migrante

Denúncia – eleições e preconceito aos nordestinos

SPM – Serviço Pastoral dos Migrantes

Neste período eleitoral, onde a internet se mostrou um campo de batalha, sobretudo com a investida dos conservadores, mais uma vez, criminosamente, emergiu o preconceito aos nordestinos. Infelizmente muita gente, com mentalidade elitista, sem crítica social, estimulou o ódio, o separatismo e mesmo o racismo. As falas pelo twitter, blogs, chats, mostraram não apenas ignorância, mas preconceito e violência. O alerta foi repassado à sede do SPM por um de seus integrantes Pe. Valdiran dos Santos.

O caso mais grave se deu com a estudante de direito, Mayara que, atendendo ao chamado da campanha tucana, transformou a campanha numa guerra entre o que ela chamou de “gente limpinha” e a “massa fedida”, principalmente a que reside no Nordeste e “vive do Bolsa Família”. Ela fez tais agressões já na noite de domingo, logo após o anúncio da vitória de Dilma Roussef. Na cabeça da menina, ela não deve ter falado nada demais. Afinal, é isso que ela deve ouvir desde criança entre familiares e amigos. Após a polêmica desencadeada na internet, mais manifestações preconceituosas foram surgindo e sendo por outros, contestada.

Imagine-se que tipo de advogada será esta estudante de direito, cultivando preconceitos e discriminações. Não será novidade que ela acabe servindo a uma minoria privilegiada e jamais ao bem comum, à justiça social. É preciso um profundo trabalho de conscientização e denúncia para que esta situação não se naturalize e vire rotina.

Em resposta a esse fato, uma historiadora assim se manifestou:

“A educação, em São Paulo, realmente parece ser muito deficitária. Estereótipos e pensamentos do século XIX ainda são muito presente em grande parte dos brasileiros, mas São Paulo vem se destacando como algo inimaginável. O comentário da moça é a prova disso. São criadas imagens e estas se repercutem ainda com tons preconceituosos. Só resta agora que grupos neonazistas aumentem seus números de participantes. Isso é deplorável e vergonhoso num país que se diz respeitador de diferenças, principalmente porque é um país mestiço em sua cor e muito diversificado em sua cultura.”

LEI Nº 7.716, DE 5 DE JANEIRO DE 1989

Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.” (nova redação dada pela Lei nº 9.459, de 13 de maio de 1997).

NOTA DE REPÚDIO

O Serviço Pastoral dos Migrantes vem a público manifestar seu veemente repúdio ante as atitudes da jovem estudante de direito Mayara Petruso e seus pares por terem produzido e divulgado pela internet mensagens carregadas de discriminação, preconceito racial, incitação ao homicídio e outras ações violentas contra o povo nordestino, por ter exercido seu direito de votar livremente na Presidente eleita Dilma Roussef. Tais atitudes intempestivas ferem frontalmente a nossa Constituição que garante e defende a igualdade de direitos a todos os brasileiros e brasileiras.

Exigimos das autoridades competentes a apuração e punição contra quem anda inundando a rede de internet com todo tipo de mensagens ofensivas contra quem quer que seja. Estes atos gravíssimos, porque abomináveis, para que eles não venham mais manchar a alma da rica diversidade cultural do povo brasileiro.

Pe. Antonio Garcia Peres Neto
Secretário Executivo

São Paulo, 05 de novembro de 2010.

Migrantes, vocês são uma carta de cristo

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Os migrantes, em suas idas e vindas, escrevem uma carta sobre o mapa-múndi, uma carta que de um modo ou de outro fica para a história. Não a escrevem tanto com as mãos ou com a cabeça, mas com os pés. Pés que carregam sonhos e projetos, que tropeçam e se ferem nas pedras do caminho, pés que deixam pegadas vivas em todas as estradas e em todas as direções.

Trata-se de uma carta marcada por ambigüidades e contradições. Suas linhas tortuosas e imprecisas traçam uma trajetória cada vez mais complexa. Dores e esperanças se mesclam na mensagem deixada pelos fluxos migratórios. Os passos dos migrantes, com seus anseios e decepções, convertem-se em letras, palavras e páginas – carta a ser permanentemente decifrada pelos especialistas da mobilidade humana.

A leitura dessa carta, seja do ponto de vista sócio-econômico ou político-cultural, seja do ponto de vista religioso, revela luzes e sombras. Entre as sombras, destacam-se as profundas assimetrias que dividem continentes, regiões e países, as injustiças e desequilíbrios sociais que levam milhões de pessoas a buscar cidadania fora da própria terra, a violência em todas as suas formas e graus, a luta tenaz e às vezes vã pela sobrevivência. Tudo isso desenraiza, desloca e põe em marcha multidões cada vez mais numerosas e em condições quase sempre precárias.

Quanto às luzes, elas brotam antes de tudo do interior mesmo de cada migrante, de cada movimento migratório, de cada povo que se move a faz mover a história. Os deslocamentos humanos levam nas asas do vento sementes de vida. Nesse vaivém intenso e contínuo misturam-se resistência, teimosia, combate contra muros visíveis e invisíveis e busca de uma pátria mais acolhedora. Nesta perspectiva, não é difícil parafrasear Euclides da Cunha: “o migrante é antes de tudo um forte”!

O apóstolo Paulo, por sua vez, na Segunda Carta aos Coríntios, nos oferece uma luz de como ler por um outro prisma essas cartas que os migrantes escrevem com seus sonhos e seus pés. Diz ele aos cristãos de Corinto: “De fato, é evidente que vocês são uma carta de Cristo, da qual nós fomos o instrumento; carta escrita não com tinta, mas nas tábuas de carne do coração de vocês” (2Cor 3, 1-6).

Embora a mensagem de Paulo não esteja dirigida aos migrantes, não custa dar-se conta de como estes, no mapa intrincado de suas trajetórias, vão escrevendo e reescrevendo os valores de suas expressões culturais e religiosas. Constituem, por isso, não somente uma carta de denúncia sobre uma sociedade desigual e excludente, mas também uma oportunidade de evangelização, dado o intercâmbio de vidas e valores. Como diz o Documento de Aparecida, “os migrantes devem ser acompanhados pastoralmente por suas Igrejas de origem e estimulados a se fazerem discípulos e missionários nas terras e comunidades que os acolhem, compartilhando com eles as riquezas de sua fé e de suas tradições religiosas” (Doc. Aparecida, Nº 415).

Verdadeiros profetas, os migrantes criam recriam encruzilhadas onde encontram e reencontram vivos testemunhos de superação. Nos novos areópagos modernos ou pós-modernos, eles são porta-vozes de um Deus sempre desconhecido e de Quem sempre teremos sede. Se, por uma parte, são vítimas que fogem de situações adversas, por outra, são protagonistas que buscam cidadania digna e justa. Protótipos da condição peregrina de toda a trajetória humana sobre a face da terra. Daí que o campo da mobilidade humana vem sendo considerado, progressivamente, como um lugar teológico privilegiado.