HIV

Pastoral da Aids lança Campanha para Diagnóstico Precoce do HIV

“Cuide bem de você e de todos os que você ama. Faça o teste HIV”. Este é o lema da Campanha da Pastoral da Aids, que será lançada no dia 27 de novembro, às 15h, na sede da Conferência Nacional dos Bispos (CNBB), em Brasília.

O lançamento contará com a presença do bispo auxiliar de Brasília e secretário geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, do ministro da Saúde, Arthur Chioro, do secretário executivo e do assessor da Pastoral da Aids, respectivamente, frei José Bernardi e frei Luiz Carlos Lunardi.

A Campanha buscará incentivar o diagnóstico precoce para o HIV, com a finalidade de contribuir para com a otimização do tratamento e evitar novas infecções. Trata-se de uma resposta ao desafio de diminuir o número de infecções pelo vírus, dado que, mesmo com a epidemia estabilizada, permanecem as chamadas transmissões verticais, ou seja, quando o vírus é passado da mãe para o bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação.

De acordo com frei Luiz Carlos Lunardi, é preciso envolvimento de todos os seguimentos da sociedade no enfrentamento da doença. “Todos os setores sociais, todas as organizações devem se comprometer na luta contra a Aids. No acompanhamento das pessoas [portadoras do] HIV, uma questão de solidariedade; na questão do acesso aos medicamentos e tratamentos; na superação do estigma e do preconceito; e lutar e se engajar na luta pelo acesso ao diagnóstico precoce”, disse.

De acordo com a Pastoral da Aids, a epidemia da aids está no Brasil há 30 anos. A Pastoral alerta para uma realidade em que, apesar dos avanços na área da medicina e das políticas públicas, ainda persistem óbitos e infecções. Por este motivo, a Pastoral estabeleceu, em parceria com o Ministério da Saúde, o foco da campanha no diagnóstico precoce, para que as pessoas não cheguem doentes ao serviço de saúde, com poucas chances de êxito no tratamento.

A Pastoral da Aids ressalta, ainda, o envolvimento da Igreja na superação da aids desde o início e de muitas maneiras, como as casas de apoio e os centros de convivência sob seu cuidado.

Informações sobre o lançamento: (61) 2103-8313 ou pelo e-mail: [email protected]

Parada Gay: respeitar e ser respeitado

D. Odilo Pedro Scherer

Eu não queria escrever sobre esse assunto; mas diante das provocações e ofensas ostensivas à comunidade católica e cristã, durante a Parada Gay deste último domingo, não posso deixar de me manifestar em defesa das pessoas que tiveram seus sentimentos e convicções religiosas, seus símbolos e convicções de fé ultrajados.

Ficamos entristecidos quando vemos usados com deboche imagens de santos, deliberadamente associados a práticas que a moral cristã desaprova e que os próprios santos desaprovariam também. Histórias romanceadas ou fantasias criadas para fazer filmes sobre santos e personalidades que honraram a fé cristã não podem servir de base para associá-los a práticas alheias ao seu testemunho de vida. São Sebastião foi um mártir dos inícios do Cristianismo; a tela produzida por um artista cerca de 15 séculos após a vida do santo, não pode ser usada para passar uma suposta identidade homossexual do corajoso mártir. Por que não falar, antes, que ele preferiu heroicamente sofrer as torturas e a morte a ultrajar o bom nome e a dignidade de cristão e filho de Deus?!

“Nem santo salva do vírus da AIDS”. Pois é verdade. O que pode salvar mesmo é uma vida sexual regrada e digna. É o que a Igreja defende e convida todos a fazer. O uso desrespeitoso da imagem dos santos populares é uma ofensa aos próprios santos, que viveram dignamente; e ofende também os sentimentos religiosos do povo. Ninguém gosta de ver vilipendiados os símbolos e imagens de sua fé e seus sentimentos e convicções religiosas. Da mesma forma, também é lamentável o uso desrespeitoso da Sagrada Escritura e das palavras de Jesus – “amai-vos uns aos outros” – como se ele justificasse, aprovasse e incentivasse qualquer forma de “amor”; o “mandamento novo” foi instrumentalizado para justificar práticas contrárias ao ensinamento do próprio Jesus.

A Igreja católica refuta a acusação de “homofóbica”. Investiguem-se os fatos de violência contra homossexuais, para ver se estão relacionados com grupos religiosos católicos. A Igreja Católica desaprova a violência contra quem quer que seja; não apoia, não incentiva e não justifica a violência contra homossexuais. E na história da luta contra o vírus HIV, a Igreja foi pioneira no acolhimento e tratamento de soro-positivos, sem questionar suas opções sexuais; muitos deles são homossexuais e todos são acolhidos com profundo respeito. Grande parte das estruturas de tratamento de aidéticos está ligada à Igreja. Mas ela ensina e defende que a melhor forma de prevenção contra as doenças sexualmente transmissíveis é uma vida sexual regrada e digna.

Quem apela para a Constituição Nacional para afirmar e defender seus direitos, não deve esquecer que a mesma Constituição garante o respeito aos direitos dos outros, aos seus símbolos e organizações religiosas. Quem luta por reconhecimento e respeito, deve aprender a respeitar. Como cristãos, respeitamos a livre manifestação de quem pensa diversamente de nós. Mas o respeito às nossas convicções de fé e moral, às organizações religiosas, símbolos e textos sagrados, é a contrapartida que se requer.

A Igreja Católica tem suas convicções e fala delas abertamente, usando do direito de liberdade de pensamento e de expressão. Embora respeitando as pessoas homossexuais e procurando acolhê-las e tratá-las com respeito, compreensão e caridade, ela afirma que as práticas homossexuais vão contra a natureza; essa não errou ao moldar o ser humano como homem e mulher. Afirma ainda que a sexualidade não depende de “opção”, mas é um fato de natureza e dom de Deus, com um significado próprio, que precisa ser reconhecido, acolhido e vivido coerentemente pelo homem e pela mulher.

Causa preocupação a crescente ambiguidade e confusão em relação à identidade sexual, que vai tomando conta da cultura. Antes de ser um problema moral, é um problema antropológico, que merece uma séria reflexão, em vez de um tratamento superficial e debochado, sob a pressão de organizações interessadas em impor a todos um determinado pensamento sobre a identidade do ser humano. Mais do que nunca, hoje todos concordam que o desrespeito às leis da natureza biológica dos seres introduz neles a desordem e o descontrole nos ecossistemas; produz doenças e desastres ambientais e compromete o futuro e a sustentabilidade da vida. Ora, não seria o caso de fazer semelhante raciocínio, quando se trata das leis inerentes à natureza e à identidade do ser humano? Ignorar e desrespeitar o significado profundo da condição humana não terá consequências? Será sustentável para o futuro da civilização e da humanidade?

As ofensas dirigidas não só à Igreja Católica, mas a tantos outros grupos cristãos e tradições religiosas não são construtivas e não fazem bem aos próprios homossexuais, criando condições para aumentar o fosso da incompreensão e do preconceito contra eles. E não é isso que a Igreja Católica deseja para eles, pois também os ama e tem uma boa nova para eles; e são filhos muito amados pelo Pai do céu, que os chama a viver com dignidade e em paz consigo mesmos e com os outros.


Assista também à entrevista com D. Odilo em matéria da TV Canção Nova sobre o assunto:

Pastoral da DST/Aids: Carta de Brasília

CNBB
Pastoral da DST/Aids

Nós, lideranças e agentes da Pastoral da AIDS, vindos dos estados de Rondônia, Amazonas, Pará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia, Alagoas, Paraíba, Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, reunidos em Brasília, de 9 a 12 de outubro de 2009, por ocasião do VII Seminário de Prevenção ao HIV, como fruto do nosso engajamento e do amplo processo de discussão, dirigimo-nos à sociedade brasileira, através das instâncias governamentais e não governamentais, para manifestarmo-nos:

1. Pela preservação da vida com qualidade e dignidade em toda sua extensão, da concepção à morte natural;

2. Pela manutenção da atual política de financiamento das ações de prevenção e assistência das DST e Aids através da transferência de recursos do Fundo Nacional aos fundos estaduais e municipais de saúde, mediante os Planos de Ações e Metas – PAM – conforme disciplinado pelas portarias MS 2313 e 2314/2002;

3. Pelo cumprimento dos dispositivos da Portaria 399/2006 que imputa aos estados e união a fiscalização da correta aplicação dos recursos transferidos por estas esferas governamentais aos fundos municipais de saúde e cumprimento da Portaria MS 1679 2004 que disciplina o monitoramento da execução dos Planos de Ações e Metas;

4. Em apoio à Criação de Frentes Parlamentares de enfrentamento ao HIV Aids junto a todas as Assembléias Legislativas dos estados para defesa dos direitos das pessoas vivendo com HIV e Aids e apresentação de emendas aos orçamentos públicos para ações em DST/Aids;

5. Pelo imediato e definitivo arquivamento do Projeto de Lei 4887/2001 que reintroduz o artigo 267-A no Código Penal Brasileiro conforme Decreto Lei 2848, de 7 de dezembro de 1940;

6. Pela ampliação das ações do Diagnóstico Precoce (testagem sorológica) para as HIV, sífilis e Hepatites Virais;

7. Pela maior divulgação dos editais do Departamento de DST e Aids para projetos das organizações não governamentais;

8. Pela atenção diferenciada por parte do Departamento de DST e Aids do Ministério da Saúde aos municípios de pequeno porte e de difícil acesso em virtude do processo de interiorização da epidemia;

9. Em apoio às atividades desenvolvidas pelos Fóruns de ONGs/Aids que fortalecem a resposta brasileira à epidemia;

10. Pelo fortalecimento da Rede Nacional de Jovens vivendo com HIV e Aids, estabelecendo estratégias e políticas integradas para o trabalho com crianças, adolescentes e jovens;

11. Pelo incentivo à criação de Grupos de Trabalho de Aids e Religiões nos Programas Estaduais e Municipais de DST/Aids;

12. Pela implementação, nos estados, da “Portaria da Lipodistrofia” e pela sensibilização dos profissionais para realizar os procedimentos;

13. Pela Criação do Programa de DST/Aids nos municípios que não os possuem e de comissões municipais de DST/Aids junto aos Conselhos Municipais de Saúde;

Como serviço pastoral, em conformidade com o Documento de Aparecida e das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora 2008-2011, vemos como muito importante que a Igreja:

• Propicie maior visibilidade à Pastoral da Aids e às datas marcantes de enfrentamento do HIV: 1º de Dezembro e Vigília pelos mortos de Aids;

• Promova a sensibilização e capacitação de clérigos, religiosos/as e leigos/as para colaborar no enfrentamento da epidemia e superação do preconceito;

• Fortaleça a Pastoral da Aids nas comunidades, paróquias e dioceses, motivando os cristãos ao trabalho neste campo.

Brasília, 12 de outubro de 2009.

Festa de Nossa Senhora Aparecida – Padroeira do Brasil

O papa na África e a camisinha

Luís Corrêa Lima

A viagem do papa Bento 16 à África foi marcada por uma enorme polêmica. Na ida, em entrevista concedida a jornalistas no avião, ele disse que a epidemia da Aids naquele Continente não se resolve com a distribuição de preservativos. Ao contrário, o problema aumenta. Somam-se a isto declarações da hierarquia católica contra propagandas governamentais para difusão da camisinha, alegando que favorecem a permissividade sexual. Configura-se assim uma imagem da Igreja, bastante difundida, de inimiga feroz do preservativo. Será que a Igreja é mesmo esta inimiga? Convém fazer alguns esclarecimentos.

A declaração do papa na íntegra permite ver o contexto da afirmação. Bento 16 diz que não se pode superar o problema da Aids só com dinheiro e distribuição de preservativos. É preciso que haja ‘alma’, que os africanos se ajudem assumindo responsabilidades pessoais para humanizar a sexualidade. Caso contrário o problema aumenta. A ‘humanização da sexualidade’ inclui um novo modo de relacionar-se mutuamente, com um comportamento justo em relação ao próprio corpo e ao corpo do outro.

A razão desta declaração pode ser encontrada no relato de missionários que vivem nas regiões africanas mais atingidas pelo HIV. Na área rural da Suazilândia, o país com a maior taxa de infectados (26%), uma missionária testemunha: “Aqui, a primeira coisa que um homem te diz é que não usará camisinha. E a mulher tem a condição de menor de idade, assim que nunca a exigirá”. Há resistências culturais. Na África a fertilidade é elogiada, e o preservativo aparece como estranho e estrangeiro, bem como os valores que encarna. Ele é mais do que um pedaço de borracha, ainda que bem aceito na Europa e na América.

Nesta situação, não adianta a mera distribuição de preservativo sem um comportamento justo para com o próprio corpo e o corpo alheio. Ainda que não a tenha mencionado, o papa não exclui a camisinha. No dia seguinte à declaração, o porta-voz da Santa Sé informou que para a Igreja a prioridade na prevenção da aids é a educação, a pesquisa e a assistência humana e espiritual, e não a opção exclusiva pela difusão do preservativo.

Em todo o mundo, estima-se que um quarto das organizações humanitárias dedicadas aos portadores de HIV são ligadas à Igreja Católica. Esta assistência não exclui o preservativo. Em 2001, os jesuítas africanos lançaram uma campanha em favor do seu uso, com o lema: “A aids mata, protege-te e protege aos demais”. A congregação dos padres brancos na Tanzânia e os bispos do Chade aderiram à difusão da camisinha. Em 2005, o conselheiro teológico particular do papa – cardeal Georges Cottier, da Casa Pontifícia – abordou esta questão. Ele declarou que em algumas circunstâncias o uso da camisinha é legítimo, sobretudo em epidemias generalizadas e devastadoras, como é o caso da África. Aí vale o mandamento de ‘não matar’ e se deve respeitar a defesa da vida acima de tudo. Vários religiosos africanos, aberta ou veladamente, adotam esta posição.

O cardeal Dionigi Tettamanzi, arcebispo de Milão, afirmou que em caso de contágio no casamento, a mulher tem o direito de exigir o preservativo por parte do marido. Este direito é importantíssimo na África e também no Brasil, onde milhares de mulheres casadas monogâmicas são contaminadas por não exigirem de seus maridos o uso do preservativo.

É do senso comum dizer que o papa condena a camisinha. Mas desde que assumiu o pontificado, Bento 16 nunca a condenou. Convém analisar com atenção. Em 2005, ele recebeu bispos africanos em audiência, e lhes disse que o ensinamento tradicional da Igreja é o único caminho intrinsecamente seguro para se evitar o vírus HIV. Difundiu-se então a notícia de que o papa condenou a camisinha. Ora, defender uma conduta sexual baseada no autodomínio e na fidelidade, não significa necessariamente opor-se ao preservativo. A mesma notícia se repetiu quando Bento 16 defendeu a carta de Paulo 6º, Humanae Vitae, contrária aos métodos artificiais de controle da natalidade. Mas isto não significa opor-se ao uso da camisinha para prevenir doenças sexualmente transmissíveis. A distinção é sutil mas não desprezível.

Nesta viagem à África, o papa esteve em um centro católico de reabilitação em Camarões, onde se encontrou com enfermos. Aí ele encorajou a Igreja a prosseguir na luta eficaz contra a Aids, a tuberculose e a malária – uma obra urgente. Aos médicos e pesquisadores, exortou a realizar tudo o que é legítimo para aliviar a dor, cabendo-lhes em primeiro lugar a proteção das vidas humanas.

A legitimidade do preservativo foi claramente afirmada pelo Vaticano através de seu jornal, L’Osservatore Romano. No dia 22 de março, foi publicada uma entrevista com o médico e missionário comboniano Daniele G. Giusti, que trabalha em Uganda há três décadas. Ele afirma que a camisinha se mostra eficaz entre pessoas homossexuais, usuários de drogas e profissionais do sexo. Para o conjunto da população, recomenda-se o modelo ABC (‘Abstinence, Be faithful and Condoms’): abstinência aos que ainda não são maduros para a vida sexual, fidelidade conjugal aos sexualmente ativos e camisinha como terceiro recurso, onde há risco de contaminação. Na educação sexual, é necessário ensinar o que comporta risco, o que o reduz e o que o elimina.

Assim se delineia um caminho de conciliação entre a moral cristã e a distribuição do preservativo. Políticas públicas de prevenção e convicções religiosas podem conviver e colaborar mutuamente. Para isto é necessário desfazer ruídos de comunicação que se tornaram enormes. O papa e a Igreja Católica não são inimigos ferozes da camisinha, e a difusão desta não é incompatível com os valores cristãos, sobretudo o amor e a responsabilidade. A defesa da vida terá muito a ganhar.