consumismo

Curtindo o ano novo

Maria Clara Lucchetti Bingemer

As balsas já começaram a ser montadas, os shows erguem os palanques, os corações e sobretudo as gargantas e estômagos se preparam. Nem bem acabou o Natal, o Ano Novo já se anuncia pelos preparativos, o clima que paira no ar, a sintonia das pessoas que substituíram Papai-Noel pelos fogos de artifício que rasgarão os céus durante vários minutos com a chegada de 2012.

E já na manhã do dia 1º de janeiro o comércio começará a encher as vitrines com produtos de Carnaval, pois os blocos e festas pré-carnavalescas começarão a acontecer antes dos três dias de Momo. E na Quarta-Feira de Cinzas ovos de chocolate brilharão sedutores, convidando ao consumo e ao sabor. E, assim, sucessivamente chegarão o Dia das Mães, o Dia dos Namorados, o Dia dos Pais, o Dia da Criança e todas as datas que o comércio festeja e das quais vive até que…de novo será Natal e nem percebemos.

Enquanto na Antiguidade o tempo era marcado pela semeadura e a colheita, e na Idade Média pelas festas religiosas, em nossa sociedade pós-moderna o tempo é marcado pelas datas estelares do consumo. E como é importante não deixar cair o ritmo, já que o consumo não pode perder a velocidade sob pena de perder o poder de sedução sobre as pessoas, a rapidez e a efemeridade são uma marca registrada de nosso modo de contar o tempo.

Vivemos apressadamente, pulando de uma etapa para outra, de uma festa para outra, de uma comemoração para outra. Não se celebra mais, comemora-se. Não se fazem mais ritos de passagem, mas sim saltos de mudança atropelados e sem preparação. Não se vive mais em profundidade, se é carregado pela vida, que não deixa tempo sobretudo para se pensar e refletir. Há que viver em ritmo de frenesi, de pressa, de sucessão vertiginosa, de emoções provocadas e rasas.

A fisionomia da pessoas durante o tempo que precede o Natal se transforma; estão ansiosas, apressadas, cansadas, esgotadas. Reclamam da centena de compromissos, dos milhares de almoços de “confraternização”, dos “amigos ocultos” em profusão, dos festejos vazios e sem finalidade. Nada cala fundo, nada convida a uma reflexão, nada marca um momento e faz suavemente a passagem para o outro.

Em 2012 a coisa promete repetir-se. Já há contagem de quantos feriados ponte haverá, em que época cairá o carnaval e como será possível emendar os dias para torná-lo mais longo. Assim como a Semana Santa, que santa para muitos deixou de ser há longo tempo, tornando-se apenas um feriado a mais, quando se bebe, se come, se dorme em demasia para depois cair na mesma rotina sem transformação interior, sem conversão, sem passagem pascal da morte para a vida verdadeira.

E, no entanto, depende de nós. Depende de nós andar na contramão dessa corrente que nos arrasta inexoravelmente. Depende de nós fazer com que o Ano Novo seja diferente. Depende de nós viver intensa e profundamente cada momento, não como um foguete que passa, do qual só vemos a cauda, mas deixando-nos moldar e configurar por ele. Depende de nós sermos senhores e não escravos do tempo que o calendário comercial nos determina. Depende de nós fazermos a pauta do Ano que começará em poucos dias.

Neste Novo Ano, vivamos a vida e não deixemos que a vida nos viva. Amemos as pessoas sem data marcada. Não só no dia fixado para homenageá-la. Beijemos nossas mães todos os dias e não apenas no segundo domingo de maio. Festejemos nossas crianças a todo minuto e a todo momento, e não apenas no dia 12 de outubro. Vivamos o carnaval com alegria, sim, que a alegria e a festa são coisas boas e humanizadoras. Mas vivamos também a Quaresma que nos prepara para a grande luz da Páscoa, que nos diz que fomos feitos para a vida e não para a morte.

Demo-nos tempo, pois o tempo nos foi dado. Ao criar o mundo e criar-nos, o Criador nos fez históricos e cronológicos. Se não vivemos nossa condição de seres históricos, se não refletimos sobre cada acontecimento, não poderemos aprender as lições da história e crescer com erros e acertos. Se tudo passa muito rápido por nós, como água pelo espelho, sem interiorização nem absorção, corremos o risco de passar correndo pela vida e sermos surpreendidos pela morte, que só nos mostrará no espelho da verdade o imenso vazio do não vivido.

O ano vem novo e cheio de promessas. É preciso vivê-las e vê-las transformar-se em realizações. Ou serem adiadas na fé e na esperança. Curtir cada experiência e dela fazer aprendizado. Para que o ano continue novo, mesmo avançando em seus 365 dias. Pois na verdade…o que são 365 dias diante da eternidade? FELIZ ANO NOVO!

 

A volta de Jesus

Frei Betto

Sem chamar a atenção, Jesus voltou à Terra em dezembro de 2010. Veio na pessoa de um catador de material reciclável, morador de rua. Comia prato feito preparado por vendedores ambulantes ou sobras que, pelas portas do fundo, os restaurantes lhe ofereciam.

Andava sempre com uma pomba pousada no ombro direito. Na porta de um teatro, estranhou o modo como as pessoas bem vestidas o encaravam. Lembrou que, na Palestina do século 1, sua presença suscitava curiosidade em alguns e aversão em outros, como fariseus e saduceus.

Agora predominava a indiferença. Sentia-se, na cidade grande, um Ninguém. Um ser invisível.

Ao revirar latas de lixo à porta de uma faculdade, nenhum estudante ou professor o fitou. “Fosse eu um rato a remexer no lixo, as pessoas demonstrariam asco,” pensou. Agora, nada. Nem o percebiam. Ou consideravam absolutamente normal um homem andrajoso remexer o lixo.

Graças a seu olhar sobrenatural, capaz de apreender alma e mente das pessoas, Jesus sabia que eram, quase todas, cristãs…

Roubaram um carro defronte da faculdade. A vítima, uma estudante cirurgicamente embelezada, apontou-o como suspeito de cúmplice dos ladrões. A polícia, sem pistas dos criminosos, decidiu prendê-lo para aplacar a ira da moça, filha de um empresário.

O delegado inquiriu-o:

– Nome?

– Jesus.- Jesus de quê?

– Do Pai e do Espírito Santo.

O delegado ditou ao escrivão:

– Jesus da Paz, natural do Espírito Santo.

A polícia conhece a diferença entre bandidos e moradores de rua. Tão logo a moça e seus pais deixaram a delegacia, Jesus foi liberado.

Saiu pela avenida, de olho nas vitrines das lojas. Todas repletas de enfeites de Natal. Tentou avistar um presépio, os reis magos, uma imagem do Menino Jesus… Viu apenas um velho de barba branca, gordo, com a cabeça coberta por um gorro tão vermelho quanto a roupa que vestia. O menino nascido em Belém havia sido substituído por Papai Noel. A festa religiosa cedera lugar ao consumismo compulsivo e à entrega compulsória de presentes.

Impressionou-se com os rápidos flashes coloridos dos televisores expostos nas lojas. A profusão de anúncios. Comentou com o Espírito Santo:

– Houvesse TV naquela época, teriam transmitido o Sermão da Montanha como um discurso subversivo e exibido no Fantástico a multiplicação dos pães. Se eu facilitasse, uma marca qualquer de cerveja iria querer me patrocinar…

Em busca de material reciclável, Jesus se surpreendeu com a quantidade e a variedade de lixo. Quanta coisa ele não conhecia! Como as pessoas consomem supérfluos! Quanta devastação da natureza!

Dormiu num banco de praça. Ao acordar, deu-se conta de que desaparecera seu saco repleto de latinhas e papéis. Possivelmente outro catador o levara. Pobre roubando pobre. Resignado, passou o dia revirando lixo para ganhar uns trocados e poder garantir a janta.

Tarde da noite, viu defronte de uma igreja. Decidiu entrar. Os fiéis, ao vê-lo tão maltrapilho, torceram o nariz. Jesus preferiu ficar de pé no fundo do templo. A Missa do Galo se iniciava. Achou o padre com cara triste, como se celebrasse um ritual mecânico. O sermão soou-lhe moralista. Não sentiu que houvesse, ali, a alegria da comemoração do nascimento de Deus feito homem. Os fiéis se mostravam apressados, ansiosos por retornarem às suas casas e se fartarem com a ceia natalina.

Terminada a missa, Jesus perambulou pela cidade. Pelas calçadas, sacos de lixo estufados de embalagens para presentes, caixas de papelão, ossos de frango e peru, cascas de ovos… Observou os moradores de um prédio reunidos no salão do andar térreo. Comiam vorazmente, estouravam garrafas de espumantes, trocavam presentes, abraços e beijos. Nada ali, nenhum símbolo, que lembrasse o significado originário daquela festa.

Passou diante de uma padaria que fechava as portas. O padeiro, ao ver o catador, pediu que esperasse. Retornou lá de dentro com uma sacola de pães, fatias de salame e um refrigerante.

– É pra você comemorar o Natal – disse o homem.

Jesus chegou a uma praça semiescura. Havia ali uma mulher excessivamente maquiada. Buscou um banco e ali se instalou para poder comer. A mulher se aproximou:

– Ei, cara, tem o que aí?

– Pão, salame e refrigerante.

– Não comi nada hoje. E a noite tá fraca. Faz duas horas que estou aqui e nada de freguês. Acho que em noite de Natal os caras ficam com culpa de pegar mulher na rua.

Jesus preparou o sanduíche e estendeu-o à mulher.

– Se não importa de beber no mesmo gargalo…

– Tenho lá nojo de alguma coisa? – murmurou a mulher.

– Se tivesse, não estaria rodando a bolsinha na rua.- Você não tem família?

– Tenho, lá na roça. Larguei aquela miséria pra tentar uma vida melhor aqui na cidade. Como não fui pra escola, o jeito é alugar meu corpo.

– Esta noite de Natal não significa nada pra você?

– Cara, você não imagina o que já chorei hoje lá na pensão. A gente era pobre, mas toda noite de Natal minha mãe matava um frango e, antes de comer, a família rezava um terço e cantava Noite feliz. Aquilo me deixava muito feliz. Não posso relembrar que as lágrimas logo inundam os olhos – disse ela, puxando o lenço de dentro da bolsa.

A mulher fez uma pausa para enxugar as lágrimas e indagou:

– Acha que, se Jesus voltasse hoje, esse mundo iria melhorar?

– Não sei… O que você acha?

– Acho que ninguém ia dar importância a ele. Essa gente só quer saber de festa, e não de fé. Mas bem que ele podia voltar. Quem sabe esse mundo arrevesado tomava jeito.

– Eu não gostaria que ele voltasse. Não adiantaria nada. Há dois mil anos ele veio e deixou seus ensinamentos. Uns seguem, outros não. Se o mundo está desse jeito, a ponto de eu ter que catar lixo e você alugar o corpo, a culpa é nossa, que não damos importância ao que ele ensinou. Veja, hoje é noite de Natal. Jesus renasce para quem?

– No meu coração, ele renasce todos os dias. Gosto muito de orar, não faço mal a ninguém, ajudo a quem posso. Mas, sabe de uma coisa? Eu gostaria de poder falar com Jesus, assim como nós dois estamos conversando aqui.

– E o que diria a ele?

– Bem, eu perguntaria se ser prostituta é pecado. Já vi um padre dizer que sim, e ouvi outro falar que não. O que você acha?

– Acho que Deus é mais mãe do que pai. E lembro que Jesus disse um dia aos fariseus que as prostitutas iriam entrar no céu primeiro que eles.

Consumir ou ser consumido: dilema cristão pós-moderno

Maria Clara Bingemer

A diferença entre consumo e consumismo é que no primeiro as pessoas adquirem somente aquilo que lhes é necessário para sobrevivência. Já no consumismo a pessoa gasta tudo aquilo que tem em produtos supérfluos. Podem não ser de boa qualidade nem os mais indicados, porém ela tem curiosidade de experimentar devido à propaganda e ao apelo dos produtos de marca.

No entanto, a definição de necessidade e de supérfluo é algo relativo, já que um produto considerado supérfluo para alguém pode ser essencial para outra pessoa, de acordo com as camadas sociais a que a população pertence. Isso pode gerar violência, pois as pessoas que cometem crimes na maioria das vezes não roubam ou furtam por necessidade, e sim por vontade de ter aquele produto e não possuir condições de adquiri-lo. Nesses casos, a necessidade de consumo se torna uma doença, uma compulsão, que deve ser tratada para evitar maiores danos à pessoa. Muitas vezes, o consumismo chega a ser uma patologia comportamental. Pessoas compram compulsivamente coisas que não irão usar ou que não têm utilidade, apenas para atender à vontade de comprar.

A explicação da compulsão pelo consumo talvez possa se amparar em bases históricas. O mundo nunca mais foi o mesmo após a Revolução Industrial. A industrialização agilizou o processo de fabricação, o que não era possível durante o período artesanal. Trouxe o desenvolvimento num modelo de economia liberal, que hoje leva ao consumismo alienado de produtos industrializados. Trouxe também várias consequências negativas por não se ter preocupado com o meio ambiente.

A Revolução Industrial do século XVIII transformou de forma sistemática a capacidade humana de modificar a natureza, provocou o aumento vertiginoso da produção, resultando no barateamento dos produtos e dos processos de produção. Assim, milhares de pessoas puderam comprar produtos antes restritos às classes mais ricas.

A sociedade capitalista da atualidade é marcada por uma necessidade intensa de consumo, seja por meio dos mercados internos, seja pelos mercados externos. Com o aumento do consumo há maior necessidade de produção e o excesso de demanda leva à geração de mais empregos, o que aumenta a renda disponível na economia e esta acaba sendo revertida para o próprio consumo. Todo este processo leva a uma intensificação da produção e consequente aumento da extração de matérias-primas e do consumo de energia, muitas vezes de fontes não renováveis.

Às vezes, uma pessoa compra por influência de outras que também são influenciadas pelas propagandas, filmes, revistas etc. Ou seja, a sociedade cria um padrão, que tende a ser seguido pelas pessoas. Algumas mulheres, por exemplo, escolhem um corte de cabelo, roupas, sapatos e acessórios da moda porque se inspiram em alguma atriz famosa.

Em nossas sociedades houve uma tentativa trágica de reencantar o mundo pelo consumismo e a diversão. O consumismo promete preencher os desejos, necessidades e carências com diferentes produtos, mas o faz de tal maneira que nunca fiquemos satisfeitos e desperte em nós a necessidade, a compulsão de adquirir novos produtos que o mercado produz sem recesso. O que começa como uma necessidade converte-se em compulsão ou em vício. Qualquer privação inesperada, irrita e frustra.

A fé cristã e a Eucaristia contam outra história sobre a fome e o consumo. E essa não começa com a escassez, mas com um convite à vida, e vida em abundância. O corpo e o sangue de Cristo não são bens escassos, a hóstia e o cálice se multiplicam diariamente em milhares de celebrações eucarísticas em todo o mundo. O consumidor do corpo e sangue de Cristo, no entanto, não permanece alheio ao que consome, mas se torna parte do Corpo. O ato de consumo da Eucaristia não implica a apropriação de bens para uso privado, mas sim ser assimilado a um órgão público, o Corpo de Cristo. Ali se comunicam alegria e dor, abundância e falta, e se destaca a obrigação de os seguidores de Cristo para com os famintos. Na dinâmica eucarística, famintos e bem-aventurados se integram em Cristo e inauguram um novo modo de entender o mundo e viver a realidade.

Natal: ver com os olhos do coração

Leonardo Boff

Somos obrigados a viver num mundo onde a mercadoria é o objeto mais explícito do desejo de crianças e de adultos. A mercadoria tem que ter brilho e magia, senão ninguém a compra. Ela fala mais para os olhos cobiçosos do que para o coração amoroso. É dentro desta dinâmica que se inscreve a figura do Papai Noel. Ele é a elaboração comercial de São Nicolau -Santa Claus- cuja festa se celebra no dia 6 de dezembro. Era bispo, nascido no ano 281 na atual Turquia. Herdou da família importante fortuna. Na época de Natal saia vestido de bispo, todo vermelho, usava um bastão e um saco com os presentes para as crianças. Entregava-os com um bilhetinho dizendo que vinham do Menino Jesus.

Santa Claus deu origem ao atual Papai Noel, criação de um cartunista norte-americano Thomas Nast em 1886, posteriormente divulgado pela Coca-Cola já que nesta época de frio caía muito seu consumo. A imagem do bom velhinho com roupa vermelha e saco nas costas, bonachão, dando bons conselhos às crianças e entregando-lhes presentes é a figura predominante nas ruas e nas lojas em tempo de Natal. Sua pátria de nascimento teria sido a Lapônia na Finlândia, onde há muita neve, elfos, duendes e gnomos e onde as pessoa se movimentam em trenós puxados por renas.

Papai Noel existe? Esta foi a pergunta que Virgínia, menina de 8 anos, fez a seu pai. Este lhe respondeu: “Escreva ao editor do jornal local! Se ele disser que existe, então ele existe de fato”. Foi o que ela fez. Recebeu esta breve e bela resposta:

Sim, Virgínia, Papai Noel existe. Isto é tão certo quanto a existência do amor, da generosidade e da devoção. E você sabe que tudo isto existe de verdade, trazendo mais beleza e alegria à nossa vida. Como seria triste o mundo se não houvesse o Papai Noel! Seria tão triste quanto não existir Virgínias como você. Não haveria fé das crianças, nem a poesia e a fantasia que tornam nossa existência leve e bonita. Mas para isso temos que aprender a ver com os olhos do coração e do amor. Então percebemos que não há nenhum sinal de que o Papai Noel não exista. Se existe o Papai Noel? Graças a Deus ele vive e viverá sempre que houver crianças grandes e pequenas que aprenderam a ver com os olhos do coração.

É o que mais nos falta hoje: a capacidade de resgatar a imaginação criadora para projetar melhores mundos e ver com o coração. Se isso existisse, não haveria tanta violência, nem crianças abandonas nem o sofrimento da Mãe Terra devastada.

Para os cristãos vale a figura do menino Jesus que tirita sobre as palhinhas sendo aquecido pelo bafo do boi e do jumento. Disseram-me que ele misteriosamente através de um dos anjos que cantaram nos campos de Belém enviou a todas as crianças do mundo uma cartãozinho de Natal no qual dizia:

Queridos irmãozinhos e irmãzinhas:

Se vocês olhando o presépio e me virem aí, sabendo pelo coração que sou o Deus-criança que não veio para julgar, mas para estar, alegre, com todos vocês,

Se vocês conseguirem ver nos outros meninos e meninas, especialmente no mais pobrezinhos, a minha presença neles,

Se vocês conseguirem fazer renascer a criança escondida no seus pais e nos adultos para que surja nelas o amor a ternura,

Se vocês ao olharem para o presépio perceberem que estou quase nuzinho e lembrarem de tantas crianças igualmente pobres e mal vestidas e sofrerem no fundo do coração por esta situação desumana e desejarem que ela mude de fato,

Se vocês ao verem a vaca, o boi, as ovelhas, os cabritos, os cães, os camelos e o elefante pensarem que o universo inteiro recebe meu amor e minha luz e que todos, estrelas, pedras, árvores, animais e humanos formamos a grande Casa de Deus,

Se vocês olharem para o alto e virem a estrela com sua cauda e recordarem que sempre há uma estrela sobre vocês, acompanho-os, iluminando-os, mostrando-lhes os melhores caminhos,

Então saibam que eu estou chegando de novo e renovando o Natal. Estarei sempre perto de vocês, caminhando com vocês, chorando com vocês e brincando com vocês até aquele dia que só Deus sabe quando estaremos todos juntos na Casa de nosso Pai e de nossa Mãe de bondade para vivermos bem felizes para sempre.

Belém, 25 de dezembro do ano 1.

Assinado: Menino Jesus

Comprar, gastar, consumir: prazeres pós-modernos

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Talvez nunca como agora o tema do corpo tenha estado no centro das atenções humanas. A sociedade ocidental, durante longo tempo identificada com uma mentalidade dualista, que separa corpo de espírito, material de espiritual, terra de céu, manteve a questão do corpo algo exilada e silenciada. Recentemente, no entanto, o corpo voltou a ocupar o lugar que lhe corresponde: no vértice do que seja a compreensão do que significa ser humano. Somos um corpo, o corpo e nossa identidade. Quanto mais reprimirmos aquilo que se refere ao corpo, mais veremos isso que tentamos banir da perspectiva da atenção pessoal e comunitária reaparecer com vigor, reclamando seus direitos.

“Nosso corpo: nós mesmos” é o título de um livro coletivo publicado nos Estados Unidos, na década de 1970. Embora refira-se especificamente às mutações no corpo da mulher nas diversas etapas da vida, o título pode bem apontar para todo o gênero humano. Nosso corpo diz quem somos e não dar atenção a ele significa perder o rumo de nossa identidade humana mais profunda.

No entanto, a cultura em que vivemos é cheia de complexidades e, mais ainda, de ambiguidades. Em plena libertação sexual, vemos que a mesma talvez não nos tenha levado a sermos realmente mais autênticos e felizes, como seria de se esperar. A pós-modernidade em boa parte “liquefez ” os ideais e utopias que davam força aos projetos históricos individuais e coletivos. Além disso, contribuiu para uma exacerbação exponencial do consumo, instilando-o sorrateiramente dentro dos indivíduos. Assim, colocou ao alcance dos corpos, mentes e sensibilidades de hoje prazeres “outros” que não se aproximam sequer longinquamente da satisfação dos desejos e das pulsões corpóreas que compõem a rica sexualidade humana.

Os anos 1960 proclamaram sua ânsia de liberdade em todos os sentidos. Fazer amor e não a guerra era o lema dos hippies floridos que enchiam Woodstock com músicas que a nossa geração tanto cantou e parece não encantar tanto nossos filhos e netos. Na verdade, a desaparição dos modelos denunciados na revolução hippie não gerou mais liberdade e plenitude para as gerações seguintes. Pelo contrário, o legado do século XX é mais de angústia, vazio existencial e encurtamento de horizontes.

Nos dias de hoje, sentimos a sociedade doente e carente de verdadeira plenitude e satisfação. A avidez do consumo congela e paralisa nossos melhores desejos: de amor, de gratuidade, de plenitude, de contemplação. A atitude predatória da humanidade ameaça extinguir e baixar a níveis alarmantes os recursos do planeta. Toda essa situação ameaça conduzir-nos a uma autêntica “frigidez dos sentidos”, que se desvia daquilo para que foram feitos: o trabalho, o amor, o louvor. E passam a voltar-se para objetos outros, verdadeiros fetiches e ídolos menores que lhes roubam a energia e a finalidade. Comprar, gastar e consumir: esses são os verdadeiros prazeres pós-modernos.

Recente pesquisa realizada por cientistas ingleses demonstrou que comprar pode ser tão excitante e prazeroso para as mulheres quanto a atividade sexual. A pesquisa mediu a atividade de áreas do cérebro que controlam a emoção. As pessoas pesquisadas faziam uma série de atividades enquanto monitoradas. E o resultado mostrou que adquirir bens de consumo em liquidação provoca tanta excitação e prazer quanto ver imagens eróticas.

A pesquisa apresenta como uma de suas conclusões uma correlação entre picos emocionais e manifestações corpóreas de prazer e compras feitas em liquidações. O fato de o consumo provocar tais sensações catárticas quando são adquiridos objetos com desconto não atenua, e sim agrava, a nosso ver, o diagnóstico de que estamos caminhando para ser uma sociedade frígida no pior sentido da palavra.

O sexo como manifestação de amor e plenificação dos sentidos, canal por onde correm os movimentos da vida, está se tornando barato. Tão barato que pode ser equiparado à compra de um eletrônico ou um sapato ou… qualquer objeto que nos apresentem como a febre do momento. Desde que com desconto, é claro!

O corpo humano está em sério perigo. Está sendo liquidado ou vendido em suaves prestações mensais.

Para frear esse processo, seria urgente retomar a narrativa do Gênesis, primeiro livro da Bíblia, que nos diz que o que diferencia nós, humanos, dos outros seres criados, é o fato de o Criador, após nos criar do barro ter soprado em nossas narinas seu espírito vital. Somos um corpo, sim. Mas um corpo animado pelo espírito divino. Esta é nossa identidade, que jamais pode estar à venda nem ser posta em liquidação.

Consumo: o novo alvo?

Jung Mo Sung

Por conta do tema da Campanha da Fraternidade, eu participei de vários eventos que debateram o tema da fé cristã e economia ou da economia e vida e, assim, pude entrar em contato com diversos grupos e ler diversos textos e cartilhas. Nesses contatos eu pude perceber que há uma posição que está tomando força: a crítica ao consumo.

Até recentemente, as críticas ao capitalismo ou à situação de injustiça social tinha como o alvo principal o neoliberalismo e a idolatria do mercado. Muitas vezes as pessoas confundiam a crítica à idolatria do mercado (a absolutização ou a sacralização das leis do mercado que leva a justificar sacrifícios e sofrimentos de vidas humanas em nome do mercado) com a crítica do mercado como tal. Isto é, não percebiam que a crítica teológica feita por autores como Hugo Assmann e Franz Hinkelammert ao sistema de mercado capitalista não era uma crítica ao mercado em si, mas à sua sacralização, à lógica do sistema que vê o mercado como algo sagrado.

Recentemente, em um pequeno curso dado em Vitória, ES, um jovem começou a sua pergunta falando do caráter idolátrico do mercado. Eu tive que lhe explicar que o mercado não tem um caráter idolátrico, pois o mercado é o espaço de trocas de bens econômicos e existe há muitos séculos, bem antes do capitalismo e existirá mesmo depois do fim do capitalismo. O problema é que o sistema capitalista produz a idolatria do mercado, assim como outros grupos sociais ou sistemas transformam ou podem transformar algo ou alguma instituição em algo sagrado, um ídolo. Assim, por ex., podemos ter idolatria do mercado, a idolatria do Estado socialista ou a idolatria da Igreja.

Ultimamente, com a crise do neoliberalismo, as críticas que alguns setores do cristianismo fazem ao sistema econômico capitalista foram se dirigindo a um novo alvo: o consumo. Eu penso que isso se deve, pelo menos em parte, a dois fatores: a) o capitalismo criou a cultura de consumo e a obsessão do consumismo; b) a consciência ecológica está criticando fortemente essa obsessão do consumo por causa do seu caráter destrutivo do meio ambiente. Porém, eu penso que é preciso ter cuidado para não confundir a crítica à cultura de consumo, com a sua espiritualidade de consumo, com a crítica ao consumo como tal.

Quando falo da espiritualidade de consumo, quero dizer que uma das forças que move a vida das pessoas e da sociedade, dá sentido de vida – e com isso o senso de direção nas decisões concretas- e serve de critério para classificar a dignidade ou o valor das pessoas ou o processo de humanização é o desejo de consumo. As pessoas constroem a sua auto-imagem e classificam hierarquicamente os grupos sociais pela sua capacidade de consumo e por o que consume. Para quem acha muito estranho falar de espiritualidade em campo econômico, não podemos esquecer que já Max Weber tinha diagnosticado que o capitalismo é movido pelo espírito capitalista.

Entretanto, a crítica a essa espiritualidade de consumo (com a apresentação de outro tipo de espiritualidade realmente humanizadora) não pode significar a crítica ao consumo como tal. Pois, consumir faz parte do viver humano. Não conseguimos viver sem consumir alimentos, bebida, habitação, vestimentas, etc. E para celebrar amizades precisamos também de boa comida e boa bebida, em torno do qual nos reunimos. Mais importante é que a nossa luta em favor dos mais pobres é para que essas pessoas possam consumir melhor e mais.

Se confundirmos a crítica à espiritualidade de consumo do sistema capitalista com a crítica ao consumo como tal, não poderemos nos alegrar quando os pobres usufruem melhor as suas vidas também porque conseguem consumir mais e melhor. Uma crítica nascida de boa intenção (a de criticar a injustiça social e a obsessão pelo consumo) pode gerar em nós uma atitude negativista frente à vida. Sobre isso, Hugo Assmann, no seu último texto inacabado, escreveu: “Em vez de alegrar-se com uma certa difusão da renda e do poder aquisitivo, os negativistas anti-mercado despejam o seu moralismo contra o que me dá enorme alegria, ver o povo comprando e fruindo do prazer de comprar”.

Pileque precoce

Frei Betto

Pesquisas indicam que o perfil preponderante do jovem brasileiro de hoje é, ao contrário da minha geração, conservador, individualista, distante daqueles que, em meados do século XX, queriam mudar o mundo.

Agora, ele se mostra mais preocupado em ter um bom emprego do que motivações ideológicas; menos propenso a riscos e mais apegado à família. A relação com a sociedade é mais virtual que real: fechado em seu quarto, ele nem precisa rezar “venham todos ao meu reino”, pois tudo lhe chega através do telefone, da TV, da internet, do MP3.

A cultura consumista a todos nós oferece, em cálice dourado, o elixir da eterna juventude. Os jovens não querem deixar de ser jovens; adultos e idosos insistem em imitar os jovens. E o principal fator de afirmação é a autoimagem, a valorização da estética.

O jovem atual não quer se arriscar; anseia por experimentar. Na falta de motivação religiosa, experiência espiritual e ideologia altruísta, tende a buscar na bebida e na droga a alteração de seu estado de consciência. Sem isso não se sente suficientemente relaxado, loquaz, divertido e ousado.

É óbvio que a mídia dita padrões de comportamento, hábitos de consumo e paradigmas ideológicos. A diferença é que tudo isso chega ao jovem de tal forma bem embalado em papel brilhante e fita colorida, que ele nem percebe o quanto é vulnerável à ditadura do consumismo.

No Brasil, a ingestão de bebidas alcoólicas é legalmente proibida a menores de 18 anos (nos EUA, 21 anos). A fiscalização pouco funciona e o Estado permite a publicidade de cerveja a qualquer hora em rádio e TV -concessões públicas- e o estímulo ao consumo precoce. Inclusive a utilização publicitária de pessoas famosas das áreas de entretenimento, artes e esportes, para suscitar em crianças e jovens reações miméticas de consumo de álcool.

Dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) informam que 42% das crianças brasileiras com idade entre 10 e 12 anos já consumiram bebida alcoólica, e 10% dos jovens de 12 a 17 anos podem ser classificados como dependentes de álcool.

Os adolescentes acreditam que um copo de chope não implica risco à saúde. Talvez. O problema é que, ao se enturmar num bar, ele bebe oito ou dez. Ou apela para o mais barato, no duplo sentido da palavra – custo e efeito: uma garrafa de cachaça ou vodca custa menos que uma rodada de chope e provoca rápido “um barato”…

O Ministério da Saúde já calculou quanto o alcoolismo custa aos cofres públicos? Quanto gasta o INSS com os alcoólicos afastados do trabalho por razões de dependência? De que adiantam as campanhas de prevenção se atletas de renome fazem propaganda de bebida alcoólica?

A publicidade de bebida destilada -cachaça, uísque, vodca- obedece à restrição de horários, regulados pela lei 9.294/1996. Entre 6h e 21h é vetada a publicidade de destilados, embora muitas rádios burlem a proibição. A cerveja, que responde por 70% de todo álcool ingerido no Brasil, é livre de regulamentação. E é por ela que muitos jovens ingressam na dependência química.

Pela lei 9.294, bebida alcoólica é a que possui mais de 13 graus na escala Gay-Lussac. O Congresso Nacional assim determinou pressionado pelos produtores de cerveja e vinho. Normas internacionais consideram que é alcoólica toda bebida com 0,5º GL ou acima.

Todas as demais leis do Brasil -de trânsito, de fabricação etc.- consideram alcoólica toda bebida com mais de 0,5º GL. A cerveja tem cerca de 4,8º GL. Verifique com lupa o rótulo de uma cerveja dita “sem álcool”. Com exceção de uma marca, as demais possuem 0,5º GL, ou seja, fazem, com respaldo da lei, propaganda enganosa. Assim, pais desavisados deixam crianças ingerirem a cerveja “sem álcool” e alcoólicos em tratamento são vítimas do mesmo engodo.

O Código de Autorregulamentacao do Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária) alerta que comerciais de cervejas não devem ser atrativos para o público jovem. O que se vê é o contrário. As peças publicitárias exalam jovialidade, bom humor, espírito de tribo, linguagem própria de jovens, sem que haja nenhum controle.

Vêm aí a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Se permanecer liberado o direito de associar desportistas com bebidas alcoólicas a Lei Seca, com certeza, vai dar água…

Em muitos países, como no Canadá, há regulamentação à publicidade de bebida alcoólica, visando à proteção do público infantil. Lá não se vende bebida alcoólica em supermercados, lojas, padarias e mercearias. Só se permite em bares e restaurantes.

O Free Jazz, festival de música, foi cancelado por ser patrocinado por uma marca de cigarro. O mais badalado camarote do sambódromo exige que se vista a camisa de uma produtora de cerveja. Não existe o alerta: “Se fumar, não dirija”. Já no caso da bebida…

O argumento de que regular a publicidade é censura ou fere a liberdade de expressão é mero terrorismo consumista centrado em sobrepor interesses privados ao interesse público, como é o caso da proteção da saúde da população, em especial de nossas crianças e adolescentes.

Vida e Solidariedade

Manfredo Araújo de Oliveira

“Cada pessoa tem o direito fundamental à vida e, portanto, o direito a todas as coisas necessárias para uma vida de qualidade”: é desta forma que o documento da Campanha de Fraternidade deste ano exprime a exigência ética básica em relação à organização da economia. Esta postura, aliás, exprime muito bem do ponto de vista ético o próprio sentido etimológico da palavra grega “economia” que significa cuidado da casa, portanto, cuidado de seus habitantes. A análise de nossa situação histórica mostra que é precisamente esta vida dos habitantes da casa do Planeta Terra que está sendo negada a partir da forma como estão configuradas a produção, o consumo, o comércio,as finanças em nossas sociedades. Isto põe a exigência de busca de uma nova forma de organização social que esteja a serviço de todos os seres humanos, portanto, que coloque o ser humano e não o capital como sujeito e fim da atividade econômica.

O documento nos coloca diante de uma situação extremamente grave, mas que constitui ao mesmo tempo o ponto de partida da elaboração de um horizonte novo que deve orientar a construção deste mundo diferente:…”não há alternativa: ou vivemos solidariamente como irmãos ou seremos todos infelizes num mundo trágico”. Do ponto de vista do sentido que deve marcar atividade econômica isto desemboca na frase decisiva de Ghandi: “O teste da verdadeira organização de um país não é o número de milionários que possui, mas a ausência de fome em sua população”.

O documento exprime a consciência de que o esforço de construção deste mundo alternativo pode ser considerado em primeiro lugar um ato de contracultura no sentido da contraposição a uma forma de entender a vida humana e a atividade econômica marcadas por uma cultura “do enriquecimento com exploração, da acumulação que provoca a carência de muitas pessoas e do consumismo egoísta e materialista que coloca em risco a vida na Terra”. Trata-se, assim, de uma reação à cultura do Eu, do egoísmo, do individualismo como valores fundantes de nossa configuração societária.

O documento nos convida a avaliar a possibilidade e a nos engajar na construção da organização das relações dos seres humanos entre si e de suas relações com a natureza fundada em outras balizas: a solidariedade “que faz da humanidade uma família onde todos se protegem mutuamente” o que implica fundamentalmente a mudança do modelo de vida social vigente. O capitalismo transformou a competição no único modo de relação econômica. Subjacente a esta postura está uma concepção do ser humano que se entende basicamente como indivíduo de tal modo que o sentido das ações do ser humano no mundo é a busca de satisfação do interesse próprio de cada um. O bem comum se atinge na medida em que se respeita o automatismo dos mecanismos de mercado e das relações competitivas como instrumentos necessários à busca do lucro máximo. Nesta configuração da vida coletiva a liberdade deste indivíduo absoluto significa a negação e a indiferença frente à individualidade do outro o que M. Tatcher exprimiu com plena clareza com sua afirmação: “A sociedade não existe, a única realidade é o indivíduo”.

O documento pressupõe outra concepção de mundo que se exprime na afirmação de que o ser humano não é nunca uma subjetividade fechada em si mesma, indivíduo puro, que em primeiro lugar está em si mesmo e depois se dirige ao outro de si, mas é constitutivamente aberto ao grande todo, ao universo enquanto tal, portanto, abertura radical à alteridade. A primeira forma de alteridade toma a figura de natureza que enquanto tal é a base de toda vida pessoal e social. Ora o princípio de solidariedade implica o acolhimento e o respeito pelo outro em sua dignidade. A economia alternativa que corresponde, então, à constituição da vida humana é a da colaboração solidária e da autogestão com o objetivo de satisfazer as necessidades das pessoas e das comunidades.

Economia e vida (III): o espírito do capitalismo e a conversão

Jung Mo Sung

No primeiro artigo desta série sobre “economia e vida”, eu abordei a dimensão material da vida , no segundo, a dimensão teológica da economia. Completando a primeira parte (sobre as questões de fundo desta relação), eu quero propor neste artigo algumas reflexões sobre a dimensão espiritual da economia.

No passado, não tão distante, quando as pessoas se sentiam “impuras” ou, na linguagem mais contemporânea, deprimidas, iam às igrejas ou outros lugares sagrados para rezar ou participar de algum rito. A ida a um lugar sagrado e a participação em ritos sagrados lhes fazia sentir mais puras, mais fortes e dignas para enfrentar a vida. Hoje em dia as pessoas preferem ir a um Shopping Center fazer compras ou ver vitrines. E o mais interessante é que saem de lá com mais vigor e ânimo para viver. É como se o desejo de viver tivesse sido fortalecido. Não é à toa que a arquitetura dos shoppings tem muitos elementos que nos lembram templos e catedrais.

Esse pequeno exemplo nos mostra que há um tipo de experiência espiritual que acontece na vida cotidiana das pessoas através do mundo da economia. Essas experiências econômico-espiritual são tão marcantes nos dias de hoje que, mesmo nas igrejas a questão do consumo tem uma presença muito forte. Isso não se dá somente na já bastante conhecida e criticada teologia da prosperidade – presente no mundo protestante, evangélico e católico – que ensina que a bênção de Deus se manifesta através de ou garante a prosperidade econômica. Mas também em outras manifestações como o orgulho por causa de um padre ou pastor da sua igreja vender muitos CDs ou fazer muitos shows. Padres e pastores de sucesso (espiritual-econômico?) que costumam usar roupas e carros de marcas famosas e caras estão se tornando modelos para novos candidatos ao sacerdócio ou pastorado e também para jovens cristãos.

Com isso não estou querendo dizer que freqüentar um shopping ou comprar roupa de moda é viver a espiritualidade do mercado. Isso seria cair em outro extremo. O problema não está em comprar algo bom e bonito em um centro de compras (shopping center), mas em sentir-se mais digno e “puro” por causa disso. A questão espiritual não está no ato de comprar ou na mercadoria que compra, mas no sentido mais profundo que encontra e vive nessa experiência. O que esse tipo de experiência espiritual, que acontece em quase todas as partes do mundo hoje, mostra é que esta não é uma questão meramente individual, de algum erro moral ou espiritual de alguns indivíduos, mas tem raiz em uma transformação profunda que ocorreu no mundo moderno capitalista.

Max Weber sintetizou isso ao dizer que a obtenção de mais e mais dinheiro se tornou o supremo bem que norteia a vida no capitalismo. Antes, as pessoas trabalhavam e lidavam com as questões econômicas em função da satisfação das necessidades de viver (a dimensão material da vida). Agora, ganhar dinheiro passou a ser a finalidade última da vida. Hoje, com a cultura do consumo, consumir e ostentar o consumo passou a ser o sentido último da vida. Por isso, quando se sentem “perdidas”, “impuras” ou “menos-gente”, as pessoas vão aos shoppings. Elas não têm consciência do que estão fazendo; isto é, não sabem que estão indo às compras ou ver vitrines para realizar o sentido último das suas vidas. Elas são simplesmente levadas lá por uma força maior. Assim como o capitalista que busca cada vez mais dinheiro para ganhar mais dinheiro também não tem consciência de que faz isso movido pelo “espírito do capitalismo”. Da mesma forma, o pobre que se sente como não-humano, sem dignidade, porque não é capaz de consumir o que a sociedade lhe exige para que lhe reconheça a sua dignidade.

Essa força espiritual – que Weber chamou corretamente de “espírito do capitalismo – que move hoje as pessoas e a sociedade para essa obsessão pelo consumo e por ganhar dinheiro sem fim é o que o Novo Testamento chama de poderes de destruição ou que Paulo chama de principados e potestades do mal.

As pessoas são compelidas a viver a espiritualidade do consumo ou do mercado porque estão imersas no espírito do capitalismo. Mesmo que carregam externamente símbolos espirituais cristãos ou de outras religiões mais tradicionais, muitos estão mergulhados e movidos pelo espírito do capitalismo.

Neste mundo, a conversão cristã, no nível pessoal, significa abrir os olhos para enxergar as mentiras dessa espiritualidade idolátrica (cf Jo 8,44) e perceber que os “shows da fé”, por mais grandiosos que sejam, não expressam a fé de Jesus Cristo, assim como a dignidade humana não vem da riqueza ou das marcas caras e famosas. Significa também desejar encarnar o amor de Deus neste mundo, assumindo Jesus como nosso modelo de vida e de ser humano.

Só que sabemos que a conversão pessoal é necessária, mas não suficiente. Precisamos também que o “mundo” se converta”! E como isso é possível? (esse será o tema dos próximos artigos.)

O Honroso Último Lugar de Jesus

Pe Tarcisio Marques Mesquita

Estamos em tempos modernos. Numa vida contemporânea cheia de vícios do passado, sob o risco do culto ao capital, há quem queira esquecer os lenhos da manjedoura e da cruz. Neste mundo mercadológico competitivo, as relações humanas se contagiam pelo afã do ”vencer”. Parece que ninguém admite ser colocado em lugar que não seja o primeiro. Em muitas competições, times de futebol, torcedores, atletas e estudantes choram, brigam e se deprimem quando se tornam ocupantes de um “vergonhoso segundo lugar”. Pode-se, com isso, imaginar a dor e o sentimento avassalador de derrota dos eventuais ocupantes dos últimos lugares.

Esse clima doentio de busca pelo primeiro lugar atinge numerosas áreas do viver humano: o trânsito pela cidade, o posto no local de trabalho, os propalados best-sellers do mercado editorial e fonográfico, a vida política e até mesmo a vida religiosa. Surge a impressão que ninguém quer ser preterido nem mesmo que seja para o “desonroso segundo lugar”. Nesse aspecto, o mundo midiático, controlado pelas forças privatizadas do capital e da religiosidade do capital, torna movimentos religiosos recentes vertentes de verdadeiras enchentes de pessoas que desejam que as forças divinas as coloquem, como num passe de mágica, de milagres a granel, em imediatos primeiros lugares no que se refere à saúde, finanças, bens materiais e outros mais privilégios que um ser humano possa imaginar.

Na esfera do desmesurado desejo pela vantagem, não é mais incomum ver pessoas se pisando, ofendendo-se, ferindo-se, odiando-se e matando-se por toda parte, até mesmo se for para fazer valer suas convicções religiosas, políticas, esportivas, raciais ou econômicas.

Nem mesmo o nome e a vida de Jesus têm sido poupados da barbárie da luta sangrenta pelo primeiro lugar. Igrejas de muitos “bispos”, “bispas”, “apóstolos”, “pastores”, “pastoras”, “servos” e “obreiros”, de trajes suntuosos e jóias preciosas, mansões, haras e empresas de fachada, afirmam insistentemente: “Em Jesus, somos mais que vencedores!”. Vencedores em campos que Jesus historicamente jamais demonstrou colocar seu interesse. Vencedores exatamente nos meios dos quais surgiram os que tramaram a condenação e morte dele. Hoje, usa-se do artifício da fé para que se realize “em nome de Jesus” o que ele especificamente quis denunciar e combater.

No desvario injustamente denominado cristão, não tem valido tanto admirar a simplicidade do Deus nato na manjedoura do estábulo em Belém, que se tornou lugar improvisado para os que não têm lugar. Ultimamente, não tem sido importante recordar que Jesus se entregou à luz sendo depositado no lenho da manjedoura, prenunciando, dessa forma, sua entrega, como luz, no lenho de sua cruz. Ele, envolto em trapos, deitado no coxo construído para que os animais se alimentassem, finalizaria seus dias na cruz que lhe preparam. Essa mesma cruz serviria para que, em contemplação, seus discípulos pudessem se alimentar da sublime confiança de se despojarem como ele, neste último lugar, a fim de que haja um lugar honroso para todos aqui e nos céus.

Jesus, sábio como sempre foi, tinha consciência do surgimento de falsos profetas e pastores. Agora, devemos saber que também criaram falsos natais; sugiram festas natalinas sem Jesus. Muitos já não voltam seus olhares para o presépio porque enchem suas mentes pela ansiedade de ter e consumir. Hoje, nos shoppings feitos como templos e nos templos feitos como shoppings, o mau natal nasce da má fé dos que se apoderam dos iludidos pelas contestáveis ofertas de soluções miraculosas de problemas, cujas soluções, de fato, somente existirão com a mobilização fraterna. Neste tempo de Natal, em tempos onde até a fé se comercializa, basta-nos a chance de olhar para os últimos e observar o modo, as opções e formas como Deus decidiu nascer e habitar entre nós.