Concílio Vaticano II

Mensagem do Papa para a Campanha da Fraternidade 2013

Queridos irmãos e irmãs,

Diante de nós se abre o caminho da Quaresma, permeado de oração, penitência e caridade, que nos prepara para vivenciar e participar mais profundamente na paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. No Brasil, esta preparação tem encontrado um válido apoio e estímulo na Campanha da Fraternidade, que este ano chega à sua quinquagésima realização e se reveste já das tonalidades espirituais da XXVII Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro em julho próximo: daí o seu tema “Fraternidade e Juventude”, proposto pela Conferência Episcopal Nacional com a esperança de ver multiplicada nos jovens de hoje a mesma resposta que dera a Deus o profeta Isaías: “Eis-me aqui, envia-me!”(6,8).

De bom grado associo-me a esta iniciativa quaresmal da Igreja no Brasil, enviando a todos e cada um a minha cordial saudação no Senhor, a quem confio os esforços de quantos se empenham por ajudar os jovens a tornar-se – como lhes pedi em São Paulo – “protagonistas de uma sociedade mais justa e mais fraterna inspirada no Evangelho” (Discurso aos jovens brasileiros, 10/05/2007). É que os “sinais dos tempos”, na sociedade e na Igreja, surgem também através dos jovens; menosprezar estes sinais ou não os saber discernir é perder ocasiões de renovação. Se eles forem o presente, serão também o futuro. Queremos os jovens protagonistas integrados na comunidade que os acolhe, demonstrando a confiança que a Igreja deposita em cada um deles. Isto requer guias – padres, consagrados ou leigos – que permaneçam novos por dentro, mesmo que o não sejam de idade, mas capazes de fazer caminho sem impor rumos, de empatia solidária, de dar testemunho de salvação, que a fé e o seguimento de Jesus Cristo cada dia alimentam.

Por isso, convido os jovens brasileiros a buscarem sempre mais no Evangelho de Jesus o sentido da vida, a certeza de que é através da amizade com Cristo que experimentamos o que é belo e nos redime: “Agora que isto tocou os teus lábios, tua culpa está sendo tirada, teu pecado, perdoado” (Is 6,7). Desse encontro transformador, que desejo a cada jovem brasileiro, surge a plena disponibilidade de quem se deixa invadir por um Deus que salva: “Eis-me aqui, envia-me!’ aos meus coetâneos” – ajudando-lhes a descobrir a força e a beleza da fé no meio dos “desertos (espirituais) do mundo contemporâneo, em que se deve levar apenas o que é essencial: (…) o Evangelho e a fé da Igreja, dos quais os documentos do Concílio Vaticano II são uma expressão luminosa, assim como o é o Catecismo da Igreja Católica” (Homilia na abertura do Ano da Fé, 11/10/2012).

Que o Senhor conceda a todos a alegria de crer n’Ele, de crescer na sua amizade, de segui-Lo no caminho da vida e testemunhá-Lo em todas situações, para transmitir à geração seguinte a imensa riqueza e beleza da fé em Jesus Cristo. Com votos de uma Quaresma frutuosa na vida de cada brasileiro, especialmente das novas gerações, sob a proteção maternal de Nossa Senhora Aparecida, a todos concedo uma especial Bênção Apostólica

Vaticano, 8 de fevereiro de 2013

Benedictus PP. XVI

O Credo do povo de Deus

Dom Demétrio Valentini
Bispo de Jales (SP)
Site CNBB

Estamos em pleno Ano da Fé. Ele teve seu início oficial no dia 11 de outubro de 2012, data que celebrava os 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II. E tem seu término estabelecido para o domingo de Cristo Rei de 2013, que neste ano vai cair no dia 24 de novembro.

Um ano que promete muitas iniciativas, em vista desta proposta de fazermos dele um “Ano da Fé”.

Mas o interessante é que recentemente já tivemos outro “ano da fé” realizado logo depois que terminou o Concílio. Aquele foi proposto pelo Papa Paulo VI. Tinha como motivação a celebração do martírio de São Pedro e São Paulo em Roma.

O martírio dos dois maiores Apóstolos aconteceu nas proximidades do ano 67 de nossa era. Daí a data daquele “Ano da Fé”, colocado entre as festas de São Pedro e São Paulo, entre o 29 de junho de 1967 e 29 de junho de 1968.

Daquele primeiro “Ano da fé” a Igreja recebeu uma herança muito preciosa. Trata-se do “Credo do Povo de Deus”, elaborado por Paulo VI, e professado por ele no dia do encerramento do Ano da Fé, em 1968.

Foi louvável o esforço do Papa de colocar dentro de uma sequência harmoniosa, todas as verdades reveladas por Deus, colocadas para o nosso conhecimento, e propostas para o nosso consentimento. Assim, através de uma profissão clara e detalhada, Paulo VI formulou a crença cristã em Deus Trindade, destacando as verdades ao alcance da Igreja sobre Jesus Cristo e o Espírito Santo. Mas explicitando também as verdades sobre Maria, sobre a Igreja, sobre a nossa realidade de pecadores envolvidos pelas consequências do pecado humano, mas chamados à santificação pela ação da graça de Deus revelada em Jesus Cristo, e levada em frente pelo ministério da Igreja.

Este “credo”, professado solenemente pelo Papa Paulo VI, ficou conhecido como o “Credo do Povo de Deus”.

Com este título se retoma a afirmação central do Concílio, que identificou a realidade e a missão da Igreja em termos de “povo de Deus”, no contexto da visão bíblica que é sintetizada nas palavras do Profeta Jeremias; “Eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo”.

Será certamente útil conferir este “Credo do Povo de Deus”, na sequência que ele próprio destaca, para percebermos a riqueza de verdades que Deus nos revelou, e o desafio de conhecê-las bem e professá-las de maneira consciente e comprometida.

Em todo o caso, é uma boa proposta iniciarmos o novo ano, guiados pelo “Credo do Povo de Deus”.

Clique aqui para ver o “Credo do Povo de Deus” na homilia do Papa Paulo VI no encerramento do Ano da Fé, em 1968.

Campanha da Fraternidade completará 50 anos em 2013

Fonte: Site CNBB

Este ano, a igreja do Brasil estará mais voltada para as temáticas relativas à juventude. No dia 13 de fevereiro, quarta-feira de Cinzas, será lançada mais uma edição da Campanha da Fraternidade (CF), com o tema “Fraternidade e Juventude” e o lema “Eis-me aqui, envia-me!” (Is 6,8). Mas além da atenção voltada à juventude, em sua temática, outro motivo de celebração é que a campanha estará completando o seu cinquentenário de fundação.

A Campanha da Fraternidade, coordenada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), é realizada anualmente pela Igreja católica, sempre no período da Quaresma. A cada ano é escolhido um tema, que define sob qual perspectiva a solidariedade será despertada, em relação a questões que envolvem toda sociedade brasileira.

O secretário executivo da Campanha da Fraternidade, padre Luiz Carlos Dias, afirma que um dos papéis da CF é ser um “elo” entre a igreja, os fiéis e a sociedade. “A campanha da Fraternidade é a igreja a serviço da sociedade, é uma evangelização que ultrapassa as fronteiras da igreja e, dessa forma, a igreja cumpre, de fato a sua missão, que é evangelizar de uma forma bem ampla”, explica o padre.

A história da fundação da CF teve início quando três padres responsáveis pela Cáritas brasileira, em 1961, idealizaram uma campanha para arrecadar fundos para as atividades assistenciais e promocionais da instituição e torná-la autônoma financeiramente. A atividade foi chamada Campanha da Fraternidade e realizada pela primeira vez na quaresma de 1962, em Natal (RN), com adesão de outras três Dioceses e apoio financeiro dos Bispos norte-americanos.

No ano seguinte, 16 dioceses do Nordeste realizaram a campanha. A princípio não houve grande êxito financeiro, mas foi o embrião de um projeto anual dos Organismos Nacionais da CNBB e das Igrejas Particulares no Brasil, realizado à luz e na perspectiva das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral (Evangelizadora) da Igreja em nosso País.

“Esta Campanha, desde seu nascedouro na arquidiocese de Natal, mostrou que seria um importante instrumento para os fiéis viverem intensamente a quaresma, pois foi capaz de fazer convergir as orações e reflexões para gestos concretos de conversão e transformação da realidade, em vista do mistério pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo”, elucida padre Luiz.

Este projeto foi lançado, em nível nacional, no dia 26 de dezembro de 1962, sob o impulso renovador do espírito do Concílio Vaticano II, o que foi fundamental para a concepção e estruturação da CF. Ao longo de quatro anos, durante as sessões do Concílio, onde houve diversos momentos de reunião, estudo, troca de experiências, nasceu e cresceu a CF.

Sobre a celebração aos 50 anos da CF, padre Luiz Carlos revela que este é um momento de “voltar às raízes do espírito que levou ao nascimento da CF”. Para o lançamento, ficou definida na manhã da quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013, uma visita ao município de Nísia Floresta (RN), localidade onde a Campanha teve início.

A programação seguirá ainda no dia 14, à tarde, quando haverá uma entrevista coletiva com a imprensa. No dia 15, será realizado um seminário sobre a temática da CF 2013 – “Fraternidade e Juventude”. Neste mesmo dia, às 17h, será realizada a solenidade oficial de lançamento, e, às 20h, será celebrada uma missa na Catedral Metropolitana de Natal (RN).

A recepção do Concílio Vaticano II no Brasil e na América Latina

Leonardo Boff

Celebramos 50 anos do Concílio Vaticano II (1962-1965). Ele representa uma ruptura do curso que a Igreja Católica vinha percorrendo por séculos. Era uma Igreja, fortaleza sitiada, defendendo-se de tudo o que vinha do mundo moderno, da ciência, da técnica e das conquistas civilizatórias como a democracia, os direitos humanos e a separação entre Igreja e Estado.

Mas uma lufada de ar fresco veio de um Papa ancião do qual nada se esperava: João XXIII (+1963). Ele abriu portas e janelas da Igreja. Disse: ela não pode ser um museu respeitável; ela tem que ser a casa de todos, arejada e agradável para se viver.

Antes de mais nada, o Concílio representou, na linguagem cunhada pelo Papa XXIII, um aggionamento, quer dizer, uma atualização e uma reconstrução de sua auto-compreensão e do tipo de presença no mundo.

Mais que sumariar os elementos principais introduzidos pelo Concílio, interessa-nos como este aggiornamento foi acolhido e traduzido pela Igreja latino-americana e pelo Brasil. A esse processo se chama de recepção que significa uma releitura e um refazimento das intuições conciliares dentro do contexto latino-americano, bem diferente daquele europeu no qual se elaboraram todos os documentos. Enfatizaremos apenas alguns pontos essenciais.

O primeiro, sem dúvida, foi a profunda mudança de atmosfera eclesial: antes predominava a “grande disciplina”, a uniformização romana e o ar sombrio e antiquado da vida eclesial. As Igrejas da América Latina, da África e da Ásia eram Igrejas-espelho daquela romana. De repente começaram a sentir-se Igrejas-fonte. Podiam se inculturizar e criar linguagens novas. Agora se irradia entusiasmo e coragem de criar.

Em segundo lugar, na América Latina se deu uma redefinição do lugar social da Igreja. O Vaticano II foi um Concílio universal mas na perspectiva dos países centrais e ricos. Ai se definiu a Igreja dentro do mundo moderno. Mas existe um sub-mundo de pobreza e de opressão. Este foi captado pela Igreja latino-americana. Esta deve se deslocar do centro humano para as periferias sub-humanas. Se aqui vigora opressão, sua missão deve ser de libertação. A inspiração veio das palavras do Papa João XXIII: “a Igreja é de todos mas principalmente quer ser uma Igreja dos pobres”.

Esta viragem se traduziu nas várias conferências episcopais latinoamericas desde Medellin (1968) até Aparecida (2007) pela opção solidária e preferencial pelos pobres, contra a pobreza. Ela se transformou na marca registrada da Igreja latino-americana e da teologia da libertação.

Em terceiro lugar, é a concretização da Igreja como Povo de Deus. O Vaticano II colocou esta categoria antes daquela da Hierarquia. Para a Igreja latinoamericana Povo de Deus não é uma metáfora; a grande maioria do povo é cristã e católica, logo é Povo de Deus, gemendo sob a opressão como outrora no Egito. Dai nasce a dimensão de libertação que a Igreja assume oficialmente em todos os documentos de Medellin (1968) até Aparecida (2007). Esta visão da Igreja-povo-de-Deus ensejou o surgimento das Comunidades Eclesiais de Base e das pastorais sociais.

Em quarto lugar, o Concílio entendeu a Palavra de Deus, contida na Bíblia como a alma da vida eclesial. Isso foi traduzido pela leitura popular da Bíblia e pelos milhares e milhares de círculos bíblicos. Neles os cristãos comparam a página da vida com a página da Bíblia e tiram conclusões práticas, na linha da comunhão, da participação e da libertação.

Em quinto lugar, o Concílio se abriu aos direitos humanos. Na América Latina foram traduzidos como direitos a partir dos pobres e por isso, antes de tudo, direito à vida, ao trabalho, à saúde e à educação. A partir daí se entendem os demais direitos, ir e vir e outros.

Em sexto lugar, o Concílio acolheu o ecumenismo entre as Igrejas cristãs. Na América latina o ecumenismo não visa tanto a convergência nas doutrinas mas a convergência nas práticas: todas as Igrejas juntas se empenham pela libertação dos oprimidos. É um ecumenismo de missão.

Por fim, dialoga com as religiões vendo nelas a presença do Espírito que chega antes do missionário e por isso devem ser respeitadas com seus valores.

Por fim cabe reconhecer: a América Latina foi o Continente onde mais se tomou a sério o Vaticano II e mais transformação trouxe, projetando a Igreja dos pobres como desafio para a Igreja universal e para todas as consciências humanitárias.

Concílio e Ano da Fé

O dia 11 de outubro, data comemorativa da abertura do Concílio, foi também escolhido como data de abertura do Ano da Fé. Assim, o Ano da Fé se apresenta como vinculado ao Concílio Vaticano II.

Existe uma insistência proposital em torno desta data de onze de outubro. Tudo para enfatizar a importância eclesial do Concílio.

A Carta Apostólica de convocação do Ano da Fé é datada no dia 11 de outubro de 2011. A publicação do Catecismo da Igreja Católica, também ocorreu num dia 11 de outubro, em 1992. E agora, o Ano da Fé tem o seu início oficial neste dia 11 de outubro de 2012, jubileu do Concílio.

Tanta insistência não deixa de ter um significado especial. É o próprio Papa Bento XVI que a vincula com os objetivos do Ano da Fé, dizendo em sua Carla Apostólica “Porta Fídei”:

“Pareceu-me que fazer coincidir o início do Ano da Fé com o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II poderia ser uma ocasião propícia para compreender que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares, não perdem o seu valor nem a sua beleza”.

Portanto, o Ano da Fé foi colocado em conexão direta com o Concílio. Foi a maneira de vincular a fé da Igreja com a proposta de renovação eclesial apresentada pelo Concílio.

É também um convite a valorizar mais os documentos do Concílio, que permanecem como bússola segura a iluminar os passos da Igreja no início deste novo milênio, como afirmou João Paulo II na Exortação Apostólica Tertio Millenio Ineunte.

Se recordamos que o Concílio levou quatro anos para se concluir, e que, portanto faltam ainda quatro anos para celebrarmos o seu encerramento, nos damos conta que este Ano da Fé se insere no contexto mais amplo, de uma sequência que poderá continuar. Nada obsta que tenhamos um “Ano da Esperança”, e se acontecer este, todo mundo vai ficar aguardando o “Ano da Caridade”.

Em todo o caso, o fato consistente é a insistência de evocar o Concílio como referência para a Igreja discernir os passos que precisa dar em nosso tempo, marcado por tantas transformações, que afetaram inclusive a própria vida da Igreja. Retomar sua identidade, e assumir sua missão, permanece como o desafio maior da Igreja em nosso tempo.

Esta vinculação profunda entre Concílio e Fé foi simbolizada na imponente cerimônia da abertura oficial do Concílio, em 11 de outubro de 1962. Um dos primeiros atos da celebração foi a solene profissão de fé, feita pelo Papa João XXIII, ajoelhado diante de todos os bispos, expressando a fé da Igreja, de forma solene, de acordo com o “Credo niceno constantinopolitano”, como para dizer que o Concílio não iria contradizer o “tesouro da fé”, recebido dos apóstolos.

A primeira tranquilidade que brota de dentro de nós, quando empreendemos qualquer iniciativa, é a certeza de contar com a bênção de Deus. Foi o que procurou fazer João XXIII, ao professar solenemente sua fé católica no momento de abrir o Concílio Ecumênico.

Tendo assumido o complexo tema referente à Igreja de Cristo, a partir do Concílio é possível recuperar todos os grandes artigos de nossa fé. A começar pela constatação de que a Igreja é chamada a ser o reflexo da comunhão trinitária, da qual passamos a fazer parte pelo dom da fé, que nos envolve em comunhão fraterna.

Com este Ano da Fé fica fortalecido o significado do Concílio, incentivando-nos a acolher os seus autênticos ensinamentos, e sobretudo, deixando-nos imbuir do seu espírito de renovação eclesial.

Dom Demétrio Valentini
Bispo de Jales (SP) e Presidente da Cáritas Brasileira até novembro de 2011
Adital

Concílio: sob o signo da alegria e da esperança

Dom Demétrio Valentini

Estamos chegando ao mês de outubro deste ano de 2012. Ele traz uma data muito esperada: o dia 11, quando se completam 50 anos da inauguração oficial do Concílio Vaticano II, acontecida a 11 de outubro de 1962.

Como os peregrinos sentiam alegria ao ver Jerusalém às portas, depois de longa caminhada, assim foi naquele dia tão esperado, em que finalmente começaria o Concílio proposto pelo Papa João XXIII.

Neste ano somos convidados a descobrir quais foram os motivos de tanta alegria. E ver se conseguimos também hoje, depois de 50 anos, reencontrar caminhos de esperança, para a Igreja e para a humanidade.

Na abertura do Concílio, ficou famoso o discurso do Papa João XXIII. Ele transmitiu a certeza de que o Concílio era fruto de inspiração divina, e que tinha chegado a hora da Igreja se renovar, se aproximar do mundo de hoje, e se colocar a serviço da humanidade, com a qual queria assumir solidariamente suas grandes causas, e a ela oferecer a luz do Evangelho.

Ele começou seu discurso com a bonita expressão: “Gaudet Mater Ecclesia”, “Alegra-se a Mãe Igreja”. Foram as primeiras palavras do Concílio.

Quatro anos depois, terminava o Concílio com as mesmas palavras de alegria e de esperança. Pois o último documento conciliar foi a constituição pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje. Ele começa com as palavras: “Gaudium et Spes”, “As alegrias e as esperanças”.

É significativa esta constatação. Entre o início e o fim do Concílio, há uma coincidência especial. No começo, a alegria da Igreja que via chegar o dia tão esperado. No final, esta mesma alegria, alargada para toda a humanidade.

“Gaudet Mater Ecclesia”, e “Gaudium et Spes”. Alegria no começo, alegria no final. Entre as duas manifestações, se realizou o Concílio. Ele foi feito sob o signo da alegria e da esperança.

Nesta constatação dá para perceber a grande influência exercida por João XXIII no Concílio. Poucos meses depois da abertura, ele iria morrer, no início do mês de junho de 1963. Mas àquela altura dos acontecimentos, o Concílio já tinha sua trajetória garantida, pela firme direção proposta por João XXIII. Os sentimentos do início, permaneceram até o final.

O preâmbulo do documento sobre a Igreja no mundo de hoje, pode ser considerado o texto que melhor expressa o espírito e os propósitos do Concílio. De todos os documentos aprovados, a Gaudet et Spes foi o único que não estava previsto nos esquemas preparatórios. Ele surgiu ao longo das discussões conciliares. Pode ser considerado como “filho legítimo” do Vaticano II.

Assim começa a Guadium et Spes:

“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração… Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história.”

Verdade é que as alegrias do Concílio foram respaldadas por um período histórico de muito otimismo, como foram as décadas de 50 e 60. Mas permanece o desafio: como reencontrar motivos de alegria e de esperança, mesmo em meio aos novos problemas que a realidade hoje nos apresenta.

O exemplo do Concílio permanece válido. Ele começou e terminou sob o signo da alegria e da esperança!

50 anos da abertura do Concílio. O processo conciliar e sua continuidade na vida da Igreja

Dom Demétrio Valentini

Introdução

Nossa vinculação com o processo conciliar

No dia 11 de outubro deste ano vamos recordar a abertura oficial do Concílio Vaticano II, ocorrida em 1962.

Passaram-se 50 anos. O momento é propício para recuperar a memória, não só de um evento individualizado, mas de um intenso processo, com o qual nos sentimos envolvidos de muitas maneiras.

Aqui em Porto Alegre o lugar é propício para recuperar a memória da dinâmica eclesial existente, quando entrou em cena o processo conciliar.

O concílio encontrou a Igreja em plena vitalidade. Em termos universais, Pio XII tinha deixado a Igreja em perfeita ordem. Como se disse do Império Romano, por ocasião do nascimento de Cristo: ‘Toto Orbe in Pace Composito”, se poderia dizer da situação deixada por Pio XII: “Tota Ecclesia in Pace Composita”!

Não havia nenhuma necessidade de concílio!

Se a Igreja estava bem no mundo, estava ótima no Rio Grande do Sul.

Como símbolos desta vitalidade, podemos destacar a figura de D Alfredo Vicente Scherer, o Cardeal Arcebispo de Porto Alegre. Ele se envolveu no Concílio desde os seus inícios, como membro da Comissão Teológica.

Ele tinha comandado com firmeza a construção do Seminário de Viamão, outro sintoma do protagonismo desta Igreja antes do Concilio.

Quero lembrar outra figura de destaque, por sua capacidade e intensa atuação, o Frei Boaventura Klopemburg, um dos poucos peritos brasileiros convidados desde o início a participar dos trabalhos de preparação do Concílio.

Recordo Dom Kloppemburg, porque participei de sua ordenação episcopal como bispo recém ordenado no dia anterior a ele, em 1982. Lembro de um episódio muito pessoal que o então Frei Boaventura me proporcionou.

No dia 11 de outubro de 1962, fui cedo à Praça São Pedro, para ver de perto a solene procissão de bispos do mundo inteiro, entrando com o Papa na Basílica de São Pedro. Graças ao Frei Boaventura pude entrar eu também, me valendo da credencial de jornalista que o Frei Boaventura me deu, lá mesmo, na Praça São Pedro!

Assim, pude participar da celebração de abertura do Concilio, me colocando mais perto do Papa do que todos os cardeais, arcebispos e bispos.

Na última Assembleia da CNBB levei um susto, ao verificar que nenhum dos bispos titulares do Brasil participou da sessão de abertura do Vaticano II, como eu tive a sorte de participar como seminarista! Foi uma graça especial, da qual nunca me esqueço, pois me coloca no compromisso de testemunhar, não só o privilégio que tive naquele dia, mas, sobretudo, o intenso envolvimento eclesial suscitado pelo Concílio.

Esta me parece ser a incumbência principal da celebração dos 50 anos do Concílio: recuperar a dinâmica eclesial suscitada pelo Concilio, e retomá-la , no contexto em que nos encontramos hoje.

A constatação de que o Concílio fez parte da dinâmica eclesial, nos desafia a retomar o protagonismo que já fez parte da Igreja do Rio Grande, de maneira destacada no contexto nacional.

Hoje também precisamos de pastores dedicados, de teólogos competentes, de liturgistas capazes, de leigos atuantes, de missionários generosos, afinal, de uma Igreja viva e atuante.

Este Simpósio em memória do Concílio, já valeria a pena pelo incentivo que nos proporciona, ao recordar o que foi nossa Igreja, e reviver as grandes perspectivas abertas pelo Concílio, com o desafio de levá-las em frente. Vivemos numa época que contou com um grande concílio. Que fizemos dele?

1) As primícias do jubileu

Passados 50 anos da abertura do Concílio, não resta dúvida que ele corre o risco de ser esquecido, ou de perder seu impulso. Numa época de tantas mudanças, não é de estranhar que um acontecimento de 50 anos atrás seja considerado passado, sem grande influência no presente.

Daí a importância de “Revisitar o Concílio”, para perceber sua vitalidade, que ainda permanece.

Neste ano, talvez em conseqüência do livro que escrevi, e que as Paulinas publicaram – “Revisitar o Concílio Vaticano II” – estou participando de muitas reflexões sobre o Concilio. Já dá para perceber algumas reações interessantes.

Em primeiro lugar, o povo simples, os leigos, a juventude, quando tomam conhecimento do que foi o Concílio, do clima de abertura, de participação, e de esperança que suscitou, logo se dão conta que o Concílio foi uma graça de Deus.

João 23 reconhecia na pronta adesão do povo um sinal da vontade de Deus. Assim agora, me parece importante respeitar o Concílio, e reconhecer que a mão de Deus esteve presente. Não dá para desprezar este Concílio, ou relativizá-lo demais.

Outra constatação incide sobre a consistência deste Concílio. Foi um concílio para valer. Assumiu um tema denso, a Igreja, na abrangência de suas diversas dimensões. Um concílio, portanto, que demanda tempo para ser implementado e assimilado.

Neste sentido, percebe-se com evidência que o Vaticano II desencadeou um processo, que ainda está em aberto. Independente se vai ser, ou não, convocado um novo Concílio, o importante é dar seqüência ao processo desencadeado pelo Vaticano II. Temos o que fazer, para implementar as intenções do Concílio!

Mas a constatação mais fecunda, me parece ser esta: este Concílio precisa ser olhado com grandeza de ânimo. Mesmo condicionado por diversas circunstâncias históricas, só nos situamos diante do Vaticano II reconhecendo suas grandes intenções e sua abertura de espírito.

Por tudo isto, dá para dizer que o Concílio não é um meteoro estranho, que passou perto de nosso planeta, e lentamente vai desaparecendo no horizonte. Ao contrário, a celebração do seu jubileu parece testemunhar sua atualidade!

2) Recordar o Concílio, para retomar sua dinâmica

O Concílio não foi, portanto, um evento alheio à realidade eclesial. Ele envolveu profundamente a Igreja. Estamos interessados em conhecer sua dinâmica, para, se possível, nos apropriar-nos dela, de tal modo que continue nos motivando, e fortalecendo nossa identidade eclesial.

Já ao ser anunciado, este Concílio desencadeou um intenso processo participativo, que entusiasmou toda a Igreja. Muitas pessoas sentiam que tinha chegado o tempo propício para empreender uma profunda renovação eclesial.

Agora vivemos um momento bem diferente. Os entusiasmos duram pouco. Por isto, é bom advertir que a memória dos acontecimentos do Concílio não pode levar a uma espécie de paralisia, fruto de um saudosismo inibidor, como se o dinamismo eclesial tivesse se esgotado com o término do Concílio.

A proposta, então, é esta: lembrar como foi viabilizado o Concílio, para ver como retomar sua dinâmica, no contexto em que nos encontramos agora.

3) Como surgiu o Concílio

À primeira vista, o relato dos acontecimentos que descrevem o surgimento do Concílio, pareceria indicar que o Concílio foi totalmente inesperado, sem vínculo histórico com as circunstâncias que o precederam.

Na verdade, houve sim uma dose grande de surpresas. Analisadas com atenção, se comprova que o Concílio se deu, sim, por uma inspiração divina, como não cansava de afirmar João23. Mas uma inspiração prontamente assumida, e sabiamente colocada em sintonia com o dinamismo eclesial já existente na época.

O surgimento do Concílio foi fruto da simbiose entre inspiração de Deus e iniciativa humana. João 23 não soube só reconhecer uma grande inspiração de Deus. Ele foi também um exímio estrategista. Ele soube revestir de motivação espiritual os seus generosos planos de iniciativas pessoais.

Os passos que conduziram João 23 a anunciar o Concílio, no dia 25 de janeiro de 1959, se constituíram numa série de surpresas, onde se podia reconhecer a mão da Providência, mas onde apareciam também as marcas da ação humana.

Colocar com desembaraço nossa ação humana no contexto da providência de Deus é, certamente, uma grande lição deixada por este Papa que surpreendeu o mundo por sua coragem humana e sensibilidade em perceber os sinais dos tempos.

A primeira surpresa foi a própria eleição do Cardeal Ângelo Roncali, com 77 anos, desconhecido de quase todo o mundo, com aparência de simples vigário de campanha, surpresa reforçada até pelo nome por ele assumido, de João 23!

Logo foi entendido como “papa de transição”. A surpresa maior foi descobrir que, na verdade, ele seria o papa DA grande transição!

Mas à surpresa de sua eleição, o novo Papa foi acrescentando outras surpresas, fruto de sua vivência pessoal, que muito contribuíram para preparar o clima favorável para o anúncio do Concílio.

Ele se mostrou logo como o “papa da bondade”. Uma bondade revestida de mística cristã, mas feita também de gestos humanos, que foram cativando a simpatia de todos. No Natal de 1958 ele saiu do Vaticano para visitar crianças doentes no hospital. No dia seguinte foi visitar os presos na cadeia de Roma.

Com estes gestos de autenticidade evangélica, João 23 pavimentou o caminho para o anúncio do Concílio, que foi prontamente aceito com entusiasmo, sobretudo pelo povo romano, que tinha logo aprendido a amar o seu papa simples e bondoso.

Para grandes planos, é preciso primeiro pavimentar o terreno com nossa autenticidade.

No anúncio do Concílio houve um evidente fenômeno de transferência afetiva. A grande simpatia pela pessoa do papa foi transferida para a ideia do concílio ecumênico. O concílio passou a ser olhado com entusiasmo e esperança, porque era proposto pelo Papa João 23.

Como nos inícios da Igreja, o povo animado do Espírito Santo servia de critério para guiar os passos da Igreja.

A generosa adesão do povo foi muito bem capitalizada por João 23. Assim o processo conciliar teve desde o início um grande respaldo popular, que servia de aval para as providências a serem tomadas.

Este fato nos dá um precioso ensinamento, e um bom desafio. Como fazer para perceber o rumo a seguir, sinalizado pelos “sinais dos tempos”, que nos revelam o “sensus fidelium”, como soube fazer João 23?

4) Momentos decisivos do Concílio

A memória do Concílio não é retilínea. Houve momentos que direcionaram o processo conciliar. Podemos identificar alguns deles, que acabaram definindo o rumo do Concílio.

4.1. O anúncio do Concílio.

O anúncio do Concílio, no dia 25 de janeiro de 1959, se constituiu no fato primordial de todo o Vaticano Segundo. Já vimos as circunstâncias em que se deu este anúncio, que desencadeou o processo conciliar.

Olhando a estratégia do Papa, de difundir a notícia pela imprensa antes de comunicá-la aos cardeais, para evitar possíveis resistências, e constado como perduram, ainda hoje certas resistências, ficam algumas perguntas que nos alertam. .

Ao longo de todo o Concílio, será que não faltou um diálogo maduro e franco, para superar as resistências, mesmo sabendo que podiam ser fruto de preconceitos ultrapassados?

4.2. Ampla consulta às bases

A “comissão ante preparatória”, foi incumbida de elencar os assuntos a serem abordados pelo Concílio. Ela foi muito feliz em dar a palavra às bases, através de ampla consulta, endereçada aos bispos do mundo inteiro, às congregações religiosas, aos reitores de universidades católicas, e aos membros da Cúria Romana.

Com a resposta de 77% dos entrevistados, foi possível não só recolher preciosas sugestões para a temática do Concílio, mas perceber também como é válido dar atenção às bases, e valorizar o que o povo tem a dizer.

4.3. Expectativa mundial em torno de um evento eclesial

Desde o início, já no dia do seu anúncio, o Concílio entrou na pauta das agências de notícias. Foi muito significativo o interesse do mundo em acompanhar um evento da Igreja.

É sintoma positivo quando a Igreja se torna sinal de esperança para o mundo. Como estamos hoje?

4.4. O discurso de abertura do Concílio

Repercutiu muito o discurso de João 23 no dia da abertura do Concílio Não deixou dúvidas que o Concílio era mesmo para valer. A Igreja precisava atualizar a maneira de apresentar ao mundo as verdades perenes, que precisam ser bem captadas em cada época.

Repercutiu, sobretudo, a disposição da Igreja diante dos erros, preferindo “usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade.”.

E a recomendação da Igreja de se mostrar “mãe amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de misericórdia e bondade também com os filhos dela separados”.

Este devia ser um concílio sem nenhum anátema!

Diante desta generosa proposta de João 23, vale perguntar se é ainda esta a postura da Igreja, ou, parafraseando o salmo, “… a mão da Igreja mudou, não é mais a mesma”!

4.5. A eleição dos membros das comissões conciliares

Uma providência muito importante foi tomada pelos bispos na sua primeira sessão de trabalho. Precisavam escolher 16 nomes para cada uma das dez comissões conciliares Como podiam tirar da cabeça tantos nomes, assim de improviso? Graças à intervenção do Cardeal Liénard, secundado por outros, a escolha foi adiada, com três dias para os episcopados se consultarem entre si, em vista de identificar os nomes mais convenientes a serem indicados.

Assim ficou garantida a representatividade do episcopado mundial

Com isto, os bispos se apropriaram do espaço conciliar, que lhes pertencia de fato.

Como ocupar os espaços que são nossos? Como colocá-los a serviço da Igreja e da sociedade? Esta é outra questão, que o concílio nos propõe.

4. 6. Prioridade dada à liturgia

O primeiro assunto debatido no Concílio, no começo da primeira sessão anual, foi a liturgia. Foi uma feliz escolha. Pois o assunto era o mais próximo a cada bispo, e despertava um interesse imediato.

Além do mais, era o esquema mais maduro, que recolhia os esforços do Movimento Litúrgico, um dos principais movimentos que precederam o Vaticano II

Os debates em torno da liturgia serviram também para os bispos afinarem um pouco melhor o seu latim, seja para as intervenções na aula conciliar, como sobretudo para entenderem o que se falava. A liturgia aplainou o caminho dos debates conciliares. Serviu para amaciar o motor para a longa viagem que estava à frente.

4.7. A primeira rejeição de um esquema

Terminado o debate preliminar sobre a liturgia, e aprovado o seu esquema como “base para o documento conciliar”, foi introduzido outro tema, cujo desfecho seria surpreendente, e iria provocar um alinhamento do plenário, que atravessou depois todo o Concílio.

Acontece que o esquema sobre a Revelação, “De fontibus revelationis”, era vazado em termos fortemente polêmicos, próprios ainda da “Contra Reforma”. Em contraste, portanto, com a proposta de João 23, de buscar a aproximação com os “irmãos separados”.

Levado à votação, expressiva maioria se mostrou contrária ao documento, pedindo sua substituição. Mas faltaram poucos votos para atingir os dois terços necessários para rejeitar um esquema, de acordo com o regulamento. Parecia criado um impasse difícil de contornar.

Foi então que João 23 interveio pela primeira vez nos trabalhos conciliares, mandando substituir o esquema por outro mais de acordo com as expectativas ecumênicas.

O fato teve grande repercussão, e conseqüências práticas muito determinantes, pois de certa maneira conformou uma expressiva maioria conciliar, feita dos que tinham votado contra o documento, e acrescida de muitos outros bispos que no gesto do Papa perceberam que ele não se prendia aos esquemas preparatórios, muitos deles vazados ainda em linguagem da contra-reforma. A partir daí, as votações encontraram um claro critério de posicionamento, que atravessou todo o concílio.

Alguns historiadores chegam a identificar naquele gesto do Papa o fim da “contrarreforma”. Ela teria se encerrado no dia 20 de novembro de 1962, data da decisão de João 23 de mandar retirar o polêmico esquema sobre “as fontes da revelação”.

Aqui se introduz outra ponderação, que não é fora de propósito. Trata-se da oportunidade que um evento extraordinário oferece, para superar preconceitos cristalizados há séculos, romper resistências, e abrir espaços para um clima de diálogo.

Foi o que proporcionou este Concílio, possibilitando uma nova relação, de diálogo e de respeito, entre católicos e “irmãos separados”. E em boa parte, somente à luz do forte impacto do concílio se compreende a aceitação das grandes mudanças efetivadas na liturgia. E se compreende como alguns ainda não as tenham aceitado.

Em todo o caso, fica o desafio: como canalizar as energias positivas dos acontecimentos que causam impactos, e podem provocar mudanças.

No que se refere ao ecumenismo, será que não desperdiçamos uma preciosa oportunidade de maior aproximação e de compromissos progressivos em direção à plena reconciliação?

4.8. A redução dos esquemas preparatórios

No intervalo entre a primeira e a segunda sessão, foi tomada uma importante decisão. Foi reduzido drasticamente o número dos esquemas preparatórios. Eram pouco mais de setenta. Foram reduzidos a pouco mais de dez.

Isto foi possível porque no final da primeira sessão, ao iniciar a análise do esquema sobre a Igreja, os bispos se deram conta, muito claramente, que tinham chegado ao tema central, que poderia aglutinar todos os outros.

Tinha emergido o núcleo central do Concílio. Este seria um concílio claramente “eclesiológico”, enquanto os primeiros concílios da Igreja tenham sido claramente “cristológicos”.

Estava definida a tarefa do Concílio: apresentar a verdadeira identidade da Igreja, na sua natureza e na sua missão, no contexto do mundo de hoje. Uma Igreja comprometida com a renovação, inspirada no Evangelho de Cristo e no exemplo da Igreja Primitiva, comprometida com a causa da unidade dos cristãos, e inserida na sociedade, com quem se mostra solidária na busca da justiça, da fraternidade e da paz. Um objetivo que certamente demanda muito tempo para ser implementado!

A partir daí, o Concílio estava bem centrado, tinha um tema que nucleava todos os outros assuntos.

Em nossa pastoral também é importante encontrar um núcleo central, que possa dar organicidade à diversidade de aspectos e de atividades.

4.9. A Igreja como Povo de Deus

A importância teológica e pastoral desta opção do Concilio

A ideia de acrescentar um capítulo sobre a Igreja como Povo de Deus, antes do capítulo sobre a Hierarquia, foi prontamente assumida, e o gesto foi interpretado como expressão concreta do Concílio, para fundamentar uma visão de Igreja que superasse as discriminações.

Esta opção de privilegiar a visão de Igreja como Povo de Deus teve tanta repercussão no Concílio, que ela se assemelhou à famosa “revolução copernicana”, quando a humanidade se deu conta, ajudada por Copérnico, que não era o sol que girava ao redor da terra, mas a terra que girava ao redor do sol.

Assim a centralidade da Igreja não estava na hierarquia, mas no Povo de Deus, que inclui todos os membros da Igreja, de maneira igualitária e fundamental, e a serviço do qual está a hierarquia.

Com a introdução do capítulo sobre o Povo de Deus, o Concílio fazia a clara opção de uma visão bíblica e ao mesmo tempo histórica da Igreja.

A visão de Igreja como Povo de Deus possui uma centralidade, cujo alcance pode escapar a uma análise superficial da eclesiologia do Vaticano Segundo.

O Capítulo Segundo da Lumen Gentium tem uma centralidade dinâmica. Possibilita situar a Igreja no seu relacionamento histórico com a diversidade de “povos, línguas e nações”, afinal, na sua encarnação concreta e na sua vizinhança com a realidade histórica da humanidade.

Por isto, parece equivocada a interpretação divulgada a partir do Sínodo especial comemorativo dos 20 anos do Concílio, em 1985, que teria relativizado a visão de Igreja Povo de Deus, para ressaltar a dimensão de Igreja como mistério de comunhão.

A afirmação do Concílio, para ser bem entendida, precisa ser situada no contexto histórico em que foi formulada. Ela serviu para fundamentar uma nova visão de Igreja, que vinha ao encontro das grandes expectativas de renovação eclesial, que o Concílio tinha desencadeado.

4.10. Colegialidade Episcopal: uma Igreja corresponsável e participativa

Ao lado da importância da visão de Igreja como Povo de Deus, o Vaticano II enfrentou a questão da Colegialidade Episcopal, de grande peso teológico, que estava pendente desde o Vaticano Primeiro.

Colocado o capítulo sobre a hierarquia depois do capitulo sobre o Povo de Deus, ficou mais fácil de compreender a hierarquia como um serviço ao Povo de Deus, e partir daí entender sua importância, e sua missão específica.

Neste Capitulo, de maneira mais destacada, o Concílio analisa e define a natureza e a missão do Episcopado, entendido como um sacramento com dimensão eclesial muito clara e fundamental.

Não é o caso de discorrer aqui sobre as múltiplas decorrências que poderiam advir de uma prática mais adequada da Colegialidade Episcopal. Ela simboliza a corresponsabilidade eclesial, com o incentivo para a participação de todos na vida e na missão da Igreja.

Mas no mínimo é conveniente ressaltar que da reta visão da colegialidade, e da visão da Igreja como Povo de Deus, derivam as grandes intuições pastorais do Concilio Vaticano Segundo.

Em especial, a importância das Igrejas Locais, como concretizações da Igreja nas realidades onde ela se insere, na diversidade de raças e culturas.

Igualmente a importância das comunidades eclesiais, onde o Evangelho pode ser vivido na prática da convivência cotidiana e da inserção no mundo.

5 ) Contexto histórico do Vaticano II

Não se entende o Concílio Vaticano II sem ter presente o ambiente histórico em que ele se realizou.

As décadas de 50 e de 60 foram as mais otimistas dos últimos séculos. A Europa estava em pela reconstrução no pós-guerra. A humanidade iniciava sua carreira espacial, com a meta de chegar na lua antes do final da década de sessenta.

Na política estava acontecendo a distensão entre leste e oeste, com Kennedy nos Estados Unidos, Kruchev na União Soviética, e João 23 no Vaticano.

As nações da África iam proclamando sua independência e o mito do desenvolvimento sem limites contagiava a todos.

Foi neste clima de otimismo e de esperança que se realizou o Vaticano II.

A Igreja percebeu a hora da graça, soube aproveitar as condições favoráveis que a história lhe proporcionava para mobilizar a Igreja para um evento de tamanha envergadura, como seria o Concílio Vaticano II.

Esses tempos de otimismo duraram pouco. Já no final da década de sessenta, eclodiu em 1968 a revolta dos estudantes na França, sintoma da grande transformação cultural que a secularização iria espalhar rapidamente pela Europa e pelos países do primeiro mundo.

A propósito da secularização, com os profundos impactos que ela trouxe, alguns fazem uma leitura equivocada da história. Porque a secularização ocorreu depois do Concílio, se conclui, erroneamente, que ela foi causada pelo Concílio.

Não deixa de ser verdade que a recepção do Concílio coincidiu em muitos lugares com a chegada da secularização, confundindo as cabeças de muitas pessoas. .

Fica outro bom desafio: como aproveitar os ventos favoráveis da história, para conduzir melhor a barca da Igreja.

6) Movimentos eclesiais que precederam o Concílio

Outro ponto indispensável para compreendermos o Concílio, é perceber a importância que tiveram os diversos movimentos eclesiais que o precederam. Todos consistentes, e denotando a vitalidade que há mais tempo vinha acontecendo na Igreja.

Basta aqui citar esses movimentos, para perceber como o anúncio do Concílio encontrou a Igreja em pleno dinamismo.

Os movimentos litúrgico, bíblico, ecumênico, teológico despertavam o interesse pelas questões próprias de cada um, levando muitas pessoas a aderirem a estes movimentos com conhecimento de causa e boa formação.

Basta conferir a consistência do movimento litúrgico, com diversos mosteiros servindo de referência para o estudo e aprofundamento das questões litúrgicas. Eles ofereceram as bases para a Igreja propor uma reforma litúrgica em profundidade, e que precisa de tempo adequado para se consolidar!

Por sua vez, a Ação Católica, proporcionava a participação de muitos cristãos nas realidades políticas e sociais. E o “movimento por um mundo melhor” motivava seus membros a assumirem a fé cristã com mais ardor e convicção.

Pois bem, a constatação da força destes movimentos anteriores ao Concílio nos ajuda a perceber que o Concílio não prescindiu da caminhada anterior da Igreja, nem provocou rupturas com ela.

Ao contrário, soube valorizar estes movimentos, tornando-se estuário de todos eles, recolhendo a preciosa contribuição que tinham dado para a Igreja. Eles proporcionaram ao Concílio a plêiade de peritos, competentes em seus respectivos ramos

Assim fazendo, o concílio nos deixa uma lição, a ser aprendida com discernimento. .

Como o Concílio, nós também somos chamados a valorizar as riquezas que brotam da vida do Povo de Deus. Mesmo que às vezes seja necessário superar preconceitos. Diversos dos grandes teólogos que prestaram sua competente contribuição, tinham sido colocados sob suspeita, e até proibidos de lecionar.

Com a abertura causada pelo Concílio, foram reintegrados na vida eclesial, e convocados como peritos.

Muitas vezes a renovação da Igreja passa pelo endereço de pessoas que são olhadas com reserva.

Somos chamados a retomar nosso protagonismo eclesial, agindo com espírito evangélico, com alegria, competência e liberdade.

É a partir da ação de cada um que a Igreja se renova e cresce.

Conclusão

O Concílio foi escola de vivência eclesial. Os diversos momentos decisivos do Concílio se constituem em exemplo de atuação eclesial bem conduzida.

Independente de quando vamos ter um outro Concílio, o que importa é resgatar o processo conciliar, vivendo a conciliariedade da Igreja, com sua prática de estar atenta aos sinais dos tempos, com a certeza de contar com a atuação do Espírito quando ela se reúne para discernir os passos a dar.

Assim o Concílio fica integrado na vida da Igreja, e nós podemos continuar a sua dinâmica.

Nota da CNBB sobre o falecimento de Dom Eugênio Sales

A Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) recebe, com profundo pesar, a notícia da morte do Cardeal dom Eugênio de Araújo Sales, arcebispo emérito do Rio de Janeiro (RJ), ocorrida no final da noite desta segunda-feira, 9 de julho de 2012.

Dom Eugênio é uma verdadeira página da história da Igreja no Brasil. Seu caminho de vida percorrido como padre e bispo está associado aos marcos do trajeto feito pela comunidade dos discípulos missionários de Cristo neste país. Ordenado padre em 1943, desempenhou trabalho pastoral na então diocese de Natal (RN) onde veio a ser bispo auxiliar da já arquidiocese de Natal, em 1954, por nomeação do Papa Pio XII. Nomeado como arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, em 1968, criado Cardeal no Consistório de 1969, dom Eugênio ficou na Bahia até ser transferido pelo Papa Paulo VI para a arquidiocese do Rio de Janeiro, em 1971, lugar onde exerceu seu pastoreio até a renúncia aceita pelo Papa João Paulo II, em 2001.

Inspirado pelo seu lema episcopal, “Impendam et Superimpendar” (alusão a 2Cor 12, 15: “Quanto a mim, de muito boa vontade gastarei o que for preciso e me gastarei inteiramente por vós”), dom Eugênio foi Padre Conciliar do Vaticano II, criador da Campanha da Fraternidade e também apoiou o Movimento de Educação de Base e as Comunidades Eclesiais de Base. Homem de vasta cultura, sempre teve admiração por parte da sociedade brasileira. Por tudo isso e pela sua expressão de pastor, dom Eugênio foi uma permanente referência da Igreja nos momentos mais significativos da vida social e política no Brasil. Ele jamais se recusou a dar sua palavra firme, ortodoxa, clara a respeito dos mais importantes princípios da vida moral tanto da pessoa quanto da sociedade.

Era um comunicador que chegava, com facilidade, ao entendimento da opinião pública, mesmo depois de se tornar arcebispo emérito do Rio de Janeiro, dom Eugênio manteve publicação regular de seus textos em um blog na internet. Recentemente, por ocasião da Páscoa deste 2012, ele mesmo determinou que seria publicado um último artigo no qual ele escreveu: “Ao passo que a alegria, presságio do transcendente, faz-nos sentir algo superior às experiências comuns, ela, todavia, acorda em nós o mais próprio, o mais íntimo de nós mesmos. Será que não está inscrita na experiência pura e honesta da alegria uma tênue e todavia forte certeza de que a mais profunda realidade de nosso ser é imagem do eterno? Este estado de alma é como uma atmosfera jubilosa de nossa mente, que se reflete em nossos sentimentos e que se irradia em nossos relacionamentos humanos”.

Despedimos-nos de dom Eugênio com este sentimento que ele antevia em sua reflexão, isto é, com “presságio de transcendência”. Agradecemos a Deus pela sua caminhada cheia de frutos para a vida da Igreja e do povo e nos solidarizamos com seus familiares, especialmente com seu irmão dom Heitor Araújo Sales, arcebispo emérito de Natal, com a arquidiocese do Rio de Janeiro e com dom Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro. Nossa oração nos consola na certeza de sua páscoa e na esperança de que esse nosso irmão compartilhava da convicção que nos foi deixada pelo apóstolo de que a “a coroa da justiça” está reservada para ele pelo Senhor, o justo juiz, que dará essa coroa, “não somente a ele, “mas a todos os que tiverem esperado com amor a sua manifestação”( 2 Tm 4,8).

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB

Jubileu de Ouro do Concílio Vaticano II

Padre  Sandro Ferreira

Ouçamos “o que o Espírito diz às igrejas” (Ap 2,7)

O ano de 2012 marca o jubileu de ouro do início do Concílio que mudou os rumos da Igreja Católica em todo o mundo. Conhecido como um “sopro do Espírito” e como a “primavera da Igreja”, o Vaticano II provocou diversas e profundas mudanças no âmbito eclesial. Ao comemorarmos os cinquenta anos de sua realização, quais propostas continuam pertinentes à nossa realidade? Haveria chegado o momento de um Vaticano III?

O Concílio Vaticano II realizou-se de 11 de outubro de 1962 a 08 de dezembro de 1965 (dividido em quatro sessões) e reuniu bispos de todo o mundo com o objetivo de “intensificar a vida cristã, atualizando as instituições que podem ser mudadas, favorecendo o que contribui para a união dos fiéis em Cristo e incentivando tudo que os leva a viver na Igreja” (SC, n. 1). Foi convocado pelo Papa João XXIII (1958-1963) e concluído por Paulo VI (1963-1978), sendo considerado por diversos teólogos como o fato religioso mais importante do século XX.

Antes do Concílio, já havia diversos movimentos – litúrgico, bíblico, teológico – que reivindicavam mudanças no cenário eclesial e que, de certa forma, “impulsionaram” a realização do Concílio, pois criaram uma tensão cada vez mais latente na Igreja, de forma que esta precisava responder às novas perguntas que surgiam naquele momento. O Papa João XXIII percebeu que o melhor modo para responder àqueles desafios seria a convocação de um concílio.

Ao todo, durante o Vaticano II foram produzidos dezesseis documentos que abordam os principais temas ligados à evangelização. São quatro constituições: Lúmen Gentium (Igreja), Gaudium et Spes (Igreja e mundo), Dei Verbum (Revelação) e Sacrosanctum Concilium (Liturgia); nove decretos: Inter Mirifica (Meios de comunicação social), Orientalium Ecclesiarum (Igrejas orientais católicas), Unitatis Redintegratio (Ecumenismo), Christus Dominus (Bispos), Perfectae Caritatis (Vida religiosa), Optatam Totius (Formação sacerdotal) Apostolicam Actuositatem (Apostolado leigo), Ad Gentes (Missões) e Presbyterorum Ordinis (Ministério e vida sacerdotal); e três declarações: Gravissimum Educationis (Educação Cristã), Nostra Aetate (Religiões não cristãs) e Dignitatis Humanae (Liberdade religiosa).

Em relação à identidade e às estruturas da Igreja, o texto conciliar mais importante é a constituição dogmática Lumen Gentium (LG), pois marca uma profunda mudança eclesiológica, com consequências para os ministros ordenados e também para os leigos. Algumas ideias-força do Concílio são os seguintes deslocamentos: de uma Igreja mais voltada sobre si para uma Igreja aberta ao mundo (LG, nn. 3, 8, 17); de uma Igreja centrada na hierarquia para uma Igreja Povo de Deus (LG, nn. 2, 10, 32); de uma compreensão universalista para uma Igreja local, pois é nesta que acontece a plena e ativa participação do povo de Deus (LG, nn. 13, 23, 26, 28).

No período pós-conciliar houve reações tanto contrárias quanto favoráveis às conclusões e proposições apresentadas pelos bispos. As reações surgiam pelo fato de que as pessoas, principalmente os ministros ordenados formados antes do Concílio, tinham dificuldades para se adaptar ao novo modo de ser Igreja. Mas, (e não há como negar!) muitos foram os frutos do Vaticano II, pois este fez com que a Igreja se compreendesse e fosse compreendida de modo ministerial, valorizando os carismas e ministérios, nos quais todos os fiéis têm seu valor e importância.

Segundo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, os frutos desse Concílio se manifestaram nos mais diversos âmbitos da vida eclesial: na compreensão da Igreja como povo de Deus, corpo de Cristo e templo do Espírito Santo; na abertura da Igreja aos desafios do mundo atual, partilhando suas alegrias, tristezas e esperanças; na colegialidade dos Bispos; na renovação da liturgia; no conhecimento e na acolhida da Palavra de Deus; no dinamismo missionário e ministerial das comunidades; no diálogo ecumênico e inter-religioso (Mensagem sobre a celebração do 50º aniversário do Vaticano II).

Entretanto, a atualidade eclesial sinaliza certo distanciamento das intuições básicas e dos eixos fundamentais do Vaticano II, expressos, sobretudo, na eclesiologia, na espiritualidade e na volta do clericalismo. Há algumas iniciativas anti-Vaticano II, em que fica acentuada mais uma relação piramidal que ministerial, uma relação de poder e não de serviço.

Por isso, o jubileu de ouro desse Concílio deve ser marcado por dois polos: a) primeiramente, uma olhar retrospectivo, em que se avalie até que ponto as conclusões conciliares foram aplicadas na ação eclesial na atualidade e que luzes são apresentadas para a evangelização contemporânea; b) e um olhar prospectivo, ou seja, a partir do contexto em que estamos, buscar perspectivas para que o aggiornamento (renovação) buscado pelo Concílio realmente aconteça na vida da Igreja. Há muitas coisas que ainda não foram colocadas em prática e que precisam de um novo impulso para se tornar ações concretas.

Entendemos que não seja momento para se pensar em um novo evento (como um Vaticano III, por exemplo), mas que seja momento de potencializar as decisões tão acertadas e profundas tomadas pelos bispos conciliares. Em relação a isso, o Papa Bento XVI afirmou que “com o passar dos anos, os textos conciliares não perderam sua atualidade; ao contrário, seus ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes em relação às novas situações da Igreja e da atual sociedade globalizada” (Discurso aos cardeais eleitores, 20/04/2005).

Neste período jubilar espera-se que os textos conciliares sejam retomados com novo ardor pela Igreja como um todo. Os diversos setores eclesiais precisam ter a coragem de refletir seriamente sobre as temáticas vigentes na evangelização e tomar decisões que correspondam aos anseios da sociedade moderna.

Enfim, que o cinquentenário do Vaticano II ajude a Igreja a rever suas posturas e estruturas que não correspondem aos desafios atuais e que ela esteja sempre pronta para “ouvir o que o Espírito diz às igrejas” (Ap 2,7).

*Pároco da Paróquia Santo Antônio de Pádua – Maringá – PR

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Concílio e identidade latino-americana

Dom Demétrio Valentini

Nesta semana tive a oportunidade de participar da Assembleia da CLAR – Conferência Latino Americana dos Religiosos, em Quito, no Equador.

A entidade talvez não seja tanto conhecida. Mas ela é muito importante no contexto da Igreja da América Latina. Basta ter presente os milhares de Irmãs, Irmãos, Padres, das muitas Congregações que se fazem presentes, desde os primórdios da Igreja no continente americano, e que há 53 anos se articulam, através da CLAR.

Se olhamos as datas, percebemos a proximidade da trajetória da CLAR com a caminhada de renovação da Igreja, impulsionada em nossa época pelo Concílio Vaticano II.

Na sempre delicada tarefa de propor objetivos comuns, dentro da indispensável comunhão eclesial, se constitui num fator de segurança cultivar as grandes referências que balizam a missão da Igreja em nosso tempo. Entre as referências que continuam válidas, está, certamente, o Concílio. Daí o acerto da CLAR, de evocar o Concilio durante sua assembleia, ainda mais que neste ano é a Igreja toda que o recorda, no cinquentenário de sua abertura oficial.

Entre tantos aspectos, que a reflexão da CLAR só teve o tempo de acenar de leve, encontra-se uma coincidência que coloca desafios muito especiais para a Igreja da América Latina,

Acontece que o Vaticano II encontrou a Igreja da América Latina em pleno processo de afirmação de sua própria identidade eclesial. O continente latino americano, e a Igreja da América Latina, estavam despertando para assumirem sua própria identidade, libertando-se de dependências históricas, que de diversas maneiras tinham impedido a afirmação de sua autonomia.

Seria muito interessante conferir em que medida a recepção do Concílio estimulou e fortaleceu esta identificação, ou de que maneira esta identificação foi obstaculizada.

Em primeiro lugar é forçoso reconhecer que o Concílio se constituiu num fator de grande incentivo para o processo de descentralização eclesial. Pois o Concílio forneceu o suporte teológico, que possibilitava sonhar com a sadia diversidade de Igrejas Locais, que iriam enriquecendo a Igreja Universal, por suas fisionomias eclesiais próprias.

O continente latino americano estava sequioso de autonomia política e de afirmação de sua identidade. A Igreja estava disposta a abraçar as causas do povo, contribuindo com sua presença de serviço e oferecendo a riqueza de sua fé, que estimulava a integração de valores culturais e humanos em sua fisionomia eclesial.

O Concílio Vaticano II veio fecundar o processo libertário da América Latina, envolvendo a Igreja de maneira muito intensa.

Em primeiro lugar, portanto, o Concílio despertou a Igreja da América Latina, incentivando-a assumir sua própria identidade, de maneira autônoma e responsável.

Ao mesmo tempo, começaram cedo as resistências a este processo, sobretudo diante de algumas expressões eclesiais que se tornariam típicas da Igreja na América Latina, e que podem ser assim elencadas: as Comunidades Eclesiais de Base, a opção pelos pobres, a Teologia da Libertação e a leitura popular da Bíblia.

A mais contestada de todas, a Teologia da Libertação, é aquela que mais pode encontrar sua justificativa. O povo da América Latina, seus países, a própria Igreja, estava vivendo um processo libertário, que precisava com urgência ser sustentando em suas motivações. Necessitava de uma “teologia da libertação”, solicitada por um processo que o Concílio incentivava, de atenção para com os “sinais dos tempos”…

Basta este breve aceno ao contexto histórico, para dar-nos conta do tamanho das questões que uma avaliação do Concílio solicita. Ele foi um grande concílio, e só com espírito grande é possível aquilatar a consistência de suas propostas, que ainda aguardam uma aplicação condizente com a sua profundidade.