Beato

Oscar Romero, o bem aventurado

Maria Clara Bingemer

O povo salvadorenho está em festa e saiu às ruas no sábado, 23 de maio, para celebrar a beatificação de Monsenhor Oscar Romero, arcebispo de San Salvador – capital do país – assassinado no dia 24 de março de 1980, enquanto celebrava a Eucaristia. Após mais de trinta anos, Oscar Romero é declarado beato, o que na Igreja Católica é o passo anterior à canonização, que declara alguém santo.

Por que proclamar beato ao manso, bondoso e ao mesmo tempo aguerrido profeta Oscar Romero?  O que significa a Igreja considerá-lo beato?

A palavra “beato” quer dizer “feliz”, ditoso, bem-aventurado.  Beato é feliz em latim, assim como makarios é feliz em grego.  A última é a palavra usada no Novo Testamento, em Mateus 5 e em Lucas 6, para falar daqueles que são felizes segundo a lógica de Jesus de Nazaré.  Lendo integradamente Mateus e Lucas, beatos – felizes – são os pobres, os famintos que passam fome, mas também têm fome de Deus e confiam nele.  São aqueles que tratam com amor e carinho os outros; os que têm olhos limpos e puros para ver a verdade e dizê-la.  E também os que têm fome de justiça e lutam contra a injustiça e a mentira.  E por isso sofrem perseguição.

Ao proclamar beato Monsenhor Romero, a Igreja o declara feliz, bem-aventurado, segundo a lógica do Evangelho de Jesus.  Como encontramos essa felicidade, essa bem-aventurança na vida desse arcebispo algo tímido, que, de repente, se fez consciente da injustiça que padecia seu povo e transformou-se no mais intrépido e corajoso profeta de que já se ouviu falar na América Latina?

Ao anunciar que Oscar Romero seria beatificado, o Vaticano o declarou “mártir por ódio à fé”. No entanto, é importante deixar bem claro que a Romero não o mataram por recitar bem ou mal um credo, ou por enunciar correta ou incorretamente verdades dogmáticas.  Quem o matou não foram bandidos ou marginais da sociedade salvadorenha.  E sim pessoas que se consideravam e eram vistas como  muito católicas.

Aí vemos a diferença entre fé e religião.  Monsenhor Romero foi acusado de comunista, traidor da pátria e outras tantas ofensas por defender os pobres e contestar os que os perseguiam e matavam.  Seus assassinos eram católicos de missa dominical e ritos praticados, mas não lhes interessava a defesa que o arcebispo fazia dos pobres.  Queriam continuar a gozar em paz de seus privilégios.  Talvez os assassinos de Romero fossem muito religiosos, mas é de se perguntar se realmente tinham fé.  Romero, por outro lado, acusado de, como religioso, meter-se em política, sem dúvida, tinha fé.  E por ódio a essa fé foi morto.

Odeia-se a quem tem fé e põe em prática a justiça que brota da fé e é sua consequência.  Praticar essa justiça é mostrar um grande amor aos que sofrem o peso mortal da injustiça.  Esse é o amor maior, segundo o Novo Testamento, em palavras de São João Evangelista. Amor maior de quem é assassinado por defender os pobres que não têm quem os defenda.

Os que conheceram de perto Oscar Romero são unânimes em afirmar que ali estava um homem de paz: que não queria violência nem morte, mas ao contrário, que a paz florescesse e brotasse como fruto maduro.  Mas também um homem que sabia que a paz é fruto da justiça e, portanto, há que combater a injustice, a fim de que a paz possa florir e frutificar.

Era igualmente um homem de Deus.  É bem conhecida a frase de Ignacio Ellacuría, padre jesuíta igualmente assassinado nove anos depois de Romero, na mesma cidade de San Salvador, reitor da Universidade Católica e amigo próximo do arcebispo: “Com Monsenhor Romero, Deus passou por El Salvador”.

O padre Jon Sobrino, que igualmente trabalhou muito próximo ao arcebispo mártir, nos transcreve essa oração que monsenhor Romero escreveu em seu último retiro antes de ser assassinado.

“Assim concretizo minha consagração ao coração de Jesus, que foi sempre fonte de inspiração e alegria cristã em minha vida.  Assim também ponho sob sua providência amorosa toda a minha vida e aceito com fé nele minha morte por mais difícil que seja.  Nem quero dar-lhe uma intenção como gostaria pela paz de meu país, e pelo florescimento de nossa Igreja, porque o coração de Cristo saberá dar o destino que queira.  Me basta para estar feliz e confiante saber com segurança que nele estão minha vida e minha morte; que apesar de meus pecados, nele pus minha confiança e não serei confundido, e outros prosseguirão com mais sabedoria e santidade os trabalhos da Igreja e da Pátria.“

Bastava-lhe para estar feliz, bem-aventurado, “beato”, sua fé e sua confiança em Deus.  Que o beato Oscar Romero nos ensine essa felicidade tão diferente da que o mundo de hoje propõe, a fim de que possamos investir nossa vida naquilo que é realmente importante.  Amém.

Papa reconhece Dom Oscar Romero como mártir

Papa reconhece Dom Oscar Romero como mártir

O Papa Francisco autorizou, nesta terça-feira, a promulgação do decreto concernente ao martírio do arcebispo de San Salvador, em El Salvador, Dom Oscar Arnulfo Romero Galdámez, assassinado em 24 de março de 1980 enquanto presidia a uma celebração eucarística.

O arcebispo italiano postulador da Causa, Dom Vincenzo Paglia, falará nesta quarta-feira ao meio-dia e meia, hora local, na Sala de Imprensa da Santa Sé, sobre a Beatificação, proximamente, do arcebispo salvadorenho.

Entrevistado pela Rádio Vaticano, Dom Paglia – que é também presidente do Pontifício Conselho para a Família – expressa seus sentimentos:

Dom Vincenzo Paglia:- Estou realmente comovido porque depois de tantos anos, finalmente, se chega à conclusão deste longo processo, desta longa causa, e a alegria é redobrada. Não somente porque os pareceres foram unânimes, tanto da parte dos teólogos quanto da parte dos cardeais, mas também porque há um “quid providencial” no fato de Romero estar prestes a ser declarado Beato pelo primeiro Papa sul-americano da história. Um Papa que pede uma Igreja pobre para os pobres, o que Romero viveu até a efusão do sangue. É uma alegria que significa também uma grande responsabilidade para todos: ainda hoje testemunhas como Romero continuam presentes para dizer que o amor até o limite extremo, o de dar a vida, é aquilo que transforma o mundo e que dá esperança.”

RV: O processo que chega agora à promulgação do decreto reconhecendo o martírio de Dom Romero foi bastante longo. O que o senhor pode nos dizer a esse propósito?

Dom Vincenzo Paglia:- “O processo foi longo, meticuloso e superou todo tipo de problema e, graças a Deus, também todo tipo de oposição.”

RV: O que a Beatificação – proximamente – de Dom Romero, tem a dizer à Igreja de hoje?

Dom Vincenzo Paglia:– “Vejo Romero como um mártir da Igreja que brotou do Concílio, querida por aquela assembleia dos Padres conciliares que pediam que se tomasse o caminho do bom samaritano, colocando-se ao lado dos pobres e dos mais fracos, dos muitos meio mortos, e Romero se fez tão próximo destes que ele mesmo acabou morrendo.”

RV: Qual o maior ensinamento deixado por Dom Romero?

Dom Vincenzo Paglia:– “Era um homem de oração, um homem de Deus, um homem da Igreja, um homem das santas Escrituras, um homem de tradições profundas, que escolheu ficar no meio dos pobres, sabendo que o Reino de Deus, como diz Jesus, está no meio dos mais pobres e caminha com eles. É o ensinamento que une a figura de Romero aos muitos mártires de hoje e ao Papa Francisco, que busca levar-nos todos para o caminho de proximidade e de amor aos mais pobres.”

RV: Há uma frase ou um pensamento de Dom Romero que o senhor gostaria partilhar conosco?

Dom Vincenzo Paglia:– “Quando lhe pediram que se afastasse da arquidiocese porque circulavam vozes preocupantes concernentes à incolumidade sua, ele disse: o pastor está com o povo, sobretudo quando o povo é oprimido, jamais foge, mesmo que custe a vida.” (RL)

Fonte: Rádio Vaticano


Assista abaixo a uma seleção de vídeos sobre D. Oscar Romero:

Anchieta, proclamado “santo” pela Igreja?

Cardeal Odilo Pedro Scherer

A canonização do bem-aventurado José de Anchieta parece estar muito próxima. Além do renovado interesse demonstrado pela Conferência Episcopal do Brasil e por várias dioceses, mais relacionadas com a vida e a obra missionária do Padre Anchieta, agora o próprio papa Francisco está pessoalmente interessado nesta causa.

Em breve, poderemos ter a alegria de ver, finalmente, proclamado “santo” aquele que, já no seu funeral, no final do século 16, foi aclamado por índios e portugueses como “apóstolo do Brasil”. Mas por quais motivos Anchieta deveria ser proclamado “santo” pela Igreja?

Convém recordar quem são os santos na Igreja: são as pessoas que vivem a comunhão e a sintonia com Deus e recebem do Espírito Santo a graça da santidade; Deus é O SANTO, por excelência, que comunica a santidade a quem se aproxima dele. A santidade não é apenas fruto do esforço humano, embora requeira esse mesmo esforço para corresponder com Deus e viver em sintonia com Ele. O santo é uma pessoa de Deus e testemunha da Sua  santidade; testemunha também de Jesus Cristo e do seu Evangelho.

Na Igreja, são os cristãos que correspondem de maneira profunda com a graça santificadora recebida de Deus no Batismo, através da fé, são santos; são aqueles que vivem a “vida nova”, segundo o Evangelho de Cristo, seguindo sua palavra e seu exemplo. Como a graça de Deus é multiforme e também conta com as qualidades humanas, assim a santidade se expressa de muitas maneiras; há os santos da caridade, da missão, do ensinamento, do testemunho excelso das virtudes humanas e cristãs, do serviço à Igreja, da contemplação, da mística, do martírio… Deus é admirável nos seus santos!

Por muitos motivos, Anchieta pode ser considerado “santo” pela Igreja. Foi um missionário generoso e extraordinário, dedicando sua vida ao serviço dos irmãos indígenas, para lhes levar a alegria e as riquezas do Evangelho de Cristo. Uma vida inteira dedicada à missão só é possível mediante uma profunda comunhão com Deus e com a Igreja. Foi catequista e formador de cristãos, discípulos de Cristo. Sofreu por Cristo e pelo Evangelho…

Anchieta é também um dos iniciadores da vida da Igreja no Brasil. Em São Paulo, isto é muito claro. Por isso, tem todo sentido dar-lhe o título de “apóstolo do Brasil”. Ele continua sendo um exemplo e estímulo para a vida da Igreja; somos continuadores da obra missionária de Anchieta e dos outros missionários, que entregaram a vida pelo Evangelho nesta “Terra de Santa Cruz”. Anchieta foi místico e homem de oração e contemplação, testemunha de Deus no seu modo de ser e agir.

Ainda mais: Anchieta viveu a caridade e outras virtudes de maneira extraordinária. Dedicava imenso amor aos doentes, respeito profundo aos indígenas e sua cultura, desejando ajudá-los a crescer nas suas condições humanas e espirituais. Foi um promotor da paz, que não hesitou em entregar-se como refém durante a confederação dos Tamoios, mesmo com riscos para a sua vida, querendo dar mostras de sinceridade nos propósitos e no trato com as partes em luta, enquanto seus confrades negociavam a paz.

E os milagres? Deus pode conceder a graça especial do milagre através da intercessão dos santos. Mas os milagres não são o requisito principal para proclamar um santo e a Igreja pode mesmo dispensá-los na canonização. O essencial mesmo é a vida santa e que o santo tenha sido uma pessoa de Deus, uma testemunha fiel e vigorosa de Cristo e do Evangelho. Anchieta foi tudo isso.