Copa do Mundo

VÍDEOS: No feriado de 9 de julho, a Igreja celebra o dia de Santa Paulina

Nos avisos da semana iniciada em 06/07/2014, o Pe. Julio lembrou a história de Santa Paulina, considerada a primeira santa brasileira e alertou sobre o desafio de entender a realidade, os interesses por trás da Copa do Mundo e o acirramento da violência contra as manifestações e os movimentos sociais:

No final da celebração, Solange Boim Colomina, integrante da comunidade, deu um testemunho de fé:

Depois disso, o Pe. Julio propôs um exercício de partilha, ao som do canto “Conheço um Coração”, do Pe. Joãozinho:

Para finalizar a celebração, a comunidade cantou “Utopia”, de Zé Vicente:

Pe. Julio nos avisos da semana: não podemos aceitar a destruição de quem pensa diferente

O Pe. Julio Lancellotti criticou o xingamento à presidente da República promovido por torcedores na abertura da Copa do Mundo, em São Paulo. Apesar de ter se manifestado publicamente contra a organização do evento, participando inclusive de protestos contra a Copa, ele considera a atitude covarde e desrespeitosa: “não podemos concordar com a destruição de quem pensa diferente”, afirmou.

No final das missas de domingo, 15/06, durante os avisos da semana, o Pe. Julio falou também sobre as celebrações de Corpus Christi na próxima quinta-feira, agradeceu a todos pela organização e participação na festa junina da comunidade, realizada no fim de semana anterior, e abençoou uma gestante, pedindo a intecessão de Santa Gianna Beretta Molla:

Depois da Copa

Dom Demétrio Valentini

Terminou a copa do mundo. Os campeões têm direito a festejar, pela proeza de terem chegado vitoriosos ao final.

Mas todos podemos ter motivos de alegria, pelos valores positivos que apresentou esta copa do mundo, a primeira a se realizar no continente africano. O mundo tem uma grande dívida com a África.

É muito provável que ela tenha sido o berço da humanidade. Já isto seria motivo de olhar com respeito para a África. Mas nos séculos recentes, a África foi terrivelmente explorada, sobretudo pelas nações européias, que dividiram entre si os territórios africanos, para subjugá-los como colônias, postas a serviço dos interesses dos países dominadores.

Ainda hoje a África paga o pesado preço de ter sido espoliada pela Europa. As próprias fronteiras entre os atuais países africanos, impostas pelo processo colonizador, muitas vezes não correspondem às divisas entre povos e culturas diferentes. Este fato estimulou muitos atritos, que às vezes degeneraram em guerras fratricidas. Tudo porque forçaram populações homogêneas a se separarem, obrigando-as a conviveram com outras de culturas diferentes.

E assim daria para lembrar tantas injustiças cometidas contra a África, da qual se procurou explorar a força humana pela imposição da escravidão, e roubar suas riquezas, deixando para trás rastros de pobreza e de miséria.

Neste sentido, valeu a realização da copa do mundo na África do Sul, palco de descriminação racial por longo tempo, cujas consequências ainda permanecem em grande parte.

Se houvesse um vencedor a ser designado pelos objetivos de reparação de injustiças e de reconhecimento da dignidade dos contendores, este vencedor seria, sem dúvida, o povo africano.

Independente do campeão, quem merece nossa admiração e nosso apoio é o povo sofrido da África, que tem todo o direito de definir sua vida e traçar o seu futuro. Levantemos a taça, como brinde para o povo africano!

Futebol é arte e religião

Frei Betto

Sou um analfubola. Ou seja, nada entendo de futebol. Todas as vezes que me perguntam para qual time torço, fico tão constrangido como mineiro que não gosta de queijo.

Torci, na infância, pelo Fluminense, do Rio, e o América, de Belo Horizonte. Influência materna. Mais tarde, fui atleticano por um detalhe geográfico: minha avó morava defronte do estádio, na avenida Olegário Maciel, na capital mineira. E só. Sem contar a emoção de ter estado no Maracanã na noite de 14 de novembro de 1963 para assistir, misturado a 132 mil torcedores, aquele que é, por muitos, considerado o jogo dos jogos, a disputa entre Santos e Milan pelo Mundial Interclubes!

Hoje, me dou ao luxo de assistir, pela TV, às decisões de campeonato. Escolho para quem torcer. E não perco Copa do Mundo. Jogo do Brasil é missa obrigatória.

Eu disse missa? Sim, sem exagero. Porque, no Brasil, futebol é religião. E jogo, liturgia. O torcedor tem fé no seu time. Ainda que o time seja o lanterninha, o torcedor acredita piamente que dias melhores virão. Por isso, honra a camisa, vai ao estádio, mistura-se à multidão, grita, xinga, aplaude, chora de tristeza ou alegria, qual devoto que deposita todas as suas esperanças no santo de sua invocação.

O futebol nasceu na Inglaterra e virou arte no Brasil. Na verdade, virou balé. Aqui, tão importante quanto o gol são os dribles. Eles comprovam que nossos craques têm samba no pé e senso matemático na intuição. Observe a precisão de um passe de bola! No gramado, imenso palco ao ar livre, se desenha uma bela e estranha coreografia. Faça a experiência: desligue o som da TV e contemple os movimentos dos jogadores quando trombam. É uma sinfonia de corpos alados. Fosse eu cineasta, editaria as cenas mais expressivas em câmara lenta e as adequaria a uma trilha sonora, de preferência valsa, ritmando o flutuar dos corpos sobre o verde do gramado.

O Brasil conta com 190 milhões de técnicos de futebol. Todos dão palpite. E ninguém se envergonha de fazê-lo, como se cada um de nós tivesse, nessa matéria, autoridade intrínseca. Pode-se discordar da opinião alheia. Ninguém, no entanto, ousa ridicularizá-la.

Pena que a violência esteja contaminando as torcidas. Outrora, elas anabolizavam, com sua vibração, o desempenho dos jogadores. Agora, disputam no grito a prevalência sobre as torcidas adversárias. E se perdem no jogo, insistem em ganhar no braço. A continuar assim, em breve o campo será ocupado, não pelo time, e sim, como uma grande arena, pelas torcidas. Voltaremos ao tempo dos gladiadores, agora em versão coletiva.

Quando ouço a estridência de vuvuzelas, como um enxame de abelhas a nos picar os tímpanos, penso que os torcedores já não prestam atenção ao jogo. Querem transferir o espetáculo do gramado para as arquibancadas. O ruído da torcida passa a ser mais importante que o desempenho dos jogadores.

Nossa autoestima como nação se apoia, sobretudo, na bola. Não ganhamos nenhum prêmio Nobel; nosso único santo, frei Galvão, ainda é pouco conhecido; e nossa maior invenção – o avião – é questionada pelos usamericanos. Porém, somos o único país do mundo pentacampeão de futebol. Se a história dos países europeus do século XX se delimita por duas guerras mundiais, a nossa é demarcada pelas Copas. E nossos heróis mais populares eram ou são exímios jogadores de futebol. A ponto de o mais completo, Pelé, merecer o titulo de rei.

A Copa é um acontecimento tão importante para o Brasil que, no dia do jogo da nossa seleção, se faz feriado. Se vencemos, a nação entra em euforia. Se perdemos, somos tomados por uma triste estupefação. Como se todos se perguntassem: como é possível o melhor não ter vencido?

Gilberto Freyre bem percebeu que na arte futebolística brasileira mesclam-se Dionísio e Apolo: a emoção e a dança dos dribles são dionisíacos; a força da disputa e a razão das técnicas, apolíneos.

Criança, eu escutava futebol no rádio. Quanta emoção! Completava-se a imaginação com a descrição do narrador. Hoje, não há locutores na transmissão televisiva, apenas comentaristas. São lerdos, narram o óbvio e, palpiteiros, com frequência esquecem o que se passa no campo e ficam a tecer considerações sobre o jogo com seus assistentes.

“Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga na alma”, poetou Carlos Drummond de Andrade. Com toda razão.

A Copa e a dor de Mandela

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Quando este artigo sair, a bola já terá rolado há tempos nos gramados da África do Sul. A festa eufórica do país das vuvuzelas, com direito a astros internacionais, deslumbrou o mundo.

O mundo inteiro, como a cada quatro anos, está pendente de uma bola e de vinte e dois pares das pernas mais caras e bem pagas do mundo. No entanto, algumas coisas fazem esta copa diferente das outras. Ela acontece no país que foi palco de uma das segregações mais cruéis do planeta: o terrível “apartheid”. Durante décadas os sul-africanos viveram sérios conflitos, numa sanguinária luta racial que dividiu o país e dizimou seus habitantes. Hoje, a África do Sul pode exibir sua beleza e riqueza humana e cultural, palco e moradia de tantas raças, habitantes, religiões, etnias e línguas, em alegre sinfonia, sediando um evento de repercussão mundial como este. E estreando uma paz que por ser recente não é menos benéfica e ansiosamente esperada.

Mas não só pelo futebol e pela pluralidade inerente à sua identidade que os olhos do mundo inteiro se voltam para a África do Sul. Trata-se também do país que é berço e pátria de uma das maiores pesonalidades da humanidade neste século XXI: Nelson Mandela. A presença desse grande líder marca para sempre a Copa do mundo de 2010 e a faz inesquecível. Fiel à luta antiapartheid, Mandela passou mais de vinte anos no cárcere e agora, livre, é um ícone.

Diante do clima de euforia e do toque de insanidade que às vezes marca os campeonatos mundiais de futebol com episódios de violência, figuras como Mandela e o bispo Desmond Tutu trazem um toque de grandeza e profundidade que, mesmo em meio à mais legítima alegria, nos relembram a seriedade da condição humana. Aqueles que hoje cantam e se movem nos estádios com a ginga incomparável de sua raça, levados pelo ritmo irresistível do espetáculo de abertura do campeonato, são os mesmos que souberam arriscar a vida pela liberdade de seu povo.

Já no início da Copa, antes que a bola rolasse nos primeiros jogos, essa seriedade que nos traz de volta ao chão da vida real se fez presente dolorosamente no já tão marcado coração de Mandela. Ao voltar do espetáculo de abertura, sua bisneta de 13 anos, Zenani Mandela, morreu em um acidente de automóvel.

Enquanto o país abriga o mundo inteiro no colossal evento esportivo, o clã Mandela vive a terrível e irreparável perda da pequena Zenani, vida desabrochando em flor, ceifada antes de abrir-se plenamente. Podemos sentir, por trás das vuvuzelas, dos tambores, atabaques, trombetas e foguetes, o coração do líder confrangido pela dor, sua cabeça branca curvada e seus olhos turvos, vergado pelo golpe.

A nuca que a prepotência dos colonizadores não conseguiu dobrar, o afeto agora o faz. Ainda que possa ser visto nos festejos da Copa, Mandela estará vivendo seu luto.

Em meio à ansiedade dos jogos e dos resultados da Copa, nos é dada a oportunidade de calarmo-nos com o silêncio de Mandela, entrar em comunhão com sua dor, assim como aclamamos sua figura no estádio. Esse doloroso episódio não arruína o clima da Copa do mundo. Pelo contrário, só o torna mais humano.

Intervalo de jogo

Dom Demétrio Valentini

O intervalo não muda o placar do jogo, todos o sabemos. Mas muitas vezes é no intervalo que se pode mudar o rumo da partida, por alterações na estratégia coletiva, e até por mudanças na escalação dos atletas.

Agora estamos vivendo, na verdade, um grande intervalo coletivo, pela atenção prioritária que é dada, de maneira nacional, ao andamento da copa do mundo na África. E logo depois teremos outro intervalo, resultante das distrações produzidas pela campanha eleitoral.

O certo é que entramos num período em que o placar da vida continuará do mesmo jeito, mas será tempo oportuno para refletir sobre as providências a tomar para garantir que o grande jogo da vida nacional possa dar certo. É urgente, em outras palavras, pensar num projeto de Brasil que nós queremos, escalando prioridades estratégicas, e estabelecendo com clareza metas indispensáveis para guiar a ação coletiva que garanta nosso futuro como nação com as responsabilidades que as circunstâncias naturais e históricas nos impõem.

Não sabemos quem será o campeão nesta copa da África. Mas com certeza, a vitória final levará as marcas do plano coletivo posto em prática pela equipe vencedora.

A necessidade de um plano, que leve em conta as excepcionais condições oferecidas pela natureza, mas também os desafios que ainda aguardam solução, se torna cada vez mais urgente, sob o risco do Brasil perder a grande oportunidade histórica que o contexto mundial lhe proporciona.

Para definir este plano, algumas referências são indispensáveis, e precisam ser colocadas à mesa com evidência.

Uma delas, que ultimamente vem emergindo com contundência, é a dimensão ecológica. Para alcançarmos o crescimento necessário, não podemos comprometer o equilíbrio ambiental, ainda mais diante das responsabilidades do nosso país em relação ao mundo.

Em termos estratégicos, outra referência imprescindível é a educação. Sem uma educação de qualidade, não se assimilam os avanços tecnológicos, e não se sustentam os valores que precisam presidir a vida pública. Está mais do que na hora de se empreender um grande esforço para colocar os benefícios da educação ao alcance de todos os brasileiros.

Como desafio, é imprescindível uma adequada estratégia para diminuir, e aos poucos suprimir, as injustas desigualdades sociais e regionais. Um verdadeiro projeto de país precisa contemplar o conjunto dos cidadãos, evitando que o crescimento seja feito às custas dos mais fracos e em benefício dos privilegiados.

Em todo o caso, é bom aproveitar este tempo de intervalos, que se apresentam à nossa frente neste ano. Pois somos convidados, desta vez mais que em outras eleições, a escolher para o país um plano de desenvolvimento, que corresponda às reais possibilidades do nosso país. E em função deste plano, decidir nosso voto.

Na copa, já caíram fora países que possuíam algum craque excepcional, mas que não conseguiu resolver o jogo sozinho. Para o Brasil também, não basta escalar um craque excepcional, e achar que ele resolve tudo por conta própria.

É preciso ter um bom plano. Assim é no esporte. Muito mais na administração de um país do tamanho do Brasil.

Para votar com responsabilidade, será necessário observar bem quem apresenta o melhor plano para o Brasil que nós queremos. E conferir quais são as garantias de que este plano possa ser executado com êxito.

Semana do Migrante

Dom Demétrio Valentini

Em pleno mês da copa, com os olhos voltados para a África, temos pela frente a Semana do Migrante. Aberta neste domingo dia 13, vai se concluir no próximo dia 20, quando no Brasil se celebra o Dia Nacional do Migrante.

A promoção e a organização da Semana do Migrante está a cargo do SPM – Serviço Pastoral dos Migrantes, o organismo da CNBB incumbido de incentivar a acolhida e a valorização dos migrantes nas comunidades da Igreja.

Desta vez o SPM está completando 25 anos. Um motivo a mais para conferirmos a realidade migratória em nosso país, com as interpelações que ela nos apresenta. Ao longo destes 25 anos o SPM foi se firmando como uma importante referência para a problemática dos migrantes, seja pelos locais de acolhida, espalhados pelo Brasil afora, seja pela atuação sistemática, constante, atenta, de presença e acompanhamento aos migrantes em nosso país.

Para avaliar a importância da atuação da Igreja junto aos migrantes, nada melhor do que conferir os benefícios trazidos pela recente lei da anistia aos indocumentados, oferecendo a possibilidade de regularizarem sua permanência no país, aprovada recentemente. Sem o apoio do Setor de Mobilidade Humana da CNBB, dentro do qual se insere o Serviço Pastoral dos Migrantes, com certeza não se teria chegado a esta lei, com a abertura que ela apresenta, e com as possibilidades que ela proporciona. Uma lei com conteúdo muito humano, que honra o Brasil, e que serviria de exemplo para tantas situações que os migrantes vivem hoje no mundo.

É tradição firmada nestes 25 anos de atuação do SPM, assumir para a Semana do Migrante o mesmo tema da Campanha da Fraternidade. Além de boa, esta opção é estratégica, pois revela a importância de inserir as atividades pastorais num contexto mais amplo da ação da Igreja, para que encontrem respaldo e possam se integrar num processo permanente. Assim, em cada ano, o tema da Campanha da Fraternidade pode ser aprofundado, vendo suas incidências na realidade migratória, de acordo com a proposta de “uma economia a serviço da vida”.

No que se refere à ação cotidiana do SPM, ela tem três focos distintos, que servem de referência para a atuação pastoral junto aos migrantes.

O primeiro deles é constituído pelas migrações sazonais. A cada ano, milhares de pessoas saem em busca de trabalho, sobretudo nos canaviais que se espalham pelo país. Os outros dois focos são os migrantes urbanos, e os imigrantes estrangeiros.

No mundo há situações muito mais tensas. Em cada época, os fluxos migratórios assumem feições que retratam a problemática que os suscita. Hoje a tensão migratória é resultado das grandes diferenças econômicas existentes no mundo, que não são fruto do acaso, mas têm causas bem identificadas.

O continente africano, que nestes dias está na mira de nossas atenções, serve de referência também para entendermos como se apresenta hoje o fenômeno migratório. A situação em alguns países africanos é tão dramática, que se fosse possível a população migraria toda para a Europa. Se as riquezas descobertas nos tempos da colonização européia tivessem sido aplicadas na própria África, com certeza não haveria hoje tantos africanos sonhando com a Europa e forçando a barra para atravessar o mediterrâneo.

As migrações têm o seu lado positivo, de intercâmbio de culturas e de nova composição étnica das nações. Mas revelam também o lado escuro dos processos de exploração que continuam produzindo impasses e provocando migrações forçadas.

Em tempos de copa do mundo na África, quando de novo o esporte serve de utopia da confraternização mundial, é salutar uma Semana do Migrante, para sonharmos com os caminhos que podem tornar este mundo uma casa habitável para todos, sem preconceitos, sem injustiças e sem discriminações.

Expectativas do futebol

Dom Demétrio Valentini

Já foi dada a largada. Já soou o apito inicial. Mesmo que a abertura da copa só aconteça neste próximo dia 11 de junho, basta ver as propagandas para dar-nos conta que já começou o jogo maior, do qual todos participam. Cada técnico só pode colocar onze em campo. A copa escala todo mundo. Todos nos sentimos atores, e se não conseguimos chutar o pênalti, temos nossa área de combate, onde tentamos fazer o possível para garantir a vitória.

A prioridade absoluta deste mês especial, que começa no dia 11 de junho e vai até 11 de julho, é sem dúvida o futebol. Até a política promete ficar de lado. Tanto que os candidatos acenam com gestos de boa vontade, de que não vão atrapalhar as jogadas com sua presença inoportuna. Mesmo que cultivem o desejo secreto de colocar a vitória da seleção a serviço de sua candidatura. Mas isto são dividendos a serem faturados depois. Agora, o politicamente correto é mostrar que a torcida pela nossa seleção une preferências clubísticas e até adversários políticos. Ao menos nas aparências. Pois também faz parte do jogo aparentar que o futebol faz esquecer até os desejos mais secretos.

No meio deste clima contagiante, fica difícil pedir licença para refletir um pouco. O que não deixa de ser estratégico. Pois se nestes dias não usamos a cabeça, corremos o risco de perder a cabeça, como infelizmente as estatísticas das copas sempre comprovam.

Então, vamos para o minuto de silêncio. O momento de reflexão. A pausa para compreender de onde vem a força contagiante do esporte.

Não é difícil perceber a semelhança do esporte, seja qual for, com as artes bélicas. O esporte nasceu da guerra. Ou ao menos seus inícios se inspiraram nas batalhas. Como as guerras são cruéis, porque ceifam estupidamente vidas humanas, foi uma idéia genial fazer de conta que se guerreava, mas ninguém precisava morrer, mesmo havendo vencedores e perdedores.

Se todos fizessem assim, daria para promover uma copa do mundo em cada ano, em muitos países: na Palestina escalando judeus de um lado e árabes do outro, no Iraque escalando xiitas contra sunitas, no Afeganistão convocando a família Bush contra a Al-qaeda. E poderíamos até modificar os confrontos determinados pela FIFA e colocar de imediato o jogo entre as duas Coréias, escalando o ditador Kim Jong-il como capitão e centro avante do time norte coreano!

Em todo o caso, o esporte mostra como existem energias insuspeitadas dentro das pessoas. Se fossem mobilizadas para causas comuns, o que poderia se conseguir em pouco tempo não está escrito.

Nem é difícil escalar estas causas, que poderiam valorizar o entusiasmo de todos entrarem em campo. Se fosse promovida, por exemplo, a copa do mundo contra o analfabetismo, promovendo o mutirão mundial para erradicar a incapacidade de interpretar e de produzir símbolos, numa atividade que desperta e aguça a inteligência, pois a alfabetização produz isto mesmo, que enorme batalha dava para empreender no mundo inteiro, e como seria suado chegar à meta e vencer as últimas resistências, como quem dribla o último defensor e até o próprio goleiro!

Ou se fosse promover outra copa mundial, destinada a saciar a fome do último mendigo, certamente não faltariam alimentos, logo descobriríamos que se ganharia o jogo distribuindo melhor os estoques, como quem sabe passar a bola no momento certo da jogada estratégica.

E assim seria com outros campeonatos para vencer as epidemias, que ultimamente estão se escalando por conta da inépcia dos governos.

Afinal, o esporte mostra como existem tantas energias desperdiçadas, por falta de motivação e de articulação. Quem sabe, nestes dias de absoluta prioridade do futebol, não deixemos de pensar nem percamos a cabeça. E seja qual for a seleção vencedora, que todos nos sintamos escalados a lutar pelas verdadeiras causas da humanidade, que graças a Deus ainda dá sinais de vida!

Pileque precoce

Frei Betto

Pesquisas indicam que o perfil preponderante do jovem brasileiro de hoje é, ao contrário da minha geração, conservador, individualista, distante daqueles que, em meados do século XX, queriam mudar o mundo.

Agora, ele se mostra mais preocupado em ter um bom emprego do que motivações ideológicas; menos propenso a riscos e mais apegado à família. A relação com a sociedade é mais virtual que real: fechado em seu quarto, ele nem precisa rezar “venham todos ao meu reino”, pois tudo lhe chega através do telefone, da TV, da internet, do MP3.

A cultura consumista a todos nós oferece, em cálice dourado, o elixir da eterna juventude. Os jovens não querem deixar de ser jovens; adultos e idosos insistem em imitar os jovens. E o principal fator de afirmação é a autoimagem, a valorização da estética.

O jovem atual não quer se arriscar; anseia por experimentar. Na falta de motivação religiosa, experiência espiritual e ideologia altruísta, tende a buscar na bebida e na droga a alteração de seu estado de consciência. Sem isso não se sente suficientemente relaxado, loquaz, divertido e ousado.

É óbvio que a mídia dita padrões de comportamento, hábitos de consumo e paradigmas ideológicos. A diferença é que tudo isso chega ao jovem de tal forma bem embalado em papel brilhante e fita colorida, que ele nem percebe o quanto é vulnerável à ditadura do consumismo.

No Brasil, a ingestão de bebidas alcoólicas é legalmente proibida a menores de 18 anos (nos EUA, 21 anos). A fiscalização pouco funciona e o Estado permite a publicidade de cerveja a qualquer hora em rádio e TV -concessões públicas- e o estímulo ao consumo precoce. Inclusive a utilização publicitária de pessoas famosas das áreas de entretenimento, artes e esportes, para suscitar em crianças e jovens reações miméticas de consumo de álcool.

Dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) informam que 42% das crianças brasileiras com idade entre 10 e 12 anos já consumiram bebida alcoólica, e 10% dos jovens de 12 a 17 anos podem ser classificados como dependentes de álcool.

Os adolescentes acreditam que um copo de chope não implica risco à saúde. Talvez. O problema é que, ao se enturmar num bar, ele bebe oito ou dez. Ou apela para o mais barato, no duplo sentido da palavra – custo e efeito: uma garrafa de cachaça ou vodca custa menos que uma rodada de chope e provoca rápido “um barato”…

O Ministério da Saúde já calculou quanto o alcoolismo custa aos cofres públicos? Quanto gasta o INSS com os alcoólicos afastados do trabalho por razões de dependência? De que adiantam as campanhas de prevenção se atletas de renome fazem propaganda de bebida alcoólica?

A publicidade de bebida destilada -cachaça, uísque, vodca- obedece à restrição de horários, regulados pela lei 9.294/1996. Entre 6h e 21h é vetada a publicidade de destilados, embora muitas rádios burlem a proibição. A cerveja, que responde por 70% de todo álcool ingerido no Brasil, é livre de regulamentação. E é por ela que muitos jovens ingressam na dependência química.

Pela lei 9.294, bebida alcoólica é a que possui mais de 13 graus na escala Gay-Lussac. O Congresso Nacional assim determinou pressionado pelos produtores de cerveja e vinho. Normas internacionais consideram que é alcoólica toda bebida com 0,5º GL ou acima.

Todas as demais leis do Brasil -de trânsito, de fabricação etc.- consideram alcoólica toda bebida com mais de 0,5º GL. A cerveja tem cerca de 4,8º GL. Verifique com lupa o rótulo de uma cerveja dita “sem álcool”. Com exceção de uma marca, as demais possuem 0,5º GL, ou seja, fazem, com respaldo da lei, propaganda enganosa. Assim, pais desavisados deixam crianças ingerirem a cerveja “sem álcool” e alcoólicos em tratamento são vítimas do mesmo engodo.

O Código de Autorregulamentacao do Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária) alerta que comerciais de cervejas não devem ser atrativos para o público jovem. O que se vê é o contrário. As peças publicitárias exalam jovialidade, bom humor, espírito de tribo, linguagem própria de jovens, sem que haja nenhum controle.

Vêm aí a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Se permanecer liberado o direito de associar desportistas com bebidas alcoólicas a Lei Seca, com certeza, vai dar água…

Em muitos países, como no Canadá, há regulamentação à publicidade de bebida alcoólica, visando à proteção do público infantil. Lá não se vende bebida alcoólica em supermercados, lojas, padarias e mercearias. Só se permite em bares e restaurantes.

O Free Jazz, festival de música, foi cancelado por ser patrocinado por uma marca de cigarro. O mais badalado camarote do sambódromo exige que se vista a camisa de uma produtora de cerveja. Não existe o alerta: “Se fumar, não dirija”. Já no caso da bebida…

O argumento de que regular a publicidade é censura ou fere a liberdade de expressão é mero terrorismo consumista centrado em sobrepor interesses privados ao interesse público, como é o caso da proteção da saúde da população, em especial de nossas crianças e adolescentes.