Testemunhos

Pessoas cuja vida é exemplo de fé e caridade

Mensagem de Dom Helder Camara

Frei Betto

De: [email protected]
Para: amigos e amigas

Queridos: estivesse entre vocês, a 7 de fevereiro comemoraria 100 anos de idade. Quis o bom Deus, entretanto, antecipar-me a glória de desfrutar Sua visão beatífica. Aliás, o Céu nada tem daquela imagem idílica que se faz na Terra. Nada de anjos harpistas e nuvens cor-de-rosa, embora a música de Bach tenha muita audiência.

Entrar na intimidade das três Pessoas divinas é viver em estado permanente de paixão. Arrebatado por tanto amor, o coração experimenta uma felicidade indescritível.

A propósito, outro dia, Buda, de quem sou vizinho, me contou esta parábola que bem traduz o caminho da felicidade: numa feira da Índia, entre tantos restos de frutas e legumes, uma mulher fitava detidamente o chão. Viram que procurava algo. Um e outro perguntaram o quê. “Uma agulha”. Não deram importância. Porém, quando ela acrescentou que se tratava de uma agulha de ouro, multiplicou o número dos que a auxiliavam na busca.

Súbito, um deles perguntou: “A senhora não tem ideia de que lado da feira a perdeu?” “Não foi aqui na feira”, respondeu a mulher, “perdi-a em casa”. Todos a olharam indignados. “Em casa?! E vem procurar aqui fora?” A mulher fitou-os e retrucou: “Sim, como vocês procuram a felicidade nas coisas exteriores, mesmo sabendo que ela se encontra na vida interior”.

O Céu é terno, o que não impede que experimentemos indignações. Jesus não fez a fome e a sede de justiça figurar entre as bem-aventuranças? Quando olho daqui para a Igreja Católica confesso que sinto, não frustração, mas uma ponta de tristeza. O papa Bento XVI não transmite alegria e esperança. Faltam-lhe o profetismo de João XXIII e a empatia de João Paulo II.

Padres cantores atraem mais discípulos do que aqueles que se dedicam aos pobres, aos lavradores sem-terra, às crianças de rua, aos dependentes químicos. Nas showmissas os templos ficam superlotados, enquanto nos seminários o ensino de filosofia e teologia costuma ser superficial.

A vida de oração não é estimulada, muitos buscam o sacerdócio para obter prestígio social e, por vezes, o moralismo predomina sobre a tolerância, o triunfalismo supera o espírito ecumênico. Até quando homossexuais serão discriminados por quem se considera discípulo de Jesus?

Alegra-me, porém, saber que as Comunidades Eclesiais de Base estão vivas e se preparam para realizar o seu 12o encontro intereclesial, em Rondônia, no próximo julho. Dou graças a Deus ao constatar que o CEBI – Centro de Estudos Bíblicos – conta com mais de 100 mil núcleos espalhados pelo Brasil, integrados por gente simples interessada em ler a Bíblia pela ótica libertadora.

Preocupa-me, entretanto, a polêmica entre os irmãos Boff. Tanto Leonardo quanto Clodovis são teólogos de sólida formação. Não considero justa a acusação feita por Clodovis de que a Teologia da Libertação teria priorizado o pobre no lugar do Cristo. O próprio Evangelho nos mostra Cristo identificado com os pobres, como ocorre na metáfora da salvação em Mateus 25, 31-46.

Francisco de Assis, com quem sempre me entretenho em bons papos, lembra que sem referência ao pobre, sacramento vivo de Deus, Cristo corre o risco de virar um mero conceito devocional legitimador de um clericalismo que nada tem de evangélico ou profético.

Tenho dito a são Pedro que sonho com uma Igreja em que o celibato seja facultativo para os sacerdotes e as mulheres possam celebrar missa. Uma Igreja livre das amarras do capitalismo, e na qual os oprimidos se sintam em casa, alentados na busca de justiça e paz.

Quanto ao mundo, lamento que a fome, por cuja erradicação tanto lutei, ainda perdure, ameaçando a vida de 950 milhões de pessoas e causando a morte de cerca de 23 mil pessoas por dia, a maioria crianças.

Por que tantos gastos em formas de ceifar vidas, como armamentos, e investimentos que degradam o meio ambiente, como pesticidas, desmatamentos irresponsáveis e cultivo de transgênicos? Por que tão poucos recursos para tornar o alimento – dom de Deus – acessível à mesa de todos os humanos?

Ao comemorarem meu centenário, lembrem-se dos princípios e objetivos que nortearam a minha vida. Malgrado calúnias e perseguições, vivi 91 anos felizes, pois jamais esqueci do que disse meu pai quando comuniquei a ele minha opção pela vida sacerdotal: “Filho, egoísmo e sacerdócio não podem andar juntos”.

Hino homenageia Dom Helder Camara

Na abertura das comemorações dos cem anos de Dom Helder Camara, em 2008, a CNBB realizou uma missa seguida de procissão, da Igreja das Fronteiras até a sede da Conferência, num evento que marcou ainda o lançamento do Hino Oficial do Centenário: “Dom Helder – o Pastor da Paz”.

Composto pelo padre potiguar José Freitas Campos, o hino conta a história de vida de Dom Helder. Segundo o padre, a idéia de compor a homenagem surgiu a partir da trajetória de vida e das obras do Dom: “A inspiração veio da própria pessoa de Dom Helder. O que ele foi e o que representou para o Brasil e para o mundo”, comenta.

De acordo com o compositor, o hino é a história de Dom Helder narrada em verso. “Cada estrofe se refere a um momento da vida dele”, explica. O padre conta que a primeira estrofe relata a origem de Dom Helder e a vida dele em Fortaleza, cidade onde nasceu. Na segunda, há uma referência a ele como padre no Ceará e no Rio de Janeiro. Já a terceira estrofe narra os trabalhos dele como bispo no Rio de Janeiro, como fundador da Cruzada de São Sebastião e como organizador do XXXVI Congresso Eucarístico Internacional.

Nas duas estrofes seguintes, padre Campos conta a atuação de Dom Helder inspirando a fundação da CNBB e do Celam (Conselho Episcopal Latino-Americano) e o trabalho dele na arquidiocese de Recife e Olinda. O autor encerra a homenagem convidando a todos a aplaudir o “Pastor dos sofridos” e a construir um mundo de paz e igualdade.

Para padre Campos, escrever o hino foi uma forma de homenagear a figura de Dom Helder. Ele conta que ficou muito feliz ao saber que a composição seria o Hino Oficial do Centenário: “Para mim foi uma honra, uma alegria muito grande”, comenta.

O Hino “Dom Helder – o Pastor da Paz” será lançado em CD no dia do centenário, na Igreja das Fronteiras, em Recife. Além do hino de padre Campos, o CD contém mais 12 faixas com músicas de diversos compositores, todas homenageando Dom Helder Camara.

Nascido para as coisas maiores

Predestinado para coisas mais elevadas, Dom Helder jamais se acostumou com a miséria do povo e nunca achou normal esse estado de coisas porque ele fere o rosto de Deus e contraria sua vontade, por isso decidiu, obstinadamente, com a ternura e a coragem de pastor, levantar a voz e lutar contra ela com o desejo de derrotá-la.

Depois de dezoito anos do lançamento da encíclica Rerum Novarum do papa Leão XIII em que ele apontava “coisas novas” sobre a situação dos trabalhadores, falava, claramente dos seus direitos e das responsabilidades do capital e do trabalho e defendia o direito dos trabalhadores de se organizarem em associações na tentativa de conseguirem salários mais justos e condições de trabalho mais dignas, nascia Dom Helder.

No tempo de sua formação, no Seminário da Prainha, ele passa a viver essa realidade dramática: “Não pode haver capital sem trabalho nem trabalho sem capital”. Certamente é o início da grande aventura de Dom Helder, abraçando aquilo a que se destinara: “A coragem o conduziu ao que é mais elevado, às coisas maiores”- “Ad maiora nati sumus” – Nascemos para coisas mais elevadas.

Coincidência ou não, ordenado sacerdote em 1931, ano da comemoração dos quarenta anos da Rerum Novarum, o Papa Pio XI lançava a Encíclica Quadragesimo Anno, apontando para a reconstrução da ordem social, ao mesmo tempo, denunciando os efeitos da concentração do poder econômico sobre a grande massa de trabalhadores. É um grito, é um clamor pela justa distribuição da riqueza segundo as exigências do Evangelho, do bem comum e da justiça social.

Em 1961, nos setenta anos da Rerum Novarum, com a Encíclica Mater et Magistra, o Papa João XIII afirma que a Igreja é Mãe e Mestra que prega um Cristianismo que favorece o progresso social; lamenta, profundamente, a crescente distância entre as nações pobres e as ricas; a corrida armamentista e ainda a grande angústia dos campesinos e dos agricultores. Por fim, convoca o Papa da bondade os cristãos para trabalharem em favor de um mundo mais humano, mais justo e mais digno.
No dia 25 de janeiro de 1959, há exatamente 50 anos, “O Bom Papa João” surpreende a Igreja interna e externamente, ao convocar o Concílio Vaticano II cuja realização terá seu início três anos depois em 1962 e já trabalha na formação da comissão preparatória. Nos resultados visíveis do Concílio lá estava o dedo do “homem pequeno na estatura”, mas grande nos sonhos, nos ideais, e que desejava a atualização da Liturgia, buscando, entre outras coisas, a celebração das cerimônias religiosas na língua vernácula de cada povo e com uma participação comunicativa. Voltou-se, também, para o sentido da colegialidade, do ecumenismo e da liberdade religiosa. Queria ele uma Igreja mais simples e mais voltada para o povo. Uma Igreja povo de Deus em comunhão e participação.

Ninguém melhor que Dom Helder Câmara compreendeu todo o contexto da Igreja, a partir de Leão XIII, mostrando os desafios, apontando as “coisas novas” e chegando ao maior evento do século XX, o Concílio Vaticano II. Com a Gaudium et Spes, falava das alegrias e das esperanças, das tristezas e das angústias dos homens de hoje, sobretudo, dos que mais sofrem.

Sua ação pastoral, em meio às novidades do Século XX, nos leva a acreditar que, no Brasil nos dias atuais, apesar das dificuldades e da pobreza, criou-se na população uma consciência dos seus direitos, tornando-a capaz de lutar por um mundo diferente, por um mundo mais humano e melhor, o mundo sonhado por Deus.

Por isso, na feliz coincidência do centenário do artesão da paz e do cinqüentenário da convocação do Vaticano II, não temos dúvida em afirmar que Dom Helder, como todo cristão, nasceu para coisas mais elevadas – “Ad maiora nati sumus”.

Pe. Geovane Saraiva

Dom Helder: Amicus Usque Ad Aras

Pe. Geovane Saraiva

Querendo Deus a redenção do gênero humano e “quando chegou a plenitude dos tempos Deus enviou seu filho, que nasceu de uma mulher e foi submetido a uma lei, para resgatar os que estavam sob a lei” (GL 4, 4). A vontade de Deus é que a nossa felicidade e a nossa realização, que tem seu início quando entramos em comunhão com o projeto divino e nos esforçamos para colaborar com ele na construção do seu Reino.

Deus nos criou pessoas, criaturas humanas, para vivermos em harmonia com ele, com o mundo e os nossos semelhantes. Olhando a história, a caminhada do povo de Deus, constatamos sua forte presença através daqueles que ele enviou. “Ide! Eis que eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos” (Lc 10,3).

A verdade é que nem sempre correspondemos. No Brasil, Deus nos deu Dom Helder Câmara, um enviado do Pai, um amigo do povo, um profeta para os empobrecidos, os “os sem voz e sem vez”, para abrir nossos olhos, nossa mente e nosso coração. Amigo até o altar do “sacrifício”, até aos extremos, como diz o latim: “Amicus usque ad aras”.

Deus enviou muitos profetas, com uma missão sagrada. A vida de Dom Helder foi semelhante a dos profetas, com sua pregação, sua vida de oração e sua mística, construindo caminhos seguros e sólidos, sobretudo, para os fracos e excluídos da sociedade. Com ele nasceu uma nova cultura e uma nova civilização, a cultura e a civilização e do amor, da vida e da esperança, ao contrário dos homens fortes deste mundo, incapazes de gerar sinais de vida e de esperança, uma nova civilização. A força deles se concentra no que é efêmero e passageiro, no emocional e no superficial.

Ele foi um desses profetas que recebeu de Deus um dom e uma graça de ir, de viajar, de denunciar e de interpretar a revelação divina. Um irmão de um coração grande e generoso, que buscou no nosso Deus infinitamente bom e misericordioso e ao mesmo tempo em que mergulhou e compreendeu a realidade do mundo, marcada por seus antagonismos, nela inserida a criatura humana, imagem e semelhança de Deus.

Como profeta, não foi um futurólogo, que antevia, previa. Foi um irmão muito querido, que se esforçou para cumprir bem a missão que lhe foi confiada, falando de Deus e em nome Deus. Foi, em profundidade, um homem que sabia falar e se dirigir ao Pai, através da meditação e da solidariedade, que se concretizaram em tudo que em vida ele fez e realizou.

Dom Helder teve uma clara consciência que o ponto mais alto da criação está na criatura humana. Ele sempre carregou na mente e no coração o relato da criação ao afirmar: “Deus delibera consigo mesmo, quando decide criar o homem semelhante a si” (cf. Gn 1, 26).

Com enorme alegria, temos a consciência de que Dom Helder é patrimônio da humanidade e homem de grande coração, que viveu semeando bondade, esperança e paz, entre cristãos e não-cristãos. Denunciou as injustiças, e entre diversos caminhos, apontou o caminho da vida, o caminho de Deus. E é por isso que no seu centenário, dia 07 de fevereiro deste ano de 2009, dizemos: “Amicus usque ad aras”, isto é, amigo até aos extremos.

Exposição conta a vida de Dom Helder

O ano de 2009 é marcado pelo centenário de nascimento de Dom Helder Camara. Para homenagear e lembrar as ações realizadas pelo arcebispo de Recife e Olinda, diversas comemorações estão sendo realizadas em várias cidades do Brasil e do mundo. As homenagens começaram no início de 2008 e seguirão até o final deste ano. Como parte das comemorações, foi montada a exposição “Dom Helder – Memória e profecia no seu centenário: 1909-2009”, que percorrerá diversas cidades do Brasil.

Montada inicialmente na França, a mostra é em homenagem ao centenário do Dom e foi organizada pela Associação Dom Helder – Memória e Atualidade, sob a curadoria de José Broucker. Segundo o coordenador geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Cesep) e um dos curadores no Brasil, padre José Oscar Beozzo, a exposição foi remontada com algumas adaptações de textos e de fotos, além de acrescentar a perspectiva do centenário.

De acordo com padre Beozzo, a exposição é composta por painéis com textos de Dom Helder, depoimentos sobre a morte do arcebispo e fotos com legendas. “São 25 painéis que retomam alguns pontos centrais da vida de Dom Helder”, explica. Segundo o coordenador, a exposição conta a vida do Dom nas diversas áreas em que atuou.

Padre Beozzo conta que há painéis que relatam atuação de Dom Helder na política, na Igreja, no campo social, na relação com os jovens, no comportamento dentro dos conflitos, como lutador pela paz, na relação com outras religiões, na espiritualidade e na poesia. Além disso, os visitantes ainda encontram, no fim da mostra, uma bibliografia com os livros sobre Dom Helder e os que ele mesmo escreveu.

A exposição, que já passou por São Paulo e Rio de Janeiro, percorrerá ainda outras cidades do Brasil, como Fortaleza e Recife. Segundo padre Beozzo, a exposição foi visitada por cerca de 700 pessoas somente em São Paulo e vários locais estão solicitando a exposição: “Ainda tem uns 20 pedidos que a gente tem que agendar”, comenta.

IDHeC recebe prêmio post-mortem concedido a Dom Helder Camara

Como parte das comemorações do centenário de nascimento do arcebispo emérito de Olinda e Recife, Dom Helder Camara, o Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (CAALL), da Universidade Cândido Mendes, entregou, em dezembro do ano passado, o “Prêmio Alceu Amoroso Lima – Poesia e Liberdade 2008” para o Instituto Dom Helder Camara (IDHeC).

O prêmio foi concedido “post-mortem” a Dom Helder pelas obras de poesias. Marieta Borges, membro do IDHeC, recebeu o prêmio como representante do Instituto e afirma que ele foi um reconhecimento da Universidade ao Dom Helder poeta. Segundo Marieta, Dom Helder publicou 23 livros em prosa e em poesia. “Ele tinha uma linguagem poética até em prosa”, comenta. Ela explica que o “Prêmio Alceu Amoroso Lima” é uma honraria dada a poetas que cantaram a liberdade em forma de poesia.

Na ocasião da entrega do prêmio foi aberta, no Teatro João Theotonio, da Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro, uma exposição sobre a trajetória de vida do Dom, com painéis, livros e documentos que contam a história dele. Intitulada: “Dom Helder Camara: Memória e profecia no seu centenário”, a exposição passará por várias cidades brasileiras: “De lá (Rio de Janeiro), segue para Brasília e vai correr o Brasil”, afirma.

Marieta comenta que as homenagens giram em torno não somente de Dom Helder ligado à Igreja Católica, mas da figura dele como homem, poeta e lutador pela paz e pela liberdade. Assim, ela explica que as comemorações são ecumênicas e as homenagens não são apenas da Igreja, pois a obra dele foi mais além: “Dom Helder era um homem a favor do ecumenismo”, comenta. Ela afirma ainda que o objetivo das comemorações é lembrar a importância dele e das obras que realizou. A intenção, segundo ela, “não é cultuar Dom Helder, mas trazê-lo para a atualidade”.

Somente no dia 7 de fevereiro, data de nascimento dele, haverá: o lançamento do selo nacional comemorativo ao centenário do Dom pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ETC); a inauguração, no Pátio das Fronteiras, da escultura do Dom Helder poeta pela Prefeitura de Recife, através do Projeto “Circuito dos Poetas”; o lançamento do CD “O Dom da Paz”, com canções em homenagem a Dom Helder realizada por diversos compositores; e a Concelebração Eucarística no pátio externo da Igreja das Fronteiras, presidida por Dom Geraldo Lyrio, presidente da CNBB.

Marieta conta que as comemorações do centenário de nascimento de Dom Helder seguem até o final do ano, em várias cidades do Brasil e do mundo. “A festa não vai acabar no dia 7, ela vai se estender por todo o ano”, comemora.

Selo homenageará centenário de nascimento de Dom Helder

O ano de 2009 será marcado por intensas celebrações e homenagens a Dom Helder Camara. Além de comemorar, em fevereiro, os cem anos de nascimento do Dom, em agosto deste ano também será celebrado os dez anos de falecimento dele. Para isso, diversas celebrações e homenagens estão acontecendo, em todo o Brasil desde 2008 e se estenderão até o final deste ano.
Como uma das comemorações do centenário de nascimento de Dom Helder, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) realizará, no dia 7 de fevereiro, data em que ele nasceu, o lançamento Nacional do Selo do Centenário. O evento acontecerá às 15h, no terraço da Igreja da Fronteiras, no bairro da Boa Vista, em Recife.

O selo foi escolhido através de concurso promovido pelos Correios para homenagear os cem anos de nascimento do Dom. A imagem vencedora foi da artista Silvania Branco, que desenhou o perfil de Dom Helder em frente aos dois elementos que marcaram bastante a trajetória do “Pastor da Paz”: a Igreja das Fronteiras, em Recife, local em que o arcebispo emérito de Recife e Olinda viveu e morreu; e a sombra de alguns pobres, pessoas mais assistidas pelo Dom através de trabalhos sociais.

Além do lançamento, o dia 7 também marcará o primeiro dia de circulação do selo, que será vendido em todo o território nacional. As comemorações têm como finalidade homenagear e lembrar a figura de Dom Helder como lutador pela paz e pela liberdade, além de divulgar as obras que realizou em prol da classe mais carente da sociedade.

Irmã Dulce, mais perto da beatificação

A Congregação para a Causa dos Santos aprovou por unanimidade o título de “venerável” para Ir. Dulce, freira que se dedicou aos pobres na Bahia e morreu em 1992, aos 77 anos. O resultado será encaminhado ao Papa Bento XVI que poderá confirmar esse título, penúltima etapa para a beatificação da religiosa.

O anúncio foi feito na terça-feira, 20/01, pelo cardeal primaz do Brasil, D. Geraldo Majella, arcebispo de Salvador. Ir. Dulce era devota de Santo Antônio e desde os 13 anos de idade atuou como “conforto para os pobres e exame de consciência para os ricos”, segundo os teólogos que estudaram a vida da freira e a definiram como “Madre Teresa do Brasil”, pelas semelhanças de seu testemunho cristão com a beata de Calcutá.

Ir. Dulce ficou carinhosamente conhecida como “o anjo bom do Brasil”. Veja mais no site www.irmadulce.org.br, de onde extraímos a apresentação abaixo:


A frase saiu arrastada da garganta.

– Irmã, não me deixe morrer na rua – ele implorou mais uma vez.

– Meu filho, eu não tenho onde colocar você. Isto aqui é um posto médico.

Irmã Dulce procurava na mente uma outra frase para tentar explicar ao pequeno jornaleiro agonizando à sua frente, com malária, que não tinha condições de abrigá-lo, mas não encontrava palavras para uma explicação que o seu coração mostrava ser totalmente descabida. Um nome então saiu espontaneamente dos seus lábios: Ilha dos Ratos, um lugar próximo ao posto médico em que trabalhava, onde existiam casas abandonadas.

Ela sabia que talvez o esforço para socorrê-lo fosse inútil, diante do estágio já avançado da doença. Mesmo assim, não poderia ficar indiferente à dor daquela criança e decidiu lutar contra a febre, a fome, contra o desespero que se expressavam nos lábios trêmulos daquele menino.

– Venha comigo, meu filho.

O seu olhar e a paz transmitida pela sua voz trouxeram uma nova esperança para o pequeno jornaleiro. Irmã Dulce o levou pelas mãos até a Ilha dos Ratos. As casas estavam de fato vazias, mas as portas muito bem trancadas.

– Moço arrombe esta porta por favor – disse para um banhista que vinha passando.

– O que é isso irmã, a senhora ficou doida? Isto tem dono!

– Eu sei moço. Mas arrombe esta porta. Por minha conta.

– Não sei não, irmã…

– Este menino está morrendo. Ele bateu à minha porta na esperança de ser atendido. Deus não atende a todos nós? Não é Ele quem nos dá o ar, a luz, a saúde? Ele recusa alguma coisa quando pedimos com fé, com esperança? Como vamos recusar um pedido de nosso semelhante, do nosso próximo?

A porta foi arrombada e Irmã Dulce acomodou o menino. Em seguida saiu e voltou logo depois, trazendo uma lamparina de querosene, leite e biscoitos e Florentina, uma conhecida que morava nas redondezas e que, a seu pedido, passou a noite tomando conta do pequeno enfermo.

O pequeno jornaleiro seria apenas o primeiro doente recolhido nas ruas, acolhido por Irmã Dulce. No dia seguinte ela foi buscar uma velha mendiga que estava morrendo de câncer sob uma tamarindeira. Depois, um tuberculoso e em pouco tempo, dezenas de doentes estavam abrigados nas casas da Ilha dos Ratos. Para alimentá-los, a jovem freira saia de porta em porta, recolhendo comida.

Algum tempo depois, foi expulsa das casas. Iniciou então uma peregrinação com os seus doentes, que se estendeu por vários anos, até 1949. Primeiro, ela os levou para os arcos da Igreja do Bonfim, mas teve novamente que sair, dessa vez por ordem do prefeito. Foi para o Mercado do Peixe e novamente foi expulsa. Ficaria na rua com os seus doentes? Ela, então, lançou mão de um último recurso: foi à superiora da sua congregação e lhe pediu para abrigar os doentes no galinheiro do convento. Não sem relutância, a madre concordou, desde que Irmã Dulce encontrasse uma solução para as galinhas.

Em pouco tempo, o galinheiro estava limpo, colchões espalhados pelo chão e os 70 doentes abrigados. A madre superiora retornou e elogiou o empenho de Irmã Dulce. Antes de ir, perguntou pelas galinhas:

– Estão todas muito bem, na barriga dos meus doentes.

O albergue improvisado no galinheiro do Convento Santo Antônio, da Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição Mãe de Deus foi o início da grande obra de fé erguida por Irmã Dulce, uma das primeiras organizações não governamentais do país, que conquistou o respeito e a admiração de todos os brasileiros.

Dom Helder: Acusações e defesas

Márcio de Souza Porto *

Em 1970, um boletim interno, mimeografado, do Secretariado Regional Nordeste I da CNBB, presidido por Dom José de Medeiros Delgado, sob o título de ‘Dom Helder Camara: acusações e defesas’ fez um apanhado de notícias e artigos publicados nos grandes jornais do Brasil, a respeito de Dom Helder, desde maio daquele ano. Em relação às acusações, logo no início do boletim, vem assinalado que:

A imprensa brasileira vem desencadeando uma intensa campanha contra a pessoa de D. Helder Camara, Arcebispo de Olinda e Recife. Fatos comprobatórios estamos a encontrar diariamente nas páginas dos grandes jornais do país, numa prova concreta de que o Arcebispo estaria sendo tolhido nas suas manifestações. (1)

A primeira notícia reproduzida pelo citado boletim foi publicada no jornal “O Estado de São Paulo”, em 30 de maio de 1970 e é assinada por Gustavo Corção. O articulista ironiza a homenagem recebida por Dom Helder na Universidade de Louvain, na França, ao ser agraciado com o título de doutor honoris causa daquela instituição de ensino superior de origem católica. Em linguagem ríspida, Corção busca desqualificar todo e qualquer apoio recebido por Dom Helder em solo francês e diz textualmente:

Não há perigo. O Sr. Câmara não completou ainda a rede de viagens que sonhou, e ainda não percorreu todas as prostituídas Universidades ex-católicas que lhe trarão uma bandeja, para ser cuspido, o título de doutor “honoris causa”. (2)

Gustavo Corção sentia-se incomodado por Dom Helder ter sido recebido no “Palais des Sports”, sob aplausos de 15 mil pessoas, a convite do então bispo de Lyon, Dom Alexandre Renard, onde fizera conferência inclusive com a participação de representantes das Igrejas Reformada, Apostólica da Armênia, Ortodoxa Grega e Luterana. Dom Helder era combatido também por jornalistas franceses, como no caso de Jean Marc Kalfleche, do periódico Combat, em artigo reproduzido pelo “Estado de São Paulo” em 3 de julho de 1970. Na abertura do artigo, depois de dizer que seu intuito era reduzir Dom Helder às suas verdadeiras proporções, ataca fortemente o então Arcebispo de Olinda e Recife, dizendo:

Dom Helder Câmara desapontou um pouco seus admiradores franceses, com exceção daqueles que possuem a fé do carvoeiro, isto é uma fé simples e ingênua. O fato é que o Arcebispo de Recife mostra-se bastante diferente de sua caricatura fraudulenta divulgada pela boa imprensa. O que é esse rato de Igreja, pretensamente vermelho, que não canta a glória de S. Camilo Torres, nem o martírio dos índios assados no espeto? Dom Helder não consegue iludir com seu simplismo que só produz boas manchetes. (3)

O jornal “O Globo” de 11 de julho de 1970 reproduziu os principais momentos de uma conferência pronunciada por Gustavo Corção no Conselho Técnico da Conferência Nacional do Comércio em que afirmava que o Brasil estava em guerra. Numa guerra cujas fontes, origens e causas poderiam ser encontradas na França, no início da década de 1930. Sendo Paris o centro de uma disputa entre um humanismo e um desumanismo e que os meios de comunicação e publicidade estavam nas mãos daqueles que defendiam a guerra revolucionária, concluindo que não era de admirar a existência de uma propaganda tendenciosa de correntes que tentavam denegrir a imagem do governo brasileiro no exterior. Diz ainda que ao contrário do que se pensava não fora Dom Helder o primeiro a se levantar contra o Brasil no exterior, mas os provinciais dominicanos que publicaram na “Documentação Católica” uma carta lamentando o que estava acontecendo no país e ao mesmo tempo se solidarizando com os sacerdotes correligionários presos pelo Governo brasileiro.

Dom Helder era atacado por padres, bispos, deputados, jornalistas nacionais e estrangeiros e Arcebispos, como no caso de dom Vicente Scherer, de Porto Alegre que, em entrevista ao “Jornal do Brasil” de 30 de julho de 1970, diz que ele deveria usar o prestígio que possuía em alguns círculos europeus, para desmentir calúnias contra o Brasil e a Igreja brasileira. Dom Geraldo Proença Sigaud, então bispo de Diamantina (MG), declarou ao jornal “Estado de São Paulo”, em 05 de julho de 1970, antes de embarcar para Roma, que a realidade religiosa, política e social do Brasil se apresentava com uma imagem deformada na Europa, como resultado de uma campanha desenvolvida com este objetivo, acrescentando que a ideologia esquerdista dominava largos setores dos meios de informação, inclusive no campo católico. Após manter contatos na Santa Sé, Dom Geraldo dizia que seguiria para a Alemanha para proferir palestras na Baviera e em Wurtemberg, com o objetivo de alertar sobre a existência da campanha difamatória contra o Brasil, retificar o noticiário que se desenvolvia na Europa sobre o Brasil e refutar a imagem que Dom Helder havia espalhado sobre o País em cidades européias.

O “Correio do Ceará” (4) transcreveu artigo escrito por David Nasser construindo suspeitas sobre Dom Helder, indagando quem seria o financiador de suas viagens que denominava de “peregrinações do pior dos ódios”. O “Jornal do Brasil” de 31 de julho de 1970 trazia declarações do Deputado Federal Clovis Stenzel, da ARENA do Rio Grande do Sul, acusando o Arcebispo de Olinda e Recife de “conspurcar a imagem do nosso País e, mais do que isso, continua a dizer inverdades a respeito do que se passa em nossa Pátria”. (5)

Gustavo Corção, não satisfeito com os ataques desferidos contra Dom Helder Camara, escreveu no jornal “o Globo” de 9 de julho de 1970, um artigo no qual Dom Helder é identificado como partidário do terrorismo. Começa dizendo que o Brasil havia iniciado em 1969 uma luta cruel contra o desmantelamento da quadrilha de Marighella e o desmascaramento dos “maus religiosos” que desonravam a ordem dominicana. Aqueles que denominava de “agentes da guerra revolucionária” estavam a serviço de Havana, Pequim ou de Paris, realizando assaltos a bancos e seqüestros de embaixadores, conseguindo inquietar a opinião pública. Por outro lado, os rapazes assaltantes de bancos recebiam de Dom Helder, sem a menor hesitação, afeto e admiração, como ficava patente na entrevista dada por Dom Helder ao L’Express.

O Boletim do Regional Nordeste I reproduz, também, todas as defesas feitas em favor de Dom Helder na imprensa nacional e estrangeira, além de declarações pessoais do Arcebispo de Olinda e Recife, esclarecendo as acusações que lhe eram feitas de ser a favor da violência, sobre quem financiava as suas viagens, suas posições em face do marxismo e do socialismo. No final do documento, Dom Delgado fez publicar a “Voz de Um Bispo”, sobre Dom Helder Câmara, escrito pelo então Bispo de Crateús, Dom Antônio Batista Fragoso. Mais do que uma peça de defesa de Dom Helder, o escrito de Dom Fragoso é um desabafo contra a campanha de difamação da Igreja que se colocava ao lado dos pobres e oprimidos. Dom Fragoso identifica os difamadores, entre eles a 10ª Região Militar, que através de um informativo que se dizia “estritamente confidencial” sobre as atividades políticas, sociais e religiosas de Dom Helder, no final recomendava a divulgação a vários bispos, padres e instituições religiosas, com o único objetivo de desacreditá-lo moralmente dentro da Igreja, para que Dom Helder fosse mais facilmente preso, condenado e expatriado.

Para Moreira Alves (6), Dom Helder decidiu denunciar as torturas cometidas pelo regime militar contra presos políticos, após o assassinato, em 27 de maio de 1969, do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, o primeiro padre a perder a vida sob o terror da ditadura, seu assistente para o meio estudantil, pelo Comando de Caça aos Comunistas, em Recife. De acordo com o Boletim do Secretariado Arquidiocesano de Olinda e Recife – CNBB (7), o Padre Antônio Henrique Pereira Neto tinha 29 anos, era natural de Recife e tinha feito seus estudos eclesiásticos, nos Seminários de Olinda e de João Pessoa, na América do Norte e no Seminário Regional do Nordeste. Foi ordenado sacerdote, pelo Arcebispo Dom Helder Camara, aos 25 de dezembro de 1965, na Matriz de Nossa Senhora do Rosário da Torre, onde havia sido batizado.

Na tarde do dia 26 de maio, como sempre fazia, recebeu vários jovens, no Juvenato Dom Vital, onde permaneceu até pouco depois das 19 horas. Daí saindo, esteve no bairro do Dérbi, na casa da família de um estudante, reunido com outros jovens recifenses. Saindo do Dérbi, dois estudantes levaram-no em condução própria ao Bairro do Parnamirim, onde participou de uma reunião de pais e filhos. Daquele local saiu por volta de 22:30 horas. Uma família que saiu da casa da reunião um pouco depois observou que o padre Antônio Henrique conversava no largo do Parnamirim com algumas pessoas que estavam em uma caminhoneta e com as quais parecia estar partindo.

No dia seguinte, a polícia recebeu a denúncia de que havia uma pessoa morta, em lugar ermo da Cidade Universitária. Um pouco antes das 14 horas, as autoridades eclesiásticas foram avisadas do ocorrido, tendo sido identificado o corpo, definitivamente, no Necrotério Público. Desde que teve notícia do ocorrido, Dom Helder, acompanhado do Bispo Auxiliar, Dom José Lamartine, do Abade do Mosteiro de São Bento, dos Vigários Episcopais e de vários sacerdotes e leigos, dirigiram-se ao necrotério até a conclusão da autópsia.

O sacerdote foi amarrado, arrastado, recebeu três tiros na cabeça e torturas. Dom Basílio Penido, Abade do Mosteiro de São Bento, e médico, acompanhou toda a necropsia. Todos os golpes atingiram a cabeça e o pescoço.

Por volta das 20 horas do dia 27 de maio, o corpo foi conduzido para a Matriz do Espinheiro, onde houve concelebração às 21 horas, com a participação de quarenta sacerdotes e centenas de jovens. Na quarta-feira, dia 28 de maio, houve nova concelebração de quarenta sacerdotes com Dom Helder. O Arcebispo de Olinda e Recife garantiu aos grupos de jovens que não ficariam órfãos. Após as últimas orações dos funerais, na Igreja, o corpo foi conduzido, para o sepultamento por milhares de pessoas a pé. No cruzamento da rua Visconde de Irajá com a rua Visconde de Albuquerque, o cortejo foi interceptado por um pelotão da Polícia Militar. Houve um início de pânico, mas logo se restabeleceu a calma. O Pe. Isnaldo Fonseca dirigiu-se ao comandante que o atendeu e explicou não se tratar de qualquer ação contra o enterro. Porém, não seria permitida a condução de várias faixas com dizeres que denunciavam o bárbaro assassinato do pe. Antônio Henrique. Os policiais militares recolheram rapidamente todas as faixas que continham protestos contra o brutal assassinato do pe. Antônio Henrique Pereira Neto. O cortejo prosseguiu até a Matriz da Torre, onde houve uma parada. Neste templo, o Pe. Antônio Henrique fora batizado, havia feito a primeira comunhão e fora ordenado sacerdote. Dom Helder lembrou estes acontecimentos. O povo foi consultado se o corpo poderia ser conduzido dali para o cemitério da Várzea, em carro, pois ainda faltavam cerca de seis quilômetros para o local do enterramento. A multidão resolveu continuar a pé até o final, ocupando a Avenida Caxangá, passando pela Cidade Universitária até o cemitério. Foi como que um trajeto de reparação, cobrindo possivelmente a trilha do crime, pelo menos em parte. O corpo baixou á sepultura por volta das 13:30 Hs. Dom Helder proferiu algumas palavras e após alguns minutos de silêncio foi rezado um “Pai Nosso”, seguido do hino “Prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão”, da Campanha da Fraternidade.

Na entrada da Cidade Universitária, foi preso o deputado federal cassado, Osvaldo Lima Filho, que acompanhava o enterro e, na Avenida Caxangá, foi registrada também a prisão de um soldado do Corpo de Bombeiros, amigo da família do pe. Antônio Henrique, que ajudava a conduzir o caixão.

No jornal “Diário de Pernambuco”, de 6 de julho de 1969, foi publicada a notícia de que o enfermeiro Ives José Siqueira, que trabalhava e residia em Parnamirim, em depoimento prestado à Secretaria de Segurança Pública, afirmou ter visto Rogério Matos do Nascimento, à noite, às vésperas do crime, dentro de uma Rural com um revólver na mão, juntamente com um comparsa. Embora a Comissão Judiciária, encarregada do Inquérito, nomeada pelo Governador de Pernambuco, já tivesse encerrado seus trabalhos, em razão da importância da testemunha, seus membros assistiram ao depoimento do enfermeiro durante uma hora.

Em 9 de julho de 1969, o Promotor de Justiça da 7a. Vara Criminal, Massilon Tenório Medeiros, denunciou Rogério Matos do nascimento, de 26 anos, ex-estudante e sem profissão, pelo assassinato do Pe. Antônio Henrique Pereira Neto.

Logo que circulou a trágica notícia do trucidamento do Pe. Antônio Henrique, Dom Helder recebeu inúmeras mensagens de solidariedade e de pesar, por telegramas e cartas do Brasil e de diversas partes do mundo, entre as quais a do Papa Paulo VI, do Secretário de Estado do Vaticano, da Presidência do CELAM, da CNBB, de Bispos, Arcebispos, sacerdotes, religiosas e leigos.

A imprensa de Paris divulgou, em 9 de junho de 1969, um apelo em favor do Brasil, com o seguinte texto:

O assassinato do Pe. Antônio Henrique Pereira Neto, assistente da Juventude Católica de Recife, revela brutalmente à opinião mundial a violência dos grupos ocultos que, pelo terror, procuram matar no povo brasileiro toda esperança de libertação. Bispos e padres são os últimos sob o regime militar e ‘católico’, em vigor a poder falar aos pobres. Um a um, estes últimos defensores são reduzidos ao silêncio. Proclamando nossa solidariedade com os 30 padres e leigos cujos nomes se encontram na mesma lista negra do Pe. Pereira Neto, assassinado; – Dom Helder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife, cuja casa já foi metralhada; – o Pe. Geraldo Bonfim, condenado no dia 15 de maio, a um ano de prisão pela Justiça Militar de Fortaleza; – os padres. Antonio Alberto Soligo e João Talpes, presos em São Paulo; – Mário Carvalho de Jesus, o advogado dos trabalhadores de São Paulo, preso de 25 de abril a 10 de maio último; – os padres franceses e americanos expulsos ou acusados nestes últimos meses; – e tantos outros bispos, padres e leigos expostos às ameaças dos terroristas ou à inquisição policial; – nós pedimos, com eles, justiça para todos os brasileiros privados de seus direitos políticos, expulsos das universidades, entregues sem defesa à exploração capitalista, privados das mais elementares garantias jurídicas, – O governo brasileiro dispõe de um poder absoluto; nós lhe dirigimos um apelo em nome dos princípios que ele se atribui a fim de que use deste poder não somente para impedir a periculosidade dos comandos que multiplicam impunemente os atentados, mas ainda para restabelecer o pleno exercício dos Direitos do Homem. Nós dirigimos um apelo, igualmente, à opinião francesa e internacional, a fim de que ela empreste sua voz ao grito abafado de um povo oprimido (8)

No documento, constavam as assinaturas de Jean et Odile Bassé; José de Broucker, des Informations Catholiques Internationales; Robert Buron; Michel de Certeau S. J.; Jacques Chantagner de Temps Présent; Marie-Dominique Chenu O.P.; Pasteur Jean Casali et Mme.; André Cruiziat de Vie Nouvelle; Vicent Cosmao O. P.; Jean Marie Domenach de la Revue Esprit; Pierre et Bernadette Drouet; Abbé Michel Duclercq; Edouard Gueydan S.J.; Aumôner National des Latino-Américains; René Rémond; Mme. Emmanuel Mounier; Pierre Haubtmann, Recteur de L’Institute Catholique de Paris; Henri Lê Duan, Président de L’A.C.O.; Pasteur Lochart, de Christianisme Sociale; Dr. Jean Merilhou; La Paroisse Universitaire; Elia Perroy; Hélène Prouet; Guy Riobé, évêque d’ Orléans et Président du Comité Episcopal Français pour l’Amerique Latine, Pére Congar e outras 400 assinaturas.

Dom Helder Camara, a partir da década de 1970, passou a ser o Bispo da Igreja Católica mais conhecido do mundo, por seu engajamento social e enfrentamento do regime militar no Brasil. Nos anos 60, embora muito mais cauteloso que os membros da Juventude Universitária Católica (JUC), nunca deixou de apoiar seus militantes e de assumir posições reformadoras dentro do catolicismo, o que já o colocava à frente da maioria do clero brasileiro ainda bastante conservador. Os confrontos entre a Igreja e o Estado se acirraram, quando, em 1970, Dom Helder denunciou a tortura no Brasil, durante uma palestra em Paris (9). A represália da ditadura não tardou, e em 1972, em plena Semana Santa, o Pe. José Comblin, assistente de Dom Helder, Coordenador dos Estudos Teológicos do Instituto de Teologia de Recife (ITER), ao tentar desembarcar na capital pernambucana, foi impedido de fazê-lo, obrigado a seguir viagem até o Rio de Janeiro. Nesta capital passou todo o dia 24 de março de 1972 e, no final da tarde, foi embarcado para Bruxelas. Antes do embarque forçado, o Pe. Comblin foi comunicado de que havia um Decreto proibindo-o de desembarcar em qualquer parte do território nacional. Durante o interrogatório, os agentes do aparato repressor do Estado, mostraram-lhe uma carta que ele havia escrito a Dom Fragoso, na qual fazia referências à participação que tivera em um curso de Pastoral, no município de Crateús. O Secretário Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), na época, Dom Ivo Lorscheiter, informado do que estava acontecendo no Galeão, ali permaneceu a tarde inteira, buscando em vão avistar-se com o Padre. As autoridades afirmavam que ninguém estava detido no Aeroporto, muito menos, um padre.

Dom Helder protestou, por escrito contra o banimento do Pe. Comblin, em Recife, no dia 28 de março de 1972, usando as seguintes palavras:

Quem não percebe que o episódio “Comblin” é um capítulo do que vem acontecendo em todo o país com a Igreja, na medida em que ela recusa a continuar servindo de suporte a estruturas de opressão e compromete-se, de modo pacífico, mas válido, com o Povo e a sua libertação? O que há de particularmente grave no caso “Comblin” é que ele é mais um testemunho da marginalização da classe pensante. Ai de quem ousar ter e exercer consciência crítica, ao menos no tocante ao Governo e seus planos.

Quanto ao Povo, se sabe que ele está banido dentro do próprio país, por mais que, em teoria, se proclame que a meta é o homem. E tudo isso se passa em vésperas da abertura das comemorações oficiais do sesquicentenário de nossa independência política. Patriotismo, amor ao Brasil não será a coragem cívica de lembrar que é básico para termos condições morais de festejar o 7 de setembro de 1972 a abolição pura e simples do Ato Institucional nº 5? (10)

Notas:
(1) Cf. Boletim do Secretariado Regional Nordeste I da CNBB. Mimeografado, s/d. 16 p. Arquivo da Sala de História Eclesiástica da Arquidiocese de Fortaleza (SHEAF).
(2) Idem. p. 2.
(3) Ibid,.
(4) Jornal Correio do Ceará, de 23 de julho de 1970.
(5) Cf. Boletim do Secretariado Regional Nordeste I da CNBB.
(6) ALVES, Márcio Moreira. Op. Cit. p. 185-186.
(7) Notícia Sobre o Bárbaro Trucidamento do Padre Antonio Henrique Pereira da Silva Neto, no Recife, a 27 de maio de 1969. Boletim do Secretariado Arquidiocesano de Olinda e Recife (PE). Assessoria de Opinião Pública. Datilografado em 18 de julho de 1969. 14 p. Arquivo da Sala de História Eclesiástica da Arquidiocese de Fortaleza.
(8) Ibid., p. 10.
(9) Ver SERBIN, Kenneth P. Padres, Celibato e conflito social: uma história da Igreja católica no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p 260 – 64.
(10)Comunicado da Arquidiocese de Olinda e Recife, datilografado e assinado por Dom Helder Camara, em 28 de março de 1972, em Recife. Acervo da Sala de História Eclesiástica da Arquidiocese de Fortaleza (SHEAF).

* Mestre em História Social – UFC. Doutorando em Sociologia – UFC

(Artigo publicado originalmente na Agência Adital)

O deserto fértil de Dom Helder

Eugênio Mattos Viola

“Se eu dou comida a um pobre, me chamam de santo, mas se eu pergunto por que ele é pobre, me chamam de comunista”.

Talvez essa frase possa servir como síntese da vida de Helder Pessoa Camara, nascido em 7 de fevereiro de 1909, em Fortaleza, no Ceará.

Combatido pelas elites insensíveis ao sofrimento humano e carregando a cruz do preconceito, ele não se deixou abater e chegou a ser indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz. Percorreu o mundo na luta contra todo tipo de opressão. Mereceu o reconhecimento internacional, enquanto no Brasil seu nome era proibido de ser mencionado pela mídia durante mais de dez anos, no triste período de total cerceamento da ditadura militar, em seguida ao AI-5, em 1968. “A justiça e a paz serão estabelecidas ao fim de tortuoso caminho, de longas marchas e contramarchas em que os homens se irão depurando dos ódios, das vaidades e dos preconceitos. Se o ódio pode ser mais forte e intenso do que o amor, num curto espaço de tempo, só o amor construirá para sempre”, escrevia o editor Ênio Silveira na apresentação de um dos livros de Dom Helder (O Deserto é Fértil), publicado pela Civilização Brasileira, naquele período de trevas. Como Gandhi, abraçou a Perseverança – a Força da Verdade (Satyagraha). Sabia discernir com sua abençoada sabedoria a diferença entre a caridade, que vê no pobre apenas o objeto de sua generosidade – do expurgo de suas culpas conscientes e inconscientes -, daquela que é a verdadeira caridade: a que tenta resgatar os desamparados, ofertando possibilidades concretas de alcançar o que não lhe foi proporcionado na infância ou ao longo da vida, como direito à educação, saúde, salário digno, moradia descente, Ou seja, Esperança e não apenas esmola.

Ordenado padre em 15 de agosto de 1931, em 1952 era nomeado bispo-auxiliar no Rio de Janeiro. Participou da criação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM). Dom Helder alcançou altos cargos na hierarquia eclesial, mas a humildade nunca o afastou do povo de Deus. Teve influência marcante nos novos rumos adotados pela Igreja durante e pós o Concílio Vaticano II, que abriu as janelas do Vaticano para que os ventos da História tirassem a poeira do trono de Pedro. Seu espírito se manifestou leve e sábio nos tantos livros que deixou publicado. Os profetas não se calam. Tornam o deserto fértil, mesmo sob o martírio.

“É bom que ninguém se iluda, ninguém aja de maneira ingênua: quem escuta a voz de Deus e faz sua opção interior e arranca-se de si e parte para lutar pacificamente por um mundo mais justo e mais humano, não pense que vai encontrar caminho fácil, pétalas de rosa debaixo dos pés, multidões à escuta, aplausos por toda a parte e, permanentemente, como proteção decisiva, a Mão de Deus. Quem se arranca de si e parte como peregrino da Justiça e da Paz, prepare-se para enfrentar desertos”. E ele soube enfrentar os desertos com firmeza e mansidão de espírito.

Schopenhauer dizia que “talento é quando um atirador atinge um alvo que os outros não conseguem. Gênio é quando um atirador atinge um alvo que os outros não vêem”. Quando muitos se esforçavam para ‘catequizar’ os jovens, Dom Helder enxergava além e serenamente apontava o caminho: “Os jovens estão sempre com suas antenas ligadas, e sabem muito bem como captar os sinais do amor apaixonado e apaixonante de Deus. Por que falar sempre de ‘prática religiosa’e jamais de ‘prática evangélica’, feita de amor e de coragem, sempre a serviço dos outros? Ao que tudo indica, essa prática não foi abandonada. Muito pelo contrário, eu a vejo em plena ação por onde quer me passe. Se os jovens vão menos à igreja, talvez seja porque nela não encontram adequadamente reunidas a Vida e o Evangelho”. Era uma visão profética, nos idos de 70, do esvaziamento dos templos e seminários, principalmente na Europa e na América do Norte, como constata-se atualmente.”O desespero, na juventude, é a coisa mais terrível que há, tão terrível que mal posso pensar nisso. E, no entanto, me dizem que ele existe aqui, que está ao lado e em torno de vocês! Exorto-vos a não aceitarem de braços cruzados, jamais! A pior coisa que se pode retirar de um jovem é sua esperança no futuro. Tenham coragem e firmeza para auxiliá-los a reconquistá-la”.

Como diz Frei Betto “procura-se incutir nos jovens a idéia de que não adianta querer mudar o mundo, exceto no que se refere à tecnologia e à ciência. Mas há os jovens que lutam por ‘um outro mundo possível’, que preferem injetar utopia na veia do que drogas”. E Dom Helder foi um eterno jovem. A santa utopia corria em suas veias, em seu coração, em suas palavras, dando o fôlego necessário para enfrentar desertos e tempestades.

Não é difícil imaginar o quanto seria enriquecedora a participação de Dom Helder nas atuais divergências entre os irmãos Clodovis Boff e Leonardo Boff sobre a teologia da libertação.

“Não devemos ficar tão presos assim às palavras. É possível que muitas pessoas não hajam compreendido bem a essência da ‘teologia da libertação’, pois ouviram dizer que ela tinha influência marxista, ou coisa parecida. Mas há também os que a entendem, adequadamente, como a redescoberta do poder revolucionário do amor de Deus na história dos homens, o que lhes parece muito perigoso. É por isso que se vê tanto debate em torno da ‘teologia da libertação’, embora seja indiscutível que o Cristo queira que todos os homens lutem pela libertação de seus semelhantes. O progresso humano, a campanha contra as causas das injustiças, a conquista da dignidade, são a maneira mais direta dos homens poderem cooperar para a sua própria redenção e salvação, causas pelas quais o Senhor deu sua vida”. Sem aprofundar muito os pontos de vista levantados por cada um, observo que a síntese do pensamento de Clodovis é de que o pobre não leva necessariamente ao Cristo. O pobre estaria ocupando lugar do Cristo, o que seria uma heresia. Enquanto a visão de Leonardo é justamente contrária, de que “o Cristo leva necessariamente ao pobre, é a Face do Cristo. Diante dessa polêmica, bem ressaltou o teólogo José Comblin: “Quem vai sofrer com essas controvérsias, são os pobres. Os teólogos têm comida garantida, casa garantida. Se são condenados, não vão sofrer muito. Quem vai sofrer serão os pobres na medida em que a Igreja se desinteressa deles por medo de cair numa heresia. Sempre ouvi Gustavo Gutiérrez dizendo que a teologia da libertação pode morrer e não importa. O que importa, são os pobres. Para um cristão a teologia é algo completamente secundário e dispensável. Mas os pobres não são dispensáveis. Não se pode ser cristão sem acolher a mensagem que vem dos pobres”.

Quem terá perdido um pouco da Compaixão? Quem teria trocado – como os fariseus-, o Amor pela Lei? Os que acusam os teólogos da libertação de terem se valido de elementos do marxismo na leitura da História ou os que propõem uma atuação pastoral vertical, voltada para uma dimensão que coloca em segundo plano a Condição Humana?

O que é inquestionável é que a Conferência de Medellín, em 1968, foi o ‘aggionarmento’ da Igreja na América Latina, deixando no passado uma atuação condenável em relação aos índios, aos escravos, aos desamparados, firmando pacto com os Estados e a aristocracia, com as forças opressoras que de cristã nada tinham. Essa chama não pode morrer, ainda que muitos apontem que haveria ‘poeira ideológica’. É um debate rico, que convida à participação até de ‘não-crentes’ na busca de um mundo mais digno e fraterno, como fez o Cardeal Carlo Maria Martini ao se abrir no belo diálogo epistolar com o escritor Umberto Eco no livro “Em que crêem os que não crêem?”. Dom Helder com o olhar voltado para o Ecumenismo já tinha declarado anos antes: “desculpem-me se porventura lhes dei a impressão de que apenas os crentes, os cristãos, é que podem trabalhar por um mundo melhor. Não é assim que penso de modo algum. Quando olho em torno de mim, logo percebo que nem todos os que se dizem crentes têm esperança verdadeira de paz, justiça e felicidade para os homens, para os que vivem nesse mundo de riscos e incertezas, ao passo que muitos daqueles que em nada crêem, que sequer reconhecem a existência de Deus, estão dispostos a participar nos combates da esperança sem receio de colocar suas próprias vidas em jogo. Bem imagino a surpresa que muitos terão quando souberem que o Senhor dirá àqueles que sem O conhecerem – ou reconhecerem – viveram a fraternidade universal: ‘Agradeço-vos por me terdes acolhido, tratado, vestido, alimentado, defendido e amparado contra a injustiça’. Muitos cristãos, muitos católicos terão surpresa ao constatar que não serão eles os únicos convidados a entrar na casa Pai. Pois o coração do Pai é muito mais amplo do que os registros de todas as paróquias do mundo, e o Espírito Santo sopra em todas as direções, mesmo aquelas onde os pés dos missionários não tenham ainda pousado”.

Nesses dias de angústia em que nos sentimos impotentes diante do ‘holocausto dos palestinos’, da fúria israelense sobre Gaza – sem poupar crianças, mulheres e idosos -, Dom Helder dizia ‘por mais que o homem avance na ciência e na técnica, enquanto houver guerras no mundo daremos um triste atestado de falta de amadurecimento espiritual’.

Como as muitas vozes que hoje apontam para a urgência de aprofundamento dos avanços do Concílio Vaticano II de João XXIII, como a necessidade do fim do celibato, da eleição direta dos bispos, da maior participação dos leigos na construção do Reino, da maior inserção das mulheres na hierarquia eclesiástica, do fim da condenação ao homossexualismo. Como as vozes dos apaixonados pela Igreja, que enxergam além de nosso tempo cronológico e sofrem com o esvaziamento dos templos, abrindo espaço ao surgimento e fortalecimento dos falsos pastores e profetas que arrebatam multidões aflitas e assumem o controle da mídia. Como vozes que não atingem o coração da Cúria Romana e são até perseguidos. Como vozes que vêem da América Latina do bispo Dom Clemente Isnard ou da Europa do Cardeal Martini, Dom Helder também já havia se manifestado e deixado como legado em sua biografia espiritual: “sou um velho bispo, e não tenho receio em pedir-lhes que jamais se conformem com as fraquezas, os compromissos, ou talvez até mesmo com as traições da Igreja, assim como jamais perderem a confiança no Espírito do Senhor, que sempre está dentro dela”.

Certa vez, questionado por um grupo de jovens franceses sobre a razão de Deus permitir o sofrimento humano, Dom Helder despiu-se de todas as doutrinas, de toda fria intelectualidade e, numa demonstração de humildade, de quem também chorou no Monte das Oliveiras, respondeu: “Eu bem que gostaria, quando chegar a minha hora de partir para a eternidade, de levar comigo um bom número de perguntas que desejo fazer, um bom número de questões sobre as quais preciso ser esclarecido, um bom número de hipóteses que pretendo verificar. E isso sem falar nos mistérios que jamais chegarei a esclarecer, a respeito dos esforços que Deus faz para ser entendido perfeitamente. Bem sabemos que o Senhor conheceu o sofrimento. Ele foi capaz de chorar. Ele teve de alimentar, de curar, de consolar. Ele já teve de reconduzir um filho aos braços de seus pais. No entanto, quando a agonia O acometeu, Ele próprio não teve dúvida em implorar piedade. Ele jamais nos disse que o sofrimento era bom, necessário ou Justo”.

Dom Helder Camara foi ao encontro do Senhor no dia 28 de agosto de 1999, aos 90 anos de idade. Para ele, já não há mais mistérios ou dúvidas. Para nós, ficou a certeza de uma vida dedicada em plenitude ao amor, humildade e fé. Em fevereiro do ano passado, a Comissão Nacional de Presbíteros, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), encaminhou à Congregação para a Causa dos Santos o pedido de beatificação de Dom Helder Pessoa Camara. Em seu deserto, nasceram flores.

(Eugênio Mattos Viola é jornalista e o artigo acima foi publicado originalmente na Agência Adital)