Ato pela vida, em repúdio à chacina de moradores de rua
O cardeal arcebispo de São Paulo, D. Odilo Pedro Scherer, participou do ato em repúdio à chacina de moradores de rua, realizado quinta-feira, 20/05, no centro de São Paulo. Os manifestantes concentraram-se em frente à Catedral da Sé e saíram em caminhada até a Câmara Municipal de São Paulo. O evento foi organizado pelo Movimento Nacional da População de Rua com apoio do Vicariato para o Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo.
Leia a íntegra da fala de D. Odilo:
Quero dizer uma palavra que já disse, numa nota publicada outro dia, quando houve aquela chacina lá no Jaçanã. Primeiramente, uma palavra de forte e firme repúdio a esses tipos de ações e chacinas contra a população de rua ou contra quem quer que seja. Não é permitido fazer justiça desta forma. É contra os direitos humanos, e contra a dignidade humana, e contra o Estado, contra a convivência civilizada. Por isso, a população toda deveria se organizar e deveria protestar fortemente contra essas chacinas que a cada tanto estão acontecendo.
Segundo, a impunidade leva facilmente a cometer novos atos semelhantes. Por isso, o meu pleno apoio às iniciativas que reclamam por investigação e elucidação sobre os fatos já acontecidos. Nós ainda estamos aguardando conhecer melhor o que aconteceu em 2004. Depois disso, quantas chacinas aconteceram! E agora mais uma.
Essas chacinas, naturalmente, têm causas, têm autores, têm mandantes, têm uma lógica e essa lógica precisa ser investigada, elucidada e claramente assumida pela Justiça do Estado. Se não, a população que vive em situação de fragilidade, continuará frágil e, de alguma maneira, exposta a ser um dia surpreendida por um ato de chacina.
Terceiro, eu gostaria de dar a minha palavra de solidariedade a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, são vítimas de violência. Ninguém pode ser sujeito à violência por parte de outrem. Existe o caminho da legalidade e da normalidade da Justiça, que deve ser seguido. Ninguém está autorizado a cometer atos de violência, porque são atos criminosos. Por isso, a população mais frágil, como é a população de rua, não deve ser desprotegida.
E aí o meu quarto apelo, para que a sociedade olhe com muito carinho a população de rua, que está aumentando em nossa cidade, como já foi dito. Infelizmente, não é só a nossa cidade, mas outras passam pelo mesmo problema. Aqui nós temos, graças a Deus, algum trabalho que já tem um caminho andado.
E, por isso, temos a possibilidade de que as organizações ligadas ao povo que vive na rua possam conseguir um diálogo com as representações do Poder Público, com os vereadores da nossa cidade, com o Poder Executivo, com as organizações empresariais e demais organizações da cidade para encontrar uma saída para esta situação que ninguém quer. A população de rua não quer permanecer na rua, e eles mesmos há pouco disseram.
É preciso que haja, por isso mesmo, uma política pública eficaz, que inclua, por um lado, a questão da moradia, que inclua a questão do trabalho, que inclua a questão da educação, da saúde, a questão da segurança e a reinserção social. Portanto, uma política abrangente para esta situação de população de rua.
É isso que nós gostaríamos de falar e de manifestar hoje, para que possa ser ouvido e que vocês, agora, continuando a sua caminhada, possam levar esses anseios para quem representa o poder de legislar para esta cidade, para que o vosso grito seja ouvido e efetivamente levado à solução.
Esta é uma situação que a todos nós, de alguma maneira, ofende e questiona. Essa situação de violência, de fragilização da população de rua também a todos nós deixa perplexos porque mancha e agride a dignidade humana, a dignidade de todo o cidadão que olha para o seu próximo como um irmão.
Deus ajude e abençoe vocês! Deus proteja a todos os movimentos e organizações da população que vive em situação de rua. E agora vamos invocar a benção de Deus para que vocês continuem o seu caminho, o seu trabalho e a sua luta.
A benção de Deus todo poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo, desça sobre vós e permaneça para sempre!
Vocês estão vendo ali, no meio da praça da Sé, ali está o apóstolo São Paulo, mostrando a todos a Palavra de Deus, aquilo que nós aprendemos da Palavra de Deus sobre a dignidade de todo o ser humano, de todo o filho e filha de Deus. Está recordando isso à cidade.
Mais adiante, está o padre Anchieta, fundador da cidade. Ele que viveu no meio da população indígena, como missionário. Será que ele está contente com o que está vendo hoje por aí? Acho que não! Padre Anchieta seja alguém que ajude a nossa cidade, ajude a dar rumo e indicações para aquilo que podemos fazer hoje para melhorar a vida desta cidade. Obrigado!
