D. Helder Câmara

Homenagem ao centenário de nascimento de Dom Helder Camara

A Igreja servidora de Dom Helder

Pe. Geovane Saraiva

Dom Helder Câmara, por onde passou, deixou uma marca indelével. Mesmo no ostracismo, no isolamento e excluído dos meios de comunicação social, durante o regime militar, que via nele um risco e um perigo à democracia, permaneceu forte e corajoso, sem nunca se abalar.

Ele foi uma das poucas criaturas da humanidade, com seu jeito de viver e de colocar-se diante de Deus, que nos deixa verdadeiramente orgulhosos. Foi um dos homens mais humano, mais simples e mais transparente que a nossa civilização cristã já produziu. A paixão dele por Deus era enorme e se traduzia no seu modo de amar o irmão, vendo nele o próprio Deus.

Sua força imaginadora, sua criatividade e, sobretudo, sua capacidade de produzir e realizar as coisas foram extraordinárias, fazendo surgir uma nova Igreja, uma Igreja marcada, profundamente pela esperança, como ele afirmava: “Esperança é crer na aventura do amor, jogar nos homens, pular no escuro, confiando em Deus”. Ele se antecipou, em ideias e vestes, ao aggiornamento que o Papa João XXIII promoveu e com o qual iria revolucionar, não apenas a Igreja, mas o mundo hodierno.

Dom Helder foi um articulador, na melhor expressão da palavra, um conspirador, pensando no bem, com suas iniciativas, compartilhadas por muita gente da Igreja, desejando fazer com que a Igreja-Instituição se comprometesse e se engajasse na causa dos empobrecidos, identificando-se com seu Fundador e Mestre, Nosso Senhor Jesus Cristo. Pensava e desejava ele uma Igreja mais pobre e mais servidora.

O “Pacto das Catacumbas”, documento desafiador e ao mesmo tempo salutar, 16 de novembro de 1965, que foi uma excelente oportunidade para uma boa parte dos bispos pensar e refletir sobre eles mesmos, no sentido de viver na simplicidade e na pobreza, numa Igreja encarnada na realidade, comprometida com seu  povo, renunciando as aparências de riqueza, dizendo não as vaidades, consciente da justiça e da caridade.

Logo que chegou ao Rio de Janeiro, numa hora santa do clero, em que o Cardeal Sebastião Leme criara os turnos de Adoração ao Santíssimo Sacramento, o jovem Padre Helder subiu ao púlpito para o seu primeiro sermão junto aos colegas de sua nova Diocese. A figura magra, pálida, de olhos fechados, mãos trêmulas e exaltadas, pronunciou uma oração que, até bem pouco, era recordada pelos padres daquela Arquidiocese do Rio. Foi quase um escândalo: Dom Helder cobrou dos sacerdotes aquele fervor e aquele entusiasmo que dia-a-dia, pouco a pouco ia se esfriando. Como em transe, os Profetas do Antigo Testamento, enumerava as tibiezas de todos e de cada um, o desamor ao trabalho pastoral e a falta de garra no apostolado…

Ao assumir a Arquidiocese de Olinda e Recife, na sua mensagem de posse, disse com firmeza: “Quem estiver sofrendo, no corpo ou na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado, terá lugar especial no coração do bispo”. A pregação do Evangelho foi para ele, ao mesmo tempo, candente e misericordiosa, apaixonada e sensata.

O pastor dos empobrecidos, dos “sem voz e sem vez”, dizia bem alto: “Ninguém se escandalize quando me vir frequentando criaturas tidas como indignas e pecadoras. Ninguém se espante me vendo com criaturas tidas como envolventes e perigosas”.

Que o Peregrino da Paz e o Irmão dos Pobres, no seu centenário de nascimento, lá do céu, lembre-se de nós.

PUC Rio homenageia Dom Helder com lançamento de site

Rio de Janeiro – Adital – Para homenagear o centenário de nascimento de Dom Helder Camara, a Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro lançou, no último dia 19, o site do Ano Dom Helder na PUC-RJ. Na ocasião, o padre Jesus Hortal, reitor da Universidade, recebeu o arcebispo do Rio de Janeiro (capital), Dom Orani João Tempesta.

A iniciativa é uma realização da Comissão do Ano de Dom Helder Camara na PUC-RJ. O site reúne trechos da vida do Dom, os diversos momentos em que esteve presente na PUC-RJ e registra suas experiências como docente.

De acordo com o reitor da Universidade, Dom Helder desempenhou papel de destaque na sociedade, uma vez que ele “iniciou e lutou pelo que hoje nós chamamos de inclusão social. Por isso, ele nos é fruto de inspiração. Devemos muito a dom Helder”, declara.

Para o arcebispo da cidade, o que marcou a trajetória de dom Helder foi seu entusiasmo em ser cristão. “Que esse site possa ajudar as pessoas a verem a conseqüência de ser cristão”, disse.

Dom Helder na PUC-RJ

Em 1991, o fundador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), recebeu título de Doutor Honoris Causa. Em 2002, poucos anos após sua morte, aconteceu o seminário “Profetas e Profecias”, que teve em um dos temas de debate “Profetas da alegria: Isaías e Dom Helder Camara”.

Durante o Ano Dom Helder Camara na PUC-RJ, depoimentos e documentos relacionados a Dom Helder e a PUC serão obtidos, organizados e publicados através deste site.

Para conhecer o site e o acervo de memórias da universidade, acessar o endereço: http://www.ccpg.puc-rio.br/memoriapos/dhc/

O sonho tornou-se realidade

Pe Geovane Saraiva

Dom Helder soube vencer e ultrapassar as barreiras do assistencialismo, quase sempre necessário, indo ao encontro da justiça e da paz, não apenas apontando os caminhos que levassem os homens a um mundo mais justo, solidário e humano, mas ele foi concreto, ao colocar sua vida a serviço da humanidade, através das suas ações, gestos e práticas pastorais.

Sonhar com uma civilização ideal, com um povo organizado, vivendo em boas condições, com equilíbrio, justiça e paz, em um lugar e em um mundo possível, não só no futuro, mas já no presente, no tempo real, esta foi, durante toda vida, a luta do peregrino da paz, Dom Helder Câmara.

Carregou dentro de si os grandes problemas e desafios da humanidade do seu tempo, tais como: dois terço da humanidade passando fome; a distância entre países pobres e ricos; o constante apelo ao desenvolvimento social; o desemprego no Brasil e no mundo inteiro; todo tipo de preconceito: raciais, étnicos e religiosos é sua grande bandeira; quer a cidadania, isto é, o pobre se colocando como sujeito da sua própria história; abre os olhos para uma tomada de consciência dos pecados sociais; propõe a não violência ativa como meio de solucionar os conflitos sociais; condena todo tipo de guerra como solução para os conflitos sociais e condena com veemência todas as formas de exclusão social.

Ele não só pensou e imaginou, mas teve clareza e persistência e, com suas idéias fixas, aspirou por mundo segundo a vontade Deus, de tal modo que os seus sonhos e suas utopias transformaram-se em realidade. Essa afirmação nos faz pensar nas suas obras e realizações em favor da humanidade. É só olhar para seus escritos, poemas e pensamentos. Sua fidelidade a Deus e ao povo o fez manter-se acordado, olhando para dentro de si e, ao mesmo tempo, externando-a através dos sonhos e utopias.

Como Abraão, acreditou, sem jamais perder a esperança. Daí as marcas profundas deixadas por este homem de Deus. Neste ano do seu centenário, percebemos, com todas as evidências, tudo o que ele representou para o Brasil e para o mundo, como um símbolo, como um patrimônio e, sobretudo, como um referencial. Por isso, mesmo que alguém ou grupo tentem ofuscar ou neutralizar, não irão destruí-lo nunca. A história o tem e o terá sempre como imortal.

Dom Helder, pastor da paz e da ternura, sentia-se honrado quando seus inimigos o acusavam de utópico e demagogo, porque se aproximava do “cavaleiro andante”. Ele, com seu grande coração e na sua maneira de ver o mundo, longe do espírito de ódio e vingança, dizia-lhes: “Comparar-me a Dom Quixote, está longe de ser uma nota depreciativa” e acrescentava: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores”.

Hoje, diante do avanço que experimentamos no mundo inteiro, nem sempre positivo, deve-se aos sonhadores. Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales – SP, afirmou: “Dom Helder foi indiscutivelmente um grande poeta e um sonhador das grandes utopias humanas e cristãs” (cf. Adital, 04.02.2009). Os sonhadores e os utópicos, a exemplo de Dom Helder, mudaram e continuarão a mudar a história da humanidade, porque aventura e fascínio maior não é só sonhar, mas, sobretudo, ver os sonhos transformados em realidade.

Poeta e um sonhador, ele o foi. Eu, porém, digo que ele foi muito mais: Foi um santo, porque forte e corajoso, ao mesmo tempo em que se igualou ao menor dos menores. Guardemos esse seu pensamento: “Quem aceita o impossível como uma realidade e acolhe o mistério como bebe água? Sem dúvida, as crianças, os embriagados, os loucos, os poetas e os santos”.

Urge não ter medo da utopia, como aquele lugar que parece não existir, como um mundo possível e harmônico, já aqui e agora. Dom Helder, homem dos grandes sonhos e das realidades últimas, gostava de repetir: “Quando se sonha sozinho, é apenas um sonho, mas quando se sonha em mutirão, já é uma realidade”.

Corajoso Procurador

Pe. Geovane Saraiva

“O verdadeiro cristianismo rejeita a ideia de que uns nascem pobres e outros ricos, e que os pobres devem atribuir a sua pobreza à vontade de Deus” (Dom Helder Câmara).

Estive em Brasília nos dias 28 e 29 de abril deste ano de 2009, participando, como convidado, do Senado Federal, das homenagens a Dom Helder Câmara, no seu centenário de nascimento. Para muita gente, ele foi o maior brasileiro de todos os tempos, homem pequeno na estatura, mas grande nos sonhos, nos ideais e na utopia, que tão intrepidamente anunciou o Evangelho em sua plenitude e que o Senado Federal, em Sessão Solene, reviveu e rendeu graças ao Bom Deus pela vida do artesão da paz.

Visitei o Gabinete dos procuradores da República Antônio Carneiro Sobrinho, ilustre filho de Viçosa, que com grande bondade e hospitalidade me acolheu em sua casa; Paulo Roberto de Alencar Araripe Furtado, que por inúmeras vezes afirmou o nosso parentesco e que por alguns anos tive a sorte de ser seu diretor espiritual, quando era Pároco da Paróquia de São Francisco de Assis (Dias Macedo) aqui na cidade de Fortaleza e o Luiz Francisco de Souza, homem corajoso e destemido.

Luiz Francisco de Souza, um homem de Deus em profundidade, ex-noviço da Companhia de Jesus. Muito me honrou ao presentear-me o livro de sua autoria – “Socialismo, Uma Utopia Cristã”, Editora Casa Amarela, São Paulo, 2003. Não se trata de um livro qualquer, mas de um livro, em um só volume, que nunca tinha visto, com 1.152 páginas, em que o sábio e competente Procurador quer colocar na mente e no coração do leitor a realidade do socialismo, que tem sua gênese na religião e que estamos diante de um grande desafio: Recuperar sua origem e suas raízes e para isso urge abraçar a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, na certeza de que ela é redentora e libertadora. “In cruce salus et vida” (Lema do Cardeal Aloísio Lorscheider).

O precioso trabalho do corajoso procurador, com certeza, será uma grande contribuição para que o mundo hodierno melhor compreenda a mensagem do Filho de Deus e procure colocá-la em prática. São mais de mil e cem páginas colocadas a serviço do Reino de Deus. O autor deixa bem claro nos seus agradecimentos os primeiros destinatários de sua obra: Os servidores públicos, os que lutam pela reforma agrária, pela abolição da dívida externa, assim como pela auditoria da mesma […] e ainda outras medidas contra o capital, o latifúndio e o imperialismo.

Dom Moacir Grechi, Arcebispo de Porto Velho, apresenta a grande e bela obra, dizendo: “Nosso valente procurador da República Luiz Francisco de Souza realizou um trabalho imenso: reuniu toda sorte de estudos, mostrando as raízes religiosas do socialismo. Esse é o fruto de uma leitura atenta e bem informada, feita ao longo de muitos anos. […] o socialismo era originalmente religioso e que se deve recuperar suas raízes para poder frutificar na história e ficar gravado de modo definitivo na mente do leitor”.

Para mim foi uma grande graça conhecer pessoalmente esse homem, grande na estatura, mas simples e humilde e, ao mesmo tempo, com os mesmos sonhos, ideais e utopias, “outro cavaleiro andante”, que colocou o dom precioso de sua vida a serviço da vida, tão bem conhecido do povo brasileiro. Outra graça, sem mérito algum de minha parte, foi receber o seu pensamento, sua obra, com uma dedicatória toda especial. Deus seja louvado pelo nosso Corajoso Procurador da República e por seu magnífico livro. Que grande livro e que belo presente! Sua obra está bem dentro da vida do homenageado pelo Senado Federal, Dom Helder Câmara, que no ano do seu centenário, recordamos sua vida e seus pensamentos: “A maneira de ajudar os outros é provar-lhes que eles são capazes de pensar”.

Dom Helder Câmara brilha na 47ª Assembleia da CNBB

A voz de dom Helder Câmara foi ouvida novamente em sua histórica oração “Mariama”, na noite de ontem, 27, no auditório Rainha dos Apóstolos, na 47ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, que acontece até o próximo dia 1º de maio, em Itaici, município de Indaiatuba (SP).

“Dom Helder foi um homem de muita atividade e grandes iniciativas que recebeu de muitos o reconhecimento pela sua atuação em favor da paz e da justiça”, disse o presidente da CNBB, dom Geraldo Lyrio Rocha. O presidente também citou os prêmios recebidos por dom Helder, os livros publicados e as entidades das quais o arcebispo de Olinda e Recife participou ao longo de sua vida. “Dom Helder foi membro de mais de 40 entidades internacionais. Publicou mais de 20 livros. Cerca de 30 cidades lhe concederam o título de cidadão honorário. Recebeu 25 Prêmios nacionais e estrangeiros. Foi-lhe conferido o título de Doutor honoris causa por mais de 30 Universidades de várias partes do mundo”, lembrou dom Geraldo.

A amiga e colega de trabalho do Dom, como dom Helder era conhecido, Marina Bandeira contou sobre o trabalho do arcebispo no Rio de Janeiro. Um dos trabalhos marcantes, segundo a educadora e ex-secretária do Movimento de Educação de Base (MEB), a Cruzada de São Sebastião, foi uma idealização de dom Helder que consistiu na construção de um conjunto habitacional localizado no bairro do Leblon, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. A obra foi inaugurada em 29 de outubro de 1955.

O arcebispo emérito da Paraíba, dom José Maria Pires, também deu seu testemunho sobre o papel de dom Helder na Igreja do Brasil ao longo do século XX. “Dom Helder ficou marcado pelos grandes contextos sociais de seu tempo, principalmente no âmbito do Regime Militar, pelo qual foi acusado de ser comunista”. De acordo com o arcebispo, dom Helder foi o grande responsável de “projetar nas questões sociais de seu tempo a luz do Evangelho”.

Um dos cantos entoados pelo coral arquidiocesano de Campinas (SP) que emocionou os participantes da sessão foi “O Pastor da Paz”, composição do padre José Freitas Campos, que lembrou a figura de dom Helder.

Repercussão

De acordo com o arcebispo de Brasília, dom João Braz de Aviz, a figura de dom Helder é emblemática e singular no seu modo de ser, um exemplo a ser seguido pelo episcopado brasileiro. “Dom Helder para nós é uma figura em cujo lugar não é possível colocar outra igual. Ele tem uma beleza, uma luz, um profetismo, que ocupou um momento histórico como símbolo eclesial e importante do nosso povo que nós não podemos diminuir, nem esquecer. Precisamos compreender dom Helder de modo profundo porque ele traz de volta um aspecto do Evangelho que nós tínhamos esquecido e deixado de lado. Penso também que, em torno da figura de dom Helder e de sua vocação de bispo e de fé, nós podemos revisar o caminho que nós fizemos em torno da Teologia da Libertação. Em Cristo nós temos que reencontrar essa ligação com o pobre”, sublinhou.

Já o arcebispo de Salvador (BA), cardeal Geraldo Majella Agnelo, definiu a sessão como um momento de recordação e de graça. “Para nós foi um momento de muitas recordações e de muita gratidão a ele. Dom Helder foi um lutador sem medo, sem ficar na escuridão, no esquecimento durante sua vida e sua missão. Ele pregou o Evangelho do amor, do perdão, da misericórdia e esteve sempre ao lado das causas mais difíceis. Nós, que convivemos com dom Helder pessoalmente, podemos resumir esta noite como um momento de recordação e de graça”.

Dom Helder Câmara está vivo em Itaici

Os corredores do mosteiro da Vila Kostka, em Itaici, município de Indaiatuba (SP) falam por si só. A casa dos jesuítas, sede da 47ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), lembra, em frases e fotografias presentes em 39 banners o centenário de nascimento do arcebispo de Olinda e Recife (PE).

Frases como: “Irmão dos pobres – meu irmão”; “A miséria é uma ofensa ao criador e pai”; “Ajudar a criar um mundo mais humano é um dos sonhos da minha vida”, de autoria do bispo dos pobres, foi a forma que a Conferência encontrou para celebrar os cem anos de nascimento do Dom.

Além dos painéis, um dos momentos mais solenes desta Assembleia será a sessão plenária em homenagem ao centenário de nascimento do bispo falecido em 1999.

O secretário-geral da CNBB, dom Dimas Lara Barbosa, ao dirigir palavras sobre o Dom, afirma tratar-se de um “pastor que a Igreja ostenta diante do mundo marcado pelo profetismo itinerante”, em virtude da situação de censura à qual foi submetido.

Ainda segundo o secretário, dom Helder é modelo para os bispos de hoje e de amanhã. “Ele é um modelo a ser seguido. Um pastor, místico, poeta, alguém que viveu a sua opção pelos pobres de uma maneira muito coerente e singular”.

Vida e obra de Dom Helder podem ser apreciadas nas Circulares Conciliares

A riqueza do vasto acervo de Dom Helder Camara oferece à população, no ano de seu centenário, cada vez mais obras cheias de detalhes, sensibilidade e ensinamento. No último dia 14 foi lançada em Recife (PE) a coletânea “Circulares Conciliares”, que resgata as cartas escritas pelo religioso aos seus assessores, no período de 1962 a 1965, durante o Concílio Vaticano II.

Composta por 6 livros, a obra retrata o pensamento do arcebispo emérito de Olinda e Recife, além de ser uma oportunidade de mostrar às pessoas todo o seu ideário e prática de vida. Para o Instituto Dom Helder Camara, o arcebispo foi um dos maiores exemplos de coerência de vida, pondo na prática aquilo que ele pregava em seus discursos. Os volumes foram organizados pelos professores Zildo Rocha e Luiz Carlos Marques Luz.

A coleção é dividida em dois volumes, cada um com 3 Tomos. Os textos narram o dia-a-dia das sessões do Concílio Vaticano II, evento que marcou a história da Igreja Católica no mundo todo.

As cartas subdivididas em Conciliares, Interconciliares e Posconciliares, somam 2.122 textos, 7.547 meditações, e mais discursos, programas de rádio, entre outros. A estimativa é que as “obras completas” alcancem 20 volumes, já que nesta primeira coleção de seis Tomos, só foram editadas 637 circulares. A confecção da obra contou com o patrocínio do Governo do Estado de Pernambuco.

Dom Helder tinha como hábito escrever durante a noite, e todo o material produzido era rigorosamente numerado e datado, facilitando para o presente este trabalho de divulgação.

A importância das comemorações do centenário de Dom Helder se dá pelo seu exemplo de vida. Carismático, Dom Helder foi um pastor que viveu a simplicidade e a humildade, observadas em sua atitude cotidiana, quando acolhia os mendigos, visitava os mais necessitados e injustiçados, e partilhava seus prêmios. Estas e outras iniciativas fizeram dele um semeador da fraternidade.

José de Broucker : Dom Hélder Câmara : místico, fraternal, servidor fiel

Patricia Fachin

Jornalista, o francês José de Broucker foi amigo de Dom Hélder Câmara por três décadas. Na entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line, ele relembra o tempo que conviveu com o arcebispo de Recife e revela admiração profunda pelo brasileiro de ideias liberais que ajudou a construir uma Igreja diferente. Numa fórmula breve, Broucker define o que qualifica como a complexidade paradoxal de Dom Hélder: “três pessoas em um só homem : homem de Deus, homem do mundo e homem da Igreja”.

Ao lembrar do amigo, ele diz que “Dom Hélder despertou numerosos engajamentos por um mundo mais juto e mais humano”. Neste ano em que comemoramos seu centenário de vida, “ele ainda está mais eloquente em seus escritos”. Sua mensagem ainda está viva e ‘a visão e os engajamentos que ele trabalhava para promover são vividos hoje por quantidades de organizações de sociedades civis em um número muito grande de países, inclusive na América Latina e no Brasil”. Seus escritos, continua, “dos quais muitos ainda estão para ser publicados, constituem uma herança extremamente preciosa para as gerações atuais e futuras”.

Biógrafo de Dom Hélder Câmara, José de Broucker escreveu diversas obras, entre as quais destacamos As noites de um profeta. Dom Hélder Câmara no Concílio do Vaticano II (São Paulo: Paulus, 2008). O autor é presidente da Associação Dom Hélder – Memórias e Atualidade, e diretor das Informações Católicas Internacionais no Tempo do Concílio.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – O senhor conviveu com Dom Hélder aproximadamente 30 anos. A partir dessa convivência, como descreve a personalidade humana e cristã de Dom Hélder Câmara?

José de Broucker – Tenho o hábito de expressar em uma fórmula a complexidade seguidamente paradoxal de Dom Hélder: três pessoas em um só homem: homem de Deus, homem do mundo e homem da Igreja. Por assim dizer: místico, fraternal, servidor fiel.

IHU On-Line – Como a trajetória de Dom Hélder nos ensina e repensar a Páscoa hoje? O que a mística desse momento revela sobre o espírito de Dom Hélder Câmara?

José de Broucker – A invencível e comunicativa esperança da qual Dom Hélder testemunhou em todas as circunstâncias não me parece sem relação com sua fé na ressurreição do Senhor: “Quanto mais negra é a noite, mais brilhante será a aurora.” Nem sem relação com sua atenção privilegiada aos pobres: “Não cabe aos pobres compartilhar da minha esperança, mas a mim de compartilhar da esperança dos pobres.”

IHU On-Line – Em que sentido as ideias liberais e libertadoras de Dom Hélder Câmara podem servir como fonte de energia para novas ações na sociedade, considerando também esse momento de crise (capitalista, institucional, de valores) que vivemos?

José de Broucker – Durante a sua vida, por todos os lugares onde passava e falava, Dom Hélder despertou numerosos engajamentos por um mundo mais justo e mais humano. O que ele chamava de “minorias abrahâmicas” que exercem “pressões morais libertadoras” sobre as estruturas de poder estão cada vez mais presentes e ativas. Hoje, Dom Hélder não está mais aqui. Mas ele está ainda mais eloquente em seus escritos do que em suas conferências. Aos atores sociais que são tentados pelo desânimo diante dos desafios da história, recomendo a leitura de suas Cartas Circulares conciliares e Interconciliares, de suas Meditações do Padre José, de suas alocuções radiofônicas. São inesgotáveis reservatórios de energias renováveis!

IHU On-Line – O senhor conheceu Dom Hélder na cobertura do Concílio Vaticano II. O que motivou a amizade entre vocês? Pode nos contar um pouco sobre os elos que os uniram durante três décadas?

José de Broucker – Meu primeiro encontro prolongado com Dom Hélder data de 1968, quando fui a Recife para realizar uma pesquisa-retrato do “arcebispo das favelas” a pedido de um editor parisiense (La violence d’un pacifique) [A violência de um pacífico]. Este encontro me fascinou, mas não esgotou a minha curiosidade de jornalista e de cristão: quarenta anos mais tarde, eu a persigo de todas as formas e maneiras. Também colaborei com a edição francesa de vários de seus livros, desde os anos 70. De sua parte, Dom Hélder me concedeu a sua confiança e me pediu para ser, de alguma forma, uma “antena” na França, notadamente para preparar e acompanhar suas viagens: eu era, de certa forma, com minha mulher e meus filhos, uma modesta “peça trazida” da “Família Mecejanense”.

IHU On-Line – Qual a principal contribuição de Dom Hélder para o Concílio Vaticano II?

José de Broucker – Como observou P. Congar, Dom Hélder tinha uma qualidade “tão rara em Roma”: uma visão. Uma visão do mundo – que não é somente europeu e rico, e uma visão da Igreja – servil e pobre, colegial, participativa, ecumênica no sentido mais amplo do termo. Esta visão estereoscópica, ele soube dividir, de minoria em minoria episcopal, até que ela fosse, em seus pontos mais importantes, a da maioria. Uma outra contribuição foi a de despertar e entreter um diálogo entre a assembleia conciliar e a opinião pública, pelo número de vezes que ele falou em público fora dos muros da Basílica de São Pedro.

IHU On-Line – De que maneira o pensamento de Dom Hélder permanece vivo ainda hoje? Que heranças o sacerdote deixou na Europa, onde esteve mais de 30 vezes?

José de Broucker – Na França e talvez na Europa, as mais antigas gerações guardam de Dom Hélder lembranças vivas e lamentos: lamentos de não mais poderem se ouvir interpelados por vozes tão livres e libertadoras. Mas, se ainda são raras as pessoas e os grupos que solicitam Dom Hélder, a realidade é que a visão e os engajamentos que ele trabalhava para promover são vividos hoje por quantidades de organizações de sociedades civis em um número muito grande de países, inclusive na América Latina e no Brasil. E, de maneira muito concreta, considero que seus escritos, dos quais muitos ainda estão para ser publicados, constituem uma herança extremamente preciosa para as gerações atuais e futuras.

IHU On-Line – Dom Hélder era conhecido como um homem de vários dons. Para o senhor, é possível destacar uma qualidade imprescindível do arcebispo de Recife?

José de Broucker – Sua preferência por convencer mais do que vencer, e a arte com a qual ele sabia colocar em prática, sem nunca separar verdade e bondade.

IHU On-Line – Como os ensinamentos de Dom Hélder podem ajudar a construir uma nova Igreja? Para o senhor, na visão de Dom Hélder, que mudanças seriam cruciais na Igreja de hoje?

José de Broucker – Após Dom Hélder, eu diria: que ela aplique a si mesma os belos princípios que prega, tanto em nome do Evangelho como do direito natural.

Zildo Rocha: Hélder Câmara, o Dom

Para Zildo Rocha, a manifestação natural e espontânea de respeito às consciências e às decisões foi uma das mais preciosas lições do ministério de Dom Hélder Câmara. Na entrevista que concedeu por e-mail para a IHU On-Line, ele relata detalhes sobre a personalidade e sobre o legado de Dom Hélder para a Igreja.

O pernambucano Zildo Barbosa Rocha teve o privilégio de conviver durante alguns anos com Dom Hélder Câmara e conta, na entrevista que segue, o que guarda de mais significativo dessa experiência. Na entrevista que concedeu por e-mail para a IHU On-Line, ele relata detalhes sobre a personalidade e sobre o legado de Dom Hélder para a Igreja. Zildo Rocha recorda que era constante a preocupação de Dom Hélder com a miséria que atinge dois terços da população do globo, o que considerava “uma tremenda afronta ao Criador e Pai”. “Sabia e não perdia a ocasião de salientar que a ideologia dos Direitos Humanos quando se torna leis e estatutos, se constitui, sem dúvida, em meio de eficácia para a transformação de situações de injustiça”, acrescenta.

Zildo Barbosa Rocha estudou no Seminário de Olinda. É licenciado em Filosofia e Teologia, pela Universidade Gregoriana de Roma, onde foi ordenado sacerdote em 1958. Exerceu durante 12 anos o ministério presbiteral quando, entre outras, desempenhou as funções de reitor do Seminário Regional do Nordeste e de diretor do Instituto de Teologia do Recife – ITER. A partir de 1970, voltou à vida civil e ingressou no serviço público, onde exerceu cargos de chefia e de direção na Sudene e na Secretaria de Finanças do Estado de Pernambuco. É casado e pai de três filhos. Aposentou-se em 1990 e, em 1991/1992, passou um ano e meio na Inglaterra, onde fez, no Missionary Institute London-MIL um ano sabático de atualização teológica, nas áreas de Eclesiologia e Cristologia. Foi coordenador do Centro Dom Hélder Câmara – CENDHEC, onde, atualmente, atua no projeto de edição de suas Obras Completas. É autor de Hélder, o Dom (Petrópolis: Vozes, 1999).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor foi um das pessoas que acompanhou Dom Hélder. O que guarda de mais significativo da convivência com ele?

Zildo Rocha – Minha convivência com Dom Hélder se deu, basicamente, em dois períodos: de 1964 a 1970 e de 1990 a 1999, ou seja, nos seis primeiros e nos nove últimos anos de sua permanência entre nós no Recife. No primeiro período (64-70), essa convivência foi mais de natureza institucional. Encontrávamo-nos, quase sempre, para tratar de assuntos ligados à Arquidiocese, particularmente ao Seminário Regional de que eu fui de 65 a 69, sucessivamente, vice-reitor e reitor, e ao Instituto de Teologia, de que fui diretor em 68 e 69. No segundo período (90-99), ele já era arcebispo emérito e eu funcionário aposentado da Secretaria da Fazenda do Estado de Pernambuco. Reencontrei-o, depois de uma longa história, que não cabe relatar aqui, quando ele já sentia o peso da idade e ensaiava o seu grande final, na campanha “Ano dois mil sem miséria”.

Ouvia-o, então, repetir, à exaustão, seu sonho de que a humanidade iniciasse o novo milênio sem a mancha negra da miséria “insulto e ofensa ao Criador e Pai”. Participei assim, como coordenador do Centro Dom Hélder Câmara – CENDHEC, do planejamento, lançamento e eventos iniciais daquela campanha, que logo depois foi secundada pela Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria, lançada nacionalmente pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho.

Posso dizer, também, com alegria, que o acompanhei, de perto, nos anos cinzentos em que a velhice, a dor de ver migrarem para longe suas “utopias peregrinas” e o abatimento, nunca consentido, por ver seu trabalho na Arquidiocese incompreendido e desmontado, o fizeram passar “à terceira margem do rio” ou a entrar na canoinha de silêncio e contemplação em que passou seus últimos anos.

Agora, respondendo à sua pergunta, poderia repetir o que escrevi no pósfacio de um livro que organizei sobre Dom Hélder, intitulado “Hélder, o Dom”: “De todas as lembranças de minha convivência com Dom Hélder, a que guardo com maior carinho na memória do coração é a palavra que me disse, quando fui comunicar-lhe a decisão de ‘deixar a batina’, como então se dizia. Ele me disse: ‘A confiança que tenho em você é tanta, que nem precisa dizer-me as razões que o levaram a tomar tal decisão’”.

Aquelas palavras caíram sobre mim como um bálsamo, num momento de grande tensão e angústia. Mas seu real significado eu só vim descobrir depois, quando ouvi de outro colega, que passou por situação semelhante, o depoimento de atitude idêntica, por parte do Dom. Ficou, então, claro para mim que o que me dissera naquela ocasião, antes de ser uma declaração generosa sobre a qualidade de nosso relacionamento, era, antes, a manifestação natural e espontânea de seu respeito às consciências e às suas decisões. E esta foi para mim uma das mais preciosas lições de seu ministério.

IHU On-Line – Em que sentido a vida de Dom Hélder reflete a essência do Evangelho?

Zildo Rocha – No texto a que há pouco me referi, resumi o que me parece o essencial da vida religiosa de Dom Hélder e o legado espiritual que deixou às futuras gerações. Dom Hélder era, antes de tudo, um homem religioso. Com razão foi escolhido em pesquisas feitas no Brasil, na virada do milênio, como “o religioso do século”. Sua religiosidade consistia basicamente em levar a sério e viver em profundidade algumas verdades, simples e basilares, do credo cristão:

– Deus é Criador e Pai;
– Jesus é o primogênito entre os irmãos;
– Maria é a mãe de Jesus e nossa mãe;
– A humanidade é toda ela uma grande família, da qual todos, sem exceção, fazemos parte;
– A imensa família humana se estende e complementa noutra, dos espíritos angélicos, que lhe oferece companhia fraterna, ajuda e proteção;
– O ato central de encontro da família humana e angélica com o Criador e Pai é a Santa Missa, compreendida não como o ritual mágico de uma seita particular, mas como ato cósmico e universal em que o Homem Deus Jesus Cristo, Sacerdote da Criação, recapitula e consuma em si todas as coisas, levando-as, no Espírito, de volta para o Pai.

É impossível compreender a vida de Dom Hélder fora desse credo referencial básico. Da experiência do Criador e Pai, ele extraiu uma intimidade de amor e submissão a Deus e uma quase espontânea paixão pelo Universo que o enchiam de confiança e de otimismo: uma crença no projeto da criação e no progresso humano; um encantamento pela Natureza, uma ternura pelas plantas e pelos animais, com quem, embora homem visceralmente urbano, ele se comunicava amiúde, nas asas da imaginação e da contemplação, como disso dão prova os poemas-meditações que rascunhava ao longo de seus dias e passava à secretária, e em suas vigílias; e toda a sua ação pastoral estava voltada para a realização da fraternidade entre os homens.

Dom Hélder transpirava essas verdades e as irradiava à sua volta nos mais comezinhos gestos do dia-a-dia: na maneira como tratava quem quer que dele se aproximasse; quando apontava para o céu ao ser chamado de senhor; quando, em meio a conversas as mais informais, saudava com um gesto de carinho a imagem de Maria posta sobre um móvel, ou afixada numa parede; quando pedia ajuda, ou simplesmente expunha a seu anjo da guarda, a quem carinhosamente chamava de José, as dificuldades em que se encontrava; ou ainda quando na Missa tomava nas mãos rindo ou, às vezes, chorando, o pão e o vinho, como se visse Jesus ali, encoberto sob aquelas frágeis e humildes espécies.Tudo o mais, em sua vida, parece decorrer da experiência profunda dessas simples e essenciais verdades, vividas por ele, de maneira intensa.

IHU On-Line – Qual a contribuição de Dom Hélder na luta em prol dos Direitos Humanos e do resgate da cidadania brasileira?

Zildo Rocha – A toda hora, em sua ação pastoral e em seus escritos (cartas, discursos e poemas-meditação), Dom Hélder se reportava ao homem, ao humanismo, ao desenvolvimento integral (“do homem todo e de todos os homens”), aos valores humanos, ao desrespeito frequente dos direitos fundamentais da pessoa, gerando situações de grande e mesmo de extrema injustiça. Era-lhe constante a preocupação com a miséria que atinge dois terços da população do globo, que considerava “uma tremenda afronta ao Criador e Pai”. Sabia e não perdia a ocasião de salientar que a ideologia dos Direitos Humanos, quando se torna leis e estatutos, se constitui, sem dúvida, em meio de eficácia para a transformação de situações de injustiça.

Mas não lhe passava despercebido que tal ideologia, gerada no âmbito do Estado Liberal, se volta bem mais para a salvaguarda dos direitos dos indivíduos, sendo facilmente manipulável pelos interesses das classes dominantes e, não raro, usados mais como entrave do que como garantia e preservação dos interesses da coletividade. E sabia, também e, mais ainda, que tal ideologia, para ser efetivamente usada como instrumento de transformação, precisa ser acionada por uma energia e uma força que, em sua visão e concepção cristãs, se situam para além das forças puramente naturais e necessitam do apoio da fé e da graça divina.

Como diz em um de seus discursos, os Direitos Humanos, antes de serem “um presente dos ricos ou dos governos para os segmentos pobres das populações, são uma consequência da Criação de Deus e, por isso, uma doação divina. A melhor maneira, portanto, de alguém guardar e defender seus direitos é a de assumir-se como criatura humana, filho ou filha de Deus”.

IHU On-Line – De que maneira Dom Hélder Câmara marcou os rumos da Igreja no Brasil?

Zildo Rocha – São inegáveis os frutos da ação de Dom Hélder na Igreja do Brasil e mesmo em algumas partes do mundo. Sem querer dar a impressão de estar fazendo propaganda do livro que, em 1999, me coube organizar para festejar os seus noventa anos, acho que ali se encontra uma boa resposta à pergunta sobre quem foi Dom Hélder e qual a sua contribuição à Igreja do Brasil. A importância da ação de Dom Hélder transparece, ali, no depoimento de vinte e cinco personalidades do Brasil e do Exterior, onde é apontado, de maneira viva e pessoal, como Amigo de fé, Colega, Irmão; Modelo de bispo do Vaticano II; Voz profética dentro da Igreja, e Profeta para o mundo.

Acho que a maneira como o Dom se faz ainda hoje presente entre nós é através da imensa obra escrita que nos legou, particularmente nas cartas que escreveu a seus colaboradores, a quem chamava de Família Mecejanense. São, ao todo, cerca de duas mil e duzentas cartas, escritas, ao longo de vinte anos. No próximo dia 14 de abril, a Companhia Editora de Pernambuco – CEPE estará lançando seiscentas dessas cartas, em dois volumes de três tomos cada um. O primeiro volume contém as Cartas Conciliares, assim chamadas porque escritas em Roma, durante as quatro Sessões do Concílio Vaticano II. O segundo, das Cartas Interconciliares, contém as cartas escritas, no Recife, entre as três últimas Sessões do Concílio (11 de abril de 1964 a 01 de setembro de 1965) aos seus ex-colaboradores do Rio de Janeiro e novos colaboradores de Olinda e Recife. Tive o privilégio de preparar para a publicação, com a ajuda de um pequeno grupo, este volume das Cartas Interconciliares e posso assegurar-lhe que se trata de um documento ímpar da história da espiritualidade católica. Nelas, um cristão autêntico, um grande bispo, um dos Pais da Igreja latino-americana, aceita o desafio de despir-se espiritualmente diante de Deus e de sua Igreja familiar e doméstica, diariamente ou quase, confessando e narrando, com simplicidade e transparência, a “história de sua alma” e as vicissitudes de seu dia-a-dia.

Tenho insistido em afirmar, junto ao Instituto Dom Hélder Câmara, que a tarefa que lhe incumbe prioritariamente, agora que nos falta a presença física do profeta, é a de publicar e divulgar, o quanto antes, sua obra escrita que, além da maravilhosa correspondência a que me referi, consta, ainda, de centenas de discursos, abordando temas de grande atualidade, e milhares de pequenos poemas – meditação. Tenho, mais que a esperança, a certeza de que o Dom continuará a marcar a sua presença entre as futuras gerações, através de sua obra escrita e da irradiação do seu testemunho.

IHU On-Line – Dom Hélder dizia: “Sempre que procura defender os sem-vez e os sem-voz, a Igreja é acusada de fazer política”. Em que sentido o senhor vê nas ações de Dom Hélder um exemplo para a ação da Igreja na sociedade?

Zildo Rocha – Dom Hélder era um homem de equipe. Aprendeu com a Ação Católica que ajudou a criar ou, pelo menos, a implantar no Brasil, sob o modelo da Ação Católica Especializada e segundo o método do Ver, Julgar e Agir. Acreditava no diálogo e considerava a autoridade um serviço e não um poder. Tinha profundo respeito por seus colaboradores e mais de uma vez o vi rasgar textos que preparara porque o seu “presbitério alargado” (vigários gerais, padres e alguns leigos) não o considerara convincente ou oportuno. Tinha um verdadeiro amor preferencial pelos pobres. Não por demagogia, como gostavam de repetir seus adversários, mas para sentir-se mais verdadeiro consigo mesmo, mais próximo desses irmãos frágeis e esquecidos, e mais fiel àquele de quem procedia todo o seu poder e autoridade e que não tinha onde reclinar a cabeça. A leitura de suas cartas ajudará, de certo, a perceber como entendia a sua função de bispo e a queria a serviço de seus irmãos nordestinos, martirizados pelo subdesenvolvimento, pela miséria e pela fome. Para ele, como para São João, o amor de Deus e o amor do próximo é um só e mesmo amor. E isso, de novo, não por caudilhismo ou demagogia, mas como fruto de uma ação que nascia da oração, da Vigília e da Santa Missa, pontos altos de seus dias.

Dom Geraldo Lyrio Rocha homenageia Dom Hélder

Com o tema “Dom Hélder Câmara, Profeta da Justiça e Mensageiro da Esperança”, o Arcebispo de Mariana e Presidente da CNBB, Dom Lyrio Rocha, apresentará a Aula Magna da PUC-Rio, dia 27 de março, às 11h, no auditório Prof. Del Castilho, 2º andar do RDC. A solenidade marca o início das comemorações do centenário de nascimento de Dom Hélder Câmara na PUC-Rio e a abertura oficial do ano acadêmico de 2009.

A cerimônia contará com a presença do Reitor da Universidade, Pe. Jesus Hortal Sánchez, S.J., e o encerramento será feito com a celebração da Missa do Espírito Santo pelo Administrador Apostólico
da Arquidiocese do Rio de Janeiro, Dom Eusébio Oscar Scheid, às 12h, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus.

No dia 27 também será inaugurada a exposição “Dom Hélder – Memória e profecia no seu centenário: 1909-2009”, nos pilotis do edifício Cardeal Leme da PUC. A mostra, que já passou por São Paulo, ficará 15 dias no Rio de Janeiro e depois percorrerá outras cidades como Fortaleza, Brasília e Recife. Com curadoria de José Broucker, biógrafo de Dom Hélder e presidente da Associação Dom Hélder –
Memórias e Atualidades, a exposição é composta de 25 painéis com textos, depoimentos e fotos que relatam a atuação do arcebispo na política, na Igreja, no campo social e em outras áreas.

Ao longo do ano, outras iniciativas na PUC irão homenagear o centenário de Dom Hélder. No fim de abril, o Núcleo de Memória da Universidade lançará um site retratando a ligação do arcebispo com
a instituição.

Evento: AULA MAGNA PUC-RIO – HOMENAGEM DOM HÉLDER
Data: 27 de março de 2009
Horário: 11h
Local: Auditório Prof. Del Castilho, 2º andar do Rio DataCentro
(RDC), campus da PUC-Rio.