D. Helder Câmara

Homenagem ao centenário de nascimento de Dom Helder Camara

Dom Helder – sonhos e utopias

Pe. João Carlos Ribeiro*

A homenagem prestada pelo Pe. Geovane Saraiva, expressa nesta obra, “Dom Helder: Sonhos e utopias”, com absoluta certeza será compartilhada por muitos sonhadores, amigos e admiradores do “artesão da paz”, do homem que com seu jeito encantador de ser e sua mística, uniu à terra ao céu, como o pastor e profeta dos empobrecidos, dos “sem voz e sem vez”.

Depois de ter entregado aos leitores “O Peregrino da Paz” e “Nascido Para as Coisas Maiores”, por ocasião do centenário do cidadão do planeta (1909-2009), nosso querido Pe. Geovane, sacerdote da Arquidiocese de Fortaleza há 24 anos, quer mostrar neste trabalho a homenagem do todos nós a Dom Helder Pessoa Câmara, na riqueza e na força de sua personalidade, profundamente marcada pela graça de Deus e, por isso mesmo, humano ao extremo.

Dom Helder marcou a região metropolitana do Recife, nos anos em que foi nosso arcebispo. Esteve à frente do rebanho em momentos sociais muito tensos e difíceis, como foi o tempo da ditadura militar. O Brasil e o mundo conheceram um Dom Helder porta-voz dos injustiçados e dos empobrecidos. Um homem lúcido, profeta segundo o Evangelho, dono de palavras fortes e contundentes. Mas nós conhecemos mais do que esse profeta respeitado no exterior e temido, em seu país, por suas posições em favor de um mundo fraterno e solidário e de uma Igreja pobre e servidora. Conhecemos um Dom Helder respeitoso das pessoas e cheio de amor para com os sofredores. Um homem simples e ao alcance das pessoas de qualquer classe social.

Com toda certeza, uma das obras mais significativas de Dom Helder foi o Encontro de Irmãos. O Movimento de Evangelização Encontro de Irmãos nasceu da confiança do Dom no povo pobre da periferia. Ele acreditou no povo sofredor dos bairros populares e o convocou para a grande tarefa da evangelização. Começou no rádio, dando dicas sobre o trabalho com a Bíblia. Passou a reunir as lideranças que foram surgindo. O povo pegou a Bíblia nas mãos e foi à luta. Formaram-se grupos que passaram a ler e estudar a Bíblia semanalmente. A meditação dos textos sagrados animou a participação das pessoas nas lutas dos bairros, reforçou a presença dos cristãos nas associações de moradores, formou gerações de cristãos de fé e de compromisso. E continua formando, porque o Encontro de Irmãos continua vivo e atuante, graças a Deus.

É o Dom Helder do qual hoje nos lembramos. Um homem do povo. Um homem de Deus. Como ele falava de Deus… Havia tanto amor nas suas palavras, quando se referia ao Criador e Pai…. Havia tanta emoção nas palavras da consagração que o vimos muitas vezes chorando ao celebrar a Missa. E sempre repetia com toda convicção que o verdadeiro celebrante da Missa é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não há quem não se lembre com afeto da figura de Dom Hélder: a simplicidade de vida que ele abraçou, morando na sacristia da Igreja das Fronteiras; como ia a pé para a Cúria na Rua do Giriquiti, mesmo sob ameaça de forças paramilitares ligados ao regime militar; como abraçava os bêbados, os bêbados que teimavam em pedir-lhe a bênção na rua ou na porta de sua casa. Como esse homem era respeitoso com as pessoas: a qualquer um recebia e abraçava independentemente de quem fosse com a mesma alegria e sinceridade.

Ao inesquecível Dom Helder, figura humana abençoada e santa, nossa renovada e imorredoura gratidão! Comparamo-lo ao “Apóstolo dos gentios”, pelos seus grandes sonhos e utopias, na riqueza de sua lavra literária, homilias, conferências, exortações e viagens pelo mundo inteiro, numa palavra, “outro cavaleiro andante”. É Uma oportunidade a mais para aprendermos, com ele, o respeito pelos humildes, a confiança nos sofredores, o amor incondicional ao Pai e Criador.

Ao Pe. Geovane Saraiva, nossos agradecimentos e aplausos, por mais uma homenagem a Dom Helder, renovada nesta obra, que o mantém vivo como referência e memória admirável, cujo testemunho continua a produzir frutos abundantes. Parabéns Pe. Geovane!

*Pe. João Carlos, cantor, compositor e escritor. É Padre Salesiano, atualmente ocupa o cargo de superior da congregação salesiana no nordeste do Brasil.

Pastores segundo o coração de Deus

Neste artigo falamos de dois grandes pastores, figuras humanas que edificaram casa de Deus, isto é, a Igreja, tendo como alicerce sólido o bem e a justiça, não cedendo às ciladas dos injustos e poderosos; Dom Helder Pessoa Câmara e Dom Aloísio Cardeal Lorscheider, que as nossas gerações hodiernas, pelo que eles representam, precisam conhecer ainda mais. Neles a profecia de Jeremias se realizou: “Eu vos darei pastores segundo o meu coração, que vos conduzam com sabedoria e inteligência” (Jr 3, 15). Anunciaram a boa nova da Salvação em toda sua plenitude, a partir da dor e do sofrimento de uma multidão de irmãos e irmãs. O entusiasmo e a mística desses grandes sacerdotes causaram e continuam a causar profundas marcas de generosidade, sempre crescente, nas pessoas que exerceram e exercem suas funções nos mais diversificados setores de nossa sociedade.
Guardemos no íntimo do coração a mensagem de otimismo e esperança, deixada por Dom Helder Câmara, o artesão da paz e cidadão do mundo, o bispo brasileiro mais influente no Concílio Vaticano II, ao abrir o caminho para a renovação, na sua mais profunda e autêntica coerência em favor dos pobres: “Se não engano, nós, os homens da Igreja, deveríamos realizar dentro da Igreja as mudanças que exigimos da sociedade”.
Falou também com extraordinária paixão que Deus é amor, em tom daquilo que lhe era muito peculiar, a poesia: “Fomos nós, as tuas criaturas que inventamos teu nome!? O nome não é, não deve ser um rótulo colado sobre as pessoas e sobre as coisas… O nome vem de dentro das coisas e pessoas, e não deve ser falso… Tem que exprimir o mais íntimo do íntimo, a própria razão de ser e existir da coisa ou da pessoa nomeada… Teu nome é e só podia ser amor”.1
Ao assumir a Arquidiocese de Olinda e Recife, em abril de 1964, afirmou: “Ninguém se escandalize quando me vir ao lado de criaturas humanas tidas como indignas e pecadoras (…). “Quem estiver sofrendo, no corpo ou na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado, terá lugar especial no coração do bispo”.2
Dom Helder além de deixar uma gigantesca obra escrita, com grande sabedoria soube unir, numa síntese raríssima e feliz o místico e o homem da ação, que contemplava e escrevia ao mesmo tempo durante as madrugadas e agia pela manhã, tarde e noite. Foi um articulador da melhor qualidade; dotado de uma fé clamorosa, de uma enorme capacidade de comunicação, força e convicção inabaláveis, que saía de dentro do peito magro, daquele homem baixo e franzino na estatura, que parecia o retirante de Portinari.
Profeta dos pobres, artesão da paz, cidadão do mundo, o homem dos grandes sonhos e das grandes utopias ele o foi, a sinalizar uma verdadeira conversão, nas mudanças dos costumes, no sentido de uma melhor compreensão da Igreja, na busca de sua renovação, do seu rejuvenescimento – ao verdadeiro “aggiornamento”, ao mesmo tempo, em que devia anunciar a pessoa de Jesus Cristo, diante do clamor dos empobrecidos, dos “sem voz e sem vez”.
O grande ardor e entusiasmo desse homem, em todo seu trabalho bem articulado, no amor pela Igreja pobre e servidora, nunca podemos negar e esquecer. “Sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina, daqui a mil anos”.3
Já Dom Aloísio, que no seu amor à verdade e no apego ao Evangelho, como critério de vida e de pastoreio, também na sua capacidade de dialogar com as classes sociais e no seu amor para com os empobrecidos, permaneceu humilde, serviçal, sendo um irmão entre irmãos.
Doçura e ternura em pessoa, alegria constante, posições corajosas e determinadas, ao mesmo tempo, pregava e anunciava o Evangelho com coragem profética e grande sabedoria. Ele carregou sempre no seu grande coração, as alegrias, as esperanças, as tristezas, as angústias e os sofrimentos de sua querida gente (cf. GS 200). Além de travar, sem jamais se cansar, uma luta pela redemocratização, pela liberdade de expressão, pela dignidade da pessoa humana e pelo fim da tortura em nosso querido Brasil.
Dom Aloísio, ao se tornar Arcebispo de Fortaleza (1973-1995), logo de início afirmou: “A comunidade eclesial não é feudo do bispo, mas ele é o servidor de uma Igreja que se entende a si mesma como sacramento do Reino, isto é, da presença da verdade e do amor infinito de Deus para com cada criatura humana”.4
Daí ele não compreender como algo natural e normal se conviver com a miséria e o acentuado empobrecimento do povo, que tinha como conseqüência o êxodo, o flagelo e a morte de muitos irmãos, levantando sua voz de profeta para dizer que não era vontade de Deus a realidade aqui encontrada e, ao mesmo tempo, usou de todos os meios, com uma enorme vontade de transformar essa mesma realidade, marcando profundamente a história do nosso Ceará.
“Em pleno regime de exceção, a sociedade cearense logo sentiu os efeitos dessa guinada. As camadas desfavorecidas ou marginalizadas, os sem-terra, os sem-teto, os presos políticos, os presidiários comuns, os trabalhadores em greve – ganharam aliado de peso”.5
Dom Aloísio foi o grande teólogo que sabia compreender a realidade na sua conjuntura e, com suas posições bem claras e definidas, nas análises e nas conclusões teológicas pastorais, passando para o povo um clima que favorecia e gerava uma confiança generalizada. Daí ser o Cardeal que mais se destacou em todos os Conclaves e Sínodos de que participou, gerando para o mundo inteiro e, especialmente para a imprensa, uma grande expectativa. Sua palavra corajosa e profética era acolhida por todos como uma boa notícia.
“[…] sua voz, naturalmente doce, alternava-se quando era preciso confrontar os vendilhões da justiça, quando todos os jardins da democracia corriam o risco de ser alvo de bombas atiradas pelos olhares fixos da repressão. Sua voz ecoou pelos corredores das prisões […]”.6
Quando ele se tornou bispo emérito de Aparecida, veio a pergunta: O que o senhor vai fazer? Respondeu: “Sou um simples frade menor e vou fazer o que o meu provincial mandar, porque a obediência me torna livre”.
Também nunca esquecemos sua palavra lúcida e segura, advertindo “oportuna e inoportunamente” (2Tm 4, 2), bem como sua voz mansa e corajosa em denunciar as injustiças e, sobretudo, sua ternura franciscana, nos leva a afirmar que Dom Aloísio, verdadeiramente, mora em nossos corações.
Peçamos então a Deus, que na sua infinita e inesgotável bondade, chamou Dom Helder e Dom Aloísio à missão de profetizar, que sempre os tenhamos como referência, iluminando-nos e fazendo sempre mais compreender a indispensável força de sua graça, num desejo de nos tornar capacitados a fermentar este mundo em que vivemos na sua realidade cultural, econômico e social, que tanto desafia a humanidade.
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1 Câmara, Dom Helder. Em tuas mãos, Senhor! Paulinas. São Paulo, 1986, p. 11.
2 Ibidem. Dom Helder: o artesão da paz. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2009, p. 88.
3 Saraiva, Geovane (padre). A ternura de um pastor: Cardeal Lorscheider. Fortaleza: Editora Celigráfica, 2009, p. 35.
4 Tursi, Carlo; Frencken, Geraldo (organizadores). Mantenham as lâmpadas acesas: revisitando o caminho, recriando a caminhada. Fortaleza: Edições UFC, 2008, p. 95.
5 Saraiva, Geovane (padre). A ternura de um pastor: Cardeal Lorscheider. Fortaleza: Editora Celigráfica, 2009, p. 22
6 Ibidem, p. 23
Pe Geovane Saraiva, Pároco de Santo Afonso

 

Dom Helder – sonhos e utopias

PREFÁCIO
Pe. João Carlos Ribeiro*
A homenagem prestada pelo Pe. Geovane Saraiva, expressa nesta obra, “Dom Helder: Sonhos e utopias”, com absoluta certeza será compartilhada por muitos sonhadores, amigos e admiradores do “artesão da paz”, do homem que com seu jeito encantador de ser e sua mística, uniu à terra ao céu, como o pastor e profeta dos empobrecidos, dos “sem voz e sem vez”.
Depois de ter entregado aos leitores “O Peregrino da Paz” e “Nascido Para as Coisas Maiores”, por ocasião do centenário do cidadão do planeta (1909-2009), nosso querido Pe. Geovane, sacerdote da Arquidiocese de Fortaleza, há 24 anos, quer mostrar neste trabalho a homenagem do todos nós a Dom Helder Pessoa Câmara, na riqueza e na força de sua personalidade, profundamente marcada pela graça de Deus e, por isso mesmo, humano ao extremo.
Dom Helder marcou a região metropolitana do Recife, nos anos em que foi nosso arcebispo. Esteve à frente do rebanho em momentos sociais muito tensos e difíceis, como foi o tempo da ditadura militar. O Brasil e o mundo conheceram um Dom Helder porta-voz dos injustiçados e dos empobrecidos. Um homem lúcido, profeta segundo o Evangelho, dono de palavras fortes e contundentes. Mas nós conhecemos mais do que esse profeta respeitado no exterior e temido, em seu país, por suas posições em favor de um mundo fraterno e solidário e de uma Igreja pobre e servidora. Conhecemos um Dom Helder respeitoso das pessoas e cheio de amor para com os sofredores. Um homem simples e ao alcance das pessoas de qualquer classe social.
Com toda certeza, uma das obras mais significativas de Dom Helder foi o Encontro de Irmãos. O Movimento de Evangelização Encontro de Irmãos nasceu da confiança do Dom no povo pobre da periferia. Ele acreditou no povo sofredor dos bairros populares e o convocou para a grande tarefa da evangelização. Começou no rádio, dando dicas sobre o trabalho com a Bíblia. Passou a reunir as lideranças que foram surgindo. O povo pegou a Bíblia nas mãos e foi à luta. Formaram-se grupos que passaram a ler e estudar a Bíblia semanalmente. A meditação dos textos sagrados animou a participação das pessoas nas lutas dos bairros, reforçou a presença dos cristãos nas associações de moradores, formou gerações de cristãos de fé e de compromisso. E continua formando, porque o Encontro de Irmãos continua vivo e atuante, graças a Deus.
É o Dom Helder do qual hoje nos lembramos. Um homem do povo. Um homem de Deus. Como ele falava de Deus… Havia tanto amor nas suas palavras, quando se referia ao Criador e Pai…. Havia tanta emoção nas palavras da consagração que o vimos muitas vezes chorando ao celebrar a Missa. E sempre repetia com toda convicção que o verdadeiro celebrante da Missa é Nosso Senhor Jesus Cristo.
Não há quem não se lembre com afeto da figura de Dom Hélder: a simplicidade de vida que ele abraçou, morando na sacristia da Igreja das Fronteiras; como ia a pé para a Cúria na Rua do Giriquiti, mesmo sob ameaça de forças paramilitares ligados ao regime militar; como abraçava os bêbados, os bêbados que teimavam em pedir-lhe a bênção na rua ou na porta de sua casa. Como esse homem era respeitoso com as pessoas: a qualquer um recebia e abraçava independentemente de quem fosse com a mesma alegria e sinceridade.
Ao inesquecível Dom Helder, figura humana abençoada e santa, nossa renovada e imorredoura gratidão! Comparamo-lo ao “Apóstolo dos gentios”, pelos seus grandes sonhos e utopias, na riqueza de sua lavra literária, homilias, conferências, exortações e viagens pelo mundo inteiro, numa palavra, “outro cavaleiro andante”. É Uma oportunidade a mais para aprendermos, com ele, o respeito pelos humildes, a confiança nos sofredores, o amor incondicional ao Pai e Criador.
Ao Pe. Geovane Saraiva, nossos agradecimentos e aplausos, por mais uma homenagem a Dom Helder, renovada nesta obra, que o mantém vivo como referência e memória admirável, cujo testemunho continua a produzir frutos abundantes. Parabéns Pe. Geovane!
*Pe. João Carlos, cantor, compositor e escritor. É Padre Salesiano, atualmente ocupa o cargo de superior da congregação salesiana no nordeste do Brasil.

 

Ele falou em Nome de Deus

Pe. Geovane Saraiva

Dom Helder Câmara foi um cristão, que de Deus recebeu dons e talentos, numa grande graça, procurou vivê-los com coerência profética, sendo para o mundo sal e luz. Na sua missão, ofertada pelo Pai, projetou os valores do Reino, na sua beleza e preciosidade, contribuindo enormemente para definir a opção de uma multidão de pessoas diante dos desafios e encruzilhadas da vida.

Investido da força do alto, esforçou-se para impedir que os valores que não são deste mundo se transformassem em realidade, na sua luta em favor da justiça do Reino, que tem origem no mistério pascal de Jesus. E foi exatamente na Páscoa do Filho de Deus, que Dom Helder lançou uma proposta de superação de todo tipo de empecilho, começando com indiferença, o individualismo e a hipocrisia, levando adiante o sonho de esperança, nesta sua afirmação: “Das barreiras a romper, a que mais custa e a que mais importa é, sem dúvida, a da mediocridade”.

Sempre que falamos ou escrevemos sobre Dom Helder, estamos certos de que a lembrança de sua vida vem ao nosso encontro, no sentido de ajudar a manter vivo esse farol luminoso, numa imorredoura esperança. Nunca podemos deixar de pensar nesse irmão, profundamente carismático e bom, justo, solidário e fraterno, com seus sonhos e utopias, numa disposição espiritual e interior para lutar em favor da construção de um mundo de irmãos.

O rastro luminoso que sua ação deixou, brilhou de um modo fulgurante através de seu lema episcopal: “In manus tuas” (em tuas mãos, Senhor). Aqui vemos a marca de seu profetismo inconfundível nesse peregrino, que em meio às coisas passageiras, ao andar por todo o planeta, sendo acolhido pelas diversas autoridades. Ao mesmo tempo em que carregou consigo uma enorme vontade de resolver a realidade do acentuado empobrecimento das crianças, jovens e adultos, sem teto e sem escola, além de travar uma luta incansável em favor da conscientização dos direitos humanos em toda sua plenitude.1

Dom Helder Câmara como ministro de Deus, como sacerdote da Igreja Católica, foi ao mesmo tempo escritor, conferencista, poeta, mas, sobretudo, um profeta que falou de Deus em nome de Deus. Construiu ao longo do século XX uma pedagogia marcada pela esperança, na qual levou o povo de Deus a sonhar com um mundo fraterno e solidário já aqui, segundo a vontade de Deus, fazendo a diferença. Foi a voz dos que não tinham voz no Brasil, na América Latina e em todo planeta, transformando-se numa referência mundial, no que diz respeito aos direitos e à dignidade da pessoa humana.2

Foi um bispo, que no falar e no agir, implantou um novo modo de ser bispo e ser Igreja, rompendo com os padrões existentes, razão pela qual, apesar de ter sido um dos maiores nomes da Igreja no mundo inteiro no século XX. E isso foi ótimo e maravilhoso, mas não lhe foi o suficiente para que fosse promovido a Cardeal. É claro que compreendemos como algo normal na convivência humana, pesando-lhe, certamente, a inveja e mesmo denúncias enviadas à Santa Sé, por setores descontentes, conservadores e fechados da Igreja.

Apóstolo dos direitos humanos, da justiça e da paz, a exemplo de Dom Paulo Evaristo Arns, de Dom Aloísio Lorscheider e tantos outros profetas, ele o foi, empreendendo na 2ª metade do século XX uma verdadeira cruzada contra a miséria, indo ao encontro dos sofredores de toda natureza, em nosso querido Brasil, visitando pessoalmente às prisões e fazendo denúncias aqui e no exterior. Homem de fé, que viveu animado pela esperança, na prática do amor doação, despojamento e ternura. Dom Helder Câmara, embora tenha partido para o seio do Pai em 27 de agosto de 1999, continua a dizer-nos que temos que viver segundo o Evangelho de Jesus e a descobrir o rosto de Deus nos seus filhos, especialmente nos pequenos e empobrecidos.

Dois fortes aliados

Pe. Geovane Saraiva

Neste artigo falamos de dois pastores que edificaram casa de Deus, isto é, a Igreja, tendo como alicerce sólido o bem e a justiça, não cedendo às ciladas dos injustos e poderosos. Neles a profecia de Jeremias se realiza: “Eu vos darei pastores segundo o meu coração, que vos conduzam com sabedoria e inteligência” (Jr 3, 15).

Trata-se de Dom Helder Pessoa Câmara e Dom Aloísio Cardeal Lorscheider, que anunciaram a boa nova da Salvação em toda sua plenitude, a partir da dor e do sofrimento de uma multidão de irmãos e irmãs. O entusiasmo e a mística desses grandes sacerdotes causaram e continuam a causar profundas marcas de generosidade, sempre crescente, nas pessoas que exerceram e exercem suas funções nos mais diversificados setores de nossa sociedade.

Guardemos no íntimo do coração a mensagem de otimismo e esperança, deixada por Dom Helder Câmara, o artesão da paz e cidadão do mundo, o bispo brasileiro mais influente no Concílio Vaticano II, ao abrir o caminho para a renovação, na sua mais profunda e autêntica coerência em favor dos pobres: “Se não engano, nós, os homens da Igreja, deveríamos realizar dentro da Igreja as mudanças que exigimos da sociedade”.

Falou também com extraordinária paixão que Deus é amor, em tom de poesia: “Fomos nós, as tuas criaturas que inventamos teu nome!? O nome não é, não deve ser um rótulo colado sobre as pessoas e sobre as coisas… O nome vem de dentro das coisas e pessoas, e não deve ser falso… Tem que exprimir o mais íntimo do íntimo, a própria razão de ser e existir da coisa ou da pessoa nomeada… Teu nome é e só podia ser amor”

Ao assumir a Arquidiocese de Olinda e Recife, em abril de 1964, afirmou: “Ninguém se escandalize quando me vir ao lado de criaturas humanas tidas como indignas e pecadoras (…). “Quem estiver sofrendo, no corpo ou na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado, terá lugar especial no coração do bispo”.

Dom Helder deixou uma gigantesca obra escrita, soube aliar, numa “síntese raríssima e feliz o místico e o homem da ação, que contemplava e escrevia durante as madrugadas e agia pela manhã, tarde e noite”. “Foi um articulador da melhor qualidade”; dotado de uma fé clamorosa, de uma enorme capacidade de comunicação, força e convicção inabaláveis, que saia de dentro peito magro, daquele homem baixo e franzino na estatura, que parecia o retirante de Portinari.

Profeta dos pobres, artesão da paz, cidadão do mundo, o homem dos grandes sonhos e das grandes utopias ele o foi, a sinalizar uma verdadeira conversão, nas mudanças dos costumes, no sentido de uma melhor compreensão da Igreja, na busca de sua renovação, do seu rejuvenescimento – ao verdadeiro “aggiornamento”, ao mesmo tempo, em que devia anunciar a pessoa de Jesus Cristo, diante do clamor dos empobrecidos, dos “sem voz e sem vez”.

O grande ardor e entusiasmo desse homem, em todo seu trabalho articulado, no amor pela Igreja pobre e servidora, nunca podemos negar e esquecer. “Sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina, daqui a mil anos” (José Comblin).

Já Dom Aloísio Lorscheider, que no seu amor à verdade e no apego ao Evangelho, como critério de vida e de pastoreio, também na sua capacidade de dialogar com as classes sociais e no seu amor para com os empobrecidos, permaneceu humilde, serviçal, sendo um irmão entre irmãos.

Doçura e ternura em pessoa, alegria constante, posições corajosas e determinadas, ao mesmo tempo, pregava e anunciava o Evangelho com coragem profética e grande sabedoria. Ele carregou sempre no seu grande coração, as alegrias, as esperanças, as tristezas, as angústias e os sofrimentos de sua querida gente (cf. GS 200). Além de travar, sem jamais se cansar, uma luta pela redemocratização, pela liberdade de expressão, pela dignidade da pessoa humana e pelo fim da tortura em nosso querido Brasil.

Dom Aloísio, ao se tornar Arcebispo de Fortaleza (1973-1995), logo de início afirmou: “A comunidade eclesial não é feudo do bispo, mas ele é o servidor de uma Igreja que se entende a si mesma como sacramento do Reino, isto é, da presença da verdade e do amor infinito de Deus para com cada criatura humana”.

Daí ele não compreender como algo natural e normal se conviver com a miséria e o acentuado empobrecimento do povo, que tinha como conseqüência o êxodo, o flagelo e a morte de muitos irmãos, levantando sua voz de profeta para dizer que não era vontade de Deus a realidade aqui encontrada e, ao mesmo tempo, usou de todos os meios, com uma enorme vontade de transformar essa mesma realidade, marcando profundamente a história do nosso Ceará.

Dom Aloísio foi o grande teólogo que sabia compreender a realidade na sua conjuntura e, com suas posições bem claras e definidas, nas análises e nas conclusões teológicas pastorais, passando para o povo um clima que favorecia e gerava uma confiança generalizada. Daí ser o Cardeal que mais se destacou em todos os Conclaves e Sínodos de que participou, gerando para o mundo inteiro e, especialmente, para a imprensa uma grande expectativa. Sua palavra corajosa e profética era acolhida por todos como uma boa notícia.

“Em pleno regime de exceção, a sociedade cearense logo sentiu os efeitos dessa guinada. As camadas desfavorecidas ou marginalizadas, os sem-terra, os sem-teto, os presos políticos, os presidiários comuns, os trabalhadores em greve – ganharam aliado de peso” (Desembargador Fernando Ximenes).

“[…] sua voz, naturalmente doce, alternava-se quando era preciso confrontar os vendilhões da justiça, quando todos os jardins da democracia corriam o risco de ser alvo de bombas atiradas pelos olhares fixos da repressão. Sua voz ecoou pelos corredores das prisões […]” (Senador Pedro Simon).

Quando ele se tornou bispo emérito de Aparecida, veio a pergunta: O que o senhor vai fazer? Respondeu: “Sou um simples frade menor e vou fazer o que o meu provincial mandar, porque a obediência me torna livre”.

Também nunca esquecemos sua palavra lúcida e segura, advertindo “oportuna e inoportunamente” (2Tm 4, 2), bem como sua voz mansa e corajosa em denunciar as injustiças e, sobretudo, sua ternura franciscana, nos leva a afirmar que Dom Aloísio, verdadeiramente, mora em nossos corações.

Por isso mesmo peçamos a Deus, que na sua infinita e inesgotável bondade, chamou Dom Helder e Dom Aloísio à missão de profetizar, que sempre os tenhamos como referência, nos iluminando e fazendo sempre mais compreender a indispensável força de sua graça, que quer nos tornar capacitados a fermentar este mundo em que vivemos, na sua realidade cultural e social, que tanto desafia a humanidade.

Dom Hélder, força e habilidade

Pe. Geovane Saraiva

Dom Helder Pessoa Câmara, por sua simplicidade, humilde e estatura franzina, nos faz lembrar o jumentinho que Jesus escolheu para montar, na sua entrada em Jerusalém, animal sem aparente beleza, mas de uma importância, força e resistência extraordinária (cf. Mt 21, 2-8). O pastor dos empobrecidos foi assim, no seu temperamento e na sua audácia sem limites, isto acontecia quando tinha que defender seus pontos de vistas, com um profundo desejo, usando de todos os meios possíveis, para que a Igreja se engajasse na causa dos empobrecidos, que fosse mais servidora e mais fiel a vontade daquele que a instaurou e menos “senhora e rica”.

Falamos de uma criatura humana extremamente habilidosa e com uma desenvoltura, que se tornou o mais influente bispo brasileiro no Concílio Vaticano II (1962-1965), a ponto de decisivamente contribuir para que a Igreja, no nosso continente latino americano, nos anos que se seguia, fizesse a sua “opção profética e preferencial pelos pobres”.

Segundo o grande teólogo José Comblin, falecido recentemente, aos 88 anos, que conviveu muito de perto com o querido arcebispo de Olinda e Recife, dizia: “Ele era um articulador de primeira grandeza, com noção de que, às vezes, sua influência seria maior se ficasse calado e não se manifestasse”. Muitas vezes os próprios colegas ignoravam de onde vinham as excelentes propostas contribuições que estavam votando, narra José Combiln.

Já bem antes do Concílio, as vésperas da inauguração de Brasília, Juscelino Kubitschek chamou Dom Helder e o convidou para ser o prefeito da nova capital federal, sendo insistente. Afirmou que tinha o parecer favorável de todos os líderes partidários, depois de consultá-los. Dom Helder recusou polidamente, dizendo: “Hoje, senhor presidente, eu estou aqui, frente a frente, debatendo com o senhor pontos de vista com absoluta liberdade e sem condionamentos de qualquer ordem. No dia em que me incorporar ao seu grupo de comando, dentro das injunções concretas das práticas políticas, eu estarei amarrado, balançando a cabeça para concordar com o que o senhor disser, deixando de lhe trazer a colaboração original e independente da Igreja. Eu quero ter sempre um canal de diálogo livre e respeitoso com o Estado para cobrar o seu dever. Quero fazê-lo em nome de Deus e do povo. Quero ser a boca dos que não têm vez nem voz”.

Compreendemos a força e a habilidade de Dom Helder, a partir daquilo que é belo e maravilhoso no poeta ou escritor, ao externar o que tem dentro de si: suas fantasias e suas ideias. Aquilo que ele tem na mente e no coração, releva-a e manifesta-a. Assim, também, foi o que aconteceu com os autores sagrados, ao redigirem as Sagradas Escrituras. Há tanta coisa bonita e surpreendente, muitas vezes, com tanto exagero, que se tem a impressão de se ir além do sagrado.

No último versículo do Evangelho de São João o autor sagrado afirma que o que Jesus realizou, neste mundo, é belíssimo e maravilhoso e, se tudo fosse escrito, livro algum caberia. O milagre da multiplicação dos pães (Mt 14, 13-21), finda dizendo: Os que comeram dos cinco pães e dos dois peixes eram cinco mil homens sem contar mulheres e crianças. Estudiosos e especialistas da Palavra de Deus, sem negar, evidentemente, a divindade do Filho de Deus, acham um exagero, para aquele tempo, o grande número de pessoas.

Deus fez o homem com uma imaginação fértil e criadora, chamando-o para participar da sua natureza divina. Aí está sua grandeza. A terra tornou-se pequena para caber a criatura humana, grandiosa na sua capacidade de imaginar e realizar, em todos os sentidos.

Padre Manfredo Oliveira, cearense de Limoeiro do Norte, grande figura humana e um dos maiores filósofos da atualidade, na sua mente dadivosa, foi extremamente feliz, ao afirmar que Dom Helder não cabia dentro da Igreja. Certamente ele quis enaltecer sua força imaginadora, talentos, sensibilidade e a inteligência privilegiada do pastor dos empobrecidos, que habilidade soube perceber todas as novidades e desafios do século XX e colocá-los no seu coração, procurando dar-lhes uma resposta.

Já o Cardeal Aloísio Lorscheider falava de Dom Helder, assim: “Foi um corifeu, com uma visão de futuro e com grande influência, muito respeitado e inquieto como uma barata tonta: Sua tribuna foi sua sabedoria em agir e articular nos bastidores, com uma oratória vibrante e com gestos rasgados que sensibilizavam e arrebatavam as multidões.

Tudo isso ele realizava, numa atitude de oração e na fidelidade ao Pai, no seu amor acendrado à Igreja. Ele mesmo dizia: Abandonar a Igreja seria o mesmo que abandonar o seu próprio corpo. Por isso devemos acolher tudo o que se disse e o que, ainda, irão dizer deste homem tão amado por Deus. Ele, por tudo que fez na sua força e habilidade invencível, é grande demais! De fato, a Igreja é pequena para caber Dom Helder.

 

Comemorações do centenário de nascimento de Dom Helder chegam ao fim

Acontecerá no próximo domingo (7), a partir das 10h, na Igreja das Fronteiras, em Recife, Pernambuco, uma celebração eucarística para marcar o encerramento das comemorações do centenário de nascimento de Dom Helder Camara, que será presidida pelo Pe. Ernanne Pinheiro, secretário executivo do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Camara, da CNBB.

Após a missa será lançado o livro “Memória e Missão – Experiência de Vida”, no Espaço Dom Lamartine Soares (Terraço das Fronteiras), escrito pelo Pe. Ernanne Pinheiro e que narra sua parceira com Dom Helder. O Bloco Brinque na Paz, do Comitê da Ação da Cidadania Pernambuco Solidário, vai se apresentar no pátio externo do Espaço.

Uma mina de ouro

Pe. Geovane Saraiva

“Sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina, daqui a mil anos”. Esta afirmação do teólogo Padre José Comblin nos ajuda compreender, a vida do artesão da paz, Dom Helder Câmara, nascido para o que é mais elevado, as coisas maiores.

Sua vida é uma mina de ouro que precisa ser explorada. Ele, como cidadão universal, andou pelos diversos caminhos do Planeta e, com sua voz profética e seu profundo amor por este mundo em que vivemos, obra do Criador e Pai, com a criatura marcada pela dor, angústia e sofrimento, mas, ao mesmo tempo, cheia de amor, garra, sonhos e esperança. Ele, no seu centenário de nascimento, ensina-nos a ver e a descobrir a verdadeira face do Cristo nos nossos semelhantes. Para ele, pobre verdadeiramente pobre era aquele que não tem amor para dar, difundir e semear.

Dom Helder Câmara nasceu no dia 7 de fevereiro de 1909. Aos nove anos, fez a sua primeira comunhão e, aos quatorze, ingressou no Seminário da Prainha, em Fortaleza – CE. No dia 15 de agosto de 1931, com vinte e dois anos foi ordenado sacerdote. Exerceu seu ministério sacerdotal, por cinco anos em sua cidade natal, entre letrados e operários. Em 1936, partiu para o Rio de Janeiro, aí desempenhou, entre outras funções, o cargo de Diretor Técnico de Ensino da Religião na Arquidiocese do Rio de Janeiro.

Em 1948, foi agraciado com o título de monsenhor. Em 1950, expôs ao amigo Monsenhor Montini, futuro Papa Paulo VI seus planos de fundar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – da qual se tornou Secretário Geral, de 1952 a 1964. Em 1952, foi nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro. Em 1955, organizou o famoso Congresso Eucarístico Internacional da capital fluminense. Fundou, também, o Banco da Providência e a Cruzada São Sebastião, indo ao encontro dos pobres e favelados. Trabalhou, incansavelmente, pela fundação do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM – do qual foi vice-presidente de 1958 a 1964.

Em 1964, nomeado arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife, tomou posse no dia 12 de abril do mesmo ano, início do regime militar. Começou dizendo: “Quem estiver sofrendo, no corpo ou na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado, terá lugar no coração do bispo”. Passou, então, a desenvolver, com grande relevância, ações sociais junto às comunidades carentes e a lutar pelos direitos humanos. Ficou, mundialmente, conhecido como o arauto dos “sem vez e sem voz”. Durante o Regime Militar, de 1964 a 1983, sua voz se calou e ficou sem ser ouvida, pois foi proibida e censurada na Mídia.

Bispo da não-violência, da ternura e da solidariedade denunciou, em Paris, em 1970, num profético e contundente discurso, as práticas de torturas aos presos políticos em nosso Brasil. Dom Helder, homem de Deus, foi um dos grandes místicos dos nossos tempos, que, com sua palavra, sensibilizava e entusiasmava as multidões de todos os credos, de todas as raças, culturas e ideologias. Dizia que Deus para ele “era e só podia ser amor”, esforçando-se para viver o que anunciava, fazendo-se nosso irmão e acreditando na possibilidade da conversão de todos.

Dom Helder tem vinte e três livros publicados, sendo dezenove deles traduzidos para dezesseis idiomas. Seus títulos, suas homenagens e suas condecorações que, recebidos em todo mundo, somam 692. Após completar noventa anos, no dia 27 de agosto de 1999, foi chamado para a casa do Pai.

Esta extraordinária figura humana, patrimônio da humanidade, por seus dons e talentos colocados a serviço do próximo será sempre uma referência marcante na história do povo brasileiro. A sociedade, mais do que nunca, nos dias de hoje, necessita de referenciais como Dom Helder, para que possa aspirar por liberdade, justiça e paz. Que humanidade saiba sonhar. Dizia ele: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores!”. Que Dom Helder nos inspire o desejo sempre maior de gostar de viver e de lutar pelo dom maravilhoso da vida.

Brasília assiste “Dom Helder Camara – O Santo Rebelde”

Dom Helder Câmara – O Santo Rebelde estreou em Brasília no dia 23 de outubro, no Cine Academia 8. O longa-metragem da cineasta mineira e professora de Cinema na Universidade de Brasília (UnB), Érika Bauer, lançado em 2004, já passou por várias cidades brasileiras, entre elas Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Fortaleza, Maceió e Goiânia.

Com o lançamento em Brasília, faltam apenas Belo Horizonte e Florianópolis, para fechar assim o ciclo de lançamentos previstos para esta etapa inicial do projeto. O filme de Érika já participou de mais de 100 mostras e festivais no país e no exterior, o que lhe rendeu várias premiações, entre elas o Prêmio Margarida de Prata de Melhor Documentário – CNBB; Melhor Roteiro e Melhor Edição – Cine Ceará; Melhor Filme no Festival de Varginha; Melhor Pesquisa no RECINE – Festival Internacional de Cinema de Arquivo do Rio de Janeiro.

A partir de dezembro, o filme estará também em cartaz no Cine Brasília. Está prevista para o próximo ano a produção e autoração do DVD com extras. O trailer do filme pode ser visto nos endereços:

http://www.corfilmes.com.br/osantorebelde/trailer.html e http://www.domhelder100anos.org.br

Dom

Dom Helder Pessoa Câmara foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e um dos grandes defensores dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro. Ele nasceu em Fortaleza (CE), no dia 7 de fevereiro de 1909. No Nordeste, ele foi arcebispo de Olinda e Recife. Por sua atuação em defesa dos pobres e contra a violência, dom Helder, também conhecido como Dom, recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais. Foi o único brasileiro indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz. Ele faleceu em 27 de agosto de 1999, em Recife (PE).

Dom Helder Câmara é tema da 5ª Assembleia Regional da Cáritas Brasileira

Com o tema “dom Helder Câmara: presença profética e poética do reino”, a Cáritas Brasileira Nordeste 2 da CNBB (Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte) realizou, de 16 a 18, no Convento São Francisco, no município de Lagoa Seca, a 20 Km de Campina Grande (PB), a 5ª Assembleia Regional.

“A missão da Cáritas foi de defender e promover a vida, participando da construção de uma sociedade mais justa e igualitária, junto com as pessoas em situação de exclusão social. Nesta Assembleia houve vários momentos para repensar nossas práticas, realizamos discussões e planejamos as ações para o próximo quadriênio da rede Cáritas no Nordeste 2 ”, explicou o articulador de projetos da Cáritas, Marcos Bezerra.

Houve na programação da Assembleia, um painel de debates “A herança profética e poética de dom Helder Câmara para Cáritas Brasileira”, que foi apresentado por dom Marcelo Barros, monge beneditino, prior do Mosteiro da Anunciação do Senhor de Goiás (GO) e escritor. Também, o sociólogo e educador, Paulo Afonso de Brito, fez uma análise de conjuntura com foco no tema “elementos do contexto atual à luz da mensagem profética de dom Helder Câmara”.

A Assembleia contou com a participação do bispo diocesano de Campina Grande (PR), dom Jaime Vieira Rocha; o bispo diocesano de Palmeira dos Índios (AL) e referencial do Regional NE2 da Cáritas Brasileira, dom Dulcênio Matos; bispo diocesano de Caruaru, dom Bernardino Marchió, bispo referencial das pastorais sociais da CNBB NE2, dom Genival França; e os representantes da diretoria nacional da Cáritas, padre Evaldo Praça Ferreira, Cristina dos Anjos e Luiz Cláudio Mandela. Além de representantes das entidades membros da Cáritas, pastorais sociais, parceiros e movimentos sociais.