Movimento Fé e Política

Por bem viver para todos, se unem fé e política

A lavadeira de Carinhanhas (BA) e o secretário de Estado de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do Governo do Distrito Federal estavam juntos, entre os cerca de 2.500 participantes do 9º Encontro Nacional Fé e Política, vindos de quase todos os Estados brasileiros, entre os dias 15 e 17, em Brasília (DF).

Com o tema “Cultura do bem viver: partilha e poder”, o evento aconteceu pela primeira vez na capital federal, na Universidade Católica de Brasília (UCB) e contou com nomes como frei Betto e frei Carlos Mesters. Foram mais de 900 hospedagens solidárias, recorde em relação às edições anteriores, e um grande número de voluntários, entre eles, professores e universitários.

O encontro teve início na sexta-feira, 15, coincidentemente no dia da Proclamação da República, com o lançamento da Campanha Nacional do Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político (leia na próxima edição do O SÃO PAULO) e foi concluído no domingo, com a missa de envio.

Nomes como dom Tomás Balduíno, dom Pedro Casaldáliga, dom Helder Câmara, frei Carlos Mesters foram lembrados pelos participantes como exemplos de vivência de uma fé compromissada com as questões sociais. “Somos herdeiros desta corrente, a corrente de Jesus, a corrente dos profetas, a corrente dos que resistiram, dos que foram perseguidos”, lembrou Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, na abertura oficial.

A cultura do bem viver foi o tema exposto por Graciela Chamorro, teóloga e historiadora, professora na Universidade Federal de Dourados (MS), onde trabalha com os indígenas Guarani-Kaiowá. “No Brasil, a população indígena é de apenas 0,4% e não há exemplos consolidados da expressão bem viver na política, como na Bolívia, por exemplo. A grande contribuição dos indígenas para a reflexão libertadora é nos lembrar que, não existe somente o direito dos seres humanos, mas os direitos da terra, e que desenvolvimento tem limite, porque os recursos da terra são limitados.”

Frei Betto, dominicano, a autor de muitos livros, como por exemplo, “A mosca azul” falou sobre o poder na cultura do bem viver. “O exercício do poder tem que ser dialógico. Os políticos são nossos servidores, nós somos autoridades. Mas, a cultura em que vivemos inverteu esse processo. Grande parte dos políticos, contudo, nos olha de cima para baixo e deveria ser o contrário, eles deveriam estar a serviço de todos, principalmente dos mais pobres.”

De maneira até descontraída, frei Betto ressaltou como foi a morte de Jesus. “O Nazareno morreu de hepatite na cama ou de desastre de camelo? Ele foi preso e assassinado por decisão de dois poderes políticos, o sinédrio judaico e o ocupante do poder romano. Quando, por exemplo, um pastor diz: ‘Venha à minha igreja que eu te curo’, ele está dizendo: ‘Não lute por um melhor sistema público de saúde’. Precisamos lembrar que todos nós somos discípulos de um prisioneiro político.”

Mas, o que a fé tem a ver com a política? O filósofo Patrick Viveret, que participa desde 2001, dos Fóruns Sociais Mundiais, no livro “Como viver em tempo de crise?” escreveu que “a relação entre simplicidade e arte de viver, no sentido mais forte da expressão, o de saber viver, é uma questão plenamente política. Uma questão pessoal, naturalmente, mas também de transformação social”.

Ao O SÃO PAULO, Daniel Seidel, coordenador local do Movimento Fé e Política e do evento, explicou que, desde que o Distrito Federal foi escolhido como sede, nasceu a ideia de fazê-lo na universidade. “Vendemos 7 mil cartilhas em nível nacional e queremos distribuir outras 17 mil, para fazer um trabalho de base. Foi a primeira vez que o encontro aconteceu no Centro-Oeste e há algumas sugestões de levá-lo para o Norte do País.”

Daniel destacou que dom Sergio da Rocha, arcebispo metropolitano de Brasília, espera que o evento fortaleça as pastorais sociais na Capital. “Ele percebeu que há muitas instituições para atender às necessidades imediatas das pessoas, sem a luta pelas políticas públicas que garantam os direitos das pessoas que estão em situação de desvantagem social”, disse.

Fóruns temáticos favorecem participação

Foram 27 fóruns temáticos que dividiram os participantes na tarde do sábado, 16. Temas como economia popular solidária, relações de trabalho, gênero e poder, consumismo e partilha e memória e comissões da verdade foram debatidos por cada grupo, que, ao final, deveria construir, conjuntamente, um relatório com propostas e encaminhá-lo à organização geral.

No fórum “Ecologia e Direitos da Terra” reuniram-se, com Pedro Ribeiro, sociólogo e professor de Ciências da Religião na PUC-Minas, sacerdotes, religiosos, professores, jovens, sindicalistas, camponeses e militantes na causa ecológica.

Pedro comentou sobre um novo problema da sociedade, o “especismo”, apontado por um pesquisador americano. Para ele, o “especismo” é o preconceito da espécie humana em relação às outras espécies. “Nós, achamos que somos superiores, e isto causa um grande mal.”

Maria da Conceição Ferreira Dias mora às margens do rio São Francisco, em Carinhanha (BA). Ela trouxe para o grupo o grande problema da seca do rio, que continua. “Mesmo após todos os esforços de dom Luís Cappio, que fez greve de fome pela não transposição do rio, a situação está cada vez pior, nosso ‘Velho Chico’ está morrendo”, lamentou a ribeirinha. (NF)

Fonte: Arquidiocese de São Paulo

Cuidar da vida: ecologia

Selvino Heck

Quase aos sessenta anos, dou-me conta. Minha vida foi/é povoada de árvores. Ao lado de casa da mamãe/papai na vila Santa Emília, Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul, pequena propriedade de agricultura familiar, há um pequeno bosque onde fazíamos piqueniques em ocasiões especiais, com um grande pinheiro, taquarais onde se escondiam gambás. Uma vez, já frei franciscano, o confrade Frei Nestor Schwerz, hoje grande figura da Ordem Franciscana mundial, numa das visitas dos freis estudantes a Santa Emília, onde iam jogar futebol e fazer schmia, falou: ‘Nossa! Mas como é verde esta terra!’

Os campos de futebol do Seminário Seráfico de Taquari eram ladeados por grandes pés de eucalipto e um mato/bosque onde às vezes as bolas se perdiam.

Na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre/Viamão, onde morei quase uma década, o Parque Saint Hillaire ficava a menos de um 1 km da vila São Pedro.

A rua Tomás Flores, Bairro Bom Fim, Porto Alegre, onde tenho apartamento, a 10 minutos do Centro, ao lado do Colégio Rosário, a menos de 500 metros do Parque Farroupilha ou Redenção, é cheia de árvores centenárias.

Em Brasília, moro na Academia de Tênis porque da sacada do meu apartamento olho as árvores em frente, agora enverdecendo. Choveu inesperadamente em setembro. É a primavera e o verde chegando à vida e à alma das pessoas.

Dizem especialistas e estudiosos que o planeta terra está ameaçado. Se continuar sua destruição, se o aquecimento global não recuar, se a floresta amazônica continuar sendo derrubada, se a poluição dos rios, córregos e riachos continuar, se carros e máquinas continuarem infestando o ar, se o plástico continuar fazendo cada vez mais parte da nossa vida, nas próximas décadas poderemos ter dificuldade de respirar, nossos filhos e netos vão ter que sair de máscara na rua, ou não terão água limpa para beber.

Por estas e muitas outras razões, o Movimento Fé e Política vai realizar o seu 7º Encontro Nacional com o tema CUIDAR DA VIDA: ESPIRITUALIDADE, ECOLOGIA E ECONOMIA, em Ipatinga, Minas Gerais, nos dias 28 e 29 de novembro (Informações: www.fepolitica.org.br; www.fepoliticamg.org.br). Os tempos de crise econômica, também crise social, ambiental e de valores exigem o aprofundamento da reflexão sobre o futuro do planeta e a construção de um novo projeto de sociedade e modelo de desenvolvimento.

Em 1870, Ernst Haeckel produziu a primeira definição de Ecologia, criando um neologismo a partir da etimologia da palavra ‘Economia’. Esta deriva das palavras gregas ‘oikos’, que significa casa, e ‘nomos’, que significa gestão/administração. Haeckel manteve a raiz ‘oikos’ e acrescentou-lhe a raiz grega ‘logos’, que significa conhecimento (como em Biologia e Geologia). Para Haeckel, a Ecologia era a economia da natureza. A ecologia é, pois, o conhecimento da casa que habitamos, o planeta terra.

Segundo Leonardo Boff, “somos parte do imenso universo, pertencemos ao sistema solar, somos parte desse universo, onde o espírito do cuidado humanitário, a sensibilidade profunda nos faz abraçar o mundo e as pessoas como irmãos e irmãs. Este projeto civilizatório, que se propõe a explorar de forma ilimitada tudo o que a terra pode oferecer, não é suportável pela terra, um planeta limitado, pequeno, velho e que já é capaz de se auto-reproduzir. Esse modelo, que foi universalizado, que já tem mais ou menos 400 anos e que agora entrou em profunda crise e seguramente não será uma crise cíclica, que passa e depois ganha um outro patamar e continua, no meu modo de ver é uma crise terminal. Esse sistema não tem mais condições de garantir a vida humana para todos os seres humanos. Porque nós atingimos os limites do planeta. Os limites do planeta são os limites do capital” ( Celebração da água – Leonardo Boff e a Ecologia do Cuidado).

Esse é o quadro. É onde estamos. Que fazer?

Outro dia, num Encontro da equipe TALHER de Mobilização social do Gabinete do Presidente da República e da Coordenação da Rede de Educação Cidadã, Vera Barreto chamou a atenção de todos e todas, na avaliação final: “Como nós, educadores populares, que queremos mudar o Brasil e o mundo, podemos deixar tanta sujeira na sala? Usamos centenas de copos de plástico em dois dias. Cada vez que alguém vai tomar água usa um novo copo, em vez de marcar o seu e usá-lo durante todo encontro.”

Às vezes, são coisas simples, sob nosso domínio. Podemos diminuir o tempo que a torneira fica aberta desperdiçando água e o tempo do banho com água ilimitada. Podemos separar o lixo orgânico do não orgânico e reutilizar o copo de plástico ou nem usar plástico. Os governos podem fazer programas de coleta seletiva, estimular a educação ambiental nas escolas e comunidades, plantar árvores e cuidar das praças, parques e riachos.

Mas tudo isso não resolve a vida e o problema. Precisa mais. O Presidente Lula, no discurso de abertura da LXIV Assembléia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque, falou: “Quero aqui abordar três questões cruciais, que me parecem interligadas, três ameaças que pairam sobre nosso planeta: a persistência da crise econômica, a ausência de uma governança mundial estável e democrática e os riscos que a mudança climática traz para todos nós.”

Seguiu o presidente: “Sem vontade política, por fim, crescerão as ameaças hoje representadas pela mudança climática no mundo. Todos os países devem empenhar-se em realizar ações para reverter o aquecimento global. Preocupa-nos a resistência dos países desenvolvidos em assumir sua parte na resolução das questões referentes à mudança do clima. Eles não podem lançar sobre os ombros dos países pobres em desenvolvimento responsabilidades que lhes são exclusivas. O Brasil está cumprindo a sua parte. Vamos chegar em Copenhague, na Conferência do Clima, com alternativas e compromissos precisos. Aprovamos um Plano de Mudanças Climáticas que prevê a redução de 80% do desmatamento da Amazônia até 2020. Diminuiremos em 4,8 bilhões de toneladas a emissão de CO2, o que representa mais do que a soma dos compromissos de todos os países desenvolvidos juntos.”

Conclui o presidente Lula: “O Brasil não renunciará à agenda ambiental para ser apenas um gigante do petróleo. Queremos consolidar nossa condição de potência mundial da energia verde.”

Diz a senadora Marina Silva: “A questão do desenvolvimento sustentável é estratégica, como a sociedade, aliás, já sabe. Eu não teria essa visão de só acelerar o crescimento. Buscaria o desenvolvimento com sustentabilidade, para que isso pudesse ser traduzido em qualidade de vida para as pessoas.”

Ou seja, cuidar da ecologia significa ter ações estruturais e estruturantes, com parceria entre governos e sociedade, que permitam acabar com a poluição do ar e da atmosfera, o aquecimento global, o desmatamento, o desaparecimento da água, todos estes problemas de fundo que só dá para enfrentar em plano mundial, a médio e longo prazos, com compromisso e envolvimento dos governos, dos movimentos sociais, de todas as instituições preocupadas com o futuro do planeta.

Há muita coisa que só se resolve no plano macro e outras tantas, a partir do exemplo concreto, no micro.

O 7º Encontro do Movimento Fé e Política tem a ambição e vê a urgência de pensar um novo projeto de sociedade e modelo de desenvolvimento, onde caibam as pessoas, a ecologia, a vida, o meio ambiente e a natureza. Para isso, faz-se necessária uma transformação ecológica, econômica e espiritual, de pensamento e valores. Mas também quer estimular a ação individual, o pequeno/grande gesto de cada um, de cada grupo de fé e política e de economia solidária, de cada comunidade de fé. Jesus disse: “Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância”(Jo, 10,10).

O novo surge da consciência e da prática individual e coletiva. Cuidar da vida e da ecologia é cuidar de si, dos outros e outras, dos seres vivos, de toda humanidade e do futuro.