liberdade

CNBB divulga declaração sobre os 50 anos do golpe civil-militar

O Conselho Episcopal Pastoral (Consep) aprovou hoje, 1º de abril, declaração sobre os 50 anos do golpe civil-militar, intitulada “Por tempos novos, com liberdade e democracia”. O texto, assinado pela Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), alerta as “gerações pós-ditadura para que se mantenham atuantes na defesa do Estado Democrático de Direito”. Os bispos relembram “os 21 anos que fizeram do Brasil o país da dor e da lágrima” e reafirmam “o compromisso da Igreja com a defesa de uma democracia participativa e com justiça social para todos”. Leia, na íntegra, a declaração da CNBB.

DECLARAÇÃO POR TEMPOS NOVOS, COM LIBERDADE E DEMOCRACIA

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB faz memória, neste 1º de abril, com todo o Brasil, dos 50 anos do golpe civil-militar de 1964, que levou o país a viver um dos períodos mais sombrios de sua história. Recontar os tempos do regime de exceção faz sentido enquanto nos leva a perceber o erro histórico do golpe, a admitir que nem tudo foi devidamente reparado e a alertar as gerações pós-ditadura para que se mantenham atuantes na defesa do Estado Democrático de Direito.

Se é verdade que, no início, setores da Igreja apoiaram as movimentações que resultaram na chamada “revolução” com vistas a combater o comunismo, também é verdade que a Igreja não se omitiu diante da repressão tão logo constatou que os métodos usados pelos novos detentores do poder não respeitavam a dignidade da pessoa humana e seus direitos.

Estabeleceu-se uma espiral da violência com a prática da tortura, o cerceamento da liberdade de expressão, a censura à imprensa, a cassação de políticos; instalaram-se o medo e o terror. Em nome do progresso, que não se realizou, povos foram expulsos de suas terras e outros até dizimados. Ate hoje há mortos que não foram sepultados por seus familiares.

Ainda paira muita sombra a encobrir a verdade sobre os 21 anos que fizeram do Brasil o país da dor e da lágrima. Ajuda-nos a pagar essa dívida histórica com as vítimas do regime a Comissão da Verdade que tem por objetivo trazer à luz, sem revanchismo nem vingança o que insiste em ficar escondido nos porões da ditadura.

Graças a muitos que acreditaram e lutaram pela redemocratização do país, alguns com o sacrifício da própria vida, hoje vivemos tempos novos. Respiramos os ares da liberdade e da democracia. Porém, é necessário superar a injustiça, a desigualdade social, a violência, a corrupção, o descrédito com a política, o desrespeito aos direitos humanos, a tortura… A democracia exige participação constante de todos.

Fiel à sua missão evangelizadora, a CNBB reafirma seu compromisso com a defesa de uma democracia participativa e com justiça social para todos. Conclama a sociedade brasileira a ser protagonista de uma nova história, livre do medo e forte na esperança.

Nossa Senhora Aparecida, padroeira de nossa Pátria, nos projeta com seu manto, ilumine nossas mentes e corações a fim de que trilhemos somente os caminhos da paz, da justiça e do amor.

Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB

Dom José Belisário da Silva, OFM
Arcebispo de São Luís do Maranhão
Vice Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB

Papa pede mudança no tratamento dos idosos

O Papa Francisco apelou sábado, dia 23 de novembro, no Vaticano a uma mudança no tratamento dado aos idosos doentes, para que se complemente o “modelo biomédico” e se contrarie a “tortura dos silêncios”.

“É necessário empenhar-se numa assistência que, ao lado do tradicional modelo biomédico, se enriqueça de espaços de dignidade e liberdade, longe dos fechamentos e dos silêncios, da tortura dos silêncios”, disse, perante os participantes na conferência internacional promovida pelo Conselho Pontifício para a Pastoral no Campo da Saúde.

A iniciativa do organismo da Santa Sé, dedicada ao tema ‘A Igreja ao serviço da pessoa idosa doente: o cuidado das pessoas afetadas por patologias neurodegenerativas’, conta com a participação de uma delegação portuguesa constituída por 50 pessoas.

Os participantes são acompanhados por monsenhor Vítor Feytor Pinto, até agora coordenador nacional da Pastoral da Saúde, naquele que é o seu último ato oficial.

O Papa Francisco destacou a necessidade de acompanhar a vida religiosa das pessoas idosas com “graves patologias degenerativas”, assinalando a importância do aspeto espiritual e da relação com Deus num momento em que se perdem capacidades cognitivas.

“Estas patologias desafiam o mundo sociosanitário seja na dimensão da pesquisa, seja na da assistência e do cuidado nas estruturas socioassistenciais, bem como na família, que continua a ser o lugar privilegiado de acolhimento e de proximidade”, acrescentou.

Francisco falou dos idosos como “protagonistas” na vida da Igreja, pedindo que as comunidades católicas sejam exemplo para a sociedade na sua relação com os mais velhos, pessoas “sempre importantes, mais, indispensáveis”.

“Recordemos que a vida humana conserva sempre o seu valor aos olhos de Deus, para lá de qualquer visão discriminadora”, frisou.

A intervenção concluiu-se com uma saudação aos “caros amigos” mais velhos: “Vós não sois apenas destinatários do anúncio da mensagem evangélica, mas sois também sempre anunciadores, de pleno direito, por força do vosso batismo”.

Fonte: Arquidiocese de São Paulo

Angelus: “Não há pecado ou crime que possa cancelar um homem do coração de Deus”

“Não há pecado ou crime que possa cancelar um homem do coração de Deus”: a misericórdia divina foi a tônica da alocução pronunciada pelo Papa Francisco antes do Angelus deste domingo.

Comentando a conversão de Zaqueu, o Pontífice recordou que este trecho narrado no Evangelho de Lucas resume em si o sentido de toda a vida de Jesus, ou seja, procurar e salvar as ovelhas perdidas.

Zaqueu é uma delas. É desprezado porque é o chefe dos publicanos da cidade de Jericó, amigo dos odiados invasores romanos. É ladrão e explorador.

Impedido de se aproximar de Jesus, provavelmente por causa de sua má fama, e sendo pequeno de estatura, Zaqueu sobe em cima de uma árvore para poder ver melhor o Mestre que passa.

“Este gesto exterior, um pouco engraçado, expressa porém o ato interior do homem que tenta elevar-se sobre a multidão para ter um contato com Jesus”, explicou o Papa.

O próprio Zaqueu não sabe o sentido profundo do seu gesto; nem mesmo ousa esperar que possa ser superada a distância que o separa do Senhor; se resigna a vê-lo somente de passagem.

Mas Jesus, quando passa perto desta árvore, o chama por nome: «Zaqueu, desça da árvore porque hoje quero jantar na sua casa» (Lc 19,5). Zaqueu, aliás, é um nome significativo, pois quer dizer “Deus lembra”.

Já naquela época, comentou o Pontífice, existiam os “fofoqueiros”, pois este gesto de Jesus suscitou as críticas de toda a população de Jericó: “Mas como? Com todas as pessoas boas que existem na cidade, escolhe justamente um publicano? Sim, porque ele estava perdido; e Jesus diz: «Hoje a salvação entrou nesta casa, porque ele também é filho de Abraão» (Lc 19,9).

Não existe profissão ou condição social, não há pecado ou crime de qualquer gênero que possa cancelar da memória e do coração de Deus um só filho sequer. “Deus recorda”, não esquece nenhum daqueles que criou; Ele é Pai, sempre à espera de ver com atenção e com amor que renasça no coração do filho o desejo de regressar à casa. E quando reconhece este desejo, mesmo que simplesmente manifestado, imediatamente põe-se a seu lado, e com o seu perdão lhe torna mais leve o caminho da conversão e do regresso.

O gesto de Zaqueu, disse ainda o Papa, é um gesto de salvação. “Se há um peso na consciência ou algo do qual se envergonhar, não se preocupe. Suba na árvore ‘da vontade de ser perdoado’. Eu garanto que não se desiludirá. Jesus é misericordioso e jamais se cansa de perdoar.”

Francisco concluiu pedindo que cada um de nós ouça a voz de Jesus que nos diz: “Hoje quero passar na sua casa”, ou seja, na nossa vida.

Ele pode nos mudar, pode transformar o nosso coração de pedra em coração de carne, pode nos libertar do egoísmo e fazer da nossa vida um dom de amor.

Fonte: News.Va

Agenda Latino-americana 2014 será lançada no dia 25 de outubro

No dia 25 de outubro, às 19h, acontece o lançamento da Agenda Latino-americana 2014, no Centro Pastoral São José.

O tema deste ano é “Liberdade, liberdade!”

Estarão presentes no evento:

Deputada Federal Luiza Erundina
Pastoral do Migrante
Movimento de Defesa do Favelado (MDF)
Comitê Popular da Copa
Movimento Passe livre (MPL)
Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo

Participe!

Nota da CNBB: “Ouvir o clamor que vem das ruas”

Os bispos manifestam “solidariedade e apoio às manifestações, desde que pacíficas, que têm levado às ruas gente de todas as idades, sobretudo os jovens”. A presidência da CNBB apresentou a Nota em entrevista coletiva e o documento foi aprovado na reunião do Conselho Permanente concluída na manhã desta sexta-feira, 21 de junho.

Leia a Nota:

Ouvir o clamor que vem das ruas

Nós, bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunidos em Brasília de 19 a 21 de junho, declaramos nossa solidariedade e apoio às manifestações, desde que pacíficas, que têm levado às ruas gente de todas as idades, sobretudo os jovens. Trata-se de um fenômeno que envolve o povo brasileiro e o desperta para uma nova consciência. Requerem atenção e discernimento a fim de que se identifiquem seus valores e limites, sempre em vista à construção da sociedade justa e fraterna que almejamos.

Nascidas de maneira livre e espontânea a partir das redes sociais, as mobilizações questionam a todos nós e atestam que não é possível mais viver num país com tanta desigualdade. Sustentam-se na justa e necessária reivindicação de políticas públicas para todos. Gritam contra a corrupção, a impunidade e a falta de transparência na gestão pública. Denunciam a violência contra a juventude. São, ao mesmo tempo, testemunho de que a solução dos problemas por que passa o povo brasileiro só será possível com participação de todos. Fazem, assim, renascer a esperança quando gritam: “O Gigante acordou!”

Numa sociedade em que as pessoas têm o seu direito negado sobre a condução da própria vida, a presença do povo nas ruas testemunha que é na prática de valores como a solidariedade e o serviço gratuito ao outro que encontramos o sentido do existir. A indiferença e o conformismo levam as pessoas, especialmente os jovens, a desistirem da vida e se constituem em obstáculo à transformação das estruturas que ferem de morte a dignidade humana. As manifestações destes dias mostram que os brasileiros não estão dormindo em “berço esplêndido”.

O direito democrático a manifestações como estas deve ser sempre garantido pelo Estado. De todos espera-se o respeito à paz e à ordem. Nada justifica a violência, a destruição do patrimônio público e privado, o desrespeito e a agressão a pessoas e instituições, o cerceamento à liberdade de ir e vir, de pensar e agir diferente, que devem ser repudiados com veemência. Quando isso ocorre, negam-se os valores inerentes às manifestações, instalando-se uma incoerência corrosiva que leva ao descrédito.

Sejam estas manifestações fortalecimento da participação popular nos destinos de nosso país e prenúncio de novos tempos para todos. Que o clamor do povo seja ouvido!

Sobre todos invocamos a proteção de Nossa Senhora Aparecida e a bênção de Deus, que é justo e santo.

Brasília, 21 de junho de 2013

Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB

Dom José Belisário da Silva
Arcebispo de São Luís
Vice-presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB

Profanidade do mundo e silêncio de Deus

Maria Clara Bingemer

O pensamento pós-moderno, caracterizado pela “desconstrução” e relativização de todo o edifício conceitual aparentemente sólido da modernidade, questiona também toda tentativa de dizer de forma plena o Absoluto inefável que o Cristianismo e outras tradições religiosas chamamos Deus. Considera igualmente todo discurso com pretensões à universalização e à totalização como redutor e inadequado.

Não seria pertinente, no entanto, admitir como premissa iniludível que vivemos uma época de enfraquecimento da fé em Deus e da reflexão sobre Ele. Ainda que seja certo que a época moderna proclamou a inevitabilidade do declínio das religiões, chegando até a sustentar a tese da morte de Deus, a identificação da modernidade com o humanismo ateu carrega consigo uma redução insustentável. Com efeito, o projeto da modernidade engendrou a indiferença religiosa mais do que a negação de Deus. Ao mesmo tempo, a crise deste projeto demonstrou que uma sociedade, se não encontrar seu fundamento em uma Transcendência – seja dado a ela ou não o nome de Deus – se dissolverá lenta e inexoravelmente.

A proclamação do advento da assim chamada pós-modernidade e do pretenso “retorno” do religioso, permite entrever que é bastante inadequado decretar o banimento de Deus do horizonte humano. E que, ao contrário, a busca de Deus continua a agitar o coração da humanidade, sem levar em conta o risco corrido por todos os discursos “oficiais” sobre Deus de encontrar-se envelhecidos.

Hoje, seria possível encontrar uma concepção que migrou de um Deus pessoal em direção a um Deus mais impessoal e, portanto, mais afastado da tradição cristã. Mas não estaria aí para o homem e a mulher pós-modernos a fascinante oportunidade de descobrir aquele que desde a primeira hora da nossa era, Paulo de Tarso tentava anunciar aos atenienses, procurando o caminho para nomear o Deus desconhecido cujo templo encontrara andando pela cidade(cf. At 17)?

O grande teólogo Karl Rahner afirma, muito certeiramente que se a palavra “Deus”e mesmo sua memória fossem banidos definitivamente do pensamento e discurso humanos, isso não provaria a não existência de Deus. Pelo contrario, o ser humano é que teria desaparecido e mergulhado no nada, fracassando em seu projeto e vocação. Pois Deus é constitutivo do ser humano, em sua identidade em contínua auto-transcendência.

A fragmentação da pós-modernidade vai re-situar o problema de Deus a partir de um reencontro com o primado da alteridade. A partir daí emergirá um novo paradigma inter-subjetivo e relacional que reconduzirá a linguagem humana a encontrar as palavras para dizer o Absoluto pelo qual seu coração anseia. Aí talvez possa voltar a ter sentido uma vida fragmentada pelo estilhaçamento de uma compreensão global totalizante e uniformizante do mundo e da história.

O judeu-cristianismo coloca como caminho possível da identidade do “eu” o rosto do outro. Amar o outro como a si mesmo é, desde o Antigo Testamento, o maior mandamento, paralelo à grandeza de amar a Deus sobre todas as coisas. No Novo Testamento ambos são tomados, segundo Jesus, como resumo, síntese feliz da lei e dos profetas. No cristianismo, portanto, o ser humano é visto como alguém livre. Porém livre para amar. A liberdade não é concebida como uma heteronomia opressiva, no sentido de uma lei exterior que esmaga e destrói a subjetividade, mas é dom gratuito de Deus que coloca e recoloca sempre de novo o homem livremente no caminho do amor, no percurso em direção ao outro.

A visão cristã tenta dar um passo adiante nesse sentido, ao dizer que a liberdade não vem puramente de fora, mas está dentro do ser humano, como inscrição ali gravada, da interpelação epifânica, manifestativa do rosto do outro – do pobre, da viúva, do órfão, do estrangeiro – que institui para ele a única lei, que é a lei do amor. O caminho para Deus hoje, portanto, passa por sua descoberta no sofrimento e na fragilidade do outro. Disso deram testemunho todos os místicos – homens ou mulheres – do último século que, situados no epicentro da injustiça, da violência e do mal, experimentaram a vida em plenitude e a transmitiram como legado a nossa geração.

CRISTO REI! Rei despojado e Salvador!

Celebramos a Solenidade de Cristo Rei, neste final do ano litúrgico.
A solenidade de hoje pode nos passar uma idéia triunfalista ao invés de nos mostrar a Verdadeira face deste Rei Crucificado e servidor!

No dia desta solenidade lemos, este ano, o evangelho de Lucas 23,35-43. Pode parecer desconcertante e sem propósito um Rei assim:pregado na CRUZ!

Um Rei desprovido de poder e glória, sem força!
O que ouve o Rei depojado e crucificado: A outros salvou, salve a si mesmo!
O Rei é desafiado a mostar o seu poder em relação a si mesmo, já que nos
dias de sua vida anunciava e apresentava a salvação a todos que no caminho por Ele optavam.

Lucas nos mostra o Rei despojado entre dois malfeitores, recebendo o castigo mais cruel e desprezivel que se podia ter. Condenado por apresentar e anunciar um Reinado que contrapõe:

Serviço ao poder.
Partilha à acumulação.
Solidariedade ao individualismo.
Liberdade frente a toda escravidão.
Fraternidade ante a dominação.

Os poderes de seu tempo e de todos os tempos terão dificuldades de aceitá-LO.

No momento de aniquilamento diante do desafio de salvar-se e demonstar a força do seu poder. Jesus o Rei despojado atende a oração de um dos malfeitores, executado com e como Ele, e lhe oferece e garante a salvação.

Jesus foi fiel e generoso até o fim. Servidor e Salvador
Rei Crucificado, despojado e Ressuscitado!

Servidor e Salvador sempre!

A cena lucana é comovente e impactante. Mostra que o Rei Crucificado é o Salvador que os Anjos anunciaram no início do seu evangelho.

O Rei Crucificado e despojado foi fiel até o fim.

A cidade e seus muros

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Celebramos o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim. Mais que um muro que dividia em duas uma cidade, representou um mundo bipolarizado entre a União Soviética e os Estados Unidos, cada qual com seus satélites. Representou os tempos da guerra fria e dois sistemas de produção, economia neoliberal e centralizada. Berlim voltou a ser uma cidade livre? O mundo, a circulação das pessoas e o regime democrático voltaram a ser mais livres?

Desde os primórdios do mundo moderno, novas rotas comerciais faziam florescer cidades prósperas. A partir dos séculos XII e XIII, o capitalismo mercantil opõe ao universo feudal, cerrado e autônomo por natureza, uma rede aberta de centros urbanos e interligados entre si. As mercadorias rompem as fronteiras e estabelecem novas comunicações. Os chamados “descobrimentos”, nos séculos seguintes, alargam e aprofundam esses itinerários comerciais, ao mesmo tempo que conferem maior vitalidade e poder às cidades européias.

Está pavimentado o caminho para a Revolução Industrial e para o capitalismo industrial. Os “novos ricos”, ou burgueses, com o acúmulo de capital provindo do comércio, incrementam oficinas, fortalecem a potência das esquadras navais e incentivam os inventos, como a máquina a vapor, por exemplo. Tudo isso exige disponibilidade de braços para uma série de trabalhos. Numerosos servos passam a trocar a “proteção do feudo” pelos ofícios na cidade. Daí o provérbio medieval de que “o ar da cidade torna os homens livres”.

Valeria esse provérbio para a urbanização brasileira? A resposta é forçosamente ambígua. Por um lado, é certo que grande parte dos rapazes e moças, como também das famílias, se livram, através da migração, do patriarcalismo e do coronelismo rurais tão arraigados em nossa trajetória histórica. Os olhos de muitos trabalhadores e trabalhadores, na passagem da zona rural para a zona urbana, se abrem para os próprios direitos e para uma série de coisas novas. Muitos fazendeiros não querem saber de contratar pessoas que já tenham passado pela experiência urbana, seja como operário ou empregada doméstica. Muitos jovens do campo também se recusam a casar com mulheres que tenham trabalhado na cidade. Alegam que não são mais virgens. A verdade é que não as conseguem mais dominar a seu gosto. Se a tradição estática é a marca do campo, o dinamismo da novidade é o oxigênio da cidade.

No campo, as pessoas nascem revestidas de uma série de convenções sociais e de obrigações que passam de pai para filho. Há uma herança tácita que passa inclusive pela religião, o que pode levar a um catolicismo infantilizado. Na cidade prevalece a tendência a uma maior liberdade de escolha. As pessoas nascem nuas e devem abrir uma picada na selva de pedra. Daí a predisposição a solidariedades mais autênticas, menos convencionais, mais amadurecidas.

Por outro lado, não raro, a liberdade do mundo urbano contém armadilhas, com frequência leva aos becos escuros e sem saída. De fato, o conceito de liberdade difundido pela indústria do marketing e da publicidade é a de fazer o que se quer. E liberdade sem regras, sem leis, sem limites, facilmente conduz ao abismo. Que o digam os porões sórdidos da droga, do tráfico, do álcool, da prostituição e da violência! Além disso, os estímulos e apelos das “luzes e sons, cores e sabores, imagens e objetos” do mundo urbano aprisionam a não poucos num consumismo vicioso, cheio de ilusões e modismos, de verdadeira escravidão.

O fato é que as cidades de hoje, especialmente as metrópoles, estão longe de ser territórios sem muros. Estes, ainda que invisivelmente, se estendem por toda mancha urbana. Mosaico ou caleidoscópio, como preferem alguns estudiosos, a cidade reúne e justapõe diferenças que coexistem mas raramente se integram. As diferenças podem ser de natureza sócio-econômica, como condomínios fechados ao lado de favelas; podem ser marcadas pelo víeis religioso e cultural, em que vários povos exibem seus mais variados costumes e expressões; ou de caráter auto-defensivo, dando origem às tribos urbanas, aos guetos ou aos “pedaços” mais ou menos fechados e hostis. Exemplo dessa dicotomia pode ser o trânsito, onde os automóveis mais modernos e equipados trafegam lado a lado com as “carroças” de mais de 30 anos, amassadas e fumarentas, às vezes único meio de sobrevivência de bom número de famílias.

Mas os muros invisíveis tornam-se cada vez mais visíveis. Basta constatar os sistemas de segurança, cuja sofisticação cresce na mesma medida do medo e da segregação. Grades, cercas, câmeras, cães, alarmes e guardas noturnos multiplicam-se por toda parte. Prosperam as companhias de vigilância. Pública ou privada, a segurança investe em novos meios e tecnologia de ponta. Do lado extremo, o crime organizado não deixa por menos, investindo também em armamento pesado e no recrutamento de jovens e adolescentes cada vez mais precoces.

O ar da cidade nos torna livres? Além de poluído pelo gás carbônico, parece adensar-se, por um lado, de luzes, novidades, oportunidades mil, por outro, de medos, fobias, angústias e estresse. Fabricamos gaiolas e nos metemos dentro delas como verdadeiros prisioneiros. Enquanto o muro de Berlim dividia capitalismo e comunismo, os muros de hoje dividem pessoas, grupos, classes sociais, tribos urbanas, gangues, bairros, vizinhos. Pelo menos uma coisa parece esclarecer-se: a fronteira entre o bem e o mal passa por dentro de cada pessoa, de cada língua e de cada cultura.

Na globalização, onde fica o livre arbítrio?

Antônio Mesquita Galvão

“A liberdade é o domínio de nós mesmos
e da natureza, baseado na consciência das necessidades”
(F. W. Engels)

Há algum tempo fui convidado para promover um wokshop, em uma universidade do interior do Paraná sobre uma dialética que os alunos propuseram: globalização e livre-arbítrio. Recordo que comecei a jornada, que teve duração de cinco dias, (40 horas) com a questão: o que é ser livre? Debater a liberdade, ou a falta dela, também é uma forma de praticar a espiritualidade.

Acostumados com livros de história, ciência política, sociologia e outras ciências sociais, a gente sempre se acostumou a ver os autores, nos capítulos finais de suas obras, ou no encerramento de suas conferências, encaminhar tudo para um happy-end, conduzindo o assunto para um melífluo e enganador gran-finale, todo pintado com as cores róseas da utopia alienada de quem não quer que nada mude. Afinal, a mantença do status quo interessa a muita gente…

Eu creio que tentar mascarar as coisas, seria desonesto de minha parte, e contrário a todos os princípios de ética que postulo e anuncio. Fruto dos últimos estertores da ditadura e da desorientação das décadas perdidas (80 e 90), o neoliberalismo, por “direita”, sempre lutou para que as mudanças não ocorram, que as reformas não saiam do papel (e do discurso deles mesmos).

Onde está o Espírito de Deus ali há liberdade (2Cor 3,17)

Sobra-nos alguma utopia ou apenas o amargo da decepção da perda de todos os paradigmas? Suspeita-se que o novo século nos trouxe, com a radicalização da globalização, como que um bloqueio, cada vez maior, de nossa capacidade de decidir. A doutrina globalizante tem por escopo bloquear o senso crítico, a partir do ensino dirigido à juventude. A mudança do quadro sociopolítico, o retorno às origens de bem e de ética, só é possível através de um profundo, sério e comprometido “contrato social”, em que todos tenham a capacidade de pensar. É o que afirma o jurista Tarso Genro (hoje ministro da Justiça), em sua obra “O futuro por armar”. Ed. Vozes 1999:

Há a necessidade e a possibilidade de se adotar um novo tipo de contrato social. Um contrato que tenha como pressuposto que o Estado atual e a nossa representação política tradicional são insuficientes para mediar as novas conflitividades que emergem da globalização econômica e dos parâmetros produtivos, originários da terceira revolução científico-tecnológica. Há 200 anos não criamos novas instituições, não obstante as mudanças profundas que se operaram neste período.

A liberdade do ser humano, é lamentável consignar, está delimitada pelos interesses do mercado. Na verdade, não temos liberdade absoluta, pois a grande mídia, a serviço do poder mercantil, atrela nossas necessidades, básicas ou secundárias, a situações de consumo. Liberdade, livre-iniciativa, livre-arbítrio é aquele direito natural que a pessoa tem para agir, escolher, decidir o que é melhor para si, para sua vida. É preciso, uma vez que a globalização neoliberal se organizou para sufocá-lo de vez, que se resgate esse direito de ser livre, arremetendo, com o apoio da crítica, contra todas as formas de liberalismo que andam por aí, sejam elas morais, ideológicas, econômicas, oficiais. Há que se insurgir contra a idolatria do mercado, contra os efeitos alienantes da mídia, denunciando, pressionando os patrocinadores, estabelecendo boicotes, deixando de comprar este ou aquele produto. É preciso sublevar-se – sobretudo – contra os efeitos da política internacionalizante, que já tirou nossa aposentadoria, saúde e outros direitos. Se deixamos assim como está, logo vamos perder o teto, o pão, a vida.

Foi para a liberdade que Cristo nos resgatou (Gl 5,1).

Segundo os postulados neoliberais (leia-se o ideário de Von Hayek), muitas (ou a maioria) das tarefas da sociedade (e aí se relacionam economia, política, etc.) devem ter sua soluções “confiadas” a peritos, fora da chamada esfera democrática. Utilitaristas como poucos, os neoliberais acreditaram que a democracia só seria boa quando favorecesse a máquina do livre-mercado. Democracia do “poder vindo do povo e em seu nome sendo exercido” é – para “eles”, os capitalistas – uma balela.

E a liberdade? “Ora – dizem os novos senhores feudais do século XXI – isto é bobagem! Para quê o povo quer liberdade? Primeiro não sabe usá-la, e depois tem quem se preocupe com isso e mostre o caminho. Haja vista que alguns, medianamente livres, conduzem mal suas vidas, enchendo-se de filhos, dívidas, más companhias”. É disto que “eles” acusam o povo. Embora se confessem amantes da democracia, os capitalistas (neo)liberais se revelam, na prática, muito pouco afeitos a essa prerrogativa política. A lógica intrínseca da democracia (o poder é de todos) os incomoda, pois preconiza a repartição do poder deles (endinheirados) com os outros (pés-de-chinelo).

Para o dono do capital, conforme o axioma geral de J. S. Mill († 1873), a maioria deve ser governada pelos cultos, inteligentes e donos do capital. Isto está escrito em sua obra “Sobre a liberdade”, (Londres, 1859). No mesmo rastro, Von Hayek vê uma contradição no Estado (que segundo ele deve ser limitado), conceder poderes ilimitados (democracia) à turba.

Mas a questão inicial retorna teimosa: o que é ser livre? Ser livre é exercer todos os direitos humanos. Pois a liberdade, depois da vida é o direito mais fundamental da pessoa. Até o constitucional ir-e-vir escora-se no ser livre. Ser livre, axiologicamente, é fazer tudo o que é bom para nós. Ou, fazer tudo o que se tem vontade de fazer (definição anárquico-existencialista). Ser livre é fazer o que se deve fazer (definição ontológica). A vida em sociedade, regulada por normas de comportamento, não permite ao homem fazer tudo o que pode; muito menos aquilo que quer. Ser livre é desfrutar de liberdade, sim, mas controlar os atos de conduta, de forma autodeterminada, de acordo com os ditames considerados válidos pela ética e pela moral.

Nesse contexto, a liberdade exige sempre condições de ordem social, cultural, política e econômica que tornam possível seu completo exercício. No terreno da moral, ser livre é exercer direitos e deveres frente ao outro. Liberdade é uma relação entre pessoas. Ser livre significa “ser livre para o outro”, uma vez que o outro me liga a ele. De nada me adianta ser livre se eu estiver isolado.

No famoso “paradoxo de Sócrates”, vemos que a virtude se identifica com o conhecimento enquanto que o vício com a ignorância. Assim, desde aquele tempo, a condição para o homem ser livre é ter ciência de sua liberdade, assim como a capacidade de avaliar o bem que dispõe em sendo livre. Na obra de Aristóteles (In: Ética a Nicômaco) vamos encontrar a expressão proairésis como “escolha deliberada” ou decisão voluntária, aquela que é tomada como fruto de uma vontade livre. Trata-se de uma crítica aos paradoxos socráticos, onde erros e pecados não são voluntários, mas fruto de alguma compulsão ou limitação incontrolada.

Em sua magistral obra “O livre-arbítrio” Santo Agostinho afirma que a liberdade de escolha, a capacidade de decidir, em suma, o livre-arbítrio é o que nos diferencia dos animais. Agindo instintivamente, o animal não tem muitas opções de decisão, agindo previsivelmente, conforme sua natureza. O ser humano é diferente. Diante das alternativas que se colocam à sua frente, a pessoa é capaz de decidir, certo ou errado, contra si ou a favor, mas decidir com liberdade. Essa propriedade só o homem possui. Tirá-la, deixando o ser humano sem alternativas, escolhendo por ele, é reduzi-lo à condição animal mais primária, onde apenas o instinto decide.

O livre-arbítrio nasce com a filosofia estóica, que o chamavam de auteksosion, a lei maior da fysis (natureza), única força capaz de orientar a razão, talvez em resposta ao determinismo. Posteriormente seria ampliado sob Tomas de Aquino († 1274) e dogmatizado como essência do ser humano no Concílio de Trento (séc. XVI). É a águia se opondo à galinha Os racionalistas, empiristas e positivistas negam o livre-arbítrio, por julgarem-no contrário à razão.

Com o florescimento dos sistemas sociais, políticos e econômicos, a capacidade de as pessoas usarem seu livre-arbítrio, foi ficando cada vez mais restrita. Embora seja dito que o homem moderno é livre, observa-se que sua atuação é bloqueada por uma série de condicionantes, que o tornam elo de um sistema, uma marionete que se movimenta no placo de acordo com o script. A organização de tantas forças atuantes em nossa sociedade tem limitado a capacidade humana de raciocinar e de tomar decisões. O que o sociólogo austríaco Ivan Illich disse, anos passados, e que foi visto na época como uma crítica ao capitalismo americano, hoje se revela uma brutal realidade:

Logo, logo eles vão transformar a nossa sede em vontade de tomar Coca-Cola. A aprendizagem livre e criativa está afogada na acomodação e burocratização da escola, sustentada por mecanismos eternos de controle que são os exames, estabelecidos para a aprovação e a falta de liberdade de expressão.

Se a gente for olhar a fundo, nosso livre-arbítrio está indo (ou já foi) pro beleléu. A gente vê um comercial, de comida, chocolate, pizza, refrigerante, cerveja e fica com água na boca. A própria Coca Cola, citada por Illich, na década de 50 cunhou o slogan “A pausa que refresca”. Recordam? Nos Estados Unidos, legítimo laboratório do marketing globalizado, criaram recentemente a divisa cheering is thirsty work (torcer dá uma sede!) endereçada ao público dos estádios. No Brasil eles simplificaram: é só o ruído do refrigerante caindo no copo e a frase final: “Enjoy” (curta!). O condicionamento dispensa maiores legendas.

De uma feita, há tempos atrás, um leitor mandou-me um e-mail sobre algumas colocações que fiz em uma crônica de jornal, dizendo não concordar com a afirmação de que “nossa liberdade é relativa”. Para citar exemplos de lugares sem liberdade, ele citou Cuba, China e alguns locais da antiga União Soviética. Na verdade, fiz ver ao leitor que, em Cuba, como em qualquer outra ditadura escancarada, eles “prendem e arrebentam” e ninguém pode dizer nada. Até aí ele tem razão. A diferença é que aqui nos podemos dizer, chorar, denunciar e espernear. Só que ninguém dá bola para as nossas perorações. No Brasil, do jeito que estamos, a liberdade é de fachada, mas não é real. Venderam a Vale, a CELPE, o Meridional, e outras estatais rentáveis. Você queria que vendessem? A sociedade queria? Não! No entanto, para fazer um cash político, o governo vendeu a despeito de nossos protestos, sem dar a mínima importância à nossa indignação. Isto é liberdade?

Todos serão julgados pela lei da liberdade (Tg 2,12)

A aposentadoria, de uma hora para outra, passou a ser algo intangível. A pessoa de cinqüenta anos é velha para conseguir emprego, mas jovem para se aposentar. Alguém deu ouvidos aos nossos clamores? Os pensionistas e aposentados são explorados e ainda vão ter que pagar a conta do sucateamento da Previdência. Subiu a alíquota do Imposto de Renda, assim como subiram remédios, combustíveis, taxas de serviço público. A nação chiou. Alguém ouviu? A gente vota em presidente, governador, senador, deputado e eles fazem o contrário daquilo que queríamos. Isso é liberdade? E onde fica o direito de protesto? As greves foram esvaziadas, os sindicalistas calados sob a ameaça de demissão, os sindicatos falidos com multas e penas de “ilegalidade”. Queixar-se a quem?

Os “supremos” tribunais nacionais, nomeados pelo governo, só decidem em favor deste, em geral à revelia do interesse maior da sociedade. Apenas na Justiça do Trabalho – e assim mesmo os “liberais” querem acabar com ela – ainda decide em favor dos mais pobres. A ditadura da grande mídia, ao nítido estilo macartista, sempre quer provar que, aqueles que não pensam conforme o “sistema”, em favor de um estado “moderno” (leia-se banana, cordato, fantoche, genuflexo ao estrangeiro), é inimigo do país e da modernidade. Por isso, penso que nossa liberdade é relativa. Temos liberdade para ir à praia, ao cinema, ao futebol. Mas não podemos pensar diferente do esquema oficial, pois nossos eleitos não nos representam e decidem quase sempre contra nós. Assim, somos livres para pensar como pensam os áulicos do sistema. Nada mais que isso…

A globalização – e a definição é de Betinho – serve para o processo de anestesia que nos conduz ao consumo em massa. Ao velho Adão foram colocadas duas alternativas, comer ou não do fruto da árvore do bem e do mal. A nós, hoje, pela propaganda globalizada, e pelos estímulos psicossociais, não é dado direito de escolha, Quando menos se espera estamos bebendo Coca-Cola, usando Nike, comendo no McDonald’s, usando a moda internacional, pilotando um “importado” e cantarolando o último sucesso de Bob Dylan.

A globalização, apoiada pela mídia neoliberal (“é preciso levar vantagem em tudo”, lembram?) e pela emergência do mercado, nos tira, em muitos casos o direito de pensar a vida, a moral, a história. E quem denunciou isso, no Fórum Social, por exemplo, foi chamado, por alguns, de retrógrado, membro da “esquerda festiva” e outros encômios padrão das direitas radicais.

A mídia brasileira – eu sempre falo n(d)ela nas minhas conferências – foi como que “colonizada” pela ideologia internacional. A gente liga rádio só escuta música americana. Perece que estamos no Bronx. Essa cooptação -a partir do cultural- só ajuda o capital e não soma nada em favor da população. O homem, quando não tem acesso ao trabalho e à sobrevivência, vira um animal. Quem é incapaz de tomar decisões por si só, é como um índio, um limitado, um bicho. Os reacionários das elites, nacionais e internacionais, não cansam de afirmar que a preocupação com o social é discurso anacrônico, dos anos 70. É de se questionar: existe coisa mais atrasada que transformar pessoas em escravos, em zumbis ou em bichos? É este o modelo de sociedade moderna que eles querem? O governo articula os projetos do capital, a mídia fiel elabora o script e boa parte da sociedade, mesmo as vítimas, se volta contra qualquer tentativa de protesto ou de organização popular. Isso é liberdade?

A superveniência do mercado, como “fim da história”, pregada por Fukuyama no final do século passado hoje é premissa bastante contestada. Mesmo assim, a globalização – por estar a serviço do consumo – ainda é pintada com as cores mais sedutoras. O povo é livre, desde que não se rebele contra a imponência da “liberdade”, senão vêm as trevas e tome polícia, cacetadas, atentados, prisões, jatos de água, dentadas de cães ferozes…

Jesus nos libertou do império das trevas (Cl 1,13).

Com o capital sem bandeira, estandarte da globalização, no seu laissez-faire, vale mais o princípio ético do “é feio perder” do que o respeito aos anseios do homem, desde os mais humildes até os letrados. Os conglomerados fazem todo o tipo de pressão para esvaziar os sindicatos, por exemplo, que a esta altura do campeonato, são praticamente a única voz em defesa da liberdade da classe trabalhadora. O resgate dos valores sociais, como melhora da qualidade de vida humana, traz consigo duas dimensões de transformações. Na dimensão individual, eu devo me conscientizar (esta palavra sofreu anátemas nos tempos da ditadura) da amplitude do problema, mudando e empreendendo novas práticas, com vistas à reforma da sociedade, a partir da base. No segundo aspecto, o social, depois que eu me transformo e adquiro consciência do problema, devo lutar para implantar, na sociedade pluralista em que se vive, um humanismo que seja capaz de banir o individualismo.

É difícil? Vai demorar? As grandes caminhadas sempre começaram pelo primeiro – e decisivo – passo. Buscar as mudanças é um ato de coragem, como que um indicador de que o livre-arbítrio ainda está atuante na busca da ética e do bem comum. É aquela ruptura dos paradigmas que tanto se fala. É preciso mudar. As elites (até algumas religiosas) gostam do pobre humilde, cordato, pedinte, cabeça baixa: é mais fácil manipulá-los. Não admitem organização nem autonomia. Nos anos da ditadura, o secretário de estado americano, H. Kissinger, um dos que mandavam no Brasil, referindo-se a alguns religiosos brasileiros, que incentivavam o povo a exercer o senso-crítico e a buscar direitos, aconselhou o governo a buscar novos missionários, que rezassem mais e pensassem menos. Voltando às elites, elas aceitam que os miseráveis reivindiquem cestas básicas, mas não aceitam que eles pensem com suas próprias cabeças. Não admitem que o pobre faça política. Votar pode; fazer política, não! Isso é liberdade? Sobre esse cerceamento de expressar-se livremente, falando em Paris, certa vez, por volta de 1970, a estudantes universitários, dom Helder Câmara († 1998) disse:

Quando ajudo os pobres, me chamam de profeta. Quando questiono por que há pobres, dizem que sou comunista.

Na verdade, um processo de emperramento sociocultural nos impede de pensar com liberdade. Sempre nos disseram: “você é livre, desde que…”. Essas várias condicionantes foram como que minando a capacidade do povo decidir. Quando veio o neoliberalismo, a globalização e sua mídia, ficamos como aquele cidadão do fecho, do poema de Maiakovski (†1930), “…porque nunca dissemos nada, já não podíamos dizer mais nada”. É o que nos diz Stédile: “lutamos contra três cercas: o latifúndio, o capital selvagem (neoliberal e excludente) e a ignorância”. No roldão do “capital selvagem” eu incluiria a mídia.

No terreno da busca da liberdade há que salientar os movimentos populares, urbanos e rurais, onde as mulheres têm um papel importante nessa luta. Lúcidas, ativas, politizadas e determinadas, elas sabem onde aperta a fome, a injustiça, a discriminação e todas as faltas, de saúde, educação, segurança, moradia, políticas agrárias, etc. Ademais, quando uma liberdade específica é questionada, há um indicativo irrefutável de que toda a liberdade fracassou.

A modernidade está em crise – afirma Frei Beto – porque as quatro grandes instituições, nas quais ela se apoiou, estão em crise: família, igreja, escola e Estado. Sabemos que os modelos antigos não estão vigorando mais. Alguns, numa atitude saudosista, querem ainda manter ou trazer à atualidade aquilo que foi bom no passado. Não é fácil, porque há novos modelos sendo forjados nisso que hoje os filósofos já chamam de pós-modernidade.

O Espírito de Deus me ungiu para libertar… (Lc 4, 18)

É lamentável constatar que na globalização, nosso livre-arbítrio, por causa do ateísmo do capital fica postergado a planos irrelevantes. Liberdade e livre-arbítrio são dons de Deus. Os poderosos não querem que as pessoas pensem; que decidam; que elejam candidatos próprios, etc. A mídia, manipulando habilmente dados, pesquisas e “tendências” já anuncia, meses antes, quem vai ganhar.

O sistema globalizado, de corte eminentemente neoliberal, tem na limitação da liberdade do homem seu maior trunfo para seguir vencendo e dominando. Muito dinheiro (e poder) nas mãos de poucos, gera pobreza e redução de liberdade. Esse ainda é o quadro atual, triste, porém irretocável, da globalização no Brasil e nos países de Terceiro-Mundo. Essa perda de liberdade embrutece o homem e faz infletir sobre toda a sociedade uma avalancha de violência, por vezes incontrolável. É o que Santo Agostinho nos diz, enfaticamente:

Quando tiramos a liberdade do homem, ele passa a agir como um animal, apenas segundo a natureza (e às vezes contra ela). Quando o ser humano é privado do livre-arbítrio, isto é, da capacidade de tomar decisões livres, criam-se as origens do mal moral.

Mensagem da CNBB por ocasião da memória da abolição da escravatura

Brasília – DF, 13 de maio de 2009

“… para dar liberdade aos oprimidos.” (Lc 4, 18)

O sonho de liberdade, desde sempre, moveu o coração humano.

O dia 13 de maio acentua os 121 anos da Assinatura da Lei Áurea que declarou extinta legalmente qualquer forma de trabalho escravo no Brasil. Foi um fato marcante para nosso País, mas que exige um complemento, pois a abolição da escravatura é uma obra inconclusa, devido às precárias condições de vida da população negra.

O sonho ainda não se completou. Há ainda feridas não cicatrizadas e cicatrizes ainda doídas, pois “nenhuma sociedade passa impunemente por quatro séculos de escravidão” (Campanha da Fraternidade 1988, § 52).

A riqueza do Brasil Colônia e Império foi construída, principalmente, pelas mãos dos negros e negras que foram feitos escravos. A memória desse fato motiva a sociedade a estar ciente da dívida que ainda tem para com os descendentes dos povos africanos.

A Abolição da Escravatura não foi acompanhada por medidas de inserção dos afro-brasileiros na sociedade como portadores de direito. Não significou a melhoria nas condições de vida dos descendentes desse povo. Somam-se a esta situação a ameaça à sobrevivência, a desconsideração à cultura e à tradição herdadas.

A CNBB renova neste dia a sua solidariedade para com os afro-brasileiros, e o irrestrito apoio a políticas publicas afirmativas em prol da melhoria de suas condições de vida, sobretudo da população Quilombola. Garantir a esta população a legalização do seu território significa muito mais do que garantir um pedaço de chão: é a certeza de preservação da herança e da cultura de tradição afro-brasileira presente nessas populações.

É preciso aprofundar ainda as políticas afirmativas de inclusão social do restante da população afro-brasileira, especialmente as crianças e jovens. Isso passa por uma educação básica de qualidade, pelo acesso ao ensino superior gratuito e pelo atendimento qualificado nas questões de saúde.

Há preconceitos a vencer. Muitos obstáculos a superar. Mas não estamos sonhando sozinhos. “Deus Amor” sonha conosco, pois “é Pai de todos os homens e mulheres de todos os povos e raças” (Documento de Aparecida, 382).

Que Jesus Cristo, Aquele que revela o rosto de Deus misericordioso “na lógica do seu amor preferencial pelos empobrecidos e marginalizados, rompendo com a mentalidade discriminatória do seu tempo (Lc 4,12-25)” (Campanha da Fraternidade 1988, § 101), nos inspire no compromisso samaritano com toda a população afro-brasileira.

Sob o olhar maternal de Nossa Senhora de Fátima, cuja festa hoje celebramos, proclamando que “é pelo amor que é preciso conquistar o direito de dizer a verdade” (Dom Hélder Câmara), invocamos a Bênção de Deus sobre todos os que se comprometem com esta causa.

Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário Geral da CNBB