Copenhague

Notas da CNBB sobre Código Florestal e Ficha Limpa

CNBB

O Conselho Episcopal de Pastoral da CNBB (Consep) divulgou duas notas ao final de sua reunião, nesta quinta-feira, 17. Uma das notas manifesta a posição da Conferência dos Bispos acerca das reformas do Código Florestal, aprovadas em julho pela Comissão Especial da Câmara dos Deputados. Na segunda nota, os bispos pedem a plena aplicação da lei 135/2010, conhecida como Ficha Limpa. More →

O que está em jogo em Copenhague

Leonardo Boff

Em Copenhague os 192 representantes dos povos vão se confrontar com uma irreversibilidade: a Terra já se aqueceu, em grande, por causa de nosso estilo de produzir, de consumir e de tratar a natureza. Só nos cabe adaptamo-nos às mudanças e mitigar seus efeitos perversos.

O normal seria que a humanidade se pergunta, tal como um médico faz ao seu paciente: por que chegamos a esta situação? Importa considerar os sintomas e identificar a causa. Errôneo seria tratar dos sintomas deixando a causa intocada continuando a ameaçar a saúde do paciente.

É exatamente o que parece estar ocorrendo em Copenhague. Procuram-se meios para tratar os sintomas, mas não se vai à causa fundamental. A mudança climática com eventos extremos é um sintoma produzido por gases de efeito estufa que tem a digital humana. As soluções sugeridas são: diminuir as porcentagens dos gases, mais altas para os países industrializados; e mais baixas para os em desenvolvimento; criar fundos financeiros para socorrer os países pobres e transferir tecnologias para os retardatários. Tudo isso no quadro de infindáveis discussões que emperram os consensos mínimos.

Estas medidas atacam apenas os sintomas. Há que se ir mais fundo, às causas que produzem tais gases prejudiciais à saúde de todos os viventes e da própria Terra. Copenhague dar-se-ia a ocasião de se fazer com coragem um balanço de nossas práticas em relação com a natureza, com humildade reconhecer nossa responsabilidade e com sabedoria receitar o remédio adequado. Mas, não é isto que está previsto. A estratégia dominante é receitar aspirina para quem tem uma grave doença cardíaca ao invés de fazer um transplante.

Tem razão a Carta da Terra quando reza: “Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo… Isto requer uma mudança na mente e no coração“. É isso mesmo: não bastam remendos; precisamos recomeçar, quer dizer, encontrar uma forma diferente de habitar a Terra, de produzir e de consumir com uma mente cooperativa e um coração compassivo.

De saída, urge reconhecer: o problema em si não é a Terra, mas nossa relação para com ela. Ela viveu mais de quatro bilhões de anos sem nós e pode continuar tranquilamente sem nós. Nós não podemos viver sem a Terra, sem seus recursos e serviços. Temos que mudar. A alternativa à mudança é aceitar o risco de nossa própria destruição e de uma terrível devastação da biodiversidade.

Qual é a causa? É o sonho de buscar a felicidade que se alcança pela acumulação de riqueza material e pelo progresso sem fim, usando para isso a ciência e a técnica com as quais se pode explorar de forma ilimitada todos os recursos da Terra. Essa felicidade é buscada individualmente, entrando em competição uns com os outros, favorecendo assim o egoísmo, a ambição e a falta de solidariedade.

Nesta competição os fracos são vitimas daquilo que Darwin chama de seleção natural. Só os que melhor se adaptam, merecem sobreviver, os demais são, naturalmente, selecionados e condenados a desaparecer.

Durante séculos predominou este sonho ilusório, fazendo poucos ricos de um lado e muitos pobres do outro à custa de uma espantosa devastação da natureza.

Raramente se colocou a questão: pode uma Terra finita suportar um projeto infinito? A resposta nos vem sendo dada pela própria Terra. Ela não consegue, sozinha, repor o que se extraiu dela; perdeu seu equilíbrio interno por causa do caos que criamos em sua base físico-química e pela poluição atmosférica que a fez mudar de estado. A continuar por esse caminho, comprometeremos nosso futuro.

Que se poderia esperar de Copenhague? Apenas essa singela confissão: assim como estamos não podemos continuar. E um simples propósito: Vamos mudar de rumo. Ao invés da competição, a cooperação. Ao invés de progresso sem fim, a harmonia com os ritmos da Terra. No lugar do individualismo, a solidariedade generacional. Utopia? Sim, mas uma utopia necessária para garantir um porvir.

Para renovar o planeta

Marcelo Barros

Oficialmente, o 21 de setembro significa, no sul do mundo, o início da primavera, assim como no norte, o calor do verão se abranda e se entra no outono. Neste ano, são os povos indígenas que marcam para o inicio de outubro o que, nas culturas guarani e também quéchua, se chama de “minga” e que os brasileiros do Centro-oeste denominam de “mutirão” ou trabalho comunitário para salvar o planeta. Foi uma decisão tomada pelos índios e índias, representantes de diversos povos originários de todo o continente, no 9º Fórum Social Mundial em janeiro de 2009: realizar assembléias para articular estratégias de defesa do planeta, em vista da próxima Conferência Mundial sobre o Clima que se realizará em Copenhague, em dezembro deste ano.

A “Minga global por la Madre Tierra” que se realizará em Quito, se iniciará no 12 de outubro, dia que lembra a chegada de Colombo e suas caravelas ao Caribe, ao mesmo tempo que convoca a humanidade para possibilitar à terra uma nova primavera. Em sintonia com esta conferência, muitas outras ocorrerão por todo o continente. O projeto é propor formas das comunidades locais contribuírem para a defesa das florestas, assim como para a proteção dos rios e do ar. Os povos indígenas querem impedir que o Capitalismo continue destruindo a natureza, sob o pretexto de um progresso econômico que representa apenas lucro para uma elite minoritária de pessoas inconseqüentes.

No início da década de 60, o papa João XXIII propunha aos católicos uma oração que pedia a Deus uma nova primavera para a Igreja. Este rejuvenescimento eclesial começou a ocorrer com o Concílio ecumênico Vaticano II que, além dos bispos, reuniu representantes de outras confissões cristãs, para renovar a Igreja Católica e ajudá-la a se inserir no mundo moderno como irmã da humanidade e servidora da paz e da justiça. Este acontecimento que representou um forte início de renovação para a vida eclesial católica acabou repercutindo na teologia e na ação de muitas outras Igrejas cristãs que também viveram um bom processo de renovação interior e social.

No começo deste século XXI, uma nova primavera se anunciou não mais para as Igrejas e sim para toda a humanidade e para o planeta, através dos diversos fóruns sociais, internacionais e locais. Ao proclamar que “um novo mundo é possível”, pessoas originárias de todos os continentes e pertencentes às mais diferentes classes sociais e funções se comprometem em colaborar ativamente para que este caminho de renovação possa se abrir para as sociedades humanas, divididas por tantas injustiças e para a natureza, agredida e ameaçada de extinção.

Tanto as ações dos fóruns sociais, como do mutirão realizado pelas comunidades indígenas para salvar o planeta são atos proféticos porque se baseiam em ações comunitárias de base. Sabem que as iniciativas de governos e empresas para preservar o planeta são fundamentais, mas se estas não se inserem em um conjunto de cuidados cotidianos vividos por cada pessoa e comunidades locais, mesmo as melhores iniciativas públicas seriam como um edifício sem alicerce. Por isso, as comunidades indígenas comprometem a todos os seres humanos e não apenas a governantes, empresários e poderosos do mundo. Pedem que tratemos os animais e as plantas como seres vivos e dotados de sensibilidade e não apenas como mercadorias, propõem que nos relacionemos com respeito e compaixão para com cada ser da natureza, procurando nele contemplar uma companhia na comunidade da vida e não apenas um objeto a ser consumido.

Estas conferências e diálogos indígenas são atos proféticos ainda pelo fato de não se basearem apenas em princípios ideológicos e critérios técnicos, por mais importantes que estes sejam. São propostas que se inserem nas tradições espirituais da humanidade e propõem uma verdadeira espiritualidade ecológica que ultrapassa os limites de cada confissão religiosa e se abre a todos os caminhos espirituais e culturas. Um documento cristão do século II dizia: “Queres encontrar a Deus? Olha uma planta, ouve a voz de um animal, ou mesmo quando contemplas uma pedra, poderás descobrir que ali está presente o amor que te gerou”.