pastoral

Inscreva-se no curso de Teologia para Leigos do Setor Belém

O Setor Belém convida para o curso Teologia para Leigos que se inicia no dia 10 de fevereiro de 2014.

Os principais objetivos são:

* Responder aos constantes apelos da Igreja de São Paulo e à permanente necessidade de formação dos agentes evangelizadores, como pede o Documento de Aparecida.
* Incentivar e qualificar leigos e leigas como educadores da fé.
* Desenvolver um conhecimento interdisciplinar sobre assuntos da fé Cristã Católica.

O curso está organizado em aulas semanais, que acontecem toda segunda-feira das 19h30 às 21h30, no Centro Pastoral São José, e tem duração de 3 anos. A carga horária é de 192 h/aula. O valor mensal é de R$ 25,00. Alunos com frequência nas aulas igual ou maior que 75% recebem certificado de participação no final do curso.

Organização esquemática das disciplinas

Introdução à Teologia e introdução à Bíblia (disciplinas básicas para cursar as demais seções)

1) Seção Bíblia
1a. Introdução à Biblia
1b. Antigo Testamento e Novo Testamento (leitura orante da Bíblia)

2) Seção Teologia
2a. Introdução à Teologia
2b. Eclesiologia
2c. Liturgia
2d. Sacramentos
2e. Cristologia
2f. Pneumatologia
2g. Mariologia
2h. Trindade
2i. Escatologia

3) Seção Pastoral
3a. Missiologia
3b. Pastoral Urbana

4) Seção História da Igreja
4a. História da Igreja

Pegue sua ficha de inscrição nas secretarias das paróquias.

Para mais informações, entrar em contato por telefone: 11 2693-0287 ou por e-mail: [email protected].

Setor Belém
Região Episcopal Belém
Arquidiocese de São Paulo

Carta do Papa Francisco aos bispos da Argentina

Queridos irmãos,

Recebam estas linhas de saudações e também de desculpas por não poder participar, devido a “compromissos assumidos recentemente” (ficou bem?). Estou espiritualmente junto com vocês e peço ao Senhor que os acompanhe muito nestes dias.

Manifesto a vocês um desejo: eu gostaria que os trabalhos da assembleia tivessem como marco referencial o Documento de Aparecida e o “Rema mar adentro”. Lá estão as orientações de que nós precisamos neste momento da história. Acima de tudo, peço que vocês tenham uma especial preocupação com o crescimento da missão continental em seus dois aspectos: a missão programática e a missão paradigmática. Que toda a pastoral tenha uma perspectiva missionária.

Uma Igreja que não sai de si mesma adoece, cedo ou tarde, em meio à atmosfera pesada do seu próprio fechamento. É verdade, também, que uma Igreja que sai às ruas pode sofrer o que qualquer pessoa na rua pode sofrer: um acidente. Diante desta alternativa, quero lhes dizer francamente que prefiro mil vezes uma Igreja acidentada a uma Igreja doente. A doença típica da Igreja fechada é ser autorreferencial; olhar para si mesma, ficar encurvada sobre si mesma, como aquela mulher do Evangelho. É uma espécie de narcisismo que nos leva à mundanidade espiritual e ao clericalismo sofisticado, e, depois, nos impede de experimentar “a doce e reconfortante alegria de evangelizar”.

Desejo a todos vocês esta alegria, que tantas vezes vem unida à Cruz, mas que nos salva do ressentimento e da tristeza. Esta alegria nos ajuda a ser cada dia mais fecundos, desgastando-nos e puindo-nos no serviço ao santo povo fiel de Deus; esta alegria crescerá mais e mais à medida que levarmos a sério a conversão pastoral que a Igreja nos pede.

Obrigado por tudo o que vocês fazem e por tudo o que vão fazer. Que o Senhor nos livre de maquiar o nosso episcopado com as belas aparências da mundanidade, do dinheiro e do “clericalismo de mercado”. Nossa Senhora nos ensinará o caminho da humildade e daquele trabalho silencioso e valente que o zelo apostólico faz prosperar.

Peço, por favor, que vocês rezem por mim, para que eu não me sinta acima de ninguém e saiba escutar o que Deus quer e não o que eu quero. Rezo por vocês.

Um abraço de irmão e uma especial saudação ao povo fiel de Deus que está sob os seus cuidados. Desejo a todos vocês um santo e feliz tempo pascal.

Que Jesus os abençoe e Nossa Senhora cuide de vocês.

Concílio Vaticano II e Gaudium et Spes, A Carta Magna da Pastoral Social

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Introdução

Nas comemorações do 50º aniversário do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), mais do que nunca vale estudar a fundo a Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje – Gaudium et Spes (GS), promulgada solenemente pelo para Paulo VI em dezembro de 1965, no encerramento do concílio. A Constituição Pastoral, portanto, terá seu cinquentenário celebrado em 2015. Nestes quase 50 anos, muito já se escreveu e se falou sobre este documento. A ideia de um documento de caráter pastoral, em princípio, não estava no programa do referido evento. Deve-se sua elaboração e aprovação a uma interpelação do Cardeal Suenens, lançada num discurso da I Sessão do Concílio Ecumênico Vaticano II, em dezembro de 1962, bem como ao empenho pessoal do então Cardeal Montini, eleito papa como o nome de Paulo VI no decorrer das sessões conciliares, com a morte de João XXIII.

Na trajetória histórica do cristianismo, poucos eventos e poucos documentos mexeram tanto com a Igreja como, respectivamente, o Concílio Vaticano II e a Gaudium et Spes. Na mensagem do Natal que se seguiu à sua aprovação, Paulo VI assim se referiu a ela: “O encontro da Igreja com o mundo atual foi descrito em páginas admiráveis na última Constituição do Concílio. Toda pessoa inteligente, toda alma honrada deve conhecer essas páginas. Elas levam, sim, de novo a Igreja ao meio da vida contemporânea, mas não para dominar a sociedade, nem para dificultar o autônomo e honesto desenvolvimento de sua atividade, mas para ilumina-la, sustenta-la e consola-la. Essas páginas, assim o pensamos, assinalam o ponto de encontro entre Cristo e o homem moderno e constituem a mensagem de Natal deste ano de graça ao mundo contemporâneo”.

Uma releitura atenta da Gaudium et Spes, no contexto da sociedade atual, pode significar uma grata surpresa, em três dimensões: primeiro, embora publicada há quase 50 anos, ela continua trazendo elementos preciosos para entender as transformações por que passa a sociedade moderna; depois, devido justamente a esse diagnóstico válido ainda para muitos problemas que estamos atravessando, ela fornece pistas para uma ação eficaz, seja do ponto de vista pastoral, seja do ponto de vista social e político; por fim, em conjunto com os demais documentos do Concílio Vaticano II, ela representa uma inflexão decisiva quanto à postura da Igreja diante dos principais desafios da modernidade.

1. Um novo olhar sobre o mundo moderno

Reconhecidamente, a maior novidade do Concílio Vaticano II é sua abertura e a tentativa de diálogo com os problemas e desafios do mundo moderno. Duas constatações iniciais marcam essa disposição. Na primeira, de caráter mais analítico, o documento lembra que “o gênero humano encontra-se hoje em uma fase nova de sua história, na qual mudanças profundas e rápidas estendem-se progressivamente ao universo inteiro”. Depois, num tom de denúncia que será característico de suas páginas, acrescenta que “o gênero humano nunca dispôs de tantas riquezas, possibilidades e poder econômico. No entanto, ainda uma parte considerável dos habitantes da terra padece fome e miséria e inúmeros são analfabetos” (GS, nº 4).

As “mudanças profundas e rápidas” de que fala o texto remontam, como se sabe, a uma série de transformações que sacudiram a Europa nos séculos precedentes, culminando com a Revolução Industrial. Esta, por sua vez, tem seus antecedentes no florescimento do comércio, ainda nos séculos XIII e XIV, nos descobrimentos de novas terras e novas riquezas, nos séculos XV e XVI, nos inventos e avanços científico-tecnológicos dos séculos XVII e XVIII e, por fim, na Revolução Francesa e seus desdobramentos na passagem do século XVIII ao século XIX.

O velho continente transforma-se de forma radical, seja na sua capacidade tecnológica e produtiva, seja na sua organização social e política, seja nas suas formas de pensar e agir, especialmente a partir do renascimento e do iluminismo. O teocentrismo da era medieval é gradativamente substituído pelo antropocentrismo moderno. O pensamento autônomo e emancipado, a teoria da evolução progressiva e os direitos do cidadão passam a formar um novo paradigma. Ciência, razão, tecnologia, progresso e democracia são termos que, combinados, constituem o que se poderia chamar de novo credo das sociedades ocidentais. O otimismo e até ufanismo em relação ao poder das novas descobertas científicas e em relação ao futuro da humanidade serão uma marca dos que acreditam piamente na chamada razão instrumental e aplicada. Razão e fé entram por caminhos bifurcados, aumentando cada vez mais a distância entre uma e outra. Igreja e comunidade científica experimentarão uma convivência tensa e cheia de desencontros.

Mas esse credo da modernidade irá sofrer profundos reveses no decorrer do século XX. Grande corrosão abalará progressivamente suas bases mais sólidas diante da atmosfera de competição e violência, guerra e barbárie no período que precede o Concílio. Evidente que muitos avanços foram conquistados. Basta tem em conta, por exemplo, os benefícios da medicina, dos transportes e das comunicações, para citar apenas esses. Mas os problemas mais agudos da humanidade permanecem chagas vivas, enquanto novos desafios surgem por todos os lados. Assim, ao chamar a atenção para “a condição do homem no mundo de hoje”, a Gaudium et Spes (GS), em sua primeira parte, põe a nu, por uma parte, as contradições, assimetrias e desigualdades sociais que se aprofundam por todas as partes, e, por outra, as esperanças e aspirações do ser humano enquanto imagem e semelhança de Deus. Alguns anos mais tarde, na Populorum Progressio (PP),a qual, como sabemos, constitui uma espécie de complemento da Constituição Pastoral do Vaticano II, Paulo VI irá novamente alertar para o flagrante contraste entre o progresso tecnológico e a capacidade produtiva, de um lado, e o subdesenvolvimento de tantos povos, de outro. Aliás, os dois documentos – GS e PP – dão continuidade a uma linha de pensamento que atravessa todo o Ensino Social da Igreja, isto é, o descompasso crescente entre crescimento econômico e desenvolvimento integral. Mais recentemente, os escritos de João Paulo II não se cansam de evidenciar, ao mesmo tempo, o acúmulo e a falta de distribuição dos bens produzidos por toda a sociedade. “Ricos cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais pobres”, dirá em sua vista ao México.

Para usar a expressão de João XXIII, como abrir as “janelas do Vaticano aos novos ares” que se respira nesse mundo completamente transformado? Como entrar em diálogo aberto com a ciência e o pensamento contemporâneo? Como reconhecer, simultaneamente, os avanços e os limites do progresso tecnológico e do crescimento econômico? Como traduzir a solicitude pastoral da Igreja diante dos novos problemas e desafios? Por outro lado, numa sociedade cada vez mais marcada pelo pluralismo cultural e religioso, o que significa um ecumenismo não apenas formal, mas efetivo e conseqüente? Numa palavra, se o processo de evangelização passa, necessariamente, por uma profunda inculturação, como fazer isso frente aos valores e contra-valores da chamada modernidade?

São essas algumas das questões que preocupam os padres conciliares na década de 60, e que transparecem com insistência nas páginas da Gaudium et Spes. Neste sentido, não será exagero afirmar que a primeira frase deste documento traduz o espírito do próprio Concílio como um todo: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhe ressoe no coração. Com efeito, a sua se constitui de homens que, reunidos em Cristo, são dirigidos pelo Espírito Santo, na sua peregrinação para o Reino do Pai. Eles aceitaram a mensagem da salvação que deve ser proposta a todos. Portanto, a comunidade cristã se sente verdadeiramente solidária com o gênero humano e com a história” (GS, nº 1).

2. Um novo olhar eclesiológico

Para entender a eclesiologia que está subjacente à Gaudium et Spes temos de voltar à Lumen Gentium (LG) e à Ad Gentes (AD), respectivamente, Constituição dogmática sobre a Igreja, e Decreto sobre a atividade missionária da Igreja, ambos documentos do Concílio Vaticano II. Concentramo-nos especialmente no capítulo II da LG, que tem como título O Povo de Deus. Retomando a teologia da aliança e a trajetória histórica do Povo de Israel, bem como a imagem do Corpo Místico, da Carta de São Paulo aos Coríntios, os padres conciliares concluem: “Como o Israel segundo a carne, que peregrinava no deserto, já é chamado Igreja de Deus, assim o novo Israel que, caminhando no presente tempo, busca a futura cidade perene, também é chamado Igreja de Cristo” (LG, nº 9). Aqui a inflexão eclesiológica é inegável: de uma Igreja até então entendida como hierarquia, passa-se claramente a uma Igreja Povo de Deus. O acento recai sobre o conjunto dos fiéis.

E o documento continua: “Deus convocou e constituiu a Igreja – comunidade congregada daqueles que, crendo, voltam seu olhar a Jesus, autor da salvação e princípio da unidade e da paz – a fim de que ela seja para todos e para cada um o sacerdócio visível desta salutífera unidade” (LG, nº 9).

Na continuidade do documento conciliar, poderíamos nos estender sobre os conceitos de “sacerdócio comum”, de “universalidade do único Povo de Deus”, da “índole missionária de toda a Igreja” ou “a relação dos leigos com a Hierarquia”. Mas o escopo destes parágrafos não é analisar a Lumen Gentium em si. Por isso, baste-nos neste espaço sublinhar que a Gaudium et Spes nasce no terreno de uma nova noção de eclesiologia. Nesta, Cristo é o centro e a cabeça da Igreja e, ao redor d’Ele, todos e todas somos iguais, embora com distintos ministérios diversas funções.

Não será necessária muita ginástica analítica para dar-se conta de como refletem, no interior da própria Igreja, as idéias democráticas que se consolidam na sociedade moderna. Os direitos humanos e as idéias democráticas constituem, como veremos, o fio condutor do Capitulo IV da segunda secção, sobre a vida da comunidade política.

No que diz respeito à atividade missionária da Igreja, também neste caso não é nosso objetivo tecer maiores comentários à Ad Gentes. Basta lembrar que “a Igreja peregrina é por natureza missionária” (AD, nº 2). “Essa missão no decurso da história continua e desdobra a missão do próprio Cristo, enviado a evangelizar os pobres. Eis porque a Igreja, impelida pelo Espírito de Cristo deve trilhar a mesma senda” (AD, nº 5).

Em síntese, os dois documentos citados apontam para uma Igreja simultaneamente circular e aberta. Circular, no que concerne à sua organização interna e à tomada de decisões, onde todos somos irmãos e irmãs, sem distinção de raça, cor, sexo, nação, classe, etc., mesmo exercendo papéis diferenciados. E aberta, na medida em que, pelo batismo, todo cristão é chamado a ser missionário, a propagar e viver a Boa Nova de Jesus Cristo onde quer que se encontre. Igreja como Povo de Deus, por um lado, e Igreja a caminho, por outro, são as expressões que sobressaem na eclesiologia do Concílio Vaticano II.

3. Um novo olhar profético

A segunda parte da Gaudium et Spes dedica três longos capítulos à análise da sociedade atual, seguida de orientações para a busca da justiça e da paz. No primeiro desses capítulos, sobre a vida econômico-social, o texto faz uma veemente denúncia das contradições que regem a economia: “No momento em que o progresso da vida econômica, dirigido e coordenado de maneira racional e humana, poderia mitigar as desigualdades sociais, com muita freqüência se torna o agravamento das desigualdades sociais, ou também cá e lá o regresso da condição social dos fracos e desprezo dos pobres. Enquanto uma enorme multidão tem falta de coisas absolutamente necessárias, alguns, mesmo em regiões menos desenvolvidas, vivem na opulência ou desperdiçam os bens. O luxo e a miséria existem simultaneamente”, Por isso que, logo em seguida, os padres conciliares insistem que “o progresso econômico deve permanecer sob a deliberação do homem. Não pode ser abandonado ao só arbítrio de poucas pessoas”, nem “ao curso quase mecânico da vida econômica” (GS, 63-65).

O documento segue falando da necessidade de subordinar a economia a decisões políticas e estas aos princípios éticos do bem comum, ao mesmo tempo que faz um apelo a condições de trabalho mais justas, levando em conta o respeito à pessoa humana. Faz ainda a crítica do latifúndio e do crescente poder financeiro e especulativo. Nem precisaria acrescentar que suas palavras, escritas há mais de 40 anos, revelam-se de uma atualidade surpreendente diante da ideologia do mercado total.

No capítulo a respeito da “vida da comunidade política”, como já assinalamos acima, insiste-se sobre o respeito aos direitos humanos de todos os cidadãos, o desejo de participação democrática no destino das nações e a responsabilidade de todos e todas na condução da vida pública. A novidade é que “todos os cristãos se tornem cônscios de seu papel próprio e especial na comunidade política”. “Pela integridade e com prudência, lutem contra a injustiça e a opressão, ou o absolutismo e a intolerância, seja de um homem ou de um partido” (GS, nº 75).

Convém não esquecer que a memória do nazismo e do fascismo, com os horrores dos campos de concentração e do holocausto, ainda estava bem viva nos países europeus e no mundo. E convém ter presente, também, as tentativas atuais de um novo tipo de colonialismo político e econômico, por parte dos países centrais sobre os países periféricos, com destaque para a hegemonia do mercado financeiro e o mecanismo perverso do endividamento externo. Como já nos alertou João Paulo II, “não podemos pagar a dívida com a fome e a miséria das populações pobres”.

Por fim, no capítulo sobre “a construção da paz e a promoção da comunidade dos povos”, o documento retoma os alertas de João XXIII, na Pcem in Terris, para o risco da corrida armamentista e da guerra total. Estamos em plena vigência da guerra-fria e o fantasma da bomba atômica ronda os países europeus. Não basta a “paz do medo, assentada sobre o equilíbrio das armas”, nem a “paz da morte” cuja lembrança permanece nos escombros, ruínas e cinzas da 2ª Guerra Mundial. O que se busca é a paz fundamentada na justiça e no direito (GS, nº 80-83). “O desenvolvimento é o novo nome da paz”, lembrará anos mais tarde Paulo VI.

A paz de que falam os padres conciliares pressupõe novas relações internacionais, novas instituições supranacionais, bem como cooperação das diferentes nações nos campos econômico, político, social e cultural. “Cabe à comunidade internacional” –diz o documento – organizar e estimular o desenvolvimento, mas de tal maneira que os fundos a isso destinados sejam aplicados de modo mais eficiente e com plena eqüidade. Pertence ainda a esta comunidade, sem prejuízo naturalmente do princípio de subsidiariedade, organizar as relações econômicas mundiais, a fim de que se desenvolvam conforma as normas da justiça” (GS, nº 86).

Em base a este parágrafo, valeria a pena analisar, por exemplo, o papel que estão desempenhando hoje instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Banco Mundial ou a Organização das Nações Unidas (ONU). Muito mais do que regular “com justiça e eqüidade” o comércio e a política entre as nações, tais organismos procuram manter a atual ordem mundial, ao mesmo tempo concentradora e excludente. Do ponto de vista da dignidade da pessoa humana, seria também produtivo confrontar a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, com os valores éticos da Gaudium et Spes, por um lado, e, por outro, com as organizações internacionais acima.

4. Um novo olhar pastoral

Como o título indica, a Gaudium et Spes é uma “constituição pastoral” voltada para o “mundo de hoje”. Ao dirigir sua atenção para o mundo moderno, profundamente modificado e desafiador, os padres conciliares procuram superar, a bem dizer, uma visão predominantemente centrípeta por uma visão de caráter mais centrífugo. De fato, se voltarmos os olhos para a época medieval, não será difícil perceber como a Igreja permanecia debruçada prioritariamente sobre os problemas domésticos da doutrina, do ritualismo, dos próprios bens, e assim por diante. Para usar uma expressão popular, mantinha-se dentro da sacristia, voltada para dentro de si mesma.

O Concílio Ecumênico Vaticano II e, de modo especial, a Gaudium et Spessignificaram uma virada centrífuga para os problemas que afligem os seres humanos, num contexto de transformações aceleradas. Nas últimas décadas, particularmente a partir das novas tecnologias, o ritmo da história ganhou uma velocidade surpreendente. A Igreja empreende então um gigantesco esforço para acompanhar seus passos. As constituições, decretos e declarações do evento conciliar representam esse esforço de adaptar-se aos problemas e desafios pastorais contemporâneos.

Vale a pena insistir nesta abertura conciliar quando se sabe que atualmente, em alguns setores da Igreja, verifica-se uma espécie de movimento contrário, uma volta aos problemas internos, acompanhada de um espiritualismo muitas vezes desvinculado das questões políticas e sociais. Para alguns estudiosos, no confronto com o tom profético do Vaticano II, assiste-se a uma certa involução, em que predomina a nostalgia de uma Igreja triunfal e, nos casos mais extremos, até a uma tentativa de restaurar a velha cristandade. A verdade é que os documentos conciliares, no seu conjunto, constituem um tesouro que ainda não foi de todo explorado. Daí a importância de levar adiante as linhas gerais e orientações do Concílio Vaticano II, se se quiser responder aos desafios e questionamentos da sociedade moderna ou pós-moderna.

A esse respeito, o Concílio e sua constituição pastoral querem ser, para os dias de hoje, o olhar atualizado do Bom Pastor, o qual, ao “percorrer as cidades e aldeias” e encontrar as “multidões cansadas e abatidas”, “move-se de compaixão” (Mt 9,35-38). Compaixão é uma palavra composta: com + paixão. Ou seja, estar com o outro na hora da paixão. “Estar com” não significa dar coisas, mas dar-se a si mesmo; colocar-se à disposição, dispor do próprio tempo a serviço de quem necessita. É o mesmo sentimento que transparece no episódio do Bom Samaritano, do Pai Misericordioso ou no Juízo Final, enfim, é o próprio coração da mensagem evangélica, seu núcleo mais genuíno e original.

Hoje como nunca, as multidões continuam mordendo o pó da estrada em busca de uma sobrevivência cada vez mais precária, simultaneamente atraídas e rechaçadas pelo modelo econômico de corte neoliberal. Nem multidão anônima, cresce o número incalculável dos “sem”: sem terra, sem trabalho, sem teto, sem saúde, sem escola, etc. Pessoas aos milhares e milhões que, para voltar aos adjetivos do Evangelho, seguem “cansadas” de tantas promessas falsas e “abatidas” pelo peso da fome e da miséria, do abandono e da violência e de tantos outros males.

O Concílio tenta reproduzir, também, o olhar de pastor daquele Deus que repete e insiste: eu vi a miséria, eu ouvi o clamor, eu conheço o sofrimento e eu desci para libertar o povo escravo no Egito e conduzi-lo a uma terra onde “corre leite e mel”(Ex 3,7-10; Dt 26,5-10). A experiência religiosa, no evento fundante do Povo de Israel, é descoberta e o encontro com um Deus profundamente sensível e solidário à situação social concreta das pessoas. Um Deus atento e vigilante, cuja compaixão traduz-se nas quatro formas verbais da primeira pessoa do singular, assinaladas acima. Ou então o Deus que garante o sustento e a proteção “do órfão, da viúva e do estrangeiro”.

AGaudium et Spes retoma, ainda, a consciência de pastor que se verifica nos primórdios da Igreja. Bastaria um olhar a vôo de pássaro sobre a prática das primeiras comunidades cristãs, sobre as cartas e testemunhos neo-testamentárias de Pedro, João, Paulo e Tiago, ou sobre os escritos e obras dos Santos Padres – para nos darmos conta de como a misericórdia e a compaixão fazem parte da herança que Jesus deixou à sua Igreja. O mesmo olhar poderia ser dirigido aos chamados Santos Sociais e suas respectivas Congregações, na segunda metade do século XIX, onde novamente a atenção aos pobres, desvalidos e indefesos assume prioridade absoluta. Santos que, diga-se de passagem, e sem medo de errar, tornar-se-ão verdadeiros precursores do espírito que tomou conta do Concílio Vaticano II.

Por isso é que a conclusão da Gaudium et Spes constitui um duplo apelo: primeiro, ao diálogo entre todos os homens, pois “sendo Deus Pai o princípio e o fim de todas as coisas, somos todos chamados a ser irmãos. E por isso, destinados à única e mesma vocação, humana e divina”. Em seguida, através desse diálogo permanente, “podemos e devemos cooperar para a construção do mundo na paz verdadeira”(GS, nº 92).

Esse novo olhar pastoral constitui uma tentativa de traduzir para cada época, a dimensão social e política da tradição judaico-cristã e, mais especificamente, da Boa Nova de Jesus Cristo. Esse esforço exige, de uma parte, uma atenção redobrada sobre os problemas que afligem os seres humanos, aqueles onde a vida se encontra mais ameaçada. De outra parte, requer uma releitura contextualizada da Palavra de Deus. Entra em jogo aqui o famoso “círculo hermenêutico”, em que a vida interpela a Bíblia e esta interpela a vida, numa espiral crescente de intercessão entre fé e vida.

A ação social na Igreja, através das Pastorais Específicas, da Cáritas ou das Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s), em parceria com movimentos sociais, sindicais e estudantis, com organizações não governamentais e com entidades afins – essa ação social representa hoje em dia esse olhar evangélico. Uma postura misericordiosa e compassiva, sensível e solidária, voltada para os grupos ou situações sociais mais carentes e abandonados, onde a vida está mais ameaçada. Significa, em resumo, a solicitude pastoral permanentemente recriada e atualizada, de acordo com as dores e esperanças, lutas e sonhos, caminhos e aspirações dos pobres e excluídos.

Um novo olhar para o laicato

Dois conceitos fundamentais do Concílio Vaticano II ajudam a entender a nova dimensão dos leigos e leigas enquanto protagonistas da evangelização, por um lado, e artífices de uma sociedade justa, fraterna e solidária, por outro. Primeiramente, a noção de “Igreja como Povo de Deus”, onde os diversos serviços e ministérios não são mais ou menos importantes, mas apenas diferentes. A ideia de hierarquia, com seus degraus de importância diferenciada, dá lugar à uma concepção circular de comunidade, paróquia, diocese e igreja. Esta não é uma pirâmide, como já vimos, mas um círculo em que Cristo Crucificado e Ressuscitado se encontra no centro.

Em segundo lugar, a noção de “Igreja toda peregrina e missionária” do Decreto Ad Gentes sobre a Atividade Missionária da Igreja, em que, pelo batismo todos passamos a fazer parte do sacerdócio de Jesus Cristo, como “sacramento de salvação”. Evidente que, a esse aspecto, o Documento de Aparecida veio dar um reforço fundamental. Tendo como pano de fundo o clima do pentecostes, os bispos da América Latina e Caribe, propõem uma missão continental em que toda a Igreja esteja envolvida.

Desta forma, o próprio decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o Apostolado dos Leigos, insiste que “nosso tempo exige dos leigos um zelo não menor, pois as circunstâncias atuais reclamam deles um apostolado mais intenso e mais amplo. Com efeito, o aumento constante da população, o progresso da ciência e da técnica, as relações humanas mais estreitas, não só aumentaram o campo de ação do apostolado leigo de maneira extraordinária; campo em grande parte só a eles aberto, mas criaram também novos problemas, que esperam deles um consciencioso cuidado e estudo” (AA, nº 01). A observação combina perfeitamente com a nova fase de nossa história de “mudanças profundas e rápidas”, como vimos anteriormente na Gaudium et Spes. De acordo com o espírito do decreto, leigos e leigas formam uma ponte entre a prática eclesial e a prática sociopolítica ou pública. É assim que o documento apresenta os diversos campos de ação dos mesmos, sublinhando as comunidades da Igreja, a família, os jovens, o ambiente social e a esfera nacional e internacional (AA, nºs 10-14). Na mesma perspectiva, e em sintonia com as encíclicas da Doutrina Social da Igreja, chama a atenção para as distintas modalidades ações, grupos e associações do apostolado leigo (AA, nºs 15-21).

Conclusão

Os olhares que acabamos de acompanhar ao longo do texto formam, na verdade, uma única visão de conjunto. Estão divididos em itens por motivos pedagógicos, mas na vida real permanecem inextricavelmente entrelaçados. Tendo em vista a ação da Igreja no seu conjunto e as atividades das Pastorais Sociais, em particular, esses olhares têm uma dupla finalidade, desdobrando-se cada uma delas, por sua vez, em duas dimensões. Por um lado, pretendemos desenvolver a prática de uma análise de conjuntura permanentemente atualizada; ao mesmo tempo, aprofundar o conhecimento dos princípios evangélicos que orientam a Doutrina Social da Igreja, seja na análise da realidade seja na busca de soluções aos problemas sociais.

Por outro lado, queremos mostrar as luzes ocultas e as pérolas encobertas desse tesouro que é a DSI, com particular destaque para a Gaudium et Spes, luzes e pérolas que, se e quando conhecidas, se revelam de enorme utilidade para a prática pastoral; no mesmo passo, contribuir para uma “pastoral orgânica e de conjunto”, pois, como bem sabemos, a GS é irmã gêmea de outros documentos, em que cada um procura dar conta de um aspecto diferente da vida cristã e eclesial. O intercâmbio e combinação de todos, numa visão aberta e plural, mostra a necessidade da comunhão e da partilha.

Igreja lança Campanha da Evangelização

Com o lema Ele veio curar nossos males, começou no domingo de Cristo Rei a Campanha da Evangelização 2011, que tem como objetivos: mostrar a necessidade da participação de todos os batizados na ação evangelizadora da Igreja e motivar para que todos contribuam com os projetos pastorais da CNBB e das dioceses de todo o país. A campanha termina no 3º Domingo do Advento, quando se realiza a coleta nacional.

Veja mais detalhes nos avisos da semana:

As urgências da Evangelização

Dom Odilo Pedro Scherer

No sábado passado, dia 29, tivemos nossa assembleia arquidiocesana de pastoral; ao mesmo tempo que avaliamos o caminho feito ao longo de 2011, marcado pelo destaque pastoral – “Paróquia, comunidade de comunidades” –, começamos a pensar o caminho pastoral da Arquidiocese em 2012.

O levantamento feito sobre as paróquias, ainda que incompleto, revelou que há muitas coisas boas acontecendo; ao mesmo tempo, notamos que elas precisam aprofundar o processo de conversão pastoral – “paróquia, torna-te o que tu és!” –, para serem comunidades de comunidades onde a vida e a missão da Igreja sejam realidades sempre mais perceptíveis e eficazes. De fato, é nas comunidades paroquiais que o rosto e o jeito da Igreja aparece mais concretamente. Ou fica descaracterizado.

As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2011-2015 nos ajudarão a dar passos no próximo ano; tentaremos levar a sério as urgências pastorais nelas apontadas, tomando consciência delas e respondendo a elas com o desejo de ser fiéis à missão da Igreja aqui, concretamente, em nossa Arquidiocese, conforme é propósito do nosso 10º Plano de Pastoral: “Ser Igreja discípula e missionária na cidade de São Paulo”.

A primeira urgência é que precisamos ser uma Igreja em estado permanente de missão. Não se faz missão apenas de vez em quando, pois a Igreja é missionária por sua própria natureza e por vontade de seu fundador: “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações” (Mt 28,19). Devemos passar de uma pastoral apenas de conservação para uma pastoral decididamente missionária, em todas as iniciativas e em todos os momentos da vida das nossas comunidades, onde a preocupação missionária esteja sempre presente.

Outra urgência é fazer com que a Igreja, em nossas paróquias, seja “casa de iniciação à vida cristã”. É fato que a maioria dos nossos batizados nunca fez uma verdadeira iniciação à vivência cristã e eclesial e, por isso, sente-se distante da fé e da vida da Igreja, não se identificando com elas. Como superar isso, a não ser através de um envolvimento multiforme, intenso, alegre, verdadeiro e gratificante na experiência da fé e da vida eclesial? Nossas comunidades precisam ser esses espaços e “lugares” da experiência cristã, que leva a ser discípulos missionários de Cristo.

A terceira urgência mostrada pelas Diretrizes é fazer a animação bíblica da pastoral e da vida da Igreja. Esta tem sua base na Palavra de Deus e não num discurso que ela mesma produz, ou que ela inventa conforme o gosto e as tendências do momento. A Igreja e cada cristão precisam orientar-se pela Palavra de Deus e nela buscar continuamente o fundamento e a força do seu agir no mundo. Temos muito que trabalhar para que a Palavra de Deus seja mais conhecida, acolhida e vivida! Desconhecer a Escritura é desconhecer a Cristo, já dizia São Jerônimo.

A quarta urgência nos confirma naquilo que estamos procurando fazer: que nossas paróquias sejam, de fato, comunidades de comunidades. O individualismo da cultura atual pode tomar conta também da vida cristã; no entanto, nós somos cristãos, não apenas individualmente, mas membros da “família de Deus”, que se manifesta nas muitas expressões do viver comunitário da Igreja. As paróquias precisam continuar a formar mais comunidades; pequenas comunidades dentro da grande comunidade, onde seja mais real este “viver como irmãos”, que aprendemos de Jesus no Evangelho.

Quinta urgência é trabalhar para a vida plena para todos. Jesus disse que veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância”; hoje, a vida humana e a da natureza, dom de Deus e casa que nos abriga e sustenta, estão ameaçadas de muitas formas, são desprezadas e até esmagadas. A fé no Deus da vida nos leva a valorizar, defender e amar a vida.em todas as suas expressões mas, de maneira especial, a vida humana. E, com esta urgência, acrescentamos ainda a atenção especial à juventude. A evangelização da juventude é crucial para o presente e o futuro da Igreja e da sociedade. E temos uma ocasião ímpar para fazê-lo, mediante a preparação da Jornada Mundial da Juventude de 2013, no Rio de janeiro.

Pastoral da DST/Aids: Carta de Brasília

CNBB
Pastoral da DST/Aids

Nós, lideranças e agentes da Pastoral da AIDS, vindos dos estados de Rondônia, Amazonas, Pará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia, Alagoas, Paraíba, Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, reunidos em Brasília, de 9 a 12 de outubro de 2009, por ocasião do VII Seminário de Prevenção ao HIV, como fruto do nosso engajamento e do amplo processo de discussão, dirigimo-nos à sociedade brasileira, através das instâncias governamentais e não governamentais, para manifestarmo-nos:

1. Pela preservação da vida com qualidade e dignidade em toda sua extensão, da concepção à morte natural;

2. Pela manutenção da atual política de financiamento das ações de prevenção e assistência das DST e Aids através da transferência de recursos do Fundo Nacional aos fundos estaduais e municipais de saúde, mediante os Planos de Ações e Metas – PAM – conforme disciplinado pelas portarias MS 2313 e 2314/2002;

3. Pelo cumprimento dos dispositivos da Portaria 399/2006 que imputa aos estados e união a fiscalização da correta aplicação dos recursos transferidos por estas esferas governamentais aos fundos municipais de saúde e cumprimento da Portaria MS 1679 2004 que disciplina o monitoramento da execução dos Planos de Ações e Metas;

4. Em apoio à Criação de Frentes Parlamentares de enfrentamento ao HIV Aids junto a todas as Assembléias Legislativas dos estados para defesa dos direitos das pessoas vivendo com HIV e Aids e apresentação de emendas aos orçamentos públicos para ações em DST/Aids;

5. Pelo imediato e definitivo arquivamento do Projeto de Lei 4887/2001 que reintroduz o artigo 267-A no Código Penal Brasileiro conforme Decreto Lei 2848, de 7 de dezembro de 1940;

6. Pela ampliação das ações do Diagnóstico Precoce (testagem sorológica) para as HIV, sífilis e Hepatites Virais;

7. Pela maior divulgação dos editais do Departamento de DST e Aids para projetos das organizações não governamentais;

8. Pela atenção diferenciada por parte do Departamento de DST e Aids do Ministério da Saúde aos municípios de pequeno porte e de difícil acesso em virtude do processo de interiorização da epidemia;

9. Em apoio às atividades desenvolvidas pelos Fóruns de ONGs/Aids que fortalecem a resposta brasileira à epidemia;

10. Pelo fortalecimento da Rede Nacional de Jovens vivendo com HIV e Aids, estabelecendo estratégias e políticas integradas para o trabalho com crianças, adolescentes e jovens;

11. Pelo incentivo à criação de Grupos de Trabalho de Aids e Religiões nos Programas Estaduais e Municipais de DST/Aids;

12. Pela implementação, nos estados, da “Portaria da Lipodistrofia” e pela sensibilização dos profissionais para realizar os procedimentos;

13. Pela Criação do Programa de DST/Aids nos municípios que não os possuem e de comissões municipais de DST/Aids junto aos Conselhos Municipais de Saúde;

Como serviço pastoral, em conformidade com o Documento de Aparecida e das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora 2008-2011, vemos como muito importante que a Igreja:

• Propicie maior visibilidade à Pastoral da Aids e às datas marcantes de enfrentamento do HIV: 1º de Dezembro e Vigília pelos mortos de Aids;

• Promova a sensibilização e capacitação de clérigos, religiosos/as e leigos/as para colaborar no enfrentamento da epidemia e superação do preconceito;

• Fortaleça a Pastoral da Aids nas comunidades, paróquias e dioceses, motivando os cristãos ao trabalho neste campo.

Brasília, 12 de outubro de 2009.

Festa de Nossa Senhora Aparecida – Padroeira do Brasil

Como homenagear um profeta?

Carlo Tursi

Incomodado. Indignado. Até envergonhado. Talvez estas palavras exprimam um pouco como venho me sentindo ao longo deste ano em que estamos comemorando o centenário de nascimento de Dom Helder Camara (1909-2009). É que a forma convencional de nossas homenagens prestadas – até agora – não me parece fazer jus a este grande pastor e profeta fortalezense, que brilhou para o Brasil e o mundo como arcebispo de Olinda e Recife (1964-1985), promovendo os pobres e defendendo os perseguidos pela ditadura.

Por parte da Igreja, apenas o óbvio: celebra-se uma missa em sua homenagem – e fica-se com a sensação de “dever cumprido”. Durante a cerimônia (religiosa?), gasta-se mais tempo em saudar as autoridades políticas e eclesiásticas presentes do que em lembrar as corajosas e incômodas atitudes do ilustre homenageado. A presença da imprensa e das câmeras de televisão parece ser mais importante do que o comparecimento do povo de Deus, sobretudo dos segmentos mais pobres, preferidos de Dom Helder. Tudo acaba na inauguração de uma estátua de bronze, frente à igreja: um monumento à sua memória, sem dúvida, mas também uma forma sutil de “petrificar” esta memória, entregá-la à História, isto é, ao passado irrecuperável.

Por parte da sociedade civil e política, uma (ai que sono!) sessão solene na Assembléia Legislativa: panegíricos intermináveis de palavreado florido, porém, inexpressivo, antecedidos por dez minutos gastos em saudar os “componentes da Mesa” e as “autoridades” presentes… Aqui, o cume é atingido quando se propõe colocar o nome do homenageado em uma das praças da cidade. E volta-se, dever cumprido, à normalidade.

Confesso que, desde a juventude, fui “contaminado” pela acidez com que um certo mestre da Galiléia fustigava tais comportamentos oficiosos do establishment: “Hipócritas! Vocês constroem sepulcros para os profetas, e enfeitam os túmulos dos justos (…)! Vocês (…) são filhos daqueles que mataram os profetas!” (Mt 23,29-30). Aturdido, dou-me conta da terrível ambivalência das comemorações de um centenário: de certo, é ocasião oportuna para lembrar quem merece ser lembrado – mas, via de regra, na condição de alguém que pertence ao passado histórico! Fico a imaginar o alívio do episcopado brasileiro, hoje na ativa, de poder considerar bispos como Dom Helder uma “página virada”, pois as opções pastorais dele e seu estilo de vida austero se constituiriam um questionamento forte a toda pompa e à comodidade burguesa do alto clero católico (quem entre os atuais bispos iria morar, hoje, numa pequena sacristia de uma igreja, movido pelo pensamento de que o “pastor” deve partilhar a condição de vida de suas “ovelhas”?).

Vem aí uma outra forma de homenagear o “Dom da Paz”: a Semana Dom Helder Camara (26 de setembro a 02 de outubro), idealizada por um punhado de cristãos críticos que se autodenominam “O GRUPO”. Seu principal enunciado: Dom Helder vive! Lugar de lhe prestar homenagem não é, absolutamente, o cemitério, e o material adequado para isso não é o bronze, o gesso, nem as flores! O lugar correto de lhe prestar homenagem é no meio dos movimentos cristãos e cívico-humanistas que lutam pela transformação da realidade brasileira, que denunciam as torturas infligidas em nome da Lei e os crimes ecológicos, que não apenas dão pão aos pobres, mas que perguntam também pela causa da pobreza! E a forma correta de prestar esta homenagem é imbuir-nos, a nós mesmos, do mesmo espírito profético intrépido de Dom Helder, assumindo seu legado, sua herança. “Não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e de verdade!” (1 Jo 3,18). O material correto para celebrar a presença viva deste grande cearense em nosso meio é o material humano sensibilizado com a miséria e a violência institucionalizada a que estão expostos dezenas de milhares de concidadãos nesta capital! É este, fundamentalmente, o credo de “O GRUPO”: Cristo não pediu para ser adorado, mas para ser seguido! O mesmo vale, por extensão, para figuras exemplares como Helder Camara, Aloísio Lorscheider, Martin Luther King, Mahatma Gandhi, e todos os santos e santas a quem devemos nosso reconhecimento e nossa gratidão.

Alguém interessado neste tipo de homenagem? Então, há de conferir o evento de abertura da Semana, a se realizar no teatro do Centro Cultural Dragão do Mar, dia 26 de setembro, às 19:00 h, com a projeção do documentário “Dom Helder, o santo rebelde”, seguida de debate com a platéia. A Semana prosseguirá com um ciclo de conferências e debates, no colégio Santo Tomás de Aquino, sempre às 19:00 h, e culminará em uma caminhada de sensibilização e despertar cívico-cristão pelo centro de Fortaleza, no dia 02 de outubro, às 15:00 h, a partir da praça da Igreja do Carmo. “Ai de mim se eu me calar!” Não seria hora de sairmos da “toca”?

Ovelhas sem Pastor !

Marcos nos mostra com beleza e simplicidade que Pastor é JESUS.

Pastor compassivo, que se volta para os excluídos, enfraquecidos e esquecidos.
JESUS convida os díscipulos missionários para descansar um pouco mas diante do povo sofrido, sente compaixão, pois estavam como ovelhas sem pastor!

Ovelhas abandonadas à própria sorte!
ovelhas fracas a quem ninguém conforta!
ovelhas enfermas a quem ninguém cuida!
ovelhas feridas a quem se aproxima!
ovelhas desviadas a quem ninguém procura!
ovelhas perdidas a quem ninguém ama!

Gente solitária a quem ninguém tem tempo de escutar!

JESUS é liderança de vida e não traidor do povo.
não usa de força mas transmite ternura e bondade,
é severo com os que abandonam os pobres, fracos e desvalidos.

A prática de JESUS contrasta, é conflitiva e questionante, inquieta e nos faz refletir!
JESUS sente compaixão que mobiliza e transforma, não é sentimento alienado, mas proximidade que na convivência ensina e aprende, liberta e faz caminhar.

JESUS olha e deixa o que vê entrar!
entrar e permanecer,
permanencia que compromete,
compromisso que faz caminhar,
caminho para libertar,
liberdade para viver,
vida para amar,
amar sem discriminar , nem condenar,
enfim , humanizar para em DEUS ser e habitar.


Assista abaixo à homilia da missa das 18h de 19/07/2009:

A Igreja, perita em humanidade

Pe Almir Magalhaes

O título desta contribuição, “A Igreja, perita em humanidade”, é uma nomenclatura que já se tornou um patrimônio da linguagem eclesial e eclesiástica, e a sua fonte é a Carta Encíclica do Papa Paulo VI – Populorum Progressio (sobre o Desenvolvimento do Povos de 26.03.67, nº. 13) e repetida incontáveis vezes em outros documentos do Magistério e quer significar, em função da sua missão, todo o empenho de se por a serviço de cada homem e do mundo inteiro (Cf. O Esplendor da Verdade, João Paulo II, 06.08.1993, nº. 3).

Colocando o foco das atenções na vida pastoral da Igreja, a preocupação e a prática deste horizonte, levariam a uma reviravolta no modo de compreender a nossa presença junto às pessoas, o nosso modo de julgá-las, às vezes até condenando-as. Esta reviravolta deveria ser uma motivação fundamental para entendermos a missão como encontro, buscando as pessoas lá onde elas se encontram, ajudando a superar uma forma evangelizadora massiva e criando a possibilidade de testemunho, de discipulado.

É interessante como todos os últimos documentos da Igreja de cunho pastoral têm refletido sobre o Ministério do Acolhimento. Isto não seria nenhum favor da nossa parte, se levarmos em conta toda a proximidade de Jesus Cristo junto às pessoas, especialmente os marginalizados e sofredores e acima de tudo aquilo que forma o eixo da sua vida que foi expresso na imagem do BOM PASTOR; ao mesmo tempo é curioso como, em todos os níveis da Igreja e dos mais variados ministérios, esta orientação, que é uma forma de expressar a Igreja como perita em humanidade, é timidamente acolhida.

Tenho defendido peremptoriamente que as Paróquias e Áreas Pastorais elaborem seus Planos de Pastorais, definindo objetivos e prioridades, em função da inculturação do Evangelho e como forma de inserção na realidade. Entretanto, de nada adianta belos planos para serem engavetados ou se não estiverem inspirados na mística do acolhimento, na ternura, no carinho, na atenção às pessoas, como afirma São Paulo – acima de tudo o amor (cf. 1ª Cor 13).

Durante nossas liturgias, sobretudo a Eucarística, temos presenciado em algumas Igrejas esta preocupação louvável de acolher bem as pessoas. Aqui vale a célebre frase “A Igreja faz a Eucaristia e a Eucaristia faz a Igreja”, ou seja, ao administrar a Eucaristia, esta deveria inspirar a vida eclesial de acordo com tudo aquilo que ela representa, o que se celebra. Explicitando melhor, se na liturgia Eucarística há este empenho de acolhimento, isto deveria ser ou a expressão da experiência vivida na comunidade eclesial ou, caso contrário, que se construa aquilo que se constitui em ministérios dentro da mesma: os vários ministérios que se exercem na Eucaristia, incluindo aí o acolhimento deveriam deixar de ser uma “cena” uma “virtualidade cúltica, de aparência no templo” para ser uma realidade, vida.

As estruturas eclesiásticas deveriam ser construídas com base neste pressuposto. Neste caso, a Secretária (Secretaria Paroquial) deveria ser bem preparada para acolher bem as pessoas; os serviços de atendimento das várias pastorais da mesma forma, desde o momento das inscrições de batismo, crisma, matrimônio e outros, e em todas as ocasiões de relações no cotidiano da vida da Igreja .

Ter uma postura de cortesia e atenção às pessoas atrai muito. Neste sentido as normas, as prescrições criadas por nós (e que são muitas) e aquelas constantes do Direito Canônico e do Catecismo da Igreja Católica não seriam relativizadas, mas a relação entre os protagonistas seria na base do diálogo. A partir do que está exposto, vamos entender que missão não significa fazer muitas coisas, ela não se situa no âmbito da atividade, mas naquele das relações. Novas relações fundamentadas na misericórdia, no perdão e na justiça. Quanto mais aproximação mais eleva o nível do discipulado. As Lei, as Normas são valorizados, mas, antes disto o acolhimento.

Tudo na vida de Jesus aponta para estruturas leves e relacionais, para a cura das feridas e o perdão dos pecados. “Às vítimas da rejeição e do desprezo, declara: “bem-aventurados vós, os pobres (Lc 6,20), fazendo-lhes inclusive, sentir e viver, já, uma experiência de libertação, estando com eles, partilhando a mesma mesa (cf. Lc 5,30; 15,2), tratando-os como iguais e amigos (cf. Lc 7, 34), procurando que se sentissem amados por Deus, e revelando, deste modo, imensa ternura pelos necessitados e pecadores (cf. Lc 15, 1-32)” (ver Redemptoris Missio de João Paulo II, nº. 14).

Sempre partilho com os alunos em sala de aula, sobretudo dirigindo-me àqueles que no futuro serão padres, que nós temos uma dificuldade enorme de renovar as nossas estruturas paroquiais e quando o assunto é abordado sempre surgem as reflexões dos limites que temos, dificuldade de mudar por conta dos próprios paroquianos que estão apegados a uma catequese que receberam e colocam obstáculos para mudanças. Tenho dito que nos últimos anos muitas iniciativas nas paróquias foram assumidas, todas elas reforçando um estilo de conservação, rotina e manutenção (missas para todos os gostos, terço dos homens, louvores e mais louvores), que não levam ao fundamental, que seria criar fraternidade, acolhimento, ambiente familiar e uma mentalidade de que a Igreja é PERITA EM HUMANIDADE. Nós “não sabemos” como começar, e, por incrível que pareça a criatividade vai para outra direção.

Pergunto: Qual o sentido de tanta reza, tantas missas, tantos terços, tantos louvores… se tudo isto não conduz a uma espiritualidade do discipulado, a nos tornarmos mais humanos?