D. Aloisio Lorscheider

Dom Aloísio Lorscheider: a testemunha fiel

Dom Manoel Edmilson da Cruz

Falar em breves palavras sobre a riqueza da personalidade de Dom Aloísio é tarefa muito difícil, deter-me-ei, porém, sobre a importância dele para a Igreja como Ministro do Senhor. Sendo assim, será preciso apenas mencionar seus principais títulos acadêmicos, diplomas, honrarias, condecorações, pluricidadania; sua invejável condição de poliglota (fala fluentemente alemão, português, latim, italiano, espanhol, Francês, inglês, entende o flamengo, conhece muito bem o grego e o hebraico e suponho que também o aramaico); os diversos ministérios e os serviços extraordinários prestados com a competência de verdadeiro teólogo na vivência exemplar dos votos religiosos, na cátedra magisterial de Universidade em Roma; no convento, como franciscano, em Províncias Religiosas da sua Ordem no Brasil e em Portugal; ou do Mestre na fé como Bispo diocesano em Santo Ângelo, RS, e Arcebispo Metropolitano e Cardeal Arcebispo em Fortaleza e no Ceará; Presidente da Comissão Episcopal de Doutrina (CED), Coordenador do Secretariado de Teologia e Ecumenismo da CNBB, para todo o Brasil; Secretário Geral, depois Presidente dessa mesma Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; Vice-Presidente e depois Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) e da Cáritas Internacional, com atuação também nas Américas e no Mundo; Co-Presidente do CELAM por ocasião de Assembléia Geral, ou melhor, de Conferência Geral; altíssimos encargos, missões e ministérios na Igreja (apontado, inclusive, para o Sumo Pontificado); sua destacada participação no Concílio Vaticano II e em todos os subseqüentes Sínodos dos Bispos, ordinários e extraordinários, e nas Conferências Gerais de Medellín, Puebla e Santo Domingo.

Tudo isso resume um pouco a sua vida e de relance demonstra-lhe a grandeza. Por muitos outros ângulos, porém, poder-se-á apreciar a beleza e o esplendor de sua imagem caleidoscópica. Algumas perguntas, despretensiosas e singelas, ajudar-nos-ão neste sentido.

Estas, por exemplo: Quem por acaso viu alguma vez Dom Aloísio irritado? Quem não recebeu dele um incentivo para o bom desempenho de um cargo, de uma missão? Quem foi por ele constrangido a assumir algum trabalho? Quando foi que se viu Dom Aloísio fazer alusão a merecimento próprio, seu, pessoal, ou citar seus grandes feitos e iniciativas?

Por outro lado, não há como esquecer comportamentos dele que não se possa deixar de admirar em profundidade. Assim, na sua primeira diocese de Santo Ângelo, ao percorrer a pé três suarentas léguas para atender a enfermo em estado grave. No sertão do Ceará, sob raios de sol esbraseante, a confessar uma pobre penitente, ambos sentados numa tora de madeira ao abrigo de um simples guarda-sol. Era ele todos os anos invariavelmente o primeiro a sentar-se no confessionário ainda pela madrugada para ouvir em confissão os romeiros em Canindé durante a festa de São Francisco. Isto, sempre, até quando com a saúde já abalada, até no dia seguinte a sua volta de São Paulo após a sua primeira cirurgia do coração.

Seus grandes feitos de construtor: a conclusão da bela Catedral de Fortaleza a construção e a ampliação de seminários, as escolas comunitárias da periferia da capital, as 382 casas populares (180 só na praia das goiabeiras).

Suas grandes iniciativas: a fundação do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos (CDPDH); a criação do Mensageiro da Fraternidade ambos dotados da infra-estrutura necessária e em pleno funcionamento; a descentralização da Arquidiocese com a criação das Regiões Episcopais metropolitanas e interioranas de Pastoral, a criação de novas e numerosas Pastorais correspondentes aos desafios pastorais dos nossos tempos, às quais soube sempre imprimir uma linha de pastoral em plena sintonia com o Concílio Vaticano II; o seu cuidado incansável com a formação dos Sacerdotes, Religiosos e Leigos (ITEP e ICRE); a partilha e a entrega de propriedades rurais da Igreja aos seus moradores.

Sua atuação constante junto aos Meios de Comunicação Social: visitas às Emissoras de TV e Jornais, encontros com jornalistas e telecomunicadores; entrevistas, coletivas de imprensa, conferências etc.

Sua presença junto aos presos políticos que ele visitava e confortava.

Seu diálogo respeitoso e freqüente com as Autoridades, especialmente como mediador em casos de conflitos.

Por aí se percebe a figura do Bispo “feito de coração modelo para o rebanho (forma factus gregis ex animo)”, segundo a inspirada palavra da Sagrada Escritura (1Pd 5, 4).

Não era freqüente ver-se Dom Aloísio prostrado longas horas diante de Jesus no sacrário. Nele o permanente era o trabalho às vezes prolongado noite adentro, o atendimento às pessoas, sempre atencioso e amigo, a reflexão, a redação de textos e documentos, que novos rumos iam imprimindo às diversas Pastorais, novas luzes que iluminavam o céu da caminhada em rigorosa fidelidade ao Evangelho e à melhor tradição da Santa Igreja.

É aqui que se percebe um vislumbre da sua santidade. Basta confrontar reflexão, textos de sua autoria, atitudes, a coerência em toda a sua vida: sua vida toda ela uma oração! Dá para entender a alegria, a serenidade, a paz que ele transmite. Atado com arame farpado por algum tempo como refém e a seguir, preso com outros reféns em meio aos seqüestradores e a ameaças, em fuga perigosa e tresloucada, dentro de um carro-forte, nos entrechoques entre disparos da Polícia e seqüestradores, Dom Aloísio extenuado, por um instante sequer perdeu a sua paz; mesmo nesse estado, ele ainda transmitia paz aos companheiros e companheiras de martírio!

Resultado, tudo isto, de rigoroso método, de um ritmo de trabalho que pouca gente, mesmo entre os grandes, é capaz de acompanhar. Quem o viu jamais sentado a uma mesa participando de algum jogo de salão, tão recomendável a todos nós? É por isso que Dom Aloísio sempre nos ensina, porque Dom Aluísio constantemente aprende. Com Cristo Mestre, com São Francisco de Assis, seu guia e modelo de vivência.

Tão bem qualificado ao vir do sol, o Nordeste, o Ceará foram para ele uma grande escola. Foi aqui que ele viveu de verdade a Teologia da Libertação: no contato com as favelas; escutando as pessoas; hospedando em sua casa camponeses analfabetos e desdentados, almoçando com eles à sua mesa, vivenciando integralmente a evangélica opção preferencial, não excludente, pelos pobres; assumindo atitudes coerentes nos pátios de fábricas, entre trabalhadores em greve; no meio das favelas e das ocupações, diante da polícia em caso de despejos. Atitudes coerentes sim, sempre coerentes!

Alguns exemplos: “em setembro de 1983, ao ser convidado pela TV Globo e TV Verdes Mares para celebrar uma Eucaristia de abertura da Campanha de Ajuda aos Atingidos pela Seca, o Pastor e Profeta escreve uma belíssima página de compromisso com os empobrecidos”. Nega-se a ratificar a Campanha com a sua presença ‘As orientações pastorais da Igreja do Brasil, referendadas pela Santa Sé, não favorecem o tipo de Campanha que está sendo feita. A posição da Igreja é muito clara: o problema não é o fenômeno da seca, mas o de um sistema de vida todo impregnado de espírito materialista, que produz ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres. Infelizmente, as campanhas de ajuda aos Atingidos pelas Secas, organizadas em grande estilo, fazem perder de vista este problema fundamental, criando a ilusão de que passada a seca tudo voltará ao seu normal’. Após outras considerações conclui: ‘é por esta razão que a Igreja no Ceará através da Arquidiocese de Fortaleza não poderá colaborar nesta Campanha’. “Não se pode viver de costas para os problemas do povo” (Dom Aloísio às Religiosas – 1985).

No IV Encontro Regional do Clero ele verbaliza a sua experiência: “Assim deve ser nossa prática pastoral: encarnada na vida do povo, quenótica, esvaziada de si mesmo, entregue nas mãos de Deus e do povo simples, sem temer as tensões, aprendendo a conviver com os conflitos, crescendo na fé”.

Daí as ameaças de morte, a matança de cães de guarda da sua casa, o atentado à bomba (ou ameaça?) lançando contra a sua residência.

É este o Dom Aloísio que o Ceará guarda no coração como uma imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, uma presença viva de São Francisco de Assis: o Cardeal Arcebispo, o Mestre, o Amigo dos pobres, o Pastor e o Profeta. Por toda este imensa graça do céu que nos foi dada, bendito seja Deus!

Um grupo de colaboradores e amigos está publicando em Recife toda a obra escrita de Dom Helder Câmara, por muitos considerado o maior profeta da Igreja do século XX. A esse propósito assim se manifesta o conhecido teólogo e escritor Pe. José Comblin: “Eu sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina daqui a mil anos. Pois, ele lançou sementes destinadas a produzir uma messe abundante nesta nova época do cristianismo que esta começando agora. As suas sucessiva conversões sinalizam de certa maneira a futura trajetória da Igreja nesta nova época da História da Humildade”. Daí, a sugestão: não seria o caso de a Igreja do Ceará, quem sabe a Universidade, imitar esse bom exemplo e publicar toda a obra escrita do nosso Dom Aloísio?

A singela obra agora publicada, iniciativa do padre Geovane Saraiva, nosso bom amigo, já é um grande passo nessa direção, já é uma boa contribuição. Meus aplausos!

Antes da palavra final, assim nos fala a palavra de Deus: “Quem é sábio brilhará como a luz no firmamento; quem ensina à multidão os caminhos da justiça, fulgirá como as estrelas pelos séculos eternos” (Dn 12,3).

Fale também um poeta: “As pedras assacadas contra Deus ao contacto do céu tomam-se estrelas”.

Por fim, uma conclusão – uma intuição de outro santo, o nosso querido e humilde Dom Geraldo Nascimento, Bispo auxiliar de Fortaleza: “Se olharmos a vida e missão de Dom Aloísio como aprendizado ganharemos mais (ele escrevia em 1987, no Jubileu Episcopal do homenageado), do que ele com nossas homenagens e palavras”.

Dom Aloísio viveu e continua vivendo do integralmente o seu lema episcopal: “Na Cruz a Salvação e a Vida” (In Cruce Salus et Vita).

Bendito seja Deus admirável nos seus santos!

Voar com o cardeal Lorscheider

Pe. Geovane Saraiva

Livro sobre o Cardeal Lorscheider, “A Ternura de um Pastor”, com 228 páginas, da Editora Caligráfica Ltda, de minha autoria, será lançado no dia 17.05.2009, as 18h, por ocasião da inauguração da estátua de Dom Aloísio, na Praça da Igreja de Santo Afonso.

Dom Aloísio, um frade menor que se tornou grande, entre todos ele foi o maior, porque colocou a sua vida em favor da vida, da vida por inteiro, marcando decisivamente a nossa história. Bondade sem limites, que em Deus encontrou o sentido da vida e o amor nele se fez dom para os irmãos. Do povo cearense ele afirmou: “A bondade e a acolhida do povo foi grande, com muita compreensão e muito apoio. A alma profundamente religiosa dessa boa gente é uma preciosidade. Senti uma especial acolhida da imprensa local. Foi uma presença bem viva nestes 22 anos […] Aquilo que se diz do sertanejo, deve dizer-se também do povo todo”.

O nosso querido Prof. Miguel Brandão disse algo bonito sobre o nosso amado pastor, com grande sabedoria: “Palavras que se encarna, vida que se oferece, alimento que se faz comunhão e ressuscita – Agradecendo a Deus a presença santificadora e operante de Dom Aloísio, nesses 22 anos, em que conosco viveu, lutou, chorou e sorriu: anunciando e denunciando, indo à frente, no meio, na retaguarda, e celebrando”.

“Doado totalmente, seu dia-a-dia é uma sucessão ininterrupta de encargos relacionados com a missão, abraçados com coragem, coerência e na serena alegria de que fala o Eclesiástico: A alegria do coração é a vida do homem, a alegria do homem aumenta os seus dias” (Eclo 30, 22), foram as palavras sábias de Irmã Maria Montenegro, falecida ano passado.

O Senador Pedro Simon disse “Dom Aloísio foi uma grande reserva moral do país e um grande líder religioso. Representou o pensamento da Igreja principalmente nas horas mais difíceis, mais dramáticas, quando foi Secretário Geral e Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Na hora do arbítrio, ele teve coragem e foi um grande mestre da Igreja Católica”. Por aí iremos mergulhar na vida e na ação pastoral do grande pastor dos empobrecidos, a exemplo de Dom Helder Câmara e tantos outros seguidores de Jesus, o Bom Pastor.

O livro “A Ternura de um Pastor” é de nossa iniciativa. Penso que deste modo estamos contribuindo para a história do Ceará, do Nordeste e do Brasil. Dom Aloísio foi extraordinário em tudo e seus escritos não podem ficar só arquivados ou nas gavetas e muito menos cair no esquecimento. Vamos fazer um belo vôo, uma viagem com o Cardeal Aloísio Lorscheider, através dos seus escritos, da sua vida e da sua ação pastoral.

Dom Aloisio: quanta humildade!

Miguel Brandão

Em boa hora, Padre Geovane Saraiva, pároco da Parquelândia em Fortaleza (CE), teve essa feliz idéia de publicar alguns escritos de Dom Aloísio Lorscheider, dentre os inúmeros que escreveu durante os vinte e dois anos de ministério episcopal na Arquidiocese de Fortaleza.

Estes textos são reveladores de sua capacidade de estar ao mesmo tempo intimamente unido ao “Bom Deus”, como ele gostava de tratá-lo, e ao povo que pastoreava. Na meditação da Palavra de Deus, na Eucaristia, na oração do Ofício Divino se inebriava, se fortalecia, e na ação caritativa, prestimosa, solidária, constante e incansável, se entregava todos os dias para animar seus padres, para consolar os sofredores, para reanimar os fracos, para se solidarizar com os pobres e excluídos, de qualquer espécie, na luta em defesa da vida, da inclusão, da cidadania, contra os poderosos opressores e exploradores do povo.

Estive pertinho de Dom Aloísio nos seus últimos anos de arcebispo de Fortaleza, já com a saúde debilitada, coração fraquejado. Posso testemunhar algumas coisas eclesialmente bonitas, humanamente edificantes:

1.A colegialidade dos bispos era uma preocupação permanente em seu ministério episcopal. Quer com os bispos auxiliares, no âmbito da Arquidiocese de Fortaleza, com os quais trabalhava em comunhão permanente, quer com os bispos das outras dioceses, no âmbito do Regional Nordeste 1, do qual era Presidente, Dom Aloísio não tomava decisões isoladamente, nem agia solitariamente. Isso se traduzia na multiplicidade de reuniões, encontros, assembléias, sempre com o seu caderno na mão, atento a todos, anotando tudo. Ele costumava dizer que a ascese, hoje, é ficar sentado, participando de reuniões para agir em comunhão.

2.Dom Aloísio zelava pela formação permanente dos presbíteros e pela participação deles e dos leigos nas decisões pastorais da arquidiocese. Inteligente e sábio, vislumbrava as necessidades pastorais, sabia de antemão o que fazer, que caminho tomar. Mas esperava… esperava pacientemente que os assuntos fossem sendo discutidos por padres e leigos, fossem amadurecendo aos poucos, até um consenso, até uma votação consciente e de ampla maioria nas assembléias arquidiocesanas. Assim foi com a criação das Regiões Episcopais, cujo processo durou praticamente três anos (1984-1986); assim com a partilha dos 10% das paróquias para a redistribuição, conforme as necessidades da Arquidiocese; assim, com o Projeto do Batismo, cujo texto mártir, durante dois anos, sofreu muitos estudos, emendas com supressões e alterações, desde as bases, em comissões nas paróquias, nas regiões episcopais, até ser submetido o texto final aos participantes da Assembléia Arquidiocesana de 1992, quando foi aprovado quase por unanimidade, mais de 95% de votos favoráveis; assim com o Projeto do Dízimo, cujo texto base foi feito e trabalhado em comissões e reuniões do Conselho Pastoral, durante o final do seu episcopado entre nós e foi retomado, aprovado e promulgado por Dom José Antonio Tosi, atual arcebispo de Fortaleza.

3.Dom Aloísio sempre estava perto do povo, de todo o povo, sobretudo do povo sofrido e maltratado. Aceitava os convites, não apenas para celebrar, mas também para visitar, para estar junto, para escutar os desabafos, para ver o sofrimento, para levar coragem e solidariedade, nas cadeias e presídios, nos hospitais, nas ocupações urbanas e assentamentos rurais, nas favelas e áreas de risco. Por isso, mudou junto com seus bispos auxiliares, escutando as Regiões Episcopais, o modelo de Visita Pastoral. Implantou a Visita Pastoral Missionária em que ele, os bispos auxiliares, o coordenador de pastoral, o vigário episcopal, os padres da Região, religiosas e missionários leigos voluntários, visitavam o povo de Deus. Era uma Visita pastoral missionária colegiada, ou comunional. E ele ia andando pelas ruas e vielas, pelas estradas e caminhos, nas ladeiras e no plano, de carro ou a pé, visitando as famílias, as comunidades eclesiais de base, os hospitais, os presídios, as escolas dos centros urbanos ou das periferias, das vilas ou povoados, do Sertão, da Serra e da Praia. Foi numa Visita Pastoral à Região Episcopal Metropolitana 1 que ele, seus bispos auxiliares, o vigário episcopal, alguns agentes pastorais e acompanhantes da Visita foram seqüestrados no Instituto Penal Paulo Sarasate. Mas foi um caso isolado, todos os presídios eram visitados nas visitas pastorais. Eu o vi conversando nas celas e nos corredores, com os presidiários do Instituto Penal Olavo Oliveira, no Itapery. Grandes encontros aconteciam nesta Visitas com o objetivo de ele e os missionários visitantes escutarem o que o povo da Região Episcopal, católico ou não, tinha a dizer: encontros com professores e educadores, com jovens, com trabalhadores rurais e assentados, com índios, com famílias, com catequistas… Duas de suas últimas cartas pastorais foram feitas no final de Visitas Pastorais. E as redigia com seus bispos auxiliares. Lembro-me que no dia do encerramento de uma Visita Pastoral à Região Serra, ele me entregou, manuscrita por ele, a Carta Pastoral sobre a Missão, para que desse minha opinião, tirasse ou acrescentasse alguma coisa. Quanta humildade! Um sábio e santo que pede o parecer de um simples pecador.

4.Tinha um carinho especial com os leigos e leigas, apoiando e ajudando a organização do Conselho de Leigos, os movimentos e pastorais que iam surgindo, as comunidades religiosas inseridas. Praticamente não faltava, participando integralmente, aos encontros do Cursilho de Cristandade, às Assembléias das CEBs, do Conselho de Leigos, da Pastoral Operária e de outras pastorais e movimentos. Tinha um carinho todo especial com os excluídos, sofredores de qualquer tipo de exclusão. Participou de vários encontros dos padres casados de Fortaleza e abriu uma sala da Prainha para sede do Movimento dos Padres Casados e o Seminário de Teologia, no bairro Dias Macedo, para realização do Congresso dos Padres Casados do Nordeste, do qual participou. Incentivou e animou a criação do Centro de Defesa dos Direitos Humanos, da Pastoral Indigenista, da Pastoral do Menor, da Pastoral do Solo Urbano. Sobre o Solo Urbano fez uma carta pastoral que está transcrita neste livro.

5.Lembro-me do prazer e carinho que tinha em escutar as pessoas. Presenciei isso numa das visitas que fez ao Artesanato Vocacional Escola – AVE, obra filantrópica, caridade social, de minha querida esposa Maria de Lourdes, em Messejana. Ficou até tarde da noite escutando as lamentações e dores, econômicas e morais, de homens e mulheres de favelas e ocupações vizinhas. Era para mim um prazer ouvir suas intervenções, suas homilias, seus pronunciamentos. Só sua presença já me fazia bem. Bebia a sabedoria de suas palavras e aprendi muita coisa com ele. Que, por exemplo, a opção preferencial e evangélica pelos pobres não significa que vamos evangelizá-los, mas que eles é que nos evangelizam, que nos apresentam e nos revelam a face de Cristo, que nos anunciam o Reino de Deus. Minha inteligência se satisfazia, minha fé se alimentava e enchia-me de entusiasmo (entusiasmo, etimologicamente, é ficar cheio de Deus). Os minutos passavam e eu não cansava.

Dom Aloísio foi-me um pai, um pai querido, que me escolheu, que me chamou, que me jogou de novo na lida…

O padre Geovane Saraiva, querido amigo, está de parabéns por esta iniciativa. Enquanto Dom Aloísio se preparava para viajar e fazia as malas para Aparecida, recolhi em sua casa para o Secretariado de Pastoral e para a Sala de História da Arquidiocese vários de seus escritos que não pretendia levar consigo, prometendo-me a mim mesmo que iria publicá-los. Não o fiz. Pelo menos ainda não. Espero um dia fazê-lo ou ajudar a Arquidiocese a tal. Os escritos de Dom Aloísio são preciosos demais para ficarem apenas arquivados numa sala de História. Muito menos podem cair no esquecimento. Que o exemplo do padre Geovane seja seguido.

Dom Aloisio Lorscheider: a testemunha fiel

Dom Manoel Edmilson da Cruz

Falar em breves palavras sobre a riqueza da personalidade de Dom Aloísio é tarefa muito difícil, deter-me-ei, porém, sobre a importância dele para a Igreja como Ministro do Senhor. Sendo assim, será preciso apenas mencionar seus principais títulos acadêmicos, diplomas, honrarias, condecorações, pluricidadania; sua invejável condição de poliglota (fala fluentemente alemão, português, latim, italiano, espanhol, Francês, inglês, entende o flamengo, conhece muito bem o grego e o hebraico e suponho que também o aramaico); os diversos ministérios e os serviços extraordinários prestados com a competência de verdadeiro teólogo na vivência exemplar dos votos religiosos, na cátedra magisterial de Universidade em Roma; no convento, como franciscano, em Províncias Religiosas da sua Ordem no Brasil e em Portugal; ou do Mestre na fé como Bispo diocesano em Santo Ângelo, RS, e Arcebispo Metropolitano e Cardeal Arcebispo em Fortaleza e no Ceará; Presidente da Comissão Episcopal de Doutrina (CED), Coordenador do Secretariado de Teologia e Ecumenismo da CNBB, para todo o Brasil; Secretário Geral, depois Presidente dessa mesma Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; Vice-Presidente e depois Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) e da Cáritas Internacional, com atuação também nas Américas e no Mundo; Co-Presidente do CELAM por ocasião de Assembléia Geral, ou melhor, de Conferência Geral; altíssimos encargos, missões e ministérios na Igreja (apontado, inclusive, para o Sumo Pontificado); sua destacada participação no Concílio Vaticano II e em todos os subseqüentes Sínodos dos Bispos, ordinários e extraordinários, e nas Conferências Gerais de Medellín, Puebla e Santo Domingo.

Tudo isso resume um pouco a sua vida e de relance demonstra-lhe a grandeza. Por muitos outros ângulos, porém, poder-se-á apreciar a beleza e o esplendor de sua imagem caleidoscópica. Algumas perguntas, despretensiosas e singelas, ajudar-nos-ão neste sentido.

Estas, por exemplo: Quem por acaso viu alguma vez Dom Aloísio irritado? Quem não recebeu dele um incentivo para o bom desempenho de um cargo, de uma missão? Quem foi por ele constrangido a assumir algum trabalho? Quando foi que se viu Dom Aloísio fazer alusão a merecimento próprio, seu, pessoal, ou citar seus grandes feitos e iniciativas?

Por outro lado, não há como esquecer comportamentos dele que não se possa deixar de admirar em profundidade. Assim, na sua primeira diocese de Santo Ângelo, ao percorrer a pé três suarentas léguas para atender a enfermo em estado grave. No sertão do Ceará, sob raios de sol esbraseante, a confessar uma pobre penitente, ambos sentados numa tora de madeira ao abrigo de um simples guarda-sol. Era ele todos os anos invariavelmente o primeiro a sentar-se no confessionário ainda pela madrugada para ouvir em confissão os romeiros em Canindé durante a festa de São Francisco. Isto, sempre, até quando com a saúde já abalada, até no dia seguinte a sua volta de São Paulo após a sua primeira cirurgia do coração.

Seus grandes feitos de construtor: a conclusão da bela Catedral de Fortaleza a construção e a ampliação de seminários, as escolas comunitárias da periferia da capital, as 382 casas populares (180 só na praia das goiabeiras).

Suas grandes iniciativas: a fundação do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos (CDPDH); a criação do Mensageiro da Fraternidade ambos dotados da infra-estrutura necessária e em pleno funcionamento; a descentralização da Arquidiocese com a criação das Regiões Episcopais metropolitanas e interioranas de Pastoral, a criação de novas e numerosas Pastorais correspondentes aos desafios pastorais dos nossos tempos, às quais soube sempre imprimir uma linha de pastoral em plena sintonia com o Concílio Vaticano II; o seu cuidado incansável com a formação dos Sacerdotes, Religiosos e Leigos (ITEP e ICRE); a partilha e a entrega de propriedades rurais da Igreja aos seus moradores.

Sua atuação constante junto aos Meios de Comunicação Social: visitas às Emissoras de TV e Jornais, encontros com jornalistas e telecomunicadores; entrevistas, coletivas de imprensa, conferências etc.

Sua presença junto aos presos políticos que ele visitava e confortava.

Seu diálogo respeitoso e freqüente com as Autoridades, especialmente como mediador em casos de conflitos.

Por aí se percebe a figura do Bispo “feito de coração modelo para o rebanho (forma factus gregis ex animo)”, segundo a inspirada palavra da Sagrada Escritura (1 Pd 5, 4).

Não era freqüente ver-se Dom Aloísio prostrado longas horas diante de Jesus no sacrário. Nele o permanente era o trabalho às vezes prolongado noite adentro, o atendimento às pessoas, sempre atencioso e amigo, a reflexão, a redação de textos e documentos, que novos rumos iam imprimindo às diversas Pastorais, novas luzes que iluminavam o céu da caminhada em rigorosa fidelidade ao Evangelho e à melhor tradição da Santa Igreja.

É aqui que se percebe um vislumbre da sua santidade. Basta confrontar reflexão, textos de sua autoria, atitudes, a coerência em toda a sua vida: sua vida toda ela uma oração! Dá para entender a alegria, a serenidade, a paz que ele transmite. Atado com arame farpado por algum tempo como refém e a seguir, preso com outros reféns em meio aos seqüestradores e a ameaças, em fuga perigosa e tresloucada, dentro de um carro-forte, nos entrechoques entre disparos da Polícia e seqüestradores, Dom Aloísio extenuado, por um instante sequer perdeu a sua paz; mesmo nesse estado, ele ainda transmitia paz aos companheiros e companheiras de martírio!

Resultado, tudo isto, de rigoroso método, de um ritmo de trabalho que pouca gente, mesmo entre os grandes, é capaz de acompanhar. Quem o viu jamais sentado a uma mesa participando de algum jogo de salão, tão recomendável a todos nós? É por isso que Dom Aloísio sempre nos ensina, porque Dom Aloísio constantemente aprende. Com Cristo Mestre, com São Francisco de Assis, seu guia e modelo de vivência.

Tão bem qualificado ao vir do sol, o Nordeste, o Ceará foram para ele uma grande escola. Foi aqui que ele viveu de verdade a Teologia da Libertação: no contato com as favelas; escutando as pessoas; hospedando em sua casa camponeses analfabetos e desdentados, almoçando com eles à sua mesa, vivenciando integralmente a evangélica opção preferencial, não excludente, pelos pobres; assumindo atitudes coerentes nos pátios de fábricas, entre trabalhadores em greve; no meio das favelas e das ocupações, diante da polícia em caso de despejos. Atitudes coerentes sim, sempre coerentes!

Alguns exemplos: “em setembro de 1983, ao ser convidado pela TV Globo e TV Verdes Mares para celebrar uma Eucaristia de abertura da Campanha de Ajuda aos Atingidos pela Seca, o Pastor e Profeta escreve uma belíssima página de compromisso com os empobrecidos. Nega-se a ratificar a Campanha com a sua presença ‘As orientações pastorais da Igreja do Brasil, referendadas pela Santa Sé, não favorecem o tipo de Campanha que está sendo feita. A posição da Igreja é muito clara: o problema não é o fenômeno da seca, mas o de um sistema de vida todo impregnado de espírito materialista, que produz ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres. Infelizmente, as campanhas de ajuda aos Antingidos pelas Secas, organizadas em grandes estilo, fazem perder de vista este problema fundamental, criando a ilusão de que passada a seca tudo voltará ao seu normal’. Após outras considerações conclui: ‘é por esta razão que a Igreja no Ceará através da Arquidiocese de Fortaleza não poderá colaborar nesta Campanha’. “Não se pode viver de costas para os problemas do povo” (Dom Aloísio às Religiosas – 1985).

No IV Encontro Regional do Clero ele verbaliza a sua experiência: “Assim deve ser nossa prática pastoral: encarnada na vida do povo, quenótica, esvaziada de si mesmo, entregue nas mãos de Deus e do povo simples, sem temer as tensões, aprendendo a conviver com os conflitos, crescendo na fé”.

Daí as ameaças de morte, a matança de cães de guarda da sua casa, o atentado à bomba (ou ameaça?) lançando contra a sua residência.

É este o Dom Aloísio que o Ceará guarda no coração como uma imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, uma presença viva de São Francisco de Assis: o Cardeal Arcebispo, o Mestre, o Amigo dos pobres, o Pastor e o Profeta. Por toda este imensa graça do céu que nos foi dada, bendito seja Deus!

Um grupo de colaboradores e amigos está publicando em Recife toda a obra escrita de Dom Helder Câmara, por muitos considerado o maior profeta da Igreja do século XX. A esse propósito assim se manifesta o conhecido teólogo e escritor Pe. José Comblin: “Eu sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina daqui a mil anos. Pois, ele lançou sementes destinadas a produzir uma messe abundante nesta nova época do cristianismo que esta começando agora. As suas sucessiva conversões sinalizam de certa maneira a futura trajetória da Igreja nesta nova época da História da Humildade”. Daí, a sugestão: não seria o caso de a Igreja do Ceará, quem sabe a Universidade, imitar esse bom exemplo e publicar toda a obra escrita do nosso Dom Aloísio?

A singela obra agora publicada, iniciativa do padre Geovane Saraiva, nosso bom amigo, já é um grande passo nessa direção, já é uma boa contribuição. Meus aplausos!

Antes da palavra final, assim nos fala a palavra de Deus: “Quem é sábio brilhará como a luz no firmamento; quem ensina à multidão os caminhos da justiça, fulgirá como as estrelas pelos séculos eternos” (Dn 12,3).

Fale também um poeta: “As pedras assacadas contra Deus ao contacto do céu tomam-se estrelas”.

Por fim, uma conclusão – uma intuição de outro santo, o nosso querido e humilde Dom Geraldo Nascimento, Bispo auxiliar de Fortaleza: “Se olharmos a vida e missão de Dom Aloísio como aprendizado ganharemos mais (ele escrevia em 1987, no Jubileu Episcopal do homenageado), do que ele com nossas homenagens e palavras”.

Dom Aloísio viveu e continua vivendo do integralmente o seu lema episcopal: “Na Cruz a Salvação e a Vida” (In Cruce Salus et Vita).

Bendito seja Deus admirável nos seus santos!

A ternura de um pastor

O livro “A ternura de um Pastor”, do Pe Geovane Saraiva, prestes a ser lançado, propõe-se a relembrar (e homenagear) D. Aloisio Lorscheider. Sua vida toda de doação é uma dádiva, é dom de Deus! Ele foi um exemplo que devemos seguir. Sua vida toda, colocada, com muita disposição interior, ternura e coerência, a serviço do Reino, construindo a esperança, colocando remédio em todo tipo de ferida, numa palavra: animando as pessoas marcadas pelo sofrimento, animando os desanimados.

Em Dom Aloísio, com o nosso humilde trabalho, iremos reviver a sua vida e a sua paixão por Jesus Cristo e seu Reino e, colocar diante dos nossos olhos, na nossa mente e no nosso coração, com a sua vida e o seu exemplo, a figura Jesus, o Bom Pastor, que deu a vida por suas ovelhas.

Eis o que ele disse ao ser transferido do Sul do Brasil para o Nordeste: “[…] Eu levava a fé ao povo como se leva uma receita já pronta, sem refletir mais detidamente sobre o seu significado. […] Eu era mais professor e dirigente de culto do que realmente evangelizador dentro da realidade do povo. No nordeste (Ceará – Fortaleza), em contato com outro tipo de Comunidade Eclesial de Base, nascida da necessidade de buscar solução cristã para os problemas concretos da vida, o meu ministério episcopal, na sua tríplice função de ensinar, santificar e governar, foi adquirindo outra feição”.

Vejamos o que os nossos pastores e outras pessoas disseram a seu respeito:

Dom José Antonio disse: “Dom Aloísio realizou até o fim o que a inspiração divina lhe tinha proposto como luz para a sua vida: Na cruz a salvação e a vida. Identificado com o Senhor em sua cruz, foi instrumento de salvação e vida”.

A Palavra de Dom Geraldo Lírio da Rocha sobre Dom Aloísio: “A gratidão toma conta de nossos corações ao celebramos nesta noite de 08.04.2008 a homenagem da Conferência dos Bispos do Brasil. Homem do equilíbrio, que se manifestava na vida diária através da inteligência e da humildade […] Entre a ação e oração, entre a doutrina e a caridade, entre o poder e o serviço, entre um olhar exigente e um coração bondoso”.

Dom Sinésio Bohn no seu artigo: “Seu amor a verdade, o apego ao Evangelho como critério de vida e de pastoreio, sua capacidade de dialogar e o amor aos pobres. Permaneceu humilde, serviçal, irmão entre irmãos. Morreu com o habitual sorriso nos lábios. Um homem bom, íntegro, discípulo de Cristo. Um exemplo a seguir”.

O Senador Pedro Simon falou de Dom Aloísio assim: “[…] sua voz, naturalmente doce, alternava-se apenas quando era preciso confrontar os vendilhões da justiça […] […] quando todos os jardins da democracia corriam o risco de ser alvo de bombas atiradas pelos olhares fixos da repressão. Foi exatamente nesse momento da história, que a voz de Dom Aloísio se alternou. Ecoou pelos corredores das prisões […]”.

Quando ele se tornou bispo emérito de Aparecida, veio a pergunta: O que o senhor vai fazer? Respondeu: “Sou um simples frade menor e vou fazer o que o meu provincial mandar, porque a obediência me torna livre”.

“Ele foi o Cardeal que mais ajudou os movimentos populares no Ceará. Ele foi sempre acolhedor, na sua tranqüilidade e amabilidade, recebendo os movimentos populares e procurando intermediar, da melhor maneira possível […] (Dep. Chico Lopes).

É uma pequena contribuição para a história do Ceará, do nordeste, do Brasil e do mundo inteiro, porque nosso saudoso amado Pastor era, a exemplo do fundador da sua ordem, o pobrezinho de Assis, cidadão universal, cidadão do planeta.

É por aí que vamos voar. Aguardem!

A visão profética de um Pastor

Pe Geovane Saraiva

A CNBB é devedora a Dom Aloísio pelo muito que fez […] com sua voz mansa, seu jeito bondoso foi um grande profeta, suas palavras repercutiram em todo o país.
Dom Geraldo Lírio da Rocha

Dom Aloísio Lorscheider que escolheu como lema episcopal “In cruce salus et vitae” – Na cruz a salvação e a vida, recebeu de Deus um coração manso e humilde como o de Jesus e o Senhor nele também fez maravilhas.

Sua voz suave, sua palavra segura, porém pacífica, dirigida ao pobre ou ao rico e poderoso sempre produziu bons frutos, ao referir-se a esse dom com que o grande pastor foi agraciado, Frei Jorge Hartmann diz: “Esse grande profeta de Deus defendeu a vida, amou e defendeu os pobres, injustiçados e perseguidos. Homem do diálogo, da abertura e do ecumenismo”…

Homem de visão profética, realmente, fundou no Ceará três seminários: Propedêutico, de Filosofia e de Teologia, para melhor qualificar aqueles desejavam a vida sacerdotal; instalou – no antigo prédio onde funcionava o Seminário da Prainha – o ITEP – Instituto Teológico Pastoral do Ceará, voltado especialmente para a formação de leigos, engajados na Igreja, sem esquecer, porém, a formação para o magistério religioso que se passou a ser feito no ICRE – Instituto de Ciências Religiosas. Para formar catequistas, missão até então confiada a católicos de boa vontade criou a Escola Pastoral Catequética – ESPAC.

Tal era a dedicação do Pastor que a despeito de suas múltiplas atividades ainda exerceu o magistério no ITEP até 1992.

Pelo muito que fez pela cultura e o povo cearense recebeu os títulos de:

– Cidadão de Fortaleza – concedido pela Câmara Municipal.
– Cidadão do Ceará – concedido pela Assembléia Estadual.
– Doctor honoris causa, concedido pela Universidade Federal do Ceará.
– Doctor honoris causa – concedido pela Universidade Estadual do Ceará.
– Recebeu a Sereia de Ouro pelo Sistema Verdes Mares de Comunicação.
– Recebeu do Governo do Ceará a Medalha de Abolição.

Foi um precursor em nosso Estado na defesa dos oprimidos, fundou o Centro de Defesa dos Direitos Humanos instalado em 05 de Maio de 1982 e fundou as pastorais Operárias e indígenas, criando ainda o Ninho cearense para abrigar as mulheres vítimas da prostituição.

O seu pensamento foi publicado pela Editora Vozes em 2005 sob o título “Espiritualidade do Padre Diocesano” e no ano seguinte em obra editada pelas Paulinas sob o tema; “A Teologia a Serviço da Pregação e da Vida”. Escreveu também o Ministério da Igreja no Concílio Vaticano II e sobre as idéias fundamentais do mesmo.

Como Cardeal participou nos dois conclaves que elegeram os sucessores do Papa Paulo VI, nos quais foram escolhidos suas santidades João Paulo I – o Papa do sorriso – falecido um mês após sua posse e em seguida o Papa João Paulo II.

Por sua presença tão forte na Igreja em muitas ocasiões a imprensa aventava a hipótese de que Dom Aloísio Lorscheider seria o primeiro Papa latino-americano. Outra, porém, era a vontade de Deus e assim, em 13 de Agosto de 1995 foi o nosso querido Pastor assumir a Arquidiocese de Aparecida do Norte.

A ternura de um pastor

Pe. Geovane Saraiva

Dom Aloísio teve como berço a cidade de Estrela – RS, nascido no dia 08.10.1924. Ordenado padre em 22 de agosto de 1948 – Divinópolis – MG. Nomeado bispo de Santo Ângelo no dia 03.02 de 1962, ano em que teve início o Concílio Vaticano II, escolhendo como seu lema episcopal: “In cruce salus et vita” – na cruz a salvação e a vida, que ao iniciar seu ministério episcopal com muito amor, sabedoria e determinação, colocou em prática seu projeto e sonho de jovem bispo, com 37 anos de idade, na sua Diocese e nas sessões do mesmo Concílio, de 1962 a 1965 e depois, a serviço da Igreja no Brasil, na América Latina e no mundo inteiro.

Este grande homem de Deus foi nomeado Arcebispo de Fortaleza no dia 04.04.1973, assumindo a Arquidiocese no dia 05 de agosto do mesmo ano. Em 24.04.1976 foi nomeado Cardeal da Santa Igreja pelo Papa Paulo VI. Em Fortaleza, procurou fazer a vontade de Deus, com ternura e coragem profética de pastor, por 22 anos, até ser transferido e tomar posse na Arquidiocese de Aparecida, no dia 18.08.1995. Permanecendo lá até o dia 25 de março de 2004, quando entregou o cargo a Dom Raymundo Damasceno Assis, tornando-se, deste modo, Arcebispo Emérito de Aparecida.

Chegou e assumiu a Igreja de Fortaleza como um servidor, como um irmão desprendido, a exemplo do Bom Pastor, que dá a sua vida por suas ovelhas (cf. 10, 11). Chegou num Ceará marcado pela miséria, numa população faminta, que nos faz lembrar o que nos diz Manuel Bandeira, na sua bela poesia: “Vi ontem um bicho, Na imundície do pátio, Catando comida entre os detritos, Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era gato, Não era um rato. O Bicho, meu Deus, era um homem”.

Dom Aloísio foi verdadeiramente um místico, porque viveu intimamente unido a Deus, mas ao mesmo tempo, com os olhos voltados para realidade, convertendo-se a grande utopia do Reino, ao sonho do nosso único e verdadeiro Deus. De modo que ao chegar a Fortaleza, disse numa linguagem corajosa e profética: “A Arquidiocese não é feudo do bispo” e disse mais, numa visão de Igreja povo de Deus: “Os leigos são a esperança da Igreja”. Marcou em profundidade os destinos da nossa gente e da nossa história, reavivando e colocando na mente e no coração do povo cearense, que o nosso Deus é o Deus da vida, que deseja um mundo não só para alguns, mas um mundo diferente, em que todos os filhos do mesmo Pai que está no céu possam viver com dignidade.

Hoje, mais do que nunca, a palavra chave é: esperança! Neste sentido, Enoisa Veras comentou no site www.paroquiasantoafonso.org.br, a carta circular de Dom Pedro Casaldáliga, do dia 20.02.2009: “Estou, há alguns meses, sentido os mesmos sentimentos do Cardeal Martini… deixando de acreditar que seja possível a Igreja tornar-se corajosa e firme na luta contra tudo que signifique exclusão […]. São tantos os recuos! Recuos que influenciam e norteiam as ações de alguns conformados bispos e sacerdotes brasileiros. Que bom ler, nesse momento de desânimo, Dom Pedro Casaldáliga!” Obrigado, Dom Pedro, pela esperança. Ela me faz um bem danado! Que Deus o abençoe!”(cf. circular de Dom Pedro Casaldáliga).

Já no Cardeal Lorscheider, ao combater o bom combate, terminar a sua corrida e guardar a fé (cf. 2Tm 4, 7), estava, de verdade, a vida e a esperança, porque ele era visto, reconhecido e ouvido como o bom pastor, o bispo amigo e o teólogo claro e conciso, grande devoto de Nossa Senhora da Assunção e São José, padroeiros de Fortaleza e do Ceará, respectivamente, que ao falar, penetrava lá na mente e no coração do todos que o escutavam, com sua grande sensibilidade à miséria humana, principalmente a dos empobrecidos e marginalizados.

Ele nos ensina que devemos descobrir o sentido mais profundo do chamado que Deus faz a cada batizado, ao ponto de muitos cristãos, a seu exemplo, responder como uma aventura profética. É por isso que a vida dos cristãos só pode encontrar a sua realização numa vida interior e oração profunda. “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba. Como dizem as Escrituras Sagradas: Rios de água viva vão jorrar do coração de quem crer em mim” (Jo 7,37-38).

Recordamos saudosos, Dom Aloísio, na sua ternura e mística de pastor, através dos seus gestos e atitudes. Doçura em pessoa, com sua voz suave, alegria constante e sorrisos nos lábios, mas com suas posições firmes e determinadas, dedicado a justiça social e ao mesmo tempo pregando o diálogo com grande sabedoria e moderação. Simplicidade, amabilidade e bondade sem limites marcaram a vida deste grande pastor e profeta dos nossos tempos. Ao mesmo tempo em que foi uma pessoa fascinada por Deus e por suas criaturas, carregando no seu coração as alegria e esperanças, tristezas, angústias e sofrimentos da sua gente cearense (cf. GS, 200), perante um nordeste e um Brasil socialmente injusto e carente de liberdade de expressão.

Travou deste modo, uma luta firme e segura, sem nunca se cansar, pela redemocratização, pela liberdade e pelo fim das torturas, na nossa querida pátria, não se curvando diante do regime militar, que mais parecia um monstro intocável. Dom Aloísio, ao partir para o seio do Pai, no dia 23.12.2007, deixou-nos um legado de boas ações, pelo seu testemunho e pelo seu modo de viver. Alegra-nos ouvir que os milagres e as graças deste homem justo e santo começam a aparecer. Uma pessoa me confidenciou que, diante de uma enorme dificuldade, foi ao encontro do querido Dom Aloísio, pedindo socorro no que foi atendida.

Penso que a frase do Apóstolo Paulo sintetiza a vida do nosso estimado pastor e grande bispo, que a exemplo de Charles de Foucauld e Francisco de Assis, gritou o Evangelho com a própria vida: “Pois para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1, 21). Deus seja louvado por este querido irmão, patrimônio do povo cearense e brasileiro.