursos triunfalistas. Voltemo-nos para as prioridades que ainda não estão atendidas. E quando se virem os frutos, aí sim, poderemos celebrar.

Veja também a posição da CNBB sobre o assunto