humanidade

Papa ao Fórum de Davos: a humanidade seja servida pela riqueza e não governada por ela

Dignidade do homem, economia a serviço do bem comum, inclusão social, luta contra a fome e atenção aos refugiados: esses são os principais temas da mensagem enviada, nesta terça-feira, 21 de janeiro, pelo Papa Francisco ao Fórum Econômico Mundial, que se realiza em Davos, na Suíça, até o próximo sábado, dia 25. No documento pontifício, endereçado ao Presidente executivo do Fórum, Klaus Schwab, o Santo Padre faz votos de que o encontro se torne “ocasião para uma reflexão aprofundada sobre as causas da crise econômica mundial”, porque – escreve –, apesar de em alguns casos a pobreza ter sido reduzida, “por vezes permaneceu mesmo assim uma ampla exclusão social”, e ainda hoje, “a maioria de homens e mulheres continua a experimentar todos os dias a insegurança, muitas vezes com consequências dramáticas”. Daí, o convite do Papa a fim de que a política e a economia trabalhem para a promoção de “uma abordagem inclusiva que leve em consideração a dignidade da pessoa e o bem comum”.

“É intolerável – escreve Francisco -, que milhares de pessoas continuem a morrer todos os dias de fome, apesar de serem disponíveis notáveis quantidades de alimento que frequentemente são desperdiçadas”. Ao mesmo tempo, o Papa sublinha que “não podemos ficar indiferentes diante de tantos refugiados em busca de condições de vida minimamente dignas e que não só não encontram hospitalidade, mas às vezes, tragicamente, morrem durante o percurso de um lugar para outro”. “Sei que essas são palavras fortes e até mesmo dramáticas – destaca o Santo Padre –, mas elas querem tanto afirmar quanto desafiar a habilidade deste encontro a fazer a diferença”. O que é necessário, reafirma o Pontífice, é “um sentido de responsabilidade renovado, profundo e amplo da parte de todos”, para “servir mais eficazmente ao bem comum e tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos”.

Fazendo suas as palavras de Bento XVI na Caritas in veritate, o Papa Francisco sublinha, ainda, que a igualdade não dever ser somente econômica, mas também deve basear-se em uma “visão transcendente da pessoa”, de modo que se possa obter “uma melhor distribuição da riqueza, a criação de fontes de emprego e uma promoção integral dos pobres que vá além de uma mentalidade puramente assistencialista”.

A mensagem do Pontífice se conclui com um forte apelo: “Peço a todos – escreve – que façam de modo que a humanidade seja servida pela riqueza e não governada por ela”, na ótica de “uma abordagem ética que seja verdadeiramente humana”, levada avante por pessoas “de grande honestidade e integridade”, guiadas por “altos ideais de equidade, generosidade e cuidado pelo autêntico desenvolvimento da família humana”.

Tendo chegado à 44ª edição, o Fórum de Davos tem a participação, neste ano, de 2.500 pessoas, dos quais cerca de 40 Chefes de Estado ou de Governo. Presentes também numerosas ONGs e vários representantes religiosos: representando a Igreja Católica estão os cardeais Peter Turkson, Presidente do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz; Dom John Onayekan, Arcebispo de Abuja, na Nigéria, e Luis Antonio Tagle, Arcebispo de Manila, nas Filipinas, além do Arcebispo de Dublin, Dom Diarmuid Martin. (SP)

Fonte: News.Va

Papa Francisco: um pecador perdoado

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Quem leu a longa entrevista concedida pelo Papa Francisco, publicada ao mesmo tempo em várias revistas da Companhia de Jesus, teve a graça de saborear as palavras de um homem autêntico e apaixonado por sua missão.

Cada um e cada uma terá tido suas preferências ao longo da entrevista, terá gostado mais deste ou daquele trecho, terá se sentido tocado por uma ou outra afirmação do Pontífice. Aqui gostaria de comentar um trecho específico que me tocou muito de perto.

Perguntado por sua identidade e pela autoconcepção que tem de si próprio com a frase: “Quem é Jorge Mario Bergoglio?”, o Papa respondeu: “Eu sou um pecador. Esta é a melhor definição. E não é um modo de dizer, uma figura de linguagem. Sou um pecador.” Não deixa de ser surpreendente um homem a quem todos chamam de Sua Santidade ter a coragem e a humildade de definir-se pelo pecado que compartilha com todo o resto da humanidade.

E continuou na mesma linha: “Sou um pecador para quem o Senhor olhou. Sou alguém que é olhado pelo Senhor. A minha divisa, Miserando atque eligendo, senti-a sempre como muito verdadeira para mim.” Aí o Papa Francisco avança, com a simplicidade que lhe é característica, para o coração do que é a vida cristã. Ser um pecador que se sabe perdoado, que se sabe vivo pela misericórdia do Senhor, que é sempre maior do que o pecado que possa desviar-nos do bem que desejamos e conduzir-nos ao mal que não queremos.

Fala aí o Papa, certamente, porém mais ainda o jesuíta, formado na escola dos Exercícios de Santo Inácio. Pois é exatamente o que esta experiência espiritual provoca e estimula no exercitante: apalpar toda a extensão do próprio pecado e sentir que este não lhe tira a vida, nem a capacidade de amar. Mas pela misericórdia de Deus, que o olha com compaixão e perdão, é chamado a ser servidor do Reino e da missão de Cristo.

Depois, com extrema candura, o Papa narrou sua vocação. O desejo estava ali, latente, no jovem argentino descendente de imigrantes italianos do Piemonte. Queria algo mais. Até que o Senhor o olhou nos olhos enquanto ele estava atrás de sua banca de impostos, agarrado ao dinheiro como Mateus, o publicano. Descreve com humor e vivacidade sua resistência. Agarrado ao dinheiro que dizia ser seu, repetia interiormente: “Não, não eu. Não posso deixar esse dinheiro que é meu”.

É claro que o dinheiro não precisa ser simplesmente o que denominamos vil metal. Pode ser mil coisas mais: prestígio, poder, arrogância, soberba. Mas sempre, sempre, será um apego que trava nossa caminhada e a totalidade de nossa entrega ao Senhor e ao serviço do Reino. Francisco sentiu essa resistência, fruto do seu pecado. E sentiu mais ainda a força da misericórdia do Senhor, que o olhou e venceu seu medo e apego. E assim começou sua vida na Companhia de Jesus, que o levou por muitos caminhos até o Vaticano.

É fantástico, porém, perceber que o mesmo foi sentido por Francisco ao ser eleito Papa e perguntado se aceitava a eleição. Respondeu: “Sou pecador, mas confiante na misericórdia e na paciência infinitas de Nosso Senhor Jesus Cristo, confundido e em espírito de penitência, aceito.”

Agora não havia mais a resistência primária dos tempos da juventude. A entrega da vida já fora feita. Mas como se trata de uma entrega que nunca termina de ser feita, Francisco teve que responder mais uma vez ao Senhor, entre surpreendido e algo temeroso. Aceitava porque sabia que a misericórdia divina é maior do que o pecado que constitui nossa mais profunda identidade.

E, por isso, somos pecadores, mas pecadores perdoados. Não pecadores condenados, pecadores torturados por uma culpa interminável que nos angustia e envenena. Pecadores que sentem paz e alegria ao ver que o Senhor supera nosso pecado com uma superabundante misericórdia.

Aos que se perguntam qual o segredo da perene e serena alegria do papa Francisco, que seduz e encanta jovens e anciãos, crianças e adultos, aí está: a consciência realística de ser pecador, mas um pecador perdoado, que experimentou a força da misericórdia do Senhor que o olhou com amor e o chamou a seu serviço. Assim, não há lugar para medo, mas apenas para uma entrega sempre maior e mais plena.

Sem descer ao inferno é muito difícil subir ao céu

César Augusto Rocha

Geralmente quando se fala em espiritualidade vislumbramos de imediato os grandes ideais que devemos alcançar, as realidades celestiais, enfim, “as coisas do alto”, frase que se tornou o mais novo “chavão” da Igreja nesses últimos anos. “Buscai as coisas do alto!” De fato, precisamos almejar as “coisas do alto” mas numa perspectiva que é pouco lembrada. Não podemos nessa busca cega e desenfreada pelas graças celestiais, esquecer-nos de nossa própria realidade, das misérias e injustiças ao nosso redor, das desigualdades sociais que oprimem e marginalizam centenas e milhares de irmãos e irmãs por esse Brasil afora, enfim, das situações de morte que estão dentro de nós e ao nosso lado enquanto olhamos piedosamente para a esplendorosa e transfigurante visão do alto, como àquela do Monte Tabor.

A santidade, vocação primeira do ser humano, é o encontro do homem com a sua própria humanidade, com suas próprias fraquezas e fragilidades. Se quisermos conhecer a Deus, devemos principiar com o conhecimento de nós mesmos. Quanto mais humanos formos em nossas relações, mais santos seremos. Sem o autoconhecimento corremos sempre o risco de nossos pensamentos acerca de Deus serem meras projeções. Esse mergulho dentro de nós mesmos nos tornará aptos e capazes de ir ao encontro do outro e sentir suas necessidades e aflições. Ser santo, portanto, não consiste em limitar a fé ao cumprimento de enfadonhas práticas religiosas, na aceitação passiva de uma “vontade de” de Deus derivada de uma concepção mágica e que dá margem à explorações, marginalizações e opressões por parte dos “senhores do poder”. Como escreve Thomas Merton, no livro Le Nouvel Homme, se nosso cristianismo não passar de um conjunto de práticas exteriores destinadas a dissimular os compromissos com a fraqueza e a hipocrisia do mundo, nós não corresponderemos à missão da manifestação da natureza escondida de Deus em nossas vidas.

Precisamos descer aos vales sombrios e obscuros da sociedade, onde estão os pobres e miseráveis; aqueles que são, muitas vezes, “invisíveis” aos nossos olhos porque perdemos a capacidade de sentir com-paixão e empatia do sofrimento alheio. Estamos tão envolvidos com um cristianismo de faz de conta, superficial e ritualístico, que nos esquecemos do essencial de nossa fé: VER JESUS CRISTO NO ROSTO SOFRIDO DOS IRMÃOS. As Igrejas, de um modo geral, precisam incorporar esse discurso em sua práxis cotidiana, sem medo das pressões e perseguições inevitáveis, sem receio de ferir ou incomodar os que colaboram para a edificação do Anti-Reino, sem censuras ou dissimulações. Os movimentos e pastorais, respeitando evidentemente a identidade e a mística de cada um, precisam assumir concretamente uma postura mais ousada e corajosa diante dos desafios e das realidades gritantes deste mundo em constantes mudanças. Reuniões e discursos, louvores e orações desconectadas da vida, assembleias e encontros que muitas vezes são infrutíferos são apenas alguns elementos que precisam ser repensados e reconceituados para que tenhamos uma Igreja mais fiel ao projeto de Jesus Cristo. Toda a vida, morte e ressurreição de Jesus foram consequências de sua ação profética e do seu testemunho, ambos de uma radicalidade sem precedentes. Nessa trajetória em defesa da justiça e dos pobres, o nazareno se bate com as forças conservadoras da época, representando tanto o poder judaico quanto o império romano.

A nossa oração precisa estar encarnada na História, esta História que Jesus assumiu quando tomou a natureza humana. Ele não fugiu, pois, da História para encontrar o Pai. Antes, a transformou como o caminho para o Pai. Como podemos viver de braços cruzados participando passivamente de nossas missas dominicais e deitados em berços de ouro quando milhares de jovens são exterminados pelas drogas e pela violência? Quando professores da rede pública são silenciados pela violência e pela covardia nos corredores daquela que deveria ser a “casa do povo” – Assembleia Legislativa? Quando a corrupção se alastra em todos os setores da sociedade e os clamores da fome e da miséria vergonhosa povoam a nossa alma? A vida é constantemente ameaçada pela intrepidez e a ganância de uns poucos que se aproveitam de nosso silêncio absurdo.

Que Deus nos dê a coragem de caminhar pelas sendas escuras de nossa fé; nos arranque de nós mesmos e nos faça viver um verdadeiro cristianismo.

Mãe ambiente

Frei Betto

Ecologia vem do grego “oikos”, casa, e “logos”, conhecimento. Portanto, é a ciência que estuda as condições da natureza e as relações entre tudo que existe – pois tudo que existe coexiste, pré-existe e subsiste. A ecologia trata, pois, das conexões entre os organismos vivos, como plantas e animais (incluindo homens e mulheres), e o seu meio ambiente.

Talvez fosse mais correto, embora não tão apropriado, falar em ecobionomia. Biologia é a ciência do conhecimento da vida. Ecologia é mais do que o conhecimento da casa em que vivemos, o planeta. Assim como economia significa ‘administração da casa’, ecobionomia quer dizer ‘administração da vida na casa’. E vale chamar o meio ambiente de mãe ambiente, pois ele é o nosso solo, a nossa raiz, o nosso alimento. Dele viemos e para ele voltaremos.

Essa visão de interdependência entre todos os seres da natureza foi perdida pela modernidade. Nisso ajudou uma interpretação equivocada da Bíblia – a ideia de que Deus criou tudo e, por fim, entregou aos seres humanos para que “dominassem” a Terra. O domínio virou sinônimo de espoliação, estupro, exploração. Procurou-se arrancar do planeta o máximo de lucro. Os rios foram poluídos; os mares, contaminados; o ar que respiramos, envenenado.

Ora, não existe separação entre a natureza e os seres humanos. Somos seres naturais, porém humanos porque dotados de consciência e inteligência. E espirituais, porque abertos à comunhão de amor com o próximo e com Deus.

O Universo tem cerca de 14 bilhões de anos. O ser humano existe há apenas 2 milhões de anos. Isso significa que somos resultado da evolução do Universo que, como dizia Teilhard de Chardin, é movida por uma “energia divina”.

Antes do surgimento do homem e da mulher, o Universo era belo, porém cego. Um cego não pode contemplar a própria beleza. Quando surgimos, o Universo ganhou, em nós, mente e olhos para se olhar no espelho. Ao olharmos a natureza, é o Universo que se olha através de nossos olhos. E vê que é belo. Daí ser chamado de Cosmo. Palavra grega que dá também origem à palavra cosmético – aquilo que imprime beleza.

A Terra, agora, está poluída. E nós sofremos os efeitos de sua devastação, pois tudo que fazemos se reflete na Terra, e tudo que se passa na Terra se reflete em nós. Como dizia Gandhi, “a Terra satisfaz as necessidades de todos, menos a voracidade dos consumistas”. São os países ricos do Norte do mundo que mais contribuem para a contaminação do planeta. São responsáveis por 80% da contaminação, dos quais os EUA contribuem com 23% e insistem em não assinar o Protocolo de Kyoto.

“Quando a última árvore for derrubada – disse um índio dos EUA -, o último rio envenenado e o último peixe pescado, então vamos nos dar conta de que não podemos comer dinheiro”.

O maior problema ambiental, hoje, não é o ar poluído ou os mares sujos. É a ameaça de extinção da espécie humana, devido à pobreza e à violência. Salvar a Terra é libertar as pessoas de todas as situações de injustiça e opressão.

A Amazônia brasileira é um exemplo triste de agressão à mãe ambiente. No início do século XX, empresas enriqueceram com a exploração da borracha e deixaram por lá o rastro da miséria. Nos anos 1970, o bilionário americano Daniel Ludwing cercou um dos maiores latifúndios do mundo – 2 milhões de hectares – para explorar celulose e madeira, deixando-nos como herança terra devastada e solo esgotado virando deserto. É o que pretende repetir, agora, o agronegócio interessado em derrubar a floresta para plantar soja e criar gado.

A injustiça social produz desequilíbrio ambiental e isso gera injustiça social. Bem alertava Chico Mendes para a economia sustentável (isto é, capaz de não prejudicar as futuras gerações) e a ecologia centrada na vida digna dos povos da floresta.

A mística bíblica nos convida a contemplar toda a Criação como obra divina. Jesus nos mobiliza na luta a favor da vida – dos outros, da natureza, do planeta e do Universo. Dizem os Atos dos Apóstolos: “Ele não está longe de cada um de nós. Pois Nele vivemos, nos movemos e existimos. Somos da raça do próprio Deus” (17, 28). Todo esse mundo é morada divina. Devemos ter uma relação de complementação com a natureza e com o próximo, dos quais dependemos para viver e ser felizes. Isso se chama amor.