chuva

Cáritas lança campanha de apoio às vítimas das chuvas

A Cáritas Arquidiocesana de São Paulo abriu uma conta bancária a fim de arrecadar doações para as vítimas das chuvas que têm atingido a região serrana no Estado do Rio de Janeiro nos últimos dias.

Os dados para colaborar são:

Banco Itaú
Ag. 7657, c/c. 10.834-1

O cardeal arcebispo de São Paulo, D. Odilo Scherer, divulgou carta de solidariedade em que afirma que as imagens do desastre natural “são impressionantes e falam por si mesmas. Além das centenas de pessoas que perderam a vida, muitíssimas outras estão feridas ou perderam tudo.” Por isso, ele pede: “faça sua doação generosa e divulgue a conta também entre os amigos e pessoas de seus contatos, encorajando-os a fazerem sua doação solidária.”

As colaborações serão encaminhadas às Cáritas das dioceses de Petrópolis e Nova Friburgo, localizadas nas áreas atingidas.

Em entrevista por telefone ao site da Arquidiocese de São Paulo, o bispo de Petrópolis, D. Filippo Santoro afirma que a região está devastada, “é como se fosse um terremoto”. Ele visitou Teresópolis e o Vale do Cuiabá e disse que as igrejas estão abertas para acolher os desabrigados e desalojados num grande mutirão de solidariedade.

CNBB também se solidariza

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil manifestou na quinta-feira, dia 13, solidariedade às vítimas das vítimas das chuvas no Rio. Em nota oficial, a entidade conclama a sociedade a intensificar as doações. A CNBB, em conjunto com a Cáritas Brasileira, lançou a campanha SOS Sudesde. O presidente da Cáritas, dom Demétrio Valentini sugere que no dia 30 de janeiro todas as dioceses façam uma coleta em favor das vítimas das chuvas.

Onde dormirão os pobres?

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Nunca esquecerei onde estava naquela segunda feira quando o mundo pareceu desabar. De vestido longo, indo para a posse na Academia Brasileira de Letras da queridíssima Cleonice Berardinelli. Não havia táxis e quando se encontrou um, foi preciso enfrentar vários rios de lama e enxurradas de pedras para chegar à Academia. Pior ainda foi voltar para casa, façanha só compensada pelo prazer que foi escutar a fala impecável e refinada de Cleonice com sua voz que parecia música.

Entrar sob um teto seguro e dormir em cama seca foi experiência de alívio até acordar na manhã seguinte com o telefonema angustiado de uma aluna que me dizia não poder sair de casa para ir à universidade fazer a prova. Foi então que a televisão começou a mostrar a sucessão de horrores em que se transformou minha cidade, meu estado, meu povo, minha gente. Em um mar de água, lama e pedras, gente se misturava à enxurrada, pobres corpos arrastados pela força das águas juntamente com tábuas, sofás, geladeiras, televisões, bichos de pelúcia, tristes destroços do que antes eram vidas de pessoas como eu.

Na telinha se sucediam autoridades desorientadas que alternavam conselhos desorbitados para as pessoas deixarem imediatamente suas moradias com considerações inconseqüentes sobre as causas da tragédia, que sempre culpavam os moradores. Como tiveram a idéia de construir seus barracos em semelhante despenhadeiro? Por que insistiam em morar ali? A troco de que não se haviam mudado para outro lugar? Depois começou o circo patético das acusações mútuas, o presidente responsabilizando o governador, o governador jogando a culpa para o prefeito, o prefeito olhando em volta e não tendo a quem culpar e culpando os moradores.

Aos meus ouvidos voltava e voltava, como um refrão doloroso, o título de um já antigo livro do teólogo peruano Gustavo Gutiérrez: Donde dormirán los pobres? Onde dormirão todas estas pessoas que da noite para o dia perderam tudo que possuíam, inclusive o teto que levaram uma vida inteira para ter? Foram enviados para abrigos, escolas, hospitais, CIEPS. Mas…e depois? Quando a chuva passar, quando todo mundo esquecer, quando as encostas voltarem a ser ocupadas porque não há chão, não há teto, não há terra, não há justiça…onde dormirão os pobres?

Onde dormirá o pequeno Vinicius de oito anos para que não morra soterrado enquanto joga videogame sem sequer se dar conta da avalancha que lhe vem por cima? Onde dormirá a telefonista Natalia que falava ao celular com o namorado até dizer o que foi, sem ela saber, seu testamento: “Está caindo tudo aqui. Caiu tudo.” Onde dormirá o filho de seis anos de Verônica de quem os jornais imprimiram o rosto desarvorado diante das águas que o levaram sem que ela pudesse agarrá-lo por um dos braços? E a esposa e filha de Leonardo, estudante de Engenharia que, ao despertar com a lama caindo sobre seu corpo, procurou por elas e já não a encontrou?

Todos eles e elas dormem agora debaixo de muitas camadas de terra, lixo e lama. Ou estão nas gavetas do Instituto Médico Legal esperando que parentes vão reconhecê-los para dar-lhes sepultura. Como eles, muitos outros. Sobem para várias centenas já os mortos no Rio de Janeiro, vítimas da tragédia mais que anunciada que já virou tradição anual das águas de março que este ano vieram mais tarde, em abril, e mais violentas, carregando morro abaixo sonhos, vidas e muito mais.

É fácil culpar os pobres, acusando-os de ignorância e imprudência. Mais ainda : de teimosia por insistir em construir suas casas em terrenos perigosos. Mais fácil ainda culpar os mortos. Todos concordamos que um lixão com toneladas de dejetos não é solo firme nem adequado para se construir habitações onde seres humanos vão morar. Porém quando é a única alternativa e ninguém oferece outra, o que se faz? Ocupa-se o solo que se apresenta, mesmo que seja um lixão. Os pobres não são geólogos nem urbanistas. Vivem em tal precariedade que sua unidade de tempo é o minuto. Com o minuto contam e sobre o minuto presente constroem o pouco que a vida lhes oferece. E em um minuto igualmente perdem tudo, todo o pouco que tinham, e sobretudo as vidas que lhes eram caras e preciosas. E com tenacidade sobre humana se dispõem a recomeçar do zero, com dor redobrada, perdas incalculáveis e teimosa esperança.

Não, senhores, os pobres não têm culpa de estar no lugar errado no momento errado. A responsabilidade é de sucessivos governos que há mais de quatro décadas acompanham o efeito devastador que as chuvas de final de verão realizam em uma cidade cheia de encostas cada vez mais ocupadas por moradias populares e que este ano recebeu uma carga de precipitações de proporções nunca vistas. Como são pobres pode ser adiada a solução? Como não contam nas estatísticas, suas vidas podem estar em risco permanente?

O Cristo Redentor chora sobre a Cidade Maravilhosa como naquele tempo sobre a Jerusalém assassina de profetas. Vê vidas destroçadas, famílias enlutadas, comunidades inteiras destruídas. Seu olhar compassivo se comove vendo os barracões de zinco pedindo socorro à cidade que se espalha a seus pés.

Os movimentos de solidariedade angariam e distribuem donativos por toda parte. A população não fica indiferente. Mas não basta. É urgente uma solução mais permanente. Há que repensar urbanisticamente o Rio de Janeiro. Há que redesenhar com inteligência e cuidado a ocupação de suas encostas. E isso é solução a médio e longo prazo. Não a toque de caixa em ano eleitoral com ritmo eleitoreiro. São vidas, muitíssimas que estão em jogo. Não é brincadeira.

Enquanto esta estratégia urbana não for pensada e, sobretudo executada seriamente, ficará sem resposta a grave e profunda pergunta lançada por Gustavo Gutiérrez: “Onde dormirão os pobres”? Tomara que enquanto esta pergunta ressoar sem resposta, nenhum de nós consiga repousar a cabeça no travesseiro e dormir.

Chuva não castiga ninguém

Frei Gilvander Moreira

Nos primeiros dias de janeiro de 2010, a população brasileira viu-se aterrorizada por notícias da Mídia – Grandes meios de comunicação –, tais como: a) Chuvas castigam o estado do Rio de Janeiro, onde deslizamentos de encostas na Ilha Grande e na cidade de Angra dos Reis fizeram centenas de vítimas, sendo mais de 50 mortos; b) Chuvas em demasia castigam o rio Grande do Sul, onde uma ponte sobre o rio Jacuí, na RS-287, desabou. Muitas pessoas que estavam sobre a Ponte desapareceram. Várias pessoas foram resgatadas e outras continuam desaparecidas; c) Chuva torrencial arrasou o conjunto urbanístico histórico de São Luis do Paraitinga, em São Paulo, onde, inclusive uma igreja centenária desabou.

Esses são estragos provocados pelas mudanças climáticas, eufemisticamente consideradas pela Mídia como “chuvas intensas”, e comprovadamente acima das médias regionais, em várias regiões do país. As notícias, acima referidas, deixam claro que não há como se sentir totalmente seguro em vista das mudanças climáticas em curso. Construções de concreto se derretem em vista da força das águas. Tudo o que era de concreto desmanchou como papel diante dos olhos perplexos da população. A conclusão a que chegamos é que não existe mais tecnologia 100% eficiente e eficaz diante de tantas mudanças desmedidas nos fenômenos naturais. “Tudo o que era sólido, se desmancha no ar”, já alertava Marx no Manifesto Comunista.

Se pensarmos bem, veremos que as notícias veiculadas da forma como referidas acima são grandes mentiras. Primeiro, porque a chuva é benfazeja, cai sobre justos e injustos (Mateus 5,45), é reflexo da bondade de Deus, que é infinito amor. Deus rega com a chuva a terra que deu como herança ao seu povo (1ºReis 8,36). “Mandarei chuva no tempo certo e será uma chuva abençoada” (Ezequiel 34,26), assim o profeta Ezequiel consola o povo em tempos de exílio e de escassez de chuva. A sabedoria do povo da Bíblia reconhece que Deus solidário e libertador “através da chuva alimenta os povos, dando-lhes comida abundante.” (Jó 36,31). Na Bíblia se fala de chuva mais de cem vezes. Até no dilúvio, a chuva é vista como purificadora (cf. Gênesis 6 a 9). Sob o império dos faraós no Egito, a chuva de granizo é vista como uma praga em cima dos opressores e como uma dádiva de Deus que liberta da opressão (cf. Gênesis 9 e 10).

A chuva não castiga e nem desabriga ninguém, apenas revela uma injustiça sócio-econômica e política existente anteriormente. Logo, quem castiga e desabriga, em última instância, é o sistema capitalista que descarta as pessoas e as condena a sobreviverem em encostas e áreas de risco. Quem é atingido quando a chuva chega exageradamente, salvo exceções, são as famílias que tiveram seus direitos humanos – direito à moradia, ao trabalho, à educação, a um salário justo, ao meio ambiente equilibrado e à dignidade – desrespeitados pelo capitalismo neoliberal e por pessoas que adoram o deus capital, o maior ídolo da atualidade.

O falso evangelho do capitalismo inicia-se assim: “No princípio está o capital. No meio está a concorrência, a competição. No fim está a acumulação, a concentração de renda, de riqueza e de poder”. Capital é dinheiro investido para gerar mais dinheiro.

A Campanha da Fraternidade de 2010, com o tema “Economia e Vida” e com o lema “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mateus 6,24), propõe um evangelho para todo o povo e para toda a biodiversidade: No princípio está a vida. No meio, os meios necessários para efetivar a vida. No fim, o bem-estar de todos e tudo. Não apenas a vida do ser humano e nem só de alguns, mas de todas as pessoas e de todos os seres vivos. Logo, urge construir uma sociedade sustentável, onde a preservação dos bens naturais seja o carro chefe e não o crescimento econômico só para alguns.

Um desafio inadiável é percebermos as relações entre as tempestades e o aquecimento global, entre o aquecimento global e o efeito estufa, entre o efeito estufa e a emissão de fases CO2 e outros, entre a emissão de gases CO2 e outros e o modelo industrial vigente (capitalismo neoliberal), entre o capitalismo neoliberal e a mentalidade ocidental conquistadora, e a relação desta com o ser humano, seu Criador e todas as outras criaturas.

Logo, dizer que “a chuva castiga” é reducionismo que esconde o maior responsável por tanta dor e tanto pranto: o sistema capitalista.

Santa Catarina

Dom Demétrio Valentini *

Adital – As imagens das enchentes em Santa Catarina se fixaram em nossas retinas, e continuam interpelando nossa solidariedade.
Ainda é cedo para balanços definitivos. Até porque as conseqüências desta inesperada calamidade ainda continuarão se desdobrando de diversas maneiras. E o momento ainda requer prioridade absoluta para o possível socorro que possa ser dado à população atingida de maneira tão dura por esta catástrofe.

Uma constatação conforta: a solidariedade de todos, tanto de perto como de longe, se agigantou diante do tamanho do desastre que atingiu a população catarinense. Claro que isto acarreta o desafio de canalizar o mais rápido possível o fruto desta solidariedade, para que chegue sobretudo aos que mais foram penalizados.

Permanece a dor maior, e irreparável, da perda de vidas humanas. Diante desta dor, sabemos bem, a atitude mais conveniente é o silêncio e o respeito, sobretudo na presença de quem chora os familiares e amigos falecidos.

Enquanto isto, perguntas vão surgindo, inundando nosso espírito com interrogações que a seu tempo precisarão ser respondidas de maneira adequada.

Uma delas é de ordem ecológica, e nos faz perguntar se esta é a medida das reações provocadas pelo desequilíbrio ambiental. Se assim é, o que será que nos aguarda daqui para a frente? E que providências indispensáveis precisaríamos tomar, se este fenômeno de todo inesperado é uma advertência da natureza tão maltratada por nossa intervenção humana.

Outra evidência que emerge desta calamidade é de ordem administrativa. E nos faz perguntar pelo tamanho da responsabilidade que pesa sobre todos os administradores públicos, tanto os incumbidos de planejar, como de executar ou fiscalizar os planejamentos urbanos.

A situação vivida em Santa Catarina merece ser colocada diante da consciência política de todos os cidadãos. Para que assim se crie aos poucos uma visão muito mais comprometida com a segurança coletiva de todos, baseada na implementação de uma adequada infra-estrutura, que esteja de acordo em primeiro lugar com as condições ambientais, e tenha a suficiente consistência estrutural.

Muitas vezes é mais fácil, e mais popular, enfeitar as cidades com maquiagens do embelezamento superficial, do que garantir os investimentos necessários para a infra-estrutura que procure maior segurança efetiva para toda a população.

Enquanto ainda estamos empenhados em fazer chegar aos nossos irmãos catarinenses a ajuda emergencial que está ao nosso alcance, e a energia de nossa solidariedade humana, vamos colhendo desta inesperada situação as lições que pudermos assimilar.

A experiência da Cáritas nos alerta para outra constatação, que convém fazer logo: enquanto ainda todos nos sentimos ligados à emergência, a solidariedade toma forma concreta, e expressão fácil. Enquanto a situação continua sendo divulgada, os gestos fluem espontâneos. O mais difícil vem depois, no momento da reconstrução. Aí se requer providências mais duráveis, motivação mais consistente, trabalho mais capacitado, e recursos mais abundantes. Será necessário conjugar bem as responsabilidades estatais, com a indispensável participação da cidadania, sobretudo para tornar eficaz o desejo que todos temos de ver o quanto antes o povo de Santa Catarina retomar sua vida, com o dinamismo e a laboriosidade que o caracterizam.

Que o tamanho da calamidade seja superado pela grandeza da solidariedade que despertou em todo o país.

* Bispo de Jales, São Paulo.

Uma reflexão sobre a Tragédia em Santa Catarina*

As imagens de morros caindo, de desespero e morte, de casas, animais e automóveis sendo tragados por lama e água, vivenciadas por centenas de milhares de pessoas no Vale do Itajaí e no Litoral Norte Catarinense nos últimos dias, são distintas, e muito mais graves, das experiências de enchentes que temos na memória, de 1983 e 1984.

Por que tudo aconteceu de forma tão diferente e tão trágica? Será que a culpa foi só da chuva, como citam as manchetes? Nossa intenção não é apontar culpados; mas mencionar alguns fatos para reflexão, para tentar encaminhar soluções mais sábias e duradouras, e evitar mais e maiores problemas futuros.

Houve muita chuva sim. No médio vale do Itajaí ocorreu mais que o dobro da quantidade de chuva que causou a enchente de agosto de 1984. Aquela enchente foi causada por 200 mm de chuva em todo o Vale do Itajaí. Agora, em dois dias foram registrados 500 mm de precipitação, ou seja, 500 litros por metro quadrado, mas somente no Médio Vale e no Litoral.

A quantidade de chuva de fato impressiona. Segundo especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), a floresta amazônica é a principal fonte de precipitações de grande parte do continente e tudo o que acontecer com ela modificará de maneira decisiva o clima no Sul e no norte da América do Sul. Assim, as inundações de Santa Catarina e a seca na Argentina seriam atribuídas à fumaça dos incêndios florestais, que altera drasticamente o mecanismo de aproveitamento do vapor d’água da floresta amazônica. Outros especialistas discordam dessa hipótese e afirmam que houve um sistema atmosférico perfeitamente possível no Litoral Catarinense.

Existe uma periodicidade de anos mais secos e anos mais úmidos, com intervalo de 7 a 10 anos, e entramos no período mais úmido no ano passado. Esse mecanismo faz parte da dinâmica natural do clima. De qualquer forma, outros eventos climáticos como esse são esperados e vão acontecer.
Mas o Vale do Itajaí sabe lidar com enchentes melhor do que qualquer outra região do país. Claro que muito pode ser melhorado no gerenciamento das cheias, à medida que as prefeituras criarem estruturas de defesa civil cada vez mais capacitadas e à medida que os sistemas de monitoramento e informação forem sendo aperfeiçoados.

De todos os desastres naturais, as enchentes são os mais previsíveis, e por isso mais fáceis de lidar. Os deslizamentos e as enxurradas não. Esses são praticamente imprevisíveis, e é aí que reside o real problema dessa catástrofe.

É preciso compreender que chuvas intensas são parte do clima subtropical em que vivemos. E é por causa desse clima que surgiu a mata atlântica. Ela não é apenas decoração das paisagens catarinenses, tanto como as matas ciliares não existem apenas para enfeitar as margens de rios. A cobertura florestal natural das encostas, dos topos de morros, das margens de rios e córregos existe para proteger o solo da erosão provocada por chuvas, permite a alimentação dos lençóis d´água e a manutenção de nascentes e rios, e evita que a água da chuva provoque inundações rápidas (enxurradas).

A construção de habitações e estradas sem respeitar a distância de segurança dos cursos d’água acaba se voltando contra essas construções como um bumerangue, levando consigo outras infra-estruturas, como foi o caso do gasoduto. Esse é um dos componentes da tragédia.

Já os deslizamentos, ou movimentos de massa, são fenômenos da dinâmica natural da Terra. Mas não é o desmatamento que os causa. A chuva em excesso acaba com as propriedades que dão resistência aos solos e mantos de alteração para permanecerem nas encostas. O grande problema de ocupar encostas é fazer cortes e morar embaixo ou acima deles. Há certas encostas que não podem ser ocupadas por moradias, principalmente as do vale do Itajaí, onde o manto de intemperismo, pouco resistente, se apresenta muito profundo e com vários planos de possíveis rupturas (deslizamento), além da grande inclinação das encostas. E é aí que começa a explicação de outra parte da tragédia que estamos vivendo.

A ocupação dos solos nas cidades não tem sido feita levando em conta que estão assentadas sobre uma rocha antiga, degradada pelas intempéries, e cuja capacidade de suporte é baixa. Através dos cortes aumenta a instabilidade. As fortes chuvas acabaram com a resistência e assim o material deslizou.

A ocupação do solo é ordenada por leis municipais, os planos diretores urbanos. Esses planos diretores definem como as cidades crescem, que áreas vão ocupar e como se dá essa ocupação. Por falta de conhecimento ecológico dos poderes executivo, judiciário e legislativo (ou por não leva-lo em consideração), o código florestal tem sido desrespeitado pelos planos diretores em praticamente todo o Vale do Itajaí, e também no litoral catarinense, sob a alegação de que o município é soberano para decidir, ou supondo que a mata é um enfeite desnecessário. Da mesma forma, as encostas têm sido ocupadas, cortadas e recortadas, à revelia das leis da Natureza.

Trata-se de uma falta de compreensão que está alicerçada na idéia, ousada e insensata, de que os terrenos devem ser remodelados para atender aos nossos projetos, em vez de adequarmos nossos projetos aos terrenos reais e sua dinâmica natural nos quais irão se assentar.

A postura não é diferente nas áreas rurais, onde a fiscalização ambiental não tem sido eficiente no controle de desmatamentos e intensidade de cultivos em locais impróprios, como mostram as denúncias frequentes veiculadas nas redes que conectam ambientalistas e gestores ambientais de toda região. A irresponsabilidade se estende, portanto, para toda a sociedade.

Deslizamentos, erosão pela chuva e ação dos rios apresentam fatores condicionantes diferentes, mas todos fazem parte da dinâmica natural. A morfologia natural do terreno é uma conquista da natureza, que vai lapidando e moldando a paisagem na busca de um equilíbrio dinâmico. Erode aqui, deposita ali e assim vai conquistando, ao longo de milhões de anos, uma estabilidade dinâmica. O que se deve fazer é conhecer sua forma de ação e procurar os cenários da paisagem onde sua atuação seja menos intensa ou não ocorra.

As alterações desse modelado pelo homem foram as principais causas dos movimentos de massa que ocorreram em toda a região. Portanto, precisamos evoluir muito na forma de gestão urbana e rural e encontrar mecanismos e instrumentos que permitam a convivência entre cidade, agricultura, rios e encostas.

Por isso tudo, essa catástrofe é um apelo à inteligência e à sabedoria dos novos ou reeleitos gestores municipais e ao governo estadual, que têm o desafio de conduzir seus municípios e toda Santa Catarina a uma crescente robustez aos fenômenos climáticos adversos. Não adianta reconstruir o que foi destruído, sem considerar o equívoco do paradigma que está por trás desse modelo de ocupação. É necessário pensar soluções sustentáveis. O desafio é reduzir a vulnerabilidade.

Uma estranha coincidência é que a tragédia catarinense ocorreu na semana em que a Assembléia Legislativa concluiu as audiências públicas sobre o Código Ambiental, uma lei que é o resultado da pressão de fazendeiros, fábricas de celulose, empreiteiros e outros interesses, apoiados na justa preocupação de pequenos agricultores que dispõe de pequenas extensões de terra para plantio.
Entre outras propostas altamente criticadas por renomados conhecedores do direito constitucional e ambiental, a drástica redução das áreas de preservação permanente ao longo de rios, a desconsideração de áreas declivosas, topos de morro e nascentes, além da eliminação dos campos de altitude (reconhecidas paisagens de recarga de aqüíferos) das áreas protegidas, são dispositivos que aumentam a chance de ocorrência e agravam os efeitos de catástrofes como a que estamos vivendo. Alega o deputado Moacir Sopelsa que a lei ambiental precisa se ajustar à estrutura fundiária catarinense, como se essa estrutura fundiária não fosse, ela mesma, um produto de opções anteriores, que negligenciaram a sua base de sustentação.

Sugerimos que os deputados visitem Luiz Alves, Pomerode, Blumenau, Brusque, só para citar alguns municípios, para aprender que a estrutura fundiária e a urbana é que precisam se ajustar à Natureza. Dela as leis são irrevogáveis e a tentativa de revogá-las ou ignorá-las custam muitas vidas e dinheiro público e privado.

É hora de ter pressa em atender os milhares de flagelados. Não é hora de ter pressa em aprovar uma lei que torna o território catarinense ainda mais vulnerável para catástrofes naturais.

* Assinam:
Prof. Dra. Beate Frank (FURB, Projeto Piava)
Prof. Dr. Antonio Fernando S. Guerra (UNIVALI)
Prof. Dra. Edna Lindaura Luiz (UNESC)
Prof. Dr. Gilberto Valente Canali (Ex-presidente da Associação Brasileira de Recursos Hídricos)
Prof. Dr. Hector Leis (UFSC)
João Guilherme Wegner da Cunha (CREA/CONSEMA)
Prof. Dr. Juarês Aumond (FURB)
Prof. Dr. Julio Cezar Refosco (FURB)
Prof. Dr. Lino Fernando Bragança Peres (UFSC)
Prof. Dra. Lúcia Sevegnani (FURB)
Prof. Dr. Luciano Florit (FURB)
Prof. Dr. Luiz Fernando P. Sales (UNIVALI)
Prof. Dr. Luiz Fernando Scheibe (UFSC)
Prof. Dr. Marcus Polette (UNIVALI)
Prof. Dra. Noemia Bohn (FURB)
Núcleo de Estudos em Serviço Social e Organização Popular – NESSOP (UFSC)
Prof. Dra. Sandra Momm Schult (FURB)
Equipe do Projeto Piava (Fundação Agência de Água do Vale do Itajaí).
Se você também quer uma discussão mais aprofundada sobre o Código Ambiental e deseja que os parlamentares saibam disso, acesse o site www.comiteitajai.org.br/abaixoassinado

(texto publicado originalmente na Agência Adital)

Bispo de Blumenau

A grande imprensa sempre em busca de sensacionalismo deu pouco ou nenhum destaque para a entrevista de D.Angélico, bispo de Blumenau.

O grande bispo, que já foi de São Miguel Paulista e da Brasilândia em São Paulo, sempre marcou sua atuação episcopal pelo profetismo e ternura pastoral.

Em entrevista pouco divulgada pela grande mídia que valoriza a liberdade de informação, mostrou a raiz do sofrimento do povo catarinense e denunciou a maquiagem promovida pelo poder publico e o abandono das obras de infra estrutura, principalmente nos bairros mais pobres, e os efeitos da especulação imobiliária. O prefeito de Blumenau é do DEM, mesmo partido do seu colega de São Paulo, qualquer semelhança é mera coincidência

Como é bom termos, ainda, Bispos como D.Angélico que revelam o coração de Jesus o Bom Pastor que dá a vida por suas ovelhas.

D.Angélico, estamos com o senhor e pedimos a sua bênção.