Dom Pedro Casaldaliga

Por bem viver para todos, se unem fé e política

A lavadeira de Carinhanhas (BA) e o secretário de Estado de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do Governo do Distrito Federal estavam juntos, entre os cerca de 2.500 participantes do 9º Encontro Nacional Fé e Política, vindos de quase todos os Estados brasileiros, entre os dias 15 e 17, em Brasília (DF).

Com o tema “Cultura do bem viver: partilha e poder”, o evento aconteceu pela primeira vez na capital federal, na Universidade Católica de Brasília (UCB) e contou com nomes como frei Betto e frei Carlos Mesters. Foram mais de 900 hospedagens solidárias, recorde em relação às edições anteriores, e um grande número de voluntários, entre eles, professores e universitários.

O encontro teve início na sexta-feira, 15, coincidentemente no dia da Proclamação da República, com o lançamento da Campanha Nacional do Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político (leia na próxima edição do O SÃO PAULO) e foi concluído no domingo, com a missa de envio.

Nomes como dom Tomás Balduíno, dom Pedro Casaldáliga, dom Helder Câmara, frei Carlos Mesters foram lembrados pelos participantes como exemplos de vivência de uma fé compromissada com as questões sociais. “Somos herdeiros desta corrente, a corrente de Jesus, a corrente dos profetas, a corrente dos que resistiram, dos que foram perseguidos”, lembrou Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, na abertura oficial.

A cultura do bem viver foi o tema exposto por Graciela Chamorro, teóloga e historiadora, professora na Universidade Federal de Dourados (MS), onde trabalha com os indígenas Guarani-Kaiowá. “No Brasil, a população indígena é de apenas 0,4% e não há exemplos consolidados da expressão bem viver na política, como na Bolívia, por exemplo. A grande contribuição dos indígenas para a reflexão libertadora é nos lembrar que, não existe somente o direito dos seres humanos, mas os direitos da terra, e que desenvolvimento tem limite, porque os recursos da terra são limitados.”

Frei Betto, dominicano, a autor de muitos livros, como por exemplo, “A mosca azul” falou sobre o poder na cultura do bem viver. “O exercício do poder tem que ser dialógico. Os políticos são nossos servidores, nós somos autoridades. Mas, a cultura em que vivemos inverteu esse processo. Grande parte dos políticos, contudo, nos olha de cima para baixo e deveria ser o contrário, eles deveriam estar a serviço de todos, principalmente dos mais pobres.”

De maneira até descontraída, frei Betto ressaltou como foi a morte de Jesus. “O Nazareno morreu de hepatite na cama ou de desastre de camelo? Ele foi preso e assassinado por decisão de dois poderes políticos, o sinédrio judaico e o ocupante do poder romano. Quando, por exemplo, um pastor diz: ‘Venha à minha igreja que eu te curo’, ele está dizendo: ‘Não lute por um melhor sistema público de saúde’. Precisamos lembrar que todos nós somos discípulos de um prisioneiro político.”

Mas, o que a fé tem a ver com a política? O filósofo Patrick Viveret, que participa desde 2001, dos Fóruns Sociais Mundiais, no livro “Como viver em tempo de crise?” escreveu que “a relação entre simplicidade e arte de viver, no sentido mais forte da expressão, o de saber viver, é uma questão plenamente política. Uma questão pessoal, naturalmente, mas também de transformação social”.

Ao O SÃO PAULO, Daniel Seidel, coordenador local do Movimento Fé e Política e do evento, explicou que, desde que o Distrito Federal foi escolhido como sede, nasceu a ideia de fazê-lo na universidade. “Vendemos 7 mil cartilhas em nível nacional e queremos distribuir outras 17 mil, para fazer um trabalho de base. Foi a primeira vez que o encontro aconteceu no Centro-Oeste e há algumas sugestões de levá-lo para o Norte do País.”

Daniel destacou que dom Sergio da Rocha, arcebispo metropolitano de Brasília, espera que o evento fortaleça as pastorais sociais na Capital. “Ele percebeu que há muitas instituições para atender às necessidades imediatas das pessoas, sem a luta pelas políticas públicas que garantam os direitos das pessoas que estão em situação de desvantagem social”, disse.

Fóruns temáticos favorecem participação

Foram 27 fóruns temáticos que dividiram os participantes na tarde do sábado, 16. Temas como economia popular solidária, relações de trabalho, gênero e poder, consumismo e partilha e memória e comissões da verdade foram debatidos por cada grupo, que, ao final, deveria construir, conjuntamente, um relatório com propostas e encaminhá-lo à organização geral.

No fórum “Ecologia e Direitos da Terra” reuniram-se, com Pedro Ribeiro, sociólogo e professor de Ciências da Religião na PUC-Minas, sacerdotes, religiosos, professores, jovens, sindicalistas, camponeses e militantes na causa ecológica.

Pedro comentou sobre um novo problema da sociedade, o “especismo”, apontado por um pesquisador americano. Para ele, o “especismo” é o preconceito da espécie humana em relação às outras espécies. “Nós, achamos que somos superiores, e isto causa um grande mal.”

Maria da Conceição Ferreira Dias mora às margens do rio São Francisco, em Carinhanha (BA). Ela trouxe para o grupo o grande problema da seca do rio, que continua. “Mesmo após todos os esforços de dom Luís Cappio, que fez greve de fome pela não transposição do rio, a situação está cada vez pior, nosso ‘Velho Chico’ está morrendo”, lamentou a ribeirinha. (NF)

Fonte: Arquidiocese de São Paulo

Solidariedade a dom Pedro Casaldáliga

Dom Demétrio Valentini
Bispo de Jales (SP) e Presidente da Cáritas Brasileira até novembro de 2011

Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, está sendo seriamente ameaçado de morte. Para protegê-lo, o Governo Federal tomou a iniciativa de removê-lo de lá, e levá-lo a um lugar distante, onde permanece sob a custódia da Polícia Federal.

Dadas as circunstâncias, esta medida do Governo se justifica, e merece ser apoiada. Quando a vida corre perigo, o Estado tem a obrigação de fazer o que está ao seu alcance para defendê-la e preservá-la.

Independente dos motivos das tensões existentes, devidas à iminente execução da sentença de reintegração de posse em favor dos índios Xavante, das terras de “Marâiwatsèdè”, com a retirada de toda a população não indígena, permanece muito estranha, e profundamente equivocada, a ameaça feita contra Dom Casaldáliga, como se ele fosse o culpado da situação agora existente.

Desde que foi eleito bispo, em 1971, Dom Pedro Casaldáliga vem dando a todos um comovente exemplo de autenticidade evangélica, de austeridade, vivendo pobremente nesta Prelazia que a Igreja lhe confiou.

Ele está agora com 84 anos de idade. Desde 2002 é Bispo Emérito. Como tal, podia ter retornado à sua terra de origem, a Catalunha. Mas fez questão de permanecer nesta terra cheia de conflitos decorrentes de problemas de terras mal resolvidos.

Dom Pedro é incapaz de matar sequer um mosquito. Por que temer um ancião de 84 anos, desarmado, indefeso, cordato e pacífico?

A violência é sempre má conselheira. É preciso, quanto antes, desarmar os espíritos, para todos assumirem uma postura de respeito e de entendimento.

Ainda mais tendo presente a firme decisão de Dom Pedro, de manter-se sereno diante das ameaças, e pronto igualmente para testemunhar com a própria vida suas convicções na defesa dos humildes, sejam eles índios ou posseiros.

Diante destas novas ameaçadas, D. Pedro continuou fazendo poemas, como fez ao longo de sua vida. Este o recado enviado agora aos que querem matá-lo:

“Eu morrerei de pé como as árvores.
Me matarão de pé.
O sol, como testemunha maior, porá seu lacre
sobre meu corpo duplamente ungido”.

Esse é Dom Pedro. Com ele as armas da morte só acentuam a força do seu testemunho. Sua coragem nos remete a buscar uma solução justa e pacífica para o impasse criado com a execução da sentença judicial.

Em primeiro lugar, valem as palavras do atual Bispo da Prelazia, Dom Adriano Ciocca, que nos ajudam a perceber a gravidade da situação: “sabemos que está havendo muito sofrimento, sobretudo dos mais pobres, por causa desta retirada determinada pela Justiça.”. Mas adverte com clareza: “Desde o início desta ocupação, alertamos para a possibilidade do atual desfecho, por se tratar de terras cujo direito é garantido ao povo Xavante pela Constituição Federal”.

Dada a proporção do conflito, garantido o direito dos Xavantes sobre este território, o Governo Federal deve, como manda também a Constituição, indenizar todas as benfeitorias feitas pelos ocupantes de boa fé, mesmo que tenham sido enganados.

E como se trata de uma situação paradigmática, em que a demora da solução acabou agravando a situação, o Governo precisa assumir o compromisso de re-assentar os agricultores, de imediato, na medida em que vão sendo retirados deste território.

Assim será possível atender ao direito dos índios, sem atropelar o direito dos pobres agricultores, que também não têm culpa do impasse agora existente.

Para situações difíceis, se requer grandeza de ânimo, não o atalho das armas.

Nota de solidariedade a Dom Pedro Casaldáliga

Fonte: Várias organizações
Edital

Ao se aproximar a desintrusão da Terra Indígena Marãiwatsèdè, após mais de 20 anos de invasão, quando os não indígenas estão para ser retirados desta área, multiplicam-se as manifestações de fazendeiros, políticos e dos próprios meios de comunicação contra a ação da justiça.

Neste momento de desespero, uma das pessoas mais visadas pelos invasores e pelos que os defendem é Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, a quem estão querendo, irresponsável e inescrupulosamente, imputar a responsabilidade pela demarcação da área Xavante nas terras do Posto da Mata.

As entidades que assinam esta nota querem externar sua mais irrestrita solidariedade a Dom Pedro. Desde o momento em que pisou este chão do Araguaia e mais precisamente, desde a hora em que foi sagrado bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, sua ação sempre se pautou na defesa dos interesses dos mais pobres, os povos indígenas, os posseiros e os peões. Todos sabem que Dom Pedro e a Prelazia sempre deram apoio a todas as ocupações de terra pelos posseiros e sem terra e como estas ocupações foram o suporte que possibilitou a criação da maior parte dos municípios da região.

Em relação à terra indígena Marãiwatsèdè, dos Xavante, os primeiros moradores da região nas décadas de 1930, 40 e 50 são testemunhas da presença dos indígenas na região e como eles perambulavam por toda ela. Foi com a chegada das empresas agropecuárias, na década de 1960, com apoio do governo militar, que a Suiá Missu se estabeleceu nas proximidades de uma das aldeias e até mesmo conseguiu o apoio do Serviço de Proteção ao Indio para se ver livre da presença dos indígenas. A imprensa nacional noticiou a retirada de 289 xavante da região os quais foram transportados em aviões da FAB, em 1966, para a aldeia de São Marcos, no município de Barra do Garças.

Em 1992, a AGIP, empresa italiana que tinha comprado a Suiá Missu das mãos da família Ometto, quis se desfazer destas terras. Por ocasião da ECO-92, sob pressão inclusive internacional, a empresa destinou 165.000 hectares para os Xavante que, durante todo este tempo, sonhavam em voltar à terra de onde tinham sido arrancados. Imediatamente fazendeiros e políticos da região fizeram uma grande campanha para ocupar a área que fora reservada aos Xavante, precisamente para impedir que os mesmos retornassem. Já no dia 20 de junho de 1992, algumas áreas tinham sido ocupadas e foi feita uma reunião no Posto da Mata, da qual participaram políticos de São Félix do Araguaia e de Alto Boa Vista e também havia repórteres. A reunião foi toda gravada. As falas deixam mais do que claro que a invasão da área era exatamente para impedir a volta dos Xavante. “Se a população achou por bem tomar conta dessa terra em vez de dá-la para os índios, nós temos que dar esse respaldo para o povo” (José Antônio de Almeida – Bau, prefeito de São Félix do Araguaia). “A finalidade dessa reunião é tentarmos organizar mais os posseiros que estão dentro da área… Se for colocar índio no seu habitat natural, tem que mandar índio lá para Jacareacanga, ou Amazonas, ou Pará…” (Osmar Kalil – Mazim, candidato a prefeito do Alto Boa Vista). “Nós ajudamos até todos os posseiros daqui serem localizados… Chegou a um ponto, ou nós ou eles (os Xavante) porque nós temos o direito… Dizer que aqui tem muito índio? Aqueles que estão preocupados com os índios que tem que assentar. Tem um monte de país que não tem índio. Pode levar a metade… Na Itália tem índio? Não, não tem! Leva! Leva pra lá! Carrega pra lá! Agora, não vem jogar em nós, não… ( Filemon Costa Limoeiro, à época funcionário do Fórum de São Félix do Araguaia)

A área reservada aos Xavante foi toda ocupada por fazendeiros, políticos e comerciantes. Muitos pequenos foram incentivados e apoiados a ocupar algumas pequenas áreas para dar cobertura aos grandes. O governo da República, porém estava agindo e logo, em 1993, declarou a área como Terra Indígena que foi demarcada e, em 1998 homologada pelo presidente FHC. Só agora é que a justiça está reconhecendo de maneira definitiva o direito maior dos índios. O que D. Pedro sempre pediu, em relação a esta terra, foi que os pequenos que entraram enganados, fossem assentados em outras terras da Reformas Agrária. Mas o que se vê é que, ontem como hoje, os pequenos continuam sendo massa de manobra nas mãos dos grandes e dos políticos na tentativa de não se garantir aos povos indígenas um direito que lhes é reconhecido pela Constituição Brasileira.

Mais uma vez, queremos manifestar nossa solidariedade a Dom Pedro e denunciar mais esta mentira de parte daqueles que tentam eximir-se da sua responsabilidade sobre a situação de sofrimento, tensão e ameaça de violência que eles mesmos criaram, jogando esta responsabilidade sobre os ombros de nosso bispo emérito.

5 de dezembro de 2012
Conselho Indigenista Missionário – CIMI – Brasilia
Comissão Pastoral da Terra – CPT – Goiânia
Escritório de Direitos Humanos da Prelazia de São Félix do Araguaia – São Félix do Araguaia
Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção – ANSA – São Félix do Araguaia
Instituto Humana Raça Fêmina – Inhurafe – São Félix do Araguaia
Associação Terra Viva – Porto Alegre do Norte
Associação Alvorada – Vila Rica
Associação de Artesanato Arte Nossa – São Félix do Araguaia

À maneira de introdução fraterna. Que Deus? Que religião?

Dom Pedro Casaldáliga

A “Latino-americana” vem abordando temas importantes, ano após ano. Assuntos de candente atualidade humana. Pensando na vida, assumindo os desafios que a realidade nos apresenta. Objeto de realidade candente é a religião; temática realmente importante: Deus.

Talvez alguém duvide da atualidade deste tema, pensando em certas áreas do Primeiro Mundo para as quais Deus e a religião “já eram”. Na realidade, dá-se a contradição desconcertante de ver e sentir mais religiosidade do que nunca, e mais descrença também; com todas as ambiguidades e todas as oportunidades.

O fenômeno da mundialização agita também especificamente o tema, porque as populações migrantes, chegando “sem papéis” ao Primeiro Mundo, não entram nele sem seu Deus; carregam consigo o Deus de suas vidas, das vidas dos antepassados.

Hoje, culturas e religiões, conhecidas antes por algumas leituras e imagens de televisão, são vivência e conflito nas famílias, nas ruas, nas escolas, no trabalho, na política de todos os países. Nietzsche, finalmente na paz merecida por sua desesperada busca, já tinha retificado seu axioma categórico: chega-se à conclusão de que Deus não está morto.

O problema está em saber de que Deus falamos. Saber também evidentemente o que entendemos por religião e como pensamos que deveria ser uma religião verdadeiramente libertada e libertadora.

Refletindo sobre essas duas perguntas, “que Deus?”, “que Religião?”, as respostas são as mais sérias e as mais desconcertantes.

Falando de Deus, precisamente, um amigo sertanejo de nossa região, tão distante de categorias metafísicas, respondia com a maior simplicidade e devoção: Deus é um bom homem. Já o profeta Oseias põe na boca de Deus (o Deus Javé) esta categorical identificação, sem réplica possível: Eu sou Deus, e não um homem (11,9). O escritor Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, ateu assumido e militante, mas que fez da religião material frequente de seus escritos, nos deu uma poética e contemplativa definição de Deus: Deus é o silêncio do Universo e o homem, o grito que dá sentido a esse silêncio. Outro Prêmio Nobel, o poeta espanhol Juan Ramón Jiménez, dizia que a dúvida de fé não é contra Deus, mas a favor de Deus. Nossos teólogos da libertação nos fazem recordar que o contrário da fé não é a dúvida, mas o medo (medo de Deus, com frequência). Que Deus, que religião, que salvação… Uma vizinha pentecostal ponderava: Os bons se salvam porque são bons, e os maus também se salvam, porque Deus é bom e perdoa.

Este livro, que ocasionou muitos intercâmbios com respeito ao tema e às implicações que o tema traz consigo, oferece um elenco bastante completo de aspectos. A história das religiões e do ateísmo ou a descrença. A diferença e complementariedade entre espirititualidade e religião. A religião que fomenta e justifica guerras. O espiritualismo, o fundamentalismo, a alienação, denunciados tantas e persistentes vezes ontem e hoje. A necessidade do diálogo inter-religioso. O macroecumenismo. Sacralização do poder, do consumismo. A queda, então, de velhos deuses substituídos por deuses novos. A necessidade, a sede vital, de resposta às interrogações maiores do coração humano. A busca de sentido para a vida pessoal e para a sociedade humana como um todo.

Estamos chegando, depois de guerras e inquisições, a nos perguntar se uma religião verdadeira pode existir atacando, fechando-se, forçando um assentimento de fé (que é gratuidade, assunto de coração, busca de toda uma vida e de toda uma história). Todas as religiões podem ser verdadeiras e todas podem abrigar, simultaneamente, muita falsidade.

(Deve-se agradecer à declaração do Cardeal Jean Louis Tauran, Presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo inter-religioso, que diz que todas as religiões têm a mesma dignidade e importância.)

Procurou-se fazer um esquema dividido em três partes para classificar as características fundamentais da religião segundo culturas e épocas. As religiões afro-indígenas seriam religiões da Natureza. Hoje, evidentemente, essa Natureza seria vista e venerada ecologicamente.

As religiões orientais seriam as religiões da interioridade, contemplativas, gratuitas inclusive. E as religiões judeo-cristãs seriam as religiões da História, do Amor-Justiça, da profecia, da política. Logicamente, todas as religiões seriam a busca por Deus, a acolhida de Deus, a espera por Deus. De um Deus que sempre está à nossa busca, acolhendo-nos, e revelando-se, cada dia, em qualquer ângulo da geografia humana. Nenhuma religião tem a exclusividade desse Deus de todos os nomes, que perdoa e salva porque é o Amor.

A “Latino-americana” não quer ser proselitista e, sim, estimular todas as riquezas humanizadoras trazidas pelas religiões. Sem cruzadas e sem supermercados. Deixando que Deus dialogue com Deus, o Deus da família humana e do Universo inteiro. Sempre pensando holística e pessoalmente. Deus não é um conceito, não é um dogma, é mais que uma causa. De que Deus falamos? Com que Deus sonhamos? Santa Teresa de Ávila tem aquele pequeno poema, conhecido mundialmente, que diz: Só Deus basta. Com um respeitoso carinho, eu o digo à grande Teresa: Só Deus basta, Teresa/sempre que for aquele Deus/ que é ele e todos e tudo/em comunhão.

Que Deus e que religião?

Marcelo Barros

É a pergunta e o desafio lançado por Dom Pedro Casaldáliga na costumeira e sempre bela carta circular que abre a Agenda Latino-americana mundial 2011, que a Comissão Justiça e Paz da Família Dominicana apresenta nesta semana em Goiânia, como lançamento nacional da Agenda do próximo ano.

Quando a minha geração era criança, circulavam diversos “almanaques do ano” que nos davam informações sobre as datas em que ocorrerão as fases da lua, sobre santos e santas de cada dia, sobre receitas de cozinha e remédios caseiros. Era muito apreciado o Almanaque do Biotônico Fontoura, remédio que toda criança tomava para crescer sadia. As mães de famílias católicas apreciavam a Folha do Coração de Jesus. Hoje, mesmo em tempos de internet e de comunicação virtual, este tipo de livro continua apreciado. A cada ano, vários grupos e organizações editam almanaques e agendas que ajudam as pessoas a se situar no tempo e no espaço. Em toda a América Latina e em algumas nações da Europa, nos anos mais recentes, a Agenda Latino-americana mundial tem se constituído como um livro de cabeceira e companheiro de viagem para muitas peço as e grupos que desejam um mundo novo possível e por isso trabalham.

Quando se fala em agenda, logo as pessoas pensam em cronograma de atividades a ser programada. Em 2006, em uma reunião em Caracas, eu estava junto com o amigo José Maria Vigil, teólogo encarregado da organização e redação final deste livro. Alguém nos perguntou o que fazíamos na vida. Ele respondeu: “Eu faço a agenda latino-americana”. Algumas pessoas, habituadas a que agendas de presidentes e de pessoas importantes são feitas por ministros e chefes de gabinete, o olharam espantadas, querendo saber de quem ele fazia a agenda. E ele falava do livro Agenda Latino-americana. Só pouco a pouco, no meio da conversa, o equívoco se esclareceu. As pessoas descobriram que o tal livro contém a programação de eventos e memórias que ocorrem no continente, mas é mais do que isso. Propõe uma reflexão de fundo que serve de tema para cada ano e que vári os autores e autoras discorrem na linha da metodologia do “ver, julgar e agir”.

Talvez muita gente se espante de que a Agenda Latino-americana mundial de 2011 tenha escolhido como tema a questão “Que Deus, que religião?”. Logo na carta introdutória, Dom Pedro Casaldáliga mostra que este assunto não tem sua importância restrita a religiosos, mas, ao contrário, hoje, é fundamental para a paz e a construção de um novo mundo possível. De fato, no passado, uma determinada visão sobre religião e sobre Deus levou povos a guerras e perseguições. O próprio Cristianismo compactuou com regimes totalitários e foi acusado de ser conivente com o sistema social e econômico responsável pela destruição ecológica. Em seus últimos anos de vida, um bispo santo como Dom Hélder Câmara se lamentava de que os governos e Estados que mais se destacaram como escravagistas e responsáveis pela injustiça social no mundo são justamente aqueles que mais se vangloriam de ser cristãos. Até no dólar se usa o nome de Deus como para justificar a riqueza de uns e a carência injusta sofrida por multidões.

Ao percorrer esta bela enciclopédia temática que é a Agenda Latino-americana de 2011, uma conclusão que se pode tirar é a mesma que, no tempo do nazismo, fazia o filósofo judeu Martin Buber afirmar a seus irmãos judeus no cativeiro: “Pelo fato de que muitos crimes e iniqüidades têm sido cometidos em nome de Deus, é preciso não deixarmos este nome nas mãos dos opressores. É preciso resgatar este nome como amor solidário, presente em todo ato de bondade e em todo riso de criança”. É isso que a Agenda Latino-americana mundial de 2011 consegue fazer e propor para o mundo de hoje.

Os Dons da poesia

Roberto Malvezzi, Gogó

“O camelo que não passa pelo fundo da agulha,
Costuma entrar pelas portas das catedrais”.
(Casaldáliga)

É raríssimo um bispo poeta. Aliás, a linguagem poética é muito rara na história da Igreja. Predomina a racionalidade filosófica, teológica, discursiva, embora na Bíblia ela esteja tão presente. O prólogo do Evangelho de João é – ao menos para mim – o poema religioso mais belo que já se escreveu.

No papado, então, apenas João Paulo II tinha um viés poético. Fora ator na juventude. Deixou uma frase que é a senha para os cristãos dos tempos atuais: “é preciso rastrear as digitais de Deus impressas no Universo”. Pura poesia.

Comemoramos cem anos de Dom Helder, o poeta. Seus versos curtos, no estilo dos Hay Kay dos japoneses, são capazes de dizer em poucas palavras o que outros gastariam uma tese de quinhentas páginas para dizer. O outro poeta bispo, Casaldáliga, continua no meio de nós, capaz de fazer versos estonteantes como esse da epígrafe. Contei essa poesia no encontro das Pastorais Sociais do CELAM. A reação dos presentes, inclusive bispos, foi uma gargalhada despudorada.

“Para que contradizer a criança
Segura de ter nas mãos uma varinha de condão?
Que ela crê ser invisível ao dizer “abracadabra”?
Se ela crê nessa magia que é dizer “abracadabra”?
Mas, para que maior castigo
Do que não ter senso poético
Ou não ter imaginação”? (D. Helder)

Esses homens fizeram de suas vidas uma oração, de suas falas um verso de fina e simples poesia. Mas, a poesia só existe onde reina o olhar lúdico sobre a vida. Onde o amor é visível, a beleza admirada, a compaixão é vivida e até a morte é irmã, quanto mais o mal de Parkinson.

“Querer ficar na memória dos homens
É tão inútil quanto procurar
Nas ondas de hoje
Os sinais das ondas de ontem”. (D. Helder)

Mas, os Dons do amor e da poesia permanecem para sempre.