Dom Tomás Balduíno

Mãos e pés sujas de terra – Homenagem a D. Tomás Balduíno

Dom Tomás Balduíno – pastor, profeta, guerreiro;

“Moleque travesso” – chegaram a dizer alguns,

Porque capaz de arriscar, de ousar, de sonhar;

De manter o olhar no horizonte sem fronteiras.

Sem medo de sujar as mãos e os pés na terra,

Na história da luta pela Reforma Agrária:

Terra por Deus prometida e esperada,

Terra pelos governos anunciada e negada,

Terra pelos trabalhadores duramente conquistada.

Dom tomás Balduíno – um pastor sempre jovem

No confronto com os anos sombrios na ditadura,

No anúncio da libertação aos oprimidos de todos os tempos e lugares,

Na construção do processo democrático, mesmo aos 90 anos!

Dom Tomás Balduino – um profeta destemido,

Diante das botas, fardas e armas militares,

Diante do latifúndio, com seus defensores e capangas,

Nas busca da verdade e da justiça, mesmo aos 90 anos!

Dom Tomás Balduino – um guerreiro que jamais foge à luta,

Juntamente com todos os deserdados da terra,

Em parceria com os lutadores e lutadoras do povo,

No anúncio do Reino do Pai, mesmo aos 90 anos!

Dom Tomás Balduíno – pastor, profeta, guerreiro;

Mas também pássaro aviador no céu cor de anil,

Sentindo no corpo e na alma os ventos da mudança,

Os sinais dos tempos de uma história que não se fecha,

Mas permanece aberta ao protagonismo dos pobres.

Dom Tomás Balduino – porta-voz de Deus e dos excluídos,

Solidário com os exilados, os necessitados, os últimos;

Sensível à flor e à espinga que se levantam do chão,

Como o grito e a luta dos desterrados e abandonados,

Para proclamar que a primavera já começou

E que é possível aos 90 anos sentir seu perfume!

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

Roma, Itália, 11 de novembro de 2013

Por bem viver para todos, se unem fé e política

A lavadeira de Carinhanhas (BA) e o secretário de Estado de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do Governo do Distrito Federal estavam juntos, entre os cerca de 2.500 participantes do 9º Encontro Nacional Fé e Política, vindos de quase todos os Estados brasileiros, entre os dias 15 e 17, em Brasília (DF).

Com o tema “Cultura do bem viver: partilha e poder”, o evento aconteceu pela primeira vez na capital federal, na Universidade Católica de Brasília (UCB) e contou com nomes como frei Betto e frei Carlos Mesters. Foram mais de 900 hospedagens solidárias, recorde em relação às edições anteriores, e um grande número de voluntários, entre eles, professores e universitários.

O encontro teve início na sexta-feira, 15, coincidentemente no dia da Proclamação da República, com o lançamento da Campanha Nacional do Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político (leia na próxima edição do O SÃO PAULO) e foi concluído no domingo, com a missa de envio.

Nomes como dom Tomás Balduíno, dom Pedro Casaldáliga, dom Helder Câmara, frei Carlos Mesters foram lembrados pelos participantes como exemplos de vivência de uma fé compromissada com as questões sociais. “Somos herdeiros desta corrente, a corrente de Jesus, a corrente dos profetas, a corrente dos que resistiram, dos que foram perseguidos”, lembrou Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, na abertura oficial.

A cultura do bem viver foi o tema exposto por Graciela Chamorro, teóloga e historiadora, professora na Universidade Federal de Dourados (MS), onde trabalha com os indígenas Guarani-Kaiowá. “No Brasil, a população indígena é de apenas 0,4% e não há exemplos consolidados da expressão bem viver na política, como na Bolívia, por exemplo. A grande contribuição dos indígenas para a reflexão libertadora é nos lembrar que, não existe somente o direito dos seres humanos, mas os direitos da terra, e que desenvolvimento tem limite, porque os recursos da terra são limitados.”

Frei Betto, dominicano, a autor de muitos livros, como por exemplo, “A mosca azul” falou sobre o poder na cultura do bem viver. “O exercício do poder tem que ser dialógico. Os políticos são nossos servidores, nós somos autoridades. Mas, a cultura em que vivemos inverteu esse processo. Grande parte dos políticos, contudo, nos olha de cima para baixo e deveria ser o contrário, eles deveriam estar a serviço de todos, principalmente dos mais pobres.”

De maneira até descontraída, frei Betto ressaltou como foi a morte de Jesus. “O Nazareno morreu de hepatite na cama ou de desastre de camelo? Ele foi preso e assassinado por decisão de dois poderes políticos, o sinédrio judaico e o ocupante do poder romano. Quando, por exemplo, um pastor diz: ‘Venha à minha igreja que eu te curo’, ele está dizendo: ‘Não lute por um melhor sistema público de saúde’. Precisamos lembrar que todos nós somos discípulos de um prisioneiro político.”

Mas, o que a fé tem a ver com a política? O filósofo Patrick Viveret, que participa desde 2001, dos Fóruns Sociais Mundiais, no livro “Como viver em tempo de crise?” escreveu que “a relação entre simplicidade e arte de viver, no sentido mais forte da expressão, o de saber viver, é uma questão plenamente política. Uma questão pessoal, naturalmente, mas também de transformação social”.

Ao O SÃO PAULO, Daniel Seidel, coordenador local do Movimento Fé e Política e do evento, explicou que, desde que o Distrito Federal foi escolhido como sede, nasceu a ideia de fazê-lo na universidade. “Vendemos 7 mil cartilhas em nível nacional e queremos distribuir outras 17 mil, para fazer um trabalho de base. Foi a primeira vez que o encontro aconteceu no Centro-Oeste e há algumas sugestões de levá-lo para o Norte do País.”

Daniel destacou que dom Sergio da Rocha, arcebispo metropolitano de Brasília, espera que o evento fortaleça as pastorais sociais na Capital. “Ele percebeu que há muitas instituições para atender às necessidades imediatas das pessoas, sem a luta pelas políticas públicas que garantam os direitos das pessoas que estão em situação de desvantagem social”, disse.

Fóruns temáticos favorecem participação

Foram 27 fóruns temáticos que dividiram os participantes na tarde do sábado, 16. Temas como economia popular solidária, relações de trabalho, gênero e poder, consumismo e partilha e memória e comissões da verdade foram debatidos por cada grupo, que, ao final, deveria construir, conjuntamente, um relatório com propostas e encaminhá-lo à organização geral.

No fórum “Ecologia e Direitos da Terra” reuniram-se, com Pedro Ribeiro, sociólogo e professor de Ciências da Religião na PUC-Minas, sacerdotes, religiosos, professores, jovens, sindicalistas, camponeses e militantes na causa ecológica.

Pedro comentou sobre um novo problema da sociedade, o “especismo”, apontado por um pesquisador americano. Para ele, o “especismo” é o preconceito da espécie humana em relação às outras espécies. “Nós, achamos que somos superiores, e isto causa um grande mal.”

Maria da Conceição Ferreira Dias mora às margens do rio São Francisco, em Carinhanha (BA). Ela trouxe para o grupo o grande problema da seca do rio, que continua. “Mesmo após todos os esforços de dom Luís Cappio, que fez greve de fome pela não transposição do rio, a situação está cada vez pior, nosso ‘Velho Chico’ está morrendo”, lamentou a ribeirinha. (NF)

Fonte: Arquidiocese de São Paulo

90 anos de transformações na Igreja. Entrevista com Dom Tomás Balduíno

IHU – Unisinos
Instituto Humanitas Unisinos
Adital

Quarta, 02 de janeiro de 2013

“Num país como o nosso, que tem tantos recursos e onde muitas igrejas são florescentes de templos invejáveis em tamanho, conforto etc., pastorais de fronteira estão empobrecidas”, declara bispo emérito de Goiás.

Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás, pertence a uma geração de bispos brasileiros que identifica na missão da Igreja uma transformação social. Ele esteve à frente da criação da Comissão Pastoral da Terra – CPT e do Conselho Indigenista Missionário – Cimi, onde, ainda hoje, atua com bastante entusiasmo. Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Dom Tomás recorda sua trajetória na Igreja e enfatiza que a “CPT aconteceu num momento de muita animação, decisão, caminhada e energia a favor dos pobres. Foi fruto do Concílio Vaticano II e de Medellín”. Para ele, tanto a CPT quanto o Cimi “trouxeram para dentro da Igreja uma abertura, porque a convivência com esses povos trazia, na pessoa dos agentes de pastoral das CPTs, para o interior da Igreja a preocupação com a situação deles”. E conclui: “Houve um crescimento dentro da própria instituição eclesiástica”.

Poucos dias antes de completar 90 anos de idade, Dom Tomás Balduíno conversou com a IHU On-Line e diz se sentir “livre”. “Não tenho mais o governo de uma diocese, mas se eu pastoreio, eu pertenço ao Colégio Episcopal. Então, tenho na Igreja a atuação referente à missão de pastor”.

Depois de ter presenciado momentos difíceis na Igreja, como o período militar, Dom Tomás gosta de pensar o futuro da Igreja numa perspectiva de “esperança”. “O futuro próximo é a continuidade. Agora, o futuro mais remoto a Deus pertence. Eu acho que tem muito elemento dentro da Igreja no sentido de uma renovação. Será que isso terá acesso ao governo mundial da Igreja na pessoa do Papa? Não sei”, conclui.

Dom Tomás Balduíno nasceu em 31 de dezembro de 1922, e no final do ano passado completou 90 anos. É teólogo católico, bispo emérito de Goiás e assessor da Comissão Pastoral da Terra. Pertence à Ordem Dominicana.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quando e por que decidiu seguir a vida religiosa e entrar na Ordem Dominicana?

Dom Tomás Balduíno – Desde menino eu já tinha vontade de ser padre. Talvez por influência familiar dos tios padres por parte da minha mãe, ou de um tio padre por parte do meu pai. Na cidade onde morava, Formosa-GO, havia uma comunidade de religiosos dominicanos franceses. Admirava estes monges pela vida missionária deles, pelo sacrifício de rodar boa parte do estado de Goiás a cavalo. Então, me engajei na Igreja, e quando era adolescente fui encaminhado para o seminário, depois para o noviciado em Uberaba. Mais tarde estudei em São Paulo e cursei Filosofia; na França, mais tarde, estudei Teologia, porque faltam professores no Brasil. Nessa época tivemos uma influência interessante dos precursores do Concílio Vaticano II. Fui ordenado padre na França e, ao voltar ao Brasil, depois de um certo tempo de lecionar nas faculdades de Filosofia, meu provincial me designou para a missão indigenista. Esse foi o início de uma nova etapa. Não que eu escolhesse, mas fui levado a isso pelas circunstâncias, porque eu era o superior da missão, e a partir de um certo momento, na década de 1960, fui procurado pelos lavradores que estavam sendo pressionados pelos proprietários da terra no estado do Pará. Acabei me envolvendo com esse mundo. Depois também trabalhei com os povos indígenas. Tive mais contato com o povo Xikrin, do Alto do Itacaiúnas; aprendi a língua convivendo com eles.

Injustiça social

O que me marcou profundamente foi a questão da injustiça social no sentido de o governo do estado do Pará vender terras sem levar em conta a população que estava dentro daquele território. Houve conflitos e eu participei deles no início, porque depois fui transferido para Goiás, como bispo diocesano, onde fiquei durante 31 anos. Lá me deparei novamente com a questão da terra, porque é uma região de muito latifúndio, de dominação da elite dos caiados. Nesse tempo que vivi em Goiás, ajudei a inaugurar duas fundações importantes para a Igreja e para a sociedade: o Conselho Indigenista Missionário – Cimi, que foi substituindo pouco a pouco as antigas missões de caráter paternalista; e a Comissão Pastoral da Terra, que surgiu graças a Medellín e ao Concílio Vaticano II, nos anos de1972 e 1973. O Cimi surgiu como opção pelos pobres, mas considerando os pobres como sujeitos, autores e destinatários de sua própria caminhada, como protagonistas de sua própria luta.

Quer dizer, mudou, naquele tempo, completamente a postura da Igreja com relação aos povos indígenas e com relação aos camponeses. As experiências que se tinham eram de criar organizações, confrarias de operários, trabalhadores rurais ligados religiosamente à Igreja. Na posição da Comissão Pastoral da Terra, que nasceu em 1975, houve uma revolução Copernicana, assim como houve no Universo Indígena Pastoral Indigenista de respeitar a condição de sujeito dos trabalhadores rurais e não objeto de nossa ação caritativa.

IHU On-Line – O senhor foi cofundador do Conselho Indigenista Missionário em 1972 e seu segundo presidente. Como avalia a questão indígena no país 40 anos depois?

Dom Tomás Balduíno – Houve avanço no sentido das organizações indígenas. O próprio Conselho Indigenista Missionário tem numa nova política de tratamento aos povos indígenas. Em vez de querer confiná-los em um determinado lugar pastoral, como era antigamente, sugeriu uma proposta – que no início nos chocou e depois se viu que era o “ovo de Colombo” – de favorecer assembleias de chefes de tribos diferentes. Tínhamos receio, porque eram tribos muitas vezes hostis entre si, mas constatamos que eles atenderam ao convite para se reunirem. Passamos a reunir chefes indígenas em assembleias, e eles saíam convictos de que o inimigo do índio nunca era outro índio, e que precisavam recuperar sua cultura e, consequentemente, as terras. Para isso, eles começaram a se organizar em diversas articulações, associações regionais e nacionais. Assim, do lado dos índios houve avanço e eles continuam avançando.

O retrocesso foi do lado do governo que, aliado aos grupos capitalistas do agro e hidronegócio, se negou a demarcar as terras indígenas e enfraqueceu o próprio organismo da Funai, sucateando, de outro lado, o Incra. A mesma falta de vontade para com os povos indígenas é a falta de vontade para com os camponeses em relação à reforma agrária.

IHU On-Line – Como começou seu trabalho na Comissão Pastoral da Terra – CPT? Em que contexto histórico e político ela surgiu e como vê sua atuação nos dias de hoje?

Dom Tomás Balduíno – A CPT aconteceu num momento de muita animação, decisão, caminhada e energia a favor dos pobres. Foi fruto do Concílio Vaticano II e de Medellín. Havia um clima geral de entusiasmo dentro da própria igreja, na diocese, sobretudo nas congregações religiosas. Portanto, a CPT nasceu com a aceitação da Igreja , e tanto ela quanto o Cimi são pastorais de fronteira, diferentemente das outras pastorais litúrgicas, ecumênicas, bíblicas, de formação catequética ou presbiteral de seminaristas. A CPT e o Cimi trouxeram para dentro da Igreja uma abertura, porque a convivência com esses povos trazia, na pessoa dos agentes de pastoral das CPTs, para o interior da Igreja a preocupação com a situação deles. Houve um crescimento dentro da própria instituição eclesiástica.

Mas essas pastorais mudaram no governo de João Paulo II. Houve um retrocesso dentro da Igreja, no sentido de desconfiança com relação a este mundo externo, essas pastorais, a própria Teologia da Libertação, que é fruto dessas duas pastorais. Então, a Igreja acompanhou um pouco, nesse movimento pendular, o fechamento das pastorais. A CPT chega a ser proibida em determinadas dioceses e isso mostra um pouco o clima que nós vivemos hoje.

Com relação ao seu trabalho, foi um trabalho samaritano, eu diria. O que fez o samaritano? Ele se inclinou diante do caído. Mas ela não criou uma instituição para recolher aquele caído e outros caídos; o levantou e no dia seguinte aquele caído já podia levantar outro caído. A CPT criou vários instrumentos. Quer dizer, na evolução da pastoral, percebeu que direitos humanos, terra e água são três prioridades. Para ajudar o pessoal da terra, ela criou um corpo de advogados, porque ela luta contra o latifúndio, contra o próprio Judiciário, contra todas as forças da elite para garantir o status quo, ao passo que os camponeses vinham trazer uma transformação, por exemplo, contra o latifúndio. Eles ocupavam a terra e o que fazia a CPT diante de toda a aula de legalidade da propriedade? Ela simplesmente apoiava as ocupações de terras numa nova perspectiva que, aliás, é constitucional de prioridade à função social da terra. Isso não era muito bem aceito, nem dentro da Igreja nem dentro da sociedade. O próprio poder Judiciário era muito preso às normas antigas de direitos absolutos à propriedade privada. Isso foi sendo quebrado. A CPT, em um tempo mais remoto, ajudou com agrônomos, porque muitas vezes o pessoal recuperava a terra, mas não sabia mais trabalhar.

IHU On-Line – Quais são as dificuldades de manter a CPT no Brasil e também dentro dos atuais rumos que a Igreja vem seguindo?

Dom Tomás Balduíno – Com relação à manutenção, a CPT está “ralada”, sem recurso. Ela sofre disso, porque desde o início foi apoiada com recursos externos da Europa. Mas devido à crise econômica e à diminuição no contingente católico, os recursos diminuíram. Outro fenômeno é que essas entidades entraram em convênio com o governo, e passaram a se deparar com exigências capitalistas. Então, a CPT está com esse desafio para resolver. Não se trata do fim ou da dissolução da CPT por faltas de recursos. Mas num país como o nosso, que tem tantos recursos e onde muitas igrejas são florescentes de templos invejáveis em tamanho, conforto etc., pastorais de fronteira estão empobrecidas.

IHU On-Line – Como o senhor se tornou bispo? Que aspecto destaca da sua atuação como bispo de Goiás?

Dom Tomás Balduíno – Eu era prelado –um padre com direitos de bispo – numa prelazia, que é uma área confiada a uma ordem religiosa. Fui parar em Goiás porque sou goiano. O povo cuidadosamente foi atrás do núncio e disse: “Nós queremos um bispo goiano!”. Ele olhou assim, no elenco deles, e me achou lá no sul do Pará. Eu fui então nomeado o bispo de Goiás, o bispo diocesano por pedido do povo. Muitos se arrependeram. (Risos)

IHU On-Line – Será?

Dom Tomás Balduíno – Eles queriam um goiano, mas de outro tipo.

IHU On-Line – Por quê?

Dom Tomás Balduíno – No meu episcopado, iniciado em 1967, propus fazer uma caminhada na linha do Concílio do Vaticano II. Foi interessante, porque era um momento de muito entusiasmo na Igreja como um todo, e eu comecei a receber voluntários de diversas partes do país, que iam para lá colaborar com esse trabalho. Temos um hospital na diocese, e médicos que tinham um futuro promissor em outras áreas deixaram suas carreiras para vir trabalhar aqui. Com isso, houve um fortalecimento da caminhada. Desde o início valorizamos a participação popular na Igreja, não a Igreja Clerical, reservada aos padres, aos religiosos, mas a Igreja Comunhão e Participação.

Iniciei meu episcopado no final de 1967, e no início de 1968 tivemos a convocação da Primeira Assembleia Diocesana. A maioria dos membros da Assembleia já era de leigos e pessoas das comunidades eclesiais de base. Então, você vê o que isso significa como revolução, como transformação. Claro que houve problemas, sobretudo em Goiás, onde há muita tradição das celebrações tradicionais. Eu esclareci que assumiria aquela pastoral do jeito que o povo queria.

Bispos

Como era um momento propício dentro da Igreja, nos ligamos a bispos de outras dioceses, com Dom Pedro Casaldáliga, Dom Antônio Fragoso, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Fernando Gomes dos Santos. Além das assembleias da CNBB, nós tínhamos um grupo informal de bispos, que tinha muita liberdade de sentar e chamar a assessoria, coisa que era muito difícil naquele tempo na assembleia dos bispos. Esse grupo informal se reunia com muita cautela, porque tudo era vigiado naquele tempo. Facilmente a polícia e o DOPS entravam em alguma reunião. Então, fazíamos as reuniões às sombras das assembleias da CNBB, que eram muito respeitadas. Isso ajudou a cada um de nós na nossa diocese, e ajudou a própria CNBB, até na escolha de seus presidentes. Não pensem que a aparição de Dom Aloísio Lorscheider, Ivo Lorscheiter caiu do céu; foi trabalho desse grupo.

IHU On-Line – Quais as dificuldades de atuar no período da ditadura? A Igreja esteve bastante dividida nesse período.

Dom Tomás Balduíno – Houve até apoio ao Golpe, “porque nos livrou do comunismo sem derramamento de sangue”, diziam os próprios bispos. O sistema ditatorial tem muita tensão com a Igreja; um coronel inclusive declarou: “Nós conseguimos barrar os estudantes, silenciar a imprensa, está faltando só o púlpito das igrejas”. Nós sabíamos da resistência militar às nossas propostas, porque eram propostas não apenas de aprimoramento da pastoral interna da Igreja, mas de apoio às organizações populares. Segundo José de Souza Martins, o Golpe Militar de 1964 foi dado não exclusivamente, mas principalmente, para quebrar a espinha dorsal das organizações camponesas. Os militares achavam que através delas o comunismo internacional entraria no Brasil.

IHU On-Line – Como o senhor se sente hoje sendo bispo emérito depois de toda a sua atuação na Igreja?

Dom Tomás Balduíno – Me sinto muito livre. O bispo tem um grande espaço em que pode atuar dentro da Igreja. Isso é tradição, desde Santo Agostinho, Santo Ambrósio, Santo Irineu. Há bispos que eu reconheço, são tímidos, que, aliás, foram ordenados porque são mais piedosos, às vezes, medíocres. Então, depois de emérito, podemos dizer: “Ah, o bispo agora é general de pijama e não tem mais problemas”. Não tenho mais o governo de uma diocese, mas se eu pastoreio, eu pertenço ao Colégio Episcopal, sou membro do Concílio Ecumênico. Então, tenho na Igreja a atuação referente à missão de pastor.

Sou conselheiro da CPT nacional, e assessor do Cimi. Então, sou convidado a participar das assembleias, dos encontros, de maneira que estou presente. Quando mudei de Goiás e vim morar na casa de dominicano, trouxe minhas caixas, meus pertences de serviços, de utilidades, livros etc. Levei quatro meses para começar a abrir aquilo. Eu era chamado para todo o canto. Por isso muitas vezes eu digo, lembrando a palavra de Mandela: “Eu preciso aposentar da aposentadoria”. Mas, por outro lado, isso me estimula.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a situação de Dom Pedro Casaldáliga? E de outros bispos, como Dom Erwin, que também são ameaçados de morte pelo trabalho que desenvolvem?

Dom Tomás Balduíno – O Pedro para mim é um ícone. Ele me considera como padrinho, porque no dia em que ele ia responder a carta desistindo de ser bispo, conversou comigo e mudou de ideia. Ele me chamou no quarto e mostrou aquela carta. Eu falei na cara dele: “Olha, Pedro, eu não entendo você! Você aceitou ser prelado, pastor dessa Igreja como presbítero, e na hora de receber o sacramento, a consagração desse pastoreio, você recusa?”. Aí ele pensou um pouco mais, reuniu o pessoal, conversou e a resposta foi favorável. Por causa desse incidente, ele me considera como padrinho. Eu o considero como um verdadeiro irmão e exemplo para a minha vida. É um homem de uma vida extraordinária, uma profunda vida espiritual, mística, um profeta e também um poeta da melhor estirpe.

Pedro ultimamente deu apoio à entrada dos Xavantes na antiga fazenda Suiá-Missu, que estava ocupada por inúmeros fazendões. Mas graças a Deus o Judiciário deu ganho de causa aos Xavantes. Dom Pedro deu apoio, estímulo, e sempre cutucou o governo para não retroceder. O processo está caminhando firmemente. O que fizeram então? Ameaçaram Dom Pedro: “Esse aqui tem poucos dias para ser eliminado”. Então, Pedro está refugiado.

IHU On-Line – Que perspectiva vislumbra para a Igreja brasileira a partir de agora?

Dom Tomás Balduíno – A Igreja depende 99,9% do Papa. Então, o Concílio e o Pós-Concílio aconteceram graças primeiro a um papa, um homem extraordinário que foi colocado ali como transição. Ele revirou a igreja de pernas para o ar. O Concílio Vaticano II foi uma coisa notada não só nas Igrejas, mas também no mundo não cristão. Depois Paulo VI aplicou pacientemente o Concílio Vaticano II, e o papa João Paulo II trouxe outra perspectiva. Então, quando muda o Papa, muda tudo. Não tudo, porque a Igreja é plural. Mesmo com toda a perspectiva de unidade, ela é plural.

O futuro próximo é a continuidade. Agora, o futuro mais remoto a Deus pertence. Eu acho que tem muito elemento dentro da Igreja no sentido de uma renovação. Será que isso terá acesso ao governo mundial da Igreja na pessoa do Papa? Não sei. O futuro a Deus pertence. Mas tem potencial. E o potencial, a meu ver, aponta para outro rumo, não na linha da hierarquia, do clero, do masculino. Mas na linha do leigo e na valorização da mulher.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?

Dom Tomás Balduíno – Acho importante, com relação a esse conjunto que eu falei, a perspectiva de esperança diante de uma situação de muito sofrimento, de angústia e tristeza.

Sucedeu uma coisa na região da Serra da Mesa onde estão os Avá-Canoeiro: nasceu uma criança chamada Pantio. Fazia 22 anos que não nascia nenhuma criança naquela etnia, que é um grupo destinado à extinção. E, de repente, nasce o Pantio, uma linda criança. Isso tem um sabor de Natal, você não acha? Uma estrela que aponta um caminho bonito, um caminho de esperança, um caminho da boa nova, como aconteceu para os magos. Isso que eu queria colocar aqui como perspectiva. De onde se esperava a morte nasceu a vida. E essa vida não é só para os povos indígenas, não é só para o grupo Avá-Canoeiro, mas para todos nós, para o mundo todo. Amém!

Dom Tomás, um pastor-profeta do nosso tempo

Fr. Marcos Sassatelli
Frade Dominicano. Doutor em Filosofia e em Teologia Moral. Prof. na Pós-Graduação em DD.HH. (Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil/PUC-GO). Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arq. de Goiânia. Admin. Paroq. da Paróquia N. Sra. da Terra
Adital

No dia 31 de dezembro de 2012, Dom Tomás Balduino, frade dominicano e bispo-emérito da diocese de Goiás (GO), completará 90 anos de idade. Louvamos e agradecemos a Deus pela vida de Dom Tomás, um pastor-profeta do nosso tempo.

Dom Tomás Balduino nasceu em Posse (GO), em 31 de dezembro de 1922. Cursou Filosofia em São Paulo e Teologia em Saint Maximin, na França, onde concluiu o Mestrado. Em 1957, foi nomeado superior da missão dominicana da Prelazia de Conceição do Araguaia, no Pará. Em 1965, concluiu o Mestrado em Antropologia e Linguística na Universidade de Brasília (UNB). No mesmo ano, foi nomeado administrador apostólico da Prelazia de Conceição do Araguaia. De 1967 a 1999, foi bispo da Diocese de Goiás. Em 1972, participou da criação do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), do qual foi presidente de 1975 a 1979. Em 1975, participou também da criação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que presidiu de 1997 a 2003 e da qual, desde 2005, é conselheiro permanente. Dom Tomás é ainda doutor honoris causa da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Goiás e da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Entre as muitas qualidades de Dom Tomás, que -em “seus 90 anos de Romaria” (no dizer de Dom Pedro Casaldáliga)- poderiam ser destacadas, recordo quatro: sua profunda sensibilidade humana; sua extraordinária perspicácia na escuta dos sinais dos tempos; sua prática radicalmente profética e sua fé inabalável na utopia do Reino de Deus, que é a Boa-Notícia de Jesus de Nazaré.

Estas qualidades marcam a história de vida de Dom Tomás, nos edificam a todos/as e nos animam a continuar a luta por “uma outra Igreja possível” e por “um outro mundo possível”.

Dom Tomás -mesmo não tendo participado do Concílio Ecumênico Vaticano II- foi pioneiro na aplicação e na vivência de seus ensinamentos, que desencadearam, no mundo inteiro, um movimento de volta às fontes e de profunda renovação da Igreja. No corrente ano, fazemos a memória dos 50 anos da abertura do Vaticano II.

A Igreja conciliar, pela qual Dom Tomás deu e continua dando sua vida, é uma Igreja igualitária, de irmãos e irmãs, comunitária (Igreja-comunidade, Igreja-comunhão); é uma Igreja Povo de Deus e toda ministerial.

“Existem dons diferentes, mas o Espírito é o mesmo; diferentes serviços (ministérios), mas o Senhor é o mesmo; diferentes modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para o bem de todos” (1Cor 12, 4-7).

A Igreja do Concílio Ecumênico Vaticano II é também uma Igreja que busca sempre o consenso, reconhecendo e valorizando o “senso da fé” do povo cristão; é uma Igreja que, a todo momento, perscruta os sinais dos tempos, interpretando-os à luz do Evangelho; é uma Igreja pobre, que faz a Opção pelos Pobres (a “Igreja dos Pobres”); é uma Igreja que reconhece e valoriza o diferente (uma Igreja ecumênica e macroecumênica); enfim, é uma Igreja que se alia aos Movimentos e Organizações Sociais Populares e a todos aqueles e aquelas que lutam por um Mundo Novo, de justiça e irmandade, que -à luz da fé- é a utopia do Reino de Deus, acontecendo na história humana e cósmica.

Dom Aloísio Lorscheider -numa síntese muito bem formulada- oferece-nos uma fotografia nítida da Igreja conciliar. “O Vaticano II – diz ele – faz-nos passar de uma Igreja-instituição ou de uma Igreja-sociedade perfeita para uma Igreja-comunidade, inserida no mundo, a serviço do Reino de Deus; de uma Igreja-poder para uma Igreja pobre, despojada, peregrina; de uma Igreja-autoridade para uma Igreja serva, servidora, ministerial; de uma Igreja piramidal para uma Igreja-povo; de uma Igreja pura e sem mancha para uma Igreja santa e pecadora, sempre necessitada de conversão, de reforma; de uma Igreja-cristandade para uma Igreja-missão, uma Igreja toda ela missionária” (Texto citado por Dom Geraldo Majella Agnelo na contracapa da Liturgia Diária, novembro de 2012).

Em 1968, a Segunda Conferência Geral do Episcopado Latinoamericano de Medellín, na Colômbia, fêz uma releitura do Concílio Ecumênico Vaticano II, aplicando-o à nossa realidade. No Brasil, uma das expressões (talvez a mais significativa) do modelo de Igreja do Vaticano II, à luz da Conferência de Medellín, são certamente as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

Termino esta breve memória da vida de Dom Tomás e do modelo de Igreja conciliar – com o qual ele se identificou e sempre esteve (e ainda está) comprometido em sua prática pastoral – com as palavras de Dom Pedro Casaldáliga: “São 90 anos, muitos dias, muitos caminhos, com falhas humanas, reconhecidas por ele, mas buscando sempre o espaço do Reino, o apelo do Povo, um possível gesto de solidariedade e de profecia. Ele tem uma personalidade inclaudicável. Em continuidade perseverante, com a letra miúda e o traço teimoso aprendido já na família e por esses sertões e veredas da libertação” (Pedro Casaldáliga, Bispo pé no chão e universal. Em: Ivo Poletto (org.). Solidário mestre da vida. Celebrando os 90 anos de Dom Tomás Balduino. Paulinas, São Paulo, 2012, p. 17. Leia o livro! Vale a pena!).

Parabéns, Dom Tomás! Muitos anos de vida! Sua presença é importante para nós!