D. Helder Câmara

Homenagem ao centenário de nascimento de Dom Helder Camara

O deserto de D. Helder

Pe Geovane Saraiva

A glória humana e os reinos da terra estão longe do projeto de Jesus. “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso teve fome” (Mt 4,1-2). O filho de Deus, no deserto, é vitorioso porque vence o mal e o egoísmo com todos os seus frutos.

As tentações de Jesus resumem toda a luta da pessoa humana contra os poderes do demônio. As tentações do deserto são um resumo de toda vida do Enviado do Pai, com as riquezas de suas experiências. Ele, andando de lugar em lugar, de aldeia em aldeia, fazendo o bem a todos, durante toda sua pregação e seu ministério.

“Quarenta” é um número simbólico, muito usado na caminhada do povo de Deus. Expressa um tempo santo, um tempo abençoado (dias, noites e anos) em que Deus se revela e se manifesta, com sua presença e com graças especiais, na vida e no mundo dos seres humano. Jesus prossegue firme na sua caminha para o Pai; não se permite envolver.

Olhando para o contexto do Evangelho, Jesus no deserto, gostaria de me voltar para Dom Hélder Câmara, nosso conterrâneo, o “maior brasileiro de todos os tempos”, o “irmão dos pobres”, que soube entender e compreender o deserto da vida humana, como algo santo, sagrado. O irmão querido que não viveu só para si, mas viveu para Deus e vivendo para Deus, soube visibilizar os sinais dos tempos.

Dia 07 de fevereiro deste ano de 2009 foi um dia histórico, feliz e sagrado para todos nós; foi o dia do seu centenário! Há mais de 10 anos ele, no dia 27 de agosto de l999, ele partiu para o seio do Pai. Mas na verdade o nosso querido Dom Hélder não nos deixou. Ele está vivo e muito vivo; ele é imortal. Ele é nosso grande e maior patrimônio; patrimônio do povo brasileiro e toda humanidade, porque a humanidade o tem como cidadão universal.

Aprendi uma frase em latim que diz: “De mortuis nisi bonum”, isto é, “dos mortos só se fala o bem”. Como os homens de fé do deserto, Dom Helder soube viver e assimilar os caminhos de Deus, pela oração e pela profunda vida interior. Soube, com esperança, “Acreditar nas minorias capazes de compreender a ação, justiça e paz e adotá-las como campo de estudo e de atuação”. De modo que só temos boas recordações dessa figura humana que fez de sua vida um grande deserto; que fez de sua vida um hino de louvor a Deus.

Chegou o momento feliz e oportuno de fazermos a memória desse profeta, que soube falar de Deus com a alma, com as mãos e com o coração. Homem apaixonado por Deus e por suas criaturas. “Quarenta” é simbólico. Dom Hélder é um símbolo para todos.

Ele não é a “Paz”, mas no seu centenário, ao falarmos nele e dele, falamos da paz verdadeira e duradoura; falamos de tempo santo e abençoado, falamos da vida, dom precioso de Deus, falamos de um místico, de um homem profundamente de Deus, e por isso mesmo, profundamente humano.

Refletindo Dom Hélder Câmara

Geraldo Frencken

Recife, 28 de agosto de 1999, a partir das 17 horas: uma multidão acompanha o carro dos bombeiros desde a Igreja das Fronteiras, cuja sacristia tinha servido durante quase trinta e dois anos como morada de Dom Helder Camara. Em cima do carro o caixão, e nele o corpo do Dom. Um percurso de uns sete, oito quilômetros. O povo cantando, rezando e dando adeus ao seu eterno pastor. O caixão desaparece debaixo das flores de todas as formas e todas as cores, “as rosas da minha vida”, como Dom Helder a elas se referia. Ao chegar à catedral de Olinda e Recife, em Olinda, a multidão aplaude ininterruptamente e, com horas de atraso, a Missa de corpo presente começa a ser celebrada. De repente, em meio às solenidades oficiais, uma pessoa se solta do meio da multidão e coloca a bandeira do MST sobre o caixão do Dom: um profundo silêncio, alguns olhares perturbados, o Núncio Apostólico, presidindo a cerimônia, pergunta a um dos padres concelebrantes: “Que bandeira é esta?!” ….. Mas ninguém ousa remover este símbolo por mais justiça e paz na terra. Mais tarde, ao sepultar o corpo cansado do Dom, a bandeira permanece onde fora colocada, e pouco a pouco integrar-se-á à terra junto com aquele que dedicou a sua vida à defesa daqueles que não “possuem um palmo de terra para sobreviver”, como rezava em sua oração à Mariama na Missa dos Quilombos-.

Dom Helder vivia uma espiritualidade de entrega total aos desígnios de Deus: “Dá liberdade ao Pai, para que Ele mesmo conduza a trama dos teus dias.”

Que Deus? O Deus dos pequenos, dos pobres, dos maltrapilhos, dos sem terra, sem teto, sem roupa, sem participação no assim chamado progresso do mundo. É o Deus dos povos da América Latina, chamada por Dom Helder de “a vila cristã do mundo pobre”, no qual o povo vive na “miséria que engloba sub-habitação, sub-trabalho, sub-diversão, sub-saúde, sub-vida, opressão: as formas de violência que geram todas as outras”. Dom Helder via-se presente neste mundo. Era bispo da Igreja, mas era bispo para o mundo, tornando-se “sal da terra e luz do mundo”.

Ele, juntamente com o nosso querido e saudoso Dom Aloísio Lorscheider e tantos outros, era um dos arquitetos de uma Igreja presente no mundo a partir e no meio dos pobres. Teve participação nos grandes momentos da Igreja no século XX, colocando sempre como tema central o mundo dos empobrecidos. Na vida destes, ele não queria ser somente mais um que praticava a caridade, mas levava os próprios pobres a entenderem as causas da pobreza, da miséria, do descaso, apontando para as estruturas sociais, os mecanismos econômicos e a falta de compromissos políticos. Ele dizia: “Se eu dou comida aos pobres, eles me chamam de santo. Se eu pergunto por que os pobres não têm comida, eles me chamam de comunista”.

Nada o Dom fazia sem consultar seu maior amigo: o próprio Cristo, com quem manteve longas conversas na madrugada de todos os dias, diante do altar de quem dançava, inspirado por quem escrevia seus discursos, suas poesias, suas cartas e no altar de quem derramava lágrimas todas as vezes quando celebrava o amor de Cristo vivido na celebração eucarística, isto é na partilha do pão, gesto este que continuará “mistério”, enquanto a humanidade toda não aprenda a partilhar seus dons espirituais e materiais.

Encontramos deste modo o profeta Helder. Profeta é aquele que, na calada da noite, escuta seu Deus a fim de saber a quem se dirigir e o que falar, pois o profeta é aquele que empresta sua língua a Deus a fim de que Este fale.

O profeta é livre. Dom Helder, mesmo vivendo, como todos nós, dentro das rígidas estruturas da igreja e da sociedade, as mesmas para ele não pareciam existir, embora, como testemunha um amigo confidente dele, “ele tenha sofrido um bocado por causa de um determinado funcionamento delas.” Um dia, Dom Jacques Gaillot, bispo de Partênia (Norte da África), amigo de Dom Helder, dizia: “Quando a gente tem medo não é livre, e quando é livre mete medo!” O Dom era livre, e aqueles que promoveram as injustiças e a opressão em nosso país, seja durante a ditadura como anterior e posterior a ela, exatamente por causa desta liberdade, o temiam, enquanto ele, Helder, não tinha o que temer! É nesta liberdade vivida, que nascera a denúncia nas palavras do Dom: denúncias contra todas as formas de sofrimento humano. E é na denúncia que o profeta faz germinar o anúncio, o anúncio da dignidade humana.

O profeta testemunha! Dom Helder optou livremente por uma vida austera, simples, junto dos seus irmãos, os pobres, seguindo os exemplos de dois gigantes do amor aos pobres na história: São Francisco de Assis e São Vicente de Paulo. O testemunho do Dom da Paz brotava justamente do perfeito equilíbrio, que havia nele, entre contemplação e ação.

Hoje nós temos saudade de profetas como Dom Helder, Dom Aloísio, as vozes e os testemunhos do passado recente. Mas não é só saudade que sentimos. Somos convencidos também de que o mundo sempre necessita de profetas. Nós deles precisamos!

Que a sociedade e, de forma especial, as igrejas permitam que haja sempre homens e mulheres que, livres, desimpedidos e com os pés no chão, possam testemunhar o dom da “vida em abundância”.

Geraldo Frencken, nascido na Holanda, no Brasil desde 1973, é teólogo e ex-professor do Instituto de Ciências da Religião (ICRE) na Prainha

Dom Helder jamais morrerá

Pe. Geovane Saraiva

Uma canção que homenageia Dom Helder Câmara, neste ano em que vivemos o seu centenário de nascimento (1909-2009), fala assim do irmão querido: “o dom paz, tu és muito mais, és um dom do céu!”. Que bela e maravilhosa afirmação! Ele foi uma obra preciosa, criada por Deus e marcada com o selo da sua graça, presente no coração do povo, com a missão transformar vidas, consciências e de semear a paz.

Suas idéias e todo seu trabalho e realizações, concretizado em toda sua plenitude na vida de oração e na sua ação pastoral, totalmente encarda na vida dos seus semelhantes, dos empobrecidos, enche-nos de esperança e nos leva crer que Dom Helder se imortalizará, jamais morrerá.

O teólogo, Padre José Comblin, com a grande sabedoria de que lhe é peculiar, quis imprimir na nossa mente e no nosso coração a imortalidade de Dom Helder, ao afirmar: “Eu sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina, daqui a mil anos. Ele lançou sementes destinadas a produzir uma messe abundante nesta época do cristianismo que está começando agora. Suas sucessivas conversões, sinalizando de certa maneira, a futura trajetória da Igreja neste momento da história da humanidade”.

Na caminhada do povo de Deus, tivemos figuras que marcaram em profundidade a história, as quais foram geniais, e por isso mesmo, exerceram uma decisiva influência sobre a nossa civilização cristã.

Gostaria de me deter um pouco sobre Martinho Lutero, que viveu de (1483 -1546). Ele foi uma dessas pessoas, que durante alguns séculos significou para a grande maioria dos católicos um rebelde, um herege, o herege por excelência, aquele que provocou, na Igreja, o cisma do ocidente e levou, com suas heresias, muitas almas à perdição. Mas para os protestantes, ao contrário, ele foi um “segundo Paulo”, que redescobriu o Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo, tirando-o de baixo da mesa e colocando-o em um lugar de destaque, em lugar bem elevado.

Os protestantes acentuam a profunda religiosidade do Reformador. Em 1970 chegou-se a dizer que “Lutero era mais católico do que se imaginavam…”. Estava longe dele a idéia de uma separação da Igreja. Na luta em favor do Evangelho, não só contribuiu substancialmente para a purificação da Igreja Católica, mas também para o aprofundamento das questões básicas, as da Sagrada Escritura, da fé, da consciência e da existência cristã.

Depois do Concílio Vaticano II, num desejo de encontrar a unidade, o bispo católico de Copenhagen (Dinamarca), Hans L. Martensen, em uma Conferência sobre “Lutero e Ecumenismo hoje”, declarou que também “católicos reconhecem hoje que Lutero, como poucos outros, foi um teólogo genial e de grande influência na história.

Dom Helder trabalhou intensamente pela unidade e foi considerado um rebelde, ao mesmo tempo ensinou que a pessoa humana é sagrada, porque ela é imagem e semelhança de Deus. O sonho carregado ao longo da vida e acalentado no seu coração foi o de colocar a criatura humana em um lugar de destaque, lugar bem elevado. Marcou uma época e nos deixou uma grande lição. A lição de que o deserto da nossa vida tem que ser fertilizado e que a vida está acima de tudo, que ela é mais forte do que a morte.

Quando no Brasil, em 1964, todos procuravam navegar nas águas e nas tempestades do regime militar, foi aí que entrou o grande irmão e amigo, ensinando-nos a navegar nas águas da vida, da esperança e da liberdade. E essa é imagem do homem de Deus, do dom da paz, tu és muito mais, um dom do céu! Guardemos a imagem que jamais morrerá, conforme seu desejo: “A imagem que gostaria que ficasse de mim é a imagem de um irmão”.

Como homenagear um profeta?

Carlo Tursi

Incomodado. Indignado. Até envergonhado. Talvez estas palavras exprimam um pouco como venho me sentindo ao longo deste ano em que estamos comemorando o centenário de nascimento de Dom Helder Camara (1909-2009). É que a forma convencional de nossas homenagens prestadas – até agora – não me parece fazer jus a este grande pastor e profeta fortalezense, que brilhou para o Brasil e o mundo como arcebispo de Olinda e Recife (1964-1985), promovendo os pobres e defendendo os perseguidos pela ditadura.

Por parte da Igreja, apenas o óbvio: celebra-se uma missa em sua homenagem – e fica-se com a sensação de “dever cumprido”. Durante a cerimônia (religiosa?), gasta-se mais tempo em saudar as autoridades políticas e eclesiásticas presentes do que em lembrar as corajosas e incômodas atitudes do ilustre homenageado. A presença da imprensa e das câmeras de televisão parece ser mais importante do que o comparecimento do povo de Deus, sobretudo dos segmentos mais pobres, preferidos de Dom Helder. Tudo acaba na inauguração de uma estátua de bronze, frente à igreja: um monumento à sua memória, sem dúvida, mas também uma forma sutil de “petrificar” esta memória, entregá-la à História, isto é, ao passado irrecuperável.

Por parte da sociedade civil e política, uma (ai que sono!) sessão solene na Assembléia Legislativa: panegíricos intermináveis de palavreado florido, porém, inexpressivo, antecedidos por dez minutos gastos em saudar os “componentes da Mesa” e as “autoridades” presentes… Aqui, o cume é atingido quando se propõe colocar o nome do homenageado em uma das praças da cidade. E volta-se, dever cumprido, à normalidade.

Confesso que, desde a juventude, fui “contaminado” pela acidez com que um certo mestre da Galiléia fustigava tais comportamentos oficiosos do establishment: “Hipócritas! Vocês constroem sepulcros para os profetas, e enfeitam os túmulos dos justos (…)! Vocês (…) são filhos daqueles que mataram os profetas!” (Mt 23,29-30). Aturdido, dou-me conta da terrível ambivalência das comemorações de um centenário: de certo, é ocasião oportuna para lembrar quem merece ser lembrado – mas, via de regra, na condição de alguém que pertence ao passado histórico! Fico a imaginar o alívio do episcopado brasileiro, hoje na ativa, de poder considerar bispos como Dom Helder uma “página virada”, pois as opções pastorais dele e seu estilo de vida austero se constituiriam um questionamento forte a toda pompa e à comodidade burguesa do alto clero católico (quem entre os atuais bispos iria morar, hoje, numa pequena sacristia de uma igreja, movido pelo pensamento de que o “pastor” deve partilhar a condição de vida de suas “ovelhas”?).

Vem aí uma outra forma de homenagear o “Dom da Paz”: a Semana Dom Helder Camara (26 de setembro a 02 de outubro), idealizada por um punhado de cristãos críticos que se autodenominam “O GRUPO”. Seu principal enunciado: Dom Helder vive! Lugar de lhe prestar homenagem não é, absolutamente, o cemitério, e o material adequado para isso não é o bronze, o gesso, nem as flores! O lugar correto de lhe prestar homenagem é no meio dos movimentos cristãos e cívico-humanistas que lutam pela transformação da realidade brasileira, que denunciam as torturas infligidas em nome da Lei e os crimes ecológicos, que não apenas dão pão aos pobres, mas que perguntam também pela causa da pobreza! E a forma correta de prestar esta homenagem é imbuir-nos, a nós mesmos, do mesmo espírito profético intrépido de Dom Helder, assumindo seu legado, sua herança. “Não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e de verdade!” (1 Jo 3,18). O material correto para celebrar a presença viva deste grande cearense em nosso meio é o material humano sensibilizado com a miséria e a violência institucionalizada a que estão expostos dezenas de milhares de concidadãos nesta capital! É este, fundamentalmente, o credo de “O GRUPO”: Cristo não pediu para ser adorado, mas para ser seguido! O mesmo vale, por extensão, para figuras exemplares como Helder Camara, Aloísio Lorscheider, Martin Luther King, Mahatma Gandhi, e todos os santos e santas a quem devemos nosso reconhecimento e nossa gratidão.

Alguém interessado neste tipo de homenagem? Então, há de conferir o evento de abertura da Semana, a se realizar no teatro do Centro Cultural Dragão do Mar, dia 26 de setembro, às 19:00 h, com a projeção do documentário “Dom Helder, o santo rebelde”, seguida de debate com a platéia. A Semana prosseguirá com um ciclo de conferências e debates, no colégio Santo Tomás de Aquino, sempre às 19:00 h, e culminará em uma caminhada de sensibilização e despertar cívico-cristão pelo centro de Fortaleza, no dia 02 de outubro, às 15:00 h, a partir da praça da Igreja do Carmo. “Ai de mim se eu me calar!” Não seria hora de sairmos da “toca”?

Vida de dom Helder Câmara é contada na coletânea de cartas “Circulares Conciliares”

A riqueza do vasto acervo de dom Helder Câmara oferece à população, no ano de seu centenário, cada vez mais obras cheias de detalhes, sensibilidade e ensinamento. No dia 14 de abril, foi lançada, em Recife (PE), a coletânea “Circulares Conciliares”, que resgata as cartas escritas pelo religioso aos seus assessores, no período de 1962 a 1965, durante o Concílio Vaticano II.

Composta por 6 livros, a obra retrata o pensamento do arcebispo emérito de Olinda e Recife, além de ser uma oportunidade de mostrar às pessoas todo o seu ideário e prática de vida. Para o Instituto Dom Hélder Câmara, o arcebispo foi um dos maiores exemplos de coerência de vida, pondo na prática aquilo que ele pregava em seus discursos. Os volumes foram organizados pelos professores Zildo Rocha e Luiz Carlos Marques Luz.

A coleção é dividida em dois volumes, cada um com 3 Tomos. Os textos narram o dia-a-dia das sessões do Concílio Vaticano II, evento que marcou a história da Igreja Católica no mundo todo.

As cartas subdivididas em Conciliares, Interconciliares e Posconciliares, somam 2.122 textos, 7.547 meditações, e mais discursos, programas de rádio, entre outros. A estimativa é que as “obras completas” alcancem 20 volumes, já que nesta primeira coleção de seis Tomos, só foram editadas 637 circulares. A confecção da obra contou com o patrocínio do Governo do Estado de Pernambuco.

Dom Helder tinha como hábito escrever durante a noite, e todo o material produzido era rigorosamente numerado e datado, facilitando para o presente, este trabalho de divulgação.

A importância das comemorações do centenário de dom Helder se dá pelo seu exemplo de vida. Carismático, dom Helder foi um pastor que viveu a simplicidade e a humildade, observadas em sua atitude cotidiana, quando acolhia os mendigos, visitava os mais necessitados e injustiçados, e partilhava seus prêmios. Estas e outras iniciativas fizeram dele um semeador da fraternidade.

Dom Helder reverenciado

Marieta Borges Lins e Silva

Foram horas de estrada, do Ceará até Pernambuco. Foram 245 romeiros, embarcados no sonho do incansável Padre Sebastião de Sá, para vivenciaram a VI Peregrinação Cearense que veio especificamente rezar no túmulo de Dom Helder e visitar os lugares por onde ele andou, em Olinda e no Recife. Com eles, pela primeira vez engajado no feliz evento, o padre Maurício Lopes, de Ocara, Ceará, descobrindo a alegria de seguir os passos desse Profeta e Pastor cearense.

Com a coordenação do Instituto Dom Helder Camara, da Prefeitura de Olinda (que apoiou integralmente a passagem do grupo pela cidade) e da CNBB NE2 (que acolheu e ofereceu almoço para todos lá na sua sede no Recife) esses peregrinos cumpriram uma agenda intensa, toda ela marcada pela devoção ao arcebispo Emérito de Olinda, Dom Helder Camara, que se foi há exatos dez anos, deixando-nos saudosos de sua presença iluminada e de suas ações corajosas, hoje continuadas pelos seus seguidores .

O objetivo primeiro desses caminheiros seria prantear o conterrâneo santo, nos 10 anos da sua partida e nos 100 anos do seu nascimento… Mas outras emoções foram experimentadas tanto em Olinda como no Recife, conhecendo lugares e partilhando momentos especiais, com os que os recepcionaram.

Olinda, no sábado, dia 29: o almoço nos jardins da Biblioteca Pública de Olinda, a visita ao Santuário da Mãe Rainha, a concentração em frente à Matriz de São Pedro Mártir, onde o boneco-Dom Helder os esperava para dali saírem em caminhada até a Catedral da Sé e lá, fervorosamente, fazerem suas orações diante do túmulo do Dom, rezarem o Terço Missionário e participarem da celebração da Santa Missa, recebendo, ao final, a bênção do novo Arcebispo de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido… Terminada a celebração, foi tempo de apreciar Olinda do mirante do Alto da Sé, vendo o Recife à distância, tudo iluminado pela generosa lua, enquanto um grupo menor permanecia em vigília na Catedral, até o amanhecer…

Recife, dia 30: o passeio pelo centro do Recife, a parada na Igreja de N. Sª da Assunção das Fronteiras, para a visita emocionada à casa onde Dom Helder viveu (nos fundos do altar-mor) e onde partiu, há dez anos, acolhidos todos fraternalmente por membros do IDHeC, a foto junto à escultura de Dom Helder-poeta, postado diante do templo, a caminhada até a sede da CNBB Regional Nordeste 2 para a participação na Missa na Igreja dedicada ao Bom Pastor, situada bem em frente à rua onde está a Igreja das Fronteiras e o almoço na própria sede da CNBB Regional Nordeste 2, oferecido pela instituição.

Muita gente se uniu para dar suporte local a essa corajosa iniciativa: Zezita Cavalcanti (que foi secretária do Dom na AOR), Lucinha Moreira (Presidente do IDHeC), Cristina Ribeiro (membro do IDHeC), Irmã Neusa (religiosa carmelita ligada ao IDHeC), Raimundo Viana (diretor da Biblioteca Pública de Olinda), Dom Genival Saraiva (Secretário Geral da CNBB NE2), Padre Albérico Almeida (Secretário Executivo da CNBB NE2) foram alguns dos que estiveram comigo ao lado desses cearenses, sentindo neles um enorme reconhecimento por tudo o que Dom Helder semeou em vida, fiéis ao compromisso com uma Igreja libertadora e voltada para as causas sociais. A imprensa escrita e televisiva prestigiou o momento, eternizando essa iniciativa tão bonita…

A viagem de regresso ao Ceará começou ainda na tarde do abençoado domingo, com o compromisso de voltarem todos, para a VII Peregrinação Cearense, em 2010 que, certamente, contará com a acolhida e a presença de dom Fernando Saburido.

Fonte: site da Paróquia de Santo Afonso, CE

D. Hélder Câmara morreu há 10 anos

Fonte: Agência Ecclesia

Bispo brasileiro fica na história pelo seu pioneirismo dentro e fora da Igreja

Numa das suas passagens por Portugal, D. Hélder Câmara afirmou que “ninguém nasce para ser escravo ou mendigo”. No entanto, ao observar a realidade que o circundava, o antigo bispo de Olinda e Recife (Brasil) via que eles existiam e estavam bem perto do pastor. A cidade de Fortaleza (Brasil) viu nascer, a 7 de Fevereiro de 1909, D. Hélder Câmara. Filho de uma família pobre e numerosa (dos treze irmãos apenas oito conseguiram sobreviver), os pais deram-lhe o nome de um pequeno porto holandês: Hélder.

Aos 14 anos ingressa no Seminário diocesano da cidade natal (Prainha de São José), sendo metade das despesas pagas pela Obra das Vocações Sacerdotais. Recebeu a ordenação sacerdotal em 1931 e, cinco anos depois, foi enviado para o Rio de Janeiro, onde se tornou animador da Acção Católica Brasileira e, posteriormente, seu assistente nacional. Nos ouvidos ressoam-lhe palavras antigas do pai: “Meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos.”

Apesar de ter ficado conhecido como ícone da paz e irmão dos pobres, nos primeiros tempos de padre esteve ligado ao movimento Ação Integralista Brasileiro, próximo das teses de Mussolini e do corporativismo português. Aos olhos de alguns era uma persona non grata. Mais tarde, D. Hélder Câmara explica esse episódio: “Participei num movimento de que estava convencido. O grande combate era entre o Este e o Oeste, os Estados Unidos e a União Soviética”. E acrescenta: “Mas depressa me apercebi que mais grave do que essa luta era a que se travava entre o Norte e o Sul”.

A Segunda Guerra Mundial e o agravamento da situação social no Brasil reconduziram D. HélderCâmara ao lugar de líder da contestação social e religiosa no Brasil. Em 1952 é nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro pelo papa Pio XII.

Poucos anos antes da sua nomeação trabalhou na Nunciatura Apostólica do Rio e, através de contatos diretos com Monsenhor Montini (futuro Papa Paulo VI), conseguiu que a Secretaria de Estado do Vaticano aprovasse a constituição da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Esta foi a precursora das Conferências Episcopais criadas, mais tarde, pelo II Concílio do Vaticano. Depois da aprovação da CNBB, D. Hélder propõe ao Vaticano a fundação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM). A autorização chegou em 1955, acumulando D. Hélder Câmara o cargo de Secretário-Geral da CNBB e Vice-presidente da CELAM.

Paralelamente à dinamização destes dois organismos, o prelado brasileiro empenhou-se também no campo social. Em 1956 funda a Cruzada S. Sebastião (destinada à solução dos problemas habitacionais nas favelas) e, três anos mais tarde (1959) criou o Banco da Providência (entidade de assistência social para os casos de miséria absoluta).

Em 1964 foi nomeado arcebispo de S. Luis do Maranhão e meses depois é enviado para Olinda e Recife, onde permanecerá, como bispo residencial, durante vinte anos. “Aqui eu sonhei com uma obra em que pudesse trabalhar não para o povo mas com o povo” – sublinhou na altura. Preocupa-se com o problema do desenvolvimento e da pobreza em todo o nordeste brasileiro.

A sua voz profética ecoava, apesar das perseguições que lhe moveram. Em 1968, o pastor daquele território eclesial publica o livro “Revolução dentro da Paz”. Dois anos depois, uma campanha difamatória impede-o de receber o Prémio Nobel da Paz. Foi acusado de demagogo, exibicionista e “emissário camuflado de Fidel Castro e Mao”.

Nunca recebeu galardão da Paz, no entanto o município de Oslo (Noruega) concedeu-lhe (em 1974) um prémio de valor equivalente. O seu prestígio internacional era intocável e recebeu o doutoramento Honoris Causa de várias universidades. O Japão atribuiu-lhe (1983) o prémio Niwano para a Paz, enquanto a Itália o distinguiu com o Prémio Balzan.

Trabalhar com os pobres era a sua paixão. No entanto, da sua pena saíram várias obras literárias: “O deserto é fértil” (1971); “Cristianismo, Socialismo, Capitalismo” (1973); “Nossa senhora no meu caminho” (1981) e “Utopias peregrinas” (1993). Dois poemas seus inspiraram uma oratória e um ballet: “Sinfonia dos dois mundos” (musicada pelo Pe. Pierre Kaelin) e “Missa para um tempo futuro” (com coreografia de Maurice Béjart).

A 7 de Julho de 1980, durante a viagem de João Paulo II ao Brasil, o papa polonês reabilita publicamente a sua imagem ao abraçá-lo efusivamente e dando-lhe o maior título de sempre: “Irmão dos pobres e meu irmão”. Um gesto ovacionado por uma multidão perplexa.

No mês de Abril de 1984, o “bispo vermelho e dos pobres” despede-se da sua diocese, depois de Roma ter aceite a sua resignação por limite de idade. “Pouco importa que um bispo se jubile; a Igreja continua” – disse D. Hélder Câmara na Eucaristia celebrada no Estádio do Recife perante 30 mil pessoas.

A 27 de Agosto de 1999, o homem que tinha como lema “In Manus Tuas” (Nas Tuas Mãos) despediu-se da vida terrena. Quando soube da sua morte, D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal disse: “um gigante da história da Igreja que impressionava pela sua fragilidade humana, mas albergava uma coragem do tamanho do mundo”.

Padre e egoísmo: NUNCA!

Pe. Geovane Saraiva

Dom Helder Câmara tem muito a nos ensinar, nós que procuramos mergulhar na sua vida, neste ano do centenário de seu nascimento. Ele que desde a juventude mostrou-se determinado e comprometido com a realidade social, com os empobrecidos, nunca se esquecendo do conselho de seu pai: “Meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. Padre tem que gastar-se, deixar-se devorar”.

Ao deixar o Ceará em 1936 para abraçar, como padre novo, uma nova missão na cidade do Rio de Janeiro, como técnico em educação do Distrito Federal, recebeu um conselho do seu bispo, que lhe disse: “Meu filho, é Deus, é Deus que está lhe chamando para o Rio de Janeiro. Aceite! Vá, meu filho, vá!”.

Foi para o Rio de Janeiro, trabalhou, trabalhou e ficou conhecido como o bispo das favelas. Mas seu superior, Dom Jaime de Barros Câmara, não gostava, não achava bom e reclamava do seu contato aberto, ao se dirigir as pessoas, dizendo: “O senhor não pode fazer isso. Um bispo da Igreja é um príncipe e um príncipe não pode se misturar”. Mas Dom Helder adorava se misturar! “Quantas vezes eu celebro em área de miséria e o meu povo canta: O Senhor é o meu pastor, e nada me pode faltar. Eu olho ao seu redor e vejo que está faltando tudo”.

Dom Helder confidenciou: “Uma de minhas maiores emoções, em toda minha vida, foi quando da abertura da primeira sessão do Concílio Vaticano II. Em sua aula inaugural, o Papa João XXIII disse com força: ‘Aqui estamos para a nossa conversão’ e ele mesmo se incluía. Isso significava que nós, cristãos, padres e bispos e até o Papa, precisávamos reaprender o Evangelho. A beber novamente da fonte d’água da vida que é o próprio Deus de Deus”.

Foi o bispo brasileiro mais influente em todo Concílio Vaticano II, com grande mérito abrir, para a Igreja, o caminho de renovação, da Igreja povo de Deus e que a mesma tinha que ir ao encontro dos sofredores e empobrecidos, dos “sem voz e sem vez”. Dizia ele: “Se eu não me engano, nós, os homens da Igreja, deveríamos realizar dentro da Igreja as mudanças que exigimos da sociedade. Não pense que Deus ajuda a miséria. Deus não aprova as injustiças. As injustiças sociais são problemas nossos”.

No século passado, Dom Helder foi a pessoa, entre todos os brasileiros, mais conhecida no exterior. Depois de Edson Arantes do Nascimento (Pelé) e Juscelino Kubitschek foi ele, sem dúvida, o nome sobre o qual mais se perguntava fora do Brasil.

Completando 10 anos da sua morte, neste 27 de agosto de 2009, dentro do seu centenário, somos convidados a acolher o amor como dom, como inspiração e proposta de vida. É importante olhar para convicção vocacional de Dom Helder, para o brilho de sua sabedoria, com raríssimas qualidades: inteligência, cultura e espírito de liderança e, ao mesmo tempo, com um incontestável amor por todas as pessoas do planeta, marcadas pela dor e sofrimento de toda natureza.

Morte e centenário de nascimento de Dom Helder é lembrado em cidades do Nordeste

No dia em que completa dez anos da morte de Dom Helder Câmara, e no ano em que é comemorado o centenário de seu nascimento, a Catedral da Sé de Olinda, em Pernambuco, realiza celebração amanhã (27) em homenagem ao bispo católico. Na ocasião também haverá o lançamento da “Cátedra dom Helder de Direitos Humanos” na Universidade Católica de Pernambuco. O presidente do Conselho Episcopal Latino Americano (CELAM) e arcebispo de Aparecida (SP), dom Raimundo Damasceno preside a celebração.

Além do arcebispo, estarão presentes na homenagem, o novo arcebispo de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido, representantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) Nordeste 2, da Universidade Católica de Pernambuco, do Instituto dom Helder Câmara, entre outros. A celebração será às 19h, na Igreja da Sé de Olinda, local onde dom Helder foi sepultado.

Já na Paraíba, a diocese de Campina Grande e o Centro de Ação Cultural (Centrac) realizam programação especial para celebrar o centenário de nascimento do bispo católico que foi considerado o dom da paz e símbolo da luta pelos direitos humanos. O seminário “O Peregrino da Paz – os 100 anos de Dom Helder Câmara” abre as homenagens no dia 31 deste mês. A exibição de um documentário intitulado “Mensageiro da Liberdade” que retrata a vida e os ensinamentos do bispo também está incluído na programação.

Além do seminário também haverá a exposição “Dom Helder: Memória e profecia no seu centenário 1909 – 2009”. O trabalho artístico foi criado na França e cedido ao Brasil, por seu curador José Broucker. São 26 painéis com textos e fotografias que resgatam a trajetória do religioso. Os eventos são gratuitos e abertos ao público.

Dom da Paz

Cearense nascido em Fortaleza, no dia 7 de fevereiro de 1909, Dom Helder Camara foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e também o único brasileiro indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz, recebeu 33 títulos de doutor honoris causa em universidades ao redor do mundo. Iniciou na vida religiosa aos 22 anos de idade.

Além da vida religiosa, Dom Helder lutou contra o autoritarismo resistindo ao regime militar. Trabalhou em prol dos menos favorecidos e buscou o respeito aos direitos humanos.

D. Helder, D. Luciano

Neste 27 de agosto fazemos memória dos 10 anos do falecimento de D. Helder Camara e 3 anos do falecimento de D. Luciano Mendes de Almeida.

Dois arcebispos eminentes, dois cristãos convictos, dois seres humanos que dignificam a humanidade pela grandeza e humildade no serviço aos pobres e pequenos. Bispos dos esquecidos, viveram pobres a serviço dos pobres!

Quem conviveu com eles teve o privilégio de conhecer a beleza do Amor e da misericórdia de DEUS.

D. Luciano Mendes de Almeida

D. Luciano Mendes de Almeida

D. Helder Camara

D. Helder Camara

Celebrar a memória de tão grandes seres humanos, ornados pela simplicidade, profecia e verdade é comprometer-se no discipulado missionário do Senhor JESUS.

Saudades é o que sentimos, que falta nos fazem, como é bom recordar de suas vidas e pricipalmente ter presente a força profética de suas palavras, com força e ternura de quem confia e nunca perde a esperança.

Sem dúvida os dois eminentes arcebispos, amigos e irmãos dos fracos e excluídos santificaram-se na alegria e na dor de servirem sem limites.

D. Helder, D. Luciano, orem por nós, nos ajudem a sermos sempre fiéis ao SENHOR JESUS!


A Região Belém celebrou missa em memória de D. Luciano na quinta-feira, 27 de agosto, na igreja Cristo Rei, no Tatuapé. A cerimônia foi presidida pelo bispo regional D. Pedro Luiz Stringhini. Veja a homilia: